perspectivas

Sábado, 5 Novembro 2016

A burrice da ciência, ou a ciência da burrice

 

Não é preciso ser cientista para desconfiar da homeopatia; mas é preciso ser cientificamente burro para mencionar Santo Agostinho acerca da astrologia sem se dar conta de que o Santo criticou o alegado desígnio divinatório da astrologia: quando se acredita que a astrologia prevê o futuro, também devemos desconfiar dela, como fez Santo Agostinho. Mas a astrologia não é a adivinhação do futuro; ou não devia ser assim interpretada.

É um erro argumentar contra a homeopatia utilizando a lógica (como faz o homúnculo); assim como é um erro, por exemplo, utilizar a lógica formal para tentar justificar o princípio da complementaridade (onda/partícula). O único argumento válido contra a homeopatia é o da verificação, ou falta dela (as estatísticas, a indução) — assim como um argumento válido contra a astrologia (enquanto entendido como um instrumento de previsão do futuro) é a verificação, uma vez que qualquer ciência positivista se baseia nos factos do passado.

Se a validação de um facto científico positivista dependesse apenas da lógica, não faria falta a verificação. E, neste contexto, comparar a homeopatia com a astrologia (ou meter as duas coisas no mesmo saco) só pode vir de uma mente obtusa.

Sábado, 24 Setembro 2016

Mais uma acha intelectualóide para o inferno da eutanásia

 

cabine-suicida-webParece que vem aí mais um livro que aborda a eutanásia, desta feita de uma tal Lucília Nunes que dizem ser doutorada em filosofia (tem um alvará de inteligência). O título do livro: “E Quando Eu Não Puder Decidir?”.

Ao longo de milénios, pelo menos desde os gregos antigos, que uma pergunta deste cariz não fazia sentido (apesar da “tolerância” grega em relação ao infanticídio) — porque a noção do “eu” não fazia sentido sem a pólis, por um lado, e sem a família natural, por outro lado.

Não li nem vou ler o livro, porque o título do dito é uma síntese do seu conteúdo: caminhamos para uma sociedade com pouca liberdade política (ao contrário do que acontecia na pólis ateniense) e sem família natural (em que o indivíduo se encontra isolado face ao Estado).

Este tipo de sociedade é, para a Lucília Nunes como para a maioria dos detentores de alvarás de inteligência, inevitável, é uma espécie de fatalidade do “processo histórico” — e daí, talvez, a preocupação da Lucília Nunes com a morte como um “processo”, como se pudéssemos prever que um jovem de 20 anos morra em um acidente de automóvel, por exemplo, e que ele conceba a previsão da sua própria morte como um “processo” imanente.

«Ao longo dos tempos, fomos lidando com a morte, umas vezes de formas mais próximas, actualmente de forma mais distanciada, às vezes como se não existisse. Para isso também tem contribuído o “morrer no hospital”, criando distância em relação ao quotidiano, afastando doentes e moribundos do contacto com os seus, “medicalizando” a morte. Prestamos pouca atenção ao facto de não podermos vencer a morte mas podermos lidar com o medo que temos dela

Este assunto da interpretação imanente da morte (uma variante moderna da imanentização individual do éschatos) foi exaustivamente abordada por Gadamer e interpretada por Sofia Reimão em um livro que eu analisei sumariamente em vários verbetes.

Uma coisa é certa: na sociedade da Lucília Nunes, a eutanásia a pedido do cidadão ( e independentemente de estar fisicamente doente ou não), vai passar a ser um “direito humano”. Mas tal como pressentiu Gadamer, a sociedade da Lucília Nunes não resume a cultura da humanidade inteira, e parece invencível como os dinossauros pareciam invencíveis.

Terça-feira, 30 Agosto 2016

O salafismo positivista do David Marçal

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:00 am
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O David Marçal escreveu o seguinte:

“Significa isto que [as medicinas alternativas] não conseguem provar a sua eficácia e segurança através dos métodos exigidos à medicina convencional. Têm na sua essência conceitos pré-científicos, como o vitalismo, a ideia de que há uma dimensão não material do corpo humano, com a qual se consegue interagir, de forma a curar as doenças. Como as pessoas têm a ciência em boa conta (e por bons motivos) o misticismo é embrulhado com um jargão científico da moda”.


cientismoA ideia de um conhecimento seguro do mundo, mesmo que se trate apenas das noções fundamentais mais genéricas, é hoje considerada como fracassada. Por isso é que o David Marçal, o Carlos Fiolhais etc., esperneiam sistematicamente em nome da “ciência”.

