perspectivas

Quarta-feira, 29 Junho 2016

As filhas-da-putice do papa Chico

 

Eu sinto pelo papa Chiquinho um desprezo profundo; não é ódio: é desprezo. Quando odiamos alguém, damos-lhe valor; o desprezo reduz o valor de uma pessoa a zero.

Podemos ver aqui o elenco de algumas das filhas-da-putice do papa Chiquitito.

papa-açorda

A última filha-da-putice do Chico foi a de ter dito que “os católicos deveriam pedir desculpa aos gays”; a criatura confunde propositadamente e colocando no mesmo plano de juízo, a condição homossexual, por um lado, e o acto homossexual, por outro lado. O papa-açorda segue o princípio luterano de justificação moral pela fé: “os actos não contam: o que conta é a putativa fé subjectiva que alguém possa alegar que tem”.

Nota bem: eu não tenho nada contra os luteranos: cada um é livre de pensar o que quiser. Mas o papa Chico não é livre para seguir Lutero. E o luteranismo do Chico só se aplica aos católicos: por muita fé que estes tenham, terão que expiar e penitenciar-se pelos seus actos contra os gays  — ao passo que os gays justificam-se a si próprios apenas e só pela sua putativa e alegada fé.

O papa Chico é perigoso, porque, pela primeira vez, um papa nega o Direito Natural.

A negação do Direito Natural é uma característica do actual “império do Direito Positivo”, em que o Direito perdeu os seus fundamentos metajurídicos e tornou-se absolutamente arbitrário e discricionário, abrindo um campo fértil para a proliferação de novos totalitarismos.

Conforme escreveu Grócio, o Direito Natural é a priori (e por isso é o fundamento metajurídico do Direito), ao passo que o Direito Positivo (o Direito Voluntário ou Humano) é a posteriori.

O Direito Natural é definido por Grócio como “o comando da recta razão que aponta a fealdade moral ou a necessidade moral inerente a uma acção qualquer, mediante acordo ou desacordo dessa acção com a própria natureza racional”.

É racional respeitar a condição humana de um homossexual — e por isso é que o catecismo apela a esse respeito. Mas também é racional repudiar, por exemplo, os actos de sodomia; e sobretudo é racional repudiar a livre adopção de crianças por pares de invertidos ou as "barrigas de aluguer" (porque, neste caso, os actos de sodomia já envolvem pessoas inocentes).

Só o Direito Natural fornece o critério do justo e do injusto. E Grócio acrescenta: “entende-se por injusto aquilo que repugna necessariamente a natureza racional e social”.

Maltratar um gay (ou qualquer pessoa) sem nenhuma razão plausível, é racional e socialmente repugnante; mas dizer que “não podemos julgar quaisquer actos de outrem” também é repugnante, não só porque é irracional e auto-contraditório — na medida em que o papa Chico emite um juízo de valor que nega aos outros a possibilidade de emitir um determinado juízo de valor —, mas também porque é anti-social na medida em que apela à repressão e privatização do próprio juízo de valor.

Segunda-feira, 27 Junho 2016

O politicamente correcto diz que a moral católica reprime a sexualidade

 

O jornal Púbico publica um artigo da autoria da jornalista Ana Cristina Pereira, com o título “A prostituição diz muito sobre a sociedade”, que aborda o episódio das “Mães de Bragança”.

O artigo é uma crítica cultural ao homem/marido [de Bragança, neste caso — mas extensível ao marido em geral], e uma tentativa de vitimização da esposa, por um lado, e por outro lado incute a ideia da prostituta como uma espécie de “instrumento de revolução cultural”. E o corolário dessa revolução cultural está expresso no fim do texto, no seguinte trecho:

«Algumas mulheres [de Bragança] “começaram a deixar esturricar a comida, a tolerar os buracos nas meias dos maridos, a desleixar-se nas tarefas domésticas”, garante o sociólogo. Arranjaram tempo para frequentar salões de beleza, cuidar mais da sua imagem. E “a estabilidade matrimonial começou a ceder à influência de novas correntes socioculturais, propensas à valorização dos enlaces efectivos eróticos e não apenas à dos vínculos patrimoniais”.»

Naturalmente que uma “revolução” pressupõe, no pensamento mitológico da nossa actual cultura, uma melhoria e um progresso [entendido como “lei da Natureza”] em relação a condições anteriormente existentes. Mas o mais espantoso, no artigo, é a utilização sistemática da falácia da generalização: qualquer caso particular é generalizado em nome da “ciência social” de um tal José Machado Pais.
O corolário da tese ideológica do texto é a necessidade de precarização dos laços do casamento em nome da libertação da mulher; e, por outro lado, “quando um homem casado vai ao bar de alterne é sinal de quebra de estabilidade conjugal, diz o investigador”. E, a ida do homem [em geral, o que constitui uma falácia da generalização] ao bordel significa [segundo o artigo] “um afrouxar da ordem moralista ou repressiva” — e aqui está, na berlinda, a moral católica.

