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Sexta-feira, 13 Janeiro 2017

Existe um plano da ONU de genocídio dos brancos

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 11:15 am
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Quinta-feira, 15 Dezembro 2016

O “eunuco espiritual”, segundo Eric Voegelin

 

Na sua obra “História das Ideias Políticas”, Eric Voegelin explica-nos aquilo que ele chama de “eunucoidismo espiritual”. Vou tentar traduzir aqui esse conceito, segundo Eric Voegelin. Os trechos a itálico reflectem a terminologia do próprio Eric Voegelin.

Com o positivismo, a ciência adquiriu a característica de um pathos (do grego, “paixão”) de autonomia e auto-confiança (ou pathos cientificista), que deriva da verificação da causalidade empírica dos fenómenos. Se uma determinada relação causal fenoménica é constatada pela ciência, esta adquire essa auto-confiança que não existe naturalmente na condição existencial do ser humano.

A condição existencial, natural e normal do ser humano, é a da incerteza; em contraponto, a condição normal da ciência positivista é da “certeza” em função da verificação  empírica  da causalidade de parte dos fenómenos , e de uma auto-confiança que essa “certeza” lhe dá ― pelo menos é assim que a “verdade” da ciência é interpretada pelo eunuco espiritual.

Contudo, o que a ciência e o método positivista não fazem é a pesquisa sobre as “causas primeiras”, ou seja, aquelas causas em relação às quais não existem verificações empíricas de causalidade; essa pesquisa pertence exclusivamente à filosofia. Por exemplo, quando dizemos que “a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre de 180 graus”, a ciência apenas se limita a constatar o axioma (ou a intuição) tal qual ele se nos apresenta (“axioma” “a causa primeira”), sem poder explicar por que é que o axioma existe (a ciência não pode explicar a causa do axioma).

O axioma é assim, por que é ― existe porque existe, e sem qualquer outra explicação de índole causal.

Sem poder explicar as causas primeiras, a ciência transfere a sua precária auto-confiança ― que lhe advém da verificação empírica da causalidade de uma parte dos fenómenos ― para a dimensão existencial do Homem. Assim, o Homem substitui a sua natural e normal condição de incerteza existencial pela “certeza” que alegadamente a ciência lhe traz. Trata-se de uma crença. Através das “certezas” da ciência, o Homem passa a acreditar que a sua existência deixou a incerteza primordial e natural, e passou ela própria (existência decorrente da vida humana) a fazer parte das “certezas” e das “verdades” da ciência.

Esta é a origem do novo ateísmo de Richard Dawkins e do eunucoidismo espiritual do Homem moderno.

eric_voegelinOs eunucos espirituais pensam que, na medida em que a ciência parte de um princípio metodológico acerca das “certezas” já por si adquiridas ― por exemplo, da lei da gravidade ―, esse princípio metodológico científico (a causalidade empírica) pode ser aplicado, de igual modo, no âmbito dos problemas da existência individual e colectiva humanas. A verdade é que muitos cientistas pensam desta mesma maneira, o que faz com que o eunucoidismo espiritual não seja uma característica de uma determinada classe social, mas antes é uma força social.

Esse pathos cientificista assumiu-se como uma força social que atravessa todas as classes sociais, penetrou nas instituições educacionais da sociedade, e não pode ser quebrada facilmente ― se é que pode ser quebrada. O problema já não é, portanto, uma questão de simples ignorância. Se a crença em uma auto-suficiente ordem da existência realizada através da ciência se entrincheirou na sociedade, essa crença transforma-se numa força que evita e nega o cultivo da substância humana e corrói ainda mais os elementos sobreviventes da tradição cultural.

Em consequência do pathos cientificista, a preocupação com a ciência e a posse do conhecimento científico transformaram-se num processo de legitimar a ignorância no que respeita a todos os problemas que jazem para além da ciência dos fenómenos. Assim, em paralelo com as descobertas da ciência, aumenta a ignorância das massas em relação aos problemas da existência humana.

O pathos cientificista traduz-se em um desastre civilizacional, porque na realidade, o conhecimento sobre o ordenamento da existência não pode ser adquirido através da aquisição do conhecimento no sentido fenomenológico ― antes, a compreensão do ordenamento da existência exige uma formação da personalidade através de um processo de educação através das instituições que se criem (ou que já existam) para o efeito.

Os portadores activos do pathos cientificista serão homens deficientes no que respeita aos dons da substância espiritual humana, e a penetração na sociedade do pathos cientificista cria um ambiente que favorece o sucesso social do eunuco espiritual.

