perspectivas

Terça-feira, 19 Maio 2015

William Patrick Hitler e a Constança

 

williamhitler-webNo período que antecedeu e durante a II Guerra Mundial, quase todos os meios de comunicação social no Ocidente — leia-se, “mundo anglófono” — publicavam notícias amiúde sobre um dos sobrinhos de Adolfo Hitler, de seu nome William Patrick Hitler.

William fez furor naquela época por ter assumido uma posição contra o seu tio, e por ter emigrado para os Estados Unidos onde se alistou no exército americano, embora já no fim da guerra.

Não havia evento social importante nos Estados Unidos a que William Patrick Hitler não fosse convidado, e tinha mesmo acesso às festas na Casa Branca de Roosevelt. O sobrinho de Hitler, para além de ser famoso, vivia principescamente não só à custa das entrevistas e conferências pagas que dava, da publicação de um livro best-seller sobre a sua vida pessoal com Hitler, mas também era pago pela propaganda institucional e política americana contra o regime nazi. William Patrick Hitler era tão conhecido na opinião pública americana daquela época como o é hoje um actor de Hollywood que esteja na moda.

Quando a Guerra Mundial acabou, William Patrick Hitler “varreu-se” não só dos me®dia como da memória da opinião pública.

De um dia para o outro, na sequência das comemorações do fim da guerra nas ruas de Nova Iorque, o sobrinho de Hitler viu-se no quase completo anonimato. Foi como se a sociedade americana em geral operasse uma catarse em relação a determinados factos e notícias populares durante o período de tensão política e social que caracterizaram a II Guerra Mundial. William Patrick Hitler acabou por morrer na miséria e totalmente anónimo em 1987; nunca mais ninguém falou dele, nem sequer para dar a notícia da sua morte.


Se quem escreveu isto tivesse lido alguma coisa de História e de filosofia para além do que se aprende na escola, não o teria escrito. A concepção da figura da “Constança” que alegadamente tira partido da “memória digital” para conseguir um emprego, só revela o desconhecimento da natureza humana próprio de uma juventude prometaica e auto-convencida que usa e abusa da retórica ad Novitatem — de uma juventude com pouca humildade que se recusa a aprender com a experiência dos mais velhos, por exemplo, com os professores.

A “memória digital” que a autora se refere e que pretende ser uma novidade revolucionária e diferente de tudo o que memorizava o passado, é tão ilusória como a memória dos jornais que frequentemente falavam de William Patrick Hitler. Esses jornais existem ainda hoje para quem os quiser consultar, mas a verdade é 99,9% das pessoas nem sabe que eles existem, e apenas são objecto de interesse de historiadores, estudiosos e intelectuais académicos.

Daqui a cinco anos, a memória da Constança sobre o vídeo em que foi protagonista fará parte de uma realidade histórica insignificante porque a memória humana é selectiva, e porque a “memória digital” é apenas uma memória documental como qualquer outra, que pode ou não ter interesse histórico colectivo.

A ideia segundo a qual a História passará debruçar-se sobre a realidade da vida particular de cada um dos milhões de portugueses revela não só a estupidez de um nominalismo radical que infesta a nossa cultura, mas sobretudo revela a concepção absurda e prometaica de que um “gadget” tecnológico pode alterar a estrutura da natureza humana.

Sábado, 2 Maio 2015

Proibir as touradas em Portugal é um acto de violência que merece resposta violenta.

 

Quando um libertário defende a proibição das touradas, apetece-me logo mandá-lo para a prisão — porque partimos do princípio de que um libertário é amigo da liberdade. E mais grave é quando os libertários se apoiam na máxima de Goebbels segundo a qual “uma mentira mil vezes repetida acaba por ser verdade”: toda a gente sabe que o Estado não financia as touradas, mas aquela gentalha pretende aldrabar o povo seguindo à risca o princípio propagandístico nazi da “mentira credibilizada”.