Ou seja, segundo o artigo, a existência de prostitutas até é uma coisa boa conquanto vá contra “a moral católica sexualmente repressiva”.


prostit-imNo século XV, e nas cidades da Europa, o bordel contribuía para a manutenção da paz social, e neste sentido, era uma “instituição católica”. Em meados do século XVI, o papado, para responder às críticas protestantes [Reforma], sentiu-se forçado a emitir uma defesa deste tipo [“o bordel contribui para a manutenção da paz social”] para justificar a existência dos “banhos públicos” em Roma. Ou seja, ao contrário do que dizem implicitamente a “jornalista” e o “sociólogo”, a moral católica não reprimia a prostituição [na Idade Média]; e a atitude tolerante de Salazar em relação à prostituição reflecte essa tradição católica medieval — que depois foi contrariada pela Contra-Reforma que, no fundo, imitou a Reforma.

A repressão [política] da prostituição iniciou-se com a Reforma protestante; e, de certo modo, essa “repressão sexual” foi imitada pela Contra-Reforma católica através da influência dos jesuítas na Igreja Católica. Em geral — e não só em relação às prostitutas —, antes da Reforma, as relações sexuais aconteciam frequentemente antes da actual “idade adulta” [21 anos]. A Igreja Católica medieval instituiu a figura cultural do padrinho de baptismo, que impedia que um homem mais velho pudesse ter relações sexuais com uma jovem afilhada com quem tinha um “relacionamento espiritual”; e era vulgar [na Idade Média] que uma menina pudesse ter vários padrinhos de baptismo: só depois da Reforma e da Contra-Reforma, o padrinho de baptismo passou a ser um só, e a sua figura foi desvalorizada pelo protestantismo.

Em consequência da repressão da prostituição, a partir do século XVII, (e da repressão sexual em geral), os casamentos passaram a realizar-se mais tarde na vida das pessoas, por um lado, e por outro lado, a idade dos nubentes passou a ser semelhante.


Não estou aqui a defender a prostituição; o que eu quero dizer é que é falso que a Igreja Católica tenha sempre reprimido a prostituição — porque os católicos medievais já tinham compreendido, mesmo sem dados científicos objectivos, que a mulher produz 400 óvulos durante toda a sua vida, ao passo que o homem produz biliões de espermatozóides. É a p*ta da realidade!

Sábado, 25 Junho 2016

O protestantismo de Anselmo Borges

 

O Anselmo Borges escreve o seguinte:

Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício. Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo. Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo. "O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção "sadomasoquista", com a perversão de uma grande verdade: "Tudo o que vale custa" transformou-se num falso princípio: "Tudo o que custa vale."

As dez heresias do catolicismo actual (1)



Em traços muito gerais e básicos, podemos distinguir os católicos, os luteranos e os calvinistas da seguinte forma:

1/ Os católicos seguiam a doutrina da salvação de S. Anselmo (baseada em Santo Agostinho), segundo a qual o pecado humano poderia ser resgatado por intermédio da expiação e da penitência, através das quais o ser humano se tornaria “amigo de Deus” através da Graça; ou seja, segundo a Igreja Católica tradicional, existe uma relação “social” cognoscível entre Deus e o ser humano (a ideia cristã de Deus como “Pai”).

2/ Lutero convenceu-se (seguindo a ideia de Erasmo de Roterdão) de que a ideia de expiação do/pelo pecado, estava contra o Evangelho; e que todas as formas de comportamento penitencial ou compensatório eram inúteis — através de uma interpretação enviesada de S. Paulo. Ao dizer que estamos desculpados só porque temos fé, ou apenas pela dádiva gratuita de uma Graça que é recebida em um estado de desconfiança quanto à bondade de Deus, Lutero estava a dizer ao seu povo que a expiação ou a reparação dos actos eram irrelevantes para a reconciliação com Deus; ou que, se pensavam que Deus ficaria satisfeito com os actos compensatórios realizados em relação ao outro, estavam enganados.

Ao contrário de S. Anselmo, o pensamento de Lutero não partiu da relação entre o Pai e o Filho.

O que em Anselmo era uma oferta adequada de compensação para afastar a justa vingança de Deus, e reatar as relações amigáveis entre Deus ofendido e o homem ofensor, foi adaptado por Lutero como uma submissão ao castigo exigido por uma ofensa criminal (introdução ao Direito Positivo, que culminou em Grócio) de carácter público. Na teoria criminal e penal de Lutero sobre a expiação, não havia “troca” entre Deus e o pecador: as partes não eram propriamente “reconciliadas” no sentido em que os dois se poderiam transformar em um só, uma vez que o acto de reconciliação era puramente unilateral e unívoco (de Deus para o homem).

Não havia, em Lutero (e ao contrário do que acontecia em Anselmo, que explicava a relação de Jesus Cristo e Deus através do parentesco entre o Pai e o Filho), nenhum axioma natural ou social para explicar a ideia segundo a qual Jesus era um substituto do ser humano em geral, na relação com Deus.

3/ Calvino, nas “Instituições” [II XVI – XVII], representou em Cristo “as penas propostas a ladrões e malfeitores”, evocando a agonia que Cristo sentiu na cruz ao ser finalmente julgado pelo Pai, e “sofreu na sua alma os terríveis tormentos de um condenado e escorraçado”. Calvino aplicou à justiça divina a moderna analogia da lei do Direito Positivo, que já estava, de certo modo, implícita (mas não explícita) em Lutero — e de tal modo que o mistério da reconciliação com Deus, de Lutero, se transformou, com Calvino, na doutrina da predestinação.

Eu penso que o raciocínio do Anselmo Borges se aproxima do Calvinismo, ou pelo menos do luteranismo.

