perspectivas

Sábado, 28 Maio 2016

É Rousseau, estúpido!

 

Quando alguém da Esquerda pensa com lógica (coisa rara, aliás), sou obrigado a dar-lhe razão (por muito que me custe; e por vezes custa-me muito). Mas em Portugal há um maniqueísmo generalizado: a Esquerda diz que Direita nunca tem razão, e vice-versa; a Esquerda começou com a tolerância repressiva, e agora a Direita imitou a Esquerda. A política transformou-se em manicómio.

Na sequência da ideia de José Rodrigues dos Santos segundo a qual “o fascismo evoluiu a partir do marxismo”, um Insurgente (que é professor universitário, e por isso não tem desculpa), parece corroborar essa ideia:

“Não li o mais recente livro de José Rodrigues dos Santos mas, independentemente da sustentação que essa afirmação possa ter (ou não) no livro, a verdade é que está longe de ser um disparate, podendo a ligação entre marxismo e fascismo ser razoavelmente defendida por vários prismas. Dentro das limitações inerentes a um artigo como este, gostaria de realçar duas: as muitas semelhanças práticas entre regimes de inspiração marxista e fascista e as similitudes no plano ideológico”.

De Marx a Mussolini

E depois o professor universitário (com alvará de inteligência e tudo!) elabora uma lista de “similitudes” entre o marxismo e o fascismo, fazendo de conta de que as diferenças culturais são de tal grandeza que tornam as “similitudes” despiciendas.


O que há em comum entre o fascismo e o marxismo é, em primeiro lugar, o Romantismo do século XVIII, e mais precisamente o Contrato Social de Rousseau e o seu conceito de "Vontade Geral". E depois o marxismo adicionou o Positivismo à receita de Rousseau.

A “vontade geral” de Rousseau não é idêntica à vontade da maioria ou até à da totalidade dos cidadãos.

Rousseau entende a “vontade geral” como a vontade do corpo político que se assume arbitrariamente como intérprete da vontade do povo, na medida em que Rousseau considera a sociedade civil como uma pessoa e com atributos de uma personalidade ― tal como Hobbes ― que inclui o atributo da vontade. Segundo Rousseau, a sociedade civil não é (ou não deve ser) um conjunto de indivíduos organizados, mas antes uma pessoa colectiva.

Segundo Rousseau, o que interfere com a expressão da “vontade geral” é a existência de “associações subordinadas” ― ou seja, comunidades da sociedade civil ― dentro do Estado. Segundo Rousseau, cada uma delas quer ter a sua vontade geral, que pode ser oposta à da comunidade como um Todo. Escreve Rousseau:

»pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo«.

rosseauAs consequência práticas ― e se levadas até ao limite delas ― das ideias de Rousseau são as de que o Estado teria que proibir as igrejas ― excepto a igreja do Estado, que no caso português é cada vez mais a Maçonaria ―, proibir partidos políticos, sindicatos e todas as organizações de homens com interesses económicos e/ou políticos semelhantes. O resultado seria obviamente o Estado corporativista e/ou totalitário, em que o cidadão nada pode, isto é, em nome do diálogo directo entre o cidadão, entendido como indivíduo isolado, por um lado, e o Estado, por outro lado, Rousseau condena assim o cidadão à subordinação impotente inerente ao anonimato total.

O conceito negativista de democracia, segundo Rousseau, tem além do mais, uma outra particularidade: ele baseia-se na democracia da cidade-estado grega, e particularmente na democracia de Esparta em antagonismo com a democracia de Atenas. Porém, Rousseau diz que a democracia é de realização impossível porque o povo não pode estar sempre reunido para deliberar sobre os negócios públicos. Escreve Rousseau:

“Se o povo fosse composto por deuses, o governo seria democrático. O governo perfeito não é para os homens”.

