perspectivas

Domingo, 5 Julho 2015

A primeira lei da termodinâmica e o dualismo metafísico

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 7:22 am
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Em metafísica, “dualismo metafísico” é a teoria segundo a qual a realidade é formada de (pelo menos) duas substâncias independentes uma da outra e de natureza absolutamente diferente: o espírito e a matéria, ou, como em Descartes, a alma e o corpo.

Não confundir com “dualismo ontológico” de diferentes sistemas religiosos que admitem, para o universo, não apenas um, mas dois princípios de explicação ou de origem (por exemplo, o maniqueísmo , ou a gnose).

“Dualismo” é, neste verbete, entendido como “dualismo metafísico”.


A grande dificuldade da afirmação do dualismo é a primeira lei da termodinâmica:

Primeiro princípio ou axioma da termodinâmica: princípio da equivalência (ou conservação de energia): a energia não pode ser nem criada nem destruída, mas apenas transformada. Num sistema fechado, a sua energia total permanece constante e representa o “equivalente mecânico” do calor.

A primeira lei da termodinâmica é equivalente, por assim dizer, à lei de Lavoisier: na Natureza, nada se cria, nada se perde, e tudo se transforma.

Portanto, o actual raciocínio científico “politicamente correcto” (paradigma) é o seguinte:

  • se o universo é um sistema fechado e é constituído por matéria (seja o que for o que se entenda por “matéria”), então não pode haver lugar para o espírito, nem pode haver qualquer influência do espírito sobre a matéria (o cérebro). Se o espírito quiser actuar sobre a matéria do cérebro a partir do exterior, tem que desrespeitar a primeira lei da termodinâmica — ou seja, seria necessária uma energia material exterior ao sistema físico para influenciar a matéria.

Em última análise, para que a primeira lei da termodinâmica fosse respeitada (porque a energia no universo tem de permanecer constante, segundo a primeira lei da termodinâmica), o espírito também seria uma qualquer forma de matéria, e, neste caso, deixaria de fazer sentido o conceito de “dualismo”.

Portanto, a ciência clássica parte do princípio de que o universo é um sistema fechado, e só em um sistema fechado a primeira lei da termodinâmica faz sentido e pode ser aplicável.

E se a primeira lei da termodinâmica é válida, então segue-se que não pode existir espírito e/ou alma, e as ideias e os pensamentos não passam de epifenómenos da actividade química do cérebro1 . Paul Churchland, por exemplo, supõe que é possível substituir a frase: “O senhor Manuel pensa que…”, pela afirmação: “No cérebro do senhor Manuel disparam no momento T1 os neurónios N1 a N12 do núcleo X, desta e daquela maneira”.

Portanto, ser cientista, segundo o paradigma clássico, significa não só a negação do espírito ou/e alma, mas também significa literalmente ser ateu. Surge então a Teoria da Identidade. 2


 
A física quântica veio alterar este paradigma científico, colocando em causa a concepção do universo como sistema fechado.

human-spiritA “amplitude de probabilidade de função de onda” (ou “função de onda quântica”, ou ainda, na terminologia mais recente, “vector de estado“), por exemplo, de uma partícula atómica, não constitui um campo material (ou não tem massa ou tem uma massa mínima), mas actua sobre a matéria ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares.

Estamos a falar de um facto científico baseado na experimentação, e não apenas de uma teoria. Este facto científico abriu as possibilidades de estados finais diferentes resultantes de processos dinâmicos idênticos, e sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais (como, por exemplo, o abastecimento de energia).

Ou seja, segundo a ciência mais recente, o universo como sistema fechado e a primeira lei da termodinâmica estão colocados em causa. A primeira lei da termodinâmica pode ainda ser utilizada em ciência da mesma forma que o conceito de “absoluto” foi utilizado por Newton para elaborar a sua Dinâmica (o conceito de “absoluto”, em Newton, era uma espécie de muleta).

Resulta disto que a alma ou/e espírito não são produto da evolução (“evolução” entendida no sentido naturalista e darwinista), e que o dualismo metafísico passa a fazer sentido mesmo à luz da ciência. Hoje já não faz sentido que um cientista seja necessariamente ateu, ou que defenda uma mundividência naturalista do ser humano.


Notas
1. por exemplo, segundo Susan Blackmore, Rodolfo Llinas, Paul e Patrícia Churchland.