O Ludwig Krippahl é burro todos os dias; mas parece que ele anda pelos meandros académicos, e se a academia estiver infestada por gentinha daquela laia, temos explicada a decadência da alta cultura em Portugal. Vou explicar por que razão o Ludwig Krippahl é burro, para que a invectiva não seja um mero ad Hominem.

“Mas não é a pertença à cultura que torna algo bom. É precisamente o contrário. O que queremos é incluir na nossa cultura aquilo que nos ajude a ser melhores seres humanos, individualmente e colectivamente. É por isso que vamos mudando a nossa cultura. Proibimos o trabalho infantil em favor da escolaridade obrigatória para as crianças. Proibimos a escravatura e consagramos na Constituição liberdades inalienáveis. Proibimos a discriminação e defendemos a igualdade de direitos para pessoas de todas as raças, credos e sexos. Em vez de alegar que a tourada merece um estatuto especial por fazer parte da nossa cultura, os defensores deste espectáculo teriam de demonstrar que a tourada merece fazer parte da nossa cultura. O que não conseguem porque a tourada é uma barbaridade cruel que até repugnaria a maioria dos aficionados se a vítima fosse outro animal qualquer que não aquele a cujo sofrimento o hábito os dessensibilizou.”

Vamos dissecar este cadáver ideológico.

O “progresso” da sociedade é visto (pelo Ludwig Krippahl) como uma lei da natureza. Só um burro como o Ludwig Krippahl poderia conceber o progresso como uma lei da natureza. Só podemos falar de “progresso” na ciência; em tudo o resto é burrice. Basta uma geração de bárbaros, por muito bem intencionados que sejam, para fazer alterar a lógica de qualquer  “progresso”.

Partindo do princípio de que “o progresso é uma lei da natureza”, o burro vulgar da academia tem a tendência em cair na retrofobia: fobia ou aversão a tudo o que seja antigo, clássico, ou tradicional. E para fundamentar a retrofobia, o burro académico compara ou coloca no mesmo nível de análise, por exemplo, a tourada e a escravatura.

Por outro  lado, o estereótipo do burro académico tende a conceber a “sociedade ideal”, pura e asséptica; e esta sociedade pura e asséptica passa alegadamente também pela proibição das touradas. Estamos aqui em uma espécie de sociedade ideal totalitária da “República” de Platão, em nome de uma concepção puritana da sociedade. Acreditam que a tourada é um mal, e que a sociedade portuguesa sem a tourada seria mais perfeita. O que está aqui em causa é a ideia abstrusa de que é possível uma sociedade caminhando progressivamente para a perfeição.

Por exemplo, o Brasil não tem a tradição da tourada, mas tem mais de 50 mil homicídios por ano; na Bélgica e na Holanda não há touradas, mas a eutanásia já deixou de ser voluntária e passou a ser compulsiva; as sociedades ditas “perfeitas” do norte da Europa — o modelo politicamente correcto dos burros académicos — condenam a tourada, mas consideram o aborto um “direito humano”.

Portanto, temos que partir racionalmente do seguinte princípio: não existem, nem nunca existirão, sociedades perfeitas, e o progresso não é uma lei da natureza.

Se considerarmos válido este princípio, poderemos começar a aprender alguma coisa. Por exemplo, podemos começar a fazer escolhas éticas que sustentem critérios racionais de positividade dos valores em uma cultura antropológica.

Por exemplo, eu prefiro viver em uma sociedade que não proíba as touradas mas que critique o aborto na cultura antropológica — porque considero a vida humana superior ao valor da vida de um boi (parece certo que, para o Ludwig Krippahl, um bovino é equiparável a um ser humano).

Prefiro viver em uma sociedade que não proíbe as touradas do que viver em um outro que as proíbe mas tem a pena-de-morte; ou prefiro viver em Portugal com as touradas do que viver na Bélgica com a eutanásia compulsiva e sem a concordância do idoso. Prefiro viver em Portugal em que a tourada é uma festa da família, do que viver na Holanda onde a família natural vai sendo destruída pelas elites políticas.

