perspectivas

Quinta-feira, 20 Março 2014

A coincidência entre a “política de pequenos passos” de Gramsci, o “progresso da opinião pública” do liberalismo, e um novo totalitarismo à moda de Giovanni Gentile

 

Quando o “casamento” gay foi legalizado em Portugal, ficou naquela altura claro, na assembleia da república e entre todos os deputados, que a adopção de crianças por pares de invertidos estaria fora de questão.

Essa foi, aliás, a razão por que uma grande parte da população portuguesa anuiu ou concordou com o “casamento” gay. Ou seja, ficou claro, no espírito dos portugueses em geral, que o “casamento” gay não implicaria a adopção de crianças por pares de invertidos.

DanielCardoso docente universitário webMas não passou muito tempo depois da legalização do “casamento” gay e o radicalismo político voltou à carga com a adopção de crianças por pares de invertidos. O argumento dos radicais é o de que o “casamento” gay implica a adopção de crianças por pares de invertidos como um “direito” inerente ao casamento. Mas não foi isso que ficou patente e claro aquando da legalização do “casamento” gay.

Este argumento — segundo o qual o “casamento” gay implica a adopção de crianças por pares de invertidos como um “direito” inerente ao casamento — vem, mais uma vez, a ser esgrimido por um docente universitário (na imagem), de seu nome Daniel Cardoso que, em minha opinião, deveria estar a cavar batatas, em vez de estar a lobotomizar os seus alunos.

Para os radicais, em política vale tudo. Se as condições políticas objectivas em que o “casamento” gay foi legalizado implicavam a não adopção de crianças por pares de invertidos, faz-se tábua rasa de quaisquer compromissos anteriormente assumidos. Estamos perante a política gramsciana dos “pequenos passos”, em que não existem, em política, compromissos nem princípios éticos que possam ser respeitados. Acima de tudo, a vontade do povo nada conta; e, se necessário, muda-se um povo inteiro para que a realidade possa coincidir com a “lógica de uma ideia”.

Por outro lado, a política gramsciana dos “pequenos passos” tem a sua correspondência ou equivalência (neo)liberal no conceito de “progresso da opinião pública”. Ora, é este conceito — o do “progresso da opinião pública” — que o “docente” universitário, de trançadeira e bandolete, chama de “moderado”; e por ser “moderado”, torna-se para ele insuportável.

A pequena diferença entre os dois conceitos — o da política gramsciana dos “pequenos passos”, por um lado, e o conceito liberal de “progresso da opinião pública”, por outro lado — é apenas formal, porque os conteúdos são idênticos.

A primeira forma impõe ao povo, de uma forma radical e através da força bruta do Estado, a lógica de uma ideia (uma ideologia política); a segunda forma pretende alterar a cultura antropológica através de uma pseudo-persuasão que depende da imposição, transversal à sociedade, de uma estimulação contraditória que implique uma dissonância cognitiva que possibilite a legitimação de qualquer engenharia social.


Ambos os conceitos têm algo a ver com a visão fascista do italiano Giovanni Gentile, embora com pequenas nuances. Repare-se que a noção de “direito”, segundo o politicamente correcto (na esquerda radical e na direita neoliberal) tem muito a ver com o conceito de “subjectivismo absoluto”, do fascista Gentile.

O “direito”, passou a ser hoje a afirmação absolutista de qualquer subjectividade: a diferença é que Gentile defendia a ideia segundo a qual “a moral determina o direito”, ao passo que o consenso político actual (da esquerda à direita) é o de que “o direito determina a moral” — mas, tanto Gentile como a política correcta do actual Zeitgeist partem do princípio de que o direito e a moral, por um lado, e o Estado e o indivíduo, por outro lado, se identificam “na actualidade do querer volitivo e do sujeito pensante”.

O fascista Gentile rejeitava a distinção entre o privado e público. Ou seja, tudo o que é do foro privado tem que ser reconhecido publicamente, através da legislação que reconheça, como sendo pública, a vida privada do “sujeito pensante”. Segundo o fascista Gentile, o “direito do sujeito pensante” depende desta erosão entre público e privado, transformando-se em lei quaisquer direitos do “sujeito pensante” — embora Gentile parta da moral para definir o “direito do sujeito pensante”, e os novos fascistas partem do “direito do sujeito pensante” (direito subjectivo) para definir a moral (qualquer que seja).

