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Sexta-feira, 8 Abril 2016

A França acaba de penalizar os homens que procuram prostitutas

Filed under: Política — O. Braga @ 12:24 pm
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A França acaba de penalizar os homens que procuram prostitutas, aplicando-lhes multas de 1500 Euros, ao mesmo tempo que descriminaliza a actividade da prostituta. O seja, a Esquerda francesa que aprovou a lei, segue os exemplos da Suécia e da Noruega.

O problema da prostituição é muito difícil do ponto de vista ético. Em minha opinião, é mais difícil do que os problemas do aborto ou da eutanásia. E é difícil porque a prostituição está ligada às naturezas fundamentais e diferentes do homem e da mulher, naquilo que é do domínio do puro instinto.

pronstituta-vintageÉ certo que o ser humano deve ser um fim em si mesmo, e não um meio para um qualquer fim (aqui concordo com Kant que apenas foi buscar ao Cristianismo a noção de imperativo categórico). Por isso, a prostituição não é defensável do ponto de vista ético. A minha dúvida é que seja possível erradicar a prostituição por via da norma jurídica — porque a única forma de contrariar o império do dinheiro é fortalecendo a lei da honra, e isto não vai lá com leis que caducam quando a força bruta do Estado acaba.

Mas se a nova esquerda puritana quisesse ser coerente, teria que penalizar o homem que procura a prostituta mas também a prostituta, embora, admita eu, que em graus diferentes. Penalizar apenas o homem revela o enviesamento esquerdista contra o sexo masculino — sendo que o problema ético da prostituição diz respeito aos dois sexos.

A menorização moral da mulher conduz a um beco sem saída.

Esta lei francesa apenas vai conduzir a uma maior clandestinidade da prostituição, em que apenas uma classe rica de homens terá acesso às prostitutas; irá conduzir a uma prostituição exclusiva para as elites económicas e financeiras. E por isso é uma lei hipócrita, como são hipócritas a maioria das leis de Esquerda na área da moral e dos costumes.

Penso que não será possível, nunca, erradicar a prostituição; mas é possível minimizar o seu impacto na sociedade, através de uma melhor educação ética e cívica que passa inexoravelmente pelo fim da neutralidade do Estado em relação à religião.

Domingo, 3 Abril 2016

O Padre Portocarrero de Almada “fuzila” o João Semedo

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 1:28 pm
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“A defesa da eufemisticamente chamada ‘morte assistida’ é, na realidade, uma proposta que pretende a substituição de uma ética personalista e de uma ordem jurídica humanista, baseada no valor supremo da vida, por uma prática de exaltação da liberdade individual que, no seu limite, atenta contra a vida e a dignidade humana.

A eutanásia não é um direito de ninguém, mas a violação do gravíssimo e universal dever fundamental de respeito pela vida humana inocente, que a todos obriga, sem excepção do próprio. A vida de qualquer ser humano – são ou doente, velho ou novo – é digníssima e irrenunciável, desde o instante da concepção e até ao momento da morte natural”.

Eutanásia, liberdade e dignidade humana

Sexta-feira, 1 Abril 2016

Eutanásia na saúde [Norberto Canha]

Filed under: Política — O. Braga @ 9:45 pm
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(Artigo do Professor Doutor Norberto Canha, catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, publicado no Diário das Beiras)

eutanasia-cadeiras
Pobres velhos! Aproxima-se a legislação que permitirá interromper a vida, não só aos velhos como aos imprestáveis.

A princípio destina-se a situações específicas, bem fundamentadas, depois, o leque estende-se e englobará até os legisladores.

Nós classificamos em três graus os idosos, os inválidos ou os deficientes.

Grau 1 – sem qualquer dependência para as actividades correntes

Grau 2 – com dependência moderada mas capacidade de exercer e executar as tarefas quotidianas da vida

Grau 3 – totalmente dependentes.

Tudo leva a crer que é para este terceiro grau de dependência a legislação, mas não inclui os psicopatas que invadem este mundo e não faltam neste país.