Assim, o avanço da ciência e o crescimento do factor racional-utilitarista são acompanhados por uma re-estratificação da sociedade que não pode já ser expressa em termos de classes sociais. Esta re-estratificação da sociedade através do pathos cientificista gera os seus próprios mecanismos de valoração, de prestígio e de sucesso social que alcandora o eunuco espiritual ao estatuto de paradigma cultural.

« Sem o efeito de prestígio do cientificismo, os grandes escândalos intelectuais que decorrem de fenómenos de sucesso social como o positivismo, o evolucionismo darwinista, ou o marxismo, seriam impensáveis. »

― Eric Voegelin

Terça-feira, 26 Julho 2016

A “estagnação secular” e a Religião da Humanidade

 

Ontem, em um programa na RTP3, três economistas falaram da “estagnação secular”. Um deles (de Esquerda) fez referência a Karl Marx, e outro (da Não-Esquerda) afirmou que a solução para o problema da estagnação económica é uma (ainda) maior globalização das economias (internacionalização). Vemos como a Esquerda e a Não-Esquerda estão de acordo em pontos essenciais sobre este assunto.

Em ambos os casos (na Esquerda e na Não-Esquerda) verificamos a eliminação do elemento ético nas relações económicas, e a redução de toda a realidade humana à economia.


Segundo Karl Marx (“Ideologia Alemã”), a estagnação da economia deve-se às “relações de propriedade” — que é a relação que existe entre as “forças produtivas” e as “relações de produção”: alegadamente, quando as “forças produtivas” atingem determinado estado de desenvolvimento, “entram em contradição” com as “relações de produção”, e essa “contradição” é a causa da estagnação económica.

Quando os marxistas e os neoliberais reduzem a realidade inteira à economia, simplificam o que é complexo e adoptam um pensamento dogmático que ignora as retroacções da História. A História é vista por eles como sendo linear e progressiva, sem possibilidade de recuperação, por parte da sociedade, de conceitos do passado; e quando esses conceitos retroactores surgem, marxistas e neoliberais adoptam o ad Novitatem, fazendo com que o “novo” nunca possa ter qualquer coisa em comum com o “velho”.

A reacção contra a estagnação secular já se está a fazer sentir. Por exemplo, o Brexit é uma reacção à estagnação económica na União Europeia; a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos também; na Hungria temos o Viktor Orbán com os 12% de IRS universal; fenómenos similares acontecem na Irlanda, na Polónia, na Rep. Checa, ou mesmo na Eslovénia. No Japão, a reacção à estagnação secular é por demais evidente:

“This week, Japan’s Liberal Democratic Party and its coalition partners won a two-thirds majority in the legislature’s upper house, to go along with their two-thirds majority in the lower house. A two-thirds majority is required in each house to begin the process of amending Japan’s constitution. And amending the constitution is one of the central planks in the LDP’s platform”.

Japan’s New Fascism

Os direitos humanos, entendidos em si mesmos como uma política, tende a ser colocada em causa ou questionada. Os Direitos do Homem não são uma Política [Marcel Gauchet, “Le Débat”, 1980].


É neste contexto que surge a imigração aberta e suicida na Europa. É uma fuga para a frente, no sentido errado.

mulher islamica em inglaterra kodachromeAntes de o problema da “estagnação” ser económico — é metafísico, ético, cultural e político. Os “comunistas do mercado” (os neoliberais) e os “comunistas da revolução” (os marxistas) descobriram a vantagem da imigração em massa, e dizem que os resultados são excelentes: ambos pensam que saem a ganhar do negócio da imigração em barda.

A instalação multiculturalista de comunidades de imigrantes acelera a proletarização dos imigrantes, e também reduz os trabalhadores indígenas (os brancos europeus) à antiga condição de proletários: privados da protecção de uma nação coerente, tratados como “suspeitos históricos” pelo poder político controlado pelos “comunistas do mercado” (os neoliberais) e pelos “comunistas da revolução” (os marxistas), os europeus indígenas perdem as suas últimas imunidades comunitárias: transformam-se em uma versão actualizada dos proletários do século XIX, em zômbis em potência.

Esta estratégia de proletarização geral da sociedade convém tanto aos neoliberais como aos marxistas, embora por razões distintas — é aquilo a que eu chamei de sinificação.

Trata-se de uma aliança entre Trotski e Hayek.

