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Sábado, 16 Julho 2016

O nominalismo do Anselmo Borges, e o da Igreja Católica do papa Chico

 

O Anselmo Borges escreveu o seguinte acerca do Papa Bento XVI:

“Em 1972, [Bento XVI] ainda professor, escreveu um ensaio académico, manifestando abertura à admissão à Eucaristia dos divorciados recasados, no caso de a nova união ser sólida, haver obrigações morais para com os filhos, não subsistindo obrigações do mesmo tipo em relação ao primeiro casamento, "quando, portanto, por razões de natureza moral é inadmissível renunciar ao segundo casamento".

Ora, este ensaio foi retirado das "Obras Completas" de Ratzinger, cuja edição está a cargo do cardeal G. Müller, um dos opositores a Francisco, concretamente nesta questão”.

Não sabemos se o papa Bento XVI escreveu de facto aquilo; e, se escreveu, não sabemos em que contexto o fez. Mas demos de barato a veracidade do facto.


Eu estou disposto a mudar de opinião acerca do “recasamento católico” se me responderem racionalmente à seguinte pergunta:

¿Quem emite o juízo de valor acerca da nova união sólida, de haver obrigações morais para com os filhos, etc.? ¿É o Padre? ¿É a comunidade? ¿São os próprios recasados que julgam em causa própria?

  • Se for o Padre a emitir o juízo de valor (a julgar a consentaneidade do casal recasado com os requisitos da Eucaristia), estamos a admitir a ideia de que o Padre não pode errar, ou que o Padre não pode assumir atitudes de nepotismo.
  • Se forem os próprios recasados a julgarem-se a si mesmos, é dúbio que existam refractários: todos ou praticamente todos os casais recasados que frequentam a missa acharão que reúnem as condições necessárias para a comunhão eucarística.
  • Se for a comunidade a emitir um juízo de valor acerca do casal recasado, ficamos sem saber quem representa comunidade — porque haverá sempre, dentro da comunidade, quem não concorde com a maioria.

Podemos concluir o seguinte: ou a Igreja Católica admite a comunhão eucarística a toda a gente, independentemente de ser casados, recasados, e re-recasados, re-re-recasados, re-re-re-recasados, e de comportamentos e de acções privadas; ou se mantém a tradição do casamento católico. O papa Chico tem que escolher. “Ou há moralidade, ou comem todos”. Pois então, sigamos a opinião do Anselmo Borges e ponhamos toda a gente a “comer”.


Os julgamentos puramente subjectivos acerca do comportamento dos outros, são falaciosos. Para emitirmos juízos de valor, temos que nos basear em factos; ou então, ignoremos quaisquer factos e não julguemos ninguém. Parece ser esta última hipótese a defendida pelo Anselmo Borges e pelo papa Chiquito.

O nominalismo é uma deficiência psicológica que decorre de um subjectivismo radical; é uma doença existencial. Quando nos detemos no particular, de tal forma, que não conseguimos ver o universal, somos como um surdo que não consegue apreciar uma boa peça musical: temos uma deficiência cognitiva.

É verdade que a moral pertence à realidade subjectiva, mas os valores que regem a moral (os valores da ética) devem ser universais e racionalmente fundamentados. Se concebemos os valores éticos como sendo apenas válidos para cada indivíduo (nominalismo ético) e desprovidos de universalidade, a moral não pode existir.

Quarta-feira, 13 Julho 2016

O marxismo é o ópio dos intelectuais.

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — O. Braga @ 10:28 am
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Naturalmente que o conceito de “intelectual” vulgarizou-se, como podemos ver em Raquel Varela. Um intelectual é hoje uma pessoa que diz umas coisas; e sobretudo é uma pessoa que leu Karl Marx sem ter lido, por exemplo, David Hume ou Karl Popper.

Se lermos este textículo da Raquel Varela, não constatamos apenas ignorância: sobretudo a estupidez da criatura.

Naturalmente que, para a Raquel Varela, não existia “angústia social” na URSS ou em Cuba; ou então, esses países traíram a revolução: a verdadeira revolução está para chegar, à semelhança do Messias judeu da escatologia. A verdadeira revolução irá acabar com as “angústias social e religiosa” e com a “dor real” da existência humana: passaremos todos a ser super-homens.

É (também) por existirem criaturas como a Raquel Varela que sou um reaccionário: não acredito que os problemas fundamentais do ser humano tenham soluções humanas.

