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Segunda-feira, 27 Fevereiro 2017

Síntese crítica da teoria subjectivista niilista de Peter Singer (parte 1)

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 2:06 pm
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Um dos problemas do consequencialismo (em ética), é a certeza do futuro. O consequencialista puro tem a certeza do futuro.

Por exemplo: se eu vejo um automóvel a uma velocidade de 150 quilómetros / hora dentro da cidade, posso afirmar o seguinte:

“É provável que aquele automóvel tenha um acidente dentro da cidade”.

Se o automóvel vai a 80 quilómetros / hora, posso dizer:

“É verosímil que aquele automóvel tenha um acidente dentro da cidade”.

Se o automóvel vai a 40 quilómetros / hora, posso afirmar:

“É possível que aquele automóvel tenha um acidente dentro da cidade”.

Mas em nenhum caso posso ter a certeza, porque ninguém conhece o futuro. Mas o consequencialista conhece o futuro: senão vejamos o que diz o Peter Singer:

“On absolute moral standards: There are still absolutists. Some are proponents of the “new natural law” tradition, which has its roots in Catholic moral theology, even though it is presented as a secular position. Others are Kantians, many of them outside English-speaking philosophy. In Germany, for example, you would find wide support for the idea that we should not torture a child, even if (as in Dostoevsky’s example in The Brothers Karamazov) that would produce peace on earth forever. To me it seems obvious that if by torturing one child you could prevent a vast number of children (and adults) suffering as much or more than the child you have to torture, it would be wrong not to torture that child.”

Peter Singer diz que torturar uma criança não é mau, se a tortura dessa criança evitar que um vasto número de crianças e adultos venham a sofrer também (o nazi Josef Mengele pensava da mesma forma, quando fazia experiências médicas com crianças judias).

Há aqui uma certeza, da parte de Peter Singer: a de que a consequência do sofrimento (causado propositadamente) dessa criança aliviará, no futuro, o sofrimento de muitas outras crianças e de adultos. E por isso, diz Peter Singer, a tortura dessa criança até é coisa muito boa de se fazer; porque ele tem a certeza do futuro, tal como Mengele tinha.

Mas se a tortura for aplicada em um porco ou num cão, Peter Singer já não concorda com o seu próprio consequencialismo, porque ele considera que um porco ou um cão é um animal superior a uma criança. Mas deixemos esta incongruência para um outro verbete.

Não sei se Peter Singer tem filhos, mas se torturassem um filho dele para “bem da humanidade”, talvez ele não ficasse feliz. Talvez ele não tenha filhos para poder defender a tese da “tortura racional de uma criança”. (Por outro lado, Peter Singer é contra a tortura de terroristas islâmicos no GITMO; porque um terrorista islâmico é um adulto, e não uma criança: para Peter Singer, uma criança tem um valor ontológico inferior a um adulto).

O problema do consequencialismo puro é que não distingue o racionalmente impossível, o possível, o verosímil, o provável, e a certeza.

Para o consequencialista puro, o futuro é sempre uma certeza subjectiva, ou intersubjectiva de uma elite. E como o futuro é sempre uma certeza da elite, a sua moral é teleológica: os fins justificam quaisquer meios, porque se tem a certeza de que os fins se realizarão exactamente conforme o pressuposto.

No consequencialista puro coexiste um romântico e um positivista (porque o positivismo é o romantismo da ciência).

Mas mesmo que tivéssemos a certeza do futuro, segundo o qual a tortura de uma criança beneficiaria muitas outras crianças e adultos, essa tortura seria barbárie, do ponto de vista ético — porque nem todos os fins justificam quaisquer meios; há limites.

E aqui o limite é o do ADN da criança que é um ADN humano, único e irrepetível.

O que nos separa irredutivelmente de Peter Singer é o valor do ser humano: para ele, o ser humano tem um determinado valor, dependendo se é uma criança, um adulto ou um velho. Porém, o problema de Peter Singer é que não existe um consenso universal e geral sobre quanto vale um ser humano; e portanto, o valor que ele dá ao ser humano é um valor subjectivo que, ipso facto, não pode ser universal e, por isso, não se pode transformar em uma teoria ética propriamente dita.

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Quinta-feira, 15 Dezembro 2016

O “eunuco espiritual”, segundo Eric Voegelin

Na sua obra “História das Ideias Políticas”, Eric Voegelin explica-nos aquilo que ele chama de “eunucoidismo espiritual”. Vou tentar traduzir aqui esse conceito, segundo Eric Voegelin. Os trechos a itálico reflectem a terminologia do próprio Eric Voegelin.

Com o positivismo, a ciência adquiriu a característica de um pathos (do grego, “paixão”) de autonomia e auto-confiança (ou pathos cientificista), que deriva da verificação da causalidade empírica dos fenómenos. Se uma determinada relação causal fenoménica é constatada pela ciência, esta adquire essa auto-confiança que não existe naturalmente na condição existencial do ser humano.