O neoliberalismo utiliza os velhos intelectuais marxistas (por exemplo, Francisco Louçã, José Pacheco Pereira, Daniel Oliveira, etc.) que são os seus compagnons de route, e que se transformam no novo clero inquisitorial da Religião da Humanidade (esse novo ópio do povo): uma religião que se baseia nas tábuas da lei dos direitos humanos, ou seja, nos direitos dos zômbis, e que se transformam nos deveres do Homem. A Religião da Humanidade tem os seus dogmas, e o seu braço secular: a União Europeia e os tribunais nacionais e internacionais.

Um dos instrumentos privilegiados de controlo dos zômbis europeus por parte dos “comunistas do mercado” e dos “comunistas da revolução”, é a exploração sistemática do sentimento de culpa colectiva dos europeus: a Victimilogia “virou” ciência, e transformou-se em um sistema de legitimização de uma sociedade pouco legítima.

“A classe que tem o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a que tem o poder espiritual do dominante” → Karl Marx, “Miséria da Filosofia”

¿Quem detém hoje o Poder espiritual dominante? É a Religião da Humanidade. E repartem entre si o poder material. Trata-se de uma aliança que aparece ao povo como a mistificação de uma cisão política. É a nova “superstrutura” constituída pelos “comunistas do mercado” e pelos “comunistas da revolução” (Karl Marx pode ser útil, mesmo quando é inútil).

Sexta-feira, 15 Julho 2016

Para a Raquel Varela, os verdadeiros terroristas são os que denunciam o terrorismo

 

O Iluminismo transportou consigo a própria negação do Iluminismo, através do Romantismo. A Raquel Varela faz lembrar Rousseau:

“A organização colectiva das pessoas é a única forma de sairmos vivos do declínio histórico que estamos a viver e que faz o declínio do feudalismo parecer uma brincadeira de meninos”.

É claro que “o declínio histórico que estamos a viver” não tem nada a ver com as ideias da Raquel Varela. Ela é impoluta (entre outras coisas). Atira a pedra e esconde a mão; comete o crime sem deixar impressões digitais; e continua a ter acesso aos me®dia em posição de Vampe.

Conclui a Raquel Varela o seu raciocínio romântico afirmando que o camião de Nice foi conduzido por um terrorista ou por um louco (ela não tem a certeza se é terrorista ou louco), e que se trata de uma excepção, porque há muitos camiões que não são conduzidos por terroristas ou loucos; e por isso, não devemos generalizar o comportamento dos condutores de camiões e considerá-los todos terroristas ou loucos.

“A distopia é usar o excepcional e torná-lo na norma, usar a barbárie e concluir que nada podemos fazer a não ser fugir. Fugir para onde? e de quem?”

E — continua a Raquel Varela —, quem denuncia publicamente esses actos isolados e excepcionais dos poucos condutores loucos ou terroristas, está a usar a barbárie para criar o pânico social, ou seja, os verdadeiros terroristas são os que denunciam o terrorismo.

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Quarta-feira, 13 Julho 2016

O marxismo é o ópio dos intelectuais.

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 10:28 am
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Naturalmente que o conceito de “intelectual” vulgarizou-se, como podemos ver em Raquel Varela. Um intelectual é hoje uma pessoa que diz umas coisas; e sobretudo é uma pessoa que leu Karl Marx sem ter lido, por exemplo, David Hume ou Karl Popper.

Se lermos este textículo da Raquel Varela, não constatamos apenas ignorância: sobretudo a estupidez da criatura.

Naturalmente que, para a Raquel Varela, não existia “angústia social” na URSS ou em Cuba; ou então, esses países traíram a revolução: a verdadeira revolução está para chegar, à semelhança do Messias judeu da escatologia. A verdadeira revolução irá acabar com as “angústias social e religiosa” e com a “dor real” da existência humana: passaremos todos a ser super-homens.

É (também) por existirem criaturas como a Raquel Varela que sou um reaccionário: não acredito que os problemas fundamentais do ser humano tenham soluções humanas.

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Domingo, 12 Junho 2016

Continuam as asneiras sobre o fascismo e comunismo

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 12:01 pm
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« When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa. » — Eric Voegelin

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O Renato Epifânio também deu a sua opinião sobre a polémica gerada pelo José Rodrigues dos Santos.

«Não, não foi por acaso, nem sequer de forma ilegítima, dado que o fascismo foi, a seu modo, uma variante do socialismo – um “socialismo de direita”».

Remeto para a diferença entre o romantismo e o racionalismo. Não confundam as duas coisas. E, por favor, não digam que o corporativismo medieval (as guildas, as confrarias, etc.) — que o fascismo pretendeu emular, de forma anacrónica — era uma “variante do socialismo”. Tenham dó!

