perspectivas

Sexta-feira, 28 Agosto 2015

Ludwig Krippahl, a ciência e a moral — Parte II

Filed under: A vida custa,Ciência,Esta gente vota — O. Braga @ 8:26 pm
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Se eu vejo alguém dar um pontapé num cão e este gane, determinar se o cão sofreu ou não com o pontapé não é um problema científico: é uma questão metafísica e de intuição. A intuição diz-me o seguinte: se eu levar com um pontapé, também sofro; portanto, aplica-se aqui a regra de ouro: não faças aos outros o que não queres que te façam. A regra de ouro não tem nada a ver com a ciência: pertence à ética que se liga intrinsecamente à metafísica, que são partes da filosofia.

Mas o Ludwig Krippahl diz que não: diz que determinar se o cão sofreu ou não com o pontapé, é um problema científico. Já lá iremos; mas antes vamos desmontar um sofisma do Ludwig Krippahl: diz ele:

Na matemática, na lógica e na metafísica podemos estipular verdades por definição. Por exemplo, na álgebra da escola primária é verdade que 1+1=2, na álgebra de Boole a verdade é que 1+1=1 e nada nos impede de inventar uma álgebra na qual 1+1=3”.

O que o Ludwig Krippahl se refere é à chamada “álgebra da lógica”, expressão criada por volta de 1850 pelo matemático Boole para designar a sua própria construção da lógica dita “tradicional” sob a forma de símbolos matemáticos que a aproximam de um “cálculo de classes”, ou seja, de uma série de manipulações que obedecem a princípios de extensão ou de redução dos diferentes conceitos. A chamada “álgebra da lógica” de Boole foi mais tarde englobada naquilo a que chamamos hoje “logística”.

“Logística” é o termo adoptado no princípio do século XX para designar o conjunto de processos e sistemas que fundam a lógica como coerência de símbolos sujeitos a um número de regras fixadas e decididas livremente, sem referência aos hábitos intuitivos de significação nela referenciados e igualmente matematizáveis. A logística quer ser também o “jogo da escrita” comum às diversas ciências, incluindo uma lógica diferente da lógica “tradicional” — mas nada ainda provou que esta lógica “nova” não se reduz àquele “jogo da escrita”, de facto continuamente obrigado a ir buscar o fundamento dos seus exercícios à lógica dita “anterior” ou à experiência empírica.

(more…)

Quinta-feira, 27 Agosto 2015

O Ludwig Krippahl confunde noção e conceito

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 11:24 am
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“Braga alega também que «as pessoas de Esquerda — como é o caso do Ludwig Krippahl — têm horror às definições, porque as definições limitam o poder fáctico da ideologia política.» Mas eu não tenho horror às definições. Até aceito várias definições de pessoa. Definir termos é necessário para comunicar ideias. Mas, desde que a definição seja clara e não crie problemas desnecessários, está cumprido esse objectivo. Essa é uma das razões pelas quais rejeito que se fundamente a ética numa definição de pessoa. Mas há mais, como Braga, inadvertidamente, demonstra”.

Ludwig Krippahl

O Ludwig Krippahl diz que não tem horror às definições; pelo contrário, diz ele, até aceita várias definições de uma mesma coisa.

A definição é o enunciado das características que permitem delimitar ou reconhecer um conjunto qualquer de coisas, de seres, ou de qualidades. A definição de uma coisa estabelece a noção dessa coisa. Por exemplo, a noção de ser humano: “um animal bípede, racional, dotado de linguagem e de inteligência”.

Para o Ludwig Krippahl há várias noções de “pessoa”, o que significa que não existe uma definição precisa de “pessoa”: por exemplo, podemos até, em tese, dizer que a noção de “pessoa” inclui a categoria dos canídeos.

Ou seja, segundo o Ludwig Krippahl, se defendermos a tese segundo a qual existem 10.000 noções de pessoa, isso não significa que tenhamos horror às definições: pelo contrário, se aceitarmos que existem 10.000 definições de pessoa, somos a favor das definições.

O Ludwig Krippahl confunde “conceito”, por um lado, com “noção” (definição), por outro lado.

