perspectivas

Sábado, 4 Julho 2015

Richard Dawkins dá razão ao Padre Gonçalo Portocarrero de Almada

 

O Ludwig Krippahl diz que não tem alma. Cada um pensa de si o que quiser. Convém contudo dizer que, segundo a ontologia aristotélica que influenciou o Cristianismo, os animais têm alma, embora não tenham espírito (autoconsciência). Mas não vale a pena explicar ao Ludwig Krippahl a diferença entre alma e espírito, porque teríamos que obrigá-lo a ler Platão e Aristóteles — o que é uma maçada, convenhamos! Escreve ele:

“O ADN dá-nos uma medida conveniente de distância evolutiva e, nessa, eu e o chimpanzé estamos equidistantes da aranha. Mas não é só o ADN que sugere que o chimpanzé e eu estamos mais próximos. A nossa anatomia é semelhante mas muito diferente da da aranha e partilhamos capacidades para resolver problemas, sentir afecto, aprender, comunicar e interagir em sociedade que nos afastam a ambos da aranha.”

dawkins-and-freud-webHá problemas que uma aranha resolve que não passam pela cabeça do macaco. Cada ser vivo (cada espécie) resolve os seus problemas. O que não devemos é confundir, por exemplo, o comportamento submisso de um cão, com “afecto” (como está hoje na moda); ou não devemos confundir “instinto” e “afecto” (por exemplo, o instinto maternal, que vemos nos leões ou nos símios, mas também no ser humano), nem devemos confundir “instinto” — que é próprio de todos os animais em geral— e “intuição” que é exclusivo do ser humano.

O Ludwig Krippahl concebe apenas a forma das coisas, e ignora ostensivamente o conteúdo delas.

Do ponto de vista do conteúdo do ser (e foi isto que o Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada quis dizer), «a distância que vai do mais apto dos símios para o mais estúpido dos homens é infinitamente superior à que dista entre o mais evoluído dos primatas e o mais básico ser vivo» — exactamente porque a alma aristotélica, princípio de pensamento, privilégio e essência do Homem, dá acesso à liberdade e à moral.

O Ludwig Krippahl pensa que não: pensa ele que existe menos liberdade e menos moral numa aranha do que num símio. Para ele, um macaco tem mais liberdade e mais moral do que uma aranha. Ora, é aqui que eu divirjo dele e me aproximo do Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada: nem a aranha nem o macaco têm liberdade e moral; e por isso é que estão ambos infinitamente distantes do ser humano.


Numa entrevista a uma revista1 , foi perguntado a Richard Dawkins o seguinte: “¿O senhor pensa que o ser humano poderia superar as leis da evolução?”. E Richard Dawkins respondeu assim:

“Sim, de uma maneira limitada; no entanto, importante para nós. Embora nós sejamos seres darwinianos, podemos olhar para o futuro. Podemos perguntar-nos em que sociedade desejamos viver. É uma sociedade na qual as regras são respeitadas, independentemente da forma que assumam num determinado país. Penso que isto é algo singular, algo anti-darwiniano, algo que nunca foi observado em nenhum outro ser vivo”.

Ou seja, Richard Dawkins constatou uma evidência: não é preciso qualquer demonstração através do ADN para chegar à conclusão a que ele chegou. Quando ele diz que há “algo (no ser humano) que nunca foi observado em nenhum ser vivo”, o que ele diz, de facto, é que «a distância que vai do mais apto dos símios para o mais estúpido dos homens é infinitamente superior à que dista entre o mais evoluído dos primatas e o mais básico ser vivo».

No entanto, o Ludwig Krippahl consegue ser radicalmente mais darwinista do que o Richard Dawkins — o que é obra! Isso não tem nada a ver com darwinismo: antes tem a ver com ideologia política que levou o Ludwig Krippahl a militante do partido “Livre”.

Com esta afirmação, foi o próprio Richard Dawkins quem revelou o ponto fraco da sua argumentação radical darwinista: ou somos escravizados pelos nossos genes e/ou pelo nosso ADN, ou então temos em relação a eles a liberdade de manifestar comportamentos que permitem a sobrevivência de toda a biosfera da Terra.

É precisamente porque o ser humano está infinitamente distante dos símios e das aranhas que tem a liberdade de proteger os símios e as aranhas.


Nota
1. revista alemã “Focus”, nº 39, 1996

Segunda-feira, 22 Junho 2015

Quando leio Peter Singer, fico com os cabelos em pé

Filed under: ética — O. Braga @ 5:53 am
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Neue Zuricher Zeitung: You do not consider an infant to be more worthy of protection than an embryo. On the other hand, you do not necessarily ascribe a higher status to humans than to animals.

