perspectivas

Sábado, 8 Outubro 2016

O Henrique Raposo e o amor de pai

 

Eu já não compro novos livros publicados em Portugal; porque são escritos segundo o aborto ortográfico e eu não sou masoquista, e porque, em geral, a qualidade do que se escreve hoje é baixa. A julgar pela amostra do novo livro “Nós, os Pais”, escrita pelo Henrique Raposo:

“(…) não percebo aquelas pessoas que dizem que sentem logo empatia com os filhos acabados de nascer; não entendo a conversa sobre o encaixe perfeito logo no primeiro segundo, do amor imediato por aquelas criaturinhas, do choro comovido no parto (…)

¿O que move um ser humano — que não é religioso!; e que não espera nenhuma vida eterna —, por exemplo, a irromper em uma casa em chamas, a fim de salvar uma criança desconhecida que chora?


Em 1982 correu pelo mundo uma história que incomoda não só qualquer sociobiólogo, como um qualquer colaborador do blogue Rerum Natura.

air-floridaArland Williams, um homem na casa dos 40, revisor de um Banco em Washington, ia a caminho de casa em um fim de tarde; e no momento em que chegou à ponte que atravessa o rio Potomac na rua 14, ele ouviu, de repente, o barulho ensurdecedor de um grande avião que passou por cima da ponte e caiu no rio gelado, projectando destroços e corpos humanos.

Das 84 pessoas a bordo do voo da Air Florida, 79 morreram imediatamente. Mas a tripulação de um helicóptero de salvamento, que chegou pouco tempo depois, viu três mulheres e dois homens agarrados a um destroço de flutuava na água, e, muito perto deles, um outro homem que procurava manter-se à tona da água : este agarrou a corda que o helicóptero fez descer e deu-a à mulher que estava a seu lado. Quando o helicóptero regressou, voltou a dar a corda a outro homem; esta cena repetiu-se tantas vezes até que apenas restava salvar este homem que nadava; mas quando o helicóptero regressou, Arland Williams tinha desaparecido na água gelada.

¿O que levou o bancário Arland Williams a saltar para a água gelada e ajudar as vítimas da queda do avião? Ele tinha-se divorciado já há algum tempo, mas estava novamente noivo e iria casar-se em breve. ¿O que é que Arland Williams ganhou em saltar para a água?


Este tipo de comportamento extremo — do tipo de Arland Williams — não é raro. Nos Estados Unidos existe um ramo da psicologia que investiga os fenómenos de altruísmo. Podemos definir o altruísmo da seguinte forma:

O altruísmo é um comportamento em prol dos outros, associado a sacrifícios próprios, realizado sem expectativa de uma recompensa proveniente de fontes externas, ou, pelo menos, não realizado, em primeiro lugar, por causa de uma tal expectativa.

O conhecido psicólogo Morton Hunt, ateu inveterado, escreveu: “Até agora, é simplesmente desconhecido o que leva heróis impulsivos a arriscarem a sua vida por pessoas estranhas; a investigação não oferece praticamente nada como resposta a esta questão”.

O que levou Arland Williams a saltar para o rio Potomac não foi algo de racional, não foi “um salto de confiança que se toma com os neurónios”, como diz o Henrique Raposo.

O sentimento normal de um pai em relação a um filho recém-nascido é da mesma índole do sentimento de Arland Williams que não pensou duas vezes antes de se atirar ao rio para salvar pessoas desconhecidas em situação objectiva e concreta de necessidade. É compaixão, que é uma forma superior de amor, o ágape: a existência (do ser humano, por exemplo, a do Henrique Raposo e da sua filha recém-nascida) antecede sempre a reflexão que ele possa fazer sobre ele próprio e sobre os outros, e a reflexão dele apenas consegue compreender características de um estado ou de uma situação já ultrapassados no tempo.

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1 Comentário »

  1. Excelente argumentação!

    Comentar por Ranieri Araujo — Quinta-feira, 13 Outubro 2016 @ 3:22 pm | Responder


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