O conceito de “pessoa” pode incluir todas as divagações ideológicas do Ludwig Krippahl, a ponto de ele escrever uma biblioteca inteira sobre o assunto. Mas a noção de “pessoa” só pode ser essencialmente uma: o que pode acontecer é que essa noção esteja errada.

Quarta-feira, 26 Agosto 2015

Ludwig Krippahl, a ciência e a moral — Parte I

Filed under: A vida custa,Ciência,Esta gente vota — O. Braga @ 10:27 am
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Eu faço a seguinte afirmação: “Os dinossauros extinguiram-se há 65 milhões de anos”. Ou ainda outra: “o universo formou-se há 13,5 mil milhões de anos (luz)”. Estas afirmações são científicas. ¿Mas estarão correctas a 100%? O Ludwig Krippahl diz que sim:

“As mesmas equações que usamos para determinar onde a Lua vai estar na próxima semana também servem para saber onde esteve na semana passada e todos os dados que a ciência usa são históricos, seja o resultado da experiência de ontem, seja a luz que saiu de uma galáxia distante há dez mil milhões de anos”.

Karl Popper, que comparado com o Ludwig Krippahl é uma merda, escreveu o seguinte:

“As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecer para sempre conjecturas ou hipóteses”.

Como é evidente, a maioria das pessoas acredita mais em Ludwig Krippahl do que em Karl Popper.


Vamos ver, por exemplo, as leis da gravidade: primeiro, temos que nos abstrair de alguns factores, como por exemplo a forma e a cor dos objectos, ou a resistência ao ar. Ou seja, abstraímo-nos de qualquer caso real na natureza observável na Terra, simplificando consideravelmente as condições. Uma vez compreendidas as condições no vácuo, elas permitem então (juntamente com outros princípios) a compreensão da queda dos aviões, ou das folhas, por exemplo.

folhas-outonoImaginemos uma floresta de folhagem caduca, no Outono. Com o vento, as folhas vão caindo. A ciência pode tentar compreender e prever o local da queda das folhas. O Ludwig Krippahl diria o seguinte: “É errado alguém dizer que nunca a ciência compreenderá a combinação da queda das centenas de milhares de folhas”. Ele tem razão por um lado, mas não a tem por outro lado.

Em princípio, a Física tem as folhas em redemoinho sob controlo, ou seja, o processo pode ser compreendido como um caso concreto (nominalismo) de um pequeno número de princípios gerais. Mas, por outro lado, precisamos de ter em conta o facto de esta compreensão fundamental não poder impedir que um físico não possa descrever a trajectória de uma folha, senão de uma forma aproximada. No entanto, esta forma aproximada é tão geral que também é possível prever como as folhas cairiam na Lua.

Em suma: para que seja possível formular leis a partir das observações científicas, é preciso simplificar e criar modelos que constituam uma abstracção da complexidade da realidade. Os modelos, todavia, constituem aproximações à verdade do fenómeno a investigar, sem que possam, como é evidente, chegar alguma vez a compreendê-la completamente. Por isso é que dizemos que “a ciência não explica: em vez disso, descreve”.

Portanto, ficou aqui reduzida ao absurdo a ideia do Ludwig Krippahl segundo a qual “a ciência pode determinar o que é historicamente verdadeiro”.


“A mente humana é constituída de tal forma que o erro e a mentira podem sempre ser expressos de maneira mais sucinta do que a sua refutação. Uma única palavra falsa requer muitas para ser desmentida.” — Olavo de Carvalho

Em uma segunda parte, falarei do resto da treta do Ludwig Krippahl.

Quinta-feira, 20 Agosto 2015

O prevenção em relação às parafilias é um “horror” — diz Isabel Moreira

 

Tudo o que seja estigma social em relação aos desvios sexuais — por exemplo, a pedofilia — é considerado pela deputada lésbica do Partido Socialista como um “horror”; a prevenção das consequências sociais e culturais da pedofilia “é um horror”, segundo a lésbica Isabel Moreira.

