perspectivas

Domingo, 17 Abril 2016

Música desta só foi possível ser criada graças ao Cristianismo

Filed under: Religare — O. Braga @ 7:26 pm
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Não se ouve música desta qualidade em nenhuma outra civilização.

Quinta-feira, 7 Abril 2016

O neomarxismo do papa Chico

 

“Noi possiamo fare accordi, una certa pace… ma l’armonia è una grazia interiore che soltanto può farla lo Spirito Santo. E queste comunità, vivevano in armonia. E i segni dell’armonia sono due: nessuno ha bisogno, cioè tutto era comune.

In che senso? Avevano un solo cuore, una sola anima e nessuno considerava sua proprietà quello che gli apparteneva, ma fra loro tutto era comune”.

papa Chico

papa-freak-webO papa Chico refere-se às comunidades dos primeiros cristãos. Vamos traduzir a última parte, a negrito: “Tinham um só coração, uma só alma, e ninguém se considerava proprietário daquilo que lhe pertencia, mas então todas as coisas eram comuns”.

Este é o argumento utilizado sistematicamente dos neomarxistas ditos “católicos”, como por exemplo Frei Bento Domingues ou Anselmo Borges.

Convém, contudo, dizer o seguinte: os historiadores (Boak, Russell, MacMullen, Wilken) apontam para uma população total de cerca de 60 milhões de pessoas em toda a área do império romano, após a crucificação de Jesus Cristo. O Cristianismo então nascente é considerado um fenómeno sociológico, que passou de 1.000 seguidores (no total) no ano 40 d.C., para 7.500 no ano 100 d.C., 218.000 no ano 200 d.C., e seis milhões no ano 300 d.C..

Quando as comunidades cristãs atingiram as muitas centenas de milhares de pessoas, o comunitarismo de que fala o papa Chico deixou de ser possível, em termos práticos, nas diversas comunidades cristãs no império romano.

Ou seja, o comunitarismo cristão do “tudo em comum”, segundo o Chico, só foi praticamente possível enquanto a população cristã total, e em todo o império romano, era apenas de alguns milhares — no primeiro e parte do segundo século da nossa Era.

Portanto, a alegoria do “tudo em comum dos primeiros cristãos” é um sofisma do papa-açorda Francisco; é um engano; o Chico está a tentar enganar os católicos. O papa Chico é um aldrabão que esconde as suas ideias comunistas por detrás do Cristianismo.

Quarta-feira, 6 Abril 2016

As cartas deuteropaulinas

Filed under: curiosidades — O. Braga @ 11:18 am
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Um leitor fez a seguinte pergunta:

« Por que “autêntico S. Paulo”? Há um falso? »


As chamadas epístolas “deuteropaulinas” não foram escritas por S. Paulo, a ver:

Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito.

As que não fazem parte desta lista foram mesmo escritas por S. Paulo. Porém, mesmo nas que se demonstrou terem sido escritas por S. Paulo, existem as chamadas “interpolações”, como por exemplo em 1 COR 14, 34-35 — ou seja, esta passagem de Coríntios 1 não é de S. Paulo.

As interpolações têm origem em notas marginais que os escribas mais tarde incorporaram no próprio texto, inserindo-as em alguns casos em um determinado lugar, e noutros casos, noutro lugar.

Segunda-feira, 21 Março 2016

O Frei Bento Domingues nega os símbolos do Cristianismo, substituindo-os por sinais

 

Quando lemos o que o Frei Bento Domingues escreve, temos que traduzir o texto, ou seja, temos que fazer a hermenêutica (mas não a exegese) do texto, porque ele esconde a sua (dele) intencionalidade nos passos perdidos das palavras.

fbd-2-webO Frei Bento Domingues escreveu este texto em que constata que o mundo está em desordem, para depois concluir que o lava-pés pascal do papa-açorda Francisco a mulheres, a muçulmanos e a refugiados é uma forma de combater a discriminação. Só falta ao papa-açorda Francisco lavar as patas aos ursos polares para assim contribuir para a soteriologia imanente do materialismo ecologista.

