perspectivas

Quinta-feira, 13 Agosto 2015

A Esquerda, e a ordem da desordem (2)

 

No seguimento do verbete anterior acerca de um artigo do José António Saraiva, temos o fenómeno da proliferação das tatuagens como exemplo da contradição da contemporaneidade marcada pela Esquerda dita “libertária”. A tatuagem é simultaneamente um mimetismo (uma moda) e a negação do mimetismo (a negação da moda). O problema é que, por natureza, uma coisa ou um facto não podem ser e não-ser ao mesmo tempo.

tatooQue a tatuagem é uma moda (um mimetismo), qualquer pessoa pode verificar. A negação do mimetismo radica na especificidade da tatuagem (as características da tatuagem que se querem únicas) com que se pretende marcar o indivíduo como único e irrepetível.

A singularidade do ser humano — da pessoa — é um legado da cultura cristã. Segundo a cultura cristã (e estóica), a pessoa é única e irrepetível. Mas enquanto o Cristianismo esteve fortemente presente na cultura antropológica, não era necessário ao individuo afirmar veemente- e exteriormente a sua singularidade: fazia parte da cultura a assunção cultural, espiritual e interiorizada dessa singularidade; esta estava implícita na cultura antropológica. Não passava pela cabeça de um cidadão, apenas há 30 anos, colocar em causa o princípio da singularidade da sua pessoa à luz dos princípios cristãos.

Paradoxalmente, com a subjectivização jurídica e cultural do “indivíduo” (a sobreposição e o domínio do Direito Positivo em relação à cultura antropológica e à tradição), a singularidade do indivíduo é colocada em causa porque deixou de existir o esteio (a base) cultural da tradição cristã da singularidade da pessoa (do ser humano). Aquilo que estava implícito na cultura antropológica marcada pelo Cristianismo (a singularidade do ser humano), deixou de estar em função do desvanecimento da cultura cristã.

À medida em que a sociedade se atomiza (o indivíduo é transformado em um átomo, desligado do Todo social, por força da arbitrariedade política de Esquerda que determina o Direito Positivo), acentuando o individualismo egocêntrico (porque existe um tipo de individualismo saudável, ligado ao Todo social e marcado exactamente pela cultura cristã), os valores da singularidade da pessoa deixam de ser espirituais e passaram a necessitar de uma afirmação física, exteriorizada e chã. Aquilo que era interior ao indivíduo (a afirmação espiritual e simbólica da singularidade da pessoa) passou a ser-lhe exterior (a necessidade de sinais físicos e exteriores para a afirmação dessa singularidade).

Os símbolos — que são característicos humanos — foram (com a tatuagem, mas não só) substituídos por um tipo de sinalética que é comum ao mundo animal. A tatuagem é menos um símbolo do que um sinal; é um sinal contemporâneo e pós-cristão da afirmação da singularidade da pessoa. Um símbolo não se muda sem que se mude o que ele representa (o seu significado); um sinal pode ser alterado arbitrariamente e mantendo-se o seu significado — e o significado da tatuagem é a afirmação exterior (e não necessariamente interior e espiritual) da singularidade da pessoa que a usa. Neste sentido, a tatuagem é um sinal (como os animais irracionais também têm os seus sinais) e não um símbolo: o símbolo carece de uma experiência espiritual que caracteriza a pessoa.

É neste sentido que a tatuagem é simultaneamente um mimetismo e a negação do mimetismo. É simultaneamente um mimetismo da espécie (da sociedade) e o distanciamento do indivíduo em relação à espécie. Na sociedade cristã também podemos falar de um mimetismo da singularidade humana, mas tratava-se de um mimetismo espiritual e de valores que não necessitava de uma exteriorização urgente e ostensiva.

Segunda-feira, 15 Junho 2015

O misticismo no Cristianismo

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 7:15 am
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Analisemos a seguinte proposição:

The Christian of tomorrow will be a mystic, or not a Christian at all.”

(“O cristão do futuro será um místico, ou então não será cristão”)


Antes de mais temos que saber o que significa “místico”, ou misticismo.

mestre-eckhartDepois de definirmos misticismo, constatamos que a proposição supracitada é falsa, porque o misticismo é um fenómeno subjectivo que surge da religião que é, por definição, intersubjectiva. Reduzir a religião à subjectividade é negar o próprio conceito de religião. Dizer que que religião cristã se confinará ao misticismo é afirmar o fim da própria religião cristã.

