perspectivas

Sábado, 15 Fevereiro 2014

A nova “democracia” sugerida pela Nova América

 

“Tom Perkins, the Silicon Valley billionaire, has risked further controversy by saying the rich should be given more votes than the less well off.

An unrepentant Mr Perkins also said those who paid no taxes whatsoever should be disfranchised.”

Rich should get more votes, says billionaire Tom Perkins

Eis o passo seguinte do neoliberalismo: “os mais ricos devem ter mais votos, e os pobres que não paguem impostos devem ser marginalizados da política”.

plutocrata webAs ideias têm causas e consequências. Que ninguém pense que estas ideias surgem por acaso, ou que não têm importância. Pelo contrário, são ideias bem maturadas e que pretendem afirmar-se em uma sociedade caracterizada pela maximização de uma ética utilitarista entendida no seu pior sentido.

O lógica do libertarismo de direita — económico e financeiro — conduz a uma distorção da democracia e mesmo a uma forma mitigada de totalitarismo. Os libertários de direita não se dão conta de que sem a democracia correm o sério risco de sofrerem represálias e revezes históricos.

Os princípios liberais clássicos, por exemplo o da igualdade fundamental do cidadão perante a lei, começam agora a ser colocados em causa pelo capitalismo egocêntrico que defende a ideia revolucionária segundo a qual “a humanidade encontra-se perante o Fim da História”.

Terça-feira, 11 Fevereiro 2014

Daniel Oliveira: o paladino da democracia dos mandadores sem lei

 

O que mais me irrita no Daniel Oliveira não é o Daniel Oliveira: antes é o “tempo de antena” que lhe é dado pelos nossos me®dia medíocres. Digamos que a mediocridade é mútua e biunívoca: les bons esprits se rencontrent…


No ano de 2000, a Suíça ocupava a primeira posição, em uma lista de 42 países, sobre a capacidade de resiliência económica. E só em 2005 o tratado de Schengen foi referendado e aprovado na Suíça. E o Daniel Oliveira escreve isto, logo de entrada:

A Suíça ficou a ganhar com os vários acordos que tem com a União Europeia. O desemprego manteve-se baixo para a população em geral (3,4%) e para os suíços em particular (2%). Os salários cresceram 0,6% (mais do que antes dos acordos com a União). A economia cresceu acima da média europeia e mais de metade das exportações da Suíça vão, graças à abertura dos mercados, para a União. Ninguém no seu prefeito juízo põe em causa as vantagens deste país rico, livre dos constrangimentos do euro e dos tratados, cercado por estados membros, manter estes acordos com a União. Mas os referendos não definem políticas coerentes nem estratégias económicas. E recusam o cinzento de que resulta qualquer processo negocial.”

O Daniel Oliveira inverte a ordem cronológica dos factos históricos: ou seja, segundo ele, a Suíça já tinha beneficiado de Schengen (que é o que está em causa aqui) antes de ter adoptado Schengen! Depois disto, pouco mais há a dizer acerca do textículo.

daniel oliveira dark vader[4]Gentalha como o Daniel Oliveira confunde propositadamente o conceito de “democracia directa” — tal qual era entendida na Atenas grega, o que é objectivamente impossível nas sociedades modernas com milhões de habitantes —, por um lado, com “democracia participativa”, por outro lado, em que existem pacificamente mecanismos referendários no interior de uma democracia representativa. Burros como o Daniel Oliveira confundem sistematicamente “legalidade” e “legitimidade”; e claro que os me®dia aplaudem e corroboram, porque não há poder mais ilegítimo do que o da comunicação social.

Para o Daniel Oliveira e gentalha da sua espécie (incluindo o deputado João Almeida do CDS/PP, por exemplo), os referendos só são bons se as sondagens indiciam que eles vão ganhar. Mas “Que horrível cheiro a povo!”.

