perspectivas

Terça-feira, 8 Novembro 2016

O Cristiano Ronaldo, o Rolando Almeida, e Nozick

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 12:20 pm
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O Rolando Almeida escreve aqui:

“Cristiano Ronaldo assinou novo contrato com o Real Madrid, o seu clube. Passa a ganhar cerca de 20 milhões de euros de salário por ano. Será moralmente justo? Deve o Estado intervir e cobrar mais impostos ao vencimento do Ronaldo para equilibrar a redistribuição da riqueza? Se o Ronaldo não é totalmente responsável pelo seu talento (pode ser hereditário) será justo ganhar mais que todos os outros que não podem competir pela lotaria da natureza em igualdade de circunstâncias? Vale a pena aproveitar a ocasião e perder 30 minutos a ver esta aula de Harvard com o professor e filósofo Michael Sandel”.

E depois segue o vídeo.


Ora bem. Michael Sandel é um comunitarista (não confundir com “comunista”), tal como, por exemplo, MacIntyre. Portanto, Sandel tem uma posição publicada contra Nozick e contra o libertarianismo. Mas, por outro lado, Sandel (como todos os comunitaristas, por exemplo, Alasdair MacIntyre, Charles Taylor, e até Michael Michael Walzer) também é crítico do utilitarismo nas suas diversas manifestações, incluindo John Rawls. O vídeo não apresenta a opinião de Sandel.

O libertarianismo parte do princípio do “I Own Myself” (“eu sou proprietário de mim próprio”); o princípio está errado, e por isso a teoria consequente está errada.

Eu só seria proprietário de mim próprio se eu fosse o criador (existencial) de mim mesmo; e mesmo que eu fosse o criador de mim próprio, a criação é limitação (o criador limita aquilo que é criado); porque a criação é transformar qualquer coisa em alguma coisa.

Mas o facto de eu não ser o proprietário de mim próprio não significa que eu seja propriedade de outro ser humano ou do Estado. Nem significa que o Estado possa alegar a “defesa da minha liberdade” tornando-me propriedade dele.

A única forma de ultrapassar este problema é pensar como Montesquieu: “Se Deus não existisse, teria que ser inventado” — porque a partir do momento em que Deus não exista, o Estado passa a ser o deus que é nosso proprietário (Rolando Almeida); ou então, na ausência de Deus, passamos conceber-nos a nós próprios como “proprietários de nós mesmos”, como pensam os libertários e Nozick.

A partir do momento em que o conceito de “propriedade” passa ter um cariz metafísico, torna-se mais fácil estabelecer o equilíbrio de interesses entre aquilo que é direito de propriedade do Cristiano Ronaldo, por um lado, e aquilo que é o direito de propriedade do Estado e da sociedade em geral, por outro lado.

Sábado, 5 Novembro 2016

O determinismo soteriológico do Calvinismo e da gnose da Antiguidade Tardia

 

Acerca deste verbete, um leitor colocou a seguinte pergunta:

¿Você poderia explicar melhor por que a predestinação calvinista tem orientação gnóstica?


Os leitores deste blogue, em geral, terão já notado que o blogue não sofre actualizações diárias, como acontecia ainda há pouco tempo. E uma das razões deste semi-abandono do blogue é a dificuldade em fazer subir o nível de complexidade dos assuntos tratados: chegamos a um ponto em que nos tornamos incompreensíveis ou ininteligíveis.


Para responder a esta pergunta, eu teria que dizer o que é a “predestinação calvinista”; e depois dizer o que é a “gnose”. E depois, estabelecer paralelos ideológicos entre uma coisa e outra. ¿Estão a ver a trabalheira?

Podemos resumir a coisa assim: na gnose da Antiguidade Tardia, a salvação do indivíduo também estava pré-determinada por Deus:

“Os gnósticos da Antiguidade Tardia formaram seitas iniciáticas assentes na distinção radical entre os chamados Hílicos (a escória da humanidade, ou profanos, ou não-convertidos), por um lado, e por outro lado os chamados Pneumáticos (os possuidores do Espírito Santo). Apenas para os Pneumáticos havia a possibilidade hic et nunc de salvação, ao passo que os Hílicos estavam, à partida, destinados à morte espiritual (determinismo da salvação)”.