Seja por exemplo o misticismo budista — aquele que é praticado ou experimentado nos conventos do Tibete. Esse misticismo não sobreviveria sem a religião popular budista (a religião do povo), que tem dogmas, divindades, santos e ritos como outra religião qualquer. Basta o exemplo budista para verificarmos que a asserção em epígrafe é falsa.

Por fim, a história do misticismo na cristandade demonstra uma clara tendência para o panteísmo — ou seja, a preferência pela imanência e pelo monismo, em detrimento da transcendência que caracteriza a doutrina do catolicismo desde a Antiguidade Tardia.

Domingo, 5 Abril 2015

Existe uma diferença fundamental

Filed under: cultura — O. Braga @ 6:13 pm
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“A assistência a um debate sobre o Alqueva organizado pela Caritas de Beja ficou perplexa por ouvir o bispo da Diocese, D. Vitalino Dantas (originário do Minho), defender políticas sociais semelhantes às do PCP – segundo li no Público.”

Bispo de Beja com políticas sociais do PCP

O cristão diz: “O que é meu, é teu.” O comunista diz: “O que é teu, é meu.”

É esta a real diferença.

O cristão dá porque quer dar; o comunista tira porque quer tirar. Uma coisa é dar, e outra coisa é tirar. Não podemos confundir os dois verbos.


Mas consigo concordar com um facto: o capitalismo perdeu as suas raízes na cultura antropológica.

Dou um exemplo do jornal Púbico: o capitalista Belmiro de Azevedo, em vez de sustentar um pasquim infestado de esquerdistas e com prejuízo financeiro, poderia utilizar esse dinheiro para obras de caridade. Teria prejuízo de qualquer maneira, mas ao menos seria útil à sociedade.

Não é demais recordar que o capitalismo teve a sua origem no Cristianismo calvinista. Foi essa cultura que se perdeu. Com o Calvinismo, “o trabalho tornou-se em um dever sagrado, e o êxito nos negócios uma prova evidente do favor de Deus e, segundo os conceitos do Antigo Testamento, um sinal da Sua predilecção. Pela ética calvinista se modelou o espírito da nascente burguesia capitalista: o espírito activo, continuamente dirigido para o êxito.” 1

O capitalismo primordial calvinista não fazia do dinheiro um fim em si mesmo: o dinheiro era apenas um meio para se atingir um fim último: merecer a escolha de Deus através do trabalho árduo. O neoliberalismo, pelo contrário, transformou o dinheiro em um fim em si mesmo, e entregou Deus nas mãos do clero esquerdista actual.

Nota
1. “História da Filosofia” de Nicola Abbagnano, volume V, § 370

Integrismo laico

 

A empresa do Metro de Paris proibiu a publicidade de um evento musical (ver em baixo) a favor das vítimas cristãs do Estado Islâmico no Oriente. Trata-se de uma ideologia política radical: o integrismo laico.

integrismo laico

É este tipo de integrismo laico que teremos em Portugal se António Costa for eleito primeiro-ministro, com o apoio de integristas laicos da Esquerda radical e de personagens da Não-esquerda como, por exemplo, José Pacheco Pereira.

A empresa do Metro de Paris diz que proibiu o painel publicitário porque não toma partido em um conflito religioso — como se a população civil cristã do Próximo Oriente tivesse pegado em armas contra o Estado Islâmico, e não se tratasse de um genocídio.

Domingo, 8 Fevereiro 2015

Theodore Dalrymple, Tocqueville e o Islão na Europa

 

Theodore Dalrymple ( aliás, Anthony Daniels) é um agnóstico que merece ser lido — coisa rara. Vale a pena ler este artigo dele acerca do romance “Submissão” de Michel Houellebecq.

A referência de Theodore Dalrymple à  Igreja Católica do “papa Francisco” é notória:

“but Catholicism having lost its faith and becoming, under Pope Francis, little more than transcendental social work to the hosannas of the right-thinking, there is no living faith in France except Islam for him to convert to. It is Islam, faute de mieux.”

Bingo!