Em consequência, aquilo a que os democratas chamam de “democracia”, Rousseau e os seus herdeiros ideológicos, chamam de “aristocracia electiva”, que ele quer dizer ser o melhor governo mas que não é possível em todos os países:

o clima não deve ser nem muito quente nem muito frio; a produção não deve exceder muito o necessário porque senão o demónio do luxo é inevitável; e o melhor é confinar a “aristocracia electiva” ao controlo de uma elite política, do que difundir a democracia na população.

Com tais limitações estabelecida por Rousseau para aquilo que ele entende por democracia, há largo campo aberto a um governo despótico.

O Contrato Social foi a "bíblia" da maioria dos chefes da Revolução Francesa ― incluindo Robespierre que era amigo íntimo de Rousseau ―, mas como é a sorte das bíblias, não foi bem lido e ainda menos compreendido por muitos discípulos: a sua teoria da “vontade geral” tornou possível a identificação mística do chefe com o povo, o que levou ao caudilhismo que não precisa de ser confirmado por coisa tão mundana como a urna de voto.

Hegel seguiu Rousseau para formatar a autocracia prussiana que levou à primeira grande guerra. Robespierre reinou segundo os princípios de Rousseau, e segundo este foram também formatados os princípios de afirmação política dos jacobinos. As ditaduras russas e alemã do século passado ― principalmente a última ― foram consequências da doutrina de Rousseau.

Quinta-feira, 26 Maio 2016

José Rodrigues dos Santos e o fascismo

Filed under: Política — O. Braga @ 10:13 am
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José Rodrigues dos Santos tem uma imaginação fértil que lhe deu algum sucesso literário, mas já não é a primeira vez que revela a sua ignorância em epistemologia ou em filosofia.

jrs-fascismo

Dizer que o fascismo é de origem marxista é o mesmo que dizer que um indivíduo pode ser o pai de um seu primo direito.

O marxismo e fascismo são vergônteas do Romantismo do século XVIII (por exemplo, com Rousseau) [esta opinião é corroborada, por exemplo, por Bertrand Russell]. Digamos que o fascismo e o marxismo são só “primos direitos” desavindos. Isto significa que o articulista Paulo Pena está errado quando escreve:

“A prova de que não há uma origem comum entre as duas ideologias é avançada pelo historiador inglês Tony Judt no seu livro Pensar o Século XX: “Quando falamos de marxistas podemos começar com os conceitos. Os fascistas não tinham, na realidade, conceitos. Tinham atitudes. Têm respostas distintivas a questões como a guerra, a depressão e o atraso. Mas não começam com um conjunto de ideias que depois tentam aplicar ao Mundo.”

Paulo Pena confunde o “antagonismo entre o fascismo e o marxismo”, por um lado, com “a origem comum” dos dois movimentos, por outro lado. A origem comum dos dois movimentos está em Rousseau e no Romantismo em geral (incluindo Lord Byron).

Terça-feira, 22 Dezembro 2015

Hannah Arendt, a Razão de Estado e a "Vontade Geral"

Filed under: Política — O. Braga @ 2:11 pm
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“Ce qui est propre à notre temps c’est l’intrusion massive de la criminalité dans la vie politique. Je veux parler ici de quelque chose qui dépasse de loin ces crimes, que l’on cherche toujours à justifier par la raison d’Etat, en prétextant que ce sont des exceptions à la règle”.

Hannah Arendt, a propósito da Razão de Estado

O conceito de Razão de Estado germinou claramente a partir do século XIII, por exemplo, com João de Salisbúria; mas teve origem no conceito de “utilitas publica” de Tácito, Díon, Cassius, Plínio, Marco Aurélio, e no jurista Calístrato.

O conceito de “utilitas publica” (interesse público, ou utilidade pública) não era, na Antiguidade Tardia, ainda conforme à ideia de Razão de Estado: não havia ainda lugar para a distinção entre o “interesse do Estado”, por um lado, e o “interesse da sociedade”, por outro lado. Esta distinção só começaria a existir a partir do século III d.C.