A condição existencial, natural e normal do ser humano, é a da incerteza; em contraponto, a condição normal da ciência positivista é da “certeza” em função da verificação  empírica  da causalidade de parte dos fenómenos , e de uma auto-confiança que essa “certeza” lhe dá ― pelo menos é assim que a “verdade” da ciência é interpretada pelo eunuco espiritual. (more…)

Quarta-feira, 14 Dezembro 2016

Vozes de burros não chegam ao Céu

 

Richard Dawkins escreveu algures que “se uma estátua de uma santa saísse pelo seu próprio pé da igreja onde estaria exposta, esse fenómeno teria uma explicação natural”.

Ou poderíamos imaginar outro cenário de Richard Dawkins : o Cristo-Rei, cansado de estar de pé em Almada, um dia põe-se a caminhar, mergulha no Tejo para uma banhoca, e depois vai deitar-se a apanhar sol na Costa da Caparica: segundo Richard Dawkins — e o Ludwig Krippahl — se isso acontecesse, não se trataria de um milagre, mas antes teria uma explicação perfeitamente natural.

¿O que é que une o Richard Dawkins ao Ludwig Krippahl? É a burrice. São ambos burrinhos. Mas escrevem “coisas”.

É claro que, se o Cristo-Rei fosse, por sua alta recreação, tostar o lombo para a Costa da Caparica, o fenómeno teria que ter uma explicação natural.

O problema aqui é definir “natural” — é saber o que significa “natural”. Quando burrinhos como o Ludwig Krippahl ainda não sabem definir “matéria” (ainda não sabem o que é a “matéria”) , consideram que tudo é natural sem saber o que significa “natural”.

É fácil dizer o seguinte: “ainda não existe uma lei da natureza inventada pelo ser humano que regule o fenómeno dos banhos de sol do Cristo-Rei na Costa da Caparica; mas dentro de dois mil milhões de anos, o ser humano encontrará um explicação para esse caso”. É assim que os porcos cientificistas se refastelam na merda ideológica onde se sentem bem. E depois dizem que as suas crenças são racionais, ao passo que as dos outros são irracionais.

“O determinismo universal seria concebível se não existisse a sua noção” — Nicolás Gómez Dávila

A ciência sabe, por exemplo, que meio grama de urânio se decompõe em 4,5 milhões de anos; mas a ciência não sabe, nem poderá nunca — jamais! — saber, em quanto tempo se decompõe um átomo de urânio: pode ser decomposto imediatamente ou daqui a milhões de anos! É neste sentido que podemos dizer que a ciência do Ludwig Krippahl e do Richard Dawkins não faz a puta da ideia do que é a matéria!

A a-causalidade também é natural. A casualidade e a a-causalidade não são a expressão dos nossos conhecimentos limitados actuais, mas sim são constitutivas da realidade. Por isso, os físicos falam em probabilidade objectiva, por contraposição a uma probabilidade subjectiva baseada apenas em uma falta de conhecimento actual e temporário das razões causais.

Para qualquer pessoa inteligente, é difícil aceitar que, no centro da Física que pretende ser a ciência dos fundamentos de todo o mundo, as leis da nossa razão deveriam ser anuladas. Mas do ponto de vista da física, a realidade é resistente à análise. Mas para o Ludwig Krippahl, a coisa é fácil: basta dizer que os outros são irracionais, e o problema está resolvido.

Eu não estive em Fátima em 1917, e o Ludwig Krippahl e o Domingos Faria também não. Ora, segundo o Ludwig Krippahl, Richard Dawkins e o Domingos Faria, se o Sol “dançou em Fátima”, foi devido a fenómenos naturais. Eu também penso o mesmo: tratou-se certamente de um fenómeno natural, assim como são fenómenos naturais, por exemplo, o “efeito de túnel” ou a-causalidade dos fenómenos. Mas as milhares de pessoas que estavam em Fátima em 1917 testemunharam um fenómeno ou/e têm a crença de que viram um fenómeno anormal (uma anomalia).

Vejamos o que escreveu o físico francês Roland Omnès no seu livro “Filosofia Quântica” (edição americana, páginas 191/192):

“Mesmo um objecto do tamanho da Terra pode estar sujeito a um efeito de túnel, pelo menos em princípio. Enquanto a força gravitacional do Sol impede a Terra de se afastar através de um movimento contínuo, contudo o nosso planeta poderia subitamente encontrar-se na órbita da estrela Sírio mediante um efeito de túnel.

(…)

Felizmente, mesmo que o determinismo não seja absoluto, a probabilidade da sua violação é extremamente pequena. Neste caso, a probabilidade da Terra se afastar do Sol é tão pequena quanto a de 10^200 (1 seguido de 200 zeros). (…) Em termos práticos, é um acontecimento que não terá lugar.