A ideia segundo a qual o mundo está em desordem baseia-se no princípio de que o mundo pode ou poderia estar em ordem (o ser humano só conhece a partir de contrários ou opostos). Mas quando os progressistas (como o Frei Bento Domingues) e os me®dia teceram loas à desordem da Primavera Árabe, o Frei Bento Domingues esteve calado — porque a Primavera Árabe era alegadamente uma “desordem boa”. Parece que, para o Frei Bento Domingues, há desordens boas ou más. Mas quando uma alegada “desordem boa” é causa de uma putativa “desordem má”, os progressistas ignoram ostensivamente o nexo causal, e defendem agora uma “ordem boa” em contraponto a uma “ordem má” que é aquela com que não concordam.

O Frei Bento Domingues parece ver o mundo de forma arbitrária, desligada de nexos causais; o bom e o mau são eleitos em função de cada momento (pensamento hegeliano, dialéctico); a História serve para ser desconstruída e para justificar as opções do dia-a-dia.


O Frei Bento Domingues diz implicitamente que Jesus Cristo discriminou as mulheres, e que o papa-açorda Francisco veio ao mundo para corrigir Jesus Cristo. O lava-pés de Jesus aos discípulos é alegadamente uma forma de discriminação sexista, e a missão do papa-açorda Francisco (entre outras) é a de chamar à atenção do povo para a estupidez de Jesus Cristo. O papa-açorda Francisco veio ao mundo para tomar o lugar de Jesus Cristo e fundar uma nova revelação.

O Frei Bento Domingues ignora a diferença entre “discípulos”, por um lado, e “apóstolos” (que podem ser mulheres), por outro lado; e ignora a condição ontológica do homem e da mulher, que são diferentes: não é só uma questão biológica, mas é também uma questão metafísica. Mas a metafísica do Frei Bento Domingues é imanente, e portanto não pode ter em consideração estas nuances esotéricas.

Quando Jesus Cristo escolheu discípulos (homens), não discriminou as mulheres, porque se assim fosse, a própria escolha daqueles (e não de outros) seria uma forma de discriminação — as ideias do Frei Bento Domingues, se levadas às suas últimas consequências, raiam o absurdo —; e porque a diferença entre homem e mulher não é apenas biológica, mas também metafísica (os budistas chamam “Kharma” a esta diferença metafísica, não só entre os dois sexos mas também entre indivíduos). Além disso, a história da Igreja Católica está repleta de apóstolas (mulheres) que assim cumpriram a sua missão na soteriologia transcendente (e não imanente, como a do Frei Bento Domingues).

O Lava-pés tem símbolos, e não sinais. O Frei Bento Domingues (e o papa-açorda Francisco) reduz a cerimónia a um conjunto de sinais. Os símbolos tem uma função esotérica, isto é, não podem ser mudados sem que se mude também aquilo que o símbolo representa (representação). Aos sinais, falta-lhes a participação no conteúdo do representado/simbolizado, porque, em regra, os sinais são escolhidos arbitrariamente (por exemplo, os sinais de trânsito).

A aleatorização da cerimónia do Lava-pés, por parte do papa-açorda Francisco, transforma os símbolos em sinais (escolhidos arbitrariamente), em nome de um conceito de “igualdade” que não pode existir enquanto tal (utopia), porque o sentido de um conceito só é definido por meio da experiência concreta.

Se levarmos o raciocínio do Frei Bento Domingues (e do papa-açorda Francisco) até às últimas consequências, então concluímos que Natureza discriminou o homem em relação à mulher, porque aquele não pode parir — o que é um injustiça imposta por Deus ao homem. A negação dos símbolos cristãos e a sua substituição por sinais conduz ao absurdo.

Domingo, 6 Março 2016

Descartes copiou Santo Agostinho, e a cultura dividiu a Europa

“Lutero só se deixa convencer pelas Escrituras e pela razão (plain reason). A experiência está omissa. Descartes vai pegar no argumento da razão para fazer o seu célebre exercício intelectual "Cogito ergo sum", penso, logo existo.”

Pedro Arroja

1/ Na “Cidade de Deus”, Santo Agostinho escreveu o seguinte:

“¿Quem quereria duvidar de que vive, se lembra, compreende, pensa, sabe ou julga? É que, mesmo quando se duvida, compreende-se que se duvida… portanto, se alguém duvida de tudo o resto, não deve ser dúvidas acerca disto. Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido. Porque a dúvida só é possível se eu existo”.

Santo Agostinho antecipou, no século IV, a famosa ideia de Descartes do século XVII: “cogito, ergo sum”. Ou seja, basicamente Descartes copiou Santo Agostinho.