No tempo de doentes ultrapassado – sobretudo traumatismo cranio-encefálico – quando não reagia a qualquer estímulo, em midríase, ou o electroencefalograma não tinha oscilações, considerava-se em morte cerebral e desligava-se a máquina da respiração assistida. Não respirava por si. Morte cerebral.

A partir desse momento podia-se proceder à colheita de órgãos para transplantes se fosse consentido. Com esta morte assistida, será assim? Não se virá a tirar lucro da própria morte para a venda de órgãos?

Eu médico, decidi-me a esta profissão para salvar vidas e não para ser motorizado para a morte. Nunca o faria nem farei.

Quando o paciente estiver dependente de máquinas e sem reação, isso eu praticaria e aconselharia. Com a abrangência que se adivinha ou se poderá vir a cair, isso Não.


norberto_canhaVou puxar pela memória e recordar o ocorrido quando tinha à volta de vinte e poucos anos. Tínhamos duas éguas, a Joaquina mansarrona preferida pelas mulheres, puxava a charrua ou o arado mostrando vontade de agradar; a Carriça cavalgava, escolhida pelos homens, era contrariada que ajudava nas actividades agrícolas.

Engravidaram ao mesmo tempo, cada uma delas teve uma mula, irmãs, filhas do mesmo burro.

A filha da Carriça partiu o pé dianteiro, direito a cima da pata, onde desvia para fora. O veterinário aconselhou o abate; não tinha cura. Nós tínhamos afecto às mães e às filhas. Recusamos o conselho. Curou e embora com deformação deixou-se montar sem aprendizagem. E era tão boa ou melhor que a irmã a puxar e a levar a charrua ou o arado ou uma boa carga de sacos.

Eram diferentes. Embora filhas do mesmo pai.

Desde que não sejam violentos – e para isso há medicação – porque não estender aos nossos antepassados tanto ou mais carinho do que recebemos. É tomar a decisão pensada, mas fria da pena de morte assistida? Nunca! Eu sei que é penoso e trabalhoso, mas temos de pensar. Hoje são Eles. Amanhã seremos nós. O que é que o criador pensará de nós, duns e doutros?

Tu não acreditas, mas eu acredito. E para além da morte há outra vida!.

Não quero partir com tal penar!

A Eutanásia? Nunca! Não! Isso é comércio, é negócio do deve e haver.

Não é ódio a Peter Singer: é a massa crítica que falta ao Rolando Almeida

 

“A base do argumento de Singer neste livro é a seguinte: Se uma acção x produzir um maior bem para mais pessoas, então é uma acção moralmente correcta”.

Rolando Almeida (professor de filosofia)


Não há qualquer dúvida histórica de que o holocausto dos judeus por parte do partido nazi beneficiou (materialmente) a esmagadora maioria dos alemães. Mas, da acção do extermínio nazi dos judeus não se pode dizer que foi moralmente correcta — a não ser que o Rolando Almeida pense o contrário, o que não me surpreenderia.

O argumento do “ódio contra Peter Singer” é risível, se não fosse perigoso: dá a ideia de que qualquer crítica a determinados raciocínios politicamente correctos é sempre uma expressão de ódio. Tudo o que afronta racionalmente o politicamente correcto é fobia!

Já demonstrei (racionalmente!; não se trata de uma fobia) que a doutrina ética do “especismo” de Peter Singer, por exemplo, é incoerente. E fica aqui demonstrado racionalmente que o Rolando Almeida é estúpido.

Terça-feira, 22 Março 2016

O Alexandre Castro Caldas e a eutanásia

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:38 am
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Regra geral, quando um homem da ciência aborda a ética, não sai coisa boa. O Alexandre Castro Caldas deveria preocupar-se com o epifenomenalismo próprio da neurologia, em vez de se meter por becos que desconhece.

“O problema [da eutanásia] não é, também, de natureza religiosa, podendo, no entanto, ser considerado de natureza espiritual. É, sem sombra de dúvida, uma questão de ciência médica que tem que saber recrutar os seus melhores recursos para combater o sofrimento e trazer quem sofre à qualidade de vida que todos merecemos. Mas sobretudo temos que concordar que o problema não é de natureza política, e muito menos será de desentendimentos entre esquerda e direita”.