 

isabel-moreira-jc-web

Sexta-feira, 14 Agosto 2015

Os ateus e os calvinistas: um problema idêntico

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 3:37 pm
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Recebi o seguinte comentário de um “cristão” de uma seita herdeira do Calvinismo:

“Animal quadrúpede, o que eu disse foi que o materialismo veio antes do esquerdismo, e estava presente, por exemplo, no atomismo da Índia antiga e em Demócrito; podemos concluir com isso que essa perspectiva está presente em diversas culturas em maior ou menor grau; o materialismo que herdamos do século 21 é herança da Igreja Católica (principalmente pós Renascimento), quando a Igreja deu às costas para Mística Cristã; não tenha o trabalho de publicar o meu comentário, porque não lerei mais seu blog. Boa sorte com suas fantasias.”


“Em verdade, nada sabemos de nada, pois a opinião vem de fora para cada qual. É preciso conhecer o Homem com este critério: que a verdade fica longe dele.” — Demócrito 1


Definição:

Dizemos do “materialismo” que é o conjunto de doutrinas que não admitem outra realidade para além da matéria, sendo o pensamento e o espírito modalidades ou qualidades da matéria.

A palavra “materialismo” é equívoca: é muitas vezes utilizada com intenção polémica e em sentido pejorativo. Por exemplo, algumas seitas cristãs e a seita católica do “papa Francisco” dizem que “os ricos são materialistas apenas porque têm dinheiro”. A riqueza é identificada com o “materialismo”. Jesus Cristo nunca disse que era impossível a um rico entrar no Reino dos Céus: disse apenas que era difícil.

Dizer que Demócrito e/ou os atomistas eram “materialistas”, no sentido moderno, é um abuso, e revela a completa ignorância de quem tirou um cursinho online de filosofia e já julga que sabe tudo.

Os que mais se aproximavam do “materialismo” (no sentido moderno), na Grécia Antiga, foram os epicuristas 2. Quanto muito, podemos dizer que os atomistas (tal como Aristóteles) foram os precursores da ciência e do empirismo científico, o que não significa que tenham sido “materialistas”. Por exemplo, John Locke foi empirista e não consta que fosse materialista — no sentido moderno, “materialismo” identifica-se com “ateísmo”; nem Rousseau foi ateu e/ou materialista; e Voltaire era deísta, o que não é a mesma coisa que “materialista”. Nem mesmo Diderot se pode considerar propriamente materialista, porque defendeu um panteísmo lírico.

Para além dos epicuristas — que não eram propriamente “materialistas” no sentido moderno —, o materialismo propriamente dito surgiu na Idade Moderna. Podemos falar de materialismo em Helvetius, D’Holbach, La Mettrie, (materialismo mecanicista), Comte (Positivismo) David Hume, Bentham e os utilitaristas (Stuart Mill, por exemplo), a Esquerda Hegeliana (Feuerbach, Karl Marx, Engels), Neopositivismo, etc..

O materialismo (no sentido da definição supracitada) é uma característica da mente revolucionária (moderna) e do gnosticismo anti-cósmico (da Antiguidade Tardia com reflexos na modernidade), ou seja, é uma característica daquilo a que se convencionou, depois da Revolução Francesa, chamar de “Esquerda”.

Mente revolucionária = Esquerda.

A ciência não é “materialista”. O que pode acontecer é que uma grande parte dos cientistas sejam materialistas. De modo semelhante, e por analogia, não podemos dizer que a energia nuclear é boa ou má: depende do uso que fazemos dela. A ciência é eticamente neutra e escora-se na metafísica: por isso, é um absurdo dizer que a ciência é “materialista” ou “ateia”.

Eu sou um grande adepto da ciência porque esta procura a verdade — assim como a filosofia e a religião, embora de modos diferentes. A filosofia, a religião e a ciência não se opõem: complementam-se! Uma atitude anti-científica ou anti-religiosa revela uma mente obscurantista.

É tão um obscurantista um ateu como um calvinista fanático.

Por outro lado, a negação da matéria — por exemplo, o Imaterialismo de Berkeley, que é uma forma de Positivismo — ou o repúdio da matéria são características dos cristãos gnósticos modernos, de tipo calvinista nomeadamente.

A verdadeira doutrina católica — que não é a do “papa Francisco”, porque tem uma visão quase panteísta da Natureza — escorada na patrística e em Santo Agostinho, considera a Natureza (ou seja, aquilo a que se convencionou chamar de “matéria”, seja o que for que seja a “matéria” porque nem a ciência sabe bem o que é) uma criação de Deus, e por isso, uma realidade boa e positiva. Apreciar a Natureza (a “matéria”) e dar graças a Deus por ela, é uma característica do bom católico.