Quinta-feira, 23 Junho 2016

O puritanos da Esquerda moderna, e os puritanos do século XVII (parte 1)

 

Os Ranters eram uma seita calvinista inglesa do século XVII. Juntamente com os Seekers e com os Quakers, formavam as principais seitas calvinistas em Inglaterra.

quakerOs Ranters, que interpretavam a sua própria vitória sobre o “corpo” e sobre a “carne” (sobre a “matéria”, em termos gerais) denominando-se a eles próprios como o “corpo de Deus” — defendiam o fim da hierarquia social e o fim da propriedade privada, para além de serem contra o casamento monogâmico e contra a privacidade da família nuclear tradicional, porque diziam eles que a propriedade privada e o casamento monogâmico eram obstáculos à formação de uma verdadeira comunidade (tal como Engels defenderia dois séculos mais tarde).

Mas, ao mesmo tempo que queriam abolir a hierarquia social e a propriedade privada, os Ranters acreditavam na predestinação da “salvação dos eleitos”; e eles consideravam-se a si próprios como os “eleitos”. Ou seja, só os eleitos — eles próprios — seriam salvos, e por isso toda a gente deveria pensar como eles para serem salvos.

Temos aqui a génese do pensamento totalitário da Esquerda moderna.

Os Quakers e os Seekers não diferiam muito dos Ranters. Os Seekers, para além de concordarem com a doutrina dos Ranters, eram uma seita terrorista: para eles, não era suficiente que os “eleitos” se mantivessem fora do mundo (vivendo em uma espécie de apartheid): deviam pegar em armas, destruir todos os governos existentes, e erigir um regime teocrático (totalitário), com uma disciplina divina.

Se retirarmos dessas crenças calvinistas os conceitos de “Cristo” e de “Espírito”, vemos semelhanças com a Esquerda. É neste sentido que Eric Voegelin tem razão quando relaciona espistemologicamente os gnósticos da Antiguidade Tardia, os movimentos puritanos do século XVI, e o movimento revolucionário do século XIX e seguintes.

Terça-feira, 21 Junho 2016

O nominalismo do papa Chico

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:35 am
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O papa Chiquinho disse recentemente duas coisas: 1/ que a maioria dos casamentos católicos são inválidos; 2/ que conhece casos de união-de-facto que, estes sim!, são realmente “casamentos”.

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O Chico segue a tradição dos jesuítas que inventaram a “casuística”. A casuística defende a ideia de que não existem regras, nem excepções — senão quando nos dá jeito que existam. Para o Chiquinho, não existe o juízo universal (o que é também uma característica do politicamente correcto). E o Chico serve-se da casuística para malhar nos católicos. O papa Chiquitito adora bater nos católicos.

Em vez de combater uma determinada cultura politicamente correcta, o Chico combate as pessoas. O alvo dele não é a ideologia da moda: são as pessoas — o que é uma forma de camuflar a ideologia.


papa-freak-webO nominalismo é a teoria segundo a qual “nada há de universal no mundo para além das denominações, porque as coisas nomeadas são todas individuais e singulares”. O Nominalismo nega a existência dos géneros e das espécies que, alegadamente, não existiriam senão em nome.

Por exemplo, segundo o nominalismo (se levarmos o conceito até às suas últimas consequências), não existe a categoria de “ser humano”: em vez disso, existe apenas o Manuel, o José, o Roberto, etc.. O conceito de “ser humano” é apenas uma etiqueta (segundo os nominalistas), graças à qual podemos representar a classe de indivíduos; as ideias gerais (representadas por categorias) não têm um objecto real: são apenas abstracções obtidas por intermédio da linguagem. Ou seja, o nominalismo defende a ideia segundo a qual as coisas ou objectos da experiência não têm realidade intrínseca fora da linguagem que as descreve.

Mas os nominalistas não fazem a seguinte pergunta: se o Manuel e o Joaquim são diferentes, ¿qual é a razão das semelhanças entre os dois?

Partindo do princípio evidente de que o Manuel e o Joaquim são semelhantes (embora não sejam idênticos), a razão das semelhanças entre os dois deve ser, com certeza, objectiva. Ou seja, a razão das semelhanças entre o Manuel e o Joaquim não é uma “abstracção”, no sentido de “inexistente” ou “irreal”.

O nominalismo do papa Chico é uma forma de materialismo.


Na Idade Média, a cerimónia do casamento dito “católico” realizava-se fora da igreja.

As igrejas, em geral, tinham uma porta lateral e secundária, onde, no limiar da porta, o Padre coordenava as cerimónias de casamento: os nubentes, familiares e convidados permaneciam fora da igreja. Só depois dos votos, da troca de alianças e do aperto de mão (os noivos medievais não davam beijo na boca: apertavam as mãos, por um lado, e por outro lado davam apenas o “beijo da paz” na face), então entravam todos para a igreja para a celebração da missa. Ou seja, separava-se o profano, por um lado, do sagrado, por outro lado: a Igreja Católica da Idade Média considerava a cerimónia do casamento um acto profano e secular.

Na Idade Média não era necessária a presença de um Padre para o casamento, que se caracterizava como um acto social e secular. A cerimónia do casamento poderia ser efectuada sem a presença do Padre, por exemplo, em um notário; e se o casamento fosse completado por relações sexuais, criava, segundo os cânones católicos e prática existentes, um casamento legal e sagrado. Colocado no limiar da porta da igreja, o Padre não estava a celebrar ou a administrar um sacramento, mas antes a verificar a adequada conduta de uma operação social que tinha muito mais de profano do que de sagrado. O sacramento do casamento católico seria administrado mais tarde, durante a missa, em que estavam presentes os noivos, famílias, e convidados.