A partir do século XIII, os teóricos da soberania real (do rei) tendem, paulatinamente e em crescendo, a opôr o interesse público, por um lado, e a lei, por outro lado — em nome de uma necessidade superior de defesa do reino, ou da salvação do príncipe, abrindo-se deste modo um espaço de excepção de onde germinará a ideia de Razão de Estado.

No século XVI, Botero (um jesuíta!) foi o primeiro teórico da Razão de Estado; com Bodin (século XVI), a Razão de Estado significa que o conceito de “soberania” passa a ser sinónimo de “Poder Absoluto”. Em Botero, o conceito de “Razão de Estado” não coincidia com o maquiavelismo: a Razão de Estado visava a produção de um mecanismo de conservação política por meios não exclusivamente militares, ao passo que Maquiavel defendia a violência militar necessária.

Botero define assim a Razão de Estado (Della Ragion di Stato, 1589) :

“O Estado é uma firme dominação sobre os povos, e a Razão de Estado é o conhecimento dos meios próprios para fundar, conservar e engrandecer um tal domínio e senhoria”.

Mas já no século XVII, o conceito de Razão de Estado mudou, por exemplo, com Naudé:

“A Razão de Estado é um excesso do direito comum em função do bem público”.

Ou seja, a partir do século XVII, a noção de “Razão de Estado” passou a permitir a excepção arbitrária e discricionária à lei, e em nome de um alegado “interesse público”. Surgiu o Absolutismo monárquico.

Poderia pensar-se que os que combatiam o absolutismo monárquico no século XVIII fossem contra o conceito de Razão de Estado conforme Naudé; mas tal não aconteceu. Rousseau transmutou o conceito de Razão de Estado, inventando o conceito de “Vontade Geral“. A “Vontade Geral” nada mais é do que a Razão de Estado de Naudé levada ao absurdo, em que a discricionariedade da acção da classe política é praticamente total, em que a excepção à lei é justificada pela necessidade de um putativo “bem público”.

Os totalitarismos do século XX tiveram a sua origem próxima em Rousseau.

Quando Hannah Arendt fala em “intrusão massiva da criminalidade na vida política”, refere-se ao estado de putrefacção da sociedade gerada e gerida pela ideia de “Vontade Geral” de Rousseau. O político moderno, em geral, pode dar-se ao luxo de ser um criminoso inimputável.

Domingo, 11 Janeiro 2015

O fascínio da república pelo Islão

Filed under: Europa — O. Braga @ 6:47 am
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“Maomé teve uma visão muito saudável, ligou bem o seu sistema político na medida em que o seu tipo de governo foi garantido pelos califas, e esta governação resultou exactamente naquilo que ele pretendia.”

→ Jean-Jacques Rousseau, “Contrato Social” (4,8).

Domingo, 28 Setembro 2014

A Inês Teotónio Pereira , Rousseau e a família

Filed under: filosofia,Política,Portugal — O. Braga @ 8:50 pm
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“Quando Rousseau pensou no contrato social, não imaginou que por aqui se fosse tão longe. Não imaginou que as famílias não reclamariam poder, deveres e direitos, e que não se organizassem como a célula-base de qualquer sociedade”.Inês Teotónio Pereira


Acredite o leitor se quiser: Rousseau era contra as associações e contra a família. Talvez a melhor análise do Contrato Social de Rousseau foi a de Bertrand Russell:

“A teoria política de Rousseau é apresentada no Contrato Social, de 1762. É de carácter muito diverso do da maior parte da sua obra; tem pouca sentimentalidade e muito raciocínio. As suas doutrinas, embora preguem democracia, tendem a justificar um Estado totalitário”.

Bertrand Russell, “História da Filosofia Moderna”, página 635, 9ª Edição, tradução do professor doutor Vieira de Almeida, 1961, Lisboa.

E segue-se nas páginas 636 e 637:

“O contrato consiste na ‘alienação total dos direitos de cada associado em favor da comunidade; em primeiro lugar, como cada um se entrega absolutamente, as condições são iguais e daí ninguém ter interesse em torná-las opressivas a outros’. A alienação é sem reserva. ‘Se houvesse indivíduos com certos direitos, não havendo superior comum para decidir entre eles e o público, cada um deles, juiz de si mesmo, pretenderia sê-lo dos outros. Continuar-se-ia o estado de natureza, e a associação necessariamente se tornaria inoperante ou tirânica’.