“No Estado, que é própria vontade do indivíduo enquanto universal e absoluto, o indivíduo absorve o Estado, e que a autoridade (a legítima autoridade), não podendo ser expressa, aliás, senão pela actualidade do querer individual, se reduz integralmente à liberdade.” 1

A verdadeira democracia seria, não a de querer limitar o Estado, mas a “que não se põe limites ao Estado que se desenvolve na intimidade do indivíduo e lhe confere a força e o direito na sua absoluta universalidade”.

Em conclusão, podemos afirmar que aquilo a que hoje se chama de “liberalismo”, mais não é do que um processo mais suave de cumprir o ideário de um novo fascismo que se vai afirmando. E este novo fascismo faz dos “direitos humanos”, entendidos na sua absoluta subjectividade, uma política em si mesma.

Ficheiro PDF do texto do “docente” universitário de trançadeira e bandolete, que deveria estar a cavar batatas.

Nota
1. Giovanni Gentile, citado na “História da Filosofia” de Nicola Abbagnano, Tomo XII, § 715

Terça-feira, 11 Março 2014

Os atrasados mentais do Partido Social Democrata de Passos Coelho

Filed under: Esta gente vota — orlando braga @ 11:40 am
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A ideia segundo a qual a dívida pública portuguesa — porque é disso que estamos a falar —, que está acima de 120% do PIB português, é detida pela Banca nacional, só pode vir de um mentecapto. Esta gente insulta-nos a inteligência todos os dias.

Mesmo a parte da dívida pública que esteja “garantida” pela Banca nacional é, de facto, um “penhor” da Banca europeia e dos agentes financeiros internacionais. Ou seja, a Banca nacional assume o papel do “cobrador de fraque”.

Afirmar que economistas de nomeada, como por exemplo Bagão Félix, ou intelectuais ímpares como Adriano Moreira, são de esquerda e estúpidos — só pode vir de um atrasado mental.

Sábado, 22 Fevereiro 2014

O neoliberalismo libertário (tal como o existencialismo de Ayn Rand) foge com o rabo à seringa

 

Quando Ayn Rand procurou dar um nome à sua teoria filosófica, deu-lhe o nome de Objectivismo porque, segundo ela, o termo Existencialismo — que ela preferiria para rotular a sua teoria — já estava tomado e ocupado. Ou seja, Ayn Rand procurava uma originalidade absoluta.

O neoliberalismo libertário de Hayek despreza os princípios do liberalismo clássico e privilegia absolutamente as comissões e bónus provenientes dos negócios.

O que Ayn Rand talvez desconhecesse ou não quis saber, é que o termo Existencialismo é multifacetado. Por exemplo, existe o Existencialismo cristão que vai de Dostoievski e Kierkegaard a Paul Tillich, passando por Karl Jaspers; existe o Existencialismo ateu de Merleau-Ponty ou Jean-Paul Sartre; e existe um Existencialismo pagão de Heidegger ou Gadamer. Portanto, quando falamos de Existencialismo, entendido como uma categoria de mundividência, temos que saber qual a sub-categoria que a caracteriza, para além da especificidade do pensamento individual do autor.

Ou seja, em vez de Objectivismo, Ayn Rand poderia perfeitamente ter optado pelo termo “Existencialismo libertário”, que estaria de facto mais de acordo com as características da sua teoria.

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Domingo, 16 Fevereiro 2014

José Monir Nasser e o neoliberalismo

 

1/ Soube deste vídeo patrocinado pelo MSM através deste comentário neste outro verbete de que aconselho a leitura. Nesse vídeo, um tal José Monir Nasser diz que “o neoliberalismo é uma espécie de disfarce que o socialismo usa para fazer de conta de que ele não existe mais” (sic). Estamos aqui perante uma inversão revolucionária dos termos da realidade e perante um maniqueísmo político que é característica do movimento revolucionário em geral.

O Neoliberalismo é uma ideologia que coloca a absolutização do subjectivismo ao serviço da economia política.

A proposição: “o neoliberalismo é uma espécie de disfarce que o socialismo usa para fazer de conta de que ele não existe mais”, assemelha-se às definições estalinistas do inimigo externo (recusa total de uma auto-crítica efectiva); o próprio Karl Marx inventou um termo: o de “mistificação”, que mais tarde foi usado e abusado por Lenine e Estaline, e ainda hoje os movimentos comunistas utilizam essa palavra-chave.