Peter Singer: Belonging to the human species is not what makes it morally wrong to kill a living being. Why should all members of the species homo sapiens have a right to life, whereas other species do not? This idea is merely a remnant of our religious legacy. For centuries, we have been told that man was created in the image of God, that God granted us dominion over the animals and that we have an immortal soul.

Peter Singer ‘disinvited’ from German philosophy festival

Chegamos hoje ao absurdo de termos que nos questionar por que razão a vida de um ser humano é mais importante e valiosa do que a vida de um peixe, por exemplo. Peter Singer pergunta: “¿por que razão todos os membros da espécie homo sapiens têm direito à vida, e os das outras espécies não têm?”. E depois atribui a maior importância dada à vida humana à “herança religiosa”.


Desde o tempo do paleolítico — ainda não existiam as religiões universais — que a vida humana, na tribo ou no clã, era mais importante do que a dos animais caçados. Portanto, a ideia de Peter Singer segundo a qual “a maior importância dada à vida humana é uma herança religiosa” é uma estupidez de todo o tamanho — a não ser que os trogloditas e os palafitas já fossem cristãos!

Fico com os cabelos em pé ao constatar que Peter Singer é hoje considerado um “grande filósofo”!

A razão por que “a vida humana é considerada mais importante e valiosa do que a dos outros animais” é, em primeiro lugar, a de que o ser humano é um animal gregário (social). Tão simples quanto isto. É uma razão biológica e natural. Só tem a ver com religião por via das diversas diferenciações culturais que desde o tempo do paleolítico foram forjando novas religiões. O “ter a ver com religião” é uma causa secunda construída a partir da natureza humana fundamental.


Desconstruído o argumento da “religião”, vamos ao argumento absurdo principal:

“¿por que razão todos os membros da espécie homo sapiens têm direito à vida, e os das outras espécies não têm?”

Peter Singer parte do princípio da aceitação da superioridade moral do ser humano em relação aos outros animais — porque só o ser humano pode fazer a pergunta supracitada —, para depois negar a superioridade ontológica (a superioridade do Ser) do ser humano. Se Peter Singer não aceitasse a priori a superioridade moral do ser humano em relação aos outros animais, a pergunta não faria qualquer sentido.

A partir de uma assimetria moral (entre o ser humano e os outros animais), Peter Singer cria uma simetria ontológica (entre o ser humano e os outros animais) — porque os outros animais não são capazes de pensar o mesmo, em termos morais, em relação ao ser humano, e por isso não podemos colocar o ser humano e as outras espécies em um mesmo plano moral, ontológico e natural.

Assimetria moral → simetria ontológica = contradição em termos

Ou seja: para Peter Singer, o ser humano é moralmente superior aos outros animais, mas simultaneamente ele nega que a vida humana tenha mais valor do que a de um peixe.

Para Peter Singer, a superioridade moral do ser humano — que, no fundo, é uma forma de “domínio” — funciona como um instrumento de negação da superioridade ontológica do ser humano. Ora, se Peter Singer aceita a priori o primeiro tipo de superioridade, tem que logicamente aceitar o segundo.

Por maioria de razão, a assimetria moral permite ao ser humano proteger (ou não: trata-se do livre-arbítrio que o ser humano tem e os outros animais não têm) os animais; mas não implica, por essa razão, que o ser humano seja ontologicamente equivalente ou idêntico às outras espécies.

Por vezes, tenho a sensação de que Peter Singer tem sérias dificuldades com a Lógica.

Domingo, 21 Junho 2015

Carlos Fiolhais e a ciência entendida como uma ideologia política

 

“No ambiente do nosso planeta, os nossos olhos adaptaram-se, ao longo do caminho de evolução biológica, a perceber as cores.”

Carlos Fiolhais

A narrativa do Carlos Fiolhais é mais ou menos a seguinte: “Era uma vez uma bactéria que se transformou numa baleia e depois, graças à evolução biológica, se transformou num macaco, num cão e num ser humano!”

“A questão de como é que um nervo se tornou sensível à luz não nos importa, tal como a questão de saber como é que a própria vida teve origem”.

→ Darwin, “A Origem das Espécies”, pág. 151, 1872

Como se vê, estamos perante uma concepção mágica da realidade, semelhante à que existia no neolítico. É claro que Carlos Fiolhais sabe perfeitamente que conta uma estória da carochinha. Ou, em português correcto: ele sabe que mente! Ele mente porque concebe a ciência como uma ideologia política.