A situação mudou por causa dos alegados “casamentos clandestinos” que punham em causa as heranças. O mundo secular e político pressionou a Igreja Católica no sentido da mudança de postura em relação ao casamento.

Na Idade Média era relativamente normal que um casal procurasse um Padre para se casarem de forma “clandestina” — ou seja, sem conhecimento das respectivas famílias. O Padre casava-os, desde que ambos fossem mentalmente idóneos e tivessem atingido a puberdade. Mas, muitas vezes, as respectivas famílias tinham outros planos, e tinham já casamentos arranjados com filhos ou filhas de famílias ricas.

Ou seja, a Igreja Católica ia muitas vezes, sem querer, contra interesses materiais privados das heranças: segundo a doutrina mantida pelos teólogos do século XII, bastava uma troca de consentimentos e de palavras adequadas entre duas pessoas fisicamente capazes e frente a um sacerdote, em qualquer circunstância e de qualquer forma, se verificasse um casamento sacramentado. Isto significava que o casamento — segundo a Igreja Católica medieval — era possível sem a participação dos pais ou sem uma série de rituais sociais e profanos.

Perante a pressão do Poder político sobre a Igreja Católica no sentido de mudar a sua doutrina acerca do casamento, os jesuítas aproveitaram a oportunidade para controlar totalmente a instituição casamento. O cardeal Morone (um apoiante dos jesuítas) surgiu com a ideia segundo a qual a Igreja Católica deveria aceitar a invalidação dos casamentos “clandestinos”, mas alterando a definição de “clandestinidade”. Os jesuítas são inteligentes, mas de uma inteligência perversa.

No futuro (a partir de meados do século XVI), todos os casamentos deveriam ser administrados pela Igreja Católica, perante o pároco e as testemunhas. Acabaram os casamentos “clandestinos” que pusessem em causa as heranças; e os nubentes eram exortados — mas não obrigados — a adiar as relações sexuais para depois da bênção do casamento durante a missa nupcial. Acabaram as cerimónias de casamento à porta da igreja. Ao afastar a doutrina da lei canónica, segundo a qual um contrato matrimonial seguido de copula carnis constituía um casamento cristão (ignorando o vasto conjunto de ritos sociais profanos), o casamento deixou de ser um processo social que a Igreja Católica garantia, para passar a ser um processo eclesiástico que a Igreja Católica administrava — conforme o Ritual Romano de 1612, que deslocou o rito cumprido a porta da igreja para o altar, e que passou a dar pouca atenção às tradições da Europa católica.

Ou seja, o papa Chico, aparentemente, tem razão. Mas só aparentemente. Para que um casamento seja cristão, não necessita de um Padre, nem que seja realizado dentro de uma igreja. Mas ele não tem razão quando se esquece que, mesmo que um casamento se realize à porta da igreja, só será cristão quando os casados adoptem um projecto de vida que passa pela fé cristã.

Domingo, 19 Junho 2016

Anselmo Borges e os podres da Igreja Católica

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:06 am
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Parece que, para o Anselmo Borges, a Igreja Católica anterior ao Concílio do Vaticano II, só tem defeitos. Depois do Vaticano II, “o Sol nasceu para a Igreja Católica e para a humanidade”, os amanhãs passaram a cantar, a realidade transmutou-se por intermédio de uma fé metastática.

Anselmo Borges faz de conta que não sabe que o único “progresso” que existe, de facto, está na ciência. Falar em “progresso da sociedade” é demagogia política: por exemplo, se a escravatura tradicional foi abolida, criaram-se entretanto outras formas modernas de escravatura que não são menos perversas. Vou dar aqui um exemplo.

Na Idade Média, os mendigos andavam livres nas ruas das povoações e cidades; e quando pediam esmola a um rico burguês ou a um nobre, quem lhes dava a esmola pedia em troca uma oração pela sua alma. Ou seja, a mendicidade era uma profissão socialmente útil, porque quem dava esmola recebia qualquer coisa em troca.

A partir do momento em que a Reforma retirou à penitência religiosa, por um lado, e à acção moral individual, por outro lado, a sua importância tradicional medieval, o Estado tomou conta da vida dos indivíduos.

E como a mendicidade não acabava, o Estado passou a restringir a liberdade dos mendigos naquilo a que Foucault chamou de “Grande Encarceramento”: os mendigos deixaram de ser úteis à sociedade, e passaram a ser reprimidos e encarcerados. Através da rotulagem do “pobre” e de sinais distintivos afins, a caridade católica da Idade Média que se caracterizava por um modo de relação, transformava-se, no mundo moderno dos “direitos humanos” do Estado, em um modo de segregação.

E Anselmo Borges chamaria a isto “progresso”. A ideia de que “o progresso é uma lei da natureza” é própria de uma mente doente.

Sábado, 18 Junho 2016

O catecismo da Igreja Católica

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:33 pm
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2357 A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (103) a Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (104). São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados.

catecismo da Igreja Católica

Antes de mais, vamos saber o que significa “catecismo”.