Domingo, 2 Outubro 2016

O Frei Bento Domingues e o Padre Pio de Pietrelcina

 

Quem ler o que o Frei Bento Domingues escreve, e o que escreveu o Padre Pio de Pietrelcina, encontramos muitas discordâncias fundamentais entre os dois, acerca da religião.

“O dia especialmente consagrado a Deus tem de coincidir com o acontecimento da libertação, da alegria, da felicidade do ser humano. Deus não pode ser louvado à custa da humanidade. O Sábado é para o ser humano, não é o ser humano para o sábado. Deus quer misericórdia. Não se alimenta de sacrifícios humanos”.

A verdadeira religião é crítica

Padre-PioA forma como o Frei Bento Domingues apresenta o sacrifício humano perante Deus, é diabólica. O Frei Bento Domingues apresenta o deus comum dos católicos como uma espécie de leviatão bíblico que devora os seres humanos através do sacrifício, e depois diz que esse leviatão não é o Deus de Jesus Cristo.

E o Frei Bento Domingues faz referência ao livro do Anselmo Borges, pessoa que defendeu a legalização do aborto em Portugal (Les bons esprits se rencontrent…) — o aborto, que é o sacrifício supremo e involuntário do ser humano que alimenta o altar luciferino do dinheiro que ambos dizem combater. Como escreveu o poeta brasileiro Mário Quintana: “O aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato. É um roubo… Nem pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo. O aborto é o roubo infinito”.

Se alguém perguntar ao Frei Bento Domingues ¿o que é “a felicidade do ser humano”? a que ele se refere no seu textículo, ele não terá certamente resposta objectiva — a não ser que se trate de um imbecil. E eu suspeito que o Frei Bento Domingues é um imbecil a quem os me®dia portugueses imbecilizados têm dado uma atenção muito especial.

Os católicos actuais estão em uma encruzilhada: ou seguem os conselhos dos Freis Bentos Domingues e dos Anselmos Borges deste mundo, ou escolhem seguir, por exemplo, os conselhos do Padre Pio de Pietrelcina. O princípio, aqui, é o do terceiro excluído.

Domingo, 25 Setembro 2016

Estou um pouco surpreso com a evolução da Raquel Varela

 

“(…) nada disto autoriza é que o Estado passe a regulamentar o que se veste, porque isso seria tornar o republicanismo francês em ideologia de Estado e acabar com o princípio do laicismo que diz o seguinte: todas as religiões (e os ateus) têm que ter condições, dadas pelos Estados, para ser praticadas. É no terreno político e social que se combate o obscurantismo, e o relativismo cultural pós-moderno, não é no terreno da concentração de poder no Estado”.

Raquel Varela

Naturalmente que ela fala da polémica das burkas e burkinis em França.


1/ Vemos aqui em baixo um exemplo de uma apresentadora italiana de televisão: chama-se Marina Nalesso e apresenta os telejornais com um crucifixo ao peito e com duas medalhas católicas (uma delas de Nossa Senhora de Fátima). A cruz e as medalhas são símbolos. 1

marina-nalesso

Vemos aqui uma outra mulher, Fatma Nabil, da televisão egípcia (¿ou será “egícia”?, ¿segundo o Acordo Ortográfico?), desta vez, islâmica. Os símbolos são diferentes; é a própria indumentária que é simbólica do estatuto da mulher islâmica. Se os símbolos são diferentes, as religiões são diferentes, e as culturas também são diferentes. Portanto, já chegamos à conclusão de que as religiões (e as culturas) são diferentes; o que falta saber é se são equivalentes, ou seja, se podem ser valorizadas de forma igual ou semelhante.

fatma-nabil

2/ naturalmente que se pode dizer que “os gostos não se discutem”; está na moda dizer-se. Kant não concordava: dizia ele que os gostos devem ser discutidos (o racionalista Kant deixou de estar na moda: hoje é mais o romântico Rousseau) — não porque Kant tivesse grande apetência pela estética, mas porque se preocupava com a política. A verdade é que a estética (o belo) e a ética (o bom) estão intimamente ligadas, e a discussão do “belo” e do “bom” é também uma discussão política.

mulher-romana3/ também se pode dizer que “a mulher tem todo o direito de se tapar” — o mesmo soe dizer-se que a mulher tem o direito de não andar com as mamas à mostra e a exibir publicamente o pernão. Este argumento é pertinente e deve ser acolhido como racional. De facto, a mulher tem esse direito.

