perspectivas

Sábado, 16 Março 2019

A fórmula intemporal da estética dos objectos

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 12:47 pm
Tags: , , , ,

 

A professora Helena Serrão transcreve aqui um trecho de uma tal Paula Mateus (que eu não sei quem é) acerca da teoria histórica de um tal Levinson (que também não sei quem é, nem me interessa saber). O que me interessa é tentar analisar o referido textículo.

Desde logo, e contra a teoria do Tal Levinson (ou da Paula Mateus), a essência da arte não se reduz à História; a arte transcende a História: neste aspecto (como noutros) aplica-se o realismo de Platão. Toda a arte é uma aproximação (mais ou menos conseguida) ao um ideal estético/ético (ideal de beleza).

Aplica-se aqui a diferença humeana (isto é uma analogia!) entre “questões de facto”, por um lado, e as “relações de ideias”, por outro lado: certas concepções sobre “relações de ideias” são verdades necessárias (existem em uma realidade ideal, intemporal); por exemplo, dados os axiomas de Euclides, só se pode concluir que a soma dos ângulos de um triângulo é de 180 graus e não outra coisa qualquer: o axioma de Euclides existe em uma realidade ideal. Mas a obra de arte humana (empírica, temporal) já é uma “questão de facto”, é uma realidade contingente que se pode assemelhar, mais ou menos, à “realidade ideal” que é o ideal estético que existe independentemente de qualquer recurso à evidência empírica.

Mas, por outro lado, o Tal Levinson tem razão quando inclui o factor histórico (o legado cultural, civilizacional, a tradição, etc.) na actividade artística. Porém, e ao contrário do que diz o Tal Levinson, não existe “evolução na arte” — porque isso seria introduzir a validade do Historicismo na arte, por um lado, e por outro lado seria considerar a decadência (cultural) da arte como uma “evolução” no sentido positivo. Existe, sim, mudança na arte, que não é necessariamente “evolução” no sentido positivo.

O conceito (do Tal Levinson) de “direito de propriedade da arte” cheira a Pragmatismo. Nem vale a pena falar do assunto.

Anúncios

Quinta-feira, 28 Fevereiro 2019

Gadamer, e a estética do olho-do-cu

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:11 pm
Tags: ,

 

“O que há de inebriante no mau gosto, é o prazer aristocrático de desagradar” → Baudelaire

A questão do “gosto” é das mais difíceis de abordar, se a estética for separada da ética.

Por exemplo, a proposição “os gostos não se discutem” leva-me a concluir, por exemplo, de que o valor da estética do olho-do-cu é tão legítima e valiosa como o valor da estética de uma qualquer pintura de Leonardo da Vinci.

E aqui passamos à perspectiva kantiana que separa o “belo”, por um lado, do “agradável”, por outro lado: para os apreciadores da estética do olho-do-cu, a contemplação de uma imagem anal é agradável porque reflecte os seus (deles) interesses e preferências subjectivos. Para o apreciador da estética do olho-do-cu, não há nenhuma argumentação possível que o demova da sua preferência.


A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto de Gadamer acerca do “gosto”. Gadamer invoca a teoria do gosto do judeu de Belmonte, Baltasar Gracian :

« Gracian parte do princípio de que o gosto, sensível, o mais animalesco e o mais íntimo dos nossos sentidos, já contém o ponto de partida da diferenciação que se realiza no julgamento espiritual das coisas.

O diferenciar do gosto, que é, de uma forma mais imediata, o usufruir da receptividade e da rejeição, não é, pois, na verdade, um mero instinto, mas já mantém o meio termo entre o instinto e a liberdade espiritual.

(…)

Existem pessoas que têm uma boa língua, gourmets, que cultivam essas alegrias. Assim, esse conceito do “gusto” é, para Gracian, o ponto de partida para a formação do ideal social de Gracian. O seu ideal do instruído (do discreto) consiste em que o “hombre en su punto” adquire a correcta liberdade de distância com relação a todas as coisas da vida e à sociedade, de maneira que saberá diferenciar e escolher consciente e ponderadamente. (…) »


(more…)

Segunda-feira, 13 Fevereiro 2017

Tirem-me deste filme…!

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 11:53 am
Tags: , , , , , ,

“E a tua tia sabes de que tem cara, de p., sabes o que é, uma mulher tão porca que f. com todos os homens e mesmo que tenha r. para f. deixa que lhe ponha a p. no c.”


Este é o excerto da polémica do livro “O Nosso Reino” de Valter Hugo Mãe dado a ler aos jovens de 13 anos do liceu Pedro Nunes, em Lisboa.

O comentário do comissário do Plano Nacional de Leitura, o poeta Fernando Pinto do Amaral, dado à Lusa, foi o seguinte:

“Não está em causa a sua qualidade literária, o que houve foi um problema de inserção na lista. O livro entrou no 3.º ciclo por lapso, porque foi escolhido para o secundário”.

O problema é que é a própria qualidade literária que está em causa aqui: o Mãe escreve mal e é pouco credível no que escreve, o Mãe não devia estar no Plano Nacional de Leitura, aliás uma fábrica para promover amigos e lhes vender os livros como pães.