Uma sociedade sem tabus é um círculo quadrado. É impossível uma sociedade sem tabus. Por outro  lado, não é possível uma cultura antropológica sem defeitos: não existe (nem nunca existirá) uma sociedade perfeita. A ideia segundo a qual  é possível uma sociedade perfeita só pode vir de um lunático ou de um filho-da-puta que age na política.

Se uma sociedade não pode ser perfeita, temos que ter cuidado com a mudança de tabus e com as engenharias sociais e culturais. Podemos ter a pretensão de criar um “mundo melhor” estando a gerar uma futura sociedade monstruosa, e muitas vezes sem que tenhamos consciência disso.

Portanto, de uma vez por todas, deixem as touradas em paz — porque, de contrário, haverá violência. Proibir as touradas em Portugal é um acto de violência que merece resposta violenta.

Sexta-feira, 24 Abril 2015

O racismo cultural e as anti-touradas

O racismo já não é hoje a crença na desigualdade das raças, nem a hostilidade de princípio em relação a uma determinada categoria de seres humanos — tudo isso pertence ao passado; em vez disso, o racismo é hoje considerado pelo politicamente correcto, e pela classe política em geral, como qualquer forma de apego a um modo de vida específico, a uma paisagem natal, e a uma identidade particular.

A ideologia dominante actualmente é uma ideologia universalista (maçonaria) que condena no fogo da nova Inquisição qualquer forma de enraizamento cultural e patriótico. É uma ideologia que privilegia a mobilidade irracionalizada, o desenraizamento cultural e político, um novo nomadismo bárbaro, a aceitação do “novo” como sempre melhor do que o tradicional (falácia ad Novitatem), a precariedade como um valor supremo, a instabilidade pessoal como modo de vida.

O conceito actual de “racismo” já não tem a ver com a cor da pele: hoje é classificado de “racista” quem preza a sua cultura e as suas tradições, e quem gosta do seu país e da sua nação. Estes são os novos racistas.

O patriota, para além de ser considerado “racista”, é considerado pelo politicamente correcto como tendo uma natureza corrompida. Quando as pessoas simples do povo dizem que preferem conservar as suas tradições em vez de se submeterem a culturas estrangeiras, os ditos progressistas vêm a terreiro bradar que “o povo é egoísta  e xenófobo”. Ou seja, o povo é racista e corrompido, e há que substituir o povo português por outro povo qualquer.

O culto do mestiço é a inversão do culto nazi da pureza da raça: assim como, para o III Reich, o ariano era o modelo ideal, o mestiço é o modelo ideal da nova ideologia que — tal como os nazis tinham —  têm hoje uma obsessão com a raça, uma mesma sobrevalorização da importância dos factores rácico e étnico na evolução das sociedades humanas. O contrário do racismo passou a ser um racismo em sentido contrário.

É neste ambiente irracional que se situam o Ricardo Araújo Pereira e o Nuno Markl. Ser “anti qualquer coisa” passou a ser a norma. Segundo aquelas mentes anormais, as tradições portuguesas são racistas e/ou desumanas, e o povo tem uma natureza corrompida. Por isso há que acabar com este povo e arranjar outro povo para o substituir. Neste contexto, ser “anti-touradas” assume uma semelhante significação em relação a ser “anti-racista”. 

Quinta-feira, 5 Março 2015

O retorno da nossa cultura ao neolítico

Filed under: Europa — O. Braga @ 12:57 pm
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Para o cidadão comum é muito difícil compreender o que se está a passar com a nossa cultura (ocidental); e outros, não a compreendendo, pensam que alguns fenómenos culturais actuais são algo de “novo”.  Vejamos este caso:

“A esperança média de vida é cada vez maior, mas a população continua a crescer e os cemitérios a ficarem sobre-lotados. Se a cremação não é algo que lhe agrade, esta pode ser uma opção a ter em conta.

O projecto italiano Capsula Mundi quer desenvolver uma cápsula orgânica e biodegradável que transforma um corpo em decomposição em nutrientes para uma árvore.”

