perspectivas

Domingo, 12 Julho 2015

Isto é a democracia

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 8:05 am
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Não tenhamos ilusões: isto é a democracia. Não é um detalhe: é a essência da democracia portuguesa. E não é de agora: basta ver o que foi a democracia na primeira república.

 

(via)

Sexta-feira, 10 Julho 2015

Os deputados do putedo (incluindo Assunção Esteves) adiam análise da ILC “Pelo direito a nascer”

Filed under: aborto,Política — O. Braga @ 8:11 am
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“É a constituição moral da sociedade que fixa, a cada momento, o contingente dos mortos voluntários”

— Durkheim.

Eu acrescentaria: dos mortos involuntários também.

Quando eu era mais jovem e quase imberbe, pensava que (ao contrário do que acontece nas ditaduras) os argumentos, em democracia, contavam para alguma coisa. Hoje penso que a democracia se transformou em uma espécie de ditadura em que (como acontece nas ditaduras) é uma pequena elite que comanda, arbitrariamente e contra qualquer argumentação racional, o destino de uma sociedade.

“A iniciativa, que tem poder de projecto de lei por ter sido assinada por mais de 35 mil cidadãos eleitores, já tinha estado no plenário do Parlamento para ser votada mas a maioria optou por fazê-la descer à comissão sem votação, para que a discussão se fizesse na especialidade. Antes, o assunto tinha-se tornado polémico por a Presidente da Assembleia da República ter forçado o agendamento da matéria depois de, numa conferência de líderes onde Assunção Esteves não esteve presente, ter-se decidido em sentido contrário.”

Parlamento volta a empurrar iniciativa de cidadãos contra interrupção da gravidez

Parece que a democracia permite que concepções tão fundamentais como o direito à vida possam ser entendidas de forma radicalmente diferente dentro de um mesmo partido político. Por exemplo: ou o Partido Social Democrata é contra a ILC  “Pelo direito a nascer”, ou Assunção Esteves está a mais no Partido Social Democrata. No que diz respeito a um assunto tão fundamental, não podem existir ambiguidades ou ambivalências dentro de um partido político: seria coisa semelhante que dentro do Partido Social Democrata coexistissem economistas marxistas e liberais.

De que valeu apresentar a ILC? Em termos práticos, nada. O regime dito “democrático” está exangue, à espera da machadada final. A dissolução do Euro e da União Europeia preparam o golpe-de-estado que se deseja. Se isto é “democracia”, que  venha então uma ditadura que imponha o direito a nascer.

Sexta-feira, 26 Junho 2015

O fim do mito da democracia

 

Hoje assinala-se o fim do mito da democracia. A par com a Inglaterra, os Estados Unidos fundaram a sua Constituição em Locke e tornaram-se símbolos da democracia no mundo; mas o que acontece hoje é que Locke foi substituído por Rousseau em ambos os países.

Durante os últimos anos, vários Estados federais americanos realizaram referendos que definiam o casamento entre um homem e uma mulher. Hoje, apenas cinco pessoas — 5 juízes do Supremo Tribunal dos Estados Unidos — anularam todos esses referendos estatais, e alegadamente em nome da “democracia”.

¿Isto é democracia? Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que não é.

Aquelas pessoas que reclamam a superioridade moral e política dos Estados Unidos face à Rússia perderam hoje qualquer tipo de argumento racional para sustentar essa tese. O mito da democracia anglo-saxónica acaba de morrer. A partir de agora  “vale tudo” e “salve-se quem puder”.

Domingo, 31 Maio 2015

O neoliberalismo apoia a agenda política cultural radical de Esquerda

 

A revista britânica The Spectator  publica um artigo que tenta explicar por que razão os mais ricos do mundo — a plutocracia a que chamamos de “neoliberalismo” — apoia as políticas culturais da Esquerda, e muitas vezes da Esquerda mais radical. Vou tentar fazer aqui um resumo do artigo.

¿Por que razão a maioria das empresas multinacionais, por exemplo, a Google, apoiou o SIM no recente referendo acerca do “casamento” gay na Irlanda? E ¿por que razão os plutocratas, em geral, apoiam as lutas de Esquerda naquilo a se convencionou chamar de “justiça social”?