Mas — ao contrário do que se passa no Islamismo —, no Cristianismo o recato feminino e a indumentária “pudica”, por assim dizer, nunca foram símbolos religiosos em si mesmos, mas antes foram heranças de uma cultura anterior ao Cristianismo (por exemplo, a cultura romana ou grega). Em contraponto, no Islamismo, essa cultura mais antiga da indumentária feminina “pudica” foi integrada na cultura antropológica islâmica como um símbolo religioso entendido em si mesmo.

Teresa-de-AvilaVemos, por exemplo, a monja medieval Teresa de Ávila: a base da indumentária das monjas era (e é ainda hoje) uma herança de uma cultura anterior ao Cristianismo, e não um símbolo religioso entendido em si mesmo. Hoje, a indumentária das monjas segue uma tradição que não se constitui em si mesma como um símbolo religioso — e tanto assim é, que uma qualquer mulher católica não é coagida pelo Vaticano a vestir-se de freira.

Assim como não podemos confundir ou misturar a arte (a estética), por um lado, e a política, por outro lado — assim não podemos confundir a religião e a cultura de um determinado tempo, a não ser que a religião não passe de um princípio de ordem política que se aplica de forma intemporal, como é o caso do Islamismo.

freiras-carmelitas-usa

4/ quando o modo de vestir (a indumentária) se transforma (em si mesma) em um símbolo religioso (e deixa de ser apenas uma manifestação cultural ou uma tradição, como aconteceu ao longo da história do Cristianismo e da Europa), já não estamos na esfera da liberdade moral individual e/ou colectiva, mas antes em uma forma mais ou menos evidente de coerção social e cultural (negação da liberdade). É evidente que o Islamismo é um princípio de ordem política totalitária.

Neste sentido, é um erro afirmar que “todas as religiões são iguais e têm que ser tratadas da mesma forma pelo Estado”. Um erro crasso da Raquel Varela — porque “os gostos devem ser discutidos”, como afirmou Kant.


Nota
1. Os símbolos são claros, são reconhecidos socialmente, têm um poder imanente de convencimento e participam espiritualmente naquilo que simbolizam. Porém, não devemos confundir símbolos com sinais. Os sinais também são claros e reconhecidos: no entanto, falta-lhes a participação no conteúdo do representado/simbolizado, porque, em regra, os sinais são escolhidos arbitrariamente (por exemplo, os sinais de trânsito). Por isso não é possível comparar, por exemplo, um sinal de trânsito com o símbolo de um Deus pessoal, ou mesmo com o símbolo de uma equação matemática.

O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva que adquire uma experiência intersubjectiva e universal) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda, porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; em contraponto, um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

Sábado, 17 Setembro 2016

A evolução em dois mundos

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 12:05 pm
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Ao ler este texto do Anselmo Borges, pensei que talvez as reformas que a Igreja Católica necessite sejam menos as defendidas por ele e pelo papa Chico, e mais as da doutrina do Cristianismo primordial defendidas, por exemplo, pela patrística; e mencionada pelo próprio Jesus Cristo.


Saiu Jesus com seus discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe; e no caminho perguntou-lhes:
“Quem dizem os homens que sou eu?”

Eles responderam: “Uns dizem: João Baptista; outros: Elias; e outros: Um dos profetas.”

Ele lhes perguntou: “Mas vós, quem dizeis que sou eu?” Respondeu-lhe Pedro: “Tu és o Cristo”.

→ Marcos 8:27-29


Nos Estados Unidos já se estuda e investiga há décadas este problema a nível científico e universitário; mas a Igreja Católica continua agarrada à imanência materialista do papa chiquérrimo.

