perspectivas

Sábado, 9 Abril 2016

Os dogmas católicos e a física quântica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:12 pm
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Os dogmas cristãos consistem na tentativa de codificar (formalizar) as experiências de convivência com o mistério de Deus, conservando, ao longo de séculos, as experiências intersubjectivas com Deus sob a forma de teses. A religião propriamente dita cria comunidade, e por isso tem que possuir conteúdos universais — mesmo que esses conteúdos se encontrem no limite daquilo que é exprimível em termos da lógica. Os dogmas cristãos são pilares impregnados no terreno do inexprimível para delimitar um espaço claro de comunicação para uma comunidade; os dogmas foram arrancados ao silêncio: são uma tentativa paradoxal de exprimir aquilo que não pode ser expresso por palavras, mas que quer ser exprimido.

Porém, a linguagem corrente e comum consiste em conceitos universais. Em rigor, o ser humano só pode entrar em comunicação sobre aquilo que nele não é individual. Por isso, no quotidiano, falamos sempre sobre temas a que todos (ou quase todos) têm acesso.

Mas um dogma cristão é uma afirmação sobre a realidade que está para além daquilo é alcançável através da linguagem corrente. Para que as experiências intersubjectivas com Deus, e as imagens que as representam e evocam, possam fundar uma comunidade que perdura há mais de dois mil anos, elas são formalizadas em dogmas.


A física quântica tem uma situação semelhante aos dogmas da Igreja Católica.

A física quântica, tendo-se construído em ruptura com conceitos que nos são familiares, teve que forjar outros conceitos fora da linguagem corrente, que estão tão afastados da experiência corrente (experiência no sentido do “empírico”) que se perde toda a intuição sensível e empírica desses novos conceitos, e quase todo o contacto. Por outras palavras, a física quântica abriu um espaço ou um hiato entre o concreto e o abstracto (tal como acontece com o dogma católico). Tudo se passa como se a física quântica se tivesse desembaraçado da linguagem corrente graças a uma formalização integral do seu conteúdo. Ora, o objectivo da comunicação e da vulgarização da física quântica é precisamente dizer tudo por palavras — e por isso existe aqui uma antinomia (tal como acontece com os dogmas religiosos).

Essa antinomia, que torna difícil uma transmissão ou comunicação metafórica através da imagem ou da linguagem, não é fácil de ultrapassar — porque há uma grande dificuldade em explicar o seu conteúdo à luz da linguagem corrente, e porque “explicar qualquer coisa a alguém” é colocar essa coisa em relação a noções já conhecidas, ou, por outras palavras, com noções que lhe são familiares e que quase todos têm acesso.

Por isso é que, à luz da linguagem corrente e da mentalidade do Homem contemporâneo (incluindo a maior parte dos filósofos modernos), os conceitos da física quântica não são considerados interessantes (tal como acontece em relação aos dogmas cristãos) — porque entram em um domínio que está para além da linguagem corrente; ou então, esses conceitos quânticos são deformados pelas filosofias New Age, como por exemplo, com o uso que se faz do conceito quântico de “não-separabilidade”: ao contrário do uso vulgar do conceito, a não-separabilidade não implica a transmissão instantânea de energia ou de sinais à distância — exactamente porque o fenómeno da não-separabilidade ocorre fora do espaço-tempo.

Tanto os dogmas cristãos como os conceitos da física quântica encontram-se em um domínio que está para além da linguagem corrente. E num caso como no outro, o concreto é o abstracto que se torna familiar pelo hábito.

Segunda-feira, 29 Fevereiro 2016

O Homem foi criado à imagem de Deus

Filed under: Quântica — O. Braga @ 12:10 pm
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"O acaso é a vontade de Deus".Pedro Arroja


A “vontade de Deus” pode ser directa ou indirecta. Quando é directa, estamos em presença do milagre. E quando é indirecta, a vontade de Deus é a causa de tudo quanto existe (e não só do “acaso”), o que engloba o determinismo das leis da natureza, mas também o livre-arbítrio (a liberdade) da consciência. Nem sempre “o acaso é a vontade (directa) de Deus”.

Ou seja: “vontade de Deus”, em termos gerais, é tudo o que existe; mas nem tudo é vontade directa de Deus. Deus dá um espaço para a causalidade das leis da natureza macroscópica e para a liberdade da consciência.