Descartes — assim como Kant — tem sido vítima de algumas acusações infundadas por parte de católicos; porque se queremos acusar Descartes do “cogito”, teremos que acusar, em primeiro lugar, Santo Agostinho.


2/ O protestantismo (Lutero) surgiu por questões políticas (inerentes à organização social e política dentro do Sacro Império Romano-Germânico), e por questões culturais. Das primeiras não vou falar aqui e agora. Sobre as questões culturais, invoco aqui o fenómeno cultural do carnaval.

O termo italiano carnevale deriva do latim dominica carnelevalis ou Domingo da quadragésima, que era uma festa que marcava, para o clero católico, a passagem do regime normal para o regime de penitência, e que significava a abolição da carne ou do peixe. Ou seja, carnevale significava a entrada no período temporal e sagrado da Quaresma, dando origem a outros termos vernaculares como antruejo, introitus, carême-entrant, etc. Não há nada que indique a existência do carnaval antes de 1200 d.C. .

Segundo o pregador alemão Johann Geiler von Kaysersberg, era mais difícil convencer o povo a fazer a abstinência e penitência durante o período de tempo que vai do dominica carnelevalis até à Quaresma, do que meter um cavalo num barco pequeno. Então, a partir de 1500, os ritos de dissolução, conhecidos entre o povo coevo como “carnaval”, passaram a ser particularmente cultivados — embora, já antes do século XVI existissem regiões da Europa onde o clero já teria conseguido, com maior ou menor sucesso, introduzir entre o povo a abstinência e penitência da Quaresma.

Porém, o carnaval não se propagou por toda a Europa católica: por exemplo, no noroeste de França e na província francesa da Bretanha, em Inglaterra, na Holanda (excepto na fronteira com a Bélgica), na Alemanha do norte e na Escandinávia, não existe alguma tradição do carnaval. De modo diferente, o carnaval disseminou-se em regiões como Itália, Espanha, Portugal, a maior parte da França, uma grande parte da Alemanha com fulcro na Baviera, e na Grécia.

A razão desta diferenciação cultural (e aqui chamo à atenção para aquilo que é, erroneamente, considerado como sendo uma diferença entre protestantes e católicos) tem a ver com a história da tradição da penitência nas diversas regiões da Europa, e com a forma como a cultura romana influenciou ou não essa tradição da penitência.

Nas regiões do norte e noroeste da Europa comia-se, na Idade Média, panquecas na Terça-feira Gorda, e não se celebrava o carnaval porque eram regiões onde as taxas (impostos) de penitência eram pacificamente aceites, e onde a confissão e a penitência eram vistos como assuntos privados e pessoais — ao contrário do que acontecia nas regiões da Europa mais influenciadas pela cultura romana, em que o processo litúrgico da penitência pública (e não privada) era uma tradição cultural especifica.

A partir do início do século XIII, o carnaval apareceu nas regiões de maior influência cultural romana, onde a tradição da confissão pública e da penitência foi sendo progressivamente abandonada em favor do avanço de uma maior privacidade e privatização.

Em suma: para além das questões políticas relacionadas com a unificação da Alemanha, por um lado, e com a guerra alemã contra o centralismo de Roma que absorvia recursos financeiros, por outro lado — temos as questões culturais. As tradições dos povos da Europa não eram todas iguais, e por isso o catolicismo não podia ser seguido da mesma forma por todos.

 

Sexta-feira, 26 Fevereiro 2016

O suicídio e a regra de ouro

Filed under: filosofia — O. Braga @ 2:24 pm
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Cristo não se pronunciou acerca de todas as questões da existência humana (v.g., eutanásia). Depois da sua morte, passou a competir à Igreja interpretar e exprimir o julgamento de Cristo acerca de cada nova ou velha questão que se põe à humanidade”.

Pedro Arroja

O que o Pedro Arroja escreve não corresponde à verdade. Jesus Cristo (Lucas 6, 31) falou da regra de ouro que, interpretada racionalmente, demonstra o contrário do que diz o Pedro Arroja. A regra de ouro engloba, em uma síntese, todas as questões da existência humana.

Naturalmente que se interpretarmos a regra de ouro de forma irracional, chegamos à conclusão de que o suicida deseja que toda a gente se suicide. Ou seja, a regra de ouro só se aplica no seu sentido positivo, porque se interpretada no sentido negativo, torna-se absurda e niilista.