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Sábado, 9 Julho 2016

A julgar pelo critério de Anselmo Borges e do papa Chiquitito, o aborto não é uma “heresia da Igreja Católica”

 

papa-freak-webO Anselmo Borges tem escrito uma saga intitulada “As dez heresias do catolicismo actual”; mas, nessas heresias, ele não inclui a defesa da legalização do aborto — porque ele próprio defende a legalização do aborto.

Ou seja, as “heresias da Igreja Católica” são aquelas com as quais o Anselmo Borges não concorda; e porque ele concorda com a legalização do aborto, então segue-se que a defesa do aborto não é uma heresia da Igreja Católica.

Afinal, “¿quem é ele para julgar?!” — ele só julga o que lhe interessa… por exemplo, ele julga os “heréticos da Igreja Católica”: mas já não julga a defesa do aborto. No que diz respeito à legalização do aborto — e segundo o Anselmo Borges e o papa Chicão —, ninguém tem o direito de emitir juízos de valor.

O Anselmo Borges faz lembrar os escribas, do tempo de Jesus Cristo: estabelecem a lei segundo critérios subjectivos e políticos, a mando dos fariseus que controlam a actual Igreja Católica comandada pelo papa Chiquinho.

Sábado, 2 Julho 2016

O Anselmo Borges e a privatização da religião

 

A privatização da religião — a remessa do culto religioso para os lares privados — é uma característica do protestantismo, em contraponto ao catolicismo tradicional. O catolicismo sempre celebrou a religião em locais públicos e em comunidade alargada.

Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia em casas particulares, com todos à volta da mesma mesa; ali, pela primeira vez na história, escravos e senhores sentaram-se uns ao lado dos outros. De acordo com o Novo Testamento, "nem sequer era o presbítero que presidia à celebração, embora pouco a pouco se tenha imposto que o presidente da Eucaristia fosse aquele que presidia à comunidade, talvez para aprender que devia exercer a autoridade não impositivamente, mas igualitariamente, e procurando o máximo de comunhão possível".

Quando os cristãos se tornaram multidão, foram necessários locais amplos, o latim deixou de ser entendido pelo povo, os assistentes já não participavam, com o celebrante de costas e à distância e as pessoas a fazerem "outra coisa" (rezar o terço…) enquanto "estão na Missa", atentos ao momento da "consagração" e, depois, alguns vão receber a hóstia. Tudo se centrou no culto da hóstia, "totalmente separado do gesto do partir, partilhar o pão". Da refeição passou-se a um acto de culto, com uma deturpação fundamental da Eucaristia: "Separar completamente a matéria (pão e vinho) do gesto (partilhá-los)", quando "partir o pão significa compartilhar a necessidade humana (da qual o pão é símbolo primário) e passar a taça é comunicar a alegria, da qual o vinho é outro símbolo humano ancestral". O corpo e o sangue são a pessoa e a vida de Jesus vivo.”

Anselmo Borges

1/ Convém dizer o seguinte: os historiadores (Boak, Russell, MacMullen, Wilken) apontam para uma população total de cerca de 60 milhões de pessoas em toda a área do império romano, após a crucificação de Jesus Cristo. O Cristianismo, então nascente, é considerado um fenómeno sociológico, que passou de 1.000 seguidores (no total) no ano 40 d.C., para 7.500 no ano 100 d.C., 218.000 no ano 200 d.C., e seis milhões no ano 300 d.C..

Quando as comunidades cristãs atingiram as muitas centenas de milhares de pessoas, o comunitarismo de que fala o Anselmo Borges deixou de ser possível, em termos práticos, nas diversas comunidades cristãs no império romano.

Ou seja, o comunitarismo cristão do “tudo em comum”, segundo o Anselmo Borges, só foi praticamente possível enquanto a população cristã total, e em todo o império romano, era apenas de alguns milhares — no século I da nossa Era.

Comparar as comunidades dos cristãos do século I, por um lado, com a realidade do século III, por outro lado e por exemplo, ou com a realidade actual — como faz o Anselmo Borges —, é um sofisma; e só se compreende esse sofisma do Anselmo Borges por má fé, porque se trata de um professor universitário. Por um lado, parece que o Anselmo Borges defende a remessa do culto cristão para as casas particulares; e por outro lado, o Anselmo Borges não tem em conta o aspecto místico da Eucaristia e só valoriza o aspecto político da repartição do pão e do vinho: para o Anselmo Borges, a Eucaristia é um rito estritamente político.

