perspectivas

Quinta-feira, 2 Junho 2016

Não há pessoa mais abjecta, na sociedade portuguesa, do que Isabel Moreira

 

Ia lendo este artigo acerca das invectivas da Isabel Moreira em relação a Assunção Cristas, até que surgiu este trecho escrito pela deputada socialista:

“Para Cristas não basta que a religião de cada um seja respeitada e que cada pessoa escolha matricular os seus filhos numa escola de cariz religioso. Não: Cristas quer o mesmo que o Cardeal Patriarca. A líder quer usar o falso slogan liberdade de escolha para arregimentar com menos custos mais pessoas para a sua doutrinação abjecta de padronização comportamental de toda uma sociedade”.

A Isabel Moreira tem todo o direito de defender posições jurídicas acerca do que quiser; mas, como figura pública, não tem que transportar para o Direito Positivo e para a política nacional, a sua condição de lésbica desbragada e a do putedo que a acompanha.

Não há nada mais abjecto do que uma puta — não confundir “puta” com “prostituta”; uma prostituta é uma pessoa digna, ao passo que uma puta está ontologicamente isenta de qualquer dignidade. Qualquer prostituta de rua tem muitíssimo mais dignidade do que a Isabel Moreira. E entre as putas mais abjectas de Portugal está a Isabel Moreira, que se serve da confiança que os portugueses depositaram nela para fazer ataques públicos soezes à religião.

Quinta-feira, 12 Maio 2016

A crítica ao anti-utilitarismo de John Rawls

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:19 am
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Este verbete do Aires de Almeida faz a crítica ao anti-utilitarismo de John Rawls.

A melhor crítica que podemos fazer ao utilitarismo é a de que é condicionado por duas proposições antitéticas ou contraditórias entre si:

  • uma proposição positiva, que diz que os homens devem ser considerados como indivíduos egoístas, calculadores e racionais, e que tudo deve ser pensado e elaborado a partir do seu ponto de vista;
  • e uma proposição normativa, que afirma que os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou do "maior número".

Todo o utilitarismo mistura, em proporções infinitamente variáveis e dependente apenas da discricionariedade política das elites da sociedade, uma axiomática do interesse e uma axiomática sacrificialista, que é simultaneamente um encantamento pelo egoísmo (individualismo) e uma apologia do altruísmo, e tentativa de reconciliar um ponto de vista ferozmente individualista e uma vertente globalizada e holista.

Ou seja, a melhor crítica ao utilitarismo é reduzi-lo ao absurdo, por um lado, e por outro lado sublinhar a importância do sacrifício voluntário, consciente e racional do interesse próprio que só a religião transcendental (até certo ponto) pode conseguir.

Sábado, 7 Maio 2016

O problema do Anselmo Borges é o sexo e a política, e não a religião

 

O Anselmo Borges diz aqui que a Igreja Católica deve colocar-se contra o capitalismo, e que o papa deve passar a ser um Bispo como outro qualquer. E depois diz que a Igreja Católica se deve transformar em um partido político cuja ideologia defende “um mundo mais justo”. E a seguir diz que os homens católicos casados e as mulheres “quase não tem voz” no interior da Igreja Católica.

E conclui o Anselmo Borges que a Igreja Católica deve mudar por forma a transformar-se em um partido político anti-capitalista, deve acabar-se com o papado e dissolver a sua autoridade pelos bispos, retirar ao clero a sua característica do celibato, e talvez eleger uma papisa Joana. E diz o Anselmo Borges que esta seria a verdadeira Igreja Católica democrática e que pertenceria ao povo.

O que o Anselmo Borges defende pode ser facilmente aceite por um analfabeto funcional. Aliás, ele dirige-se aos analfabetos; os populistas escolhem sempre os ignaros como alvo da sua propaganda. Mas, para uma pessoa avisada, o que o Anselmo Borges pretende é acabar com a Igreja Católica.


Convém que se informe os leitores menos familiarizados com as diversas confissões cristãs, o seguinte:

A tradição luterana parte exclusivamente da consciência do indivíduo (qualquer que seja, ignaro e bruto que seja), como última instância no reconhecimento, não só dos dogmas, mas também da própria doutrina, e de uma maneira completamente independente do carácter lógico que lhes possa ser atribuído. Isto permite a liberdade evangélica, o que implica também uma teologia diferente em cada púlpito (cada sacerdote ou pastor prega a doutrina que quiser).

Na Igreja Católica, sublinha-se a doutrina e os dogmas como uma função da constituição de uma comunidade. A verdade religiosa é entendida de uma maneira análoga a uma verdade factual objectiva. A comunidade da Igreja Católica deve ser reforçada através da sua uniformidade em questões doutrinais e dogmáticas.