Se entendermos “evolução” como o processo através do qual o Absoluto se apresenta na dimensão do espaço e do tempo → então a afirmação de que o espírito, a alma e a razão são produtos da evolução não representa um problema para a metafísica. Porém, se a evolução for entendida em termos materialistas – leia-se, segundo a teoria da origem das espécies de Darwin, ou segundo o neodarwinismo da segunda metade do século XX — , então a realidade da autoconsciência e do acesso ao domínio das verdades intemporais arrebenta o quadro evolucionário.

Domingo, 24 Julho 2016

Os dogmatismos

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:30 am
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Nós devemos ser cépticos; o cepticismo é saudável. Mas vejamos o que significa “cepticismo”.

O cepticismo não afirma que a verdade é inacessível, mas sim que não podemos ter a certeza de a alcançar. Não devemos confundir a dúvida céptica dos gregos, que tem por objectivo uma suspensão definitiva da opinião, por um lado, e a dúvida metódica (Descartes) que é provisória e estabelecida visando a descoberta da verdade, por outro lado.

David Hume propôs um “cepticismo académico”, segundo o qual é impossível duvidar de tudo, mas é saudável conhecer a fragilidade dos nossos conhecimentos, mesmo daqueles que nos parecem mais seguros. O cepticismo torna-se então como um instrumento contra o dogmatismo, no sentido de ser contra uma confiança demasiada no poder da razão humana.

Ou seja, David Hume corrobora a opinião de G. K. Chesterton: “a humanidade é composta por dois tipos de pessoas: as que têm dogmas mas sabem que os têm, e os que têm dogmas mas que não reconhecem que os têm”. Nos casos do Ludwig Krippahl e do Matts, ambos não reconhecem que se regem por dogmas.

O problema da ciência não é o de cometer erros; é o de que, enquanto os erros não são corrigidos, esses erros serem considerados como verdades assumidas — porque o cientista também é um ser humano sujeito ao dogmatismo do paradigma  (por exemplo, o Ludwig Krippahl). “A maior fé que existe é a do cientista, porque é inconfessável” (Roland Omnès).

Portanto, a nossa posição em relação à ciência deve ser céptica. Mas ser céptico em relação à ciência não significa que devemos colocar em causa a própria essência da ciência, porque isso seria “deitar fora o bebé com a água do banho”.

O Ludwig Krippahl extrapola o domínio da ciência para uma espécie de metafísica negativa (ateísmo), e o Matts não sabe qual é o domínio da ciência quando a contrapõe à religião. A ciência propriamente dita não se opõe à religião, nem pode fazê-lo por limites que lhe são próprios.

Por exemplo, a ideia do Matts segundo a qual “os dinossauros viveram há cinco mil anos” é uma completa aberração. Ele perde credibilidade na defesa da religião, porque confunde os símbolos (como representações da realidade) com a própria realidade. Ou seja, o Matts é céptico em relação ao darwinismo (eu também), mas já não é céptico em relação à possibilidade de os dinossauros terem existido há cinco mil anos.

O Ludwig Krippahl fala em “teoria darwinista”.

Em ciência, uma teoria é uma síntese que engloba leis naturais (por exemplo, a teoria da gravitação engloba a lei da queda dos corpos ) destinada a considerar os dados da experiência.

Mas, segundo Karl Popper, não é possível compreender totalmente uma teoria formulada, porque é impossível conhecer todas as suas conclusões lógicas — ou seja, é impossível excluir o surgimento de contradições internas dentro de uma teoria. A verdade científica não pode ser provada com certeza nem através da experiência e nem através da intuição intelectual, porque na ciência não existe nenhum indicador infalível para a verdade.

“As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecerem para sempre conjecturas ou hipóteses”

– Karl Popper, em conferência proferida em 8 de Junho de 1979 no Salão Nobre da Universidade de Frankfurt , por ocasião da atribuição do grau de Doctor Honoris Causa

Portanto, devemos ver nas teorias científicas uma espécie de “moda”. Há teorias que estão na moda e que vão deixar de estar. Mas cada “moda” tem símbolos, e são esses símbolos que devem ser criticados pela razão, pela lógica, e pelos dados da experiência das ciências empíricas e das ciências formais.

Esta minha posição não significa que eu seja agnóstico ou ateu. Significa apenas, por exemplo, que a experiência humana demonstrou que os dinossauros não viveram há cinco mil anos, e que o darwinismo é um mito — é uma moda — porque é impossível explicar a mutação das formas.