Gostava de ‘reencarnar’ numa árvore?

O que se está a passar hoje na nossa cultura antropológica (principalmente na Europa) não é apenas um retorno a um monismo: é sobretudo um retorno cultural às religiões do neolítico da mãe-terra.

A questão do sentido (da vida) está na base não só das religiões propriamente ditas, mas também das religiões políticas. Ao longo de dois milhões de anos da Pré-história da humanidade, os nossos antepassados aperceberam-se da sua especificidade no contexto do mundo orgânico que os rodeava.  Aquilo que designamos hoje de “sentido” (da vida) passou-se a exprimir claramente a partir do homo sapiens, em experiências momentâneas indistintas, no medo e na esperança; e fenómenos deste tipo eram sempre acompanhados por rupturas da vida  ou de situações-limite.

A partir do paleolítico médio tornou-se claro que os vestígios de enterros rituais revelavam que a morte tinha que ser superada religiosamente, como aliás continua a acontecer hoje embora com uma hermenêutica diferenciada pelo Cristianismo. Ou seja, desde muito cedo verificaram-se “ritos de passagem” que configuravam religiosamente a vida.

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Terça-feira, 20 Janeiro 2015

O piropo e os alienados de Lisboa

Filed under: Política,politicamente correcto,Portugal — O. Braga @ 9:25 pm
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“O discurso da criminalização do piropo não me representa, nem como mulher, nem como penalista. Prefiro que se reflicta sobre a educação que estamos a dar aos nossos filhos e filhas. Prefiro que se reflicta sobre a representação da mulher na literatura, no cinema, nas artes, na publicidade. Prefiro que se façam campanhas de sensibilização.

Não podemos criminalizar tudo o que nos desagrada. Tudo o que seja de mau gosto, feio ou ordinário. Uma Maria Capaz não resolve todos os seus problemas gritando pelo irmão mais velho e mais forte, que é como quem diz, criminalizando. Entre nós, haveremos certamente de encontrar formas mais criativas – e, na minha opinião, eficazes – para erradicar a cultura do machismo lusitano.”

Inês Ferreira Leite

Eu sublinhei acima o que me interessa para este verbete.

Uma sociedade em que não existe uma certa dose saudável de machismo não se consegue defender. Repare-se: machismo saudável, o que significa que o machismo não é necessariamente mau. A  sociedade idealizada pela Inês é uma sociedade indefesa em nome de uma abstracção do conceito de igualdade — existe nessa sociedade utópica um divórcio entre a realidade e a ideia de igualdade.

Quem critica o piropo vive em Lisboa.

Quem critica o piropo nunca viveu em uma aldeia ou vila de Portugal, onde o piropo é uma forma de comunicação tão disseminada e vulgar que ninguém nota, e onde o piropo é feminino e masculino (do homem para a mulher, e vice-versa), porque as pessoas conhecem-se mais ou menos umas às outras, e por isso o piropo tem uma função de coesão cultural e social na comunidade — porque se tratam de comunidades, o que não é o caso de Lisboa. Lisboa significa a alienação da cultura portuguesa tradicional. E são os alienados culturais de Lisboa que pretendem criminalizar o piropo. É tempo de acabar com esta moda de fazer de Lisboa o paradigma nacional!

Não devemos confundir “piropo” com “bullying”.

Nas vilas e aldeias de Portugal também não se tolera o bullying. O que distingue o bullying do piropo é a intencionalidade percebida no primeiro através de códigos culturais bem estabelecidos — o que não acontece em Lisboa, onde os códigos de comunicação se dissolveram, ou existem apenas em pequenos grupos sociais. Nas comunidades, essa intencionalidade do bullying não é subjectiva — como acontece em Lisboa, onde cada um interpreta o piropo como quiser — mas antes tem a objectividade que a própria cultura comunitária lhe dá.