“Dito isto, José Rodrigues dos Santos não tem razão na sua tese (algo provocatória, reconheça-se) de que “o fascismo tem origem no marxismo”. Já teria mais razão se defendesse que o fascismo e o comunismo têm, em parte, origens comuns, sendo que, para tal, teria de recuar muito mais na história. Recuemos nós a Platão (século V a.C.) e à sua “República” e perguntemos: a utopia platónica era mais proto-fascista ou mais proto-comunista?”

O Epifânio tem razão quando diz que há uma origem comum ao fascismo e ao comunismo, mas essa origem comum não se encontra em Platão. Quando se utiliza o conceito de “colectivismo” para designar toda a doutrina social que sacrifica o indivíduo à colectividade — que é o que o Epifânio faz —, incorre-se em abuso.

“Colectivismo” é um termo empregue em dois sentidos:

1/ de maneira histórica, para designar a doutrina dos socialistas não-estatistas do Congresso de Basileia de 1869.

2/ Hoje, para designar as experiências socialistas que só parcialmente resultam do marxismo, e que se caracterizam por uma intervenção moderada do Estado que se exerce através da planificação e das nacionalizações parciais (por exemplo, o socialismo da Índia ou os Kibutzim em Israel).

Ou seja, não confundir “colectivismo” com “comunismo” (marxista); e não confundir “colectivismo” com “fascismo”.

As origens comuns do fascismo e do comunismo encontram-se na Idade Clássica e na Razão de Estado (que não exista, como tal, na Esparta de Platão), e já no século XVIII, nos enciclopedistas franceses e principalmente em Rousseau e no seu conceito de "Vontade Geral". Dizer que as origens comuns do fascismo e do comunismo encontram-se em Platão, é um anacronismo (falácia de Parménides).

“Isso levou a que o fascismo acentuasse a sua dimensão anti-comunista, que não anti-comunitarista, bem como a outros desvios em relação às suas teses de raiz – sendo talvez o exemplo maior a sua relação com o cristianismo: em tese, o fascismo tende a ser anti-cristão (pelo seu anti-igualitarismo, desde logo); na prática, como sabemos, houve, nalguns casos, uma aproximação mútua, por mais que, em tese, o cristianismo esteja bem mais próximo do comunismo do que do fascismo (não é por acaso que muita gente, ainda hoje, e com bons argumentos, considera o comunismo como uma versão ateia do cristianismo)”.

Confusão de grelos.

O fascismo italiano (o genuíno) não era anti-cristão; pelo contrário!; e perseguiu ferozmente a maçonaria; e inicialmente não era declaradamente anti-semita: o anti-semitismo do fascismo italiano foi mais tarde imposto a Mussolini por Hitler. Dizer que “o fascismo é anti-cristão” é falso, por um lado, e por outro lado reduz o fascismo ao nazismo. Para o Epifânio, “fascismo = nazismo” (está na moda, nos meandros da chamada “extrema-direita”).

Mas mesmo o nazismo não era anti-cristão: era anticatólico, o que é diferente. O nazismo encontrou fortes bases sociais de apoio no luteranismo. O paganismo do nazismo tinha apenas como objectivo o fortalecimento do sentimento nacionalista alemão, e não tinha um suporte social e cultural alargado.

Por outro lado, está na moda (politicamente correcto) conceber o Cristianismo como uma forma de marxismo (ou melhor: vice-versa). O Epifânio não foge à regra.

  • O Cristianismo sempre separou o Estado (o Poder político) e a sociedade em geral;
  • o Cristianismo nunca pretendeu eliminar as hierarquias sociais (ver, por exemplo, S. Paulo);
  • o Cristianismo defendeu o respeito pelo Direito Natural (jusnaturalismo), e não um igualitarismo;
  • o Cristianismo é transcendente e dualista; o marxismo é imanente e monista;

Quinta-feira, 9 Junho 2016

A Direita portuguesa obedece aos critérios marxistas de discussão política

Filed under: Política — O. Braga @ 8:00 pm
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“O problema de PSD e CDS, nesta altura, é que reduziram a diferença face ao PS – ainda por cima nesta direcção comunista, do velho MES leninista e revolucionário – à questão do dinheiro (a economia…e… e…!…)”.

→ ABC : “A degenerescência de PSD e CDS

Tenho afirmado aqui isto desde, pelo menos, 2009. A política portuguesa foi reduzida à economia, o que é uma herança marxista. Ou seja, o CDS/PP e o Partido Social Democrata obedecem aos critérios de debate impostos pela Esquerda.