A ciência é um instrumento da nossa vontade de sobreviver neste mundo, mas não pode substituir outras áreas da realidade humana, como pretende o David Marçal e os camaradas do Rerum Natura.

A medicina não cura doenças — no sentido em que as doenças não desaparecem. As doenças podem sempre voltar a qualquer momento, seja no indivíduo, seja no colectivo. A medicina trata as doenças.

O David Marçal fala em “dimensão não material do corpo humano”; mas a ciência não sabe o que é “matéria” — excepto o David Marçal, que parece que sabe mais do que os cientistas sérios de todo o mundo. É este tipo de posições que faz com que o David Marçal perca alguma razão que possa ter. O David Marçal fala em “matéria” como eu poderia falar em “gambozinos” ou em “unicórnio voador”: entidades abstractas que não têm definição operacional. ¿O que é a matéria?

A ideia segundo a qual “a medicina convencional consegue provar a sua eficácia e segurança através do método indutivo” (indução ), é uma verdade adquirida, ou seja, uma crença do David Marçal. E, desde logo, os instrumentos a prova também devem estar sujeitos ao escrutínio da prova.

“A tentativa e erro não são indução, mas precisamente presunção e selecção” (Karl Popper). “Os indutivistas interpretaram mal a forma lógica interna da tentativa e erro. Não viram que a tentativa é sempre uma presunção e o erro é sempre uma selecção”.

Ou, como escreveu Thomas Kuhn: “Os teóricos das ciências mostraram repetidamente que a um conjunto de dados pode sempre corresponder a mais do que apenas uma construção teórica”.

É um absurdo que se diga que os factos (“facto” entendido como “verificação intersubjectiva de um evento”) podem ser pressupostos indiscutivelmente como pontos de partida da ciência — porque qualquer percepção ou observação já está (previamente) impregnada de teoria através das categorias presentes no nosso cérebro, ou da nossa linguagem, visto que estas também estruturam as nossas actividades intelectuais.

É evidente (ou seja, é verificável intersubjectivamente) que a descoberta da penicilina, por exemplo, foi importante para combater determinadas doenças; mas isso não significa que a penicilina seja necessariamente a única forma de as combater. É certo que devemos ser cépticos em relação a determinado tipo de crenças miraculosas, mas o radicalismo do David Marçal transforma-se em uma crença em relação à qual devemos ser cépticos também.

Sábado, 27 Agosto 2016

Convém misturar Giordano Bruno com Newton

Filed under: filosofia — O. Braga @ 1:16 pm
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O Carlos Fiolhais gosta de misturar coisas, principalmente quando uma das coisas misturadas é logicamente inconsistente mas adequa-se a uma determinada ideologia que ele perfilha. Neste caso, o Carlos Fiolhais mistura, no mesmo texto, o Giordano Bruno e Newton. A essencial diferença entre os dois é que Newton via Deus como transcendente em relação às leis da natureza e ao universo (embora Deus seja interventivo em relação ao universo), enquanto que o Giordano Bruno era um panteísta (panteísmo).

Vemos aqui um artigo que nos diz (por inferência) que Newton estava correcto e que Giordano Bruno estava errado:

“After measuring alpha in around 300 distant galaxies, a consistency emerged: this magic number, which tells us the strength of electromagnetism, is not the same everywhere as it is here on Earth, and seems to vary continuously along a preferred axis through the Universe,” said Webb.

The implications for our current understanding of science are profound. If the laws of physics turn out to be merely “local by-laws”, it might be that whilst our observable part of the Universe favors the existence of life and human beings, other far more distant regions may exist where different laws preclude the formation of life, at least as we know it.”

Our Solar System "Is in a Unique Place in the Universe — Just Right for Life"

A “solução” panteísta de Giordano Bruno (e mais tarde de Espinoza, ou de Hegel) é uma forma de naturalismo; perante a assertividade da mundividência de Newton, o Carlos Fiolhais entra em uma dissonância cognitiva que tem que ser compensada pelo panteísmo do mártir naturalista Giordano Bruno.