2/ O Anselmo Borges critica o “culto da hóstia” — como se pudesse existir religião propriamente dita sem culto. “Culto” vem de “cultura”. Sem cultura não há religião nem civilização. Encarar o “culto da hóstia” como coisa negativa é detractar a religião cristã — para além de retirar da Eucaristia o seu aspecto místico.

3/ Na Idade Média, antes da Reforma e da Contra-Reforma que tornaram o Cristianismo mundano, a comunhão eucarística nas paróquias efectuava-se na Páscoa, no Natal e no Pentecostes — emulando, aliás, Jesus Cristo que celebrou a Eucaristia uma só vez e na Páscoa. Muitas paróquias só comungavam na Páscoa; e a comunhão precisava de ser preparada com antecedência, pelo jejum, pela abstinência, e pela confissão (e a confissão era pública: o confessionário só surgiu no século XVI). E a comunhão eucarística terminava com a festa na paróquia.

A festa que se seguia à Eucaristia comunitária da Páscoa, nas paróquias, era muitas vezes realizada na própria nave da igreja (não existia outro espaço comunitário acolhedor), com um jantar comunitário de cordeiro Pascal ou coisa parecida.

Com o puritanismo protestante, e a imitação da Igreja Católica (da Contra-Reforma) em relação ao protestantismo, levou a que um acto ritual (a Eucaristia colectiva) que se realizava poucas vezes por ano, passou a realizar-se todos os Domingos, retirando-lhe a índole excepcional que tinha nos séculos anteriores.

4/ A ideia do Anselmo Borges segundo a qual a missa medieval só se realizava em latim, é falsa.

No fim da comunhão do sacerdote, a missa medieval continuava com orações em língua indígena — aquilo a que os ingleses chamavam de “bedes” e os franceses de “prone” —, orações ditas na própria língua em intenção da comunidade, familiares, amigos e inimigos, pelos vivos e pelos mortos. Portanto, é falso que a missa medieval fosse toda ela rezada em latim.

Sexta-feira, 1 Julho 2016

O papa Chiquinho diz que “devemos pedir desculpas aos gays”

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 7:25 pm
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Quarta-feira, 29 Junho 2016

As filhas-da-putice do papa Chico

 

Eu sinto pelo papa Chiquinho um desprezo profundo; não é ódio: é desprezo. Quando odiamos alguém, damos-lhe valor; o desprezo reduz o valor de uma pessoa a zero.

Podemos ver aqui o elenco de algumas das filhas-da-putice do papa Chiquitito.

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A última filha-da-putice do Chico foi a de ter dito que “os católicos deveriam pedir desculpa aos gays”; a criatura confunde propositadamente e colocando no mesmo plano de juízo, a condição homossexual, por um lado, e o acto homossexual, por outro lado. O papa-açorda segue o princípio luterano de justificação moral pela fé: “os actos não contam: o que conta é a putativa fé subjectiva que alguém possa alegar que tem”.

Nota bem: eu não tenho nada contra os luteranos: cada um é livre de pensar o que quiser. Mas o papa Chico não é livre para seguir Lutero. E o luteranismo do Chico só se aplica aos católicos: por muita fé que estes tenham, terão que expiar e penitenciar-se pelos seus actos contra os gays  — ao passo que os gays justificam-se a si próprios apenas e só pela sua putativa e alegada fé.

O papa Chico é perigoso, porque, pela primeira vez, um papa nega o Direito Natural.

A negação do Direito Natural é uma característica do actual “império do Direito Positivo”, em que o Direito perdeu os seus fundamentos metajurídicos e tornou-se absolutamente arbitrário e discricionário, abrindo um campo fértil para a proliferação de novos totalitarismos.

Conforme escreveu Grócio, o Direito Natural é a priori (e por isso é o fundamento metajurídico do Direito), ao passo que o Direito Positivo (o Direito Voluntário ou Humano) é a posteriori.

O Direito Natural é definido por Grócio como “o comando da recta razão que aponta a fealdade moral ou a necessidade moral inerente a uma acção qualquer, mediante acordo ou desacordo dessa acção com a própria natureza racional”.

É racional respeitar a condição humana de um homossexual — e por isso é que o catecismo apela a esse respeito. Mas também é racional repudiar, por exemplo, os actos de sodomia; e sobretudo é racional repudiar a livre adopção de crianças por pares de invertidos ou as "barrigas de aluguer" (porque, neste caso, os actos de sodomia já envolvem pessoas inocentes).