Isto implica completa ab-rogação da liberdade e completa rejeição dos direitos do homem. É verdade que em capítulo ulterior se atenua a doutrina, dizendo que embora o contrato social dê ao corpo político poder absoluto sobre os seus membros, os seres humanos têm direitos naturais, como homens”.


Bem sei que a ideia que a Inês Teotónio Pereira tem de Rousseau é vulgar e comum; mas nem tudo o que é vulgar e comum corresponde à verdade. Ela deveria ter escrito o seguinte:

“Quando Rousseau pensou no contrato social, imaginou que por aqui se fosse tão longe. Imaginou que as famílias não reclamariam poder, deveres e direitos, e que não se organizassem como a célula-base de qualquer sociedade”.

Terça-feira, 17 Junho 2014

A Esquerda começou por ser de Rousseau, passou por Hegel, e agora é de Nietzsche

 

Parece que a Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Fertilidade, uma tal Filomena Gonçalves, comparou um nascituro a um rim. Ou seja, para aquela senhora, um rim tem um estatuto semelhante — para não dizer idêntico — ao de uma criança nascedoura. A questão é a de saber como é possível que uma pessoa que alegadamente ocupa um lugar de Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Fertilidade pode fazer este tipo de comparação.

¿Como é possível comparar ou fazer sequer uma analogia, por exemplo, entre o intestino grosso de uma mulher e um nascituro? Como é possível que a Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Fertilidade não saiba, por exemplo, que o feto tem um ADN diferente do da mãe?!

A resposta a estas perguntas não tem apenas a ver com pura ignorância. Chamar-lhe ignorante é simplificar. Podemos encontrar a resposta a estas perguntas no actual conceito de “cultura antropológica”, adoptado sobretudo pela Esquerda.

Actualmente considera-se que não existe uma “natureza humana”; em vez disso, prevalece uma crença segundo a qual existem apenas fenómenos de aculturação que consistem em um conjunto de processos de adaptação fundamental e quase definitiva do recém-nascido. Ou seja, segundo esta crença, o ser humano pode ser aquilo que se quiser que seja e independentemente da Natureza. É neste contexto de separação do Homem, por um lado, da Natureza, por outro lado, que surge um fenómeno de desvalorização do ser humano — quando se compara, no exemplo supracitado, um rim a um feto.

A Esquerda (o socialismo francês do século XIX, positivista e jacobino) começou por adoptar Rousseau, que separou “civilização” e “progresso”, por um lado, (para Rousseau, a civilização não significava a existência de progresso: pelo contrário, para ele a civilização era sinónimo de barbárie, o que é, evidentemente um exemplo de inversão revolucionária de conceitos); e por outro lado, Rousseau operou uma ruptura radical entre “cultura” e “Natureza”.

Depois, uma outra Esquerda, marxista, adoptou Hegel, que defendeu que uma tal ruptura entre cultura e natureza não existe: em vez disso, o que existe é a “cultura” entendida como um processo histórico no decurso do qual o Homem aprende a dominar a Realidade. Ou seja, segundo Hegel e a Esquerda Hegeliana e o marxismo, a cultura é a realização da natureza humana, e não o abandono desta.

Vemos aqui a oposição entre dois tipos de Esquerda.

No princípio do século XX, Claude Lévi-Strauss e o Estruturalismo reintroduziam na cultura intelectual a concepção de “cultura” da Esquerda positivista e jacobina — em oposição à concepção de “cultura” da esquerda hegeliana ou marxista. Este dois tipos de concepção de “cultura” marcaram a esquerda do século XX e até hoje.