É conhecida a polémica entre Leibniz e Newton, em que o primeiro defendia a ideia segundo a qual Deus criou o universo de uma vez por todas e depois retirou-se do mundo — ao passo que Newton defendia a ideia segundo a qual, sendo que Deus transcende o universo (é “exterior” ao universo), mas contudo Ele age constantemente (em termos de tempo cósmico) no universo apesar das leis da natureza por Ele definidas, e que sem a intervenção constante de Deus no universo não poderia haver a ordem e uma determinada constância das leis da natureza que permitem a existência da vida.

Domingo, 14 Agosto 2016

A insustentável leveza do intelecto moderno

 

O Carlos Fiolhais diz que “o ser humano é o mais infinito dos macacos”, e, vindo dele esta ideia, por um momento quase acreditei que ele dizia a verdade!.

darwin macaco webBaseia-se ele na ideia segundo a qual um macaco, teclando numa máquina de escrever durante um “tempo infinito”, acabaria por exemplo por escrever “Os Lusíadas”. Neste caso, segundo o Carlos Fiolhais, o Luís de Camões seria um exemplo do “mais infinito dos macacos”.

A ideia de “tempo infinito” é auto-contraditória ou absurda, porque a noção de “infinito” não é idêntica à noção de “eterno”. O macaco do Carlos Fiolhais (salvo seja) poderia eventualmente ser eterno no tempo, mas ser infinito é uma singularidade que está para além do tempo. Poderíamos falar de um macaco teclando eternamente em uma máquina até conseguir escrever “Os Lusíadas” — mas nem isto seria possível porque o tempo não é eterno, na medida em teve um início no Big Bang.

Um dos erros dos românticos e dos idealistas do século XIX foi a confusão entre “infinito”, por um lado, e “eterno”, por outro lado (eliminando-se assim a transcendência, e reduzindo-se toda a realidade à imanência). O intelecto dos homens modernos tornou-se insustentavelmente leve. Por isso é que não me admiro que o Carlos Fiolhais faça uma comparação entre um ser humano e um macaco. A ideia não é a de valorizar o macaco (comparado-o com o ser humano): em vez disso, a ideia é a de desvalorizar o ser humano (como faz o Peter Singer, entre outros); o ser humano tornou-se-se o principal inimigo ontológico do ser humano.


A nossa língua utiliza um código (alfabeto), e se escrevermos as letras “ABC” de uma forma repetida ao longo de 1.000 páginas, por exemplo, teríamos um padrão regular, altamente ordenado e previsível (que é como o que é produzido pelas leis da Natureza); mas se analisarmos “Os Lusíadas”, verificamos um padrão irregular nas letras do alfabeto utilizadas, o que significa uma enorme quantidade de informação. Para produzir essa informação é necessária uma coisa que se chama “inteligência”.

A ideia implícita do Carlos Fiolhais segundo a qual não seria absurdo que um macaco, teclando eternamente, acabaria por escrever “Os Lusíadas”, advém da constatação lógica de que a vida não surgiu por acaso — a não ser que acreditemos (uma crença contra toda a lógica) de que a vida terá surgido por puro acaso — como o macaco que tecla eternamente acaba por escrever “Os Lusíadas”. Temos, portanto, cientistas que acreditam no “acaso” porque a crença (mais consentânea com a lógica) em uma inteligência criadora superior, é-lhes absolutamente repugnante.


Mesmo que fosse possível ao macaco teclar eternamente para escrever “Os Lusíadas”, há um limite máximo para o conhecimento — ou seja, a ideia positivista segundo a qual o conhecimento humano ou do macaco não tem limites, é própria de gente com uma insustentável leveza de intelecto.

O biofísico Alfred Gierer chamou à atenção para uma dificuldade particular: a densidade média da matéria no universo foi calculada com base em medições astrofísicas, e aquela é da ordem de uma partícula elementar longeva [protão, neutrão, electrão, etc.] por metro cúbico; considerando a dimensão do universo, resulta daí um número total de cerca de 10^80 (1 seguido de oitenta zeros) de partículas no universo.