Nós, portugueses, estamos já cansados de levar com com essa Lisboa alienada pelas costas abaixo. Sugiro que se façam leis apenas para Lisboa, e deixem o país em paz e sossego.

Sexta-feira, 12 Dezembro 2014

O homem actual e a “autonomia mimética”

 

Thomas F. Bertonneau escreve um mini-ensaio sobre a cultura europeia actual:

Na sociedade moderna e actual, a ideia de “autonomia” já não se baseia no conceito kantiano de autonomia, mas antes é apenas e só a autonomia do desejo (individual) entendido em si mesmo, assumindo a forma de uma crise mimética1 em constante expansão que dissolve todas as diferenças e faz com que cada um seja simultaneamente o modelo do outro e o seu rival.

Na crise actual, a Europa da ditadura do politicamente correcto vai regredindo em direcção a um momento pré-humano de que só sairá quando as elites politicamente correctas impuserem necessariamente um novo tabu total e avassalador2 .

Notas
1. (“autonomia mimética”; o modelo de “autonomia” que se copia dos outros, a cada instante, e que muda à medida em que o objecto do desejo e o modelo de desejo vão mudando)
2. (o novo totalitarismo, dissimulado mas brutal, que já se enxerga; um totalitarismo que oprime ferozmente em nome da “autonomia do desejo”).

Domingo, 7 Dezembro 2014

É da Joana: quer acabar com os piropos por causa das apalpadelas e da perseguição persistente

 

Um artigo no jornal Púbico, assinado por uma tal Joana Gorjão Henriques, coloca no mesmo saco o piropo, as apalpadelas nos transportes públicos, e o stalking (perseguição persistente). Seria como se defendesse a restrição da liberdade de expressão porque existem discursos de ódio que podem levar à violência física. Será que a Joana pensa, ou anda com o penso?

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Sábado, 6 Dezembro 2014

A origem da família, da propriedade e do Estado — Engels (parte 1)

 

engels1/ Qualquer observador atento que veja como a instituição da família está a ser tratada pela política europeia, não pode deixar de verificar a influência das ideias de Engels na cultura política actual. Engels escreveu um livrinho a que deu o nome de “A origem da família, da propriedade e do Estado” [a minha edição é da Editorial Presença, 1976], e este opúsculo marcou indelevelmente aqueles que hoje assumem cargos políticos em Portugal — desde Passos Coelho, que militou na Juventude Comunista, até ao José Pacheco Pereira que, como sabemos, diz que foi maoísta mas já não é.

Se repararmos bem, todo o esforço político da União Europeia actual, na área da família, vai no sentido de valorar politicamente e refundar, na cultura antropológica, a família sindiásmica segundo o conceito de Engels. Não se quer com isto dizer que a família sindiásmica de Engels seja transposta literalmente para a actualidade, porque isso seria impossível: o que quer dizer é que as características fundamentais da família sindiásmica formatam as políticas de família, não só em Portugal como na União Europeia.

2/ Engels pretendeu dar ao seu livro citado um cariz científico; porém, mais não fez do que citar Antropólogos do século XIX, como por exemplo Morgan ou Espinas; e depois enviesa as conclusões desses Antropólogos (conclusões muitas vezes incorrectas do ponto de vista científico) para lhes dar uma forte tonalidade ideológica-política.

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Terça-feira, 16 Setembro 2014

¿Pretende o Estado criar PPP (Parcerias Público-privadas) na cultura?

Filed under: Passos Coelho — O. Braga @ 10:03 am
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Discute-se a se o Estado deve subsidiar a “cultura”.

O ideal seria que existisse um mercado de alta cultura em Portugal, para que o Estado não impusesse taxas a todos os cidadãos para subsidiar a cultura; mas esse mercado não existe de facto; as livrarias, por exemplo, “estão às moscas”; e quando existiram arroubos de mercado livreiro, por exemplo, (no tempo das vacas gordas), eram para comprar os romances rombudos da Margarida Rebelo Pinto.