Aristóteles define o “acaso” como “uma causa acidental de efeitos acessórios revestindo a aparência de finalidade”; isto é, uma caricatura do determinismo, análogo ao fatalismo popular (“aconteceu porque tinha que acontecer”).

No século XIX, Cournot (salvo seja) formalizou a teoria das séries paralelas (independentes na ordem da causalidade) cujo encontro produz o “acaso”, ou o “azar”: um homem passa por uma ponte e esta desmorona-se: há o encontro entre uma causalidade (a intenção do homem) e outra causalidade (a degradação material da ponte).

Porém, a realidade é mais complexa. Do ponto vista da física, a realidade é muito resistente à análise.

Einstein passou a vida adulta a insurgir-se contra a ideia segundo a qual pudesse existir na Natureza algo que acontecesse sem causa (por acaso). “Deus não lança os dados”, dizia ele. A ideia de uma probabilidade de processo puramente estatística era-lhe completamente estranha. Segundo Einstein, deveria haver uma causa para o comportamento de cada átomo. Einstein estava errado. A verdade é que, por exemplo, é possível prever que uma metade de uma grama de urânio se decompõe em 4,5 milhões de anos, mas não é possível dizer quando é que um átomo concreto de urânio se decompõe: pode decompor-se imediatamente ou apenas daqui a muitos milhões de anos.

A opinião quase unânime (com excepção, por exemplo, de David Bohm) dos físicos modernos e contemporâneos é a de que “Deus lança mesmo os dados”. Fazem a distinção entre causalidade, casualidade e a-causalidade. A casualidade e a a-causalidade não são expressão dos nossos conhecimentos limitados, mas antes são constitutivas do domínio da realidade. Ou seja, existe uma probabilidade objectiva, em contraponto a uma probabilidade subjectiva que se baseie apenas em uma falta de conhecimento das razões causais. Heisenberg escreveu: “A física quântica forneceu a refutação definitiva do princípio de causalidade”.

Mas não podemos atribuir o “acaso” exclusivamente à vontade directa de Deus, porque isso seria desvalorizar a consciência (criada). Não podemos separar a matéria, por um lado, da pessoa (da consciência) ou do modo (livre) como a pessoa observa, por outro lado. Temos aqui, portanto, a matéria enquanto sujeita às leis da natureza macroscópica (sujeita à entropia da gravidade), por um lado, e por outro lado a consciência que observa livre e subjectivamente a matéria, influenciando também as “relações de possibilidades de acontecimentos” sem uma causa definível pela física clássica. É neste sentido que podemos dizer que “o Homem foi criado à imagem de Deus”.

Domingo, 5 Julho 2015

A primeira lei da termodinâmica e o dualismo metafísico

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 7:22 am
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Em metafísica, “dualismo metafísico” é a teoria segundo a qual a realidade é formada de (pelo menos) duas substâncias independentes uma da outra e de natureza absolutamente diferente: o espírito e a matéria, ou, como em Descartes, a alma e o corpo.

Não confundir com “dualismo ontológico” de diferentes sistemas religiosos que admitem, para o universo, não apenas um, mas dois princípios de explicação ou de origem (por exemplo, o maniqueísmo , ou a gnose).

“Dualismo” é, neste verbete, entendido como “dualismo metafísico”.


A grande dificuldade da afirmação do dualismo é a primeira lei da termodinâmica:

Primeiro princípio ou axioma da termodinâmica: princípio da equivalência (ou conservação de energia): a energia não pode ser nem criada nem destruída, mas apenas transformada. Num sistema fechado, a sua energia total permanece constante e representa o “equivalente mecânico” do calor.

A primeira lei da termodinâmica é equivalente, por assim dizer, à lei de Lavoisier: na Natureza, nada se cria, nada se perde, e tudo se transforma.

Portanto, o actual raciocínio científico “politicamente correcto” (paradigma) é o seguinte:

  • se o universo é um sistema fechado e é constituído por matéria (seja o que for o que se entenda por “matéria”), então não pode haver lugar para o espírito, nem pode haver qualquer influência do espírito sobre a matéria (o cérebro). Se o espírito quiser actuar sobre a matéria do cérebro a partir do exterior, tem que desrespeitar a primeira lei da termodinâmica — ou seja, seria necessária uma energia material exterior ao sistema físico para influenciar a matéria.