Quem separa radicalmente o ser humano, por um lado, da Natureza, por outro lado, é um jacobino, herdeiro ideológico de Rousseau (e não propriamente de Hegel ou de Karl Marx). Em Engels podemos encontrar alguns laivos de jacobinismo, mas Karl Marx concentrou-se essencialmente no trabalho e na economia. Pelo menos em teoria, Karl Marx não desvalorizou o ser humano e não o desligou da Natureza, aliás na linha de Hegel.

Hoje prevalece na Europa um tipo de Esquerda jacobina herdeira de Rousseau — por exemplo, em França — que impõe as suas ideias à sociedade nomeadamente através da maçonaria que controla as instituições do Poder. Este tipo de Esquerda separa o ser humano, por um lado, da Natureza, por outro lado, e propala a crença segundo a qual não existe uma natureza humana, e que é possível transformar o ser humano naquilo que as elites políticas quiserem, através de engenharias sociais.

É esta desvalorização radical e jacobina do ser humano, que o separa da Natureza através de um conceito arbitrário de “cultura”, que está na origem de uma abstracção do conceito de “ser humano”, e a ponto de se comparar um rim com uma criança nascitura.

Não é ignorância: é ideologia!

Sexta-feira, 4 Outubro 2013

A diferença entre Rousseau e Locke na cultura europeia

 

A Europa carrega consigo ainda muitas diferenças culturais fundamentais, como podemos ver na imagem abaixo que representa duas mulheres-polícia islâmicas da cidade de Londres. Enquanto que em França e no Quebeque, herdeiras de Rousseau, os símbolos religiosos estão a ser agora proibidos pelo politicamente correcto, em Inglaterra os símbolos religiosos são integrados nas instituições públicas.

policia islamica em Londres

 

O problema da Inglaterra de Locke é que está a ser pressionada politicamente pela Europa de Rousseau através das instituições da União Europeia. Por isso — entre outras razões — é que a maioria dos ingleses quer que o Reino Unido saia da União Europeia.

Também aqui entram em confronto dois tipos diferentes de maçonaria: a que tradicionalmente existe em Inglaterra e nos Estados Unidos, e que tem uma base religiosa protestante (secularismo), por um lado, e por outro lado, a maçonaria continental europeia (laicismo) — a chamada "maçonaria irregular", como é o caso do Grande Oriente de França — que é essencialmente ateísta.

Segunda-feira, 22 Abril 2013

A principal diferença entre Bento XVI e João Paulo II, por um lado, e Francisco I, por outro lado

Se quisermos saber a origem da mente revolucionária, teremos que estudar a história dos Fraticelli da Idade Média.

Desde a Idade Média que existem duas mundividências distintas, a que correspondem duas correntes doutrinais diferentes, por assim dizer, dentro da Igreja Católica. Estas duas correntes são, quer queiramos quer não, irreconciliáveis. A primeira é a chamada corrente “intencionalista”, que foi iniciada no século XI por Abelardo, e adoptada em surdina pelos franciscanos e Fraticelli (e por Joaquim de Fiore), e que mais tarde, no século XVI, esteve na origem da Reforma protestante.
À segunda corrente podemos chamar de “tomista” (de S. Tomás de Aquino) embora as suas origens sejam anteriores, por exemplo em João de Salisbúria ou em Hugo de S. Victor.

(more…)

Sábado, 20 Abril 2013

A culpa, ou é da sociedade, ou é dos genes

“Os irmãos Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev são hoje os dois homens mais odiados nos Estados Unidos, mas até há uma semana as suas vidas tinham muitos dos condimentos que fazem as histórias de sucesso da imigração norte-americana. O mais velho, Tamerlan, 26 anos, era um pugilista que aspirava a lutar pelos EUA nos Jogos Olímpicos e que tinha uma namorada “meio portuguesa, meio italiana”; o mais novo, Dzhokhar, 19 anos, “tinha um coração de ouro” e recebeu uma bolsa de 2500 dólares da cidade de Cambridge para prosseguir os estudos na universidade.”

Jornal Público: “Os irmãos Tsarnaev: um pugilista sem amigos americanos e um jovem com coração de ouro” (via)

A culpa não é do Jornal Público; antes, é de Belmiro de Azevedo, que ainda não fechou aquele pasquim e abriu um jornal em condições com nova gerência.