Se multiplicarmos este número (10^80 ) pela idade do universo: 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 (1 seguido de 40 zeros) períodos elementares [período mínimo de estabilidade de partículas elementares], obtém-se o número 10^120 (1 seguido de 120 zeros) que corresponde à constante cosmológica da natureza (que se designa pelo símbolo Λ).

Este número Λ representa o limite superior lógico para o trabalho de cálculo de um computador cuja dimensão e idade seriam iguais a todo o universo, que efectuasse cálculos ininterruptamente desde o início da sua existência, e cujos elementos constitutivos fossem partículas elementares longevas individuais.

Portanto, podemos dizer que Λ é o "máximo excogitável" do universo, como é também o máximo da realidade da existência do universo ― nada é possível, em termos do espaço-tempo, acima de Λ.

Assim, a teoria do conhecimento finística de Gierer refere que, do número máximo de operações realizáveis no cosmo (porque o cosmo ou universo, não é eterno), resulta como consequência para a teoria do conhecimento o facto de o número de passos na análise de problemas também ser, por princípio, limitado — sejam eles passos mentais ou passos de processamento de informações através computador. Sobretudo é limitado, por princípio, o número das possibilidades que podem ser verificadas sucessivamente, uma a uma, para comprovar ou refutar a validade universal de uma afirmação. Gierer refere-se aqui estritamente ao Homem inserido no universo (ou ao macaco do Carlos Fiolhais ) ou mundo do senso-comum, como é óbvio. Gierer estabelece o limite máximo do conhecimento possível no mundo macroscópico na constante cosmológica do universo: 10^120.

Portanto, o macaco do Carlos Fiolhais, mesmo que fosse tão inteligente como o negro Abdul Majeed Wakaso (e depois “a Direita é que é racista!”) da estória do Marmelo, ele chegaria a um limite máximo de operações realizáveis na máquina de escrever em que atingiria a constante cosmológica do universo. A origem da informação complementar inteligente teria que vir de Além do espaço-tempo.

Quarta-feira, 22 Junho 2016

A história da carochinha do Carlos Fiolhais para adormecer as crianças adultas

 

“Apesar de restar ainda muito por esclarecer, todos os avanços têm corroborado a teoria de Darwin, segunda a qual, após a diferenciação que define uma nova espécie, o que acontece por acaso (mutação ou modificação ocasional do ADN), é crucial a adaptação ao meio ambiente”.

Carlos Fiolhais

Ou seja, a adaptação ao meio-ambiente é efectuada por acaso. Quando eu, por exemplo, me adapto ao meio-ambiente cretino da Academia coimbrinha, faço-o por acaso: sou uma espécie de sonâmbulo que sigo aleatoriamente as opções que tenho.

A complexidade do olho que vê a luz, surgiu por acaso. A inteligência nos animais surgiu por acaso, e por isso é que o Carlos Fiolhais se diz inteligente: foi um simples acaso; não há qualquer nexo causal na formação da inteligência dele; e por isso não podemos ter a certeza se o Carlos Fiolhais é inteligente ou mentecapto: é uma questão de perspectiva e de opinião.

A ciência do Carlos Fiolhais caracteriza-se pelo império do acaso: é uma ciência sem causa e sem efeito. A existência da Natureza é um acidente. Quando não sabemos a razão de um fenómeno, ou dizemos que aconteceu por acaso, ou dizemos que o fenómeno é mágico.

Mas repare-se como o Carlos Fiolhais fala de “diferenciação que define uma nova espécie”, ou seja, fala da macro-evolução que faz com que uma minhoca se transforme em uma baleia por uma operação de magia. O pensamento mágico da Idade Média voltou a estar na moda. E o burro sou eu!

ateismo

Sexta-feira, 10 Junho 2016

A Helena Damião e a “educação para o empreendedorismo”

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:57 am
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Eu concordo parcialmente com a Helena Damião: o conceito de “educação para o empreendedorismo” é um absurdo, porque a liderança não se aprende na escola: é inata — a não ser que a “educação para o empreendedorismo” seja sinónimo de “educação para gestão de empresas”: um bom gestor de empresas pode não ser um líder natural.