Em última análise, para que a primeira lei da termodinâmica fosse respeitada (porque a energia no universo tem de permanecer constante, segundo a primeira lei da termodinâmica), o espírito também seria uma qualquer forma de matéria, e, neste caso, deixaria de fazer sentido o conceito de “dualismo”.

Portanto, a ciência clássica parte do princípio de que o universo é um sistema fechado, e só em um sistema fechado a primeira lei da termodinâmica faz sentido e pode ser aplicável.

E se a primeira lei da termodinâmica é válida, então segue-se que não pode existir espírito e/ou alma, e as ideias e os pensamentos não passam de epifenómenos da actividade química do cérebro1 . Paul Churchland, por exemplo, supõe que é possível substituir a frase: “O senhor Manuel pensa que…”, pela afirmação: “No cérebro do senhor Manuel disparam no momento T1 os neurónios N1 a N12 do núcleo X, desta e daquela maneira”.

Portanto, ser cientista, segundo o paradigma clássico, significa não só a negação do espírito ou/e alma, mas também significa literalmente ser ateu. Surge então a Teoria da Identidade. 2


 
A física quântica veio alterar este paradigma científico, colocando em causa a concepção do universo como sistema fechado.

human-spiritA “amplitude de probabilidade de função de onda” (ou “função de onda quântica”, ou ainda, na terminologia mais recente, “vector de estado“), por exemplo, de uma partícula atómica, não constitui um campo material (ou não tem massa ou tem uma massa mínima), mas actua sobre a matéria ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares.

Estamos a falar de um facto científico baseado na experimentação, e não apenas de uma teoria. Este facto científico abriu as possibilidades de estados finais diferentes resultantes de processos dinâmicos idênticos, e sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais (como, por exemplo, o abastecimento de energia).

Ou seja, segundo a ciência mais recente, o universo como sistema fechado e a primeira lei da termodinâmica estão colocados em causa. A primeira lei da termodinâmica pode ainda ser utilizada em ciência da mesma forma que o conceito de “absoluto” foi utilizado por Newton para elaborar a sua Dinâmica (o conceito de “absoluto”, em Newton, era uma espécie de muleta).

Resulta disto que a alma ou/e espírito não são produto da evolução (“evolução” entendida no sentido naturalista e darwinista), e que o dualismo metafísico passa a fazer sentido mesmo à luz da ciência. Hoje já não faz sentido que um cientista seja necessariamente ateu, ou que defenda uma mundividência naturalista do ser humano.


Notas
1. por exemplo, segundo Susan Blackmore, Rodolfo Llinas, Paul e Patrícia Churchland.

2. Para a “teoria da identidade”, as ideias não possuem qualquer realidade própria, sendo apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.

Karl Popper demoliu a “teoria da identidade” quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir a “teoria da identidade”. Esta teoria (da Identidade) não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.

Sexta-feira, 15 Novembro 2013

A física quântica demonstra que “há vida após a morte”?!!!

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 4:11 pm
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Temos dois textos que tratam do mesmo assunto: um em inglês e outro em espanhol (podem escolher o idioma que quiserem).

«"Creemos que la vida es solo la actividad del carbono y una mezcla de moléculas; vivimos un tiempo y después nos pudrimos bajo tierra", escribió el doctor en medicina Robert Lanza, citado por el diario británico ‘Daily Mail’.

Este profesor de la Escuela de Medicina de la Universidad Wake Forest de Carolina del Norte argumentó que los humanos creemos en la muerte porque "nos han enseñado a creer que morimos"; es decir, nuestra conciencia asocia la vida con el cuerpo, y sabemos que el cuerpo muere.»

O que esse professor está a falar é de filosofia quântica, e não de física quântica. Trata-se de uma teoria, mas de uma teoria metafísica (filosofia) e não de uma teoria corroborada (teoria científica). A teoria filosófica possui uma coerência interna e segue a Lógica, mas necessita de demonstração para se tornar em uma teoria científica que, por sua vez, deve ser verificada (verificação).