Portanto, a discussão está inquinada, porque a cultura não está na moda e a moda “virou” cultura. Não existe uma tradição de alta cultura. Se nos baseamos apenas no “mercado da cultura” que existe, esta resume-se às telenovelas da SIC em que há sempre um gay de serviço, e pouco mais.

E a situação tende a piorar: com o Acordo Ortográfico, o valor da língua decresce, passamos a ter uma gama baixa da língua — que dizem eles “ser acessível a toda a gente” — e deixamos de ter acesso à gama alta do mercado da língua que vai paulatinamente desaparecendo. O Acordo Ortográfico significa o filistinismo aplicado à literatura portuguesa e à cultura em geral: Portugal transforma-se num imenso Brasil.

conjunto maria albertinaImpõem-se perguntas: ¿o que é que o Estado pretende subsidiar com o dinheiro dos nossos impostos? O filistinismo cultural? Os romances de gama baixa da Margarida Rebelo Pinto? A música Pimba? As rendas fixas e vitalícias de alto coturno de artistas que já não produzem nada?

Pretende o Estado criar PPP (Parcerias Público-privadas) na cultura?

Eu percebo que o Estado subsidie, por exemplo, a ópera no Teatro de S. Carlos, ou o Teatro de S. João, ou recitais de piano na Gulbenkian ou no CCB — porque é um tipo de cultura de gama alta a que a tradição portuguesa não está vinculada. Educar o povo pode ser subsidiar gente com qualidade.

Para a cultura sem qualidade, existe o mercado sem qualidade do cidadão sem qualidade. Para a cultura sem qualidade existe o baile da aldeia com o Conjunto António Mafra. Pôr o povo a pagar impostos para subsidiar, por exemplo, a canção do Pito da Maria, é transformar o filistinismo em alta cultura. É isto que Passos Coelho e a Esquerda estão a fazer, mas também não poderíamos esperar deles outra coisa.

Quinta-feira, 1 Maio 2014

As elites modernas inverteram os mitos das sociedades primitivas

Filed under: Europa — O. Braga @ 4:27 pm
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A genialidade satânica do marxismo consiste no facto de se ter aproveitado dos mitos religiosos intemporais, e distorcendo-lhes o sentido, criou em seu lugar um mito exclusivamente imanente, materialista e terrestre.

Por exemplo, a “purificação do universo pela matança” é uma ideia mitológica que sempre existiu em muitas sociedades pré-cristãs, através de vários tipos de religiosidade, incluindo a religião dos Mistérios que marca e sempre marcou a maçonaria — seja uma maçonaria “cristianizada” (por exemplo, a maçonaria escocesa dos séculos XIII e XIX) ou pagã (a maçonaria napoleónica e iluminista, ou a actual maçonaria europeia, em geral).

O mito trágico da “purificação do universo pela matança” é velho como a humanidade: por exemplo, a celebração religiosa e mítica da gesta de Marduk e de Tiamat.

Este mito (o da “purificação do universo pela matança”) foi sendo distorcido pelo movimento revolucionário ao longo de séculos, até que Engels e Marx lhe deram a forma actualizada, retirando-lhe o aspecto cosmogónico que detinha na Antiguidade, e tornando-o em uma componente de uma religião política materialista e destituída de qualquer componente cosmológica. Esta redução do mito cosmogónico original a uma realidade chã e exclusivamente terrena, por um lado, e, por outro lado, o lucubro de uma realidade em que o ser humano é o centro e o símbolo absoluto da acção humana (e já não a cosmogonia em si mesma, que era o centro da atenção religiosa primitiva); este antropocentrismo prometaico que o marxismo condensou, distorcendo os fundamentos de mitos ancestrais — está na base do mito marxista da “purificação do mundo pela matança dos ricos”, de que fala aqui o Olavo de Carvalho.