As circunstâncias sociais a ter em conta são tanto políticas como económicas: relacionam-se com o Poder, de que a riqueza é apenas uma forma. Ou seja, o Poder não se reduz ao dinheiro, à riqueza e à economia.

Para se conseguir o Poder, tem que se controlar a cultura antropológica. Para se controlar a cultura antropológica, tem que se manipular a ética, por um lado, e, por outro lado, criar uma determinada metafísica de acordo com o Zeitgeist.

Temos, pois:

  • metafísica → ética → política → cultura antropológica → economia

A metafísica marxista é monista  e imanente ; a ética marxista é antropocêntrica.

Quando a Esquerda impõe a toda a sociedade a sua metafísica e a sua ética, já ganhou a batalha política; e apenas resta à “Direita” divergir na economia.

Mas, à medida que a cultura antropológica se vai alienando da realidade e transferindo a sua autonomia para o Estado, é uma questão de tempo que Passos Coelho e Assunção Cristas se transformem em meros porta-vozes de correntes divergentes no seio da Esquerda.

Sexta-feira, 3 Junho 2016

Um recado ao José Rodrigues dos Santos: o “romantismo” não é a mesma coisa que “racionalismo”

Filed under: Política — O. Braga @ 10:25 pm
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Num verbete anterior, demonstrei que o que existe em comum entre o marxismo e o fascismo, é Rousseau. A seguir faço um resumo das consequências das ideias de Rousseau no século XIX.

A vida intelectual do século XIX foi mais problemática do que a de qualquer século anterior, porque a ciência — que teve a sua fonte no século XVII — fez novas descobertas na biologia, na geologia e na química orgânica. E depois, a produção mecânica alterou a estrutura social e promoveu uma mentalidade prometaica na cultura antropológica. E, principalmente, aconteceu no século XIX uma revolta profunda contra os sistemas de pensamento em política e em economia.

Esta revolta teve duas formas diferentes: uma romântica, e outra racionalista.

A revolta romântica — que teve origem em Rousseau — vai de Byron, Schopenhauer e Nietzsche a Mussolini e Hitler; a revolta racionalista começa com os filósofos da Revolução Francesa (os enciclopedistas) e passa em Marx e vai desembocar à URSS.

A maioria dos filósofos da Revolução Francesa combinou a ciência (Positivismo) com crenças associadas com Rousseau. Helvetius e Condorcet podem considerar-se típicos da combinação de racionalismo e entusiasmo.

Os homens revoltados contra a tradição eram, como vimos, de duas espécies: racionalista ou romântica, embora, em alguns, como em Condorcet, se combinem os dois elementos. O movimento racionalista — de que fizeram parte também os apaniguados de Bentham — só veio a adquirir uma filosofia completa (um sistema) com Karl Marx.

Embora derivadas ambas da Revolução Francesa e dos filósofos imediatamente anteriores, a forma romântica de revolta é muito diferente da racionalista!

A primeira vê-se em Byron, sem traje filosófico; mas em Schopenhauer e em Nietzsche usa-se a linguagem da filosofia. A revolta romântica tende a elevar vontade à custa do intelecto; a impacientar-se com as cadeias de raciocínios, a glorificar certas formas de violência; é nacionalista; tende a ser hostil à Razão e a ser anticientífica. Algumas das suas formas mais extremas encontra-se nos anarquistas russos, mas na Rússia prevaleceu, por fim, a forma racionalista de revolta. Foi a Alemanha, sempre mais susceptível ao Romantismo do que qualquer outro país, que deu saída governamental à filosofia anti-racional da vontade nua.

Sábado, 28 Maio 2016

É Rousseau, estúpido!

 

Quando alguém da Esquerda pensa com lógica (coisa rara, aliás), sou obrigado a dar-lhe razão (por muito que me custe; e por vezes custa-me muito). Mas em Portugal há um maniqueísmo generalizado: a Esquerda diz que Direita nunca tem razão, e vice-versa; a Esquerda começou com a tolerância repressiva, e agora a Direita imitou a Esquerda. A política transformou-se em manicómio.

Na sequência da ideia de José Rodrigues dos Santos segundo a qual “o fascismo evoluiu a partir do marxismo”, um Insurgente (que é professor universitário, e por isso não tem desculpa), parece corroborar essa ideia:

“Não li o mais recente livro de José Rodrigues dos Santos mas, independentemente da sustentação que essa afirmação possa ter (ou não) no livro, a verdade é que está longe de ser um disparate, podendo a ligação entre marxismo e fascismo ser razoavelmente defendida por vários prismas. Dentro das limitações inerentes a um artigo como este, gostaria de realçar duas: as muitas semelhanças práticas entre regimes de inspiração marxista e fascista e as similitudes no plano ideológico”.