2. Para a “teoria da identidade”, as ideias não possuem qualquer realidade própria, sendo apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.

Karl Popper demoliu a “teoria da identidade” quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir a “teoria da identidade”. Esta teoria (da Identidade) não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.

Domingo, 10 Maio 2015

A verdade científica é uma crença, embora de grau superior

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:46 am
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“Crença” remete para o grau mais fraco do assentimento, ou da opinião — por exemplo, “creio que a verdade está na ciência” —, ou para um conhecimento propriamente dito, de origem externa e transformado em hábito — por exemplo, toda a gente “acredita” que a Terra é redonda. Ou seja, a crença pode portanto referir-se a uma “verdade” científica adquirida e que não é colocada em questão.

Não é por que a ciência defende uma determinada posição como sendo “verdadeira” que essa posição deixa de ser uma crença. Quando eu vejo gente como a Helena Damião ou os outros do Rerum Natura escrever coisas destas, fico com os cabelos em pé:

“As crenças são ideias a que nos afeiçoamos e que tomamos por verdades, ainda que não tenham suporte científico ou, mesmo, lógico. Fazem parte de nós, precisamos delas; sem crenças a nossa vida seria pouco interessante… Mas elas têm um lugar, e é nesse lugar que as devemos manter. Se queremos estudar física, antropologia, filosofia ou pedagogia é preciso estarmos muito atentos ao que pensamos e perguntarmos com frequência: será uma crença ou será um dado objectivo?

Em todas as áreas do saber que exigem objectividade, mesmo aquelas que se afirmam robustas, as crenças rodam e, sempre que podem, insinuam-se como certezas (é esta a sua tendência), há que ter uma permanente atenção a isso mesmo.”

A crença da Helena Damião, expressa na citação supracitada, não passa disso mesmo: uma crença. A crença pode referir-se a uma “verdade objectiva” — sendo que “verdade objectiva” é sinónimo de “verdade intersubjectiva”, porque não existe objectividade sem ser corroborada.

As “verdades” constatadas pela ciência são crenças de grau superior, mas não deixam de ser crenças; e são crenças de grau superior apenas na medida em que se baseiem no experimentalismo. Mas mesmo a verdade no experimentalismo — por exemplo, com Roger Bacon — é sustentada pela indução por enumeração simples. Stuart Mill formulou quatro regras de método indutivo, mas essas regras só são úteis se aceitarmos a lei da causalidade 1 ; mas esta lei tem como base a indução por enumeração simples 2 : ou seja, Stuart Mill pouco adiantou em relação ao método indutivo de Bacon.

Filósofos como por exemplo Karl Popper insistiram no “círculo vicioso” da indução evocando, por exemplo, o princípio da regularidade dos fenómenos naturais, que é em si mesmo um princípio geral que, portanto, não pode ter sido estabelecido indutivamente. Karl Popper tira daqui o argumento para recusar à ciência fundar-se na indução.

Portanto, o experimentalismo, por si só, não é suficiente para determinar qualquer “verdade objectiva”, embora a “verdade científica” seja uma crença de grau superior.


Notas
1. “Todo o fenómeno tem uma causa”.

2. Por exemplo, um antropólogo vai a uma aldeia portuguesa verificar quantas mulheres têm “Maria” no seu nome. Maria Isabel, Ana Maria, Maria Antónia, Maria Inês, Paula Maria, Maria Josefina, etc., e ao fim de 100 Marias, o antropólogo, assumindo o método de indução por enumeração simples, resolve encerrar a investigação, embora ainda faltassem investigar cinco mulheres; e uma das cinco que faltavam na investigação chamava-se Ambrósia Joaquina.

Quinta-feira, 2 Abril 2015

O disparate do materialismo ateísta

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:31 am
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Os ateus são pessoas que se reúnem — na Internet, em fóruns, em blogues, em colóquios, em conferências, etc. — para protestar contra Aquele (Deus) que eles dizem que não existe.