Quarta-feira, 13 Julho 2016

O marxismo é o ópio dos intelectuais.

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 10:28 am
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Naturalmente que o conceito de “intelectual” vulgarizou-se, como podemos ver em Raquel Varela. Um intelectual é hoje uma pessoa que diz umas coisas; e sobretudo é uma pessoa que leu Karl Marx sem ter lido, por exemplo, David Hume ou Karl Popper.

Se lermos este textículo da Raquel Varela, não constatamos apenas ignorância: sobretudo a estupidez da criatura.

Naturalmente que, para a Raquel Varela, não existia “angústia social” na URSS ou em Cuba; ou então, esses países traíram a revolução: a verdadeira revolução está para chegar, à semelhança do Messias judeu da escatologia. A verdadeira revolução irá acabar com as “angústias social e religiosa” e com a “dor real” da existência humana: passaremos todos a ser super-homens.

É (também) por existirem criaturas como a Raquel Varela que sou um reaccionário: não acredito que os problemas fundamentais do ser humano tenham soluções humanas.

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Quinta-feira, 2 Junho 2016

Não há pessoa mais abjecta, na sociedade portuguesa, do que Isabel Moreira

 

Ia lendo este artigo acerca das invectivas da Isabel Moreira em relação a Assunção Cristas, até que surgiu este trecho escrito pela deputada socialista:

“Para Cristas não basta que a religião de cada um seja respeitada e que cada pessoa escolha matricular os seus filhos numa escola de cariz religioso. Não: Cristas quer o mesmo que o Cardeal Patriarca. A líder quer usar o falso slogan liberdade de escolha para arregimentar com menos custos mais pessoas para a sua doutrinação abjecta de padronização comportamental de toda uma sociedade”.

A Isabel Moreira tem todo o direito de defender posições jurídicas acerca do que quiser; mas, como figura pública, não tem que transportar para o Direito Positivo e para a política nacional, a sua condição de lésbica desbragada e a do putedo que a acompanha.

Não há nada mais abjecto do que uma puta — não confundir “puta” com “prostituta”; uma prostituta é uma pessoa digna, ao passo que uma puta está ontologicamente isenta de qualquer dignidade. Qualquer prostituta de rua tem muitíssimo mais dignidade do que a Isabel Moreira. E entre as putas mais abjectas de Portugal está a Isabel Moreira, que se serve da confiança que os portugueses depositaram nela para fazer ataques públicos soezes à religião.

Quinta-feira, 12 Maio 2016

A crítica ao anti-utilitarismo de John Rawls

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:19 am
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Este verbete do Aires de Almeida faz a crítica ao anti-utilitarismo de John Rawls.

A melhor crítica que podemos fazer ao utilitarismo é a de que é condicionado por duas proposições antitéticas ou contraditórias entre si:

  • uma proposição positiva, que diz que os homens devem ser considerados como indivíduos egoístas, calculadores e racionais, e que tudo deve ser pensado e elaborado a partir do seu ponto de vista;
  • e uma proposição normativa, que afirma que os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou do "maior número".

Todo o utilitarismo mistura, em proporções infinitamente variáveis e dependente apenas da discricionariedade política das elites da sociedade, uma axiomática do interesse e uma axiomática sacrificialista, que é simultaneamente um encantamento pelo egoísmo (individualismo) e uma apologia do altruísmo, e tentativa de reconciliar um ponto de vista ferozmente individualista e uma vertente globalizada e holista.

Ou seja, a melhor crítica ao utilitarismo é reduzi-lo ao absurdo, por um lado, e por outro lado sublinhar a importância do sacrifício voluntário, consciente e racional do interesse próprio que só a religião transcendental (até certo ponto) pode conseguir.

Sábado, 7 Maio 2016

O problema do Anselmo Borges é o sexo e a política, e não a religião

 

O Anselmo Borges diz aqui que a Igreja Católica deve colocar-se contra o capitalismo, e que o papa deve passar a ser um Bispo como outro qualquer. E depois diz que a Igreja Católica se deve transformar em um partido político cuja ideologia defende “um mundo mais justo”. E a seguir diz que os homens católicos casados e as mulheres “quase não tem voz” no interior da Igreja Católica.

