perspectivas

Sábado, 25 Fevereiro 2017

Mal-entendidos da filosofia moderna

 

Temos aqui um verbete de um tal Marcos L. Mucheroni (parece-me professor de filosofia no Brasil) que me mencionou aqui. Vou tentar, desta feita, analisar o verbete em causa que aborda a questão da mundividência, ou da ausência dela na nossa sociedade.

1/ Vamos começar com Einstein:

“Mesmo que os axiomas da teoria (não interessa qual, neste caso) sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada Ordem do mundo objectivo — o que não se podia esperar de maneira alguma.” [“Worte in Zeit und Raum”]

É óbvio que Einstein tem razão. Existe uma Ordem do mundo objectivo. Essa Ordem é (não só, mas também) imanente ao mundo, ou seja, é uma Ordem que a nossa inteligência pode facilmente detectar através da ciência ou das teorias científicas. Qualquer cientista honesto detecta e reconhece publicamente essa Ordem imanente. Sublinho: honesto.

Mas, por outro lado, vejamos o que escreveu o físico alemão Hans Rohrbach (1967):

“A matemática não é um produto da razão humana, mas, por assim dizer, é mais inteligente do que a razão humana”.

Ou seja a lógica matemática está para além da razão humana, aponta para o infinito que, neste caso, não é o infinito imanente dos gregos (socráticos e pré-socráticos incluídos), mas é um infinito transcendente ao espaço-tempo e ao universo.

Este infinito transcendente é a novidade do Cristianismo (com a contribuição de Plotino e Proclo).

Portanto, o Marcos pode ter alguma razão quando diz que as filosofias de Platão ou de Aristóteles eram imanentes; mas já não tem razão quando pretende dizer que a filosofia dos pré-socráticos (de acordo com Heidegger) não eram imanentes.


Em Aristóteles, o conceito de “alma” não era transcendente, e portanto qualquer analogia com a “alma” cristã, é falácia.

Para Aristóteles, a alma era o “Nous” ou “Intelecto”. Tanto Platão como Aristóteles moviam-se mais ou menos na imanência herdada das divindades intra-cósmicas do panteão grego, e não admitiam sequer a criação do mundo a partir do “Nada”.

Para Aristóteles e Platão, o esboço ideológico de um Deus não era a de um Deus Criador, mas o de um demiurgo ou arquitecto que moldou a matéria original ou Ápeiron. A noção de Ápeiron vem dos pré-socráticos (nomeadamente, Empédocles).

Como escreveu Ortega y Gasset, o mundo das Ideias de Platão ou o Nous de Aristóteles pertencem a um “quási-lugar extra-mundano, a região sobre-celeste”(¿Que es Filosofia ?, página 30, segunda edição, 1960). O lugar das Ideias de Platão e do Nous de Aristóteles não é extra-mundano (transcendente): é quase extra-mundano, ou seja, imanente.

Quando Aristóteles fala da “superioridade da alma relativamente ao corpo”, não fala da superioridade da “alma cristã” em relação ao corpo, mas antes na superioridade do Nous (intelecto) de uns em relação a outros.

A diferenciação conceptual e cultural da “alma cristã” transcendente, em relação à “alma grega” imanente (seja socrática, seja pré-socrática), aconteceu mais tarde, com a influência judaica e com o neoplatonismo (Plotino, Proclo), já na era depois de Cristo.


2/ O Marcos escreveu:

“(…) o teocentrismo tem como catarse no final da idade média exactamente o problema do movimento dos planetas e da centralidade do sol, (…)”

O Marcos incorre no mesmo erro ideológico da pseudo-ciência actual — a ideia segundo a qual o geocentrismo e o teocentrismo estão estrita- e directamente ligados, e que Galileu fez a “catarse do teocentrismo cristão” através da defesa do heliocentrismo.

Em primeiro lugar, Copérnico (um clérigo católico) defendeu o heliocentrismo antes de Galileu.