Notas
1. citado do Vol. I da História da Filosofia de Nicola Abbagnano, Editorial Presença, 1969, pág. 92
2. Epicuro interpretado por Lucrécio, nota bem!

Terça-feira, 11 Agosto 2015

Um exemplo da qualidade dos me®dia portugueses

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 1:03 pm
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expresso

(via)

Quinta-feira, 6 Agosto 2015

O josé cabrita saraiva e o nome de deus

 

O josé cabrita saraiva escreve o seguinte no semanário SOL (que cada vez mais se aproxima de um pasquim):

“No fundo pouco importa se escrevemos ‘Deus’, ‘deus’ ou ‘dEUS’, com ou sem maiúscula. Isso é uma questão que só pode ter algum significado para os homens – dependendo do maior ou menor grau de respeito que queiram demonstrar.

Achar-se que se se está a ser provocador ou impertinente ao escrever ‘deus’ é também uma crença bastante ingénua. Algumas pessoas poderão sentir-se atingidas (como eu, quando vi o cartaz da banda belga), mas quanto ao próprio – o omnipotente, omnipresente, ‘criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis’ – não deve estar propriamente preocupado com as nossas palavras. E muito menos se escrevemos ou não o seu nome com maiúsculas.”

Deus não precisa de maiúsculas

O deus cristão não tem outro nome senão “Deus”. Deus é nome próprio Dele. Ora, se o nome próprio de Deus passa a ser “deus”, então o josé cabrita saraiva terá que ser coerente e escrever o seu (dele) em minúsculas. Com o Acordo Ortográfico, não seria grande problema.

Quarta-feira, 5 Agosto 2015

Vamos colocar o fascismo ao contrário

 

Imaginemos este cenário:

  • O Partido Socialista faz uma coligação eleitoral com o Bloco de Esquerda.
  • Passos Coelho diz que não debate com Catarina Martins, mas apenas com António Costa.
  • Logo → segue-se que Passos Coelho é “fascista”.

Mas quando o fascista é Esquerda, não é fascista.

O povo português é reaccionário — diz ele

 

Se, por exemplo, um indivíduo chega à conclusão de que não tem dinheiro para comprar um Ferrari, e por isso abstém-se de o comprar, então ele é um reaccionário — diz o Luís Osório. A definição de reaccionário segundo Luís Osório parece ser a seguinte:

“Um reaccionário é uma pessoa que leva a sério as limitações existenciais impostas pela realidade”.

O reaccionário Nicolás Gómez Dávila tem uma noção diferente de “reaccionário” :

“O reaccionário é aquele que não só tem um sentido apurado para detectar o absurdo, mas também tem um palato adequado para o saborear”.

O Luís Osório é um progressista. Para ele, por exemplo, se uma pessoa pensa que é o Napoleão, não é maluco: em vez disso, é progressista; os malucos não existem: a maluquice é uma construção cultural e social do povo reaccionário.

O psiquiatra Júlio Machado Vaz não concordaria exactamente com Luís Osório, porque o conceito de “progressista” visto desta forma seria ruinoso para o negócio da psiquiatria: Júlio Machado Vaz diria o seguinte: “somos todos malucos: só que há malucos reaccionários ou progressistas”.

Outro absurdo do Luís Osório é a premissa segundo a qual as elites (a chamada “ruling class”) tem geralmente mais razão do que o povo dito “reaccionário”. A História mostra-nos exactamente o contrário: o povo reaccionário tem geralmente mais razão do que as elites; Karl Popper, que era um liberal, por exemplo, corroborou esta experiência histórica.

Um liberal é um céptico (do tipo moderno de cepticismo, e não do tipo grego); basta lermos Hayek, por exemplo, para verificarmos nele a profunda influência de David Hume e dos marginalistas. Mas o cepticismo não implica necessariamente um pessimismo: há cépticos optimistas e até utopistas, como por exemplo Bertrand Russell; ou como os libertários de Esquerda em geral (nos quais se inclui o Luís Osório). O Luís Osório é um céptico optimista. O cepticismo não é incompatível com o optimismo, desde que seja um optimismo fundado na dúvida em relação ao poder da razão humana. O cepticismo optimista contemporâneo tornou a colocar a irracionalidade na moda.