E conclui o Anselmo Borges que a Igreja Católica deve mudar por forma a transformar-se em um partido político anti-capitalista, deve acabar-se com o papado e dissolver a sua autoridade pelos bispos, retirar ao clero a sua característica do celibato, e talvez eleger uma papisa Joana. E diz o Anselmo Borges que esta seria a verdadeira Igreja Católica democrática e que pertenceria ao povo.

O que o Anselmo Borges defende pode ser facilmente aceite por um analfabeto funcional. Aliás, ele dirige-se aos analfabetos; os populistas escolhem sempre os ignaros como alvo da sua propaganda. Mas, para uma pessoa avisada, o que o Anselmo Borges pretende é acabar com a Igreja Católica.


Convém que se informe os leitores menos familiarizados com as diversas confissões cristãs, o seguinte:

A tradição luterana parte exclusivamente da consciência do indivíduo (qualquer que seja, ignaro e bruto que seja), como última instância no reconhecimento, não só dos dogmas, mas também da própria doutrina, e de uma maneira completamente independente do carácter lógico que lhes possa ser atribuído. Isto permite a liberdade evangélica, o que implica também uma teologia diferente em cada púlpito (cada sacerdote ou pastor prega a doutrina que quiser).

Na Igreja Católica, sublinha-se a doutrina e os dogmas como uma função da constituição de uma comunidade. A verdade religiosa é entendida de uma maneira análoga a uma verdade factual objectiva. A comunidade da Igreja Católica deve ser reforçada através da sua uniformidade em questões doutrinais e dogmáticas.

A Igreja Ortodoxa opta pelo meio-termo; nega a possibilidade de um magistério infalível. Os dignitários — o clero —, os teólogos e os concílios são convocados para apresentar propostas sobre questões doutrinais, mas a decisão sobre a rejeição ou aprovação realiza-se através do processo de recepção por parte dos crentes, através do qual uma tese formulada ganha vida em toda a Igreja Ortodoxa. Sem esta recepção popular dos verdadeiros crentes e frequentadores da Igreja Ortodoxa, as decisões do clero sobre a doutrina e os dogmas permanecem mortas.


O que o Anselmo Borges defende é que se utilize a força de uma nova gerontocracia clerical “progressista”, representada pelo papa Chiquinho, para transformar a Igreja Católica em uma igreja luterana. Ele pretende que a infalibilidade do papa e a autoridade do clero católico sejam utilizadas unilateralmente para transformar a Igreja Católica em uma confissão protestante, sem ouvir o povo católico. É isto que o Anselmo Borges pretende.

Se o Anselmo Borges defendesse uma aproximação ao método da Igreja Ortodoxa, eu estaria disponível para o ouvir. Mas o facto de a Igreja Ortodoxa também ter um clero celibatário e de as mulheres não poderem ser bispos, impede-o de defender esta aproximação. O problema do Anselmo Borges é o sexo e a política, e não a religião.

Sábado, 9 Abril 2016

Os dogmas católicos e a física quântica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:12 pm
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Os dogmas cristãos consistem na tentativa de codificar (formalizar) as experiências de convivência com o mistério de Deus, conservando, ao longo de séculos, as experiências intersubjectivas com Deus sob a forma de teses. A religião propriamente dita cria comunidade, e por isso tem que possuir conteúdos universais — mesmo que esses conteúdos se encontrem no limite daquilo que é exprimível em termos da lógica. Os dogmas cristãos são pilares impregnados no terreno do inexprimível para delimitar um espaço claro de comunicação para uma comunidade; os dogmas foram arrancados ao silêncio: são uma tentativa paradoxal de exprimir aquilo que não pode ser expresso por palavras, mas que quer ser exprimido.

Porém, a linguagem corrente e comum consiste em conceitos universais. Em rigor, o ser humano só pode entrar em comunicação sobre aquilo que nele não é individual. Por isso, no quotidiano, falamos sempre sobre temas a que todos (ou quase todos) têm acesso.