Na Alta Idade Média, “catecismo” era um ritual exorcista católico efectuado antes do baptismo de uma criança. Quando uma criança nascia, o Padre era imediatamente chamado para exorcizar a criança, ou seja para operar o catecismo da criança; e o baptismo podia esperar: só mais tarde, às vezes meses depois, é que a criança era baptizada.

A partir do século XIII, a palavra “catecismo” sofreu lentamente uma deslocação semântica: passou a designar o ensino oral da doutrina da Igreja Católica às crianças, que era principalmente função dos padrinhos de baptismo da criança, e principalmente da madrinha.

Com a descoberta da imprensa por Gutemberg no século XV, a doutrina da Igreja Católica passou a ser impressa em latim, e a Igreja Católica chamou a si o ensino do catecismo (já com o novo sentido semântico de “ensino da doutrina”). O catecismo passou a ser ensinado às crianças nas paróquias, nas igrejas (nas línguas locais, e não em latim), mosteiros e outras instituições católicas, e os padrinhos perderam o protagonismo no ensino da doutrina. Em alguns países, como por exemplo em Itália, a Igreja Católica criou escolas especializadas no ensino do catecismo para as crianças, nas principais cidades, e o catecismo passou a ser impresso nas línguas nacionais; estamos no século XVI.

No princípio do século XVII, as instituições da Igreja Católica que ensinavam o catecismo passaram também a ensinar às crianças a “civilidade cristã” (as boas maneiras), e no fim desse século passaram também a alfabetizar as crianças.

Tinha nascido a escola primária na Europa.

Portanto, desde sempre, o catecismo era dirigido às crianças, e não aos adultos. Só com a modernidade os adultos passaram a ser tratados como crianças, e o catecismo assumiu uma função de referência da doutrina para adultos. Não passaria pela cabeça de ninguém, na Idade Média, que o catecismo não fosse uma forma de exorcismo do pecado original, e por isso apenas dirigido às crianças.

De modo semelhante, a palavra “religião” (religio) tinha função concreta e designava uma qualquer instituição católica, por exemplo, uma Ordem religiosa (dominicanos, franciscanos, etc). O conceito de “religião”, concebida fora do concreto, não existia na Idade Média. A abstracção do conceito de “religião” teve origem nos naturalistas renascentistas; para o homem medieval (até ao século XVI), a religião era como o ar que ele respirava: fazia parte dele, e não fazia qualquer sentido definir “religião”.

Mesmo que no catecismo não existisse a classificação do acto homossexual como sendo pecado (o que não é verdade hoje, mas era verdade na Idade Média), e sendo que o catecismo (em minha opinião, como é óbvio) ainda hoje se destina a crianças, seria perfeitamente natural que nele não houvesse qualquer alusão à homossexualidade. Não faz qualquer sentido ensinar às crianças que tomar no cu e chupar pica é pecado.

Para os adultos, basta ler S. Paulo (ou alguém que leia e recite) — “passiones ignominiae”, “usum contra naturam” et “turpitudinem operantes” (Romanos 1, 26-27) — para saber que o acto homossexual é pecado.

Sábado, 11 Junho 2016

O Anselmo Borges diz tudo: o papa Chico é um psicopata

 

O Anselmo Borges não se dá conta de que quando alguém é muito “popular”, não pode ser muito credível. Mussolini foi muito popular em Itália, e não só em Itália; Hitler foi muito popular na Alemanha e um pouco por toda a Europa, havendo mesmo militantes do partido nazi no Reino Unido.

Jesus Cristo não foi popular: pelo contrário, desagradou ao mundo e, por isso, morreu na cruz. O papa Chico sacrificou a verdade em prol da popularidade. Mas “não podes servir a dois senhores”…

Na comunicação social, não existe qualquer colunista autorizado a criticar o papa Chiquinho; apenas existem os propagandistas do caudilho, como é o Anselmo Borges e o Frei Bento Domingues. Até o João César das Neves anda caladinho que nem um rato. Qualquer crítica ao Chico é considerada herética por católicos e ateus. Pela primeira vez na História, católicos e ateus andam de braços dados, e qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe o que isso significa:

“Ninguém pode servir a dois senhores; pois não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” — Mateus, 6,24

Aparentemente, o papa Chico não serve o dinheiro. Mas é só aparência. Quando ele defende, por exemplo, a imigração desregrada, ele está a defender os interesses dos mais ricos do mundo. Aos donos do dinheiro interessa que o trabalho especializado seja o mais barato possível; e em vez de trabalhar para o desenvolvimento dos países mais pobres (as tais periferias), o papa Chico defende a deslocação das populações desses países para a Europa, para assim garantir uma mão-de-obra barata na Europa.

O papa Chiquitito está em perfeita sintonia política com a plutocracia globalista. Nunca ouvirão um George Soros ou um Bill Gates, por exemplo, criticar o Chiquinho. E quem critica o Chiquinho — como o fez o Donald Trump — é excomungado: pela primeira vez, desde há 100 anos, qualquer crítica a um papa é considerada motivo para excomunhão.


Escreve o Anselmo Borges:

"Francisco não é um Papa de actos, mas de processos. Ama o processo. Abrir processos que não tem de ser ele necessariamente a terminar." Se um processo é um pôr em marcha, "o próprio facto de haver resistências significa que o processo funciona".

¿O que significa “processo” (neste contexto)?