Felizmente, as pessoas vão tendo acesso à cultura e vão deixando de acreditar nas estórias da carochinha de gente como o Carlos Fiolhais:

“Os cientistas têm, de alguma forma, uma inclinação para confundir os seus desejos com a realidade. Por exemplo, há alguns séculos, pensava-se que os insectos e outros pequenos animais surgiam directamente a partir da comida estragada. Isto era fácil de acreditar uma vez que se pensava que os pequenos animais eram muito simples (antes da invenção do microscópio, os naturalistas pensavam que os insectos não possuíam órgãos internos)”.

→ Michael Behe, “A Caixa Negra de Darwin”, pág. 40.

Aconselho os leitores do Rerum Natura a leitura do livro do bioquímico americano Michael Behe, “A Caixa Negra de Darwin”. Não se deixem enganar por gentalha como a que escreve naquele blogue.

Quando o Carlos Fiolhais reclama mais dinheiro do Estado para aquilo a que ele chama “investigação científica”, do que se trata é exigir fundos do erário público para financiar a propaganda de uma ideologia política cientificista que grassa pela academia coimbrinha. E muito bem faz Passos Coelho em cortar as vazas a essa gente.

Sábado, 31 Janeiro 2015

É preciso ter muita paciência… com o Ludwig Krippahl

Filed under: Ciência — O. Braga @ 5:39 am
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O bioquímico americano Michael Behe, no seu livro “A Caixa Negra de Darwin”, definiu assim “evolução” :

«No sentido biológico, “evolução” designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios exclusivamente naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica.»

O Ludwig Krippahl não concorda com a definição de “evolução” de Michael Behe. Ainda vou ver o Ludwig Krippahl laureado com o Nobel, passando a perna ao Michael Behe e gozando na cara dele…
Portanto, seria bom que não perdêssemos tempo com assuntos de “lana caprina” e com tergiversações que têm por objectivo desviar as atenções do essencial. Aliás, o Ludwig Krippahl é useiro e vezeiro — especialista, até! — na falácia do espantalho.


O Ludwig Krippahl escreveu o seguinte:

“Braga discordou também da minha explicação de que os mecanismos da evolução podem ser mais ou menos aleatórios (5). Aparentemente, julga ser aleatório é como estar grávida. Ou está, ou não está. Mas isto é errado.

O resultado de lançar um dado equilibrado é aleatório, com uma probabilidade de um em seis para cada número. Se o dado estiver viciado e a probabilidade de sair 6 for 50%, o resultado continua a ser aleatório mas será menos aleatório porque é mais previsível. E se lançarmos ambos os dados um milhão de vezes, é praticamente certo que o dado viciado terá um resultado médio superior ao do dado equilibrado. É isto que acontece na evolução. O acaso tem alguma influência.”

Repare-se como o Ludwig Krippahl começa por falar em “aleatório” no sentido do jogo do “dado” (o polígono), e por fim já fala em “acaso”. Vejam bem como ele confunde (propositadamente, penso eu; só pode!)  os dois conceitos diferentes de “aleatório”: é que, no jogo do dado, estamos a falar de probabilidades limitadas, em função de dados previamente conhecidos — por isso é que se chama “dado” (do latim “datus”, “aquilo que nos foi entregue”), porque as probabilidades são-nos dadas a priori. Quando jogamos com um dado, não nos pode sair o número 7, ou 8, etc. As probabilidades são limitadas.

O “aleatório” no sentido de “acaso” é outra coisa.

O acaso é a causa acidental de acontecimentos ou de fenómenos que não foram provocados deliberadamente; ou, melhor dizendo, e segundo Cournot, o acaso é constituído por fenómenos ou acontecimentos produzidos pela conjugação imprevisível de séries causais independentes. É neste sentido que se deve falar em “aleatório” quando nos referimos à  evolução darwinista no sentido da macro-evolução.

O aleatório, ou acaso, na macro-evolução darwinista, remete para o carácter verdadeiramente fortuito e geralmente imprevisível de relações entre cadeias causais independentes; o acaso ou aleatório, neste sentido, provém de uma conjugação de factos racionalmente independentes uns dos outros. A complexidade do real é de tal forma que a redução deste tipo de acaso ou aleatório não pode ser encarado cientificamente — o que significa que toda a representação ingenuamente determinista do universo, tanto natural como humano, é-nos vedada. Repare-se que estamos a falar aqui de macro-evolução, e não de micro-evolução ou adaptação ao meio ou a ecossistemas.