E muito antes de Copérnico, Aristarco de Samos, que viveu no século III a.C., foi simbolicamente condenado à morte — ou seja, não foi realmente morto — por ter dito que era a Terra que se movia em torno do Sol e que as estrelas não rodopiavam à volta da Terra; e foi virtualmente condenado à morte precisamente porque Aristarco colocava assim em causa a existência da morada dos deuses gregos, porque segundo a mitologia grega era suposto que a Terra fosse o centro do universo, explicando-se assim a existência do Olimpo.

Em segundo lugar, se entendermos a ciência na perspectiva actual e actualizada — que não deve incluir o cientismo —, a reacção do Papa às teses de Galileu foi absolutamente correcta, do ponto de vista científico.

As teses de Copérnico receberam o imprimatur do Vaticano porque foram formuladas como hipóteses   — o que não aconteceu com Galileu, que não quis formular hipóteses, mas antes pretendeu afirmar verdades absolutas. E a tentativa de afirmação das suas verdades absolutas aconteceu numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

Segundo a perspectiva actual não-cientificista e, por isso, racional e científica propriamente dita, a Igreja Católica do tempo de Galileu defendeu a concepção científica mais moderna (a ciência do paradigma), embora tenha errado tanto quanto erra a ciência actual.

Anúncios

Domingo, 19 Fevereiro 2017

O ‘Faith’s Night Out’ Blowed Their Minds Out

 

José Tolentino Mendonça desafiou os jovens presentes no ‘Faith’s Night Out’ a serem “utópicos e sedentos”, acreditando na “força recriadora do amor” e rejeitando um “cristianismo insonso e por vezes também muito sonso, quando não aceita a dinâmica do serviço como a sua norma”.

«Faith’s Night Out»: «Espero que não se esqueçam que são crentes» – Ricardo Araújo Pereira

“Utópicos e sedentos”, diz o Tolentino. ¿O que significa isso? Não sei. ¿Alguém sabe? E parece que há vários tipos de Cristianismo: por exemplo, o do ‘Faith’s Night Out’, o do ‘Faith’s Day In’, e a puta-que-pariu.

Sábado, 18 Fevereiro 2017

O Anselmo Borges fala do Silêncio

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 8:20 pm
Tags: , , , ,

1/ Conta-se que o Padre Pio de Pietrelcina recusou a confissão, pelo menos em duas ocasiões e a duas pessoas diferentes. Disse-lhes o Padre: quando estiveres verdadeiramente arrependido, volta cá. ¿Significa isto que o Padre Pio de Pietrelcina desrespeitou essas duas pessoas ou “renegou-lhes a dignidade humana”? Claro que não. Significa apenas que o Padre Pio compreendia perfeitamente as relações causais metafisicas (causa / efeito místicos) e que ele estava “para além” destas.

2/ O Anselmo Borges escreveu:

“O livro e o filme [“Silêncio”, do escritor católico Shusaku Endo] são obras cimeiras, de rara intensidade dramática e comoção, mas não admira que hoje não se perceba essa intensidade, porque, numa sociedade do bem-estar material e numa cultura do provisório e da pós-verdade, não há abertura para as decisivas questões metafísico-religiosas.”

Essa sociedade “do bem-estar material e de uma cultura do provisório e da pós-verdade” é a sociedade defendida pela esquerda, em geral, que o Anselmo Borges apoia. [¿Qual é a diferença básica entre a Esquerda e a Direita?]

3/ não há religiões completas; o catolicismo é a religião mais completa de todas as que analisei. Mas isso não significa que o catolicismo, enquanto religião concreta (religião popular), seja perfeito ou completo.