A Igreja Ortodoxa opta pelo meio-termo; nega a possibilidade de um magistério infalível. Os dignitários — o clero —, os teólogos e os concílios são convocados para apresentar propostas sobre questões doutrinais, mas a decisão sobre a rejeição ou aprovação realiza-se através do processo de recepção por parte dos crentes, através do qual uma tese formulada ganha vida em toda a Igreja Ortodoxa. Sem esta recepção popular dos verdadeiros crentes e frequentadores da Igreja Ortodoxa, as decisões do clero sobre a doutrina e os dogmas permanecem mortas.


O que o Anselmo Borges defende é que se utilize a força de uma nova gerontocracia clerical “progressista”, representada pelo papa Chiquinho, para transformar a Igreja Católica em uma igreja luterana. Ele pretende que a infalibilidade do papa e a autoridade do clero católico sejam utilizadas unilateralmente para transformar a Igreja Católica em uma confissão protestante, sem ouvir o povo católico. É isto que o Anselmo Borges pretende.

Se o Anselmo Borges defendesse uma aproximação ao método da Igreja Ortodoxa, eu estaria disponível para o ouvir. Mas o facto de a Igreja Ortodoxa também ter um clero celibatário e de as mulheres não poderem ser bispos, impede-o de defender esta aproximação. O problema do Anselmo Borges é o sexo e a política, e não a religião.

Sábado, 9 Abril 2016

Os dogmas católicos e a física quântica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:12 pm
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Os dogmas cristãos consistem na tentativa de codificar (formalizar) as experiências de convivência com o mistério de Deus, conservando, ao longo de séculos, as experiências intersubjectivas com Deus sob a forma de teses. A religião propriamente dita cria comunidade, e por isso tem que possuir conteúdos universais — mesmo que esses conteúdos se encontrem no limite daquilo que é exprimível em termos da lógica. Os dogmas cristãos são pilares impregnados no terreno do inexprimível para delimitar um espaço claro de comunicação para uma comunidade; os dogmas foram arrancados ao silêncio: são uma tentativa paradoxal de exprimir aquilo que não pode ser expresso por palavras, mas que quer ser exprimido.

Porém, a linguagem corrente e comum consiste em conceitos universais. Em rigor, o ser humano só pode entrar em comunicação sobre aquilo que nele não é individual. Por isso, no quotidiano, falamos sempre sobre temas a que todos (ou quase todos) têm acesso.

Mas um dogma cristão é uma afirmação sobre a realidade que está para além daquilo é alcançável através da linguagem corrente. Para que as experiências intersubjectivas com Deus, e as imagens que as representam e evocam, possam fundar uma comunidade que perdura há mais de dois mil anos, elas são formalizadas em dogmas.


A física quântica tem uma situação semelhante aos dogmas da Igreja Católica.

A física quântica, tendo-se construído em ruptura com conceitos que nos são familiares, teve que forjar outros conceitos fora da linguagem corrente, que estão tão afastados da experiência corrente (experiência no sentido do “empírico”) que se perde toda a intuição sensível e empírica desses novos conceitos, e quase todo o contacto. Por outras palavras, a física quântica abriu um espaço ou um hiato entre o concreto e o abstracto (tal como acontece com o dogma católico). Tudo se passa como se a física quântica se tivesse desembaraçado da linguagem corrente graças a uma formalização integral do seu conteúdo. Ora, o objectivo da comunicação e da vulgarização da física quântica é precisamente dizer tudo por palavras — e por isso existe aqui uma antinomia (tal como acontece com os dogmas religiosos).

Essa antinomia, que torna difícil uma transmissão ou comunicação metafórica através da imagem ou da linguagem, não é fácil de ultrapassar — porque há uma grande dificuldade em explicar o seu conteúdo à luz da linguagem corrente, e porque “explicar qualquer coisa a alguém” é colocar essa coisa em relação a noções já conhecidas, ou, por outras palavras, com noções que lhe são familiares e que quase todos têm acesso.

Por isso é que, à luz da linguagem corrente e da mentalidade do Homem contemporâneo (incluindo a maior parte dos filósofos modernos), os conceitos da física quântica não são considerados interessantes (tal como acontece em relação aos dogmas cristãos) — porque entram em um domínio que está para além da linguagem corrente; ou então, esses conceitos quânticos são deformados pelas filosofias New Age, como por exemplo, com o uso que se faz do conceito quântico de “não-separabilidade”: ao contrário do uso vulgar do conceito, a não-separabilidade não implica a transmissão instantânea de energia ou de sinais à distância — exactamente porque o fenómeno da não-separabilidade ocorre fora do espaço-tempo.