A interpretação racional da regra de ouro diz-nos o seguinte: só se encontrarmos um sentido de vida seremos capazes também de suportar o sofrimento e a caducidade.

Quem tem a certeza do sentido da sua vida, pode morrer — por exemplo, Sócrates ou Jesus Cristo. Pelo contrário, quem sofreu uma perda do sentido de vida nem sequer pode morrer: a morte acontece-lhe; morre miseravelmente.

Não é possível garantir a segurança física dos dirigentes do Bloco de Esquerda

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 12:11 pm
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be-jc

A partir do momento que o Bloco de Esquerda transforma o Cristianismo em uma paródia, a integridade física dos seus dirigentes não pode ser garantida.

Sexta-feira, 19 Fevereiro 2016

Confusão de grelos, e Cristianismo

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 1:05 pm
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Quando comentamos textos incongruentes, estamos a alimentar a visibilidade da incongruência. Muitas vezes, a incongruência é utilizada como um meio para atingir qualquer fim; outras vezes, a incongruência é concebida como um fim, em si mesma. No primeiro caso, é ideologia; no segundo, é estupidez.

Portanto, não costumo comentar textos incongruentes, a não ser em casos excepcionais em que estou convencido de que se trata de ideologia, e não somente de estupidez. Parece que o autor deste “post” é licenciado em História, e por isso parto do princípio de que não escreveu o que escreveu devido à sua ignorância: o que ele faz é deturpar propositadamente os factos históricos, o que revela desonestidade intelectual — a não ser que tenha tirado o curso de História “à pressão”.

(more…)

Segunda-feira, 15 Fevereiro 2016

Paulo Rangel faz uma confusão entre Estado, por um lado, e política, por outro lado

 

A leitura deste artigo do Pedro Arroja levou-me a este artigo no jornal Púbico:

“Ao PÚBLICO, Paulo Rangel explica as razões que o levaram a escrever este ensaio, que procura demonstrar que a separação entre a religião e a política tem a sua origem no Cristianismo”.

Paulo Rangel, Jesus Cristo e a política

Parece-me que o Rangel confunde Estado e política.

De facto, o Cristianismo separou a religião e o Estado, mas Jesus Cristo nunca separou a política e a religião. Quando Jesus Cristo diz que “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, “César” simbolizava o Estado imperial romano; e aqui, Jesus Cristo marca uma linha divisória entre o Estado e a religião.

Por outro lado, Paulo Rangel não considera as ideologias políticas como formas modernas de religiosidade (as “religiões políticas imanentes”, segundo a terminologia de Eric Voegelin).

Separar a política e a religião — seja esta qual for — é uma impossibilidade objectiva.

Domingo, 7 Fevereiro 2016

O desconstrucionismo evangélico do Frei Bento Domingues

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 2:16 pm
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O Frei Bento Domingues pega em um trecho do Evangelho de S. Lucas (4,16 a 4,29), elimina a maior parte do texto e reinterpreta o restante (o que ele citou) a seu bel-prazer.

O problema não está na interpretação, entendida em si mesma, que pode ser discutida; o problema é o recorte “à medida” do texto, para que sirva um propósito ideológico distinto daquele que está plasmado no texto original.

O texto completo (de 16 a 29) retrata a psicologia da rejeição, que existe e existiu em todas as épocas desde que o ser humano apareceu à face da Terra, e que é confirmada pela experiência: “ninguém é profeta na sua terra”.

O conceito de “transformação da realidade”, utilizado pelo Frei Bento Domingues no texto dele, supõe o conceito de “fé metastática”, que é a crença segundo a qual é possível mudar a natureza fundamental da realidade. Ao contrário do que defende Frei Bento Domingues, Jesus Cristo nunca defendeu a crença em uma repentina transfiguração da estrutura da realidade e na subsequente emergência de uma ordem paradisíaca no planeta Terra. “O meu reino não é deste mundo”, disse Jesus Cristo; mas o Frei Bento Domingues teima em transformar o mundo, no reino Dele (a imanentização do éschatos)

É certo que o Cristianismo operou uma diferenciação cultural, em relação ao status quo anterior.

Mas essa diferenciação cultural não se baseou em uma “transformação da realidade” — como diz o Frei Bento Domingues —, mas antes baseou-se na afirmação da realidade, em um reconhecimento da existência de uma determinada realidade concreta. Ao contrário do que acontece com a interpretação feita pelo Frei Bento Domingues, a mensagem de Jesus Cristo não era utópica, mas antes era (e é) baseada no concreto, na realidade tal qual ela se nos apresenta: por isso é que Ele resgatou o papel da mulher na sociedade, por exemplo.