Eu sei que o facto de estar a escrever isto não vai adiantar nada em relação ao Ludwig Krippahl. Mas faço-o para o leitor inteligente que por aqui passar.

Continua o Ludwig Krippahl:

“Por exemplo, a retina dos vertebrados desenvolve-se como uma extensão do cérebro e acaba por ficar ao contrário, com os receptores atrás dos nervos e dos vasos sanguíneos. Nos invertebrados, a retina desenvolve-se a partir de uma invaginação da cabeça e fica orientada da forma mais conveniente.”

Quando o Ludwig Krippahl fala em “retina”, mais valia estar calado; ou, em alternativa, o Ludwig Krippahl terá que ter uma explicação racional e científica para o aparecimento do olho nos animais. Estamos em presença de um génio português que ninguém conhece lá fora… vanitas vanitatum, omnia vanitas…

Continua o Ludwig Krippahl:

“Braga acrescenta agora que eu estou «a misturar a micro-evolução com a macro-evolução» enquanto que ele só está a falar desta última. Este é um truque comum entre os “cépticos” da evolução. A ideia é a de que aceitam que as populações se vão modificando com o passar das gerações mas não aceitam que a alteração seja muito grande. Exactamente o que isso quer dizer ou porque defendem isso nunca é explicado. É como aceitar que uma pessoa pode envelhecer um ou dois anos mas nunca setenta, porque o macro-envelhecimento é impossível.”

Quando o Ludwig Krippahl me explicar o surgimento nos animais, do sistema imunitário, ou do olho, deixarei de fazer a distinção entre macro e micro-evolução. Vou esperar sentado.

Tudo o resto do texto do Ludwig Krippahl é uma narrativa fastidiosa — é uma estória. É como se eu justificasse o facto de as folhas das árvores serem verdes “porque uns homenzinhos verdes, com pincéis verdes e tintas verdes, pintam as folhas todas as noites”. É uma teoria que pega nos dados objectivos de um segmento da realidade e interpreta-os subjectiva- e intersubjectivamente segundo paradigmas estabelecidos por uma determinada cultura e comunidade (científicas). É uma espécie de religião.

O único facto que pode sustentar ainda a macro-evolução darwinista é a intersecção/semelhança de dados de ADN entre as diferentes espécies — mas mesmo estas semelhanças de ADN apresentam hoje vários problemas de validação científica que não cabem aqui e agora referir.

Quando uma pessoa pega em um segmento da realidade e faz dele toda a realidade, acaba por ter o raciocínio e a mundividência do Ludwig Krippahl.

Quarta-feira, 21 Janeiro 2015

Resposta a um leitor

Filed under: Ciência — O. Braga @ 2:21 pm
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A única coisa em que o vídeo e a sua teoria têm razão objectiva — repito: objectiva, porque teorias há muitas — é sobre o aparecimento abrupto de novas espécies. Até hoje, o darwinismo não conseguiu explicar (de forma racional e não dogmática) a explosão câmbrica.

Ludwig Krippahl: mistura, baralha, confunde, e diz que é ciência

Filed under: A vida custa,Ciência — O. Braga @ 6:00 am
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Neste verbete defendi muito sucintamente a tese segundo a qual  “a evolução darwinista é impossível”. Quanto falo em “evolução” quero dizer “macro-evolução”. O Ludwig Krippahl critica aqui o meu verbete mas referindo-se à  micro-evolução (adaptação ao meio-ambiente). Assim a gente não se entende.

Parece que o Ludwig Krippahl incorre da falácia do espantalho, porque critica uma posição minha que eu não defendi.


Definição:

No sentido biológico, “evolução” designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios exclusivamente naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica.


Escreve o Ludwig Krippahl:

“Em biologia, o termo (evolução) refere-se à variação da distribuição de características hereditárias numa população conforme novas gerações substituem as anteriores.

O que se propõe ser mais ou menos aleatório são os mecanismos que influenciam a evolução de uma população.”

Ou seja, segundo o Ludwig Krippahl, a evolução não é aleatória, mas é “mais ou menos” aleatória. É um NIM.

Mas aqui o Ludwig Krippahl está a misturar a micro-evolução com a macro-evolução — está a meter tudo no mesmo saco —, enquanto eu faço a distinção entre os dois tipos de “evolução”. A adaptação ao meio-ambiente (micro-evolução) é evidente: não precisa de demonstração. Nem faz parte só da ciência: faz parte do senso-comum muito antes de Darwin: Aristóteles já falava do assunto.