Os palavrões de Valter Hugo Mãe


O problema deste país é profundo; não se resolve facilmente. Mas se não se resolver, teremos em breve um totalitarismo de esquerda.

Quinta-feira, 28 Julho 2016

Kant e a beleza

Filed under: cultura — O. Braga @ 11:46 am
Tags: , , , ,

 

“Silvana Lima é a melhor surfista do Brasil e foi duas vezes vice-campeã do mundo. Apesar disso, como não é “bonitinha”, não consegue patrocínios.

A sexualização feminina é muito comum. Enfatiza-se atributos que estimulam a atracção sexual no sexo oposto e usa-se esses atributos para avaliar as mulheres. As mini-saias das jogadoras de ténis, as poses sugestivas das raparigas nos anúncios e a atenção dispensada à roupa da ministra ilustram esta prática que muitos dizem ser machista. Ironicamente, o machismo está no diagnóstico”.

Ludwig Krippahl

Kant define o “belo” como “o que agrada universalmente, sem conceito (“Crítica do Juízo”, §9); e, por isso, distingue a beleza livre (por exemplo, a beleza de uma flor), que não pressupõe nenhum conceito, e a beleza aderente (por exemplo, a de uma mulher ou de um edifício) que pressupõe o conceito daquilo que a coisa deve ser. A beleza aderente não é um juízo de gosto propriamente dito, porque supõe o conceito daquele gosto que deve ser válido: é, em vez disso, um conceito de gosto construído por critérios intelectuais (me®dia, elite intelectual e as elites em geral, etc.).

Por isso, Kant diz que “a beleza é a forma da finalidade de um objecto, na medida em que é nele (no objecto) percebida (a beleza) sem a representação de uma finalidade”.

Ou seja, a beleza não se identifica necessariamente com o útil (a finalidade), embora o útil esteja já incluído na beleza em situação valorativa subalterna. Toda a gente (ou quase toda a gente) está de acordo sobre a validade do juízo aderente ou juízo intelectual acerca da beleza, mas o juízo do gosto ou beleza livre não tem necessidade do juízo intelectual. O senso comum acerca da beleza é apenas uma norma ideal que depende da cultura intelectual de cada época: em uma época de cultura intelectual miserável, como é a nossa, o senso comum acerca da beleza também é miserável.


Há que distinguir entre a intuição da beleza, por um lado, e o instinto sexual (masculino, por exemplo), por outro lado.

Intuição (que é uma forma de inteligência) e instinto não são a mesma coisa. O Ludwig Krippahl confunde as duas coisas. A intuição do belo não pressupõe a sua finalidade e utilidade; mas o instinto sexual não pressupõe outra coisa; a intuição do belo não pode ser manipulada pelas elites: ou é clara na consciência do Homem, ou está obnubilada pela cultura intelectual através do belo aderente do “deve ser assim e não de outra forma”.

O Ludwig Krippahl diz que a Silvana Lima “apesar de ser campeã (ou por causa disso), é sexualmente menos atraente do que uma rapariga bonitinha que não faça nada de jeito”.

Mas o juízo de beleza a que se refere o Ludwig Krippahl é o da beleza aderente, e não a da beleza livre; ele refere-se a um padrão de beleza “que deve ser”, fabricada pelas elites intelectuais do nosso tempo. A beleza aderente é determinada pela cultura antropológica imposta, pela propaganda persuasiva dos me®dia, pelas elites em relação às massas.

silvana-lima

Podemos ver na Silvana Lima a beleza livre (uma beleza exótica, até!) de que nos fala Kant. É a simetria e a harmonia das formas que define a beleza, e não os elementos e detalhes secundários do corpo. É evidente que a atracção sexual (o instinto) é, em grande parte, determinada pela beleza aderente (a da cultura antropológica imposta pelas elites) que é aquela que “deve ser válida”; mas qualquer pessoa com intuição mínima sabe imediatamente que a Silvana Lima é bela.

Domingo, 24 Julho 2016

Os homossexuais e a guerra contra a Natureza

 

Se analisarmos o pensamento e a acção de conhecidos homossexuais ao longo da História (por exemplo, Leonardo Da Vinci na pintura, Shakespeare e Michel Proust na literatura, David Hume na filosofia, Alan Turing na matemática, etc.), em quase todos eles reconhecemos o respeito pela Natureza, embora em todos eles prevalecesse um subjectivismo que se aproximava de um solipsismo. Se lermos os romances de Proust, por exemplo, em todos eles a relação amorosa heterossexual é celebrada como sendo adequada e consentânea à beleza da natureza humana.

Ou seja, uma das características dos homossexuais, ao longo da História, era (já não é) a de apreciar a beleza do mundo a partir de uma posição de “fora do mundo”. Hoje, os homossexuais combatem a beleza do mundo que não consideram como tal: houve uma inversão dos valores: a “beleza gay” passou a ser a negação do belo. Assiste-se a uma tentativa de construção de um conceito de “belo” que se separa radicalmente da Natureza.