Não obstante ter resgatado a mulher, Jesus Cristo não considerou que os papéis do homem e da mulher fossem intermutáveis, dentro e fora da Igreja ou da religião — como defende utopicamente o Frei Bento Domingues —, exactamente porque o desígnio de Jesus Cristo não era utópico: Ele tinha a noção perfeita da realidade em que o ser humano está inserido.

Sábado, 6 Fevereiro 2016

O deus do Anselmo Borges não é o Deus de Jesus Cristo

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 3:18 pm
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« Segundo o modelo cosmológico padrão, vivemos num universo que se produziu no big bang e terminará numa morte energética futura: "um universo que nasce a partir de um "fundo" desconhecido no qual será reabsorvido".»

Sabemos, por inferência, que o universo teve um princípio; mas é abusivo dizer — como diz o Anselmo Borges ou qualquer outra pessoa — que o universo vai ter este ou aquele fim. A ciência é uma muleta para a filosofia, mas não podemos misturar ciência e filosofia, como faz o Anselmo Borges.

Do ponto de vista macroscópico — que é o ponto em que nos encontramos, na nossa realidade — não é possível conhecer o futuro. Mesmo as leis da física que conhecemos são revogáveis, por exemplo, face à singularidade.

Parece que o Anselmo Borges parte do princípio da filosofia gnóstica indiana do YUGA das elites secularizadas a partir do hinduísmo, que aliás influenciou Nietzsche na sua teoria do Eterno Retorno.

Um ciclo cósmico completo, um mahâyuga, compreende doze mil anos e termina com uma “dissolução” (pralaya) que se repete de uma maneira mais radical (mahâpralaya, a Grande Dissolução) no fim do milésimo ciclo. Assim, o esquema exemplar da “criação ― destruição ― criação” reproduz-se até ao infinito.

A Causa Primeira (Deus) já não é acessível ao Homem não-religioso através dos ritmos cósmicos.

A significação religiosa da repetição dos “gestos” cósmicos é esquecida; e a partir daqui, a repetição da natureza esvaziada do seu conteúdo religioso conduz necessariamente a uma visão pessimista da existência. Para o Homem não-religioso, o Tempo cíclico torna-se insuportavelmente terrível na medida em que se revela como um círculo rodando indefinidamente sobre si mesmo, repetindo-se até ao infinito.


« O ateísmo seria outra conjectura metafísica, também filosófica: no pressuposto das teorias especulativas de multiversos ou múltiplos universos e de supercordas, essa meta-realidade apresentar-se-ia como "uma realidade impessoal na qual se produziria de modo cego o nosso universo".»

O que o Anselmo Borges diz é que a teoria do Multiverso pode justificar racionalmente a ausência de uma Causa Primeira (Deus). A afirmação de Anselmo Borges não é crítica: é corroborativa. Portanto, segundo esse argumento, existirá um número infinito de Multiversos que justifica alegadamente a ausência de uma Causa Primeira (Deus) : é uma regressão infinita da existência e do Ser, em um mundo que o Anselmo Borges reconhece ser finito. Eu admito que um ateu ignaro coloque a hipótese desta tese; mas vinda de um professor universitário de filosofia ou teologia, acho muito estranha.


“Por isso falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam” (Job, 42,2)

A imagem que o Anselmo Borges traça de Deus é a do “Deus absconditus” — o Deus oculto — que se mantém em silêncio:

“Teísmo e ateísmo são confrontados com o silêncio de Deus. Este silêncio manifesta-se num duplo plano: no plano cósmico, porque Deus não se revela de modo evidente enquanto criador do universo. O outro é o silêncio de Deus "perante o drama da história, devido ao sofrimento humano pessoal e colectivo e ao mal natural cego e à perversidade humana".”

Ou seja, o Deus de Anselmo Borges não é o Deus de Jesus Cristo. Por isso, é abusivo que ele relacione o Deus silencioso, por um lado, com o Deus cristão, por outro lado. É evidente que o Anselmo Borges volta ao problema da Teodiceia para justificar a irracionalidade ateísta; neste sentido, recordemos as palavras do filósofo Eric Voegelin:

« Quando o coração é sensível e o espírito contundente, basta lançar um olhar sobre o mundo para ver a miséria da criatura e pressentir as vias da redenção; se são insensíveis e embotados, serão necessárias perturbações maciças para desencadear sensações fracas.

