perspectivas

A verdade existe?

Quando se pergunta: “a verdade existe?”, quem faz a pergunta admite, à partida, a possibilidade de uma resposta ― porque caso contrário a pergunta seria absurda ― e portanto já pressente, ou sabe intuitivamente, que a verdade existe. O que a pessoa que pergunta não sabe, é quais são as respostas correcta e errada à pergunta, o que significa que o facto de a verdade existir é independente do critério racional seguro que a distinga. Quem pergunta, sabe que a verdade existe; o que não tem a certeza é se aquilo que dizem – ou o que pensa – ser a verdade, é a verdade.

Por outro lado, se alguém afirma categoricamente que “não existe qualquer verdade”, pretende afirmar uma verdade, acabando, por isso, por se contradizer ― porque se alguém afirma algo, está convencido que a sua afirmação está correcta e que todos devem corroborar essa sua opinião. Por conseguinte, essa pessoa pressupõe que existem afirmações que possuem uma validade incondicional, ou sejam, verdades incondicionais. Isto significa que quem afirma que “não existe qualquer verdade” pressupõe ― mesmo que essa afirmação possa estar errada ― que a verdade e o erro se excluem mutuamente, e em consequência, existe entre a verdade e o erro uma diferença que não pode ser relativizada. Por outras palavras: quando alguém diz que “tudo é relativo porque não existe qualquer verdade”, cai em autocontradição e no absurdo.

A verdade está condenada à existência.

Resulta do conflito entre “a verdade que sabemos que existe” (e por isso perguntamos) e o critério de apuramento da verdade, a contradição entre duas proposições: “nós sabemos que a verdade existe” e “nós não sabemos como (e se) a verdade existe”, sendo que estas proposições antagónicas são assumidas simultaneamente. Como as duas afirmações não podem ser válidas ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, começa aqui o problema. E razão primeira deste problema é que a razão humana é contraditória em si mesma.

O que se pode dizer sobre a verdade formal (a forma da verdade), é que “a verdade absoluta só pode ser pessoal” (Nicolau Hartmann), mas ao mesmo tempo, para que essa “verdade absoluta pessoal” seja verdadeira, tem que ser universal ― quando ela não tem validade só para mim; a minha verdade absoluta tem que ter algo em comum com todos os seres humanos porque possui a qualidade da verdade, independente de mim.

6 comentários »

  1. Muito bom, só não compreendi muito bem porquê que a pergunta implica o conhecimento prévio da existência da verdade, podia esclarecer-me de forma mais detalhada? cumprimentos.

    Comentar por condegil — Quarta-feira, 4 Dezembro 2013 @ 3:15 pm | Responder

    • Você só se pode questionar sobre uma coisa que você sabe que existe — mesmo que não tenha certeza de como é exactamente essa coisa.

      Por exemplo, você só se pode questionar acerca da cidade de Berlim porque Vc sabe que essa cidade existe, embora nunca tenha visitado essa cidade e não a conheça pessoalmente.

      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 4 Dezembro 2013 @ 4:01 pm | Responder

      • Já entendi, era facil. Muito obrigado pela dedicação.

        Comentar por condegil — Quarta-feira, 4 Dezembro 2013 @ 4:25 pm

  2. Se todas as pessoas do planeta se tornarem “ateístas” a inexistência divina será uma verdade universal??

    Comentar por Flower (@existencialetra) — Sábado, 14 Dezembro 2013 @ 12:39 am | Responder

    • Em primeiro lugar, Deus não existe da mesma forma que existe um objecto qualquer no universo. Em lugar de dizer “Deus existe”, deveríamos dizer “Deus É” porque Deus é o Ser. Deus está fora da realidade sujeito/objecto; é o Todo que é mais do que a simples soma das Partes. No Antigo Testamento, Deus diz o seguinte: “Eu Sou Aquele Que É” (“ser”, em vez de “existir”. A existência é humana, mas não é divina).

      Em segundo lugar, este verbete trata da “verdade”, e não de Deus — porque Deus não é apenas Verdade. Sobre Deus podemos conhecer apenas a Sua forma, mas nunca o Seu conteúdo.

      Em terceiro lugar, a ciência não pode provar que uma coisa não existe. A ciência não pode provar, por exemplo, que os unicórnios não existem. Pergunte ao seu professor de filosofia ou a um cientista qualquer se pode provar que as sereias não existem.

      Em quarto lugar, não é pelo facto de toda a gente negar, por exemplo, a existência do átomo que este passa a não existir. Basta a negação de uma coisa qualquer para que essa coisa exista, embora de forma negativa. Por exemplo, se eu afirmar que os unicórnios não existem, não deixo de ter em conta o conceito de unicórnio, e, por isso, o conceito de unicórnio existe na minha cabeça independentemente da minha negação em relação a esse conceito.

      Se todas as pessoas do planeta negassem a “existência” de Deus, essa negação estaria baseada no conceito de Deus e, por isso, esse conceito continuaria a existir.

      Se todas as pessoas do planeta pensassem da mesma maneira acerca de Deus ou de outra coisa qualquer, não seriam seres humanos, mas antes seriam animais irracionais. Ou seja, pensar uniforme e homogeneamente é sinónimo de irracionalidade. Portanto, a sua pergunta parte de um princípio errado; não é possível que toda a gente pense da mesma maneira, mesmo nas sociedades sujeitas a ditaduras ferozes como, por exemplo, nos regimes marxistas.

      Comentar por O. Braga — Sábado, 14 Dezembro 2013 @ 2:35 am | Responder

  3. Texto direto. Abraço da província de Portugal.

    Comentar por wffilho — Quarta-feira, 21 Dezembro 2016 @ 6:06 pm | Responder


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