Portanto, estamos certamente a falar de coisas diferentes, e o Ludwig Krippahl partiu do princípio errado de que eu me referia à  micro-evolução. E como o princípio não está correcto, a argumentação subsequente do Ludwig Krippahl “falha o alvo”.

A seguir, escreve o Ludwig Krippahl:

“Finalmente, Braga alega que a evolução é impossível porque «não existe informação prévia» (…). Mas a evolução não procura (…) qualquer alvo predeterminado.”

Pois é: segundo o Ludwig Krippahl, a evolução é cega, porque “não procura qualquer alvo predeterminado”. Ou seja, segundo ele, “a evolução é aleatória e não guiada”, tal como me referi no meu verbete e que foi, em uma primeira fase do verbete dele, negado.

Se a evolução (segundo o Ludwig Krippahl) “não procura qualquer alvo predeterminado”, não pode ser guiada e tem que ser aleatória no sentido em que a informação disponível em um determinado estádio de evolução — “evolução” segundo o conceito do Ludwig Krippahl — não prevê minimamente as características do estádio de evolução seguinte.

Na teoria da informação — simplificando o que é complexo — podemos fazer uma analogia com a segunda lei da termodinâmica: a quantidade de informação transmitida pode ser entendida como entropia negativa; na transmissão de informação, a entropia negativa decresce continuamente, uma vez que a entropia positiva (perdas de informação) aumenta também continuamente. Ou a teoria da informação é falsa, ou a evolução darwinista (ver definição supracitada) é impossível.

A noção que o Ludwig Krippahl tem no teorema de Gödel parece ser rudimentar, e mesmo imprecisa. Escreve ele:

“O teorema de Gödel mostra que qualquer sistema formal suficientemente expressivo admite proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas a partir dos axiomas desse sistema formal.”

Se uma proposição não pode ser demonstrada a partir de axiomas desse sistema formal, ¿como é que o Ludwig Krippahl sabe que a proposição é verdadeira? Ele sabe que a proposição é verdadeira porque existe um segundo sistema superior ao primeiro que demonstra a veracidade da proposição do sistema inferior — e por aí fora. Ou seja, existe uma informação de ordem superior que legitima e demonstra a veracidade da informação de um sistema inferior.

Por exemplo, o teorema de Gödel, e segundo a teoria da informação, exclui a possibilidade de se construir uma máquina que resolva todo e qualquer problema — o que torna absurda a ideia do Ludwig Krippahl segundo a qual o teorema de Gödel “é importante para alguns problemas lógicos, matemáticos ou de computação, mas não tem nada que ver com a teoria da evolução”  — porque a evolução não é outra coisa senão uma tentativa continuada de resolução de problemas. ¿Será que o Ludwig Krippahl entende bem o que eu quero dizer?

Se a concepção da vida, segundo a evolução darwinista, é mecanicista (naturalismo), o teorema de Gödel aplica-se-lhe que nem uma luva, por maior ou menor dissonância cognitiva que o Ludwig Krippahl tenha que enfrentar.

Se a evolução não é guiada — ou seja, se não existe qualquer informação prévia que oriente a evolução nos sucessivos estádios —, ou seja, se o naturalismo se associa à  evolução, então a possibilidade das nossas faculdades cognitivas serem credíveis é muito baixa. Se “evolução + naturalismo” é aceite, não estamos em presença de faculdades cognitivas credíveis. Não dá com certeza para um prémio Nobel senão em um mundo em que o naturalismo é uma religião que é incompatível com a própria evolução.

“Nem é relevante para a formalização matemática da teoria nem é preciso os escaravelhos saberem que o teorema de Goodstein sobre sequências de números naturais não pode ser demonstrado na álgebra de Peano para que os mais camuflados se escapem melhor dos predadores.”

Segundo o Ludwig Krippahl, os nossos cérebros — à  semelhança dos cérebros dos escaravelhos — são formatados pela “evolução” para a sobrevivência, e não para a verdade. Com um jeitinho da política, ele terá o Nobel garantido.

Terça-feira, 4 Novembro 2014

O conceito metafísico de “evolução darwinista” é incompatível com a metafísica religiosa

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 11:22 am
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Quando analisamos argumentos, devemos, em primeiro lugar, estudar quanto possível a essência deles, e só depois devemos partir para a abordagem lógica que poderá eventualmente encontrar contradições nesses argumentos.

De qualquer modo, ao ser humano é impossível a absoluta não-contradição.