É preciso que o povo corra com esta gentalha da política para fora; gente estúpida mas que se considera o supra sumo da inteligência; burros que se auto-proclamam de uma elite; “são os mordomos do universo todo, senhores à força, mandadores sem lei, vêm em bandos com pés de veludo, dançam a ronda no pinhal do rei; e se alguém se engana com o seu ar sisudo, eles comem tudo, eles comem tudo…”

Sábado, 1 Fevereiro 2014

O Iluminismo Negativo (parte 2)

Filed under: Política — orlando braga @ 8:42 pm
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O Iluminismo Negativo é uma ideologia política muito perigosa, porque se baseia em um certo irracionalismo que volta a estar na moda, em grande parte em reacção contra o irracionalismo da Esquerda historicista e marxista, a partir da qual irrompeu a partidocracia que vai anulando a própria democracia enquanto expressão de liberalismo político. Por outro lado, a prostituição da democracia também tem sido protagonizada pelo chamado “neoliberalismo”, característico de uma certa direita “Goldman Sachs” e globalista, que tende a ser pelo menos tão internacionalista (a ter aspirações de domínio internacionalista) quando a Esquerda marxista tem ainda.

Enquanto que que Esquerda marxista aproveita-se (“apanha boleia”, por assim dizer) do liberalismo político (leia-se: “democracia”) para o anular através de uma crescente burocratização do Estado (por exemplo), o Iluminismo Negativo aproveita-se da degeneração do liberalismo para fazer a crítica da democracia enquanto vontade da maioria — confundindo a democracia como sistema político, por um lado, com o Estado-providência que é uma deriva degenerescente da democracia, por outro lado.

O Iluminismo Negativo faz uma interpretação errada do Iluminismo — e seu sou insuspeito para falar porque sou também um crítico do Iluminismo, mas por razões bem diferentes. Kant, talvez o último dos genuínos iluministas, escreveu o seguinte:

“Um governo que fosse fundado sobre o princípio da benevolência para com o povo, tal como a do pai para com os filhos, quer dizer, uma governo paternal (imperium paternale), no qual, por consequência, os súbditos, quais filhos menores, incapazes de decidir do que para eles é verdadeiramente útil ou prejudicial, são obrigados a comporta-se de maneira unicamente passiva, a fim de esperar apenas do juízo do Chefe de Estado o modo como devem ser felizes, e apenas da sua bondade que ele igualmente o queira — um tal governo, digo, é o maior despotismo que se pode conceber 1

Como se pode ver, o iluminista Kant não poderia concordar, de modo nenhum, com o Estado-providência. Kant referia-se, na sua crítica, ao Camaralismo ou Wohlfahrtsstaat, ou ainda, assim designado também, “Estado de Polícia”, que foi a variante alemã do absolutismo francês. Note-se que o Iluminismo Negativo adopta aquilo a que chama de “Neo-camaralismo”, de que falarei noutro verbete.

Portanto, dizer que o Iluminismo Negativo é a negação do Iluminismo porque alegadamente aquele combate o Estado-providência e este último já não o fez, é falso. Mas o problema é que gente estúpida e ignorante acredita naquela lengalenga de Nick Land como sendo “factos históricos”. E por isso é que o Iluminismo Negativo é perigoso: é acientífico do ponto de vista da História das Ideias, é Hobbeseano e está longe de ser uma forma de Tradicionalismo político: pelo contrário, é parte integrante do movimento revolucionário que o próprio Iluminismo Negativo critica. É como uma cobra que morde a sua própria cauda.

Nota
1. Kant, “Teoria e Prática”, 1793, II, p. 31


Se a democracia é a “tirania da maioria”, ainda assim prefiro a “tirania de uma maioria” a uma “tirania de uma minoria”.

A democracia vista como “tirania da maioria”

Filed under: A vida custa — orlando braga @ 6:28 pm
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Se a democracia é a “tirania da maioria”, ainda assim prefiro a tirania de uma maioria a uma tirania de uma minoria.

O Dark Enlightenment — o novo fenómeno político e cultural

Filed under: Democracia em perigo — orlando braga @ 12:48 pm
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O Dark Enlightenment — traduzindo: “Iluminismo Negro”, o que quer significar um “Iluminismo Negativo” — é um movimento filosófico e político que se move já em determinados círculos culturais nos Estados Unidos e no Reino Unido. Por uma questão de facilidade de expressão e de respeito pela nossa língua, vou utilizar a expressão “Iluminismo Negativo”.

O Iluminismo Negativo tem origem no “filósofo” inglês Nick Land; e embora parta de pressupostos, em grande parte, assertivos e até historicamente verdadeiros, acaba por chegar a conclusões erradas porque se baseia em uma “lógica indutiva” aplicada à História das Ideias (ver “lógica da indução”).