(…)

Uma característica destas flutuações quânticas [o efeito de túnel] que violam o determinismo [das leis da física clássica], é a de que não podem ser replicadas (repetidas).

Imaginemos que um efeito de túnel foi observado por muitas pessoas: elas vêem uma pequena pedra subitamente aparecer em um lugar diferente do que estava há milésimos de segundo. Essas pessoas realmente viram o fenómeno, mas nunca serão capazes de convencer mais alguém; nunca poderão demonstrar de forma irrefutável que o fenómeno se possa repetir. Tudo o que essas pessoas podem fazer é jurar: “Juro que a pedra estava ali, à minha esquerda, e que subitamente apareceu à minha direita!”. Em resposta, as pessoas que não assistiram ao fenómeno atribuirão esse juramento a gin ou whisky em demasia, outras dirão que aquela gente está maluca, e as pessoas que assistiram ao fenómeno acabarão por se convencer de que foram vítimas de uma alucinação.”

Ora, parece evidente que o físico Roland Omnès – quando comparado com o Domingos Faria ou com o Ludwig Krippahl – parece ser burro todos os dias.

A verdade do experimentalismo — por exemplo, com Roger Bacon — é sustentada pela indução por enumeração simples.

Stuart Mill formulou quatro regras de método indutivo, mas essas regras só são úteis se aceitarmos a lei da causalidade [“Todo o fenómeno tem uma causa”]; mas esta lei tem como base a indução por enumeração simples e ignora a a-causalidade : ou seja, Stuart Mill pouco adiantou em relação ao método indutivo de Bacon.

Filósofos como por exemplo Karl Popper insistiram no “círculo vicioso” da indução evocando, por exemplo, o princípio da regularidade dos fenómenos naturais, que é em si mesmo um princípio geral que, portanto, não pode ter sido estabelecido indutivamente. Karl Popper tira daqui o argumento para recusar à ciência fundar-se na indução. Portanto, o experimentalismo do Ludwig Krippahl, do Domingos Faria e o Richard Dawkins, por si só, não é suficiente para determinar qualquer “verdade objectiva”, embora a “verdade científica” seja uma crença de grau superior.

E, entretanto, e apesar dos factos, o Ludwig Krippahl e o Domingos Faria continuam a zurrar.

Sábado, 5 Novembro 2016

A burrice da ciência, ou a ciência da burrice

 

Não é preciso ser cientista para desconfiar da homeopatia; mas é preciso ser cientificamente burro para mencionar Santo Agostinho acerca da astrologia sem se dar conta de que o Santo criticou o alegado desígnio divinatório da astrologia: quando se acredita que a astrologia prevê o futuro, também devemos desconfiar dela, como fez Santo Agostinho. Mas a astrologia não é a adivinhação do futuro; ou não devia ser assim interpretada.

É um erro argumentar contra a homeopatia utilizando a lógica (como faz o homúnculo); assim como é um erro, por exemplo, utilizar a lógica formal para tentar justificar o princípio da complementaridade (onda/partícula). O único argumento válido contra a homeopatia é o da verificação, ou falta dela (as estatísticas, a indução) — assim como um argumento válido contra a astrologia (enquanto entendido como um instrumento de previsão do futuro) é a verificação, uma vez que qualquer ciência positivista se baseia nos factos do passado.

Se a validação de um facto científico positivista dependesse apenas da lógica, não faria falta a verificação. E, neste contexto, comparar a homeopatia com a astrologia (ou meter as duas coisas no mesmo saco) só pode vir de uma mente obtusa.

Terça-feira, 30 Agosto 2016

O salafismo positivista do David Marçal

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:00 am
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O David Marçal escreveu o seguinte:

“Significa isto que [as medicinas alternativas] não conseguem provar a sua eficácia e segurança através dos métodos exigidos à medicina convencional. Têm na sua essência conceitos pré-científicos, como o vitalismo, a ideia de que há uma dimensão não material do corpo humano, com a qual se consegue interagir, de forma a curar as doenças. Como as pessoas têm a ciência em boa conta (e por bons motivos) o misticismo é embrulhado com um jargão científico da moda”.


cientismoA ideia de um conhecimento seguro do mundo, mesmo que se trate apenas das noções fundamentais mais genéricas, é hoje considerada como fracassada. Por isso é que o David Marçal, o Carlos Fiolhais etc., esperneiam sistematicamente em nome da “ciência”.

A ciência é um instrumento da nossa vontade de sobreviver neste mundo, mas não pode substituir outras áreas da realidade humana, como pretende o David Marçal e os camaradas do Rerum Natura.

A medicina não cura doenças — no sentido em que as doenças não desaparecem. As doenças podem sempre voltar a qualquer momento, seja no indivíduo, seja no colectivo. A medicina trata as doenças.