O cientista informático Larry Stockmeyer demonstrou que a verificação lógica de apenas 558 teoremas implica a necessidade de um computador do tamanho do universo. Se cada teorema for fraccionado em todas as suas partes lógicas possíveis, comparado com todas as conclusões lógicas, silogismos e sorites, estaremos em presença de fracções na ordem de 10^168 (1 seguido de 168 zeros) — mesmo um computador do tamanho do universo bloquearia ao tentar analisar o teorema número 559. Para verificar as possíveis contradições em apenas 100 proposições, podemos obter um número prolixo de fracções, na ordem de 10^30 (1 seguido de 30 zeros). Pedir a um ser humano que seja mais perfeito, no seu raciocínio, do que um computador do tamanho do universo, é defender a ideia de um super-homem.


O Domingos Faria começa por não definir “evolução darwinista”, porque o que lhe interessa é a redução à análise lógica da contradição entre “evolução darwinista” e as religiões universais (e não só os teísmos!) — por exemplo, as várias estirpes do Hinduísmo são incompatíveis com o conceito de evolução darwinista.

No seu sentido biológico, ‘evolução’ designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica” (Michael Behe).

Isto significa que o conceito de “evolução darwinista” pertence à metafísica, e não à ciência. Ou, se quisermos uma abordagem neo-kantiana:

“O criacionismo é um mito, assim como o darwinismo é um mito, porque é impossível explicar a mutação das formas”. — Eric Voegelin

Segundo o físico ateu Fred Hoyle, a probabilidade de que os tijolos da vida (os aminoácidos) se juntem na sequência correcta para formar uma proteína, é de 1 em 10^40 (1 seguido de 40 zeros). Note-se que os matemáticos consideram a hipótese de 10^50 (1 seguido de 50 zeros) como uma “impossibilidade matemática”. O físico Chandra Wickramasinghe escreveu o seguinte:

“As hipóteses de a vida ter aparecido por acaso e de forma aleatória são semelhantes às hipóteses de um ciclone soprar num qualquer cemitério de automóveis e construir-se assim um Boeing 747”.


Desde Galileu que a Igreja Católica “joga à defesa” (tentando evitar um erro que, de facto, não cometeu) em relação à ciência, e muitas vezes não se dá conta de que o conceito de “evolução darwinista” pertence à metafísica — como aconteceu recentemente com o “papa Francisco”.

Segundo o conceito actual de paradigma, de Thomas Kuhn, a reacção do Papa medieval às teses de Galileu foi absolutamente correcta. As teses de Copérnico receberam o imprimatur porque foram formuladas como hipóteses. Porém, Galileu não quis formular quaisquer hipóteses, mas afirmar verdades absolutas — e isto numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

A Igreja Católica, naquela época, defendeu a concepção científica mais moderna embora se tenha atido a concepções cosmológicas erradas.


Se tivermos em consideração devida a noção de “evolução darwinista”, o texto de Domingos Faria não faz sentido, porque especula sobre opiniões de gente que não tem em consideração exacta o princípio de que parte o darwinismo. Aliás, o conceito de “aleatoriedade do processo de evolução” está já, hoje, ferido de morte: a selecção natural pode explicar a sobrevivência de uma espécie adaptada, mas não consegue explicar por que razão essa espécie adaptada surgiu em primeiro lugar.

Sábado, 20 Setembro 2014

“O Relojoeiro Cego” de Richard Dawkins

Filed under: ética,Ciência,filosofia,Quântica — O. Braga @ 2:07 am
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“É imoral permitir o nascimento de crianças com síndroma de Down.”Richard Dawkins, no Twitter

“Na minha vida particular, estou pronto a exaltar-me com pessoas que cozem as lagostas vivas” — Richard Dawkins, “O Relojoeiro Cego”, 1986


“A biologia é o estudo de coisas complicadas, que aparentam terem sido concebidas com uma finalidade. A física é o estudo de coisas simples, que não nos tentam a invocar a concepção”. — Richard Dawkins, ibidem

“A física parece ser um tema complicado, porque nos é difícil entender as ideias da física.

(…)

O comportamento dos objectos físicos, não biológicos, é tão simples que é viável utilizar uma linguagem matemática conhecida para o descrever, razão por que os livros de física estão cheios de matemática.