Só o Direito Natural fornece o critério do justo e do injusto. E Grócio acrescenta: “entende-se por injusto aquilo que repugna necessariamente a natureza racional e social”.

Maltratar um gay (ou qualquer pessoa) sem nenhuma razão plausível, é racional e socialmente repugnante; mas dizer que “não podemos julgar quaisquer actos de outrem” também é repugnante, não só porque é irracional e auto-contraditório — na medida em que o papa Chico emite um juízo de valor que nega aos outros a possibilidade de emitir um determinado juízo de valor —, mas também porque é anti-social na medida em que apela à repressão e privatização do próprio juízo de valor.

Segunda-feira, 27 Junho 2016

O politicamente correcto diz que a moral católica reprime a sexualidade

 

O jornal Púbico publica um artigo da autoria da jornalista Ana Cristina Pereira, com o título “A prostituição diz muito sobre a sociedade”, que aborda o episódio das “Mães de Bragança”.

O artigo é uma crítica cultural ao homem/marido [de Bragança, neste caso — mas extensível ao marido em geral], e uma tentativa de vitimização da esposa, por um lado, e por outro lado incute a ideia da prostituta como uma espécie de “instrumento de revolução cultural”. E o corolário dessa revolução cultural está expresso no fim do texto, no seguinte trecho:

«Algumas mulheres [de Bragança] “começaram a deixar esturricar a comida, a tolerar os buracos nas meias dos maridos, a desleixar-se nas tarefas domésticas”, garante o sociólogo. Arranjaram tempo para frequentar salões de beleza, cuidar mais da sua imagem. E “a estabilidade matrimonial começou a ceder à influência de novas correntes socioculturais, propensas à valorização dos enlaces efectivos eróticos e não apenas à dos vínculos patrimoniais”.»

Naturalmente que uma “revolução” pressupõe, no pensamento mitológico da nossa actual cultura, uma melhoria e um progresso [entendido como “lei da Natureza”] em relação a condições anteriormente existentes. Mas o mais espantoso, no artigo, é a utilização sistemática da falácia da generalização: qualquer caso particular é generalizado em nome da “ciência social” de um tal José Machado Pais.
O corolário da tese ideológica do texto é a necessidade de precarização dos laços do casamento em nome da libertação da mulher; e, por outro lado, “quando um homem casado vai ao bar de alterne é sinal de quebra de estabilidade conjugal, diz o investigador”. E, a ida do homem [em geral, o que constitui uma falácia da generalização] ao bordel significa [segundo o artigo] “um afrouxar da ordem moralista ou repressiva” — e aqui está, na berlinda, a moral católica.

Ou seja, segundo o artigo, a existência de prostitutas até é uma coisa boa conquanto vá contra “a moral católica sexualmente repressiva”.


prostit-imNo século XV, e nas cidades da Europa, o bordel contribuía para a manutenção da paz social, e neste sentido, era uma “instituição católica”. Em meados do século XVI, o papado, para responder às críticas protestantes [Reforma], sentiu-se forçado a emitir uma defesa deste tipo [“o bordel contribui para a manutenção da paz social”] para justificar a existência dos “banhos públicos” em Roma. Ou seja, ao contrário do que dizem implicitamente a “jornalista” e o “sociólogo”, a moral católica não reprimia a prostituição [na Idade Média]; e a atitude tolerante de Salazar em relação à prostituição reflecte essa tradição católica medieval — que depois foi contrariada pela Contra-Reforma que, no fundo, imitou a Reforma.

A repressão [política] da prostituição iniciou-se com a Reforma protestante; e, de certo modo, essa “repressão sexual” foi imitada pela Contra-Reforma católica através da influência dos jesuítas na Igreja Católica. Em geral — e não só em relação às prostitutas —, antes da Reforma, as relações sexuais aconteciam frequentemente antes da actual “idade adulta” [21 anos]. A Igreja Católica medieval instituiu a figura cultural do padrinho de baptismo, que impedia que um homem mais velho pudesse ter relações sexuais com uma jovem afilhada com quem tinha um “relacionamento espiritual”; e era vulgar [na Idade Média] que uma menina pudesse ter vários padrinhos de baptismo: só depois da Reforma e da Contra-Reforma, o padrinho de baptismo passou a ser um só, e a sua figura foi desvalorizada pelo protestantismo.