De Marx a Mussolini

E depois o professor universitário (com alvará de inteligência e tudo!) elabora uma lista de “similitudes” entre o marxismo e o fascismo, fazendo de conta de que as diferenças culturais são de tal grandeza que tornam as “similitudes” despiciendas.


O que há em comum entre o fascismo e o marxismo é, em primeiro lugar, o Romantismo do século XVIII, e mais precisamente o Contrato Social de Rousseau e o seu conceito de "Vontade Geral". E depois o marxismo adicionou o Positivismo à receita de Rousseau.

A “vontade geral” de Rousseau não é idêntica à vontade da maioria ou até à da totalidade dos cidadãos.

Rousseau entende a “vontade geral” como a vontade do corpo político que se assume arbitrariamente como intérprete da vontade do povo, na medida em que Rousseau considera a sociedade civil como uma pessoa e com atributos de uma personalidade ― tal como Hobbes ― que inclui o atributo da vontade. Segundo Rousseau, a sociedade civil não é (ou não deve ser) um conjunto de indivíduos organizados, mas antes uma pessoa colectiva.

Segundo Rousseau, o que interfere com a expressão da “vontade geral” é a existência de “associações subordinadas” ― ou seja, comunidades da sociedade civil ― dentro do Estado. Segundo Rousseau, cada uma delas quer ter a sua vontade geral, que pode ser oposta à da comunidade como um Todo. Escreve Rousseau:

»pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo«.

rosseauAs consequência práticas ― e se levadas até ao limite delas ― das ideias de Rousseau são as de que o Estado teria que proibir as igrejas ― excepto a igreja do Estado, que no caso português é cada vez mais a Maçonaria ―, proibir partidos políticos, sindicatos e todas as organizações de homens com interesses económicos e/ou políticos semelhantes. O resultado seria obviamente o Estado corporativista e/ou totalitário, em que o cidadão nada pode, isto é, em nome do diálogo directo entre o cidadão, entendido como indivíduo isolado, por um lado, e o Estado, por outro lado, Rousseau condena assim o cidadão à subordinação impotente inerente ao anonimato total.

O conceito negativista de democracia, segundo Rousseau, tem além do mais, uma outra particularidade: ele baseia-se na democracia da cidade-estado grega, e particularmente na democracia de Esparta em antagonismo com a democracia de Atenas. Porém, Rousseau diz que a democracia é de realização impossível porque o povo não pode estar sempre reunido para deliberar sobre os negócios públicos. Escreve Rousseau:

“Se o povo fosse composto por deuses, o governo seria democrático. O governo perfeito não é para os homens”.

Em consequência, aquilo a que os democratas chamam de “democracia”, Rousseau e os seus herdeiros ideológicos, chamam de “aristocracia electiva”, que ele quer dizer ser o melhor governo mas que não é possível em todos os países:

o clima não deve ser nem muito quente nem muito frio; a produção não deve exceder muito o necessário porque senão o demónio do luxo é inevitável; e o melhor é confinar a “aristocracia electiva” ao controlo de uma elite política, do que difundir a democracia na população.

Com tais limitações estabelecida por Rousseau para aquilo que ele entende por democracia, há largo campo aberto a um governo despótico.

O Contrato Social foi a "bíblia" da maioria dos chefes da Revolução Francesa ― incluindo Robespierre que era amigo íntimo de Rousseau ―, mas como é a sorte das bíblias, não foi bem lido e ainda menos compreendido por muitos discípulos: a sua teoria da “vontade geral” tornou possível a identificação mística do chefe com o povo, o que levou ao caudilhismo que não precisa de ser confirmado por coisa tão mundana como a urna de voto.

Hegel seguiu Rousseau para formatar a autocracia prussiana que levou à primeira grande guerra. Robespierre reinou segundo os princípios de Rousseau, e segundo este foram também formatados os princípios de afirmação política dos jacobinos. As ditaduras russas e alemã do século passado ― principalmente a última ― foram consequências da doutrina de Rousseau.

Quinta-feira, 26 Maio 2016

José Rodrigues dos Santos e o fascismo

Filed under: Política — O. Braga @ 10:13 am
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José Rodrigues dos Santos tem uma imaginação fértil que lhe deu algum sucesso literário, mas já não é a primeira vez que revela a sua ignorância em epistemologia ou em filosofia.