(more…)

Sexta-feira, 8 Maio 2015

Não existe democracia no Reino Unido

Filed under: Política — O. Braga @ 12:35 pm
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O partido UKIP (United Kingdom Independent Party) teve 5 milhões de votos e 1 assento do parlamento; os socialistas do SNP tiveram 1,5 milhões de votos e 30 assentos.

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¿Isto é democracia?! Onde está a representação do povo?!

Na Era em que vivemos, caracterizada pela informática e pela cibernética, não há razão para não termos uma democracia directa. Naturalmente que os donos do sistema “democrático” — que de democrático só tem o nome — irão dizer que a democracia directa conduz à demagogia e ao populismo; mas demagogia e populismo são termos que os “democratas” utilizam quando a democracia os assusta.

Ou a democracia directa, ou então acabemos com esta “democracia”.

Sexta-feira, 24 Abril 2015

A decadência da democracia

Filed under: cultura,Política — O. Braga @ 5:46 am
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Um candidato socialista espanhol às próximas eleições aparece nu nas redes sociais e em painéis de rua (outdoors), apenas com uma rosa a tapar as partes pudibundas.

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“Este miércoles han aparecido colgados por las calles del pueblo carteles con una fotografía de Luis Alberto totalmente desnudo y con sólo una rosa roja tapándole los genitales. El candidato aparece señalando con el dedo al frente y sobreimpresionado puede leerse el siguiente lema: “Soy mejor que tú y lo sabes”. Además, ha publicado otra versión del cartel en el que aparece de espaldas (de nuevo una rosa le tapa el trasero) y señala su espalda donde se puede leer: “No cuentas en Suiza, ni en Andorra, ni tarjeta black, ni me tocó la Lotería de Navidad del feriante”.”

Não tarda nada vamos ver nas ruas das cidades portuguesas painéis com uma versão estática do “Bearback Mountain”, com o Sampaio da Névoa a montar o Monhé das Cobras.

Quinta-feira, 19 Março 2015

¿ Salazar estaria na Lista Fiscal VIP?

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 6:26 pm
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“Demagogia é o vocábulo que os democratas empregam quando a democracia os assusta.”

— Nicolás Gómez Dávila


Se Salazar estivesse hoje no Poder, ¿haveria uma Lista Fiscal VIP para membros da classe política?

Duvido que houvesse. Poderia talvez existir uma Lista Fiscal VIP para os banqueiros, mas nunca Salazar permitiria que existisse uma Lista Fiscal VIP para deputados, presidente da república, funcionários públicos, ou outros membros da classe política.

“Conta-se que filho do presidente da república Francisco Higino Craveiro Lopes, Nuno Craveiro Lopes e sua mulher, então grávida, se encontravam entre os passageiros do comboio da linha do Estoril que descarrilou devido à derrocada da barreira junto ao farol de Caxias, em 1952. Embora não tenham ficado feridos, no meio da confusão entre mortos e feridos a esposa ter-se-á sentido mal. Não sendo possível arranjar transporte no local, o filho telefonou ao Presidente, no sentido de lhe enviar um carro da Presidência para os levar a casa. Francisco Higino, depois de se certificar de que se encontravam bem, retorquiu que não podia dar ordem para enviarem o carro pois estes eram exclusivamente para serviço oficial; que procurassem um táxi para o efeito. E seu filho assim fez: foram andando a pé em direcção a Lisboa e um pouco adiante conseguiram apanhar um táxi.

Como norma, nas viagens e visitas, não eram oferecidos objectos de valor, conforme o desejo do Presidente que era transmitido previamente às entidades pelos elementos do protocolo. Apenas aceitava flores, medalhas comemorativas e diplomas honoríficos. Livros, só oferecidos pelos autores. Isto devia-se ao facto de que durante a inauguração das Feiras do Livro, era usual nos governos anteriores enviar uma camioneta que os livreiros faziam carregar com livros, facto que o Presidente achava despropositado. Do mesmo modo, nas visitas ao Ultramar, fez saber que não aceitava diamantes, metais de valor, peles, marfim, e coisas semelhantes. Até um boi que lhe foi oferecido pelo Rei do Congo, que não podia recusar por motivos de protocolo, foi abatido e comido pelo seu povo, com grande satisfação.”1

A Lista Fiscal VIP é um fenómeno democrático que é, em si mesmo, anti-democrático. Por isso é que os democratas dizem que Salazar era “faxista”.