Em consequência da repressão da prostituição, a partir do século XVII, (e da repressão sexual em geral), os casamentos passaram a realizar-se mais tarde na vida das pessoas, por um lado, e por outro lado, a idade dos nubentes passou a ser semelhante.


Não estou aqui a defender a prostituição; o que eu quero dizer é que é falso que a Igreja Católica tenha sempre reprimido a prostituição — porque os católicos medievais já tinham compreendido, mesmo sem dados científicos objectivos, que a mulher produz 400 óvulos durante toda a sua vida, ao passo que o homem produz biliões de espermatozóides. É a p*ta da realidade!

Sábado, 25 Junho 2016

O protestantismo de Anselmo Borges

 

O Anselmo Borges escreve o seguinte:

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale."

As dez heresias do catolicismo actual (1)



Em traços muito gerais e básicos, podemos distinguir os católicos, os luteranos e os calvinistas da seguinte forma:

1/ Os católicos seguiam a doutrina da salvação de S. Anselmo (baseada em Santo Agostinho), segundo a qual o pecado humano poderia ser resgatado por intermédio da expiação e da penitência, através das quais o ser humano se tornaria “amigo de Deus” através da Graça; ou seja, segundo a Igreja Católica tradicional, existe uma relação “social” cognoscível entre Deus e o ser humano (a ideia cristã de Deus como “Pai”).

2/ Lutero convenceu-se (seguindo a ideia de Erasmo de Roterdão) de que a ideia de expiação do/pelo pecado, estava contra o Evangelho; e que todas as formas de comportamento penitencial ou compensatório eram inúteis — através de uma interpretação enviesada de S. Paulo. Ao dizer que estamos desculpados só porque temos fé, ou apenas pela dádiva gratuita de uma Graça que é recebida em um estado de desconfiança quanto à bondade de Deus, Lutero estava a dizer ao seu povo que a expiação ou a reparação dos actos eram irrelevantes para a reconciliação com Deus; ou que, se pensavam que Deus ficaria satisfeito com os actos compensatórios realizados em relação ao outro, estavam enganados.

Ao contrário de S. Anselmo, o pensamento de Lutero não partiu da relação entre o Pai e o Filho.

O que em Anselmo era uma oferta adequada de compensação para afastar a justa vingança de Deus, e reatar as relações amigáveis entre Deus ofendido e o homem ofensor, foi adaptado por Lutero como uma submissão ao castigo exigido por uma ofensa criminal (introdução ao Direito Positivo, que culminou em Grócio) de carácter público. Na teoria criminal e penal de Lutero sobre a expiação, não havia “troca” entre Deus e o pecador: as partes não eram propriamente “reconciliadas” no sentido em que os dois se poderiam transformar em um só, uma vez que o acto de reconciliação era puramente unilateral e unívoco (de Deus para o homem).

Não havia, em Lutero (e ao contrário do que acontecia em Anselmo, que explicava a relação de Jesus Cristo e Deus através do parentesco entre o Pai e o Filho), nenhum axioma natural ou social para explicar a ideia segundo a qual Jesus era um substituto do ser humano em geral, na relação com Deus.

3/ Calvino, nas “Instituições” [II XVI – XVII], representou em Cristo “as penas propostas a ladrões e malfeitores”, evocando a agonia que Cristo sentiu na cruz ao ser finalmente julgado pelo Pai, e “sofreu na sua alma os terríveis tormentos de um condenado e escorraçado”. Calvino aplicou à justiça divina a moderna analogia da lei do Direito Positivo, que já estava, de certo modo, implícita (mas não explícita) em Lutero — e de tal modo que o mistério da reconciliação com Deus, de Lutero, se transformou, com Calvino, na doutrina da predestinação.

Eu penso que o raciocínio do Anselmo Borges se aproxima do Calvinismo, ou pelo menos do luteranismo.

Quinta-feira, 23 Junho 2016

O puritanos da Esquerda moderna, e os puritanos do século XVII (parte 1)

 

Os Ranters eram uma seita calvinista inglesa do século XVII. Juntamente com os Seekers e com os Quakers, formavam as principais seitas calvinistas em Inglaterra.

quakerOs Ranters, que interpretavam a sua própria vitória sobre o “corpo” e sobre a “carne” (sobre a “matéria”, em termos gerais) denominando-se a eles próprios como o “corpo de Deus” — defendiam o fim da hierarquia social e o fim da propriedade privada, para além de serem contra o casamento monogâmico e contra a privacidade da família nuclear tradicional, porque diziam eles que a propriedade privada e o casamento monogâmico eram obstáculos à formação de uma verdadeira comunidade (tal como Engels defenderia dois séculos mais tarde).