Tanto os dogmas cristãos como os conceitos da física quântica encontram-se em um domínio que está para além da linguagem corrente. E num caso como no outro, o concreto é o abstracto que se torna familiar pelo hábito.

O Anselmo Borges e o Islamismo secularista

Filed under: Política — O. Braga @ 12:06 pm
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O Anselmo Borges escreve aqui um artigo sobre a diferença entre laicismo, por um lado, e laicidade, por outro lado. Em vez de “laicidade”, eu prefiro usar o termo de origem inglesa “secularismo” (para evitar confusões etimológicas).

Portanto, temos a antinomia entre laicismo e secularismo.

O texto do Anselmo Borges é consensual, até por mim. “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é Deus”, afirmou Jesus Cristo. O Estado não tem que se meter na religião, nem a religião deve governar o Estado. Estou de acordo com o Anselmo Borges.

Porém, “neutralidade do Estado em relação às religiões” — supostamente como o oposto de “teocracia” — é um sofisma; porque as religiões não podem ser ignoradas pelo Estado em função da sua representatividade social e cultural. Ou seja, o Estado não deve tratar de forma igual a Igreja Católica com, digamos, 3 milhões de fiéis, e o Islamismo com 10 mil seguidores. Ora é esta falsa “neutralidade do Estado” que é praticada pelos governos da democracia, em nome do secularismo.

Por outro lado, e ao contrário do que parece pensar o Anselmo Borges que cita “o prestigiado filósofo muçulmano” Abdennour Bidar, o Islamismo não é uma religião como outra qualquer religião universal, por exemplo, o Budismo, Hinduísmo ou o catolicismo. O Islamismo é uma religião política, assim como o marxismo é uma religião política: a diferença é que a primeira é dualista (no sentido metafísico), e a segunda monista (no mesmo sentido).

O Islamismo é um princípio de ordem política.

Isto significa o seguinte: converter o Islamismo ao secularismo é colocar em causa os princípios do próprio Islamismo. É fazer com que o Islamismo se negue a si próprio. É colocar em causa o próprio Alcorão. É uma impossibilidade objectiva.

Sábado, 19 Março 2016

A mentalidade New Age do Anselmo Borges

 

O Anselmo Borges escreve:

Jesus é condenado em primeiro lugar pela religião oficial, cujos sacerdotes viram os seus poderes e privilégios ameaçados. Do pior que há: viver à custa da religião e condenar à humilhação, à submissão e indignidade, à violência, à morte, utilizando o santo nome de Deus”.


Para o Anselmo Borges, clero e religião são incompatíveis — conforme podemos constatar pelas palavras que ele próprio escreveu: Jesus Cristo é condenado pelos sacerdotes. Isto não é apenas uma interpretação minha: decorre da leitura literal do trecho de Anselmo Borges, ou seja, é um facto.

Por definição, “religião” é um conjunto de crenças e de ritos que compreendem um aspecto subjectivo (o sentimento religioso) e um aspecto objectivo (as cerimónias, as instituições, os ritos, e um templo).

Mas, para o Anselmo Borges, religião é apenas o conjunto de crenças e de ritos que compreendem um aspecto subjectivo; o aspecto objectivo da religião é classificado negativamente pelo Anselmo Borges — a não ser que as instituições, as cerimónias e os ritos sirvam apenas para valorizar o aspecto subjectivo da religião. Ou seja, segundo o Anselmo Borges e na esteira do papa-açorda Francisco, o aspecto objectivo da religião deve anular-se (niilismo).

Esta forma de pensar — a de Anselmo Borges — é uma forma de negação da religião.

Enquanto que o Cristianismo parte do princípio de que Jesus Cristo é um exemplo a seguir (dada a excentricidade e excepcionalidade de Jesus Cristo em relação ao humano), a “religião” do Anselmo Borges e do papa-açorda Francisco parte do princípio de que Jesus Cristo é um exemplo a assumir (na medida em que a natureza de Jesus Cristo é vista como humanamente possível, e, por isso, perfeitamente passível de ser emulada pelo ser humano).

Anselmo Borges parte da defesa subjectiva do Cristianismo para a negação objectiva do Cristianismo — tirando partido dos erros humanos:se o clero católico erra, e se o ser humano pode e deve ser perfeito tal como Jesus Cristo foi, então segue-se que o clero não faz sentido, e o aspecto objectivo da religião deve ser eliminado”.