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Dizer que o fascismo é de origem marxista é o mesmo que dizer que um indivíduo pode ser o pai de um seu primo direito.

O marxismo e fascismo são vergônteas do Romantismo do século XVIII (por exemplo, com Rousseau) [esta opinião é corroborada, por exemplo, por Bertrand Russell]. Digamos que o fascismo e o marxismo são só “primos direitos” desavindos. Isto significa que o articulista Paulo Pena está errado quando escreve:

“A prova de que não há uma origem comum entre as duas ideologias é avançada pelo historiador inglês Tony Judt no seu livro Pensar o Século XX: “Quando falamos de marxistas podemos começar com os conceitos. Os fascistas não tinham, na realidade, conceitos. Tinham atitudes. Têm respostas distintivas a questões como a guerra, a depressão e o atraso. Mas não começam com um conjunto de ideias que depois tentam aplicar ao Mundo.”

Paulo Pena confunde o “antagonismo entre o fascismo e o marxismo”, por um lado, com “a origem comum” dos dois movimentos, por outro lado. A origem comum dos dois movimentos está em Rousseau e no Romantismo em geral (incluindo Lord Byron).

Sexta-feira, 29 Abril 2016

O Fernando Rosas é uma contradição com duas pernas

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 9:29 am
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O Fernando Rosas tem razão quando critica o “fim da História” de Francis Fukuyama; mas perde a razão quando defende o “fim da História” de Karl Marx. O Fernando Rosas tem uma visão maniqueísta da História que é, segundo ele, o palco da luta das forças do bem contra as forças do mal. Essa visão maniqueísta caracteriza os gnósticos modernos e os puritanos contemporâneos; a diferença fundamental entre os gnósticos modernos e os da Antiguidade Tardia é a de que os primeiros têm uma religiosidade imanente, ao passo que a religiosidade dos segundos era transcendente.

O Fernando Rosas tem razão quando critica o presentismo:

No entanto, identificou os processos pelos quais, na actual sociedade portuguesa, se desenvolvem as “tentativas de reinterpretação” do passado recente. A primeira que apontou foi a “desmemória” criada pelos media, pela escola e as novas tecnologias, que criam um ambiente de “presente contínuo”, que significa “uma forma de manipulação da memória” pelo “apagamento de acontecimentos, de processos históricos e de valores que transportem do passado um potencial subversor da nova ordem que se pretende estabelecer”. “Uma espécie de amoralismo paralisante” que inculca “a aceitação acrítica da lei do mais forte, da injustiça social, da destruição das forças produtivas”, disse.

Mas o Fernando Rosas perde a razão quando se verifica que o corte radical com o passado (cultural, tradicional, epistemológico) é característica da revolução marxista que ele defende. O presentismo é uma consequência cultural da tentativa da construção marxista do Homem Novo, em que o passado histórico é desconstruído e denunciado como negativo à luz da dialéctica hegeliana que define o progresso como uma lei da Natureza. A responsabilidade do Diktat cultural do presentismo não é apenas dos neoliberais: os marxistas são também responsáveis (juntou-se a “fome” com a “vontade de comer”, em uma conjunção de vontades que destrói a sociedade).

O Fernando Rosas reduz a moral à economia; ou seja, a ética e o valor da justiça são reduzidas às relações económicas. É certo que a equidade é uma característica da justiça, mas ficamos sem saber por que razão o Fernando Rosas critica a lei do mais forte (darwinismo social) ao mesmo tempo que defende o aborto, por exemplo. Se há exemplo escandaloso da lei do mais forte é o exercício discricionário do aborto, porque configura um acto gratuito que representa o exercício de um arbítrio total.

O Fernando Rosas é uma contradição com duas pernas. O rei vai nu.

Quinta-feira, 17 Março 2016

Hoje é coisa fina não ser “conservador nos costumes”

 

Hoje é chique não ser “conservador nos costumes”; fica bem; dá uma áurea de super-homem; é ser progressista, aparentemente partilhando com a Esquerda a excentricidade do “génio individual”. A preocupação do liberal que se preze é o de não ser “conservador nos costumes”, para poder defender, perante a Esquerda, o conservadorismo na economia. Cede num lado para poder afirmar-se noutro; trata-se de uma cedência. Mas a verdade é que não existe conservadorismo na economia nem nos costumes: o que existem são políticas económicas erradas (por exemplo, o socialismo) e costumes errados.