O David Marçal fala em “dimensão não material do corpo humano”; mas a ciência não sabe o que é “matéria” — excepto o David Marçal, que parece que sabe mais do que os cientistas sérios de todo o mundo. É este tipo de posições que faz com que o David Marçal perca alguma razão que possa ter. O David Marçal fala em “matéria” como eu poderia falar em “gambozinos” ou em “unicórnio voador”: entidades abstractas que não têm definição operacional. ¿O que é a matéria?

A ideia segundo a qual “a medicina convencional consegue provar a sua eficácia e segurança através do método indutivo” (indução ), é uma verdade adquirida, ou seja, uma crença do David Marçal. E, desde logo, os instrumentos a prova também devem estar sujeitos ao escrutínio da prova.

“A tentativa e erro não são indução, mas precisamente presunção e selecção” (Karl Popper). “Os indutivistas interpretaram mal a forma lógica interna da tentativa e erro. Não viram que a tentativa é sempre uma presunção e o erro é sempre uma selecção”.

Ou, como escreveu Thomas Kuhn: “Os teóricos das ciências mostraram repetidamente que a um conjunto de dados pode sempre corresponder a mais do que apenas uma construção teórica”.

É um absurdo que se diga que os factos (“facto” entendido como “verificação intersubjectiva de um evento”) podem ser pressupostos indiscutivelmente como pontos de partida da ciência — porque qualquer percepção ou observação já está (previamente) impregnada de teoria através das categorias presentes no nosso cérebro, ou da nossa linguagem, visto que estas também estruturam as nossas actividades intelectuais.

É evidente (ou seja, é verificável intersubjectivamente) que a descoberta da penicilina, por exemplo, foi importante para combater determinadas doenças; mas isso não significa que a penicilina seja necessariamente a única forma de as combater. É certo que devemos ser cépticos em relação a determinado tipo de crenças miraculosas, mas o radicalismo do David Marçal transforma-se em uma crença em relação à qual devemos ser cépticos também.

Quarta-feira, 13 Julho 2016

A arte é incompatível com ciência (do Iluminismo)

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:24 pm
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“O Real nunca é belo” — Jean-Paul Sartre

Se partirmos dos princípios fundamentais do Iluminismo, arte e ciência são inconciliáveis — ao contrário do que defende o Carlos Fiolhais ; ou então, ele coloca em causa o próprio Iluminismo, o que eu não acredito que seja verdade. Defender a conciliação entre a arte e a ciência é colocar em causa não só o Positivismo mas também o Iluminismo que está na sua origem.

“A estética não existe” — Paul Valéry

Segundo o Iluminismo, a ética, a estética e a metafísica são subjectivas, e alegadamente não fazem parte da experiência (empirismo) que legitima a ciência. Segundo o Iluminismo, a razão opõe-se à tradição; e não é possível ética, estética, e mesmo ciência, sem tradição.

O problema fundamental escora-se na lógica do Iluminismo: a ciência não explica nada, não explica as causas dos fenómenos naturais: apenas descreve os fenómenos; vem daqui a frase célebre de Newton: Hypotheses non fingo — ao passo que a obra-de-arte pretende explicar a realidade de um só golpe: uma obra-de-arte não é uma descrição da natureza: antes, é (pelo menos) uma tentativa de a explicar.

A estética, como a ética, pertence ao domínio da metafísica, ao passo que a ciência iluminista é uma metafísica que nega a metafísica (é uma metafísica negativa).

Terça-feira, 17 Maio 2016

O David Marçal, a mecânica de Newton e a astrologia (parte II)

Filed under: Ciência — O. Braga @ 8:50 am
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(em continuação do verbete anterior)

Pessoas como o David Marçal ganharam notoriedade pública devido ao politicamente correcto, e por isso têm acesso livre aos me®dia. O politicamente correcto é o “bom gosto” actual; e aquilo a que (sempre) se considerou de “bom gosto”, ao longo da História moderna da Europa, fez mais vítimas inocentes, só nos últimos 200 anos, do que a Igreja Católica desde a Antiguidade Tardia (incluindo as cruzadas, a Inquisição, as guerras religiosas na Europa, a colonização, etc.).

No verbete anterior abordamos o anacronismo da lei gravitacional de Newton na medida em que serve de fundamento à principal crítica dita “científica” do David Marçal em relação à astrologia. Hoje temos a Teoria da Relatividade e a física quântica (embora não compatíveis entre si), que fazem com que a mecânica de Newton se remeta à utilidade do ensino secundário. O David Marçal parece ter parado no tempo; não há Zodíaco que o valha.


É conhecida a teoria das marés de Galileu, que se demonstrou errada porque ele baseou a sua teoria apenas no movimento de rotação da Terra, e propositadamente não tomou em consideração a influência da Lua no movimento das marés. Galileu não colocou a hipótese da influência lunar no movimento das marés porque tinha um preconceito negativo — normal entre os naturalistas daquela época — em relação à astrologia.