Os livros de física podem ser complicados, mas os livros de física, tal como os automóveis e os computadores, são produto de um objecto biológico — a inteligência humana. Os objectos e os fenómenos que um livro de física descreve são mais simples do que uma única célula do corpo do seu autor”. Richard Dawkins, ibidem


Eu já pensei em criar um blogue com o título “O Relojoeiro Cego”, para ir refutando sistematicamente o livro. Mas depois pensei que seria uma tarefa inglória, porque seria lutar contra o paradigma científico de Richard Dawkins que marca, por exemplo, o blogue Rerum Natura. Talvez seja mais eficaz o que Passos Coelho está a fazer: corta-se neste tipo de “ciência”, e pronto!

Eu acho inacreditável como um professor universitário de Oxford tenha escrito dislates deste calibre. Mas isto é só uma pequena amostra (se calha, escrevo mesmo o blogue!). Por exemplo, sem a força entrópica da gravidade — que a física estuda — não seria possível que da realidade das partículas elementares pudessem surgir os aminoácidos que, através daquilo a que Richard Dawkins chama de “acaso cumulativo”, “aparecem espontaneamente” na natureza de sequência correcta para formar uma proteína.

Ou seja, a “inteligência humana”, a se refere Richard Dawkins, só se tornou possível porque existe uma área da Realidade primordial e muito complexa que a física estuda; e a biologia vem depois.

Afirmar que a interligação entre a força quântica, por um lado, e a força entrópica da gravidade, por outro lado, — interligação essa que está na base da teoria atómica e da física molecular que, por sua vez, estão na base do “surgimento” das moléculas, ácidos nucleicos, enzimas, etc.) — são “fenómenos simples de descrever”, é absolutamente inacreditável vindo de um professor universitário da área das ciências.

O sofisma de Richard Dawkins, tal como o dos darwinistas primevos (que diziam que “a célula viva surge espontaneamente da lama”), corresponde a uma certa ideia errada de Hegel, por um lado, e de Spencer, por outro lado, segundo a qual “o progresso é uma lei da natureza” e que “a evolução se processa necessariamente do mais simples em direcção ao mais complexo”. Como não se conhece empiricamente aquilo a que se chama de “simples”, então diz-se que “não é complexo”.

Como é evidente que Richard Dawkins tem uma enorme dificuldade de abstracção, afirma ele que “os livros de física estão cheios de matemática”, como se a matemática fosse a tal coisa “simples” que — na opinião dele — não se compara com a “complexidade da biologia”.

Eu não acho que cozer uma lagosta viva seja um acto de bom gosto; mas também não acho que seja imoral deixar nascer uma criança com síndroma de Down.

O que é anormal no tipo de “ciência” e de “cientistas” que temos hoje, é que se defenda a pertinência da primeira posição e a impertinencia da segunda posição. Mas é este tipo de “ciência” que é defendido, por exemplo, no blogue Rerum Natura. É este tipo de gente que tem que ser combatido sem quartel. Bem haja Passos Coelho, neste particular.

Terça-feira, 5 Agosto 2014

O António Piedade, o neocórtex humano, os macacos e as relações sociais

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 7:49 am
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“Há investigações sociais e biológicas que mostram haver um limite superior para o número de indivíduos com os quais conseguimos manter relações sociais frequentes e estáveis. Nos anos 90 do século passado, o cientista R.I.M Dunbar publicou uma série de artigos em que relacionava o número de indivíduos nos grupos sociais de espécies primatas (incluindo a nossa) com o tamanho do neocortex cerebral. E Dunbar chegou à conclusão de que cada um de nós não consegue gerir, em média, mais de 150 relações individuais. Há como que um limite da capacidade cognitiva de que dispomos para manter estáveis as nossas relações pessoais. Acima desse limite deixamos de conseguir sociabilizar. Esse limite, ou esse número, é desde então conhecido por número de Dunbar.”

O TAMANHO DAS NOSSAS REDES SOCIAIS



Quando eu li a comparação que o António Piedade faz entre o ser humano e o macaco, por um momento quase acreditei nele.

Seguindo o raciocínio do António Piedade, o homem de Neanderthal — que tinha um neocórtex maior do que o homo sapiens — teria uma capacidade cognitiva maior do que o homo sapiens sapiens. E já não falo em outros mamíferos, como por exemplo, a baleia, que tem um neocórtex muitíssimo maior do que o ser humano.

As abelhas, que têm apenas 960 mil neurónios em todo o sistema nervoso (quando o ser humano tem cerca de 23 mil milhões de neurónios apenas no córtex cerebral), têm uma capacidade de relacionamento social muitíssimo superior à dos humanos, criando relacionamentos fortes na colmeia que seriam impossíveis na sociedade humana. Ou seja, qualquer ligação de causa/efeito entre o tamanho do neocórtex, ou do número de neurónios do neocórtex, por um lado, e a capacidade de relacionamento dentro da mesma espécie, por outro lado, é simplificadora.