Mas, ao mesmo tempo que queriam abolir a hierarquia social e a propriedade privada, os Ranters acreditavam na predestinação da “salvação dos eleitos”; e eles consideravam-se a si próprios como os “eleitos”. Ou seja, só os eleitos — eles próprios — seriam salvos, e por isso toda a gente deveria pensar como eles para serem salvos.

Temos aqui a génese do pensamento totalitário da Esquerda moderna.

Os Quakers e os Seekers não diferiam muito dos Ranters. Os Seekers, para além de concordarem com a doutrina dos Ranters, eram uma seita terrorista: para eles, não era suficiente que os “eleitos” se mantivessem fora do mundo (vivendo em uma espécie de apartheid): deviam pegar em armas, destruir todos os governos existentes, e erigir um regime teocrático (totalitário), com uma disciplina divina.

Se retirarmos dessas crenças calvinistas os conceitos de “Cristo” e de “Espírito”, vemos semelhanças com a Esquerda. É neste sentido que Eric Voegelin tem razão quando relaciona espistemologicamente os gnósticos da Antiguidade Tardia, os movimentos puritanos do século XVI, e o movimento revolucionário do século XIX e seguintes.

Terça-feira, 21 Junho 2016

O nominalismo do papa Chico

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:35 am
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O papa Chiquinho disse recentemente duas coisas: 1/ que a maioria dos casamentos católicos são inválidos; 2/ que conhece casos de união-de-facto que, estes sim!, são realmente “casamentos”.

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O Chico segue a tradição dos jesuítas que inventaram a “casuística”. A casuística defende a ideia de que não existem regras, nem excepções — senão quando nos dá jeito que existam. Para o Chiquinho, não existe o juízo universal (o que é também uma característica do politicamente correcto). E o Chico serve-se da casuística para malhar nos católicos. O papa Chiquitito adora bater nos católicos.

Em vez de combater uma determinada cultura politicamente correcta, o Chico combate as pessoas. O alvo dele não é a ideologia da moda: são as pessoas — o que é uma forma de camuflar a ideologia.


papa-freak-webO nominalismo é a teoria segundo a qual “nada há de universal no mundo para além das denominações, porque as coisas nomeadas são todas individuais e singulares”. O Nominalismo nega a existência dos géneros e das espécies que, alegadamente, não existiriam senão em nome.

Por exemplo, segundo o nominalismo (se levarmos o conceito até às suas últimas consequências), não existe a categoria de “ser humano”: em vez disso, existe apenas o Manuel, o José, o Roberto, etc.. O conceito de “ser humano” é apenas uma etiqueta (segundo os nominalistas), graças à qual podemos representar a classe de indivíduos; as ideias gerais (representadas por categorias) não têm um objecto real: são apenas abstracções obtidas por intermédio da linguagem. Ou seja, o nominalismo defende a ideia segundo a qual as coisas ou objectos da experiência não têm realidade intrínseca fora da linguagem que as descreve.

Mas os nominalistas não fazem a seguinte pergunta: se o Manuel e o Joaquim são diferentes, ¿qual é a razão das semelhanças entre os dois?

Partindo do princípio evidente de que o Manuel e o Joaquim são semelhantes (embora não sejam idênticos), a razão das semelhanças entre os dois deve ser, com certeza, objectiva. Ou seja, a razão das semelhanças entre o Manuel e o Joaquim não é uma “abstracção”, no sentido de “inexistente” ou “irreal”.

O nominalismo do papa Chico é uma forma de materialismo.


Na Idade Média, a cerimónia do casamento dito “católico” realizava-se fora da igreja.

As igrejas, em geral, tinham uma porta lateral e secundária, onde, no limiar da porta, o Padre coordenava as cerimónias de casamento: os nubentes, familiares e convidados permaneciam fora da igreja. Só depois dos votos, da troca de alianças e do aperto de mão (os noivos medievais não davam beijo na boca: apertavam as mãos, por um lado, e por outro lado davam apenas o “beijo da paz” na face), então entravam todos para a igreja para a celebração da missa. Ou seja, separava-se o profano, por um lado, do sagrado, por outro lado: a Igreja Católica da Idade Média considerava a cerimónia do casamento um acto profano e secular.