“E deixam uma questão: "não haverá razões para estarmos preocupados com esta socialização precoce para a competição?"”

Porém, o que preocupa a Helena Damião não é o absurdo da “educação para o empreendedorismo” : o que a preocupa é o fomento da competição entre as crianças.

São duas coisas diferentes: o fomento da competição entre as crianças não tem necessariamente a ver com o absurdo do “educação para o empreendedorismo”; mas a Helena Damião mistura as duas coisas.

A Esquerda — de que a Helena Damião faz parte — diz que defende a mobilidade social (os “elevadores sociais”), por um lado, mas, por outro lado, tem horror à competição.

É claro que sem competição não pode existir mobilidade social. Esta contradição da Esquerda não é irracional: tem um propósito: é preciso proteger o Poder as elites de Esquerda em relação a qualquer tipo de concorrência política, e sem que esse proteccionismo seja facilmente detectado pela opinião pública.

Finalmente, sendo que a Helena Damião critica o absurdo da “educação para o empreendedorismo”, nunca a vi criticar a propaganda absurda da Ideologia de Género nas escolas. Ou seja, na educação, há coisas absurdas que são boas (as de Esquerda) e outras que são más.

Terça-feira, 17 Maio 2016

O David Marçal, a mecânica de Newton e a astrologia (parte II)

Filed under: Ciência — O. Braga @ 8:50 am
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(em continuação do verbete anterior)

Pessoas como o David Marçal ganharam notoriedade pública devido ao politicamente correcto, e por isso têm acesso livre aos me®dia. O politicamente correcto é o “bom gosto” actual; e aquilo a que (sempre) se considerou de “bom gosto”, ao longo da História moderna da Europa, fez mais vítimas inocentes, só nos últimos 200 anos, do que a Igreja Católica desde a Antiguidade Tardia (incluindo as cruzadas, a Inquisição, as guerras religiosas na Europa, a colonização, etc.).

No verbete anterior abordamos o anacronismo da lei gravitacional de Newton na medida em que serve de fundamento à principal crítica dita “científica” do David Marçal em relação à astrologia. Hoje temos a Teoria da Relatividade e a física quântica (embora não compatíveis entre si), que fazem com que a mecânica de Newton se remeta à utilidade do ensino secundário. O David Marçal parece ter parado no tempo; não há Zodíaco que o valha.


É conhecida a teoria das marés de Galileu, que se demonstrou errada porque ele baseou a sua teoria apenas no movimento de rotação da Terra, e propositadamente não tomou em consideração a influência da Lua no movimento das marés. Galileu não colocou a hipótese da influência lunar no movimento das marés porque tinha um preconceito negativo — normal entre os naturalistas daquela época — em relação à astrologia.

Recorde-se o principal argumento do David Marçal contra a astrologia:

“De todas as implausibilidades, a menos implausível é a gravidade. Mas a força gravítica é proporcional à massa dos corpos (o Sol é gigante e determina o movimento dos planetas no sistema solar) mas diminui com o quadrado da distância. Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra). Como afirmou o astrónomo e divulgador de ciência Carl Sagan: «Marte tem muito mais massa, mas o obstetra está muito mais próximo.» E mesmo que houvesse uma qualquer influência da posição dos astros durante o nascimento, ficaria por demonstrar que isso seria determinante para o resto da vida”.

Tal como Galileu, o David Marçal faz de conta que a Lua não existe.

“Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra)”.

Só a Terra existe — tal como raciocinou Galileu na sua teoria das marés; para o David Marçal, a Lua não existe. E ele chama à sua tese de “científica”; ele fala em nome da ciência, e até invoca o argumento de autoridade de Carl Sagan. Basta só o facto de o David Marçal se ter esquecido da Lua, para que o seu principal argumento contra a astrologia ir pela pia abaixo.

Quando, em um manicómio, existirem perturbações comportamentais entre os doentes mentais durante a Lua Cheia, o David Marçal irá chamar uma catrafada de obstetras para acudir à crise.


O segundo argumento do David Marçal contra a astrologia é o seguinte:

“Por causa do movimento de precessão do eixo da Terra, as zonas do céu em que vemos as constelações ao longo do ano não são as mesmas de quando a astrologia foi inventada.”