Domingo, 6 Março 2016

Descartes copiou Santo Agostinho, e a cultura dividiu a Europa

“Lutero só se deixa convencer pelas Escrituras e pela razão (plain reason). A experiência está omissa. Descartes vai pegar no argumento da razão para fazer o seu célebre exercício intelectual "Cogito ergo sum", penso, logo existo.”

Pedro Arroja

1/ Na “Cidade de Deus”, Santo Agostinho escreveu o seguinte:

“¿Quem quereria duvidar de que vive, se lembra, compreende, pensa, sabe ou julga? É que, mesmo quando se duvida, compreende-se que se duvida… portanto, se alguém duvida de tudo o resto, não deve ser dúvidas acerca disto. Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido. Porque a dúvida só é possível se eu existo”.

Santo Agostinho antecipou, no século IV, a famosa ideia de Descartes do século XVII: “cogito, ergo sum”. Ou seja, basicamente Descartes copiou Santo Agostinho.

Descartes — assim como Kant — tem sido vítima de algumas acusações infundadas por parte de católicos; porque se queremos acusar Descartes do “cogito”, teremos que acusar, em primeiro lugar, Santo Agostinho.


2/ O protestantismo (Lutero) surgiu por questões políticas (inerentes à organização social e política dentro do Sacro Império Romano-Germânico), e por questões culturais. Das primeiras não vou falar aqui e agora. Sobre as questões culturais, invoco aqui o fenómeno cultural do carnaval.

O termo italiano carnevale deriva do latim dominica carnelevalis ou Domingo da quadragésima, que era uma festa que marcava, para o clero católico, a passagem do regime normal para o regime de penitência, e que significava a abolição da carne ou do peixe. Ou seja, carnevale significava a entrada no período temporal e sagrado da Quaresma, dando origem a outros termos vernaculares como antruejo, introitus, carême-entrant, etc. Não há nada que indique a existência do carnaval antes de 1200 d.C. .

Segundo o pregador alemão Johann Geiler von Kaysersberg, era mais difícil convencer o povo a fazer a abstinência e penitência durante o período de tempo que vai do dominica carnelevalis até à Quaresma, do que meter um cavalo num barco pequeno. Então, a partir de 1500, os ritos de dissolução, conhecidos entre o povo coevo como “carnaval”, passaram a ser particularmente cultivados — embora, já antes do século XVI existissem regiões da Europa onde o clero já teria conseguido, com maior ou menor sucesso, introduzir entre o povo a abstinência e penitência da Quaresma.

Porém, o carnaval não se propagou por toda a Europa católica: por exemplo, no noroeste de França e na província francesa da Bretanha, em Inglaterra, na Holanda (excepto na fronteira com a Bélgica), na Alemanha do norte e na Escandinávia, não existe alguma tradição do carnaval. De modo diferente, o carnaval disseminou-se em regiões como Itália, Espanha, Portugal, a maior parte da França, uma grande parte da Alemanha com fulcro na Baviera, e na Grécia.

A razão desta diferenciação cultural (e aqui chamo à atenção para aquilo que é, erroneamente, considerado como sendo uma diferença entre protestantes e católicos) tem a ver com a história da tradição da penitência nas diversas regiões da Europa, e com a forma como a cultura romana influenciou ou não essa tradição da penitência.

Nas regiões do norte e noroeste da Europa comia-se, na Idade Média, panquecas na Terça-feira Gorda, e não se celebrava o carnaval porque eram regiões onde as taxas (impostos) de penitência eram pacificamente aceites, e onde a confissão e a penitência eram vistos como assuntos privados e pessoais — ao contrário do que acontecia nas regiões da Europa mais influenciadas pela cultura romana, em que o processo litúrgico da penitência pública (e não privada) era uma tradição cultural especifica.

A partir do início do século XIII, o carnaval apareceu nas regiões de maior influência cultural romana, onde a tradição da confissão pública e da penitência foi sendo progressivamente abandonada em favor do avanço de uma maior privacidade e privatização.

Em suma: para além das questões políticas relacionadas com a unificação da Alemanha, por um lado, e com a guerra alemã contra o centralismo de Roma que absorvia recursos financeiros, por outro lado — temos as questões culturais. As tradições dos povos da Europa não eram todas iguais, e por isso o catolicismo não podia ser seguido da mesma forma por todos.

 

Sábado, 20 Fevereiro 2016

O positivismo contribuiu decisivamente para a decadência da civilização europeia

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 1:01 pm
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Este texto do Ludwig Krippahl é patético. Ou melhor, é digno de um analfabeto funcional; e o problema é o de que ele o entende como parte de uma “filosofia”. O Ludwig Krippahl pretende “filosofar”, o que é normal; toda a gente “filosofa”, de uma maneira ou doutra, mas nem toda a gente o faz com método. O texto do Ludwig Krippahl é uma logomaquia.