O mito iluminista (Rousseau: “o bom selvagem”), e marxista do “retorno da humanidade a uma Era de pureza originária”, são também uma deturpação do mito antigo da celebração cíclica da cosmogonia através da invocação dos modelos exemplares dos Antepassados Míticos, no neolítico. É neste sentido que se pode dizer que a cultura da elite ocidental tende para uma emulação distorcida do neolítico, embora deturpando-lhe e distorcendo-lhe os símbolos.

Não se trata, na actualidade, de uma cópia do mito de Adão e Eva e do Paraíso, tal qual era entendido pelo Judaísmo e pelo Cristianismo; não se trata, hoje, da celebração dos modelos exemplares dos Antepassados Míticos das sociedades mais primitivas — porque ambos os mitos (o de Adão e Eva, e o dos modelos exemplares dos Antepassados Míticos das “sociedades arcaicas”) reconheciam e aceitavam a “queda ontológica” do ser humano, sendo que a evocação do mito servia apenas para que o homem se sentisse “mais perto” dos deuses, ou de Deus (no caso do monoteísmo).

Do que se trata, no mito actual, é de uma inversão do mito originário, em que o objecto mitológico deixou de ser a cosmogonia (a criação do universo), e passou a ser exclusivamente o ser humano dissociado do Cosmos e de qualquer ontologia originária — mantendo-se, contudo, o conceito original de “purificação do universo pela matança”, embora agora destituído de qualquer significado e simbolismo cosmogónico.

É nisto que consiste a perversidade satânica indizível do Iluminismo em geral, e do marxismo em particular: a ruptura radical em relação ao conceito ontológico de “ser humano inserido no Cosmos” (com tudo o que isso implica).

Segunda-feira, 28 Abril 2014

Ser de Esquerda é estar na moda

 

boca-de-sinoLembram-se das “botas à Beatle” da década de 1960 ou das “calças à boca-de-sino”?

Os jovens que não as usassem não estavam na moda, e por isso teriam uma maior dificuldade de integração na roda de amigos. As modas são criadas pelas elites — por exemplo: as “botas à Beatle” foram criadas pelo grupo musical The Beatles, e as calças “à boca de sino” tornaram-se populares na década de 1960 e de 1970 por intermédio dos grupos musicais que também estavam na moda.

Ou seja, as modas aparecem em primeiro lugar na elites sociais, e através de um efeito cultural de Trickle-down (definido pelo filósofo Georg Simmel no princípio do século XX), estendem-se a toda a sociedade. ¿Toda?! Não! Quase toda; porque, como nas histórias do Astérix, há sempre um grupo de gauleses que resiste ao império da moda.

 

A Inês Teotónio Pereira escreve o seguinte:

“Se eu fosse de esquerda a minha vida seria muito mais simples. Ser de esquerda é ser boa pessoa e eu gostava que toda a gente me considerasse boa pessoa – ninguém duvidaria das minhas boas intenções mesmo que eu tivesse como sol o regime da Coreia do Norte. Mas quis o destino que eu gostasse mais dos mercados do que de Hugo Chávez e isso trama-me a vida. Não tenho credibilidade em matéria de bondades. É injusto.”

singularidades da nossa revoluçãoOra, acontece que “gostar de mercados” nem sempre esteve na moda da Direita — porque a Direita também esteve na moda até Maio de 1968 (e por azar, foi também em 1968 que o Salazar caiu abaixo da cadeira: parece que estava escrito nas estrelas). A moda dessa Direita era mais dos monopólios económicos e financeiros privados do que de outra coisa: essa Direita não gostava muito dos mercados abertos e globais: era uma moda de privilégio dos monopólios privados dos mercados nacionais; por exemplo, a moda da Direita de De Gaulle, ou a moda da Direita de Salazar, ou a moda da Direita de Franco, etc.

E, de repente, a moda mudou e tornou-se internacionalista através da Esquerda que passou a estar na moda; e é por isso que hoje a Direita também é internacionalista através do globalismo, ou seja, a Direita pegou na moda internacionalista da Esquerda e adoptou o seu princípio, embora adaptando-o ao “gosto dos mercados”.