Em primeiro lugar, parece que o David Marçal acredita que qualquer tipo de experiência indutiva (ciência de qualquer espécie) é uma invenção humana — o que é típico do positivismo. A experiência humana face aos factos e aos fenómenos é considerada uma “invenção humana”. Os números primos, por exemplo, também são considerados como uma “invenção humana”, por um lado; e por outro lado, “a lógica evolui”.

Perante o arquétipo mental do David Marçal, só nos resta sorrir…

Em segundo lugar, a tese do “movimento de precessão do eixo da Terra” confunde “signos do Zodíaco”, por um lado, com “constelações do Zodíaco”, por outro lado. Ou seja, o David Marçal confunde a “estrada da Beira” com a “beira da estrada”.

A astrologia ocidental — dita “Tropical” — é baseada na posição dos planetas calculada em função do “trânsito” do Sol conforme visto da Terra, em vez dos padrões aparentes das estrelas mais distantes — como invoca o David Marçal.

Ptolomeu instituiu um sistema em função da chamada “Precessão dos Equinócios” (detectado pelo grego Hiparco), fazendo com que o Zodíaco se iniciasse em Carneiro com a posição do Sol no equinócio da Primavera. Ou seja, o Zodíaco (tropical) é estático e não é afectado pelas mudanças do eixo da Terra. No entanto, Ptolomeu manteve os nomes antigos dos signos no seu sistema actualizado, nomes esses que eram os mesmos das constelações artificiais antigas desde o tempo da Babilónia e da Mesopotâmia — e foi isso que causou a confusão do David Marçal.

Ou seja, o Zodíaco (Tropical) mantém-se inalterado desde há cerca de 2.200 anos.

Mesmo os astrónomos modernos utilizam ainda o sistema do Zodíaco de Ptolomeu naquilo a que chamam de Sistema de Coordenadas Eclípticas, que corresponde exactamente aos signos do Zodíaco Tropical.

Com Ptolomeu, a astrologia ocidental (Tropical) passou a reger-se pelo Tempo, e não pelo espaço exterior ao sistema solar.

Segunda-feira, 16 Maio 2016

O David Marçal, a mecânica de Newton e a astrologia

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:05 am
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O David Marçal utiliza aqui a lei gravitacional de Newton para refutar a publicação astrológica nos jornais. Eu estou de acordo com ele no sentido em que a “astrologia das massas”, publicada nos jornais, não faz qualquer sentido — embora exista um denominador comum mínimo inerente a cada nativo de um determinado signo astrológico. Mas quando o David Marçal utiliza o argumento da lei gravitacional de Newton contra a astrologia em geral, faz tábua rasa dos conceitos mais actuais da física.

“De todas as implausibilidades, a menos implausível é a gravidade. Mas a força gravítica é proporcional à massa dos corpos (o Sol é gigante e determina o movimento dos planetas no sistema solar) mas diminui com o quadrado da distância. Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra). Como afirmou o astrónomo e divulgador de ciência Carl Sagan: «Marte tem muito mais massa, mas o obstetra está muito mais próximo.» E mesmo que houvesse uma qualquer influência da posição dos astros durante o nascimento, ficaria por demonstrar que isso seria determinante para o resto da vida”.

A lei gravitacional de Newton ainda é utilizada em termos práticos; mas em Newton ainda não existia a noção de “campo”. Einstein demonstrou que os campos electromagnéticos são entidades físicas por si próprias, que podem viajar pelo “espaço vazio” e que não podem ser explicadas mecanicamente.

Tudo começou em Maxwell e Faraday. Em vez de interpretar a interacção entre carga positiva e carga negativa, dizendo simplesmente que as duas cargas se atraem como duas massas na mecânica newtoniana, Maxwell e Faraday acharam mais apropriado dizer que cada carga cria uma “perturbação”, ou uma “condição” no espaço em redor, de modo que a outra carga, quando está presente, sinta compulsão. Esta condição no espaço, que tem a potencialidade de produzir uma compulsão, foi por eles chamada de “campo”: é criado por uma única carga, e existe independentemente da outra carga estar presente para sentir o seu efeito.