Ao longo da História, o Absoluto foi interpretado como espírito (Platão), como vontade (Schopenhauer), como alma (Giordano Bruno), como Eu (Fichte) como matéria (Helvécio) ou como História (Karl Marx) — para referir apenas alguns filósofos. Sempre se declarou apenas um aspecto do nosso mundo como fundamento da Totalidade. E na medida em que a Totalidade não é idêntica a uma parte de si própria, surgiram sempre dificuldades com as várias tentativas de solução do problema do Absoluto. Ou seja, tornou-se evidente que a Totalidade é mais do que a soma das suas partes, ou que não era possível incluir um importante aspecto parcial do mundo na respectiva definição da Totalidade.

Ora, o Ludwig Krippahl — seguindo a linha ideológica do Positivismo — transforma a ciência empirista em mais um conceito de Absoluto. Pergunta-me o leitor: ¿será que ele percebe isto? Penso que não percebe, porque ele teria que ter uma ideia aprofundada dos vários conceitos de Absoluto ao longo da História; e a julgar pelo texto dele, ele não conhece Platão e os outros referidos, senão de nome. Ou seja, parece-me que o Ludwig Krippahl não tem autoridade de facto para discutir filosofia com o Domingos Faria.


Temos o caso do pensador alemão Hans Blumenberg que, quando morreu em 1966, revelou ao mundo, em um trabalho hercúleo, que todas as “narrativas” perderam o seu valor, que não existe nenhuma verdade filosófica ou religiosa para os seres humanos, e que o ser humano tem que aprender a morrer resignado. O niilismo e o desespero como último conhecimento — esta é maneira de pensar que está hoje muito difundida.

Para não caírem no absurdo total, os positivistas — como por exemplo Carnap, a quem o Ludwig Krippahl obedece —, em vez de reconhecerem que o mundo teve a sua origem no Absoluto (a que se convencionou chamar “Deus”), declararam que a questão do Absoluto é apenas “aparente”. Segundo o positivismo, seria melhor nem sequer nos ocuparmos com questões desse tipo: pelo contrário, a filosofia deveria limitar-se àquilo que se pode perceber através dos sentidos, pois (alegadamente) só isso é seguro, mensurável e objectivo (só o que se pode medir é seguro).

Ou seja, segundo o Ludwig Krippahl, a leitura de um ponteiro em um instrumento de medição representa o único método defensável para responder às questões filosóficas.

Poincaré defendeu a seguinte tese: imaginemos que, na noite passada, enquanto todos (incluindo o Ludwig Krippahl) dormíamos, tudo no universo aumentou para o dobro do seu tamanho. Obviamente que a placa de platina e de irídio de Paris também aumentou para o dobro; 1 metro passou a ser 2; as trajectórias dos electrões aumentaram, assim como a órbita da Lua. Resultado: o Ludwig Krippahl não registaria qualquer aumento das dimensões; mas Carnap e o Ludwig Krippahl continuariam a afirmar que as suas medições descrevem e sondam a realidade de maneira suficiente.

Mas a verdade é que as medições, por si sós, não constituem a chave suficiente para a realidade. Por muito que a posição do Ludwig Krippahl seja “esclarecida”, ele tem que se confrontar com outro problema difícil que resulta da sua (dele) forma de pensar: ele próprio, como um ser consciente de si mesmo, como um Eu muito particular, nem sequer pode aparecer no mundo que ele próprio definiu — porque o Ludwig Krippahl não pode ser medido.

Santo Agostinho (¿será que o Ludwig Krippahl já leu alguma coisa de Santo Agostinho? Duvido!, porque se trata de um santo da Igreja Católica) dizia que eu sou sempre eu a pensar alguma coisa acerca de mim mesmo. Por isso, sou logicamente sempre mais do que aquilo que penso de mim mesmo, uma vez que me dividi. Por um lado, sou aquilo que penso sobre mim, ou seja, sou o conteúdo do meu pensamento. Mas, por outro lado, sou aquele que pensa este conteúdo. O conteúdo do pensamento é uma coisa; mas o pensamento activo desse conteúdo não é uma coisa. Por um lado, sou objecto sobre o qual penso, mas por outro lado sou sujeito que pensa sobre si próprio. O conteúdo do pensamento que penso sobre mim é incompleto e, por isso, não me abrange suficientemente — sou sempre mais do que aquilo que penso sobre mim. E dado que o mesmo se passa com Carnap e com o Ludwig Krippahl, também eles não se podem medir a si próprios de forma exaustiva.