Se entrarmos pelo esoterismo bíblico adentro, expresso nos Evangelhos (no “Reino De Deus”, segundo Jesus Cristo), percebemos que existem aspectos do Budismo, por exemplo, que são partilhados por esse Cristianismo que só a alguns pode ser dado a conhecer, porque só alguns se dispõem livremente (usando o seu livre-arbítrio, segundo o conceito de Santo Agostinho e de S. Tomás de Aquino) a abrir-se à exegese dos textos do Novo Testamento

[“¿Pregaste aos que estão adormecidos?” E uma resposta veio da cruz: “Sim.” (Pedro, 35-42)] — [“Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará”. (Efésios, 5,14)]

“Sei de um homem, em Cristo, que há 14 anos — ignoro se no corpo, ou fora dele, Deus o sabe — foi arrebatado até ao Terceiro Céu. E sei desse homem — se no corpo ou fora dele, não sei, Deus o sabe — que foi arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras inexprimíveis que não é permitido a um homem divulgar”. → S. Paulo, 2 COR 12, 2-4

“Se alguém tem sede, venha a mim e beba”. → João 7, 37

“Porque não há nada oculto senão para que seja revelado, nem se fez secreto senão para vir à claridade”. → Marcos 4, 22

4/ é óbvio que Deus não existe, no mesmo sentido em que existe uma qualquer coisa no espaço-tempo.

5/ E se lermos as epístolas chamadas de “deuteropaulinas” [Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, 1 e 2 Timóteo, Tito], verificamos que o Cristianismo não tem a “dinâmica democratizante” que o Anselmo Borges reivindica.

6/ Finalmente, o Cristianismo tem uma componente transcendental (dualismo) que as religiões monistas (incluindo o marxismo) não têm; e essa é a maior dificuldade de “inculturação” do catolicismo na Ásia (e entre os socialistas que o Anselmo Borges aprecia).


Tania Mariam

Esta menina de 12 anos chama-se Tania Mariam, vivia no Paquistão e foi assassinada por ser cristã.

¿Viram alguma notícia nos jornais? Claro que não, não só por causa do “Silêncio” de que fala o Anselmo Borges, mas também por causa da espiral do silêncio de que este papa é criminalmente cúmplice.

Segunda-feira, 6 Fevereiro 2017

A estaurofobia de uma putéfia de alto coturno

 

Eu (dantes) fazia a distinção entre “esquerda”, por um lado, e “esquerda radical”, por outro lado; hoje, já não faz sentido essa distinção: “esquerda radical” é redundância. Sempre houve esquerdalho radical; mas hoje ele está plasmado orgulhosa- e diariamente nos me®dia, sem qualquer filtro racional. Vivemos num PREC.

Quando se pergunta ao encarregado de educação de uma criança se pretende que o respectivo educando tenha aulas de religião e moral católicas, acontece muitas vezes (mesmo que seja apenas e só por motivos de tradição) que o encarregado de educação anui ou aquiesce. Ou seja: o encarregado de educação não se opõe.

A Jezabel da imprensa esquerdista (Diário de Notícias) diz que isso é “tornar obrigatória a religião e moral católicas nas escolas públicas”. Para ela, não se aplica o ditado segundo o qual “quem cala consente ou autoriza”: pelo contrário, para a vulgívaga de palacete, “quem cala é obrigado a aceitar”.

O problema aqui é o de saber o que é o “consentimento”, por um lado, e o que é “obrigação”, por outro lado.

É claro que quem não se opõe a que os seus filhos tenham aulas de religião e moral católicas, não é obrigado a que os seus filhos tenham aulas de religião e moral católicas.

Quando nós não nos opomos a qualquer coisa, exercemos (pelo menos) a nossa liberdade negativa. Para a górgona dos me®dia, a Esquerda possui o monopólio da liberdade negativa: toda a gente que não for de Esquerda tem que “sair do armário e passar a vergonha da denúncia pública” da sua liberdade positiva (apontada a dedo).

A Europa está a mudar. Até em Espanha já sinais de Vox Populi. Pode ser que a megera seja “eutanasiada” à força. Nunca se sabe.

Segunda-feira, 30 Janeiro 2017

A estupidez natural do Frei Bento Domingues

 

Quando leio o Frei Bento Domingues fico incomodado: não por qualquer dissonância cognitiva da minha parte, mas porque ele parece ter um sério problema cognitivo. E quando eu leio um burro, fico logo com a mosca.