O discurso de Nick Land é labiríntico, e por vezes parte de princípios errados — por exemplo, o princípio segundo o qual “Rousseau defendeu a democracia”: o conceito de “Vontade Geral” de Rousseau não significa “vontade da maioria”, por um lado; e, por outro lado, os totalitarismos do século XX foram todos eles escorados no princípio de “Vontade Geral” de Rousseau. Dizer que “Rousseau defendeu a democracia” é não ter compreendido as ideias de Rousseau.

Nos próximos verbetes, e com tempo, vou dar aqui a minha opinião acerca do Iluminismo Negativo. Entretanto, quem quiser consultar alguma coisa sobre o assunto, pode fazê-lo aqui.

Sexta-feira, 31 Janeiro 2014

Esqueçam a democracia (2)

Filed under: Política,Portugal — orlando braga @ 10:40 am
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A democracia e os seus mecanismos (que inclui o referendo) dependem de uma tradição.

Ora, é a construção e aprofundamento dessa tradição que a actual classe política recusa ao povo. E como não existe tradição de referendos, o povo não participa neles; e como o povo não participa em referendos porque não existe uma tradição de referendos, a classe política vem dizer que “não vale a pena fazer referendos”. É uma pescadinha de rabo na boca que pretende justificar um despotismo iluminado da classe política. Por isso, é obrigação de qualquer português consciente combater esta classe política no seu todo.

Hoje existem uma classe política e elites diferentes das que existiam nas décadas de 1980 e 1990: já não existe debate livre e racional, porque as elites só não estão de acordo em assuntos de politiquice; e o desacordo em relação à politiquice serve apenas para “atirar areia para os olhos” do povo, tentando dar a impressão de que existem divergências de fundo quando o unanimismo (maçónico) impera.

A “democracia” que temos transformou-se em um farsa para além do tolerável, porque já não existe qualquer respeito tradicional pela discussão racional que conduz ao respeito tradicional pelo método do governo através do debate: hoje só se debate o “interesse” particular deste ou daquele partido, e quando se critica uma política do governo, quase nunca se apresentam alternativas. A democracia portuguesa está armadilhada.

Esqueçam a democracia!

 

O referendo à adopção de crianças por pares de invertidos tem sido posto em causa pela classe política em geral (incluindo o CDS/PP) e pelas elites em geral, com base em uma alegada estratégia de interesse por parte do Partido Social Democrata. Ou seja, não é o referendo em si mesmo que é discutido, mas a alegada estratégia política de um determinado partido que propôs o referendo.

Isto significa que a lógica do questionamento do referendo é o “interesse”. ¿Qual é o teu interesse?. Quando se coloca, em uma discussão sobre o que quer que seja, a pergunta ¿Qual é o teu interesse?, a discussão está minada — porque se desvia o foco da discussão da matéria em causa para a politiquice do “interesse”.


O que se está a passar em Portugal é que a democracia não serve para nada. Votar ou não votar dá no mesmo. O sistema político está montado para que as decisões políticas sejam, cada vez mais e em crescendo, tomadas pelas elites sem consulta popular. Note o leitor que a adopção de crianças por pares de invertidos não fez parte do programa de governo do Partido Social Democrata e do CDS/PP (e nem do Partido Socialista) — e, no entanto, a classe política (incluindo o CDS/PP) prepara-se para reduzir a democracia às decisões das elites.

Isto não é democracia: é uma aristocracia da mediocridade.

Outro argumento contra o referendo — qualquer referendo! — é o de que o povo português é burro — e portanto não vale a pena sensibilizá-lo para as questões referendáveis. O povo português só não é burro quando vota nos partidos políticos, mas logo que os votos são apurados, o povo volta a ser burro. E como o povo é burro, são as elites que decidem sem consultar o povo. O voto passou a ser uma espécie de “cheque em branco” dado pelo povo à classe política.


Portanto, esqueçamos a democracia! Devemos adoptar uma resistência passiva e uma outra activa.

A resistência passiva é a recusa da legitimidade deste regime de mediocridade aristocrata. Ou seja, não votar nunca, para nada. Abstenção total! Deixá-los governar com menos de 50% do total de votos. Torná-los fracos na sua legitimidade política, minar o próprio regime político através da nossa não-participação nele. Deixar a classe política em roda-livre, entregue a si mesma e em um sistema semi-despótico em crescendo, o que vai legitimar ainda mais nossa a oposição ao regime.