 

olavo-de-carvalho-ateismo-web

O Ludwig Krippahl escolhe bem as suas “vítimas”. Tentou “discutir” comigo acerca de religião, e cedo se deu conta de que mais valia procurar “vítimas” mais fáceis de “caçar”. A estratégia retórica do Ludwig Krippahl é a amálgama: mistura, em um mesmo texto, alhos com bugalhos, na esperança de que, através da ciência, se opere um milagre e os alhos se transformem em bugalhos (ou vice-versa). Olhem para este texto verifiquem a amálgama. Olavo de Carvalho tinha razão quando escreveu o seguinte:

“A mente humana é constituída de tal forma que o erro e a mentira podem sempre ser expressos de maneira mais sucinta do que a sua refutação. Uma única palavra falsa requer muitas para ser desmentida.”

Refutar aquele texto do Ludwig Krippahl daria um ensaio de muitas páginas. A única forma de denunciar a erística dos argumentos-cacete do Ludwig Krippahl sem escrever um ensaio, é focalizando a nossa atenção em alguns argumentos-chave do referido texto: por exemplo, “verificação”, “crença”, “verdade”, “autoridade”, e obviamente “ciência” que, alegadamente, se opõe à  religião.


Comecemos pela alegada oposição entre ciência e religião. “Oposição”, aqui, deve ser entendida no sentido dialéctico: “Não nos devemos cansar de estudar os extremos opostos das coisas. O mais importante não é encontrar o ponto comum, mas deduzi-lo dos contrários; é este o segredo e o triunfo da arte” (Giordano Bruno). Invoco aqui Bruno para que não se diga que estou a utilizar uma autoridade eclesiástica católica qualquer.

Mesmo que a religião e a ciência estivessem em oposição, não nos deveríamos cansar de estudá-las — embora o mais importante não seja encontrar o ponto comum, mas antes deduzir esse ponto comum dos dois contrários. Desprezar os contrários ou um dos contrários, significa estupidez.

Mas a verdade é que a ciência e a religião não se encontram em oposição.

Perante as descobertas científicas da física quântica, o materialismo ateísta é a maior estupidez que pode existir no século XXI. Ser materialista, no sentido ateísta, é a negação da ciência. O antagonismo clássico “ciência contra a religião” já não existe actualmente: foi a própria ciência que o eliminou, ao alterar a sua auto-concepção e a sua exigência de validade. Não é de admirar que, no fim da investigação das partículas elementares (física quântica), surja nos ateus materialistas um grande silêncio: pelo menos, o disparate do século XX seria perfeito.

Nas ciências empíricas, é discutível falar de “verificação”. Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade). A “verificação” do Ludwig Krippahl é isto: pode-se dizer que uma coisa é falsa, mas não se pode dizer que outra coisa é verdadeira. E ele sente-se superior às pessoas religiosas apenas e só por isto…!

Dizer que “apenas a religião se baseia em crenças”, é ser intelectualmente míope. Duma maneira geral, a crença é adesão a uma ideia, um pensamento, uma afirmação, uma teoria, um dogma… Nesse sentido, a ingenuidade, o preconceito, o erro, a fé, a opinião, assim como o saber científico, são diferentes formas de crença.

Por último, afirmar que “na ciência não há autoridade de direito”, é tentar enganar os pacóvios. Basta que na ciência existam paradigmas para que prevaleça sempre a autoridade dos que seguem o paradigma vigente.

Segunda-feira, 9 Fevereiro 2015

¿O que é que tem a ver a ciência com o “marido” do Alexandre Quintanilha?!

 

 

O Carlos Fiolhais  — ¿quem poderia ser, senão ele? — publicou no blogue Rerum Natura uma entrevista com o Alexandre Quintanilhaem que ele aponta o dedo à pseudo-avaliação da FCT da ciência nacional” (sic). Algumas pérolas do Alexandre Quintanilha:

“Apesar de viverem numa sociedade católica, [as pessoas] são livres na sua forma de estar, como é o caso das vizinhas que à varanda o vêem descer a rua de braço dado com o marido e cumprimentam o casal, como qualquer morador do bairro.”

(…)

“Dou um exemplo pessoal. Casei-me com o Richard [Zimler] em Portugal. Algo impensável há dez anos. Os meus amigos lá fora ficaram espantadíssimos. Portugal evoluiu imenso. Há milhares de jovens que, por exemplo, vivem com outros jovens sem se casarem, têm filhos sem se casarem, seguem os seus sonhos contra a vontade dos pais.”
(…)
“E, portanto, o investimento na educação teve um impacto enormíssimo mesmo que por vezes seja difícil de medir. É um certo empowerment que as pessoas adoptaram, mas que infelizmente está a enfraquecer porque muitos não sabem se vale ou valeu a pena.”