Já o pessimismo, quando casado com a ironia, são características do reaccionário: “com bom humor e pessimismo, não é possível o equívoco e o enfado” — diria o bom reaccionário. O reaccionário é, por definição, “aquele que reage”. O povo reaccionário reage contra a loucura endógena das elites.

É falso que Passos Coelho seja um pessimista (como afirma Luís Osório). O Luís Osório raciocina assim: “aquele indivíduo pensa de maneira diferente da minha, ou pensa diferente dos utopistas de Esquerda; logo, ele é pessimista”. Não lhe passa pela cabeça que Passos Coelho possa ser optimista em função das ideias e da mundividência dele (de Passos Coelho). Não passa pela cabeça de Luís Osório que exista uma certa utopia optimista por entre os neurónios de Passos Coelho.

Quarta-feira, 8 Julho 2015

¿O que dirá o José Pacheco Pereira acerca da acção revolucionária do ministro grego Euclides Sókalotes?

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 7:43 am
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“O novo ministro grego das Finanças escreveu o esboço das propostas gregas num papel do bloco de notas de um hotel e apresentou-o esta terça-feira na reunião do Eurogrupo.”

→  Tsakalotos apresenta propostas escritas em papel de hotel

Já estou a ver o José Pacheco Pereira reverberar a sua posição contra os “neo-filósofos”, afirmando: “a diferença é que no tempo de Karl Marx não existiam hotéis de luxo”.

Segunda-feira, 6 Julho 2015

A esperança esboroa-se perante tanta estupidez “monárquica”

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 6:44 am
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Os monárquicos portugueses fazem lembrar as palavras de Afonso de Albuquerque, Vice-rei da Índia, na hora da sua morte: “Mal com os homens por amor d’ El Rei, mal com El Rei por amor dos homens. O melhor é acabar…”

Vemos em baixo, na imagem, um membro da comunidade da “Monarquia Constitucional” no FaceBook a dar razão a um texto que provocaria apoteose nos membros da comunidade “Monarquia Tradicional” no mesmo FaceBook.

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Mas, se seguirmos a lógica das coisas, Monarquia Constitucional e Monarquia Tradicional são incompatíveis — porque a Monarquia Tradicional segue as ideias de António Sardinha que foi republicano durante a monarquia e que passou a ser monárquico na república. A coerência e a consistência de António Sardinha diz tudo acerca do tipo de “Monarquia Tradicional” que se defende em Portugal — para além de o próprio D. Miguel, irmão de D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil), ter assinado, em 26 de Fevereiro de 1828 e sob palavra de honra, a Carta Constitucional, depois de já ter aceite a proposta do seu (dele) irmão para se casar com a filha de D. Pedro, D. Maria da Glória (para além da honra pútrida, o incesto permitido) e governar sob as leis liberais.

Se esta gente tivesse dois dedos de testa, nunca um adepto da Monarquia Constitucional subscreveria um texto que critica a Monarquia Constitucional; e nunca um adepto da Monarquia Tradicional pretenderia regredir ao Absolutismo Monárquico. Os “monárquicos” portugueses são revolucionários no pior sentido: no sentido histórico caracterizado pela pulverização política e ideológica iniciada pelo protestantismo no século XVI. Assim como a Esquerda se pulveriza em pequenos grupelhos, assim os “monárquicos” portugueses atomizam o movimento monárquico.

Depois de eu ter sido hostilizado e maltratado na comunidade “Monarquia Tradicional” no FaceBook, cliquei num botão e saí; e depois de verificar as incongruências da comunidade “Monarquia Constitucional” no mesmo FaceBook, voltei a clicar no botão. Perante tanta estupidez, há sempre um botão que nos ajuda.

¿Mas por quê tanta animosidade em relação a D. Duarte Pio?! Será por que ele vive no século XXI?

blog familia

Pior do que a utopia, é a ucronia: porque o utopista é um sonhador, a utopia é uma simples quimera ou a descrição concreta da organização de uma sociedade ideal — ao passo que a ucronia valida o contra-factual, o que é sinal de grave deficiência cognitiva.