Na Idade Média não era necessária a presença de um Padre para o casamento, que se caracterizava como um acto social e secular. A cerimónia do casamento poderia ser efectuada sem a presença do Padre, por exemplo, em um notário; e se o casamento fosse completado por relações sexuais, criava, segundo os cânones católicos e prática existentes, um casamento legal e sagrado. Colocado no limiar da porta da igreja, o Padre não estava a celebrar ou a administrar um sacramento, mas antes a verificar a adequada conduta de uma operação social que tinha muito mais de profano do que de sagrado. O sacramento do casamento católico seria administrado mais tarde, durante a missa, em que estavam presentes os noivos, famílias, e convidados.

A situação mudou por causa dos alegados “casamentos clandestinos” que punham em causa as heranças. O mundo secular e político pressionou a Igreja Católica no sentido da mudança de postura em relação ao casamento.

Na Idade Média era relativamente normal que um casal procurasse um Padre para se casarem de forma “clandestina” — ou seja, sem conhecimento das respectivas famílias. O Padre casava-os, desde que ambos fossem mentalmente idóneos e tivessem atingido a puberdade. Mas, muitas vezes, as respectivas famílias tinham outros planos, e tinham já casamentos arranjados com filhos ou filhas de famílias ricas.

Ou seja, a Igreja Católica ia muitas vezes, sem querer, contra interesses materiais privados das heranças: segundo a doutrina mantida pelos teólogos do século XII, bastava uma troca de consentimentos e de palavras adequadas entre duas pessoas fisicamente capazes e frente a um sacerdote, em qualquer circunstância e de qualquer forma, se verificasse um casamento sacramentado. Isto significava que o casamento — segundo a Igreja Católica medieval — era possível sem a participação dos pais ou sem uma série de rituais sociais e profanos.

Perante a pressão do Poder político sobre a Igreja Católica no sentido de mudar a sua doutrina acerca do casamento, os jesuítas aproveitaram a oportunidade para controlar totalmente a instituição casamento. O cardeal Morone (um apoiante dos jesuítas) surgiu com a ideia segundo a qual a Igreja Católica deveria aceitar a invalidação dos casamentos “clandestinos”, mas alterando a definição de “clandestinidade”. Os jesuítas são inteligentes, mas de uma inteligência perversa.

No futuro (a partir de meados do século XVI), todos os casamentos deveriam ser administrados pela Igreja Católica, perante o pároco e as testemunhas. Acabaram os casamentos “clandestinos” que pusessem em causa as heranças; e os nubentes eram exortados — mas não obrigados — a adiar as relações sexuais para depois da bênção do casamento durante a missa nupcial. Acabaram as cerimónias de casamento à porta da igreja. Ao afastar a doutrina da lei canónica, segundo a qual um contrato matrimonial seguido de copula carnis constituía um casamento cristão (ignorando o vasto conjunto de ritos sociais profanos), o casamento deixou de ser um processo social que a Igreja Católica garantia, para passar a ser um processo eclesiástico que a Igreja Católica administrava — conforme o Ritual Romano de 1612, que deslocou o rito cumprido a porta da igreja para o altar, e que passou a dar pouca atenção às tradições da Europa católica.

Ou seja, o papa Chico, aparentemente, tem razão. Mas só aparentemente. Para que um casamento seja cristão, não necessita de um Padre, nem que seja realizado dentro de uma igreja. Mas ele não tem razão quando se esquece que, mesmo que um casamento se realize à porta da igreja, só será cristão quando os casados adoptem um projecto de vida que passa pela fé cristã.

Domingo, 19 Junho 2016

Anselmo Borges e os podres da Igreja Católica

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:06 am
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Parece que, para o Anselmo Borges, a Igreja Católica anterior ao Concílio do Vaticano II, só tem defeitos. Depois do Vaticano II, “o Sol nasceu para a Igreja Católica e para a humanidade”, os amanhãs passaram a cantar, a realidade transmutou-se por intermédio de uma fé metastática.

Anselmo Borges faz de conta que não sabe que o único “progresso” que existe, de facto, está na ciência. Falar em “progresso da sociedade” é demagogia política: por exemplo, se a escravatura tradicional foi abolida, criaram-se entretanto outras formas modernas de escravatura que não são menos perversas. Vou dar aqui um exemplo.