Recorde-se o principal argumento do David Marçal contra a astrologia:

“De todas as implausibilidades, a menos implausível é a gravidade. Mas a força gravítica é proporcional à massa dos corpos (o Sol é gigante e determina o movimento dos planetas no sistema solar) mas diminui com o quadrado da distância. Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra). Como afirmou o astrónomo e divulgador de ciência Carl Sagan: «Marte tem muito mais massa, mas o obstetra está muito mais próximo.» E mesmo que houvesse uma qualquer influência da posição dos astros durante o nascimento, ficaria por demonstrar que isso seria determinante para o resto da vida”.

Tal como Galileu, o David Marçal faz de conta que a Lua não existe.

“Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra)”.

Só a Terra existe — tal como raciocinou Galileu na sua teoria das marés; para o David Marçal, a Lua não existe. E ele chama à sua tese de “científica”; ele fala em nome da ciência, e até invoca o argumento de autoridade de Carl Sagan. Basta só o facto de o David Marçal se ter esquecido da Lua, para que o seu principal argumento contra a astrologia ir pela pia abaixo.

Quando, em um manicómio, existirem perturbações comportamentais entre os doentes mentais durante a Lua Cheia, o David Marçal irá chamar uma catrafada de obstetras para acudir à crise.


O segundo argumento do David Marçal contra a astrologia é o seguinte:

“Por causa do movimento de precessão do eixo da Terra, as zonas do céu em que vemos as constelações ao longo do ano não são as mesmas de quando a astrologia foi inventada.”

Em primeiro lugar, parece que o David Marçal acredita que qualquer tipo de experiência indutiva (ciência de qualquer espécie) é uma invenção humana — o que é típico do positivismo. A experiência humana face aos factos e aos fenómenos é considerada uma “invenção humana”. Os números primos, por exemplo, também são considerados como uma “invenção humana”, por um lado; e por outro lado, “a lógica evolui”.

Perante o arquétipo mental do David Marçal, só nos resta sorrir…

Em segundo lugar, a tese do “movimento de precessão do eixo da Terra” confunde “signos do Zodíaco”, por um lado, com “constelações do Zodíaco”, por outro lado. Ou seja, o David Marçal confunde a “estrada da Beira” com a “beira da estrada”.

A astrologia ocidental — dita “Tropical” — é baseada na posição dos planetas calculada em função do “trânsito” do Sol conforme visto da Terra, em vez dos padrões aparentes das estrelas mais distantes — como invoca o David Marçal.

Ptolomeu instituiu um sistema em função da chamada “Precessão dos Equinócios” (detectado pelo grego Hiparco), fazendo com que o Zodíaco se iniciasse em Carneiro com a posição do Sol no equinócio da Primavera. Ou seja, o Zodíaco (tropical) é estático e não é afectado pelas mudanças do eixo da Terra. No entanto, Ptolomeu manteve os nomes antigos dos signos no seu sistema actualizado, nomes esses que eram os mesmos das constelações artificiais antigas desde o tempo da Babilónia e da Mesopotâmia — e foi isso que causou a confusão do David Marçal.

Ou seja, o Zodíaco (Tropical) mantém-se inalterado desde há cerca de 2.200 anos.

Mesmo os astrónomos modernos utilizam ainda o sistema do Zodíaco de Ptolomeu naquilo a que chamam de Sistema de Coordenadas Eclípticas, que corresponde exactamente aos signos do Zodíaco Tropical.

Com Ptolomeu, a astrologia ocidental (Tropical) passou a reger-se pelo Tempo, e não pelo espaço exterior ao sistema solar.

Quinta-feira, 31 Março 2016

Prémio Unicórnio Natural para o David Marçal

 

O blogue Rerum Natura tem feito alarde do prémio unicórnio voador. Uma vez que o unicórnio existe, de facto — e por isso não é um mito cientificista e positivista —, decidimos criar o Prémio Unicórnio Natural, dedicado a personalidades cépticas que não acreditam na existência da sua própria sombra mas que acreditam que a ciência nunca erra.

unicornio-natural

No caso vertente, citamos o David Marçal, eminente objecto do Prémio Unicórnio Natural:

“Vacinar [os seus filhos] não é uma decisão sua”.

Em vez de a ciência ser concebida em um contexto de persuasão do cidadão, é entendida pelo David Marçal em forma de dogma: tudo o que é endossado pela ciência oficial do Zeitgeist é dogmático e inquisitorial.

É falso que o Dr. Andrew Wakefield tenha assumido uma posição anti-vacinas — como afirma, dogmática- e religiosamente, o David Marçal. O Dr. Andrew Wakefield foi contra a vacina tríplice (contra o sarampo, a rubéola e a papeira), mas era de opinião que se deviam tomar essas vacinas separadamente. Mas o dogmatismo cientificista transformou a ciência em uma certeza absoluta; e qualquer pessoa que coloque em causa essa certeza absoluta é sacrificado em auto-de-fé na nova Inquisição positivista.