Nota
1. Fonte

Segunda-feira, 9 Março 2015

A democracia, a Esquerda, a Direita da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e os direitos de braguilha

Depois da rejeição do Relatório Estrela pelo parlamento europeu, surgiram dois novos relatórios no mesmo sentido: o de instituir o aborto como um “direito humano”. São os relatórios Tarabella e Panzeri.

Se estes dois relatórios forem rejeitados pelo parlamento europeu, irão surgir provavelmente quatro novos relatórios no mesmo sentido; e se os quatro forem rejeitados, surgirão oito novos relatórios no sentido de instituir o aborto como “direito humano”. E assim por diante…

A democracia é isto: é o “progresso da opinião pública” mediante uma pressão política (por parte de uma elite psicótica) de tal forma violenta que vence pelo cansaço qualquer oposição e para além de qualquer racionalidade.

À  medida em que o tempo passa, e em função desta União Europeia, estou cada vez mais céptico em relação àquilo a que se convencionou chamar “democracia”. Se a democracia serve para nos impôr a desumanidade através do formalismo processual de promulgação do Direito Positivo, então nada distingue a democracia de um totalitarismo. E, totalitarismo por totalitarismo, mais vale optar por um que defenda a vida humana.

A estratégia seguida pelos progressistas (de direita e de esquerda, por que já não podemos falar de Direita ou de Esquerda) é o de Aldous Huxley na novela “Maravilhoso Mundo Novo”: o controlo das massas era realizado através de um mecanismo repetitivo e incessante dirigido ao inconsciente do cidadão durante as horas de sono. Hoje, essa função é realizada pelos me®dia apoiados por organizações capitalistas como, por exemplo, a Fundação Francisco Manuel dos Santos, ou a SIC de Pinto Balsemão  — e por isso é que já não faz sentido falar de Esquerda ou de Direita: a única coisa que os divide é o conceito de “propriedade privada”; em tudo o resto são iguais.

A “libertação das massas”, que o sistema democrático defende, segue o conceito de Marcuse de “desenvolvimento não repressivo da libido” (“Eros e Civilização”); se juntarmos ao “desenvolvimento não repressivo da libido” os efeitos afrodisíacos do consumismo exigido, por exemplo, pelos donos do Pingo Doce ou do Continente, em vez de libertação das massas temos uma nova escravatura das massas à  moda de Aldous Huxley. A felicidade passa a ser sinónimo de irresponsabilidade.

E, na actual época de crise económica, quando os afrodisíacos do consumismo estão pela hora da morte, resta aos donos da democracia propôr às massas a “libertação da libido” através da promulgação de direitos de braguilha que compensam os salários de miséria, até que se alcance um estado de animalização colectiva a que cinicamente se chama de “felicidade”, promovida por literatura “filosófica” barata (no preço e no conteúdo) como, por exemplo, a do Pedro Galvão subsidiada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Para se conseguir este estado de animalização feliz, o sistema democrático propõe-se erradicar o livre-arbítrio do ser humano. É neste contexto que surge o conceito contraditório de “aborto como direito humano” — como se assassinar um ser humano passasse a ser um direito — que se baseia em uma estratégia de estimulação contraditória que induz uma dissonância cognitiva nas massas que reduz drasticamente a capacidade crítica e o livre-arbítrio do cidadão.

A liberdade democrática é utilizada para retirar o livre-arbítrio e a capacidade de discernimento ao cidadão. Se isto é liberdade, então uma ditadura pode ser melhor.

Sexta-feira, 27 Fevereiro 2015

As três ameaças ao Estado de Direito democrático ocidental

Em relação a este comentário, convém dizer sucintamente o seguinte:

1/ o liberalismo político da Europa não está — nem nunca estará — preparado para lidar com a Jihad islâmica; perante a ameaça islâmica, o liberalismo político europeu terá que se anular, pelo menos provisoriamente.

2/ para além da Jihad islâmica, que é uma ameaça externa ao liberalismo político ocidental, existem de facto duas ameaças internas, sendo que ambas têm como ponto comum a erradicação (eliminação) dos factores metajurídicos subjacentes aos princípios do Estado de Direito tal como concebido pelo positivismo de Kelsen. Esses factores metajurídicos (que também existiam na democracia da Grécia antiga, com a religião de Atenas) são a religião cristã que enforma a cultura antropológica ocidental, por um lado, e por outro  lado a Tradição sem a qual não é possível a democracia ocidental.