“Seria, todavia, grave que, por causa das análises inadequadas do autor, não perguntássemos com insistência: o que aconteceu, ao longo dos séculos, para se esquecer, que numa das primeiras comunidades cristãs não havia, entre eles, nenhum indigente (…); distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade? Hoje, o abismo entre ricos e pobres continua escandaloso. Alguns desses ricos e opressores ainda passam por benfeitores. Que enxertos perversos foram feitos na árvore cristã para dar frutos tão maus?”

Frei Bento Domingues

fbd-2-webO Frei Bento Domingues é um caso sério de burrice; se houvesse um doutoramento em burrice, ele seria até Honoris Causa. Ora, diz o burro que nas “primeiras comunidades cristãs não havia, entre eles, nenhum indigente (…); distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade”; e é verdade.

Conforme referi anteriormente,

1/ Os historiadores (Boak, Russell, MacMullen, Wilken) apontam para uma população total de cerca de 60 milhões de pessoas em toda a área do império romano, após a crucificação de Jesus Cristo.

2/ O Cristianismo, então nascente, é considerado um fenómeno sociológico, que passou de 1.000 seguidores (no total) no ano 40 d.C., para 7.500 no ano 100 d.C., 218.000 no ano 200 d.C., e seis milhões no ano 300 d.C..

Isto são factos relativamente documentados (mais coisa, menos coisa).

Quando as comunidades cristãs atingiram as muitas centenas de milhares de pessoas, o comunitarismo de que fala o burro deixou de ser possível, em termos práticos, nas diversas comunidades cristãs no império romano.

Ou seja, o comunitarismo cristão do “tudo em comum”, segundo o burro, só foi praticamente possível enquanto a população cristã total, e em todo o império romano, era apenas de alguns milhares — no século I da nossa Era.

Comparar as comunidades dos cristãos do século I, por um lado, com a realidade do século III, por outro lado e por exemplo, ou com a realidade actual — como faz o asno —, é um sofisma; e só se compreende esse sofisma do Frei Bento Domingues por estupidez natural.

Quarta-feira, 11 Janeiro 2017

O erro protestante do Anselmo Borges

 

O facto de o Anselmo Borges ser católico é um erro de casting: ele deveria assumir o seu protestantismo, e toda a gente ficaria a ganhar.

Os católicos assumem a figura do purgatório — que os protestantes não assumem. Para o Anselmo Borges e para os protestantes, o purgatório não faz parte das contas: as almas vão directamente ao encontro de Deus, ou vice-versa.

Para o Anselmo Borges, Mário Soares foi uma pessoa muito importante na política esquerdista e na democracia, e por isso foi directamente para o Céu (sem passar pela casa da Partida).

É assim que aquela mente desajeitada vê o destino das almas: se fores de esquerda e democrata, vais para o Céu; e fores como o Padre Pio de Pietrelcina, que de democrata tinha pouco e de esquerda nada, vais para o inferno.

Sábado, 24 Dezembro 2016

O Anselmo Borges é um muito optimista

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:37 am
Tags: , , ,

 

politicamente-correcto-grafico-300-webA definição de politicamente correcto: é uma doutrina promovida por uma minoria ilógica e desfasada da realidade (psicótica), e radicalmente propagandeada pelos me®dia sem escrúpulos, que defende o princípio segundo o qual é perfeitamente possível agarrar um cagalhão pela sua parte mais limpa.

Ora, pretender agarrar um cagalhão pela sua parte mais limpa é ser muito optimista.

E o Anselmo Borges, nas suas crónicas no Diário de Notícias, não tem feito outra coisa senão ser muito optimista: tem sido muito optimista em relação à revolução do papa Chiquito, por exemplo; e para poder agarrar o cagalhão pela sua parte asséptica, o Anselmo Borges reinterpreta a realidade de forma heterodoxa: por exemplo, quando diz que Deus quis “ser aquele que está connosco na história da libertação” (¿do capitalismo?!), em vez de ser aquele que disse a Moisés: “Eu sou Aquele que sou” (O “Ser Intemporal”, a “Ordem do Ser que inclui o Não-Ser”).