Portanto, para o actual libertarismo económico ou neoliberalismo, “o neoliberalismo não existe de facto e é uma mistificação socialista”. A estratégia política de propaganda neoliberal é semelhante à marxista/leninista/estalinista.

2/ qualquer ideologia política tem que partir de uma determinada visão do mundo; e essa visão ou concepção do mundo (mundividência) contém em si mesma valores próprios que enformam uma determinada ética; e esses valores éticos acabam por determinar a forma como a economia e a política são, por sua vez, concebidas.

Por exemplo, as ideias de Karl Marx — a que convencionamos chamar de “marxismo” para resumi-las, sintetizá-las e torná-las inteligíveis no discurso corrente — partem de uma mundividência materialista (materialismo dialéctico), ou seja, os valores (éticos) subsumidos pela teoria económica de Karl Marx têm na sua base uma ética cujos valores negam a realidade da consciência senão como um epifenómeno da matéria. Vemos, portanto, que não é possível separar o marxismo da sua mundividência materialista — ou seja, não é possível separar uma qualquer ideologia ou religião política de determinados valores que enformam a sua mundividência e/ou a sua ética.

3/ vamos resumir: uma qualquer ideologia política, com consequência na economia e na cultura, parte sempre de determinados valores que definem uma mundividência e uma ética. A origem de uma qualquer ideologia política é sempre filosófica (a ética faz parte da filosofia).

4/ chegados aqui, vamos perguntar: ¿será que o neoliberalismo é “uma espécie de disfarce que o socialismo usa para fazer de conta de que ele não existe mais”?

Em primeiro lugar, repare-se que o José Monir Nasser falou (no vídeo) em von Mises, mas não falou de Hayek. E também não falou na escola escocesa do liberalismo de finais século XVIII e princípios do século XIX, o que também é sintoma de uma tentativa de esconder a realidade e de enganar os crédulos.


Pergunta:

¿Qual foi a mundividência — os valores que definem a sua ética — de que partiu Hayek para chegar à sua teoria de economia política?

Resposta:

Hayek baseou a sua mundividência e os seus valores (ética) no cepticismo moral de David Hume e no subjectivismo ético absoluto do Marginalismo.

Basta ler Hayek para constatar aquilo que é uma evidência dos seus fundamentos: David Hume + Marginalismo. O próprio Hayek cita essas duas fontes da sua teoria económica que se transformou em doutrina, e que o José Monir Nasser (e outros que tais) transformou em dogma.


Portanto, já encontramos a mundividência de base daquilo a que convencionamos chamar de “neoliberalismo”: é Hayek, e não von Mises. Aliás, Hayek e von Mises divergiram muito entre si (e estiveram de relações pessoais cortadas), porque as suas mundividências (as suas éticas e os seus valores) eram muito diferentes.

O Neoliberalismo é uma ideologia que coloca a absolutização do subjectivismo ao serviço da economia política. (ver link).

5/ o José Monir Nasser pode enganar os estúpidos, mas não deve fazê-lo.

Segunda-feira, 13 Janeiro 2014

Os tradicionalistas portugueses deveriam ler Durkheim

Filed under: Política — orlando braga @ 7:00 pm
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Durkheim é fraco em ética (devido à influência do Positivismo) mas muito bom em filosofia política. De uma determinada forma, o seu pensamento político identifica-se com o de Alexis de Tocqueville. Um livro de leitura obrigatória é “A Divisão Social do Trabalho” (Editorial Presença, 1977), e outro é “Solidarity” (“Solidarité”, no título original em francês), e que penso que não foi publicado em Portugal. Se não encontrarem estes livros à venda, procurem-no nos alfarrabistas de Lisboa e Porto.

Durkheim é um anti-liberal mas, simultaneamente, é contra as doutrinas que defendem o Poder do Estado. Ora, isto faz dele um “conservador” no sentido actual do termo, por um lado, e, por outro lado, vai ao encontro do pensamento político de Tocqueville. A ideia propalada por alguns esquerdistas segundo a qual Durkheim foi um socialista, é totalmente errada: podemos dizer que houve quem se aproveitasse do seu pensamento para elaborar em uma qualquer forma de socialismo teórico (por exemplo, o Solidarismo de Léon Bourgeois, foi buscar alguma coisa a Durkheim), mas o anti-liberalismo de Durkheim manifestava-se também contra o centralismo estatal que é uma característica do socialismo (e também do nacional socialismo alemão, que mais não é do que uma forma de socialismo).