A resistência activa é a afirmação pública e publicada na negação do regime. Devemos tratar este regime como uma qualquer ditadura. Denunciar publicamente o despotismo iluminado da classe política (que controla os me®dia), mesmo que corramos o risco certo de sermos ostracizados e mesmo censurados.

A democracia não se negoceia: ou existe ou não existe. Se não existe, passa a valer tudo. Se vivemos em um sistema despótico cujos valores são ditados exclusivamente pela classe política, torna-se legítima qualquer acção para o derrubar.

Sexta-feira, 6 Setembro 2013

O “direito novo” e a revolução

Vamos ver um exemplo de um silogismo:

“Todos os tubarões são pássaros; o meu peixe vermelho é um tubarão; então, o meu peixe vermelho é um pássaro”.

Nenhuma destas duas premissas é verdadeira “materialmente”, ou seja, nenhuma delas corresponde à realidade. Mas o encadeamento que as une umas às outras é válido na sua forma: a conclusão do silogismo é a consequência formal necessária das duas premissas. Portanto, embora o conteúdo do silogismo seja falso, a sua forma está correcta. Esta ideia – da diferença entre conteúdo e forma – é importante para se compreender o que se segue.

Agora vamos citar um trecho de Olavo de Carvalho publicado ontem no FaceBook:

«A definição da democracia como “criação de direitos” é uma das ideias mais perversas que já vi. A substância objectiva de um direito não são as vantagens que ele nominalmente traz ao seu titular: é o dever que ele impõe a terceiros. Quanto mais direitos, mais crescem as obrigações, os controles, a fiscalização, a opressão. A democracia, ao contrário, é a ESTABILIZAÇÃO de um conjunto mínimo de direitos que permanecem inviolados a despeito de toda mudança social e política.»

Finalmente, vamos entrar na crítica que Max Weber fez ao positivismo jurídico (o “novo direito”) do Círculo de Viena e a Hans Kelsen.

(more…)

Quinta-feira, 22 Agosto 2013

Obama e a União Europeia são responsáveis pelo que acontece no Egipto e na Síria

A União Europeia de Durão Barroso e a administração Obama são os responsáveis pelo que está acontecer hoje no Próximo Oriente, nomeadamente no Egipto e na Síria. A diferença é que Obama será julgado nas próximas eleições americanas, ao passo que os burocratas de Bruxelas não foram eleitos para os seus cargos e por isso estão fora da lei. A elite política da União Europeia é uma associação de malfeitores.

O conceito de “democracia” está a ser utilizado para criar o terror e para mudar as linhas de fronteiras no Próximo Oriente.

A crise política no Egipto foi gizada por Obama e pela União Europeia. A ideia é levar o Egipto a uma situação económica e política de tal forma caótica que se torne possível o desmembramento e partilha daquele país. Henri Boulad, um Padre jesuíta egípcio, escreve aqui o seguinte:

«Accords secrets de Morsi pour vendre l’Égypte à ses voisins, morceau par morceau : 40% du Sinaï au Hamas et aux Palestiniens, la Nubie à Omar el-Béchir, et la portion ouest du territoire à la Libye… Tout cela est pain béni pour l’Occident, puisque c’est son œuvre…»

Qualquer pessoa com um pouco de discernimento teria a intuição de que o fenómeno da Primavera Árabe “trazia água no bico” (ler o que eu escrevi sobre o assunto). Quando falamos aqui em “Ocidente”, devemos distinguir a opinião pública, por um lado, da elite política, por outro lado.

A elite política, apoiada pelos me®dia, conseguiu convencer a opinião pública ocidental que: 1/ o processo político egípcio decorrente das manifestações da praça Tahrir até às pseudo-eleições, foi um “processo democrático”; 2/ que a Irmandade Muçulmana – que instalou um regime de terror no Egipto – é a verdadeira vítima do “processo democrático” naquele país; 3/ que as manifestações da praça Tahrir significavam que o povo egípcio queria a democracia, quando de facto essas manifestações não eram a favor da democracia mas antes eram contra o regime corrupto de Mubarak.

Como escreveu Fernando Pessoa, e bem, o povo nunca se manifesta a favor de alguma coisa, mas invariavelmente contra alguma coisa. Dizer que as manifestações da praça Tahrir foram a favor da democracia, é abuso interpretativo dos me®dia manipulados pelas elites ocidentais.