Alexandre Castro Caldas


No tempo de Aristóteles, praticava-se o infanticídio; o próprio Aristóteles defendeu o infanticídio. Hoje, Peter Singer defende o infanticídio por razões utilitaristas (utilidade). Mas não é por que um facto existe, que se pode defender uma norma que o legitime. Quando nos baseamos em factos para defender a imposição de uma norma (moral ou jurídica), incorremos no sofisma naturalista.

A ciência não pode determinar os valores da ética. A ideia de “responsabilidade moral” reside na experiência subjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas pelas leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas”.

O Alexandre Castro Caldas revela a ignorância que grassa na nossas elites. Estamos entregues à bicharada. Por acaso, ele não defende a eutanásia; mas só por acaso, porque quando ele diz que o problema da eutanásia é, “sem sombra de dúvida, uma questão de ciência médica”, verificamos a precariedade da sua posição.

A normalização da eutanásia (porque é disto que estamos a falar: da normalização, da criação de uma norma), é um problema político, embora não seja uma questão partidária. O Alexandre Castro Caldas confunde “partidos políticos”, por um lado, e “política”, por outro lado.

E a eutanásia é um problema político porque se confunde o conceito de “autonomia da pessoa”, por um lado, com “individualismo” (partidos da direita) ou com “colectivismo” (partidos da esquerda), por outro lado. A partir do momento em que a realidade é definida como uma “construção social e cultural”, surge o individualismo (direita) e o colectivismo (esquerda) que já pouco têm a ver com o conceito de “autonomia da pessoa”.

O que une o Rui Rio (direita) ao João Semedo (esquerda) na defesa da eutanásia é a ideia de que a realidade é um produto de uma “construção social e cultural”.


eutanasia-cadeiras

Sendo um problema político, a eutanásia é também um problema religioso no sentido da cultura antropológica:

A ética está para a moral, assim como a musicologia está para a música. Podemos dizer que a ética está mais próxima das determinações do comportamento da subjectividade activa dos indivíduos, enquanto que a moral é a exigência universal irredutível e transcendente. A ética radica-se nos valores, ao passo que a moral radica-se na lei — lei esta que, nos tempos modernos, é escorada no enquadramento jurídico que pretende (e consegue-o, até certo ponto) moldar os costumes e a tradição da cultura antropológica.

A ideia, absurda, segundo a qual é possível existirem valores da ética sem lei moral, é uma característica do pós-modernismoporque a própria ausência de lei moral universal é, em si mesma, uma lei moral. Quando a lei moral não é universal, continua a existir uma lei moral que, neste caso, determina que ela não é universal. E quando os valores da ética não têm correspondência na lei moral, a ética deixa de fazer sentido na cultura antropológica: seria como se um musicólogo e se alheasse do sentido da música que estuda.

Os valores da ética existem por si mesmos: não podem ser deduzidos de qualquer utilidade. Assim, por exemplo, o valor da justiça vale por si, o que pode ser compreendido por cada ser humano. Se fizéssemos depender o valor da justiça de algo que não estivesse — de um modo ou de outro — já incluído no seu significado; se deduzimos o valor da justiça da utilidade ou de uma oportunidade política, o valor da justiça estaria em uma situação muito precária (que é o que acontece hoje na nossa “democracia”).

A diferenciação cultural introduzida pelos monoteísmos, e principalmente pelo Cristianismo, introduziu na cultura antropológica a noção do “realismo na ética”, segundo o qual os valores da ética existem por si mesmos, e não podem ser deduzidos de qualquer utilidade. Neste sentido, concordo com o Alexandre Castro Caldas: a eutanásia é um retrocesso civilizacional, porque também é um problema religioso.

Quinta-feira, 17 Março 2016

Hoje é coisa fina não ser “conservador nos costumes”

 

Hoje é chique não ser “conservador nos costumes”; fica bem; dá uma áurea de super-homem; é ser progressista, aparentemente partilhando com a Esquerda a excentricidade do “génio individual”. A preocupação do liberal que se preze é o de não ser “conservador nos costumes”, para poder defender, perante a Esquerda, o conservadorismo na economia. Cede num lado para poder afirmar-se noutro; trata-se de uma cedência. Mas a verdade é que não existe conservadorismo na economia nem nos costumes: o que existem são políticas económicas erradas (por exemplo, o socialismo) e costumes errados.