O texto de Theodore Dalrymple faz lembrar um trecho do livro “Democracia na América” de Tocqueville, mas desta vez aplicado à  Europa e em um cenário incomparavelmente mais negro. Como escreveu Mark Steyn: “Europe is doomed!”.

Tocqueville constatou os perigos da democracia: por um lado a mentalidade individualista que paradoxalmente encoraja um conformismo generalizado; por outro  lado, a democracia apela à  centralização e reforço do Estado. Contra factos não há argumentos.

A democracia conduz à  atomização da sociedade se não existirem “contrapesos” no liberalismo político: a liberdade de associação, a imprensa livre, e a religião cristã. Sem estes três contrapesos, a democracia tem os seus dias contados. Tocqueville foi profeta.

Theodore Dalrymple segue a linha de pensamento de Tocqueville mas aplicando-a à  Europa actual: o vazio da existência humana em uma sociedade de consumo sem fé religiosa, sem projecto político (o centrão político acomodado que se alterna no Poder sem se diferenciar), e sem uma ténue garantia de continuidade cultural (invasão muçulmana), sociedade essa em que — graças à  abundância material e ao Estado Social — não existe uma razão real para lutar por um sentido de vida.

Paradoxalmente, o jornal Charlie Hebdo alegadamente representa (também) a liberdade de imprensa — um dos “contrapesos” de Tocqueville — mas representa também a crítica radical a qualquer religião incluindo a religião cristã — sendo que a religião cristã é um dos contrapesos do liberalismo político, segundo Tocqueville. Ou seja, os alicerces da democracia na Europa estão já em conflito uns com os outros.

Theodore Dalrymple escreve que o Iluminismo está na raiz do falhanço europeu actual. Tendo afastado da vida humana o mito e a magia, acabou por esmagar a fé — não só a fé  e a esperança religiosas, mas também a fé e a esperança na própria sociedade. A bravura e o entusiasmo, características da fé, deram lugar ao conforto e à conveniência (utilitarismo), e a degeneração e decadência da Europa são os resultados inevitáveis.

Theodore Dalrymple conclui que a Europa está doente, mas o Islão não cura a doença: pelo contrário, piora o estado de saúde da Europa.

Eu acrescento que a Front Nationale de Marine Le Pen em França não é solução porque o seu laicismo trata o Islão e a cristandade da mesma maneira; nem o UKIP (United Kingdom Independent Party) é solução para o Reino Unido pelas mesmas razões.

Ou seja, a Europa está doente mas nega o diagnóstico: está em estado de negação. Não aceita as razões objectivas para mudar de vida e curar-se. E a Igreja Católica do “papa Francisco” faz o papel do Pai de Santo do Umbanda que receita umas mezinhas para tratar uma metástase. 

Quinta-feira, 25 Dezembro 2014

Maçonaria: dividir para proibir em nome da “liberdade” e da “igualdade”

Filed under: Europa,Maçonaria — O. Braga @ 12:00 pm
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“El tradicional árbol de Navidad que engalana miles de ciudades de Europa está en cuestión en distintos puntos del viejo continente. El motivo sería la ofensa a las creencias de los musulmanes por lo que en varias ciudades o están siendo retirados o cambiados por otra serie de objetos que no molesten a los seguidores de Mahoma.

Esta situación comienza a ser especialmente grave en países históricos de la Unión Europea como Dinamarca y Bélgica, que actualmente tienen tasas de inmigración de origen musulmán bastante importantes.”

Ciudades europeas retiran el tradicional árbol de Navidad por temor al islam

gare-de-MetzPrimeiro, o sistema político — coordenado pela maçonaria — incentivou a imigração muçulmana em massa; depois, serviu-se do pretexto de existirem muitos muçulmanos na Europa para retirarem direitos aos cristãos autóctones e às tradições e cultura locais.

Isto foi feito de propósito. Trata-se da agenda política maçónica europeia, aliada tacitamente à Esquerda radical, que engendrou o multiculturalismo que proíbe a manifestação pública da tradição cristã.

Esta agenda política é maquiavélica e tenebrosa: serve-se do pretexto dos “direitos” de uns para tirar direitos a todos.

Em nome da “igualdade”, toda a gente fica sem direito à expressão pública da sua cultura  e da sua religião — com excepção da maçonaria cuja cultura consiste exactamente na manifestação pública da oposição às tradições religiosas e culturais da Europa.