Reparem bem:

1/ Portugal evoluiu imenso porque o Alexandre Quintanilha “casou-se” com o Richard Zimmler.

2/ A “evolução” de Portugal foi tão grande que “há milhares de jovens que vivem com outros jovens sem se casarem, têm filhos sem se casarem, e seguem os seus sonhos contra a vontade dos pais”.

3/ Toda essa “evolução” deveu-se ao  “investimento na educação” que “teve um impacto enormíssimo mesmo que por vezes seja difícil de medir”. Foi o grande “investimento na educação” (de José Sócrates)  que permitiu que o Alexandre Quintanilha andasse de mãos dadas com o “marido” e vice-versa, e que incentivou que “milhares de jovens passassem a viver com outros jovens sem se casarem, terem filhos sem se casarem, e seguirem os seus sonhos contra a vontade dos pais”.

4/ Portanto, educação que se preze é contra os pais. Educar as crianças ou jovens contra os pais é sinal de “evolução” da sociedade.

Por outro  lado, a promiscuidade sexual é sinal de progresso e de “evolução” — simplesmente não é possível a investigação científica sem umas orgias no laboratório da universidade. Aliás, o governo de Passos Coelho, através do FCT, deveria facultar um “subsídio de coito” para os investigadores, para além da Bolsa: investigação científica digna desse nome não passa sem um subsídio de coito.

5/ Uma sociedade sem “casamento” gay, por um lado, e sem surubas estudantis, por outro  lado, não pode progredir na ciência. O “casamento” gay está directamente ligado ao progresso da ciência.

Sexta-feira, 5 Setembro 2014

O solipsismo da esquerda e da “direita” modernas

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:48 am
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«As leis primam sobre a vida? Não, é a vida que modifica as leis.» (respigado aqui)

Vamos recorrer à ciência para refutar esta proposição. Quando falamos em leis, temos que distinguir entre “universais de leis”, por um lado, e “universais acidentais”, por outro lado. Vamos a exemplos: as duas seguintes proposições silogísticas:

“Todas as moedas que estão no meu bolso contêm níquel. Isto é uma moeda que se encontra no meu bolso. Logo, segue-se que esta moeda contém níquel”.

¿Podemos transformar esta proposição em lei? Não!, porque a proposição é acidental ou contingente. Não se trata de um universal de lei, mas antes trata-se de um universal acidental. O facto de todas as moedas que estão no meu bolso conterem níquel é um facto acidental, e por isso não se pode universalizar em lei.

Um “universal de lei” — ou seja, uma lei propriamente dita — apoia-se em uma condicional ou suporta uma situação contrária-ao-facto. Vejamos a seguinte situação: dois relógios de pêndulo idênticos são configurados para estarem desfasados em um ângulo de 90 graus, de forma a que os tiquetaques dos dois relógios estejam em constante conjunção sequencial (um tiquetaque compassado com outro tiquetaque que se lhe segue). Se as leis não fossem outra coisa senão declarações de conjunções constantes, então poderíamos afirmar o seguinte:

“para todo o X, se o X é um tiquetaque do relógio #1, então segue-se que X é um tiquetaque seguido de um tiquetaque do relógio #2”.

Mas se os dois pêndulos (dos dois relógios) forem parados, esta “lei” já não se apoia em uma condicional contrária-ao-facto — e, por isso, não é uma lei propriamente dita. É, em vez disso, uma situação de um “universal acidental”, e não uma situação de “universal de lei”.

Por outro lado, as leis mais importantes não se baseiam na constância dos factos (empirismo), uma vez que se referem a situações idealizadas que não existem. Por exemplo, existe uma lei que dá pelo nome de Lei do Gás Ideal, segundo a qual “existem” gases nos quais as moléculas têm uma dimensão nula e zero campos de força intermoleculares.

Agora vejamos a segunda proposição:

“Todas as chamas afectadas pelo bário são verdes. Esta chama é afectada pelo bário. Logo, segue-se que esta chama é verde”.

Aqui estamos em presença de um “universal de lei”, e não de um “universal acidental”.


Tanto na ciência, como no Direito, as leis mais importantes e propriamente ditas são contrárias-aos-factos e são “universais de lei” — e não “universais acidentais”.