Por exemplo, o chimpanzé tem cerca de 6 mil milhões de neurónios no córtex cerebral, ao passo que o elefante tem 11 mil milhões de neurónios no córtex cerebral. Ora — como dizem os darwinistas — se “o chimpanzé está mais perto do homem”, na realidade a quantidade de neurónios do elefante aproxima-se mais da quantidade de neurónios do ser humano, e em comparação com o chimpanzé.


Este tipo de raciocínio simplificador (a do António Piedade) é típica do cientismo  e do blogue Rerum Natura. Cuidado!, porque essa gente tem opinião!: eles enganam facilmente os ignaros, e sentem-se felizes por os enganar. Gostam de enganar o povo, e em nome da “ciência”.

Eles fazem de conta de que o ser humano não é um sujeito, quando comparam o córtex do ser humano com o córtex de um macaco. A ideia deles é a de criar uma elite que sabe que é uma espécie de macaco através do conhecimento (gnosticismo), elite essa que se distingue dos ignorantes que não têm consciência de que são uma espécie de macacos. Ou seja, segundo o raciocínio do António Piedade, há duas categorias de seres humanos: os que sabem que são macacos (a elite cientificista e darwinista), e os que não sabem que são macacos (os seres humanos em geral e os símios); e apenas os da primeira categoria serão “salvos mediante o conhecimento”: são os Pneumáticos actuais.


Por fim: o António Piedade confunde os “relacionamentos fortes”, por um lado, com os “relacionamentos fracos” — sendo que, estes últimos, apenas o ser humano é capaz de elaborar. Ou seja, confunde “comunidade”, por um lado, e “rede social”, por outro lado. Na comunidade, os laços sociais são fortes; na rede social, predominam os “relacionamentos fracos”.

Os “relacionamentos fracos” permitem ao ser humano lidar com milhares de pessoas, dependendo das circunstâncias e da situação particulares em que ele (ser humano) se encontra a cada momento.

E quando eu vejo o blogue Rerum Natura — a que pertence o Carlos Fiolhais que tanto reclama contra o governo por causa dos “cortes na ciência” — defender posições destas, começo a dar razão a Passos Coelho quando quer acabar com aquela macacada toda.

Segunda-feira, 24 Fevereiro 2014

O Rerum Natura anuncia a realização de uma Missa Sollemnis

Filed under: A vida custa,cultura,politicamente correcto — O. Braga @ 5:56 pm
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O dogma a tratar na Missa Solene é “A Evolução da Espécie Humana”.

Terça-feira, 21 Janeiro 2014

O conceito de “sociobiologia”, segundo Karl Popper

 

«A ideologia darwinista contém uma tese muito importante: a de que a adaptação da vida ao meio ambiente (…), que a vida vai fazendo ao longo de biliões de anos (…), não constituem quaisquer invenções, mas são o resultado de mero acaso. Dir-se-á que a vida não fez qualquer invenção, que tudo é mecanismo de mutações puramente fortuitas e da selecção natural; que a pressão interior da vida mais não é do que um processo de reprodução. Tudo o resto resulta de um combate que travamos uns com os outros e com a Natureza, na realidade um combate às cegas 1. E o resultado do acaso seriam coisas (no mesmo entender, coisas grandiosas) como seja a utilização da luz solar como alimento.

Eu afirmo que isto é uma vez mais uma ideologia: na realidade, uma parte da antiga ideologia darwinista, a que aliás pertence também o mito do gene egoísta 1 (os genes só podem actuar e sobreviver através da cooperação) e o social-darwinismo ressurgido que se apresenta agora, renovada e ingénuo-deterministicamente, como “sociobiologia”.»2

Notas
1. referência a Richard Dawkins
2. trecho extraído do texto da conferência proferida por Karl Popper em Alpbach, em Agosto de 1982

Quinta-feira, 7 Novembro 2013

Um artigo para os ateus e naturalistas lerem

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 7:11 am
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«Overall, what the field of protein evolution needs are some plausible, solid hypotheses to explain how random sequences of amino acids turned into the sophisticated entities that we recognize today as proteins. Until that happens, the phenomenon of the rise of proteins will remain, as Tawfik says, “something like close to a miracle

“Close to a miracle”

E depois de lerem, suicidem-se, mas sem chatear ninguém.

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