Dificilmente poderei ser considerado um conservador nos costumes. Sou a favor da legalização total das drogas, do jogo e contra a existência do crime de lenocínio. Acho que o contrato de casamento não deve ser tipificado, mas a sê-lo não deverá impôr restrições de género ou número. Acho que um casal deve poder recorrer aos métodos que achar necessários para constituir família desde que não viole os direitos de outrem, e considero a institucionalização como o pior destino possível a dar a uma criança que perca os pais biológicos. Com o aborto, é diferente”.

Como dizia Nicolás Gómez Dávila, “o individualismo é o berço da vulgaridade”. Porém, na Esquerda, a defesa das mesmas teses libertárias das do escriba liberal não tem um cariz individualista ou utilitarista — e é isto que é difícil de perceber. Ou seja, o liberal de direita e o “libertário” de esquerda concordam sobre as mesmas coisas, mas com fundamentos diferentes.

Por exemplo, o João Semedo (Bloco de Esquerda) diz que basta que os cuidados paliativos não se apliquem, na redução do sofrimento, a uma só pessoa, para que a eutanásia deva ser legalizada. Ou seja, basta que a situação de doença terminal de uma só pessoa não possa ser abrangida pelos cuidados paliativos, para se impôr a legalização da eutanásia para todos.

Isto é tudo menos utilitarismo, que se baseia na máxima da “maior felicidade para o maior número”, e não na da “maior felicidade para todos”.

Nos países anglo-saxónicos ou do norte da Europa, onde o aborto e a eutanásia foram legalizados, seguiu-se o princípio utilitarista da “maior felicidade para o maior número” — e por isso é que a eutanásia descambou e passou a ser “suicídio a pedido do cliente” de qualquer idade. Mas a Esquerda não tem uma tradição utilitarista; aliás, Karl Marx dizia pejorativamente que “o utilitarismo é moral de merceeiro inglês”.

A posição do João Semedo acerca da “eutanásia para todos por causa de um só”, não é utilitarista.

Então, ¿o que é? ¿Será que a ética do João Semedo é ontológica (kantiana)? Também não. A ética do João Semedo é teleológica. É uma ética de terra queimada, na esteira de Gramsci; é preciso não olhar a quaisquer meios para atingir o fim da destruição da ética judaico-cristã que, alegadamente, sustenta o capitalismo.

A tese da “eutanásia para todos por causa de um só” aparece, na praça pública, travestida da defesa dos direitos daquele indivíduo.

Faz-se o apelo à emoção por causa daquele indivíduo em particular, entre milhões de outros, que não pode ser abrangido pelos cuidados paliativos. A tese da “eutanásia para todos por causa de um só”, do João Semedo, até parece a ética da Misericórdia cristã do papa-açorda Francisco. Um liberal de direita até poderia defender a legalização da eutanásia em nome do individualismo; o João Semedo defende a legalização da eutanásia em nome de uma utopia colectivista que subverta a ordem natural da realidade. No meio disto tudo, o inteligente é o João Semedo, e os liberais são os idiotas úteis.

O critério do João Semedo que se aplica à eutanásia foi o mesmo aplicado pela Esquerda à legalização do aborto.

Não é um critério utilitarista (como o que existe, por exemplo, em Inglaterra ou nos Estados Unidos em relação ao aborto) — porque a cultura antropológica portuguesa não tem uma tradição utilitarista —, mas é um critério subversivo e colectivista utópico, que visa minar a cultura antropológica no sentido de “criar as condições necessárias” na cultura antropológica para uma revolução (mais ou menos violenta).


O liberalismo do insurgente é um momento do processo revolucionário do João Semedo:

« Há muitos motivos para você ser contra o socialismo, mas entre eles há dois que são conflitantes entre si: você tem de escolher. Ou você gosta da liberdade de mercado porque ela promove o Estado de direito, ou gosta do Estado de direito porque ele promove a liberdade de mercado. No primeiro caso, você é um “conservador”; no segundo, é um “liberal”.

(…)

Ou você fundamenta o Estado de direito numa concepção tradicional da dignidade humana, ou você o reinventa segundo o modelo do mercado, onde o direito às preferências arbitrárias só é limitado por um contrato de compra e venda livremente negociado entre as partes.

(…)

O conservadorismo é a arte de expandir e fortalecer a aplicação dos princípios morais e humanitários tradicionais por meio dos recursos formidáveis criados pela economia de mercado. O liberalismo é a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários.

O conservadorismo é a civilização judaico-cristã elevada à potência da grande economia capitalista consolidada em Estado de direito. O liberalismo é um momento do processo revolucionário que, por meio do capitalismo, acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de direito. »

Olavo de Carvalho, “Por que não sou liberal”

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