Porém, e como acontece quase sempre na História, o feitiço vira-se contra o feiticeiro.

Uma sociedade com uma grande percentagem de muçulmanos não é tão fácil de controlar quando comparada com uma sociedade cristã.

A maçonaria europeia arranjou um problema de todo o tamanho — mas é preciso que afirmemos, de forma clara e inequívoca, que os principais culpados não são os muçulmanos imigrantes — porque estes apenas seguem a natureza do Islão que é um princípio de ordem política —, mas antes os principais culpados são os membros da maçonaria europeia aliados à  esquerda radical. São com estes últimos que teremos que ajustar contas.

Segunda-feira, 24 Novembro 2014

O materialismo do Frei Bento Domingues

 

BD Que rei é esteO povo diz que não há ninguém mais agarrado ao dinheiro do que um esquerdista; entre um comuna e o dinheiro existe uma relação de amor / ódio: o amor pelo desejo de o ter e o ódio por o não ter.

A interpretação que o Frei Bento Domingues faz da parábola dos talentos é própria de uma pessoa que tem com o dinheiro uma relação de amor / ódio; parece que o frade gnóstico não percebeu a parábola. Aliás, o Frei Bento Domingues é um erro de casting em pessoa: utilizar Jesus Cristo para fazer política mundana, não lembra ao diabo!

Eu não vou aqui explicar a parábola dos talentos; deixo aos leitores o exercício de inteligência que o frade recusa.

“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” — Jesus Cristo

Diz o frade, citando S. Lucas, que “não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”. E é verdade.

Mas há duas formas de servir o Dinheiro: aquela daquele que o serve de forma explícita, e aquela daquele que implicitamente transforma Deus em um instrumento de combate ao dinheiro. Nos dois casos, é o dinheiro que está em equação — e não Deus. O Frei Bento Domingues insere-se nesta segunda categoria. Deus é assim transformado em um meio de luta política, e não um fim em si mesmo. O Frei Bento Domingues dá a César o que é de Deus, e a Deus o que é de César.

“ É inevitável que haja escândalos, mas ai daquele que os causa!” — (S. Lucas, 17, 1).

Domingo, 12 Outubro 2014

A Nova Teologia marcou e definiu a Teologia da Libertação

 

O Padre Paulo Ricardo escreve aqui sobre a Teologia da Libertação, mas não se referiu ao papel fundamental exercido pelo Existencialismo (Heidegger) e pela Nova Teologia: Bonhoeffer, Karl Bach, Rudolfo Bultmann, etc.. 1

O assunto é complexo, mas foi por aqui que se iniciou a Teologia da Libertação — não na América Latina onde chegou anos mais tarde com a assimilação do marxismo proveniente da revolução cubana, mas no concílio do Vaticano II com aquilo a que se chamou de “protestantização da Igreja Católica”.

Os três homens que citei acima fizeram pior ao Cristianismo em geral, e ao catolicismo em particular, do que todos os marxistas juntos de todos os tempos; e as suas ideias marcaram o Concílio do Vaticano II.

E quando ouvimos o cardeal Bergoglio — aka Francisco I — falar, apercebemo-nos que embora ele rejeite a vertente marxista da Teologia da Libertação, não enjeita a vertente da Nova Teologia que também enformou a Teologia da Libertação no seu início e ainda hoje.

A Teologia da Libertação não é apenas um fenómeno sócio-cultural da América do Sul! Começou na Europa, embora com outro nome: a Nova Teologia.

O que eu pretendo dizer é o seguinte: a influência marxista na Teologia da Libertação surgiu marcadamente na década de 1960, ao passo que a origem ideológica da Teologia da Libertação reside na Nova Teologia que já vem de antes da II Guerra Mundial. A incorporação do marxismo na Teologia da Libertação é apenas uma das duas interpretações possíveis dessa corrente ideológica. Por exemplo, não podemos afirmar com certeza que o Frei Bento Domingues seja marxista, mas podemos dizer acertadamente que ele é um prosélito ou herdeiro ideológico de Bonhoeffer.

Nota
1. Sobre este tema ler o §864 da História da Filosofia de Nicola Abbagnano.