Dificilmente poderei ser considerado um conservador nos costumes. Sou a favor da legalização total das drogas, do jogo e contra a existência do crime de lenocínio. Acho que o contrato de casamento não deve ser tipificado, mas a sê-lo não deverá impôr restrições de género ou número. Acho que um casal deve poder recorrer aos métodos que achar necessários para constituir família desde que não viole os direitos de outrem, e considero a institucionalização como o pior destino possível a dar a uma criança que perca os pais biológicos. Com o aborto, é diferente”.

Como dizia Nicolás Gómez Dávila, “o individualismo é o berço da vulgaridade”. Porém, na Esquerda, a defesa das mesmas teses libertárias das do escriba liberal não tem um cariz individualista ou utilitarista — e é isto que é difícil de perceber. Ou seja, o liberal de direita e o “libertário” de esquerda concordam sobre as mesmas coisas, mas com fundamentos diferentes.

Por exemplo, o João Semedo (Bloco de Esquerda) diz que basta que os cuidados paliativos não se apliquem, na redução do sofrimento, a uma só pessoa, para que a eutanásia deva ser legalizada. Ou seja, basta que a situação de doença terminal de uma só pessoa não possa ser abrangida pelos cuidados paliativos, para se impôr a legalização da eutanásia para todos.

Isto é tudo menos utilitarismo, que se baseia na máxima da “maior felicidade para o maior número”, e não na da “maior felicidade para todos”.

Nos países anglo-saxónicos ou do norte da Europa, onde o aborto e a eutanásia foram legalizados, seguiu-se o princípio utilitarista da “maior felicidade para o maior número” — e por isso é que a eutanásia descambou e passou a ser “suicídio a pedido do cliente” de qualquer idade. Mas a Esquerda não tem uma tradição utilitarista; aliás, Karl Marx dizia pejorativamente que “o utilitarismo é moral de merceeiro inglês”.

A posição do João Semedo acerca da “eutanásia para todos por causa de um só”, não é utilitarista.

Então, ¿o que é? ¿Será que a ética do João Semedo é ontológica (kantiana)? Também não. A ética do João Semedo é teleológica. É uma ética de terra queimada, na esteira de Gramsci; é preciso não olhar a quaisquer meios para atingir o fim da destruição da ética judaico-cristã que, alegadamente, sustenta o capitalismo.

A tese da “eutanásia para todos por causa de um só” aparece, na praça pública, travestida da defesa dos direitos daquele indivíduo.

Faz-se o apelo à emoção por causa daquele indivíduo em particular, entre milhões de outros, que não pode ser abrangido pelos cuidados paliativos. A tese da “eutanásia para todos por causa de um só”, do João Semedo, até parece a ética da Misericórdia cristã do papa-açorda Francisco. Um liberal de direita até poderia defender a legalização da eutanásia em nome do individualismo; o João Semedo defende a legalização da eutanásia em nome de uma utopia colectivista que subverta a ordem natural da realidade. No meio disto tudo, o inteligente é o João Semedo, e os liberais são os idiotas úteis.

O critério do João Semedo que se aplica à eutanásia foi o mesmo aplicado pela Esquerda à legalização do aborto.

Não é um critério utilitarista (como o que existe, por exemplo, em Inglaterra ou nos Estados Unidos em relação ao aborto) — porque a cultura antropológica portuguesa não tem uma tradição utilitarista —, mas é um critério subversivo e colectivista utópico, que visa minar a cultura antropológica no sentido de “criar as condições necessárias” na cultura antropológica para uma revolução (mais ou menos violenta).


O liberalismo do insurgente é um momento do processo revolucionário do João Semedo:

« Há muitos motivos para você ser contra o socialismo, mas entre eles há dois que são conflitantes entre si: você tem de escolher. Ou você gosta da liberdade de mercado porque ela promove o Estado de direito, ou gosta do Estado de direito porque ele promove a liberdade de mercado. No primeiro caso, você é um “conservador”; no segundo, é um “liberal”.