Os factores metajurídicos são aqueles que estão “antes” (são a condição) do Direito Positivo e da Constituição que fundamenta o formalismo do Direito Positivo em um Estado de Direito democrático ocidental.

Por detrás de uma Constituição de um Estado de Direito democrático ocidental está toda uma História, uma tradição e uma cultura antropológica fundada nos princípios éticos e ontológicos historicamente influenciados pelo Cristianismo. Sem esses factores metajurídicos, o formalismo do Direito Positivo pode tornar legal qualquer forma de regime político que não respeite a ética herdada do Cristianismo.

3/ Vamos ver, a título de exemplo, o fenómeno do Confucionismo na China.

“Não murmuro contra Deus e não me encolerizo com os seres humanos. Investigo aqui em baixo, mas aponto para o alto. É Deus quem me conhece”. — Confúcio

O Confucionismo tinha uma concepção ética secular (secularismo), baseada não na transcendência divina ou na religião, mas antes baseada em leis e regras sociais e políticas (as quatro virtudes: Hsiao, Jen, Li, Yi). Ou seja, o Confucionismo era uma religião política (uma doutrina de Estado). Porém, o Confucionismo tinha uma “regra de ouro” invocada, mais ou menos na mesma altura por Sócrates e, mais tarde, no Sermão da Montanha por Jesus Cristo (Mateus 7,12): “Não faças aos outros o o que não queres que te façam a ti”.

Por outro  lado, embora o Confucionismo não tivesse oficialmente em consideração a religião propriamente dita, tinha, não obstante, factores metajurídicos “invisíveis” (a Tradição) que se baseavam em elementos da religião imperial chinesa (anterior ao Confucionismo e ao Taoísmo). Sem o legado cultural e histórico da religião imperial chinesa, o Confucionismo não faria qualquer sentido nem poderia ter-se imposto na China.

São os elementos metajurídicos que dão sentido ao formalismo processual do Direito Positivo na democracia ocidental.

4/ as duas ameaças internas ao liberalismo político são o neoliberalismo que transporta consigo o Marginalismo radical e o social-darwinismo para dentro da ética, desprezando os elementos metajurídicos do Estado de Direito democrático ocidental, por um lado; e por outro  lado, o marxismo cultural que tenta mesmo erradicar e eliminar esses factores metajurídicos, transformando o Direito em um código arbitrário à mercê de uma elite gnóstica moderna.

Domingo, 25 Janeiro 2015

A democracia está moribunda

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 10:17 am
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A democracia em Portugal tem sobrevivido relativamente bem até à  entrada no Euro à  custa daquilo a que Tocqueville chamou de “contrapesos do liberalismo político”: 1/ o associativismo ou poderes intermediários (sindicatos, organizações da sociedade civil, partidos políticos, etc.); 2/ a divisão de poderes (Montesquieu);  3/ a liberdade de imprensa.

Sem estes três pilares do liberalismo político, a democracia conduz a um despotismo “suave” do Estado. Ora, em Portugal estes três “contrapesos do liberalismo político” estão ameaçados:

1/ Praticamente não existem, hoje e em Portugal, organizações da sociedade civil que, mais ou menos, não dependam do Estado. Por exemplo, os sindicatos estão a ser esvaziados de gente, ou então passam a ser tutelados pelo Estado. O leviatão que se prepara ainda é pior do que o Estado Novo.

2/ A entropia do sistema de justiça foi intencionalmente provocada pela classe política “democrática”, como o prova o protesto de uma certa classe política maçónica pela prisão de José Sócrates: a justiça portuguesa foi construída pela classe política “democrática” e maçónica para não funcionar em relação aos poderosos, por um lado, e por outro  lado retira ao povo em geral a possibilidade de acesso aos tribunais mediante uma justiça cara e demorada. Um pobre em tribunal é anedota. Portanto, não podemos falar em uma verdadeira separação de poderes em Portugal: o poder está na maçonaria irregular.

3/ Resta a liberdade de imprensa. A liberdade de imprensa depende da independência das organizações da sociedade civil em relação ao Estado, e da separação de poderes no Estado. Portanto, também a liberdade de imprensa está ameaçada.