Sexta-feira, 15 Agosto 2014

O Anti-Cristo chegou

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 3:22 pm
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Sexta-feira, 8 Agosto 2014

O homem moderno chama “Acaso” a Deus

Filed under: Ciência,filosofia,Quântica — O. Braga @ 9:58 pm
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“A investigação da Física provou claramente que, pelo menos para a esmagadora maioria do desenrolar dos fenómenos cuja regularidade e constância levaram à formulação do postulado da causalidade universal, a raiz comum da rigorosa regularidade observada é o acaso.”

→ Erwin Schrödingen, Nobel da Física, durante uma lição inaugural na Universidade de Zurique em 1922 1

Ou seja, segundo Schrödinger, os processos que são orientados por leis da natureza surgem de estados que, anteriormente, não estavam sujeitos a regras e eram aleatórios. No referido livro 1 de Manfred Eigen e Ruthild Winkler podemos ler na página 35:

“Designamos como microcosmos o mundo das partículas elementares, dos átomos e das moléculas. Os processos físicos elementares ocorrem todos neste mundo 2. O Acaso tem a sua origem na indeterminação destas ocorrências elementares.”

A regularidade das leis da natureza não é desrespeitada quando Deus intervém no macrocosmos ou no mundo humano/universo. Quando Deus quer intervir num processo natural, fá-lo através do microcosmos e sem perturbar as expectativas de regularidade das leis da natureza. E a própria intervenção de Deus no nosso mundo através do microcosmos surge-nos conforme o princípio da causalidade.

Notas
1. citado por Manfred Eigen e Ruthild Winkler no livro “The Laws of the Game: How The Principles of Nature Govern Chance”, 1987, p. 15
2. mundo do microcosmos

Segunda-feira, 21 Julho 2014

O Talmude e os monoteísmos

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:23 pm
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Ao contrário do que está escrito na Wikipédia tupiniquim, o Mishnah judaico não pertence ao Talmude: O Mishnah, o Midrash e o Talmude são escrituras judaicas distintas entre si.

Um dos “problemas” da Cabala (de origem judaica) é o de se ter afastado radicalmente das fontes das escrituras judaicas Mishnah, Midrash — e principalmente do Talmude: seja o segundo Talmude (alterado e acrescentado a partir do primeiro Talmude) que surgiu depois da destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C, seja um Talmude mais antigo que já existia escrito muitos séculos antes do tempo de Jesus Cristo. Vamos chamar a este Talmude mais antigo “primeiro Talmude”.

Na sua educação, e na sua condição de judeu que o era, Jesus Cristo aprendeu desse primeiro Talmude na sua educação enquanto criança.

¿Qual é a súmula ideológica do primeiro Talmude?

Acima foi referido que a Cabala se afastou radicalmente do primeiro Talmude; e por uma principal razão: a Cabala introduziu uma visão religiosa monista no Judaísmo.

No monismo (e também no henoteísmo), o princípio da Unidade (o Uno), é diametralmente diferente do conceito de Unidade do monoteísmo.

No monismo, as formas concretas do divino são plurais, mas o divino-geral — que lhe está subjacente — é Uno. Porém, este divino-geral monista não existe no monoteísmo (neste caso concreto, no Judaísmo). No monoteísmo só existe o divino concreto.

Ou, por outras palavras: o Javé concreto, a “pessoa única” de Javé, possui uma validade universal. Ou, talvez melhor ainda: os monismos chegam à Unidade através da relativização do particular; e os monoteísmos chegam à Unidade através da absolutização e universalização do particular.

Ora, o primeiro Talmude, que é uma escritura base do Judaísmo de depois do exílio, é o suporte ideológico e teórico do monoteísmo judaico. Por isso, de uma forma directa ou indirecta, tanto o Cristianismo como o Islamismo foram beber alguns dos seus fundamentos ao primeiro Talmude.

Conclusão: 1/ O Talmude é antítese da Cabala. O primeiro é a defesa do monoteísmo, ao passo que a Cabala introduz uma mundividência monista no Judaísmo. 2/ Tanto o Cristianismo como o Islamismo, sendo religiões monoteístas, têm alguma base ou fundamento no primeiro Talmude.