Ou seja, a culpa é da sociedade (neste caso, capitalista americana). Um dos assassinos tinha um coração de ouro e era aplicado nos estudos, e outro assassino era um pugilista de sucesso; mas a sociedade americana estragou-lhes a vida — porque todo o indivíduo é bom por natureza, mas é a sociedade que estraga tudo. E se os dois criminosos fossem fanchonos, para além da culpa ser da sociedade capitalista, seria dos genes também. A culpa ou é da sociedade, ou é dos genes.

Em 1754, Rousseau escreveu um livro com o título “Discurso Sobre a Desigualdade” em que afirmou que “o homem é naturalmente bom e só as instituições [da sociedade] o tornam mau”. Segundo Rosseau, o primeiro homem que vedou um terreno e disse: “isto é meu!”, e achou pessoas bastantes simples para acreditar nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Rousseau vai ao ponto de deplorar a introdução da metalurgia e da agricultura. O trigo é símbolo da nossa infelicidade. A Europa é um continente infeliz por ter o máximo do trigo e do ferro. Para abandonar o mal, basta abandonar a civilização, porque “o homem é naturalmente bom, e o selvagem depois de jantado está em paz com toda a natureza e é amigo de todas as criaturas.”

Rousseau enviou uma cópia do livro a Voltaire que depois de o ler, escreveu-lhe em 1755 uma carta em que dizia o seguinte:

“Recebi o seu novo livro contra a raça humana, e agradeço. Nunca se utilizou tal habilidade no intuito de tornar-nos estúpidos. Lendo este livro, deseja-se andar de gatas; mas eu perdi o hábito há mais de sessenta anos, e sinto-me incapaz de readquiri-lo. Nem posso ir ter com os selvagens do Canadá porque as doenças a que estou condenado tornam-me necessário um médico europeu, e por causa da guerra actual naquelas regiões; e porque o exemplo das nossas acções fez os selvagens tão maus como nós.”

A culpa não é do Jornal Público; antes, é de Belmiro de Azevedo, que ainda não fechou aquele pasquim e abriu um jornal em condições com nova gerência.

Sábado, 13 Abril 2013

Um exemplo do actual enviesamento ideológico dito católico

«El primer momento del diálogo político ha de ocuparse de la igualdad de derechos entre todos los ciudadanos. Sería el ámbito constitucional. Como afirma J. Rawls, “cada persona posee una inviolabilidad fundada en la justicia que incluso el bienestar de la sociedad como un todo no puede atropellar (…). Los derechos asegurados por la justicia no están sujetos a regateos políticos ni al cálculo de intereses sociales”. Como puede verse, afirmaciones todas anti-utilitaristas.»


Quando vejo católicos citar John Rawls, fico com os cabelos em pé. O argumento utilizado é sempre o do anti-utilitarismo, como se esse valesse por si só. Os marxistas também são, pelo menos em tese e tal como John Rawls, anti-utilitaristas. E infelizmente também vejo sapientes “católicos”, alguns cardeais e até Papas, a dar loas em surdina ao alegado anti-utilitarismo do marxismo.

A Igreja Católica não tem necessariamente que se submeter ao Estado.

John Rawls já foi bastamente refutado devido às suas próprias contradições. O conceito de “véu de ignorância” de Rawls já foi desconstruído e racionalmente refutado de uma forma até impiedosa, e num dos próximos verbetes irei abordar expressamente John Rawls. Considero mesmo uma vergonha que uma pessoa dita “católica” mencione John Rawls de forma apologética. E só um católico ignorante, ou um católico malévolo, invoca benevolentemente Rousseau para justificar as suas teses alegadamente “católicas”.