(…)

Ou você fundamenta o Estado de direito numa concepção tradicional da dignidade humana, ou você o reinventa segundo o modelo do mercado, onde o direito às preferências arbitrárias só é limitado por um contrato de compra e venda livremente negociado entre as partes.

(…)

O conservadorismo é a arte de expandir e fortalecer a aplicação dos princípios morais e humanitários tradicionais por meio dos recursos formidáveis criados pela economia de mercado. O liberalismo é a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários.

O conservadorismo é a civilização judaico-cristã elevada à potência da grande economia capitalista consolidada em Estado de direito. O liberalismo é um momento do processo revolucionário que, por meio do capitalismo, acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de direito. »

Olavo de Carvalho, “Por que não sou liberal”

Domingo, 13 Março 2016

O João César das Neves e o papa-açorda Francisco: a visão política vem depois da ética

 

O João César das Neves, em um livro recentemente publicado, faz uma interpretação do comportamento (palavras, actos) do papa-açorda Francisco.

¿O que é uma “interpretação”?

"Interpretar" pode ter basicamente três sentidos:

  1. tornar claro, encontrar um sentido escondido, hermenêutica;
  2. deformar, desfigurar;
  3. abordar um tema ou uma obra de maneira a exprimir-lhe sentido; exegese.

A interpretação do João César das Neves em relação ao comportamento do papa-açorda Francisco está de acordo com o sentido de “hermenêutica”, “encontrar um sentido escondido”. Mas em ética, a interpretação deve ser sinónimo de “exegese”. E o papa não é um ocultista, ou pelo menos não é essa a sua principal função: não temos que fazer a hermenêutica das suas (dele) acções e palavras; devemos fazer a exegese das suas palavras e actos.

Assim como o João César das Neves interpreta hermeneuticamente o papa-açorda Francisco, assim o papa-açorda Francisco interpreta o Novo Testamento, desta feita deformando e desfigurando-o (no sentido do ponto 2) à luz de concepções políticas modernas. O problema da análise do João César das Neves é o de que ele se dissocia das consequências éticas da acção do papa-açorda Francisco, concentrando-se apenas na área da teoria económica. Ou seja, o João César das Neves cai na armadilha ideológica que o papa-açorda Francisco preparou minuciosamente.

A leitura parcial das escrituras

O papa-açorda Francisco dá especial atenção a determinadas passagens das escrituras cristãs, e escamoteia outras que não se coadunem com a sua mundividência ética. Por exemplo, nunca ouviram nem ouvirão (tenho a certeza) o papa-açorda Francisco referir-se a S. Paulo ou a um qualquer texto deste. Ora, as escrituras têm um conteúdo holístico, global, e um papa não deve instrumentalizar uns textos e escamotear outros.

O primado da intencionalidade na ética

Vou dar um exemplo introdutório: se queremos cozinhar, podemos ter que acender o fogo; mas não devemos acender o fogo muito perto de palha seca. Ou seja, temos que ter em consideração as consequências dos nossos actos, e a ignorância da lei ou da norma não inocenta quem a viola. O povo português traduz este conceito mediante de uma noção notável: “de boas intenções, está o inferno cheio”.

A ética do papa-açorda Francisco parece ser intencionalista; não tanto no sentido do imperativo categórico de Kant, mas sobretudo no sentido do intencionalismo de Abelardo (intencionalismo medieval, que voltou a estar na moda na nossa contemporaneidade).

De acordo com Abelardo, apenas a intenção moral (subjectiva) é susceptível de qualificação moral, qualquer que seja o acto exterior. O acto exterior — sendo sempre moralmente indiferente enquanto tal — é bom ou mau em função da intenção que o anima, pro intentionis agentis [“Ethica sive scito te ipsum”]. Segue-se, segundo Abelardo e o "papa Francisco", que nenhuma acção pode ser dita má a priori, “não sendo importante que este respeite o que se faz, mas antes o espírito no qual se faz” [“Dialogus”].