O termo “processo” foi extraído do vocabulário da química (Ambrósio Paré, século XVI), designando a sequência de funções que originam ou concretizam um fenómeno material, tendo como base a sua regularidade estatística. Mais tarde, a palavra “processo” foi utilizada por Karl Marx no “Capital”, no sentido de “processo dialéctico”. Ou seja, o papa Chico tem uma visão materialista da sociedade (das “massas”) e uma concepção marxista de “progresso”.

A proposição segundo a qual "o próprio facto de haver resistências significa que o processo funciona" é própria de um deficiente mental ou de uma mente perversa.

Se, por exemplo, eu inicio um processo de assalto à mão armada a um Banco, e se houver resistência ao assalto, é porque o processo está a funcionar!. Ou seja, a proposição é irrefutável (o que é próprio de uma ideologia política totalitária): se não há resistência, é porque o processo funciona; e se há resistência, o processo também funciona.

O que o Anselmo Borges escreve é um insulto à nossa inteligência. Aliás, o Chiquitito insulta-nos a inteligência todos os dias. Quando se tratam os seres humanos em função de um “processo” material (como se a sociedade fosse reduzida a um fenómeno físico), descuramos as retro-acções históricas, somos irresponsáveis e não podemos ser credíveis.

Sexta-feira, 10 Junho 2016

O papa Chico não só é anticatólico: é anticristão

 

É velha, de muitos séculos, a querela (na Igreja Católica medieval) acerca do Absoluto dos valores da ética, por um lado, em contraposição aos que consideravam que os valores da ética, tidos como absolutos, são apenas um ideal irrealizável, face à condição imperfeita do ser humano, por outro lado. Eu vou tentar expôr aqui, de uma forma tão simples quanto possível (porque o assunto não é fácil), a mundividência do papa Chico, e como ela colide com o Cristianismo (e não só com o catolicismo).

Pelo menos desde S. Tomás de Aquino (e antes deste, estava implícita na doutrina da Igreja Católica), todos os papas defenderam a ideia de que os ensinamentos da Igreja (que incluem os valores da ética cristã) se escoram no Absoluto; por exemplo, para a Igreja Católica, o valor da Justiça é absoluto, por um lado, e por outro lado, o valor da Justiça existe por si mesmo e independentemente de qualquer utilidade humana (realismo ético).

¿O que significa dizer que “o valor da Justiça é absoluto”?

Significa afirmar que existe realmente (e não é um mero “ideal”) um conceito de “Justiça perfeita” (absoluta), da qual emanam os valores relativos (individuais) de “justiça”. Não é possível que cada indivíduo tenha uma concepção ligeiramente diferente da justiça em relação a outros indivíduos, se não existir realmente um padrão absoluto (perfeito e divino) de Justiça: se não existe nenhuma possibilidade de enraizar a ética no absoluto, todas as reflexões são inúteis e a lógica não existe. E isto é um facto que é independente da teoria segundo a qual “o ser humano é sensível à Justiça devido à evolução darwinista”.

O papa Chico não concorda com todos os papas anteriores a ele, e principalmente com João Paulo II.

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Diz o Chiquinho que quem considera que existem realmente valores absolutos, é um herege. Em uma homilia da Casa de Santa Marta, o Chico disse o seguinte:

“This (is the) healthy realism of the Catholic Church: the Church never teaches us ‘or this or that.’ That is not Catholic. The Church says to us: ‘this and that.’ ‘Strive for perfectionism: reconcile with your brother. Do not insult him. Love him. And if there is a problem, at the very least settle your differences so that war doesn’t break out.’ This (is) the healthy realism of Catholicism. It is not Catholic (to say) ‘or this or nothing:’ This is not Catholic, this is heretical. Jesus always knows how to accompany us, he gives us the ideal, he accompanies us towards the ideal, He frees us from the chains of the laws’ rigidity and tells us: ‘But do that up to the point that you are capable.’ And he understands us very well. He is our Lord and this is what he teaches us.”

O papa Chiquinho inventou um espantalho que consiste em uma falsa dicotomia entre o “absoluto do valor” e o “valor relativo de cada indivíduo”: diz ele que ou existe o absoluto do valor, ou existe o valor relativo de cada indivíduo — e sem terceira possibilidade. Mas o Chico diz, entrando em auto-contradição, que “a Igreja nunca ensina que é isto ou aquilo”. Essa falsa dicotomia serve para justificar o relativismo ético, por um lado, e para justificar a negação do âmago do espírito do Cristianismo, por outro lado.


papa-freak-webNa Suma Teológica (II), S. Tomás de Aquino fala do retorno da criatura racional para o seu Princípio: a criatura (ser humano) deseja a felicidade, porque a criatura foi conformada (tomou forma) pela lei (de Deus) e foi edificada pela Graça (II,1). Ou seja, o desejo humano ocupa uma função dirigente (conducente) em razão de um estatuto cósmico: todo o ser humano deseja o seu fim (Deus) e tende naturalmente para Ele, embora de acordo com um movimento (individual) que corresponde à sua própria natureza.

Como todos os seres, em geral, o ser humano tende necessariamente para o seu fim (que no caso do Homem, é Deus), e tem um arbítrio: move-se por si mesmo e escolhe certos actos entre outros. Mas, diferentemente dos outros seres, o ser humano tem a capacidade de abstracção, porque é capaz de representar o objecto do seu desejo na sua ausência, porque pode tornar, ou não, presente um objecto como desejável, e por isso o seu arbítrio é livre.