Por isso (não só, mas também) é que se diz, nas faculdades de Direito, que (por uma questão de princípio) os factos (da vida) não determinam as leis (embora as leis possam determinar factos). Portanto, dizer que “a vida modifica as leis” é afirmar que o “universal acidental” pode ser uma lei propriamente dita — o que é um erro de palmatória, própria de um romantismo solipsista que é o mal da esquerda e de uma certa “direita” modernas.

Eu prefiro o realismo (metafísico).

Sexta-feira, 18 Julho 2014

A imbecilidade da sociobiologia

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:16 pm
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“Imbecis com diplomas de neuro-ciências acreditam, seriamente, que podem explicar todas as percepções pela constituição do cérebro. Isso só prova que não sabem o que é uma ‘percepção’.

Se as percepções pudessem ser explicadas pela fisiologia cerebral, não precisaria haver objectos.”

→ Olavo de Carvalho (via FaceBook)



A “percepção” não é “experiência” (no sentido empírico), nem “sensação”.

Quando eu digo: “Percebo um automóvel”, esse “perceber” não é necessária- e exactamente uma “experiência”, ou seja, não me estou a referir necessariamente a este ou aquele automóvel, nem tão pouco me refiro necessariamente a um conjunto de automóveis que passam, em um determinado momento, em uma rua da cidade. Portanto, “perceber” não é um experiência in loco; mas a “percepção” também não é uma “sensação”.

Eu percebo um automóvel de uma forma tal que eu sou capaz de o reconhecer instantaneamente, como um objecto determinado e distinto. Mas, na “percepção”, a sensação é impregnada de sentimento (emoção) que mistura o objectivo e o subjectivo, o fisiológico e o psicológico, o real e a representação do objecto — neste caso, o automóvel.

Ademais, “perceber” é “antecipar” de uma forma racional, e por isso é que só o ser humano “percebe” — porque, como dizia S. Tomás de Aquino, o ser humano é único ser sobre a Terra que consegue conceber um objecto na sua ausência, através da representação desse objecto, e em relação ao qual as sensações corporais apenas lhe dão indícios fragmentários. Perceber é interpretar, e a interpretação é uma qualidade exclusivamente humana.

A “percepção” é uma relação cognitiva (uma relação de conhecimento) do sujeito em relação ao mundo (dos objectos). “Perceber” é fazer prova (em primeiro lugar, subjectiva, e depois intersubjectiva) da exterioridade; se “perceber” não fosse fazer prova (subjectiva e intersubjectiva) da exterioridade, o cérebro funcionaria sem necessidade do mundo dos objectos — o que seria um contra-senso.

O fluxo de sinais que aflui ao cérebro (cerca de 100 milhões de células sensoriais) não é portador de qualquer indicação de quaisquer propriedades para além destas células — a não ser o facto de estas células terem sido estimuladas em determinados pontos da superfície do corpo.

Portanto, ainda é preciso acrescentar “algo” aos dados sensoriais (à sensação) na nossa cabeça para que esses dados possam dar origem a uma “realidade”. Por isso é que os imbecis com diplomas de neuro-ciências que acreditam, seriamente, que podem explicar todas as percepções pela constituição do cérebro, são idiotas.

Sexta-feira, 24 Janeiro 2014

A Ordem dos Psicólogos e a traição dos intelectuais

 

O psicólogo Abel Matos Santos escreveu um artigo no Jornal “I” que pode ser lido aqui. Em resposta, a Ordem dos Psicólogos, que apoia a adopção de crianças por pares de invertidos, reagiu e escreveu isto. Abel Matos Santos exerceu o seu direito de defesa com um texto que pode ser lido aqui em PDF.


1/ Não existe uma ciência de observação pura. Todas as ciências são teorizantes (estão imbuídas de uma qualquer teoria), incluindo as chamadas ciências sociais.

2/ Os “estudos” que a Ordem dos Psicólogos invoca em favor da adopção de crianças por pares de invertidos são basicamente assentes no behaviourismo que é uma forma de positivismo: nesses “estudos”, o sujeito (a subjectividade a criança) é sempre relegada para segundo plano ou mesmo inexistente. Trata-se de um naturalismo metodológico errado — uma forma de cientismo — que exige que as ciências sociais recorram exclusivamente às ciências da natureza e ao seu método científico (como se um ser humano não tivesse subjectividade).