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Segunda-feira, 17 Outubro 2011

O cientismo que critica o cientismo que, por sua vez, critica o cientismo

O cientismo não desarma. Face à lógica, pretende derrubá-la. O cúmulo do cientismo é aquele cientismo que critica o cientismo para se poder afirmar na opinião pública como não sendo cientismo. Este tipo de cientismo faz lembrar os novos marxistas, como por exemplo, Edgar Morin, que criticam o marxismo-leninismo dizendo que “aquilo não é marxismo”, e que o verdadeiro marxismo virá nos “amanhãs que cantam” — ao mesmo tempo que dizem que devemos desistir dos “amanhãs que cantam”. O novo cientismo é um fenómeno que se recusa a si mesmo afirmando que, afinal, é “outra coisa”: é a esquizofrenia ideológica e política em todo o seu esplendor, travestida de ciência.

Para quem acredita no mito segundo o qual a neurociência poderá substituir a filosofia, aconselho a leitura deste artigo (em inglês). Entretanto, eu vou dar aqui umas “achegas” que o artigo não incluiu.

As ciências da natureza — com excepção da física — e principalmente a biologia e a neurobiologia, quando pretendem transformar a consciência humana e, portanto, a ética e a moral, em subprodutos da química do cérebro, transformam a sua “teoria da identidade” (que é o nome desta teoria cientificista da neurociência) em um absurdo, conforme demonstrou Karl Popper que chamou a esta armadilha lógica “o pesadelo do determinismo físico”.

Se as minhas ideias são produtos da química que se processa na minha cabeça, então nem sequer vale a pena discutir qualquer teoria biológica ou neurobiológica, incluindo a própria “teoria da identidade”: estas não podem ter nenhuma pretensão à verdade, visto que as provas apresentadas por esses “cientistas” são igualmente química pura. E se eu disser que a biologia e a neurobiologia estão erradas e que os neurobiólogos são burros, então também tenho razão, dado que a minha química apenas chegou a um resultado diferente.

Por outro lado, nós não recebemos passivamente as impressões do mundo exterior, tal como se tivéssemos uma cópia do mundo na nossa cabeça (ver “teoria do balde”, de Karl Popper, de que falei em postais anteriores). Através dos nossos sentidos e da nossa percepção, o fluxo de sinais que aflui ao cérebro — aproximadamente de 100 milhões de células sensoriais mais conhecidas por neurónios — não é portador de qualquer indicação de quaisquer propriedades para além destas células, a não ser o facto de estas terem sido estimuladas em determinados pontos da superfície do corpo. Isto significa que é preciso acrescentar algo mais aos dados sensoriais na nossa cabeça, para que estes possam dar origem a uma realidade.

Ou seja: os nossos órgãos sensoriais registam “diferenças”, mas não registam “coisas” que se pudessem distinguir, como tais, de outros objectos. Isto quer dizer que a realidade é construída por nós mesmos, quando a consciência utiliza o cérebro. O cérebro é apenas e só uma ferramenta da consciência. Construímo-nos com a ajuda do cérebro, a partir de dados das nossas percepções sensoriais, tal como construímos, com a ajuda do nosso cérebro, uma história a partir dos pixeis do ecrã do nosso televisor.

Por último, e talvez o mais absurdo das ciências biológicas, é que ignoram ostensiva e irracionalmente as descobertas da física. Atrevo-me a dizer que a condição do neurocientista é a burrice e o autismo teórico. A física já demonstrou que o nosso cérebro, como qualquer outro objecto, é um conglomerado de Partículas Elementares Longevas que existem por via da força entrópica da gravidade: o cérebro humano, em si mesmo e no que respeita à sua génese (origem) física, não é diferente de um outro objecto físico qualquer. O que diferencia um cérebro humano, por exemplo, de um cérebro de uma barata, é o tipo de organização intrínseca das partículas elementares que os constituem.

Sábado, 6 Agosto 2011

O neopositivimo morreu: viva o niilismo científico!