Se uma pessoa comete um grave dano mas não era essa a sua intenção, está inocente (Abelardo e o papa-açorda Francisco): “plurimum nocens, plurimum, ut nosti, sum innocens” (idem). Inversamente (segundo Abelardo e o papa-açorda Francisco), acontece muitas vezes que fazemos o que Deus quer que façamos, sem que a nossa intenção seja cumprir a vontade divina: neste caso, não agimos bem ainda que se realize alguma coisa boa. De acordo com a doutrina da indiferença dos actos externos, por mais que um homem faça o que Deus quer que ele faça, somente a boa intenção (subjectiva) torna a acção boa.

Por isso é que o papa-açorda Francisco afirmou, em relação ao comportamento homossexual, “¿quem sou eu para julgar?” — quando é certo que Jesus Cristo não fez outra coisa senão emitir juízos de valor.

A ética do papa-açorda Francisco é diametralmente oposta à do papa Bento XVI que se baseia em S. Tomás de Aquino (ética racional e consequencialista).


É em função da sua mundividência ética que o papa-açorda Francisco determina a sua visão política. Quem segue S. Tomás de Aquino não pode chegar às mesmas conclusões éticas e políticas a que chega o papa-açorda Francisco. É a mundividência ética que determina a política e, subsequentemente, a visão acerca da economia — e não o contrário disto. Por isso, saber se o papa-açorda Francisco é marxista ou não, é absolutamente irrelevante, porque o que devemos criticar nele é a sua concepção ética.

Quarta-feira, 9 Março 2016

Erdogan e a mulher

Filed under: cultura — O. Braga @ 10:31 am
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A visão islâmica acerca da mulher é intolerável. Temos que estudar (e não apenas ler) o Alcorão para chegar a esta conclusão.

Existem basicamente, no Ocidente, três formas de conceber a mulher:

  • O igualitarismo marxista cultural;
  • O Complementarismo;
  • O patriarcado bíblico.

O igualitarismo marxista cultural é adoptado pelos partidos de Esquerda (Partido Comunista, Bloco de Esquerda e Partido Socialista) e, em parte, pelos partidos liberais (Partido Social Democrata e CDS/PP). É a ideia segundo a qual o sexo (biológico) não tem qualquer função nos papéis desempenhados na sociedade; e a Esquerda vai mais longe: os “géneros” (os sexos) nada mais são do que “construções sociais e culturais”. Ou seja, a completa irracionalidade.

O Complementarismo é adoptado pela Igreja Católica. Os homens e mulheres são diferentes biologicamente (em geral, com papéis diferentes na sociedade) mas iguais nos seus direitos naturais (não confundir Direito Natural com Direito Positivo).

O patriarcado bíblico é adoptado, nomeadamente, pelos evangélicos, e baseia-se na ideia da relação entre sexos do Antigo Testamento (Judaísmo).

Uma coisa é o combate contra o feminismo que é uma forma psicótica de conceber a mulher; outra coisa é negar à mulher os seus direitos naturais — como faz o Islamismo.

Segunda-feira, 7 Março 2016

A tentação totalitária da nossa época

Filed under: Política — O. Braga @ 9:53 am
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¿Como podemos compreender que o Bloco de Esquerda, que é constituído basicamente por trotskistas, seja hoje defensor radical dos “direitos do indivíduo”? ¿Como é que gente, como por exemplo o João Semedo que foi militante do Partido Comunista, defende hoje a “liberdade de consciência” do indivíduo para ter direito à eutanásia?

A resposta é simples: a expansão ilimitada do conceito de “direitos do indivíduo” está a ser utilizada para acabar com os direitos do individuo que diz defender, através de um Poder do Estado cada vez maior.

A lógica da Esquerda é seguinte:

1/ vamos invocar que o indivíduo tem direito a tudo e mais alguma coisa, em nome da sua liberdade de consciência;

2/ depois, vamos dizer só um Estado forte e totalitário pode garantir esses direitos do indivíduo;

3/ e quando a máquina de um Estado plenipotenciário estiver instalada, podemos retirar quaisquer direitos ao indivíduo sem que seja possível qualquer reacção por parte da sociedade.