Nas ciências empíricas, é discutível falar de "verificação". Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade). Por isso é que não pode existir uma verdade absoluta em ciência.

Sábado, 20 Fevereiro 2016

O positivismo contribuiu decisivamente para a decadência da civilização europeia

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 1:01 pm
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Este texto do Ludwig Krippahl é patético. Ou melhor, é digno de um analfabeto funcional; e o problema é o de que ele o entende como parte de uma “filosofia”. O Ludwig Krippahl pretende “filosofar”, o que é normal; toda a gente “filosofa”, de uma maneira ou doutra, mas nem toda a gente o faz com método. O texto do Ludwig Krippahl é uma logomaquia.

Ao longo da História, o Absoluto foi interpretado como espírito (Platão), como vontade (Schopenhauer), como alma (Giordano Bruno), como Eu (Fichte) como matéria (Helvécio) ou como História (Karl Marx) — para referir apenas alguns filósofos. Sempre se declarou apenas um aspecto do nosso mundo como fundamento da Totalidade. E na medida em que a Totalidade não é idêntica a uma parte de si própria, surgiram sempre dificuldades com as várias tentativas de solução do problema do Absoluto. Ou seja, tornou-se evidente que a Totalidade é mais do que a soma das suas partes, ou que não era possível incluir um importante aspecto parcial do mundo na respectiva definição da Totalidade.

Ora, o Ludwig Krippahl — seguindo a linha ideológica do Positivismo — transforma a ciência empirista em mais um conceito de Absoluto. Pergunta-me o leitor: ¿será que ele percebe isto? Penso que não percebe, porque ele teria que ter uma ideia aprofundada dos vários conceitos de Absoluto ao longo da História; e a julgar pelo texto dele, ele não conhece Platão e os outros referidos, senão de nome. Ou seja, parece-me que o Ludwig Krippahl não tem autoridade de facto para discutir filosofia com o Domingos Faria.


Temos o caso do pensador alemão Hans Blumenberg que, quando morreu em 1966, revelou ao mundo, em um trabalho hercúleo, que todas as “narrativas” perderam o seu valor, que não existe nenhuma verdade filosófica ou religiosa para os seres humanos, e que o ser humano tem que aprender a morrer resignado. O niilismo e o desespero como último conhecimento — esta é maneira de pensar que está hoje muito difundida.

Para não caírem no absurdo total, os positivistas — como por exemplo Carnap, a quem o Ludwig Krippahl obedece —, em vez de reconhecerem que o mundo teve a sua origem no Absoluto (a que se convencionou chamar “Deus”), declararam que a questão do Absoluto é apenas “aparente”. Segundo o positivismo, seria melhor nem sequer nos ocuparmos com questões desse tipo: pelo contrário, a filosofia deveria limitar-se àquilo que se pode perceber através dos sentidos, pois (alegadamente) só isso é seguro, mensurável e objectivo (só o que se pode medir é seguro).

Ou seja, segundo o Ludwig Krippahl, a leitura de um ponteiro em um instrumento de medição representa o único método defensável para responder às questões filosóficas.

Poincaré defendeu a seguinte tese: imaginemos que, na noite passada, enquanto todos (incluindo o Ludwig Krippahl) dormíamos, tudo no universo aumentou para o dobro do seu tamanho. Obviamente que a placa de platina e de irídio de Paris também aumentou para o dobro; 1 metro passou a ser 2; as trajectórias dos electrões aumentaram, assim como a órbita da Lua. Resultado: o Ludwig Krippahl não registaria qualquer aumento das dimensões; mas Carnap e o Ludwig Krippahl continuariam a afirmar que as suas medições descrevem e sondam a realidade de maneira suficiente.

Mas a verdade é que as medições, por si sós, não constituem a chave suficiente para a realidade. Por muito que a posição do Ludwig Krippahl seja “esclarecida”, ele tem que se confrontar com outro problema difícil que resulta da sua (dele) forma de pensar: ele próprio, como um ser consciente de si mesmo, como um Eu muito particular, nem sequer pode aparecer no mundo que ele próprio definiu — porque o Ludwig Krippahl não pode ser medido.

Santo Agostinho (¿será que o Ludwig Krippahl já leu alguma coisa de Santo Agostinho? Duvido!, porque se trata de um santo da Igreja Católica) dizia que eu sou sempre eu a pensar alguma coisa acerca de mim mesmo. Por isso, sou logicamente sempre mais do que aquilo que penso de mim mesmo, uma vez que me dividi. Por um lado, sou aquilo que penso sobre mim, ou seja, sou o conteúdo do meu pensamento. Mas, por outro lado, sou aquele que pensa este conteúdo. O conteúdo do pensamento é uma coisa; mas o pensamento activo desse conteúdo não é uma coisa. Por um lado, sou objecto sobre o qual penso, mas por outro lado sou sujeito que pensa sobre si próprio. O conteúdo do pensamento que penso sobre mim é incompleto e, por isso, não me abrange suficientemente — sou sempre mais do que aquilo que penso sobre mim. E dado que o mesmo se passa com Carnap e com o Ludwig Krippahl, também eles não se podem medir a si próprios de forma exaustiva.