Este naturalismo, que não respeita a subjectividade da criança, estabelece algumas exigências, como por exemplo, partir de observações e medições (como se o ser humano se reduzisse a um fenómeno físico) ou através de levantamentos estatísticos formais e exteriores; e depois avança indutivamente para generalizações (como se a criança fosse um animal irracional) e para a elaboração de teorias.

É este o tipo de “estudos” que a Ordem dos Psicólogos utiliza para defender a adopção de crianças por pares de invertidos.

3/ Nas ciências sociais, é muito mais difícil atingir o ideal de objectividade científica, quando comparadas com as ciências da natureza — se é que a objectividade científica é possível nas ciências sociais! —, uma vez que a objectividade implica despojamento de valores; e o cientista social só raramente consegue libertar-se das valorações da sua própria camada social, cultural, ideológica e política, por forma a adquirir a independência valorativa que a objectividade impõe.

Este naturalismo errado — que reduz a análise de uma criança ao seu comportamento exterior (behaviourismo), como se a criança fosse uma espécie de cão ou gato — assenta em um mal-entendido relativamente ao método científico, mal-entendido esse que reduz a ciência a uma narrativa dos factos (positivismo) manipulável pela ideologia política (cientismo).

4/ O testemunho do psicólogo Abel Matos Santos é relevante porque nos diz basicamente o seguinte: é preciso ter cuidado com aquilo que pensamos que sabemos acerca da adopção de crianças por pares de invertidos. Aliás, o psiquiatra Daniel Sampaio afirmou há dias, em uma entrevista na RTPn, que quaisquer estudos nesta matéria não são seguros. Ou seja, Abel Matos Santos parece ser um psicólogo honesto.

Em contraponto, a Ordem dos Psicólogos é o exemplo acabado do conceito de Julien Benda de Traição dos Intelectuais.

Quarta-feira, 13 Novembro 2013

O “progresso” do mito e da religião, segundo Cassirer

 

Passo a citar Cassirer, interpolando algumas imagens:

«Do ponto de vista do pensamento primitivo, torna-se desastrosa a mínima alteração do estável esquema das coisas. As palavras de uma fórmula mágica, de um conjunto ou exorcismo, as fases de um acto religioso, um sacrifício ou uma oração, têm de ser repetidas na mesma invariável ordem.

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Terça-feira, 5 Novembro 2013

Richard Dawkins e a estupidez humana

 

“Onde acaba a Física, não acaba o problema; o homem que existe por detrás do cientista necessita de uma verdade integral, e, queira ou não queira, e pela constituição mesma da sua vida, forma-se uma concepção inteiriça do Universo.”

— Ortega y Gasset, tradução livre, ¿Qué es Filosofía?, 3º edição, p. 64

Um artigo no Mercator acerca de Richard Dawkins que merece ser lido (em inglês).

dawkins contra deus web

Quarta-feira, 30 Outubro 2013

A alienação ou doença mental do cientismo actual

Filed under: politicamente correcto — O. Braga @ 9:33 pm
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O cientismo coetâneo (actual) tem duas características fundamentais: 1/ a desclassificação (ou “descategorização”, ou seja, a retirada de categorias e negação do conceito de juízo universal) da realidade, e 2/ a eliminação de qualquer nexo causal nos fenómenos inerentes à realidade (seja esta política, social, fenomenológica, científica, etc.) ou seja, o cientismo actual é doxa transformada em ciência.

doida eu web 300A ciência positivista (o neopositivismo do Círculo de Viena) começou por ser a recusa do subjectivismo (humano); e o cientismo actual é a recusa da ciência, seja esta positiva ou não.

E, por isso, o cientismo actual começa pela negação da lógica através da desclassificação da realidade (no sentido de “descategorização” dos fenómenos), e pela negação do conceito de juízo universal — e a ideia subjacente a esta atitude cientificista é a de dissipar qualquer diferença entre a regra e a excepção, entre a norma e o anómalo.

Depois da desclassificação (ou “descategorização”) da realidade, o cientismo actual entra na fase seguinte: a eliminação (ou relativização) de qualquer nexo causal nos fenómenos. Esta segunda fase não poderia existir — ou fazer “sentido” retórico — sem a primeira.