É assim que raciocinam o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista (mas também do Partido Socialista de António Costa).


Vemos o caso do Canadá. A lei da eutanásia terá as seguintes características:

  • morte a pedido para pessoas com doenças graves;
  • morte a pedido para pessoas com deficiências;
  • idem, para pessoas com doenças mentais (se é um doente mental, ¿como pode pedir a sua própria morte?)
  • idem, para crianças “maduras”;
  • os enfermeiros e médicos serão obrigados a executar os doentes, sem qualquer direito a objecção de consciência;
  • os hospitais privados de cariz religioso (por exemplo, os hospitais católicos) serão obrigados a eutanasiar.

Ou seja, toda a sociedade é sacrificada, na sua consciência, para que alguns indivíduos tenham direito a ser eutanasiados, por um lado, e por outro lado para que o Estado adquira um maior Poder sobre a sociedade e sobre os indivíduos em geral. Em nome da liberdade do indivíduo, anula-se, a prazo, a liberdade do indivíduo através do reforço do poder do Estado.

É óbvio que o ataque da Esquerda é também contra a liberdade religiosa. A “liberdade do indivíduo” é colocada como motivo para se eliminar a liberdade dos indivíduos. Passam a existir indivíduos com mais direitos naturais que outros. Temos aqui uma nova versão da construção de uma espécie de URSS.

A perversidade e o cinismo desta estratégia política não se aplica apenas na lei da eutanásia. E os defensores de um Estado leviatão e absolutista serão sempre os guardiões das nossas consciências no futuro: nas palavras de Kant, “é o maior despotismo que pode existir”.

Domingo, 6 Março 2016

O discurso sinuoso da Helena Damião

Filed under: filosofia — O. Braga @ 1:35 pm
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“Vejo a ciência e a ética do mesmo lado, em última instância a mesma coisa. Isto se entendermos que toda e qualquer acção científica tem subjacente a noção de verdade, mas também a de responsabilidade.”

Helena Damião.

Presumo que o conceito de “ciência”, utilizado pela Helena Damião neste caso, se refere às ciências da natureza. Neste sentido, a ciência é o conhecimento científico positivo que se apoia nos critérios precisos da verificação, permitindo uma objectividade dos resultados.

A ciência não determina a ética; mas a ética não pode ignorar a ciência.

A ideia de “responsabilidade moral” reside na experiência subjectiva e intersubjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas por leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas”.

A Helena Damião faz uma confusão entre a acção do cientista, enquanto ser humano, por um lado, e a “acção científica” enquanto trabalho da ciência, por outro lado. A acção do cientista pode ser mais ou menos ética; a acção científica — no sentido do método das ciências da natureza — é eticamente neutra.

Quinta-feira, 3 Março 2016

É isto que os defensores da eutanásia pretendem para Portugal

Filed under: Política — O. Braga @ 11:15 am
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Segunda-feira, 29 Fevereiro 2016

Vamos ter que legalizar o homicídio

 

O homicídio existe. Segundo a lógica progressista e de Esquerda levada ao limite, um facto fundamenta e justifica sempre uma norma que a aprove. Ora, se o homicídio existe, é um facto; e temos que nos deixar de “hipocrisias” e devemos legalizar o homicídio.

O argumento serve para tudo. ¿Existem lésbicas que engravidam? Então terá que ser normalizada a adopção de crianças por parte de pares de lésbicas. ¿Existem gays que compram crianças em "barrigas de aluguer"? Então, as "barrigas de aluguer" terão que ser legalizadas. ¿Existem médicos que praticam a eutanásia “por debaixo do pano”? Então impõe-se a legalização da eutanásia.

A seguir vem o resto: ¿existem criaturas que praticam a necrofilia? Então que necrofilia deve ser despenalizada e até regulada por uma norma. O mesmo se aplica à pedofilia e à zoofilia. Necrofilia, zoofilia e pedofilia, afinal, não passam de “orientações sexuais”.

Se o facto cria o Direito, então qualquer facto pode ser transformado em norma.

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