O Anselmo Borges olha para um pau e vê uma pedra preciosa. É muito optimista. É tudo uma questão de interpretação da realidade; ou “voando sobre um ninho de cucos”. Por exemplo, quando compara Sócrates e S. Paulo:

“(…) de facto, segundo o filósofo grego Sócrates, por exemplo, "ninguém é mau voluntariamente", mas São Paulo queixa-se, porque "faço o mal que não quero e não faço o bem que quero". Portanto, fazer o mal depende só da ignorância ou também, e sobretudo, da vontade má?”

O que Sócrates quis dizer é que ninguém faz o mal pelo prazer de fazer o mal (a não ser que tenha perdido a razão e necessite de ser interditado): mesmo quem faz o mal aos outros, fá-lo para o seu próprio bem — e portanto, há sempre uma faceta positiva no negativo (o não-ser paz parte do Ser: “Eu Sou Aquele Que Sou”).

Assim interpretado correctamente, Sócrates não está em contradição com S. Paulo. Mas o Anselmo Borges, à semelhança do politicamente correcto, especializou-se em encontrar contradições onde elas não existem, para assim convencer toda a gente (através da estimulação contraditória) a pegar na parte mais limpa do cagalhão.

Quarta-feira, 21 Dezembro 2016

Jesus não foi um profeta; Jesus Cristo é o Messias; e não é muçulmano

 

Uma criatura de Deus, que dá pelo nome de FARANAZ KESHAVJEE, escreveu o seguinte:

Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano!”

Ora, segundo o Alcorão, Jesus é igual a Adão — Jesus é uma criatura adâmica.

“Jesus é, diante de Alá, igual a Adão, que criou do pó.” — Alcorão, III, 59

¿E o que nos dizem os Evangelhos do Cristianismo sobre Jesus Cristo?

“Jesus partiu com seus discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe. No caminho, fez aos discípulos esta pergunta: “Quem dizem os homens que Eu sou?” Eles responderam: “João Baptista; outros, Elias; e outros, que és um dos profetas”. “E vós, quem dizeis que eu sou?” — perguntou-lhes.
Pedro tomou a palavra e disse: “Tu és o Messias”. Ordenou-lhes, então, que não dissessem isto a ninguém.”

→ (Marcos, 8, 27 – 30) [Mateus 16, 13 -20; Lucas 9, 18 – 21; João 6, 67-71; Bíblia dos Franciscanos Capuchinhos].

A senhora FARANAZ KESHAVJEE está enganada, ou é mentirosa ( Taqiya ) : Jesus não é um profeta, como dizem eles que foi Maomé: Jesus Cristo é o Messias, e portanto não é igual a Adão (que Deus criou do pó). E não consta que Jesus Cristo fosse pedófilo, ou que defendesse a guerra santa e sanguinária contra os infiéis. Portanto, Jesus não é definitivamente muçulmano.

Sábado, 26 Novembro 2016

Traduzir é interpretar; mas interpretar não é necessariamente uma exegese ou uma hermenêutica

 

O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada escreveu a propósito de uma tradução da Bíblia de um tal Frederico Lourenço:

« Mais grave é, contudo, a sua tentativa de fazer da Bíblia o fundamento escriturístico de uma moral relativista, a opor à doutrina tradicional cristã que, pelo contrário, se baseia na objectividade e universalidade do bem e do mal. Segundo Lourenço, “uma das frases-chave do Novo Testamento” (pág. 360) é a afirmação de Cristo, reportada por João no seu Evangelho: “Eu não julgo ninguém” (Jo 8, 15).