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Sexta-feira, 10 Janeiro 2014

O actual poder político (de Passos Coelho) conhece o futuro

 

“Colocar novos contra velhos, empregados contra desempregados, trabalhadores privados contra funcionários públicos, reformados da Segurança Social contra pensionistas da CGA, sindicalizados contra “trabalhadores”, grevistas contra a “população”, e muitas outras variantes das mesmas dicotomias, tem tido um papel central no discurso governamental, que encontra na “equidade” um dos mais fortes elementos de legitimação.

Se se parar para pensar, fora dos quadros das “evidências” interessadas, verifica-se até que ponto uma espécie de neomalthusianismo grosseiro reduz todas estas dicotomias a inevitabilidades a projecções sobre o “futuro” muito simplistas e reducionistas e que recusam muitos outros factores que deviam entrar na avaliação dessa coisa mais que improvável que é o “futuro”.

À substituição da política em democracia, com o seu complexo processo de expectativas e avaliações, traduzidas pelo voto, ameaçando, como dizem os “ajustadores”, pela “politiquice”, ou seja, as eleições, a “sustentabilidade” das soluções perfeitas de 15 ou 20 anos de “austeridade”, soma-se a completa falta de pensamento sobre o modo como as sociedades funcionam, que o “economês”, que é má economia, não compreende.”

2014, O COMBATE PELAS PALAVRAS

Passos Coelho (e os seus acólitos) é tão revolucionário quanto é um qualquer radical primário porque pretende submeter o real ao racional, como se o universo inteiro pudesse caber dentro de um laboratório. Para ele, é a realidade que se tem que submeter à ideologia, e não as ideias que têm que se submeter ao real.

Não se trata de empirismo, em que os factos são analisados cientificamente (sem qualquer consideração a priori), mas antes de uma forma de pensamento circular, em que as premissas do raciocínio são as que permitam chegar às conclusões que se pretendiam antecipadamente, e por forma a que toda a sociedade possa caber dentro de uma folha de Excel. É uma espécie de Pragmatismo, em que a acção se justifica eticamente pelo desejo subjectivo.

A certeza do futuro é a cereja no topo do bolo passista e uma das características da mente revolucionária do actual poder 1 : um determinado futuro é uma certeza e o passado pode ser mudado (desconstrução).

Outra característica da mente revolucionária é a inversão dos valores da ética e da moral:

Em função da crença num futuro dado como certo e determinado, em direcção ao qual a sociedade caminha sem qualquer possibilidade de desvio, a mente revolucionária passista acredita que esse futuro inexorável será isento dos erros do passado. Por isso, em função desse futuro certo e dado como adquirido, todos os meios utilizados para o atingir estão, à partida, justificados. Trata-se de uma ética teleológica: os fins justificam todos os meios possíveis.

E, finalmente a inversão do sujeito e do objecto: a culpa dos actos de punição austeritária é das próprias vítimas (os reformados, por exemplo), porque estas não compreenderam as noções revolucionárias que levariam ao inexorável futuro perfeito e destituído dos erros do passado. A culpa dos cortes nas pensões de reforma é dos próprios reformados, e Passos Coelho é apenas um executor providencial da construção desse futuro do “melhor Portugal que está para vir”.

Nota
1. segundo Olavo de Carvalho

Terça-feira, 3 Dezembro 2013

¿O que é o “neoliberalismo”?

 

Quando se fala em “neoliberalismo”, geralmente há duas reacções: os que dizem que o conceito de “neoliberalismo” não existe, e os que dizem que o conceito existe, e que o capitalismo é o neoliberalismo (reduzem o capitalismo ao neoliberalismo). A razão por que isto acontece é que o neoliberalismo é um fenómeno relativamente recente, e todos os fenómenos sociais, culturais e económicos recentes são difíceis de categorizar.

A definição de neoliberalismo que eu encontrei é a seguinte:

O neoliberalismo é um estado de ausência (total ou progressiva) de regulação legal da actividade do capitalismo; é a alienação (total ou progressiva) do Estado de Direito e a sua submissão às leis do mercado.

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Segunda-feira, 2 Dezembro 2013

O “Alemão”

Filed under: Coelhismo — orlando braga @ 5:13 pm
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Quinta-feira, 7 Novembro 2013

Isto deveria ser proibido por lei

Filed under: Esta gente vota — orlando braga @ 6:18 am
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funcionaria nao remunerada web

Se uma empresa não se aguenta sem trabalho escravo, que feche as portas!