A comparação entre a forma de pensar de Carnap e de Santo Agostinho revela como a civilização europeia entrou em decadência com a modernidade, com a elevação da ciência empirista a uma metafísica que nega a Metafísica. E o Ludwig Krippahl (entre muitos outros) personifica essa decadência intelectual.

Sábado, 12 Dezembro 2015

Alberto Caeiro e o paganismo positivista

 

"A religião não só é a condição da liberdade eficaz do pensamento, como é a condição da função hígida do pensamento"
— Fernando Pessoa


Ser reaccionário é compreender que o ser humano é um problema sem solução humana.
(Nicolás Gómez Dávila)

Já demonstrei aqui que Fernando Pessoa era um gnóstico — não só no sentido moderno da atitude de revolta contra a Realidade, mas também no sentido místico próprio da Antiguidade Tardia. Portanto, os textos de Fernando Pessoa e dos seus personagens têm que ser “filtrados”.

Ou seja, Fernando Pessoa não era propriamente um reaccionário. Ser reaccionário é compreender que o ser humano é um problema sem solução humana (Nicolás Gómez Dávila). Qualquer tipo de ideologia prometaica dos “amanhãs que cantam” e do “futuro certo” é revolucionária, ou seja, é gnóstica.


Vejamos aqui um trecho de Fernando Pessoa, aliás, Alberto Caeiro:

“O neo-paganismo português reconhece que as pátrias são apenas meios para um fim, que as transcende. Esse fim nem é a Religião, nem a Humanidade, mas a Civilização — isto é, o aumento constante de aquisições científicas, de possibilidades de emoção agradável, e de meios fáceis de acção; o acréscimo em suma, do conteúdo da inteligência, do conteúdo da sensibilidade, do conteúdo da vontade”.

O neo-paganismo português


"O papel intelectual do sentimento religioso é, em primeiro lugar, o de estabilizador e disciplinador da inteligência"
— Fernando Pessoa

Para se perceber este trecho de Alberto Caeiro é necessário, em primeiro lugar, saber o que representa o Alberto Caeiro em relação a Fernando Pessoa; e depois ter a noção da oposição que movia o Fernando Pessoa contra o Alberto Caeiro.

Fernando Pessoa não concordava com Alberto Caeiro. Por isso é que é muito simplista apresentar um texto de um dos personagens de Fernando Pessoa e afirmar que é a opinião deste. Só devemos dizer que determinada opinião é de Fernando Pessoa quando é assinada pelo próprio Fernando Pessoa, e não por um dos seus múltiplos.

“A ausência de sentimento religioso tem isto de péssimo: é a ausência de toda a base, de todo o ponto de apoio para se progredir"
— Fernando Pessoa

Alberto Caeiro era um positivista (no sentido de Augusto Comte e do paganismo naturalista do Positivismo); Fernando Pessoa era anti-positivista (no sentido místico) .

Alberto Caeiro escreve o seguinte: “as três condições de criação civilizacional são: a liberdade do indivíduo, a homogeneidade da pátria, e a dedicação a um princípio superior à Pátria”. Fernando Pessoa escreve o seguinte: “tenho visto muita coisa neste mundo mas não vi ainda a liberdade.”

Segundo Fernando Pessoa, “o progresso é uma revolta contra a espécie humana” (sic). Segundo Alberto Caeiro, o progresso é uma lei da Natureza. Quem não compreender a idiossincrasia de Fernando Pessoa não compreende a sua “Mensagem”.

Fernando Pessoa sabia perfeitamente que não é possível haver civilização sem religião; ou, na terminologia de Kant, a religião é a condição da civilização. E o paganismo ou neo-paganismo, como quiserem, não é uma religião superior: quem estudou a História das Religiões sabe perfeitamente disso.


“A religião é a perpétua afirmação do presente; a História é a perpétua negação do presente”. — Gabriel Marcel

Sábado, 31 Outubro 2015

O positivismo é o romantismo das ciências (para memória futura)

 

« O positivismo é o romantismo das ciências. A tendência própria do romantismo para identificar o finito com o infinito1 para considerar o finito como a revelação, e a realização progressiva do infinito é transferida e realizada pelo positivismo no seio da ciência.

Com o positivismo, a ciência exalta-se, apresenta-se como a única manifestação legítima do infinito e, assim, assume um carácter religioso, prendendo suplantar as religiões tradicionais.