Se se tiver em conta que Jesus Cristo dá a prioridade ao mandamento novo, que desdobra no preceito do amor a Deus e ao próximo, parece algo arbitrária a relevância dada, pelo tradutor, ao princípio por ele erigido em “uma das frases-chave do Novo Testamento”. Será que, deste modo, se pretende fazer crer que a verdadeira religião cristã a ninguém julga, não propõe nenhum credo de verdades reveladas, não compreende um código moral de condutas a realizar ou a evitar?! Se assim for de facto, o tradutor estaria a insinuar que a verdadeira Igreja de Cristo, ao contrário da católica, dever-se-ia abster de qualquer discurso ou atitude condenatória, em prol de uma teoria e prática subjectivista que, na realidade, se poderia reduzir ao moderno slogan “vive e deixa viver”. »

Em primeiro lugar, é irrelevante que o tradutor considere como vãs superstições ou fantasias, as crenças e as convicções dos católicos e cristãos em geral — se essas crenças influenciam a cultura intelectual ou antropológica a ponto de determinarem a orientação da História. A distinção entre a “subjectividade dos crentes”, por um lado, e a “objectividade científica” do tradutor e investigador, por outro lado, está hoje posta de lado, porque a alegada “objectividade do tradutor/investigador”, pretensamente agnóstico e neutro, não é senão outra forma (em outro nível) de subjectividade.

Em segundo lugar: quando se faz uma tradução (e, portanto, uma interpretação) há que ter em conta a diferença entre “transcrição fonémica”, que é a que transmite a percepção própria dos falantes de uma determinada língua, por um lado, e, por outro lado, a “transcrição fonética” que descreve a interpetação de um som, em detalhe, e em termos técnicos e linguísticos que os falantes dessa língua (muitas vezes) nem sequer têm consciência.

Os Antropólogos adoptaram as terminologias “-émica” e – “-ética” para distinguir o conhecimento ou a experiência dos falantes da língua em uma determinada obra a traduzir (a experiência “-émica” dos insiders da cultura antropológica), por um lado, contra conhecimento científico ou tradução de investigadores externos (no caso vertente, o Frederico Lourenço, ou o “-ético” dos outsiders), por outro lado.

Em relação à cultura bíblica (que tem cerca de dois mil anos), Frederico Lourenço é um outsider.

Este facto não constituiria nenhum problema se os leitores da tradução do Lourenço fossem capazes de distinguir entre os dois níveis de interpretação (a “-émica” e a “-ética”) — o que não me parece o caso: a tradução do Lourenço pretende contribuir (na linha ideológica do papa Chiquinho) para minar dois milénios de cultura “-émica” e antropológica da Bíblia.

Terça-feira, 8 Novembro 2016

O Cristiano Ronaldo, o Rolando Almeida, e Nozick

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 12:20 pm
Tags: , , , , ,

O Rolando Almeida escreve aqui:

“Cristiano Ronaldo assinou novo contrato com o Real Madrid, o seu clube. Passa a ganhar cerca de 20 milhões de euros de salário por ano. Será moralmente justo? Deve o Estado intervir e cobrar mais impostos ao vencimento do Ronaldo para equilibrar a redistribuição da riqueza? Se o Ronaldo não é totalmente responsável pelo seu talento (pode ser hereditário) será justo ganhar mais que todos os outros que não podem competir pela lotaria da natureza em igualdade de circunstâncias? Vale a pena aproveitar a ocasião e perder 30 minutos a ver esta aula de Harvard com o professor e filósofo Michael Sandel”.

E depois segue o vídeo.


Ora bem. Michael Sandel é um comunitarista (não confundir com “comunista”), tal como, por exemplo, MacIntyre. Portanto, Sandel tem uma posição publicada contra Nozick e contra o libertarianismo. Mas, por outro lado, Sandel (como todos os comunitaristas, por exemplo, Alasdair MacIntyre, Charles Taylor, e até Michael Michael Walzer) também é crítico do utilitarismo nas suas diversas manifestações, incluindo John Rawls. O vídeo não apresenta a opinião de Sandel.

O libertarianismo parte do princípio do “I Own Myself” (“eu sou proprietário de mim próprio”); o princípio está errado, e por isso a teoria consequente está errada.

Eu só seria proprietário de mim próprio se eu fosse o criador (existencial) de mim mesmo; e mesmo que eu fosse o criador de mim próprio, a criação é limitação (o criador limita aquilo que é criado); porque a criação é transformar qualquer coisa em alguma coisa.

Mas o facto de eu não ser o proprietário de mim próprio não significa que eu seja propriedade de outro ser humano ou do Estado. Nem significa que o Estado possa alegar a “defesa da minha liberdade” tornando-me propriedade dele.