Mas um dogma cristão é uma afirmação sobre a realidade que está para além daquilo é alcançável através da linguagem corrente. Para que as experiências intersubjectivas com Deus, e as imagens que as representam e evocam, possam fundar uma comunidade que perdura há mais de dois mil anos, elas são formalizadas em dogmas.


A física quântica tem uma situação semelhante aos dogmas da Igreja Católica.

A física quântica, tendo-se construído em ruptura com conceitos que nos são familiares, teve que forjar outros conceitos fora da linguagem corrente, que estão tão afastados da experiência corrente (experiência no sentido do “empírico”) que se perde toda a intuição sensível e empírica desses novos conceitos, e quase todo o contacto. Por outras palavras, a física quântica abriu um espaço ou um hiato entre o concreto e o abstracto (tal como acontece com o dogma católico). Tudo se passa como se a física quântica se tivesse desembaraçado da linguagem corrente graças a uma formalização integral do seu conteúdo. Ora, o objectivo da comunicação e da vulgarização da física quântica é precisamente dizer tudo por palavras — e por isso existe aqui uma antinomia (tal como acontece com os dogmas religiosos).

Essa antinomia, que torna difícil uma transmissão ou comunicação metafórica através da imagem ou da linguagem, não é fácil de ultrapassar — porque há uma grande dificuldade em explicar o seu conteúdo à luz da linguagem corrente, e porque “explicar qualquer coisa a alguém” é colocar essa coisa em relação a noções já conhecidas, ou, por outras palavras, com noções que lhe são familiares e que quase todos têm acesso.

Por isso é que, à luz da linguagem corrente e da mentalidade do Homem contemporâneo (incluindo a maior parte dos filósofos modernos), os conceitos da física quântica não são considerados interessantes (tal como acontece em relação aos dogmas cristãos) — porque entram em um domínio que está para além da linguagem corrente; ou então, esses conceitos quânticos são deformados pelas filosofias New Age, como por exemplo, com o uso que se faz do conceito quântico de “não-separabilidade”: ao contrário do uso vulgar do conceito, a não-separabilidade não implica a transmissão instantânea de energia ou de sinais à distância — exactamente porque o fenómeno da não-separabilidade ocorre fora do espaço-tempo.

Tanto os dogmas cristãos como os conceitos da física quântica encontram-se em um domínio que está para além da linguagem corrente. E num caso como no outro, o concreto é o abstracto que se torna familiar pelo hábito.

O Anselmo Borges e o Islamismo secularista

Filed under: Política — O. Braga @ 12:06 pm
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O Anselmo Borges escreve aqui um artigo sobre a diferença entre laicismo, por um lado, e laicidade, por outro lado. Em vez de “laicidade”, eu prefiro usar o termo de origem inglesa “secularismo” (para evitar confusões etimológicas).

Portanto, temos a antinomia entre laicismo e secularismo.

O texto do Anselmo Borges é consensual, até por mim. “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é Deus”, afirmou Jesus Cristo. O Estado não tem que se meter na religião, nem a religião deve governar o Estado. Estou de acordo com o Anselmo Borges.

Porém, “neutralidade do Estado em relação às religiões” — supostamente como o oposto de “teocracia” — é um sofisma; porque as religiões não podem ser ignoradas pelo Estado em função da sua representatividade social e cultural. Ou seja, o Estado não deve tratar de forma igual a Igreja Católica com, digamos, 3 milhões de fiéis, e o Islamismo com 10 mil seguidores. Ora é esta falsa “neutralidade do Estado” que é praticada pelos governos da democracia, em nome do secularismo.

Por outro lado, e ao contrário do que parece pensar o Anselmo Borges que cita “o prestigiado filósofo muçulmano” Abdennour Bidar, o Islamismo não é uma religião como outra qualquer religião universal, por exemplo, o Budismo, Hinduísmo ou o catolicismo. O Islamismo é uma religião política, assim como o marxismo é uma religião política: a diferença é que a primeira é dualista (no sentido metafísico), e a segunda monista (no mesmo sentido).

O Islamismo é um princípio de ordem política.

Isto significa o seguinte: converter o Islamismo ao secularismo é colocar em causa os princípios do próprio Islamismo. É fazer com que o Islamismo se negue a si próprio. É colocar em causa o próprio Alcorão. É uma impossibilidade objectiva.

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