É assim que um príncipe mimado se apercebeu pela primeira vez de um mendigo, de um doente e de um morto ― e tornou-se assim em Buda; em contrapartida, um escritor contemporâneo vive a experiência de montanhas de cadáveres e do horroroso aniquilamento de milhares de indivíduos nas conturbações do pós-guerra na Rússia ― e conclui que o mundo não está em ordem e tira daí uma série de romances muito comedidos.

Um, vê no sofrimento a essência do ser e procura uma libertação no fundamento do mundo; o outro, vê-a como uma situação de infelicidade à qual se pode, e deve, remediar activamente. Tal alma sentir-se-á mais fortemente interpelada pela imperfeição do mundo, enquanto a outra sê-lo-á pelo esplendor da criação.

Um, só vive o além como verdadeiro se ele se apresentar com brilho e com grande barulho, com a violência e o pavor de um poder superior sob a forma de uma pessoa soberana e de uma organização; para o outro, o rosto e os gestos de cada homem são transparentes e deixam transparecer nele a solidão de Deus. »

Terça-feira, 2 Fevereiro 2016

Como surgiu o capitalismo

Filed under: filosofia — O. Braga @ 4:30 pm
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Eu acredito na tese de Max Weber — “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, 1905 — segundo a qual foi o ascetismo intra-mundano dos empresários calvinistas (cristãos) que (também) está na origem do capitalismo.

“¿Por que é que os interesses capitalistas na China ou na Índia não conduziram ao desenvolvimento científico, artístico, político, económico para via de racionalização que é característica do Ocidente?” → Max Weber

Há quem diga que “os calvinistas não eram católicos” e que “o catolicismo proibia a taxa de juro”. É falso!

Por exemplo, o prémio de seguro de risco foi “inventado” pelos frades menores franciscanos no século XIII (os “Fratelli”), e os templários utilizavam taxas de juro na suas transacções financeiras na Europa do mesmo século. A proibição da taxa de juro era apenas uma corrente ideológica da Igreja Católica, que não era unânime.

Os primeiros empresários capitalistas — segundo Max Weber — não procuravam o lucro desenfreado e cego por especuladores e aventureiros, mas antes procuravam o exercício honesto e constante de uma profissão: tratava-se de uma acumulação de riqueza destituída de qualquer interesse pelos prazeres que poderia proporcionar.

Por outro lado, segundo o Calvinismo, Deus decidiu, em virtude de decretos insondáveis e irrevogáveis, que “certos homens estão predestinados à vida eterna e outros destinados à morte eterna” (Confissão de Westminster, de 1647), o que causava uma angústia entre os calvinistas: “¿Será que eu serei eleito para a vida eterna?”

Nunca certo da sua eleição, o calvinista buscava os sinais dela aqui no mundo, nos frutos do trabalho, sem descanso nem alegria, trabalhava para a glória de Deus e, sobretudo, para mitigar a sua angústia. Os primeiros capitalistas eram frugais e quase ascetas, sem qualquer propensão para o luxo que a riqueza proporciona; a riqueza acumulada era apenas um sinal de bênção divina.

Foi assim que o capitalismo nasceu — segundo Max Weber — porque “se um tal travão ao consumo se alia à procura desenfreada do ganho, o resultado prático é evidente: o capital forma-se pela poupança forçada e ascética”.

A partir do momento da sua instituição, o sistema capitalista passou a obedecer às suas próprias leis — a partir do século XIX deixou de necessitar da religião que o fundou: dilui-se gradualmente no utilitarismo profano, e o fervor do capitalista religioso originário cede lugar ao homem absorvido pelo trabalho, esse calculador isolado que não conhece nem reconhece outra religião senão a do dinheiro.

O que, de início, era uma escolha — os actos de trabalhar e calcular — transformou-se em um destino: a perda da liberdade. “O puritano (calvinista) queria ser um homem trabalhador, e nós somos forçados a sê-lo”.

Não podemos separar a origem do capitalismo, por um lado, do Cristianismo, por outro lado. E quando separamos, não temos capitalismo propriamente dito, mas antes temos o neoliberalismo que se iniciou com a preponderância ideológica do Marginalismo de finais do século XIX.

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