A comparação entre a forma de pensar de Carnap e de Santo Agostinho revela como a civilização europeia entrou em decadência com a modernidade, com a elevação da ciência empirista a uma metafísica que nega a Metafísica. E o Ludwig Krippahl (entre muitos outros) personifica essa decadência intelectual.

Segunda-feira, 15 Fevereiro 2016

Paulo Rangel faz uma confusão entre Estado, por um lado, e política, por outro lado

 

A leitura deste artigo do Pedro Arroja levou-me a este artigo no jornal Púbico:

“Ao PÚBLICO, Paulo Rangel explica as razões que o levaram a escrever este ensaio, que procura demonstrar que a separação entre a religião e a política tem a sua origem no Cristianismo”.

Paulo Rangel, Jesus Cristo e a política

Parece-me que o Rangel confunde Estado e política.

De facto, o Cristianismo separou a religião e o Estado, mas Jesus Cristo nunca separou a política e a religião. Quando Jesus Cristo diz que “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, “César” simbolizava o Estado imperial romano; e aqui, Jesus Cristo marca uma linha divisória entre o Estado e a religião.

Por outro lado, Paulo Rangel não considera as ideologias políticas como formas modernas de religiosidade (as “religiões políticas imanentes”, segundo a terminologia de Eric Voegelin).

Separar a política e a religião — seja esta qual for — é uma impossibilidade objectiva.

Domingo, 7 Fevereiro 2016

O desconstrucionismo evangélico do Frei Bento Domingues

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 2:16 pm
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O Frei Bento Domingues pega em um trecho do Evangelho de S. Lucas (4,16 a 4,29), elimina a maior parte do texto e reinterpreta o restante (o que ele citou) a seu bel-prazer.

O problema não está na interpretação, entendida em si mesma, que pode ser discutida; o problema é o recorte “à medida” do texto, para que sirva um propósito ideológico distinto daquele que está plasmado no texto original.

O texto completo (de 16 a 29) retrata a psicologia da rejeição, que existe e existiu em todas as épocas desde que o ser humano apareceu à face da Terra, e que é confirmada pela experiência: “ninguém é profeta na sua terra”.

O conceito de “transformação da realidade”, utilizado pelo Frei Bento Domingues no texto dele, supõe o conceito de “fé metastática”, que é a crença segundo a qual é possível mudar a natureza fundamental da realidade. Ao contrário do que defende Frei Bento Domingues, Jesus Cristo nunca defendeu a crença em uma repentina transfiguração da estrutura da realidade e na subsequente emergência de uma ordem paradisíaca no planeta Terra. “O meu reino não é deste mundo”, disse Jesus Cristo; mas o Frei Bento Domingues teima em transformar o mundo, no reino Dele (a imanentização do éschatos)

É certo que o Cristianismo operou uma diferenciação cultural, em relação ao status quo anterior.

Mas essa diferenciação cultural não se baseou em uma “transformação da realidade” — como diz o Frei Bento Domingues —, mas antes baseou-se na afirmação da realidade, em um reconhecimento da existência de uma determinada realidade concreta. Ao contrário do que acontece com a interpretação feita pelo Frei Bento Domingues, a mensagem de Jesus Cristo não era utópica, mas antes era (e é) baseada no concreto, na realidade tal qual ela se nos apresenta: por isso é que Ele resgatou o papel da mulher na sociedade, por exemplo.

Não obstante ter resgatado a mulher, Jesus Cristo não considerou que os papéis do homem e da mulher fossem intermutáveis, dentro e fora da Igreja ou da religião — como defende utopicamente o Frei Bento Domingues —, exactamente porque o desígnio de Jesus Cristo não era utópico: Ele tinha a noção perfeita da realidade em que o ser humano está inserido.

Sábado, 6 Fevereiro 2016

O deus do Anselmo Borges não é o Deus de Jesus Cristo

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 3:18 pm
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« Segundo o modelo cosmológico padrão, vivemos num universo que se produziu no big bang e terminará numa morte energética futura: "um universo que nasce a partir de um "fundo" desconhecido no qual será reabsorvido".»

Sabemos, por inferência, que o universo teve um princípio; mas é abusivo dizer — como diz o Anselmo Borges ou qualquer outra pessoa — que o universo vai ter este ou aquele fim. A ciência é uma muleta para a filosofia, mas não podemos misturar ciência e filosofia, como faz o Anselmo Borges.