Na Idade Média, os mendigos andavam livres nas ruas das povoações e cidades; e quando pediam esmola a um rico burguês ou a um nobre, quem lhes dava a esmola pedia em troca uma oração pela sua alma. Ou seja, a mendicidade era uma profissão socialmente útil, porque quem dava esmola recebia qualquer coisa em troca.

A partir do momento em que a Reforma retirou à penitência religiosa, por um lado, e à acção moral individual, por outro lado, a sua importância tradicional medieval, o Estado tomou conta da vida dos indivíduos.

E como a mendicidade não acabava, o Estado passou a restringir a liberdade dos mendigos naquilo a que Foucault chamou de “Grande Encarceramento”: os mendigos deixaram de ser úteis à sociedade, e passaram a ser reprimidos e encarcerados. Através da rotulagem do “pobre” e de sinais distintivos afins, a caridade católica da Idade Média que se caracterizava por um modo de relação, transformava-se, no mundo moderno dos “direitos humanos” do Estado, em um modo de segregação.

E Anselmo Borges chamaria a isto “progresso”. A ideia de que “o progresso é uma lei da natureza” é própria de uma mente doente.

Sábado, 18 Junho 2016

O catecismo da Igreja Católica

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:33 pm
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homossexualidade_catecismo

2357 A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (103) a Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (104). São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados.

catecismo da Igreja Católica

Antes de mais, vamos saber o que significa “catecismo”.


Na Alta Idade Média, “catecismo” era um ritual exorcista católico efectuado antes do baptismo de uma criança. Quando uma criança nascia, o Padre era imediatamente chamado para exorcizar a criança, ou seja para operar o catecismo da criança; e o baptismo podia esperar: só mais tarde, às vezes meses depois, é que a criança era baptizada.

A partir do século XIII, a palavra “catecismo” sofreu lentamente uma deslocação semântica: passou a designar o ensino oral da doutrina da Igreja Católica às crianças, que era principalmente função dos padrinhos de baptismo da criança, e principalmente da madrinha.

Com a descoberta da imprensa por Gutemberg no século XV, a doutrina da Igreja Católica passou a ser impressa em latim, e a Igreja Católica chamou a si o ensino do catecismo (já com o novo sentido semântico de “ensino da doutrina”). O catecismo passou a ser ensinado às crianças nas paróquias, nas igrejas (nas línguas locais, e não em latim), mosteiros e outras instituições católicas, e os padrinhos perderam o protagonismo no ensino da doutrina. Em alguns países, como por exemplo em Itália, a Igreja Católica criou escolas especializadas no ensino do catecismo para as crianças, nas principais cidades, e o catecismo passou a ser impresso nas línguas nacionais; estamos no século XVI.

No princípio do século XVII, as instituições da Igreja Católica que ensinavam o catecismo passaram também a ensinar às crianças a “civilidade cristã” (as boas maneiras), e no fim desse século passaram também a alfabetizar as crianças.

Tinha nascido a escola primária na Europa.

Portanto, desde sempre, o catecismo era dirigido às crianças, e não aos adultos. Só com a modernidade os adultos passaram a ser tratados como crianças, e o catecismo assumiu uma função de referência da doutrina para adultos. Não passaria pela cabeça de ninguém, na Idade Média, que o catecismo não fosse uma forma de exorcismo do pecado original, e por isso apenas dirigido às crianças.

De modo semelhante, a palavra “religião” (religio) tinha função concreta e designava uma qualquer instituição católica, por exemplo, uma Ordem religiosa (dominicanos, franciscanos, etc). O conceito de “religião”, concebida fora do concreto, não existia na Idade Média. A abstracção do conceito de “religião” teve origem nos naturalistas renascentistas; para o homem medieval (até ao século XVI), a religião era como o ar que ele respirava: fazia parte dele, e não fazia qualquer sentido definir “religião”.

Mesmo que no catecismo não existisse a classificação do acto homossexual como sendo pecado (o que não é verdade hoje, mas era verdade na Idade Média), e sendo que o catecismo (em minha opinião, como é óbvio) ainda hoje se destina a crianças, seria perfeitamente natural que nele não houvesse qualquer alusão à homossexualidade. Não faz qualquer sentido ensinar às crianças que tomar no cu e chupar pica é pecado.

Para os adultos, basta ler S. Paulo (ou alguém que leia e recite) — “passiones ignominiae”, “usum contra naturam” et “turpitudinem operantes” (Romanos 1, 26-27) — para saber que o acto homossexual é pecado.

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