Sábado, 4 Julho 2015

Richard Dawkins dá razão ao Padre Gonçalo Portocarrero de Almada

 

O Ludwig Krippahl diz que não tem alma. Cada um pensa de si o que quiser. Convém contudo dizer que, segundo a ontologia aristotélica que influenciou o Cristianismo, os animais têm alma, embora não tenham espírito (autoconsciência). Mas não vale a pena explicar ao Ludwig Krippahl a diferença entre alma e espírito, porque teríamos que obrigá-lo a ler Platão e Aristóteles — o que é uma maçada, convenhamos! Escreve ele:

“O ADN dá-nos uma medida conveniente de distância evolutiva e, nessa, eu e o chimpanzé estamos equidistantes da aranha. Mas não é só o ADN que sugere que o chimpanzé e eu estamos mais próximos. A nossa anatomia é semelhante mas muito diferente da da aranha e partilhamos capacidades para resolver problemas, sentir afecto, aprender, comunicar e interagir em sociedade que nos afastam a ambos da aranha.”

dawkins-and-freud-webHá problemas que uma aranha resolve que não passam pela cabeça do macaco. Cada ser vivo (cada espécie) resolve os seus problemas. O que não devemos é confundir, por exemplo, o comportamento submisso de um cão, com “afecto” (como está hoje na moda); ou não devemos confundir “instinto” e “afecto” (por exemplo, o instinto maternal, que vemos nos leões ou nos símios, mas também no ser humano), nem devemos confundir “instinto” — que é próprio de todos os animais em geral— e “intuição” que é exclusivo do ser humano.

O Ludwig Krippahl concebe apenas a forma das coisas, e ignora ostensivamente o conteúdo delas.

Do ponto de vista do conteúdo do ser (e foi isto que o Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada quis dizer), «a distância que vai do mais apto dos símios para o mais estúpido dos homens é infinitamente superior à que dista entre o mais evoluído dos primatas e o mais básico ser vivo» — exactamente porque a alma aristotélica, princípio de pensamento, privilégio e essência do Homem, dá acesso à liberdade e à moral.

O Ludwig Krippahl pensa que não: pensa ele que existe menos liberdade e menos moral numa aranha do que num símio. Para ele, um macaco tem mais liberdade e mais moral do que uma aranha. Ora, é aqui que eu divirjo dele e me aproximo do Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada: nem a aranha nem o macaco têm liberdade e moral; e por isso é que estão ambos infinitamente distantes do ser humano.


Numa entrevista a uma revista1 , foi perguntado a Richard Dawkins o seguinte: “¿O senhor pensa que o ser humano poderia superar as leis da evolução?”. E Richard Dawkins respondeu assim:

“Sim, de uma maneira limitada; no entanto, importante para nós. Embora nós sejamos seres darwinianos, podemos olhar para o futuro. Podemos perguntar-nos em que sociedade desejamos viver. É uma sociedade na qual as regras são respeitadas, independentemente da forma que assumam num determinado país. Penso que isto é algo singular, algo anti-darwiniano, algo que nunca foi observado em nenhum outro ser vivo”.

Ou seja, Richard Dawkins constatou uma evidência: não é preciso qualquer demonstração através do ADN para chegar à conclusão a que ele chegou. Quando ele diz que há “algo (no ser humano) que nunca foi observado em nenhum ser vivo”, o que ele diz, de facto, é que «a distância que vai do mais apto dos símios para o mais estúpido dos homens é infinitamente superior à que dista entre o mais evoluído dos primatas e o mais básico ser vivo».

No entanto, o Ludwig Krippahl consegue ser radicalmente mais darwinista do que o Richard Dawkins — o que é obra! Isso não tem nada a ver com darwinismo: antes tem a ver com ideologia política que levou o Ludwig Krippahl a militante do partido “Livre”.

Com esta afirmação, foi o próprio Richard Dawkins quem revelou o ponto fraco da sua argumentação radical darwinista: ou somos escravizados pelos nossos genes e/ou pelo nosso ADN, ou então temos em relação a eles a liberdade de manifestar comportamentos que permitem a sobrevivência de toda a biosfera da Terra.

É precisamente porque o ser humano está infinitamente distante dos símios e das aranhas que tem a liberdade de proteger os símios e as aranhas.


Nota
1. revista alemã “Focus”, nº 39, 1996

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