Do ponto de vista macroscópico — que é o ponto em que nos encontramos, na nossa realidade — não é possível conhecer o futuro. Mesmo as leis da física que conhecemos são revogáveis, por exemplo, face à singularidade.

Parece que o Anselmo Borges parte do princípio da filosofia gnóstica indiana do YUGA das elites secularizadas a partir do hinduísmo, que aliás influenciou Nietzsche na sua teoria do Eterno Retorno.

Um ciclo cósmico completo, um mahâyuga, compreende doze mil anos e termina com uma “dissolução” (pralaya) que se repete de uma maneira mais radical (mahâpralaya, a Grande Dissolução) no fim do milésimo ciclo. Assim, o esquema exemplar da “criação ― destruição ― criação” reproduz-se até ao infinito.

A Causa Primeira (Deus) já não é acessível ao Homem não-religioso através dos ritmos cósmicos.

A significação religiosa da repetição dos “gestos” cósmicos é esquecida; e a partir daqui, a repetição da natureza esvaziada do seu conteúdo religioso conduz necessariamente a uma visão pessimista da existência. Para o Homem não-religioso, o Tempo cíclico torna-se insuportavelmente terrível na medida em que se revela como um círculo rodando indefinidamente sobre si mesmo, repetindo-se até ao infinito.


« O ateísmo seria outra conjectura metafísica, também filosófica: no pressuposto das teorias especulativas de multiversos ou múltiplos universos e de supercordas, essa meta-realidade apresentar-se-ia como "uma realidade impessoal na qual se produziria de modo cego o nosso universo".»

O que o Anselmo Borges diz é que a teoria do Multiverso pode justificar racionalmente a ausência de uma Causa Primeira (Deus). A afirmação de Anselmo Borges não é crítica: é corroborativa. Portanto, segundo esse argumento, existirá um número infinito de Multiversos que justifica alegadamente a ausência de uma Causa Primeira (Deus) : é uma regressão infinita da existência e do Ser, em um mundo que o Anselmo Borges reconhece ser finito. Eu admito que um ateu ignaro coloque a hipótese desta tese; mas vinda de um professor universitário de filosofia ou teologia, acho muito estranha.


“Por isso falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam” (Job, 42,2)

A imagem que o Anselmo Borges traça de Deus é a do “Deus absconditus” — o Deus oculto — que se mantém em silêncio:

“Teísmo e ateísmo são confrontados com o silêncio de Deus. Este silêncio manifesta-se num duplo plano: no plano cósmico, porque Deus não se revela de modo evidente enquanto criador do universo. O outro é o silêncio de Deus "perante o drama da história, devido ao sofrimento humano pessoal e colectivo e ao mal natural cego e à perversidade humana".”

Ou seja, o Deus de Anselmo Borges não é o Deus de Jesus Cristo. Por isso, é abusivo que ele relacione o Deus silencioso, por um lado, com o Deus cristão, por outro lado. É evidente que o Anselmo Borges volta ao problema da Teodiceia para justificar a irracionalidade ateísta; neste sentido, recordemos as palavras do filósofo Eric Voegelin:

« Quando o coração é sensível e o espírito contundente, basta lançar um olhar sobre o mundo para ver a miséria da criatura e pressentir as vias da redenção; se são insensíveis e embotados, serão necessárias perturbações maciças para desencadear sensações fracas.

É assim que um príncipe mimado se apercebeu pela primeira vez de um mendigo, de um doente e de um morto ― e tornou-se assim em Buda; em contrapartida, um escritor contemporâneo vive a experiência de montanhas de cadáveres e do horroroso aniquilamento de milhares de indivíduos nas conturbações do pós-guerra na Rússia ― e conclui que o mundo não está em ordem e tira daí uma série de romances muito comedidos.

Um, vê no sofrimento a essência do ser e procura uma libertação no fundamento do mundo; o outro, vê-a como uma situação de infelicidade à qual se pode, e deve, remediar activamente. Tal alma sentir-se-á mais fortemente interpelada pela imperfeição do mundo, enquanto a outra sê-lo-á pelo esplendor da criação.

Um, só vive o além como verdadeiro se ele se apresentar com brilho e com grande barulho, com a violência e o pavor de um poder superior sob a forma de uma pessoa soberana e de uma organização; para o outro, o rosto e os gestos de cada homem são transparentes e deixam transparecer nele a solidão de Deus. »

Sábado, 30 Janeiro 2016

Anselmo Borges e o enigma de Deus

 

Anselmo Borges escreve o seguinte:

“É possível que Deus exista, mas também pode não existir. Ninguém pode dizer que sabe que Deus existe, mas também ninguém pode dizer que sabe que Deus não existe. Ninguém sabe se na morte encontramos a vida na sua plenitude em Deus ou se, pelo contrário, para cada pessoa tudo acaba na morte. Este é o grande enigma da vida de cada homem, de cada mulher”.