Na perspectiva newtoniana (que o David Marçal adopta para criticar a astrologia entendida em si mesma, e não só a astrologia das massas publicada pelos me®dia), as “forças” estavam rigidamente ligadas aos corpos em que actuavam. Com o conceito de “campo”, o conceito de “força” foi substituído pelo conceito mais subtil de um “campo” que tinha a sua realidade própria, e podia ser estudado sem qualquer referência aos corpos materiais.

Hoje sabemos que a massa de corpo nada mais é do que uma forma de energia (teoria restrita de Einstein). Mesmo um corpo em descanso tem energia armazenada na sua massa, e a relação entre as duas é dada pela equação E=mc^2. A força da gravidade (teoria geral de Einstein) tem o efeito de curvar o espaço e o tempo; isto significa que a geometria euclidiana comum deixa de ser válida num espaço curvo. O espaço tridimensional é realmente curvo, e a curvatura é causada pelo campo gravitacional dos corpos maciços. Onde quer que haja um objecto maciço, por exemplo, uma estrela ou um planeta, o espaço que os rodeia é curvo, e o grau de curvatura depende da massa do objecto. E como o espaço nunca pode ser separado do tempo, também o tempo é afectado pela presença da matéria, fluindo diversamente por partes diferentes do universo. É de notar que a noção de “espaço vazio” é hoje obsoleta.

Ora, há que convir que a curvatura do espaço-tempo causada pela massa do médico obstetra não é da mesma grandeza da que é causada pela massa do Sol. Ou seja: a distância entre corpos é importante para a astrologia e para a Física, mas não é o mais importante.

Referi-me aqui apenas à relatividade de Einstein, ou seja, não entrei na quântica — porque, do ponto de vista da física quântica, o argumento do David Marçal é ainda mais absurdo. O David Marçal tem que escolher entre a filosofia da ciência ou a bioquímica: se optar pela primeira, não pode utilizar argumentos desse calibre. E se optar pela bioquímica estará no seu ambiente mais cómodo, evitando escrever asneiras.

Note-se que este verbete ataca o argumento do David Marçal (Reductio ad absurdum), mas não defende a astrologia como ciência positivista. Mas repare-se neste trecho do David Marçal:

“E mesmo que houvesse uma qualquer influência da posição dos astros durante o nascimento, ficaria por demonstrar que isso seria determinante para o resto da vida”.

O David Marçal pensa que a astrologia defende que a “influência da posição dos astros no momento do nascimento”, segundo astrologia, é determinante para o resto da vida”. Mas nenhum astrólogo sério e reputado defende esta noção expressa pelo David Marçal: a única astrologia que o David Marçal conhece é a que vem publicada nos me®dia; e, no entanto, o David Marçal não se coíbe de ter opinião sobre aquilo que não sabe.

Sexta-feira, 15 Abril 2016

Prémio Unicórnio Natural para o António Piedade

 

Para António Gomes da Costa, presidente da SciCom Pt – Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia, “a COMCEPT desenvolve um trabalho essencial: exigir que as afirmações, julgamentos e decisões que fazemos requeiram sempre uma grande e salutar dose de lógica e de razão e, sobretudo, que se baseiem em factos concretos e bem demonstrados. Tudo o que assim não for não passa de uma opinião ou de uma crença e deve ser encarado com todas as reservas.”

António Piedade

unicornio-natural

1/ ¿O que é um “facto”? É algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência.

2/ Em ciência, os factos são intersubjectivos (ou seja, objectivos), por um lado, e sujeitos a verificação estatística, por outro lado.

3/ ¿O que é “verificação”? É o processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição.

4/ ¿O que é “consciência”? É uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como também em termos existenciais.

5/ As estatísticas pertencem sempre ao passado (não existe tal coisa como “estatísticas feitas no futuro”); e não há qualquer garantia absoluta de que os fenómenos estatísticos, demonstrados por indução, se repitam exactamente no futuro.

6/ ¿O que é “indução”? Chama-se indução ao argumento em que, se as premissas forem verdadeiras, isto é, tiverem valor lógico de verdade, a conclusão não é necessariamente verdadeira, mas apenas provavelmente verdadeira. Em epistemologia, a indução é a inferência conjectural ou não-demonstrativa; é o raciocínio que obtém leis gerais a partir de casos particulares.