A única forma de ultrapassar este problema é pensar como Montesquieu: “Se Deus não existisse, teria que ser inventado” — porque a partir do momento em que Deus não exista, o Estado passa a ser o deus que é nosso proprietário (Rolando Almeida); ou então, na ausência de Deus, passamos conceber-nos a nós próprios como “proprietários de nós mesmos”, como pensam os libertários e Nozick.

A partir do momento em que o conceito de “propriedade” passa ter um cariz metafísico, torna-se mais fácil estabelecer o equilíbrio de interesses entre aquilo que é direito de propriedade do Cristiano Ronaldo, por um lado, e aquilo que é o direito de propriedade do Estado e da sociedade em geral, por outro lado.

Quinta-feira, 3 Novembro 2016

Lutero afastou-se dos Mistérios Cristãos

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 5:59 pm
Tags: , , , ,

 

Podemos ver nas epístolas de S. Paulo — por exemplo, 1 Tess 5, 23 — uma referência à iniciação mística da Antiga Aliança (Antigo Testamento) através dos conceitos de corpo (sôma) e de alma (psychê).

Mas S. Paulo (na esteira das instruções deixadas por Jesus Cristo) e os apóstolos acrescentaram, a estes dois conceitos, os conceitos de Nous (mente superior) e pneûma (espírito), ou seja, S. Paulo traduziu em linguagem corrente (tanto quanto possível) os Mistérios Cristãos, mais elevados do que os anteriores Mistérios, e análogos para ambos os sexos e para todas as castas e raças — o intelecto superior (Nous) e o espírito (pneûma) são idênticos tanto para o homem como para a mulher, embora os respectivos corpos (sôma) seja polarmente diferentes, assim como as respectivas almas (psychê).

Por isso é que, nos mistérios antigos (anteriores aos Mistérios Cristãos, sejam pagãos ou judaicos), as iniciações eram diferenciadas de acordo com os sexos, as funções, as castas; porque implicavam apenas o sôma e a psychê — ao passo que a iniciação dos Mistérios Cristãos, que envolve o Nous e o pneûma (para além do sôma e da psychê) não exclui ninguém que deseje preparar-se para a receber.

Porém, segundo S. Paulo, a iniciação nos Mistérios Cristãos difere da gnose, por um lado, e do hermetismo, por outro lado, porque se baseia no conceito de “Graça”. Lutero afastou-se dos Mistérios Cristãos quando separou a fé, por um lado, da acção humana, por outro lado; mas Lutero não chegou ao ponto absurdo da predestinação calvinista que surgiu depois (esta sim!, de total orientação gnóstica).


A ideia segundo a qual Lutero foi o “fundador da gnose” (que o Pedro Arroja cita) é patética. E a ideia de que “a maçonaria foi buscar a sua filosofia a Espinoza e a Locke”, é um simplismo.

Dos movimentos protestantes, alguns tiveram forte influência gnóstica (por exemplo, o Calvinismo, que deu origem, mais tarde, aos puritanos iconoclastas ingleses e holandeses), mas já não podemos dizer o mesmo do luteranismo.

A maçonaria (em geral) sofre influência do hermetismo (e não do gnosticismo) que, à semelhança da ortodoxia católica, admite que a razão humana pode, de certo modo, alcançar Deus.

O Deus hermético é mais pessoal e menos abstracto do que o Deus gnóstico (que se distingue do demiurgo gnóstico): o Deus hermético (o “Grande Arquitecto” da maçonaria) “é o Pai de todas as coisas, criou o ser humano à sua própria semelhança e amou-o como seu próprio filho” (Poimandres, C.H. I,1).

Não significa isto que algumas correntes maçónicas — por exemplo, as lojas maçónicas irregulares, como o GOL (Grande Oriente Lusitano) — tivessem optado pela “religião natural” que esteve na base do deísmo que alimentou a revolução francesa e a americana. Mas a esmagadora maioria das correntes maçónicas baseia-se no hermetismo, e não no gnosticismo. Mas os mistérios maçónicos ou herméticos (iniciação maçonica) são uma regressão espiritual em relação aos Mistérios Cristãos.