O positivismo é parte integrante do movimento romântico do século XIX. Que o positivismo seja incapaz de fundar os valores morais e religiosos e, especialmente, o próprio princípio de que dependem, a liberdade humana, é um ponto de vista polémico, que a reacção anti-positivista, espiritualista e idealista da segunda metade do século XIX fez prevalecer na historiografia filosófica. Assim se pode considerar justificado, no todo ou em parte, este ponto de vista.

Mas é fora de dúvida que, nos seus fundadores, e nos seus epígonos, o positivismo se apresenta como a exaltação romântica da ciência, como infinitização, como pretensão a valer de única religião autêntica, e por conseguinte, como único fundamento possível da vida humana individual e social.

O positivismo acompanha e promove o nascimento e a afirmação da organização técnico-industrial da sociedade, fundada e condicionada pela ciência. Exprime as esperanças, os ideais e a exaltação optimista que provocaram e acompanharam esta fase da sociedade moderna. O Homem, nesta época, julgou ter encontrado na ciência a garantia infalível do seu próprio destino. Por isso rejeitou, considerando-a inútil e supersticiosa, toda a garantia sobrenatural e pôs o infinito na ciência, encerrando nas formas desta, a moral, a religião, a política – a totalidade da sua existência.

(…)

O materialismo, que alguns epígonos deduzem do positivismo evolucionista, é, ele próprio, uma metafísica romântica: a deificação da matéria e o culto religioso da ciência. »

→ “História da Filosofia”, de Nicola Abbagnano, Tomo X, §629, Editorial Presença, Lisboa, 1970


Nota
1. A imanência

Sábado, 14 Fevereiro 2015

A matemática e os órgãos dos sentidos

Filed under: Ciência — O. Braga @ 10:51 am
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“Quando vão entender que qualquer expressão matemática só corresponde a uma realidade analogicamente, e que em última instância o único juiz dessa correspondência é o testemunho dos tão desprezados órgãos dos sentidos?”

→ Olavo de Carvalho

É verdade a que matemática parte de postulados — e não de evidências —, mas também é verdade que os órgãos dos sentidos fundamentam-se em crenças; e o problema é o de saber quando e se essas crenças (e não me refiro a fé religiosa, que é outra coisa) ditadas pelos órgãos dos sentidos são verdadeiras ou falsas.

Por exemplo, se os órgãos dos sentidos são o único juiz da realidade, então o darwinismo está correcto — até porque o darwinismo é fortemente intuitivo e não propriamente atreito a formalismos matemáticos. Ora, a principal objecção em relação ao darwinismo é que se baseia quase exclusivamente nos órgãos do sentidos (por exemplo, a comparação visual de Ernst Haeckel entre um feto de um peixe e um feto humano). É mesmo contraditório que um cientista aceite simultaneamente e sem reservas o darwinismo e a física quântica. Nenhum biólogo darwinista (passo a redundância), digno desse nome, deixa de ser fortemente céptico em relação a qualquer aspecto da física quântica, porque a biologia tem como fundamento os órgãos dos sentidos, a categorização da informação que recebe dos órgãos dos sentidos, e a intuição sensível.

Do empirismo só podemos esperar soluções empíricas.

Eu estou de acordo com Olavo de Carvalho quando ele separa a matemática, por um lado, do testemunho dos órgãos dos sentidos, por outro  lado. Mas já não estou tão certo sobre se o único juiz da realidade é o testemunho dos órgãos dos sentidos (ver teoria do balde).

Penso mesmo que este problema é insolúvel — refiro-me ao problema do juízo sobre a realidade ou sobre partes dela — se não seguirmos S. Tomás de Aquino: “A verdade é a adequação do intelecto à  realidade”. S. Tomás de Aquino falou em “intelecto”, e não em “órgãos dos sentidos”.

É claro que o intelecto interpreta a informação que nos chega dos órgãos dos sentidos, mas também  coloca em causa essa informação; o intelecto questiona os órgãos dos sentidos. Portanto, os órgãos dos sentidos não podem ser o único avalizador da realidade.

Os órgãos dos sentidos são imprescindíveis para a sobrevivência do ser humano em um mundo com determinadas características. Mas, ao contrário do que defendeu Bergson ou Husserl (cada um à  sua maneira), é a inteligência e não só a intuição que permite construir conceitos capazes de descrever partes da realidade.

A intuição leva a dizer que a Terra é plana e/ou que o homo sapiens é descendente do macaco segundo um processo aleatório de evolução. A intuição salva as aparências. A intuição é necessária, mas já verificámos o facto do recuo da intuição sensível em favor da inteligência (do “intelecto”, de S. Tomás de Aquino). É o intelecto (que inclui a matemática) e não a intuição que nos diz que, mesmo que seja verdade que o homem descenda do macaco, isso não poderá ter acontecido através de “um processo aleatório de evolução mediante pequenos passos”.

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