7/ A indução, a verificação, e os “factos” a que se refere o António Piedade, pertencem à realidade macroscópica determinada pela força entrópica da gravidade. Ou seja, na realidade quântica não existe lógica (tal qual a concebemos na realidade macroscópica), não existem “factos” mas apenas relações; e a verificação, na realidade quântica, só pode ser feita por aproximação grosseira. E apesar disso, a física quântica também pertence à ciência.

8/ O António Piedade parece dizer que a física quântica não pertence à ciência; e as ciências formais (que não necessitam de verificação empírica) também não: para o António Piedade, a ciência é confinada às ciências experimentais ou empíricas.

Ou seja, para o António Piedade “o critério da verdade científica é a verificação empírica”; mas esta proposição não é, ela mesma, verificável.

Quinta-feira, 31 Março 2016

Prémio Unicórnio Natural para o David Marçal

 

O blogue Rerum Natura tem feito alarde do prémio unicórnio voador. Uma vez que o unicórnio existe, de facto — e por isso não é um mito cientificista e positivista —, decidimos criar o Prémio Unicórnio Natural, dedicado a personalidades cépticas que não acreditam na existência da sua própria sombra mas que acreditam que a ciência nunca erra.

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No caso vertente, citamos o David Marçal, eminente objecto do Prémio Unicórnio Natural:

“Vacinar [os seus filhos] não é uma decisão sua”.

Em vez de a ciência ser concebida em um contexto de persuasão do cidadão, é entendida pelo David Marçal em forma de dogma: tudo o que é endossado pela ciência oficial do Zeitgeist é dogmático e inquisitorial.

É falso que o Dr. Andrew Wakefield tenha assumido uma posição anti-vacinas — como afirma, dogmática- e religiosamente, o David Marçal. O Dr. Andrew Wakefield foi contra a vacina tríplice (contra o sarampo, a rubéola e a papeira), mas era de opinião que se deviam tomar essas vacinas separadamente. Mas o dogmatismo cientificista transformou a ciência em uma certeza absoluta; e qualquer pessoa que coloque em causa essa certeza absoluta é sacrificado em auto-de-fé na nova Inquisição positivista.

Nas ciências empíricas, é discutível falar de "verificação". Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade). Por isso é que não pode existir uma verdade absoluta em ciência.

Terça-feira, 29 Março 2016

O Carlos Fiolhais confunde “técnicos” e “cientistas”

 

“O autor é claro: "De psicologia, de gostos, de tendências e sentimentos quase iguais aos seus, a mulher do sábio deve ser dotada de um grande espírito de sacrifício." Imagine-se agora se o autor pudesse vir cá hoje e verificar que a maior parte dos cientistas são mulheres!

Carlos Fiolhais


Em ciência, existem os trabalhadores e os pensadores. Para os trabalhadores (os técnicos) existem “livros de receitas”: até mesmo um físico medíocre, por exemplo, pode fazer um trabalho de primeira qualidade no laboratório, aplicando fórmulas sem ter em consideração toda a problemática científica e filosófica do seu campo de trabalho.

No manual de metodologia das ciências da natureza de Herbert Pietschmann, distingue-se entre o físico trabalhador, por um lado, e o físico pensador, por outro lado:

“Os físicos trabalhadores que aplicam os métodos da física não têm quaisquer dificuldades em mecânica quântica. Porém, acontece frequentemente que nem sequer têm consciência das suas consequências de longo alcance para a questão da reprodução de uma ‘realidade’. Os conflitos só surgem na tentativa de interpretação da forma como o método utilizado, sem qualquer problema na prática, descreve uma ‘realidade’.”

Gribbin escreveu [John Gribbin (1984) In Search of Schrödinger’s Cat: Quantum Physics And Reality]:

“É precisamente por causa do grande êxito da equação de Schrödinger, como instrumento prático, que muitas pessoas foram impedidas de reflectir profundamente sobre a forma e a razão do funcionamento desde instrumento”.

É politicamente correcto que o Carlos Fiolhais afirme que “a maior parte dos cientistas são mulheres”. Para o Carlos Fiolhais, uma pessoa sentada num laboratório é tomaticamente “cientista”. O politicamente correcto de Carlos Fiolhais causa náuseas.

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