Quinta-feira, 22 Maio 2014

O politicamente correcto já é uma forma de populismo

 

O cardeal patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, compreendeu (como aliás muitos sacerdotes já compreenderam através da experiência) que a comunidade cristã é hoje aquela comunidade minoritária que parte à conquista da maioria através do exemplo de vida, como aconteceu um pouco assim nos primórdios do Cristianismo. Mas não tenho dúvidas de que essa minoria cristã vai ser politicamente perseguida — aliás, já está a ser perseguida na União Europeia — por uma sociedade culturalmente induzida por uma elite (política, mas não só) moralmente corrupta e que não olha aos meios para atingir os seus fins políticos demagógicos. O politicamente correcto já é uma forma de populismo.

Porém, há a tendência para se afirmar que “a maioria é hoje pagã” — o que é um erro. A maioria é hoje uma massa amorfa que não pode ser comparada com o paganismo da Antiguidade Tardia. O paganismo tinha uma estrutura religiosa; é certo que era imanente e filosoficamente menos elaborada do que o Cristianismo, mas tinha essa estrutura religiosa. Por exemplo, se lermos sobre a polémica de Santo Agostinho contra o neoplatónico Celso (que era pagão), verificamos, por parte deste último, uma argumentação religiosa e soteriológica que o amorfismo cultural actual, nem por sombras, possui 1.

Hoje já não existe cultura propriamente dita: existe um amorfismo cultural que é a negação da própria noção de cultura. É como se a cultura consistisse na negação de si própria, evoluindo em uma espiral de recusa cultural até a um estado em que a negação do racional se transforma em uma concepção do mundo; o irracional passa a ser venerado em nome da razão!. Isto nada tem a ver com o paganismo: é um fenómeno completamente novo, e tem mais analogias com as ideologias dos totalitarismos modernos do que com o paganismo da Antiguidade Tardia. O amorfismo cultural actual tem muito mais a ver com a ética do homossexual David Hume do que com a ética do pagão Celso.

Por outro lado, este artigo fala do conceito grego de “telos” que deu origem à noção de “teleologia”, que consiste no discurso sobre a finalidade das coisas e dos seres entendidos nas suas diferenças ontológicas. É bom sublinhar isto: seres entendidos nas suas diferenças ontológicas. O ser humano tem a sua especificidade natural, e o seu fim (a sua finalidade ontológica) consiste em potenciar as virtudes humanas de acordo com as características de cada indivíduo enquanto inserido na classificação da espécie humana.

Pan-paniscus-bonoboEntre um ser humano e um animal irracional, podemos eventualmente fazer analogias, mas não podemos fazer comparações (como faz a sociobiologia) — porque o “telos” dos dois tipos de seres é diferente.

Por isso não é racional que apelemos à Natureza (falácia do apelo à natureza) para tentar justificar o comportamento humano de acordo com o comportamento de outro animal qualquer, porque o “telos” de um ser humano, por um lado, e de um bonobo, por outro lado e por exemplo, não é idêntico e nem sequer semelhante. O fim (ou seja, a finalidade da sua existência) do ser humano é diferente da finalidade da existência de um bonobo, e a comparação ontológica entre um ser humano e um bonobo é característica da irracionalidade do amorfismo cultural actual marcado pelo cientismo que, no fundo, é uma forma de negação da ciência propriamente dita.

Aquilo que, em um animal irracional, deve ser compreendido no contexto da sua irracionalidade, não serve para tentar justificar o comportamento irracional no homem como sendo razoável — porque estamos a comparar coisas que, à partida, não são racionalmente comparáveis. Ora, o amorfismo cultural actual, imposto através dos me®dia pelas elites corrompidas, não só compara o que não é comparável, como até tende a reduzir o cidadão à condição de um ser irracional. Esta tentativa actual de irracionalização do ser humano só teve paralelo nos totalitarismos do século XX (Hitlerismo e Estalinismo), e por isso podemos inferir que existe uma agenda política esconsa que pretende formatar uma nova forma de totalitarismo de que ainda não temos uma noção clara (conteúdo), embora já possamos pressentir hoje os seus contornos (forma).

Nota
1. Sócrates, Platão e Aristóteles, entre outros, eram pagãos e críticos do comportamento dos sodomitas. “Paganismo” não significava necessariamente “relativismo moral”.

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