Depois de ter conseguido que estes dois aspectos se entranhem (como sendo “logicamente” válidos) na cultura intelectual e, por via desta, na cultura antropológica, o cientismo actual assume, em todo o seu esplendor, a função de demolição da cultura. Ou seja, o politicamente correcto já não é, hoje, apenas uma ideologia derivada do marxismo cultural, mas antes é também o cientismo, que utiliza conceitos das "ciências sociais" para destruir a própria ciência e ao serviço de uma ideologia niilista.

Dou um exemplo do que eu quero dizer:

psicose«crise das crises se não se recorta limpo o sentido do corpo em a) ou b): se nem menino nem menina, que fazer de um sujeito? a medicina treme em como forçar um nexo ao corpo, os pais vêem o futuro desfeito, a criança surge como uma coisa-problema: mais que um binário, logo, menos que humana. queremos quebrar com a falsa necessidade dessas categorizações coercivas. a nossa revolução será poder responder à pergunta "qual dos géneros?" dizendo "ambos", "nenhum", "outro" ou "todos". será reagir ao "ou… ou…?" com um simples "não!"»

psico web 290Em primeiro lugar, “descategoriza-se” a realidade, apesar das evidências (“aquilo que parece, não é!”); e depois, nega-se o juízo universal  (“não existem regras nem excepções: a lógica é uma batata!”)

Quando ouvirmos alguém colocar em causa as categorias da realidade tal qual nos aparecem, tentando desclassificar ou “descategorizar” a realidade, devemos imediatamente ficar de pé-trás: provavelmente estaremos em presença de um doente mental cientificista. E se essa pessoa avançar, depois, para a recusa do juízo universal, então poderemos estar seguros que se trata de uma psicótico em plena maquinação de um delírio interpretativo.

Hoje é um dia feliz para o curandeiro da RDP: a pedofilia passou a ser uma “orientação sexual”

 

juliomachadovazwebJúlio Machado Vaz irá certamente festejar: a pedofilia foi retirada do grupo das parafilias pela APA (Associação Americana de Psiquiatria) e considerada uma “orientação sexual”.

«In the fifth edition of the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM V), the American Psychiatric Association (APA) drew a very distinct line between pedophilia and pedophilic disorder. Pedophilia refers to a sexual orientation or profession of sexual preference devoid of consummation, whereas pedophilic disorder is defined as a compulsion and is used in reference to individuals who act on their sexuality.»

Agora, já é possível a Júlio Machado Vaz defender a pedofilia em directo nas emissoras da rádio nacional. Deixa de existir a vergonha, porque a "ciência" sanciona positivamente a falta de vergonha. Júlio Machado Vaz não irá certamente perder esta ocasião de parecer moderno, actual, retrófobo e de vistas largas, mente aberta, virado para o futuro; e de cair bem nas hostes esquerdistas, habituadas à falácia ad Novitatem.

Naturalmente que ele irá dizer, aos microfones da RDP, que existe uma diferença entre a "orientação sexual" pedófila (que, por ser uma "orientação sexual", é absolutamente normal e não é uma doença mental ou parafilia), por um lado, e, por outro lado, a compulsão do pedófilo em “comer” criancinhas. Ou seja, segundo a nova norma do politicamente correcto, um pedófilo que não “coma” criancinhas é absolutamente normal. E quem sabe, com o “progresso da opinião pública”, o Júlio Machado Vaz ainda venha a ter a alegria de ver a "ciência" verificar e confirmar o acto pedófilo como um acto absolutamente normal: é tudo uma questão de ele continuar, com afinco, as ensaboadelas culturais na RDP no sentido do "progresso da opinião pública".

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Sexta-feira, 18 Outubro 2013

O evolucionismo darwinista na corda-bamba

 

«Um crânio com 1,8 milhões de anos descoberto na Geórgia em 2005 sugere que os primeiros hominídeos que povoaram o planeta poderiam pertencer não a diferentes espécies mas a apenas uma, segundo uma investigação publicada na quinta-feira na revista Science.

Um dos investigadores analisou esse crânio durante oito anos e fez uma descoberta que, segundo defende, pode reescrever a história evolutiva dos humanos.»

Crânio com 1,8 milhões de anos põe em causa história da evolução humana

¿Por que razão, segundo esta tese, o evolucionismo darwinista fica na corda-bamba?

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