No ser humano, a vontade é um desejo informado pelo intelecto.

A partir do momento em que o Bem se apresenta ao intelecto, este deseja-o naturalmente — mesmo que mantenha a capacidade de se abster em relação a esse Bem. A falta, que consiste em querer um bem particular que não é o bem devido, explica-se pela mediação do intelecto: este pode apresentar ao desejo um objecto menos perfeito do que o do Bem, e arrastar então para uma escolha desviante, para uma falta.

A raiz do pecado reside no intelecto, e a liberdade humana consiste em querer o que é racional — quando o intelecto apresenta ao apetite o Bem verdadeiro, e não apenas um bem aparente.

Segundo Aristóteles, o conhecimento do objecto mais excelente (absoluto), pela mais excelente faculdade, é o acto por excelência que conduz o ser humano ao seu paroxismo; em S. Tomás de Aquino, o desejo humano alcança o seu repouso e o seu cumprimento perfeito na visão intelectual de Deus, a realização da humanidade no acto de perfeita felicidade que é a beatitude.

Mas o ser humano é apenas uma parte do Bem universal, e a parte é sempre menos amável que o Todo que a engloba. Ou seja, em cada ser humano, o bem é relativo (e não é absoluto). Mas sendo que a natureza humana é racional, fazer o bem moral é aquilo que está de acordo com a Razão: um acto é moralmente bom quando é virtuoso, ao passo que o vício é contra a natureza — ou seja, não pode haver um compromisso entre a virtude, por um lado, e o vício, por outro lado.

Se a lei eterna se apresenta ao ser humano pela voz da consciência, é a consciência que obriga vontade a obedecer à lei eterna; mas as consciências não são todas idênticas. Não é pois, o próprio acto do ser humano, mas antes a percepção de que a Razão (o intelecto) dele dá, que qualifica a vontade: se a consciência o apresenta como um mal, e ainda que esse acto seja um bem, a vontade adere-lhe com um mal. Vem daqui a célebre posição de S. Tomás de Aquino segundo a qual é preciso (a cada ser humano em particular) obedecer sempre à consciência, mesmo que esteja errada: a vontade que se inclina para um objecto que percebe como mal, é uma vontade má — ainda que a sua percepção seja defeituosa e o objecto seja bom em si mesmo; e quando a vontade se desvia da consciência: “toda a vontade que se afasta da Razão, seja aquela recta ou errónea, é sempre má” (I – II, 19, 5).

Mas, ao contrário do papa Chiquitito, S. Tomás de Aquino não sacraliza o arbitrário subjectivo através do conceito de “inclusão absoluta” do “e”, em lugar do “ou”.

S. Tomás de Aquino constata apenas que um acto cometido por uma determinada consciência errónea continua a ser mau em si mesmo, e distinto daquele que obrigaria uma consciência informada; e obedecer à sua consciência nada retira à falta prévia de não ter informado a sua consciência. Se apenas podemos obedecer à nossa (má) consciência e à nossa natureza, temos o dever de a substituir por uma melhor, sempre que pudermos. E esse dever passa por categorizarmos os valores da ética e enraizá-los no Absoluto, porque, de outra forma, não saberíamos como melhorar o que quer que seja.

Terça-feira, 7 Junho 2016

A guerra do papa Chico contra o clericalismo

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:57 am
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papa-freak-webO conceito de “clericalismo” mudou: no século XIX, era concebido como a influência da Igreja Católica na política. Com o papa Chico, “clericalismo” passou a ser “hierarquia da Igreja Católica”. O papa Chico aproveita-se da posição que ocupa na hierarquia para demolir a hierarquia.

A vida é feita de hierarquias, e só a morte é totalmente democrática. A alternativa à hierarquia é a anarquia e a dissolução. Quando este papa critica a hierarquia, defende a dissolução.

Tal como acontece com o politicamente correcto em geral, o papa Chiquito identifica “hierarquia” com “desigualdade”: a hierarquia é vista como sinónimo de desigualdade.

E, segundo este raciocínio, para que os laicos católicos seja iguais ao clero, é preciso acabar com o clericalismo, ou seja, com a hierarquia.

Os direitos e deveres são dissociados: todos têm os mesmos direitos independentemente dos deveres. Um Bispo tem deveres acrescidos dentro da estrutura da Igreja Católica, mas (segundo o papa Chico) deve ter os mesmos direitos de decisão evangélica de um qualquer laico. No fundo, o que o papa Chiquinho defende é uma inversão da hierarquia, em que o laico está livre de alguns deveres e passa a ter direitos acrescidos.

Esta dicotomia, criada pelo papa-açorda, entre o clericalismo e a laicidade, é falsa.

Os laicos têm e terão sempre liberdade de agir dentro da Igreja Católica, embora sob escrutínio da hierarquia. A ideia do papa-açorda segundo a qual “os laicos devem operar em roda livre” e sem supervisão da hierarquia, conduzirá à pulverização da Igreja Católica e à sua “protestantização”.

O papa Chiquitito defende uma Igreja Católica protestante.

Segunda-feira, 6 Junho 2016

O Frei Bento Domingues e o epicurista papa Francisco

 

1/ O Frei Bento Domingues escreveu o seguinte:

“Para o grande cientista, Francisco J. Ayala, professor de Genética na Universidade da Califórnia, o comportamento ético é determinado pela nossa natureza biológica. Por comportamento ético, ele não entende a boa conduta, mas o imperativo de julgar as acções humanas como boas ou más.