O que está a “segurar as pontas” da pseudo-democracia portuguesa é a União Europeia, ou melhor dizendo, é a burocracia de Bruxelas e um certo “Poder anónimo”. Mas se a União Europeia espirra, Portugal apanha uma pneumonia grave. As coisas não estão bem na União Europeia:

“Europe is being swept by a wave of popular disenchantment and revolt against mainstream political parties and the European Union.

In 2007, a majority of Europeans – 52 per cent – trusted the EU. That trust has now fallen to 35 per cent.”

How the European dream is dying, state by state

Em suma: ou a democracia se regenera, a maçonaria é afastada da política sem representação legítima, a partidocracia é colocada seriamente em causa, a justiça é radicalmente reformada, o sistema eleitoral profundamente repensado — ou então o regime actual não dura mais de dez anos. Se você não acredita nisto, ria-se e chame-me de “louco”; os idiotas riem-se sempre da realidade; e “o louco é aquele que perdeu tudo excepto a razão” (G. K. Chesterton).

Sábado, 14 Junho 2014

Sobre a obrigatoriedade do voto

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 5:40 am
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Vamos colocar o problema da “liberdade” em termos kantianos — embora eu não concorde totalmente com a visão de Kant acerca da “liberdade”; mas está na moda concordar com ele. Para Kant, a “liberdade” pode ser negativa e positiva (repare-se que é “e”, e não “ou”).

A liberdade negativa é aquela que consiste em não ser impedido de agir — a de não ser impedido por outrem naquilo que desejamos fazer, ou a liberdade de se exprimir sem censura. Em contraponto, a liberdade positiva é a liberdade do cidadão-legislador, segundo o princípio de autonomia de Kant, que consiste em tomar parte nas decisões políticas e públicas, e de co-exercer a autoridade em geral.

amish1/ À primeira vista, parece que a abstenção do acto de votar em eleições políticas é apenas uma expressão de liberdade negativa. Parece que o abstémio do voto desdenha a liberdade positiva. É o que o escriba do blogue Rerum Natura pretende dizer aqui.

Por exemplo, existem certas representações colectivas de determinadas comunidades, como por exemplo, entre os Hutteritas e/ou nos Menonitas (por exemplo, a comunidade Amish, nos Estados Unidos), que por motivos religiosos proíbem o voto (entre outras coisas). O escriba do Rerum Natura pode considerar que as pessoas dessas comunidades são estúpidas; mas isso é problema dele. Ele tem o direito de considerar que toda a gente é estúpida com sua (dele) excepção.

Obrigar o cidadão a votar (nem que “seja em branco”, como diz o escriba do Rerum Natura) é uma intrusão insuportável do Estado na vida privada e até íntima do cidadão entendido como pessoa — e não só enquanto indivíduo. O cidadão não é um número que apenas conta para as estatísticas: antes, é uma pessoa.

2/ Num sistema dito “democrático” como é o português, em que o cidadão não sabe em quem vota (não conhece sequer, muitas vezes, o político eleito pela sua circunscrição — com excepção das eleições autárquicas!), não é legítimo que se seja obrigado a votar. No sistema “democrático” português, obrigar o cidadão a votar seria um exercício de pura violência de Estado — porque o Estado português não é democrático propriamente dito. O sistema político português é uma oligarquia partidária, e não uma democracia.

3/ A abstenção é uma forma de participação política — embora negativa. Por isso, podemos dizer que a abstenção é também, até certo ponto, uma forma de liberdade positiva. De resto, não há uma diferença real entre a abstenção e o voto em branco ou o voto nulo: a diferença é apenas de categorização estatística, mas em política significa praticamente o mesmo.

Não devemos partir do princípio de que as pessoas não vão votar porque está a chover, ou porque foram para a praia. Pode haver gente que não vote por essas razões, mas seria um abuso generalizar.

Se a abstenção é grande, cabe ao sistema político reformar-se para cativar uma maior afluência às urnas de voto — mas nunca inverter o ónus da responsabilidade política, utilizando a força bruta do Estado sobre as pessoas e impondo aos cidadãos um sistema político caduco e que de “democrático” só tem o nome.

Domingo, 27 Abril 2014

O Von Mises deve andar revolto na tumba

 

É sintomático que um site na Internet que se diz de Von Mises critique a democracia.