Deposto Mubarak, o Egipto transformou-se num caos, em nome da “democracia”. O novo presidente “eleito”, Morsi, negociou com o Ocidente o desmembramento de partes do país com o fito de as vender aos países vizinhos, o que fazia parte de um plano ocidental de engenharia política de reestruturação geográfica do Próximo Oriente – o que aliás têm sido feito também na União Europeia através da alienação da soberania dos países pequenos a favor dos grandes países.

O conceito de “democracia” está a ser utilizado para criar o terror e para mudar as linhas de fronteiras no Próximo Oriente.

Quarta-feira, 14 Agosto 2013

A linguagem de ódio

Filed under: A vida custa,Política — orlando braga @ 6:54 am
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A lógica do terror, expressa neste tipo de discurso político, autojustifica-se com a necessidade de destruir pela violência os vestígios do passado e de dar à luz um “mundo novo”, assegurando – se for necessário – pela guerra civil, a vitória da revolução contra um putativo “inimigo” externo, por um lado, e por outro lado, através da profilaxia social, pela purga ou pelo campo de concentração, pretende-se eliminar qualquer “inimigo” interno.

Trata-se de uma “ideologia de granito”, que pretende monopolizar os discursos políticos e históricos, reduzindo a arte, a filosofia e a ciência a meros campos de experimentalismo que anunciam o “homem novo” destituído de natureza humana. E, finalmente, através da ocultação do facto originário da pluralidade das opiniões, pretende conduzir a uma situação de impossibilidade dos indivíduos pensarem por serem incapazes de distinguir os factos, por um lado, das suas respectivas representações, por outro lado.

Para a “ideologia de granito”, é absolutamente necessário que o real seja privado de simbolização para que se possa desencadear, até ao infinito, uma lógica de terror levada a um extremo tal em que o conceito de “delimitação da lei” é por ela sistematicamente colocado em causa, e a procura da verdade é condicionada pela tentativa recorrente de limitar a escolha de fontes de informação à disposição dos cidadãos.

É absurdo que se compare – porque não se trata de uma analogia, mas antes de uma comparação – Bin Laden que não era americano; ou Hitler que não era holandês, por um lado, com o cónego Melo que era português, por outro lado. A “ideologia de granito” tudo faz para privar o real da sua simbolização através da irracionalização do discurso político: a lógica passa a ser o absurdo.

[verbete também publicado aqui ]

Sexta-feira, 14 Junho 2013

Frase do dia

Filed under: A vida custa — orlando braga @ 1:18 pm
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“Estou a cada dia mais convencido de que a burrice é uma força física.
Há pessoas cuja burrice é tão densa que você quase a pode
tocar.
E o pior: burrice assim gera campo gravitacional.”

O especialista em nada

Tocqueville, a democracia e o individualismo

«Sabedores os trezentos, ou quem os dirige, que a civilização europeia, pelos seus fundamentos gregos, é radicalmente individualista; que a civilização moderna é, de per si individualista também, pois que avançou para além da fase corporativista que é característica do início de todas as civilizações e do seu estado semi-bárbaro, viram bem que, convertendo em anti-individualista e corporativista o novo monarquismo, conseguiam um triplo resultado, de três modos servidor dos seus fins: nulificar a acção futura profunda desse monarquismo desadaptando-o do individualismo fundamental da nossa civilização; pô-lo em conflito com o individualismo moderno, nascido do progresso das nações e da multiplicação de entre-relações e culturas; atirar com ele contra os princípios helénicos e clássicos.»

- Fernando Pessoa, o grupo dos 300 e a sua influência cultural na Europa

Quem ler atentamente este blogue verificará nele uma forte influência ideológica de Tocqueville. Eu sou um “tocquevilliano”, entre outras razões porque Tocqueville é hoje muito actual face ao “despotismo democrático” em que vivemos.

Um outro elemento que contraria o “despotismo democrático”, para além das associações, é o Rei. O Rei e as associações de cidadãos livres podem, até certo ponto, sarar as feridas da liberdade, abertas pela erradicação democrática da aristocracia.