 

Quarta-feira, 16 Outubro 2013

A espiral da III república

 

A espiral não tem fim: baixam os salários, baixa o consumo, baixa a colecta dos impostos, cortam na Saúde, cortam nos salários, baixa o consumo, baixa a colecta dos impostos, cortam na Educação, cortam nos salários, baixa o consumo, baixa a colecta dos impostos, cortam na Defesa Nacional, cortam nos salários, baixa o consumo, baixa a colecta dos impostos, cortam no dinheiro para as autarquias, cortam nos salários, baixa o consumo, baixa a colecta dos impostos, cortam na manutenção de estradas, cortam nos salários, baixa o consumo, baixa a colecta dos impostos, aumentam o preço da energia, baixa o consumo, baixa a colecta dos impostos, baixam os salários, baixa a colecta dos impostos, vende-se o país a retalho, baixa o investimento do Estado, baixa o consumo, baixa a colecta dos impostos, baixam os salários…

e… temos depois um outro Salazar outra vez.

espiral republicana

Segunda-feira, 14 Outubro 2013

A dívida pública e os Bancos

Filed under: A vida custa — orlando braga @ 5:17 pm
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Sexta-feira, 27 Setembro 2013

O novo igualitarismo: o da “convergência”!

 

Hoje comprei o Jornal de Negócios e li o editorial de Pedro Santos Guerreiro, com o título “Os Inadaptados”. O artigo ataca implicitamente o Tribunal Constitucional sem dar explicitamente razão a Passos Coelho: é aquilo a que podemos chamar de “ataque implicitamente explícito”.

O que deixa baralhado é a novilíngua politicamente correcta neoliberal: termos como “ajustamento”, “imparidades”, “alavancagem”, etc., têm um estatuto quase esotérico. Mas o termo “convergência” é o mais cínico de todos. Escreve o Pedro Santos Guerreiro:

«Estes chumbos do [Tribunal] Constitucional agravam o clima político às portas do Orçamento [de Estado], quando os olhos estavam nos diplomas do horário da função pública para as 40 horas semanais e no corte das pensões [de reformas] do Estado (convergência entre público e privado).»

Na novilíngua neoliberal, “convergência” significa “nivelar por baixo”, eliminando a classe média.

Segundo os neoliberais, precisamos de um “ajustamento” que reduza as “imparidades” e que permita uma “alavancagem” em direcção à “convergência”… para a merda!

A sociedade “converge” quase toda para a pobreza, e à semelhança do que acontecia nos países comunistas da Europa de Leste, a sociedade fica dividida entre uma pequena elite de sibaritas que tem direito a Datchas e a outras sinecuras, por um lado, e por outro lado a massa enorme e inerme dos novos pobres, todos iguais na pobreza. É este o novo igualitarismo que Passos Coelho defende, aquilo a que eu chamei de sinificação da sociedade: um capitalismo que destrói a classe média é uma forma de fascismo.

Chegará o momento em que os neoliberais defenderão a “convergência” entre Portugal e o Burkina Fasso, em nome da “descida dos custos de trabalho por unidade produzida”.

E Pedro Santos Guerreiro continua:

«O FMI quer ainda mais flexibilização, despedimento ainda mais fácil, descida do salário mínimo, subsidio de desemprego mais curto, empregos transitórios e baratos para jovens. Não é masoquismo (1) , é o entendimento de que o desemprego só se ataca pela quantidade (mais desempregados) ou pelo preço (menos salários). E que portanto é preferível mais gente ganhar menos do que haver mais desempregados

Esta retórica parte do princípio (ilusório e falacioso) segundo o qual se os salários baixarem, o desemprego diminui automaticamente. Se isto fosse verdade, o Burkina Fasso não teria desempregados. Esta é a retórica enganosa de Passos Coelho. Ou seja, segundo os neoliberais, precisamos de um “ajustamento” que reduza as “imparidades” e que permita uma “alavancagem” em direcção à “convergência”… para a merda!

Paradoxalmente, é hoje o neoliberal Passos Coelho que defende uma nova forma “sovietizada” ou “chinezada” de igualitarismo: a esmagadora maioria do povo “converge” para a merda. Em vez de “classe média”, vamos ter uma “classe merda”.

(1) Pois não é masoquismo, não! O que poderia ser era sadismo!

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