«Stephen Hawking says that the universe contains as much negative energy as positive energy, and thus, it adds up to nothing, so the mass or energy didn’t need to come from somewhere else. »

Traduzindo, Stephen Hawking diz que o universo contém tanta energia negativa como energia positiva, e por isso, a soma dos factores anula-se, e assim a massa e/ou a energia não necessitam de ter vindo de algum outro lugar. Portanto, segundo Stephen Hawking, o NULO é exactamente a mesma coisa que o NADA. Por muito que nos possa parecer estranho, é este tipo de raciocínio de merceeiro que alimenta os professores das nossas universidades.

Desde logo, a ideia segundo a qual o universo contém tanta (ou a mesma quantidade) de energia negativa como de energia positiva, é pura especulação. Poderá acontecer que um dia isso venha a ser demonstrado de forma objectiva (ou não), mas até agora o que Stephen Hawking faz é especular.

Porém — e mesmo partindo do princípio segundo o qual “o universo contém tanta energia negativa como energia positiva” —, a mais extraordinária característica de uma determinada “ciência” contemporânea, é uma certa tendência para a negação das evidências. É evidente que o nulo, ou zero, é uma realidade quantificável, e portanto, objectiva. O nulo não é o Nada. Acho extraordinário como um físico eminente como é Stephen Hawking não percebe isto..!

Esta ideia de Stephen Hawking esconde ou revela o novo dogmatismo da ciência — que se segue ao decaído dogmatismo do positivismo e do neopositivimo, que claramente caíram em desgraça com as descobertas da física quântica; derrotados pela lógica, houve a necessidade de se criar um novo cientismo que se fecha, agora, em novos dogmas.

Este novo dogmatismo cientificista pretende convencer as pessoas da seguinte ideia :


(-1)+1=0
→ 0 = NADA

sendo que o NADA, segundo Stephen Hawking, é o Não-Ser, embora o Não-Ser não seja entendido por ele como uma forma de Ser.

Nem Heidegger, com o seu “Da-sein”, conseguiu a proeza de ser tão absurdo quanto Stephen Hawking; o filósofo alemão deve estar a revolver-se no seu túmulo, de tanta inveja em relação ao físico inglês.

Terça-feira, 2 Agosto 2011

O universo não cabe num laboratório

Este postal é interessante e vou interligá-lo com estoutro.

1.
Hans Albert colocou o problema desta maneira: “Não é possível garantir absolutamente a verdade de qualquer afirmação, nem sequer a verdade desta afirmação.”

O conceito de “hipótese” (ou “teoria”) só tem sentido racional e lógico se existe uma realidade que comprova a hipótese como sendo correcta ou falsa. Por isso, se nada no mundo é absolutamente certo — ou se não existe uma certeza absoluta acerca do que seja — pelo menos a Totalidade (ou o Englobante), da qual a minha vida e o meu mundo fazem parte, tem que ser real. A realidade da Totalidade garante a realidade da parte [e a Totalidade não é idêntica a uma parte de si própria], por um lado, e a realidade só pode ser deduzida da Totalidade [que não pode ser sujeito nem objecto, mas aquilo que engloba ambos], por outro lado.

Em consequência, a realidade da Totalidade é o pressuposto fundamental de uma visão realista do mundo: temos, pelo menos, uma certeza absoluta (passo a redundância enfatizante): a de que a Totalidade existe e não é só uma hipótese.
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Segunda-feira, 14 Março 2011

O neo-ateísmo e a quântica (I)

Quando discutimos com ateus temos que falar em ciência, porque é a única linguagem que eles entendem, e é através da ciência que os argumentos neo-ateístas e neodarwinistas são reduzidos ao absurdo.
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Sexta-feira, 24 Dezembro 2010

A teoria das propensões de Karl Popper (2)

As conclusões da física quântica

Tudo o que eu possa escrever aqui sobre as conclusões mais conservadoras e prudentes da física quântica será considerado absurdo por alguns leitores. Por exemplo, se eu disser que a quântica diz que o universo é um imenso vazio com pouca matéria, o leitor provavelmente dirá que eu sou maluco — porque os nossos olhos dizem-nos exactamente o contrário. E já não falo nas teorias mais ousadas, como por exemplo, da teoria do “único electrão” de Feynman, ou da teoria dos “universos paralelos” de Everett: cinjo-me apenas àquilo que é minimamente consensual entre os físicos.