Domingo, 9 Outubro 2016

O Anselmo Borges tenta conciliar o Islamismo com o Estado de Direito democrático

 

tintoretto
Os atropelos à separação entre a Igreja Católica e o Estado aconteceram na Europa também por interesse da classe política laica; mas a Igreja Católica nunca aceitou de ânimo leve ser instrumentalizada pela classe política, ao contrário do que aconteceu com o protestantismo luterano que se transformou em um mero instrumento político da acção do Estado.

Em um verbete posterior, abordarei (se Deus quiser) a dialéctica entre o catolicismo e a liberdade política.


“Não tenho dúvidas: milhões e milhões de muçulmanos fizeram e fazem uma experiência religiosa autêntica com o Deus Clemente e Compassivo, como diz o Alcorão, e a maior parte são pessoas que querem a paz”.

Anselmo Borges

É evidente que o Alá do Alcorão não é aquilo que o Anselmo Borges diz. Basta que se leia o Alcorão para que se verifique a inverdade do Anselmo Borges. Além disso, eu também não tenho dúvidas de que milhões e milhões de alemães — senão mesmo a maioria deles — não queriam eliminar milhões de judeus nos campos de concentração, mas a ideologia está acima das boas intenções (não sei se me faço entender).

Confrontado com a oposição entre a política, por um lado, e a verdade, por outro lado, o Anselmo Borges resolveu tentar conciliar as duas coisas — por exemplo, quando diz que “historicamente o Islão tenha conhecido etapas de maior tolerância do que a demonstrada pelas sociedades cristãs da altura (por exemplo, na época medieval)”; o que é falso, porque a “tolerância islâmica”, quando existiu por exemplo na Alta Idade Média, dependeu sempre do pagamento da Jizya (o imposto dos cafres ou infiéis): ora, se isto é tolerância religiosa, “vou ali e já volto”.

Se tens que pagar um imposto por não seres muçulmano, ¿que merda de “tolerância” é essa?

Continua o Anselmo Borges :

“É preciso reconhecer que centenas de milhões de muçulmanos à volta do mundo "querem que o Islão desempenhe um papel importante na vida pública". Pode-se gostar ou não, mas, se realmente o Islão vai desempenhar nas próximas décadas um papel central na política, também no Ocidente, "então o objectivo não deveria ser empurrá-lo para fora ou excluir as pessoas, mas encontrar maneiras de adaptá-lo num processo legal, pacífico e democrático". Tarefa urgente e ingente, sobretudo num Ocidente que não é só laico, mas laicista e, para lá de secularizado, secularista, materialista”.

Na sua absurda tentativa de conciliar a política com a verdade, o Anselmo Borges mente — porque não há qualquer possibilidade de adaptar o Islamismo ao princípio de um Estado democrático de Direito, porque o Islão tem o seu próprio princípio de Direito que é a Sharia. Só é possível que a comunidade islâmica em um país ocidental obedeça à lei do Estado laico se for uma pequena minoria: a partir do momento em que a percentagem de muçulmanos ultrapasse os 10% do total da população de um país europeu, acontece o que se chama a singularidade islâmica.


1/ Aquilo que é hoje apanágio da chamada “extrema-direita”, ou seja, a limitação de imigração islâmica, terá que passar a fazer parte dos partidos do chamado “centro político” — uma vez que a esquerda radical, como por exemplo o Bloco de Esquerda e uma parte do Partido Socialista praticam uma política de terra queimada que se vira contra o Estado de Direito democrático.

2/ Por outro lado, e ao contrário do que defendem os partidos radicais laicistas ditos da “extrema-direita” (como por exemplo, a Front National de Marine Le Pen, ou o partido do holandês Geert Wilders), o Cristianismo deve ser privilegiado na sociedade europeia, e até promovido pelo Estado nas escolas primárias.

Página seguinte »

Create a free website or blog at WordPress.com.