O texto de Fernando Pessoa supracitado reflecte o problema central da política, que é a relação entre o indivíduo e a sociedade. Em algumas religiões políticas prevalece o interesse do indivíduo sobre a sociedade e noutras a sociedade sobre o indivíduo. E depois, há nuances entre estes dois extremos, mais ou menos legítimas, mais ou menos falaciosas.

Alguns liberais contemporâneos dizem que Tocqueville era liberal. Nada mais errado. Tocqueville dizia de si mesmo que era “um liberal de uma nova espécie”, e era “demasiado nobre no coração e demasiadamente democrata na razão para poder ser burguês” (1). Ora, um liberal só pode ser burguês, individualista por natureza e essência, que Tocqueville criticou. A crítica de Tocqueville à democracia, ou melhor, a sua crítica à “apatia democrática” e à “patologia da democracia” (para usar expressões de Tocqueville) é dupla: por um lado, é uma crítica à república tal qual existe hoje, por exemplo, em Portugal: uma república que aprisiona a sociedade civil por intermédio do Estado. E, por outro lado, é uma crítica da apatia individualista característica do burguês liberal, e do abandono das virtudes públicas. Por outras palavras, se Tocqueville fosse vivo criticaria as actuais esquerda (estatista) e direita (burguesa e individualista) portuguesas.

alexis_de_tocqueville-300-web.jpg

Alexis de Tocqueville

Portugal é hoje um país onde “já não se escreve tragédia e poesia” (seguem-se, entre aspas e/ou em itálico, citações de Tocqueville), onde as pessoas já não se preocupam nem com a metafísica e com a filosofia em geral, nem com a teologia, que transformam a arte em puros actos de subjectivismo egoísta e narcísico, em que a língua empobrece através de um Acordo Ortográfico imposto pelo Brasil a fim de se colocar a língua ao serviço da indústria e do comércio, em que o espírito do cidadão já não se preocupa senão com o utilitarismo e com o finito. Esta sociedade portuguesa encontra-se à beira de se aniquilar em uma “imobilidade chinesa” e perder a “coragem moral” e “o orgulho ligado à independência”.

A partir do momento em que a modernidade (neste caso, a portuguesa) perseguiu a nobreza aristocrática que fundou Portugal, “fez-se à liberdade uma ferida que nunca sarará”. A sociedade regride quando “a ambição de enriquecer a todo o custo, o gosto pelos negócios, o amor do ganho, a busca do bem-estar e dos gozos materiais” se tornam em paixões dominantes que degradam a nação inteira. O diagnóstico de Tocqueville está hoje à vista de quem quiser ver, com a degradação ética, moral e cultural das nações ocidentais.

Perante a dicotomia do estatismo republicano, por um lado, e da apatia democrática protagonizada por uma burguesia acéfala que implanta na sociedade uma anomia patológica, por outro lado, Tocqueville propõe a introdução e valoração, no sistema democrático, de uma espécie de componente não-democrática: a associação da sociedade civil. A associação proposta por Tocqueville não é uma corporação à moda do corporativismo medieval ou do corporativismo fascista: antes, é uma nova componente anti-sistema democrático burguês e/ou estatista. As associações naturais são, em si mesmas, um princípio não-democrático.

“Creio firmemente que não será possível fundar novamente, no mundo, uma aristocracia; mas penso que os simples cidadãos, associando-se, podem constituir-se como seres muito opulentos, muito influentes, muito fortes, numa palavra, pessoas aristocráticas” — (Da Democracia na América, volume II).

As associações, segundo Tocqueville, são elementos aristocráticos, e por isso, não-democráticos, que escapam ao controlo do Estado democrático e da acefalia burguesa. A nova aristocracia, da modernidade, são as associações de cidadãos livres, em grande parte independentes do Poder do Estado e do Poder da plutocracia. As associações criam vínculos entre os homens que impedem a absorção da sociedade pelo Estado e a instalação do “despotismo democrático”. As associações propiciam a aparição daquilo a que Tocqueville chama de “liberdade superior” que era característica da aristocracia anterior às revoluções burguesas – uma liberdade para fazer grandes coisas e que repudie qualquer tipo de servidão.

Um outro elemento que contraria o “despotismo democrático”, para além das associações, é o Rei. O Rei e as associações de cidadãos livres podem, até certo ponto, sarar as feridas da liberdade, abertas pela erradicação democrática da aristocracia.

(1) “Tocqueville et les deux démocraties”, Lamberti, 1983

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