A Inês Teotónio Pereira continua:

“Mas o pior nem é isso, o pior é que além de ser de direita também sou católica. Ora um católico praticante de direita 40 anos depois do 25 de Abril não é mais do que um beato fascista. Um retrógrado. Como se não não bastasse ser de direita, ainda tinha de inventar ser católica. É mau de mais. Se eu fosse de esquerda e católica, a minha circunstância seria muito mais agradável e já ninguém me chamava beata fascista. Seria com muita pinta apelidada de católica progressista, o que é muito mais chique e moderno. E eu gostava de ser chique e moderna, apesar de católica e de gostar dos mercados.”

Esta coisa de “estar na moda” tem muito que se lhe diga: entre outras coisas, obedece a símbolos, embora esteja hoje na moda dizer que “não se obedece a símbolos”. Por exemplo, se um católico se referir ao cardeal Bergoglio como “papa Francisco”, é imediatamente considerado de Esquerda. Mas se se referir a ele apenas como “papa”, ou como “papa Francisco I”, os próprios católicos progressistas olham para esse católico de esguelha, ou seja, de forma canhota e sinistra. É que agora há dois tipos de católicos: os “fassistas” e os “progressistas”. Os “fassistas” são aqueles católicos que obedecem a símbolos, e os “progressistas” são aqueles que também obedecem a símbolos mas que dizem que “não obedecem a símbolos”.

Acontece que “papa Francisco” é chique; está na moda e soa bem. Não tem aquela coisa dos números cardinais obsoletos, como por exemplo, João Paulo II ou Bento XVI. A numeração romana é coisa dos cotas do tempo dos reis. Agora é moderno o “papa Francisco”, tu-cá-tu-lá, “ó papa, estás porreiro?”, “boé de fixe, meu!”, “tudo numa boa, ó Chico!”.

“A coisa agrava-se ainda mais pelo facto de eu ter muitos filhos. Ter seis filhos, ser de direita e ainda por cima ser católica, é uma desgraça completa. É quase estupidez. É pedir chuva. É como gostar de ser gozado no recreio por causa da franja e teimar em manter a franja. Ainda por cima tenho o supremo azar de os meus filhos serem loiros (só tenho um moreno). Ora loiros, neste contexto, quer dizer betos. Tudo mau. Se eu fosse de esquerda ninguém olhava para os meus filhos como meia dúzia de betinhos mimados. Agora, esta coisa de ter uma família do tipo “Música no Coração” dá cabo da minha reputação. 40 anos depois do 25 de Abril e sem nenhum capitão de Abril na família (apenas um católico progressista), a minha reputação é, fatalmente, miserável.”

Ora, aqui está! Perguntem aos academistas coimbrinhas do blogue Rerum Natura o que significa “ter muitos filhos”, e eles dirão, sem qualquer hesitação que é própria da ciência, de que se trata de “um indício de subdesenvolvimento”. Essa coisa de ter muitos filhos é coisa dos pretos da África sub-sariana. E como os progressistas (por definição) não são racistas, tendem a transformar os pretos em seres humanos através do “progresso cultural da opinião pública”. É neste sentido que o Bill e a Melissa Gates também são progressistas e de Esquerda, embora gostem do mercado globalista.

Para a Esquerda, a Inês Teotónio Pereira é uma espécie de preta com cara de branca; ou uma espécie de Liliana Melo a quem os progressistas tiraram os filhos para adopção por serem muitos. A diferença entre a Inês Teotónio Pereira e a Liliana Melo é a de que os progressistas ainda não conseguiram arranjar um argumento legal para lhe retirar também os filhos para adopção (de preferência, para adopção gay, que também está na moda).

Terça-feira, 15 Abril 2014

É preciso ter cuidado com as palavras que utilizamos

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 6:22 pm
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“Desmistificação” — ou o verbo desmistificar — é uma palavra inventada por Karl Marx e adoptada pelos marxistas, em geral. Portanto, não é suposto que seja utilizada em um blogue que defenda a tradição monárquica.

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