Ser anti-utilitarista, em teoria, não chega. É preciso que a teoria anti-utilitarista se verifique na prática. E a teoria de John Rawls, para além de ser utópica e até delirante (como demonstrarei, mais tarde), traduz-se, na prática política, na mais feroz forma de utilitarismo: o laicismo radical (que é diferente do secularismo saudável). John Rawls defende claramente a privatização da religião, ou seja, o banimento de quaisquer símbolos religiosos da praça pública; John Rawls defende que a religião deve ser restringida à casa (ao lar) do crente, e que inclusivamente deve ser proibido o proselitismo religioso. O texto publicado no blogue Logos é extenso, e refutá-lo daria um outro texto muito extenso. Mas não é por ser extenso que deixa de ser propositadamente incoerente, confuso, gongórico, e até vergonhoso.

Quarta-feira, 10 Abril 2013

Rousseau, a atomização da sociedade e os totalitarismos gnósticos do século XX

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problema começou antes de Rousseau. O problema começou no seio da própria Igreja Católica com a absurda “querela dos universais”, que meteu os franciscanos ao barulho a favor do conceito absurdo de nominalismo. Antes disso, os franciscanos Fraticelli andaram de candeias às avessas com o poder temporal quando defenderam o Poder absoluto do Papa. Os franciscanos estiveram metidos no pior da Igreja Católica (ainda pior do que os Jesuítas).

A Reforma protestante minou profundamente a autoridade. É irónico que um protestante do século XIX venha queixar-se da ausência de autoridade na cultura coeva, porque a Reforma foi o primeiro grito de revolta contra a autoridade.

Os ideólogos da Razão de Estado de finais do século XVI e século XVII opuseram o poder absoluto do rei ao poder absoluto do Papa defendido pelos franciscanos dois séculos antes. Dos ideólogos da Razão de Estado surgiu Hobbes — o primeiro hipóstata teórico do absolutismo de Estado. Locke, na segunda metade da sua vida filosófica, não esteve muito longe de Rousseau. Rousseau não foi original em nada excepto na criação abstrusa e absurda do conceito de “vontade geral” que não tem qualquer origem na realidade política e sociológica. A “vontade geral” é uma forma de permitir a discricionariedade e o absolutismo, até sob a capa da democracia.

…as ideias têm consequências

A origem simbólica do Bom Selvagem, de Rousseau, está no Génesis bíblico e no conceito de Éden (o paraíso na terra). Por aqui podemos fazer uma ideia da complexidade do problema. O que Rousseau fez foi utilizar um símbolo judaico-cristão e fazer dele uma leitura literal, e tão literal como era aconselhado pela própria Igreja Católica daquele tempo. Rousseau não fez uma exegese a partir dos símbolos de Adão e Eva: limitou-se a transcrever literalmente a noção de paraíso na terra que o próprio Génesis encerra em si.

A diferença é que o Mal — a simbologia da Serpente —, segundo Rousseau, passou a ser a sociedade entendida como comunidade (“O inferno são os outros” — Jean-Paul Sartre), enquanto que o Mal bíblico foi invertido e passou a ser o Bem, que segundo Rosseau, é o conhecimento no sentido prometaico.

Esta inversão da significação de um mesmo símbolo levou a que o Bem passasse oficialmente a ser o conhecimento prometaico que absolutiza o indivíduo (Rousseau seguiu o princípio da autonomia de Kant, mas em vez de dotar o indivíduo de responsabilidade, criou o conceito de “vontade geral” para anular politicamente a própria responsabilidade individual, anulando a componente kantiana do “cidadão-legislador”), por um lado, e por outro lado a comunidade passou a ser o Mal que necessita da liderança “sábia” e firme — através do conceito abstracto de “vontade geral” — de uma elite (gnóstica) que transformasse o voto popular em discricionariedade “sapiente” na acção política.

“Pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo”. (“Contrato Social” de Rousseau)

Como podemos verificar, Rousseau defende, através do conceito de “vontade geral”, a atomização da sociedade e a instituição dos totalitarismos do século XX. Há quem diga que ele não teve culpa — como há quem diga que Nietzsche não teve culpa do surgimento do nazismo — mas, para mim, isso é treta. As ideias têm consequências.

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