A constituição biológica do ser humano determina-lhe a presença de três condições necessárias – e, em conjunto, suficientes – para que se dê esse comportamento ético: a capacidade de prever as consequências das suas próprias acções; a de fazer juízos de valor; a de escolher entre linhas de acção alternativas. A capacidade de estabelecer relação entre meios e fins é a aptidão básica que permitiu o desenvolvimento da cultura e das tecnologias humanas.

Este cientista sustenta que as normas morais e os códigos éticos não dependem da nossa natureza biológica, mas da evolução cultural. As premissas dos nossos juízos morais provêm da tradição religiosa e de outras tradições sociais, mas apressa-se a acrescentar: os sistemas morais, assim como qualquer outra actividade cultural, não podem sobreviver muito tempo se evoluem em franca contraposição com a nossa natureza biológica”.

O Frei Bento Domingues utilizou todo este relambório para dizer o seguinte:

“Uma cultura e uma sociedade não podem sobreviver se se posicionarem contra a Natureza”.

Por um lado, o Frei Bento Domingues concorda com o papa Chiquinho que mantém reservas sobre o dogma da infalibilidade do papa; mas, por outro lado, o Frei Bento Domingues serve-se do dogma da infalibilidade do papa para deificar o Chico ao ponto de o comparar com o próprio Jesus Cristo.

Por um lado, o Frei Bento Domingues concorda com o papa Chiquinho que mantém reservas sobre o dogma da infalibilidade do papa; mas, por outro lado, o Frei Bento Domingues serve-se do dogma da infalibilidade do papa para deificar o Chico ao ponto de o comparar com o próprio Jesus Cristo.

Ele podia ter resumido o trecho a uma linha; mas teve que se escorar na autoridade de direito da ciência para corroborar a própria Lógica. A Lógica passou a depender de uma qualquer teoria científica: faz falta que apareça uma teoria científica que defenda a ideia de que “a Lógica não existe” senão como uma construção cultural e social, e que tenha por defensores os amigos do Frei Bento Domingues da Esquerda romântica.

Vivemos em um tempo alienado, em que é preciso recorrer à ciência positivista para demonstrar uma qualquer evidência. Um dia destes, terei que recorrer à ciência para provar que eu existo, mas manter-se-á o “escândalo da razão”, de Kant, segundo o qual não me é possível, em bom rigor, provar nada exterior a mim mesmo. Como dizia Karl Popper (um kantiano), o mundo exterior a nós próprios é apenas uma hipótese de trabalho para a ciência.

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Sábado, 28 Maio 2016

O Anselmo Borges reduz o Cristianismo à política

 

“Jesus, na iminência da condenação à morte, ofereceu uma ceia, a Última Ceia. Nela, abençoando o pão e o vinho, que significam a entrega da sua pessoa por amor a todos, disse: "Fazei isto em memória de mim." Os primeiros cristãos reuniam-se e, recordando (recordar é uma palavra muito rica, pois significa voltar a passar pelo coração) essa Ceia, o que Jesus fez e é, celebravam um ágape, o "partir do pão", uma refeição festiva e fraterna em sua memória, abertos a um futuro novo de Vida. E aconteceu o que constituiu talvez a maior revolução do mundo: se algum senhor se tinha convertido à fé cristã, sentava-se agora à mesma mesa que os seus escravos, em fraternidade”.

Anselmo Borges

A interpretação de Anselmo Borges da Eucaristia não corresponde à da iniciação mística cristã, por exemplo, em S. Paulo.

Anselmo Borges reduz a uma estrutura colectiva, exterior ao indivíduo, um comportamento ético que, a não ser que seja interior ao indivíduo, não é nada. O clero “progressista” — por exemplo, o Anselmo Borges — defende a ideia segundo a qual há uma reforma social capaz de branquear as consequências do pecado (o que é uma influência do Romantismo do século XVIII, mormente em Rousseau, que voltou a estar na moda na actual Esquerda depois da queda do muro).

No cristianismo primitivo (Mircea Eliade, por exemplo), o convívio fraternal entre o senhor e o servo não eliminava as categorias sociais dos dois — como parece defender Anselmo Borges.

S. Paulo defendeu que o senhor de escravos deve tratar os seus escravos com o respeito devido à sua humanidade (Direito Natural), mas nunca defendeu a igualdade social entre o senhor e os seus escravos (Direito Positivo); não o podia fazer porque isso seria misturar a religião com política — que é o faz o Anselmo Borges.

A tentativa de desconstrução do símbolo do sacrifício da Eucaristia, feita pelo Anselmo Borges, é delirante, chegando ao ponto de ligar (negativamente) o celibato, por um lado, ao sacrifício eucarístico, por outro lado — quando sabemos que o celibato era apenas e só uma característica dos discípulos de Cristo Jesus que foi seguida pelos apóstolos e bispos dos primeiros séculos da nossa Era (há uma diferença entre “discípulo” e “apóstolo”).

A visão que Anselmo Borges tem da religião cristã é uma visão estritamente política. Refutar aquele texto do Anselmo Borges daria tanto trabalho que teria eu que escrever um texto com o triplo da quantidade de palavras que ele utilizou no dele; mas já não há pachorra.

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