Vemos como o pensamento “liberal” actual se tornou absurdo, porque a condição da economia política defendida por Von Mises — como, aliás, por todos os liberais de renome do fim do século XIX e princípio do século XX — era a democracia. Digo “era”, porque parece que já não é. E não é porque o que temos hoje já não é o liberalismo, mas antes é o neoliberalismo. O neoliberalismo, por sua própria natureza, é a negação da democracia.

É de notar que hoje se defenda, em um site que se diz de Von Mises, um ponto de vista semelhante ao de uma determinada direita de tipo “PNR”, que não passa de uma variante de um certo socialismo. Aquilo a que se convencionou chamar hoje de “extrema-direita” (por exemplo, a Front Nationale de Marine Le Pen) não passa de um variante laicista radical (anti-monoteísta e pagã), estatista e nacionalista do socialismo. Eu diria mais: a principal diferença entre o PNR e o Partido Comunista é a de que este último (com a queda do muro) deixou de ser um partido internacionalista e passou a ser (alegadamente) um partido “soberanista”. Ou seja, hoje, a principal diferença é nenhuma.

Reduzir a democracia à “dependência do Estado” não lembraria a Von Mises (e nem ao careca!). Mas o que está em causa, naquele artigo, é a defesa das ideias de Hayek (ou a actual interpretação das ideias de Hayek), e já não as de Von Mises. O pobre Von Mises apanha por tabela.

O libertarismo exacerbado — tal qual se passou com o anarquismo do princípio do século XX — é um método para se atingir (consciente- ou inconscientemente) uma qualquer forma de totalitarismo, ou então, uma qualquer forma de tirania (que pode não ser totalitária). Por exemplo, o libertarismo do Bloco de Esquerda (e também do Partido Comunista, embora em menor escala) esconde inequivocamente uma agenda totalitária (política de “terra queimada”). De um modo semelhante, o libertarismo de Hayek (ou a interpretação que se dá hoje a Hayek) esconde actualmente um desígnio tirânico, como é evidente.

Hoje, “libertarismo de direita” é sinónimo de “neoliberalismo”.

Hoje, entramos em um maniqueísmo: ou o “Estado máximo” (Partido Socialista, PNR, Partido Comunista, Bloco de Esquerda, etc.), ou o “Estado exíguo” (Partido Social Democrata, CDS/PP).

O único partido verdadeiramente conservador, democrático e de direita é o PPM, que já não está activo.

O princípio da democracia não tem nada a ver directamente com o Estado: a palavra “democracia” refere-se, em primeiro lugar, a uma teoria segundo a qual, a autoridade política se fundamenta no Poder que cada homem tem de se governar a si mesmo (princípio da autonomia, de Kant). Esse Poder de cada um se governar a si mesmo implica deveres e direitos — mas não só direitos! E quando os deveres do cidadão são castrados e apenas os direitos são considerados, já não vivemos em democracia.

A democracia é apenas e só uma forma de governo. O Estado é outra coisa!: não tem necessidade da democracia para existir. Ligar necessariamente (nexo causal) o Estado (ou a força do Estado, seja este “máximo” ou “mínimo”) à democracia é uma estupidez. “Democracia” e “Estado” são conceitos correlatos mas independentes um do outro. Dizer que “a democracia é ausência de Estado” é tão estúpido como dizer que “a democracia depende exclusivamente do Estado”. Os teóricos da Razão de Estado existem pelo menos desde o século XVI (se não mesmo antes), e não havia então qualquer vislumbre de democracia.

Amiúde confunde-se “democracia política”, por um lado, com “socialismo económico e social”, por outro lado. E, tal qual aconteceu com o fascismo italiano (não esquecer que Mussolini foi militante do Partido Socialista italiano), a luta contra o socialismo (ou a luta dos socialistas contra o capitalismo) justifica hoje a defesa de uma qualquer tirania.

A União Europeia é o exemplo do sincretismo entre as duas facetas deste maniqueísmo: é a esperança dos neoliberais e dos socialistas, embora esperanças diferentes; esperanças essas que se traduzem, de um lado e doutro de forma diferenciada, na alienação da democracia e na instituição de uma tirania em função de uma visão particular do Estado. Mais uma vez, de um lado e doutro, é o Estado que define e subalterniza a democracia como forma de governo.

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