Podemos fazer aqui uma súmula de alguns conceitos básicos, a ver:
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Quinta-feira, 23 Dezembro 2010

A teoria das propensões, de Karl Popper (1)

Para qualquer pessoa minimamente actualizada e que se preocupe com a realidade, não é possível ignorar pelo menos três tipos de situações, digamos assim, a ver :

  • as conclusões da física quântica;
  • a teoria das propensões, de Karl Popper;
  • o estatuto e o papel da consciência em conexão com os dois itens anteriores.

No que respeita à física quântica, é possível a qualquer pessoa interessada ter uma noção básica acerca das suas conclusões, e sem entrar na linguagem formal da matemática. A ideia de que a quântica é só entendível pelos físicos não corresponde totalmente à verdade.

A “teoria das propensões” de Karl Popper baseia-se nas conclusões da física quântica, e difere dos positivistas, construtivistas e outros críticos — tradicionalmente defensores de um determinismo da natureza — quando demonstra não só que esse determinismo cientificista não existe, como demonstra que as possibilidades de ocorrência de acontecimentos futuros não são um mero produto subjectivo decorrente de eventuais lacunas do conhecimento humano, mas antes são um fenómeno objectivo e concreto.

O terceiro item — o estatuto e o papel da consciência — não é aflorado por Karl Popper neste contexto, mas foi reconhecido como sendo importante por muitos físicos quânticos, entre eles alguns laureados com o Nobel da física. O que se defende é que a consciência interage a nível quântico e contribui decisivamente para moldar as “possibilidades pesadas” (utilizando a terminologia de Karl Popper) que são aquelas cuja propensão para a actualização ou realização se torna mais forte.
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Sexta-feira, 26 Março 2010

O erro de Descartes, segundo António Damásio

No seguimento do postal anterior sobre o novo livro de Christopher Hitchens publicado em Portugal com honras de entrevista na TSF, lembrei-me de António Damásio e do seu livro “O Erro de Descartes”, publicado em 1995, que teve um apoio massivo dos me®dia na sua divulgação e foi um sucesso entre o filisteu actual português. Em contraponto, nunca foi publicado em Portugal nenhum livro do neurologista prémio Nobel, John Eccles, que defende exactamente o contrário de Damásio. Na ciência como na política, existe hoje a correcta e a incorrecta. A ciência correcta é aquela que pretende convencer o cidadão de que ele é apenas um “animal evoluído”, uma espécie de “macaco com ideias”, colocando-se assim em causa a excepcionalidade da vida humana; essa foi a missão do livro de Damásio que a intelectualidade portuguesa, em geral, aplaudiu e louvou.

Damásio segue a esteira do epifenomenalismo de Thomas Huxley que se transformou naquilo a que se convencionou chamar de “Teoria da Identidade”. Naturalmente que Damásio sabia que abraçando esta tese cientificista poderia ter sucesso nos EUA, o que veio a acontecer.

No século XIX o epifenomenalismo estava na moda. Reza a História que num simpósio de investigadores da natureza realizado em Göttingen, Alemanha, em 1854, um fisiólogo presente de seu nome Jabob Moleschott declarou que, “tal como a urina é uma secreção dos rins, assim as nossas ideias são apenas secreções do cérebro”. Perante isto, o conhecido filósofo Hermann Lotze levantou-se e disse que, ao ouvir a expressão de tais ideias do colega conferencista, quase acreditou que ele tinha razão…

António Damásio ataca no seu livro o dualismo de Descartes ― que considera o espírito e o cérebro como duas entidades separadas ― e adopta claramente a teoria epifenomenalista da identidade ― que considera o espírito e as ideias como uma secreção do cérebro. É sobre este assunto que trata este postal.
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Segunda-feira, 19 Outubro 2009

O empirismo ateísta na corda-bamba

Reparemos neste conjunto de proposições que respiguei aqui e que dizem respeito a este outro artigo:

Eu não acreditar em deus é uma posição circunstancial, não metodológica ou a priori. Caso ele descesse do céu e fizesse milagres na minha frente eu teria que repensar a ideia. Caso alguém definisse deus de uma forma que fizesse sentido e apresentasse evidências de que ele existe eu teria que repensar a ideia. Agora, enquanto isso não acontece, sugiro que é bem mais acreditável que ele seja um personagem mitológico.

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