Anselmo Borges poderia ter escrito: “Este é o grande enigma da vida de cada ser humano”, englobando o homem e a mulher em uma mesma categoria. Mas o politicamente correcto exige que o homem e a mulher pertençam a espécies diferentes. Noutros tempos, dizíamos “Minhas senhoras e meus senhores!” por uma questão de boa educação; hoje, dizemo-lo por obrigação politicamente correcta.


Anselmo Borges erra quando confunde “enigma”, por um lado, e “mistério”, por outro lado.

Aliás, esse erro foi decalcado do livro do jesuíta a que se refere o Anselmo Borges no artigo. Quando estudei a História de Portugal no liceu, pensei que a expulsão dos jesuítas por parte do Marquês de Pombal tivesse sido um exagero; hoje tenho dúvidas se não teria justificação racional. Não é acaso que o papa-açorda Francisco é jesuíta.

Um enigma tem solução, por princípio; um mistério é insolúvel, à luz da razão humana.

O problema do homem moderno é o de que não aceita, por princípio, de que há coisas que não compreende (no sentido do racional determinístico) e nem nunca compreenderá: a ideia segundo a qual possam haver realidades ou fenómenos racionalmente inacessíveis ao ser humano é um sacrilégio modernista e cientificista.

Perante o Ser de Deus (e não a “existência” de Deus, porque Deus não “existe” da mesma forma que o Anselmo Borges), o ser humano debate-se com um mistério, e não com um enigma. Por isso é que a Igreja Católica tradicional fala do “mistério da fé”; talvez a Igreja Católica do papa-açorda Francisco, cientificista e secularista, passe a falar no “enigma da fé”.


A julgar pelo texto de Anselmo Borges, Deus é uma espécie de velho com barbas brancas que vive acima das nuvens, na companhia de S. Pedro que é o manda-chuva. Por isso é que, segundo o Anselmo Borges e o jesuíta autor do livro, “ou Deus existe, ou não existe”. “O ser de Deus não pode ser compreendido como a existência de um existente ao lado ou acima de outros existentes. Se Deus fosse um existente, estaria submetido às categorias da finidade, sobretudo ao espaço e ao tempo” (Paul Tillich).

“O espiritual é fundamental para mim; vou mesmo ao ponto de afirmar que não existe matéria, mas apenas espírito. (…) Aquilo que constitui o fundamento da realidade não é a matéria, mas um campo que, no entanto, não é material, representando, contudo, uma espécie de potencialidade. Um potencial que possui a capacidade de se materializar”. Quem escreveu isto não foi o abade da minha paróquia: foi Hans-Peter Dürr 1.

A ciência actual não pode ser materialista; ou não é ciência. Mas a verdade é que o naturalismo continua a ser o esteio da ciência que impõe uma cultura materialista.


Finalmente, Anselmo Borges confunde “dogma religioso” com “dogma cientificista” — colocando os dois tipos de dogma no mesmo plano ou nível.

É certo que o cientificismo naturalista é uma espécie de religião, mas trata-se de um monismo, imanente e materialista; é uma espécie de religião que apenas se foca em uma pequena parte da Realidade.

A Bíblia é um livro com que os primeiros cristãos transmitiram as suas experiências com Deus sob a forma de imagens, mitos e metáforas. As imagens dizem mais do que as palavras, porque conseguem superar frequentemente a contradição entre o individual e o universal. Por exemplo, a arte: a arte começa onde a linguagem acaba. A religião utiliza a arte das imagens para criar símbolos intersubjectivos que formam a comunidade dos crentes.

Para que estas experiências, e as respectivas imagens (símbolos) que as representam, possam fundar uma comunidade, aquelas são formuladas em dogmas. No sentido religioso propriamente dito — mas não no sentido cientificista ou naturalista —, um dogma é uma afirmação sobre a Realidade que está para além daquilo que é alcançável através da linguagem. O dogma religioso é a tradução do modus ponens da experiência secular religiosa dos cristãos: é uma espécie de “ajuda racional”.

Ou seja, o dogma religioso é um dogma positivo; o dogma cientificista é um dogma negativo (a negação do Ser). Colocar os dois tipos de dogma no mesmo plano de análise, é uma estupidez.


Nota
1. “Gott, der Mensch und die Wissenschaft”, 1997

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