Com o pós-modernismo, os homossexuais esforçaram-se em destruir os conceitos naturais de “belo” e de “bom” exarados no senso-comum ao longo da História; para isso, vemos como influenciaram a academia e as elites (a ruling class) — por exemplo, em Portugal, temos a Isabel Moreira no Direito, ou o Quintanilha nas ciências. É neste sentido que a Isabel Moreira afirmou que “o Direito é anti-natural, felizmente” — o que não é verdade!, porque ela confunde e mistura propositadamente “tradição” e “costumes”, por um lado, e “Natureza”, por outro lado.

Aquilo que, para os homossexuais anteriores ao pós-modernismo, era a beleza natural do mundo, passou a ser algo (segundo os homossexuais actuais, em geral) que o ser humano deveria contestar ou mesmo negar.


É neste contexto que se insere o esforço do Alexandre Quintanilha na promoção cultural do transumanismo, a que ele chama “melhoramento humano”.

Em nome da “ciência”, pretende-se negar a Natureza Humana argumentando que esta pode ser “melhorada”; o Quintanilha mistura conceitos viáveis, como por exemplo o relativo mas limitado prolongamento da vida natural humana, por um lado, e conceitos cientificistas (cientismo) e quiméricos (quimera), como por exemplo a vida sintética, por outro lado. A ideia do homossexual Quintanilha (entre outros) é a de anunciar um admirável mundo novo, em que a Natureza Humana não só perde as suas qualidades, consideradas retrógradas e passadistas (falácia ad Novitatem), como é possível inventar uma nova Natureza Humana que se separa fundamentalmente da Natureza em geral.

É neste caldo de cultura intelectual que se inserem as “engenharias sociais” a que temos assistido (o "casamento" gay, a adopção de crianças por pares de invertidos, a eutanásia, o aborto, etc.), como uma tentativa psicótica de alteração das características fundamentais da Natureza Humana, partindo do princípio de uma ilimitada flexibilidade do ser humano. Isto corresponde a uma espécie de “nazismo suave”, em que a violência e a emasculação cultural e política são impostas à sociedade através da persuasão, e em nome da ciência e do progresso entendido como uma lei da natureza. Servem-se da Natureza para negar a Natureza.

Quarta-feira, 13 Julho 2016

A arte é incompatível com ciência (do Iluminismo)

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:24 pm
Tags: , , , , , , ,

 

“O Real nunca é belo” — Jean-Paul Sartre

Se partirmos dos princípios fundamentais do Iluminismo, arte e ciência são inconciliáveis — ao contrário do que defende o Carlos Fiolhais ; ou então, ele coloca em causa o próprio Iluminismo, o que eu não acredito que seja verdade. Defender a conciliação entre a arte e a ciência é colocar em causa não só o Positivismo mas também o Iluminismo que está na sua origem.

“A estética não existe” — Paul Valéry

Segundo o Iluminismo, a ética, a estética e a metafísica são subjectivas, e alegadamente não fazem parte da experiência (empirismo) que legitima a ciência. Segundo o Iluminismo, a razão opõe-se à tradição; e não é possível ética, estética, e mesmo ciência, sem tradição.

O problema fundamental escora-se na lógica do Iluminismo: a ciência não explica nada, não explica as causas dos fenómenos naturais: apenas descreve os fenómenos; vem daqui a frase célebre de Newton: Hypotheses non fingo — ao passo que a obra-de-arte pretende explicar a realidade de um só golpe: uma obra-de-arte não é uma descrição da natureza: antes, é (pelo menos) uma tentativa de a explicar.

A estética, como a ética, pertence ao domínio da metafísica, ao passo que a ciência iluminista é uma metafísica que nega a metafísica (é uma metafísica negativa).

Sexta-feira, 19 Junho 2015

¿ A pornografia pode ser arte ? (parte II)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 4:09 am
Tags: , , ,

 

A pornografia é uma forma negativa de arte, no sentido em que intuitivamente podemos saber, através dela, o que é a arte propriamente dita.
A pornografia é um contraste da arte que a intuição permite identificar.

Na primeira parte desta pequena série de dois verbetes, referi-me a este artigo publicado no blogue Rerum Natura que se questiona se a pornografia pode ser arte. Também me referi à influência de Nietzsche na cultura filosófica académica americana, que vai de gente como por exemplo Goodman, Quine, Sellars, etc., até Rorty e seus sequazes.

Leonardo Da Vinci sugere que a obra de arte é bela quando não pensamos em acrescentar-lhe ou subtrair-lhe qualquer coisa sem pena. Nietzsche não concorda com Da Vinci; responde-lhe que a pena que sentimos no acrescento ou na subtracção de qualquer coisa na obra de arte, não passa de um produto de uma convenção cultural e social. Seria interessante imaginar um diálogo entre Da Vinci e Nietzsche acerca da arte.

A diferença fundamental entre Da Vinci e Nietzsche, na concepção da arte, é a diferença entre intuição e instinto.

O instinto não é inteligência, ao passo que a intuição é uma forma de inteligência.

A inteligência é — como o instinto — uma função de adaptação ao real, mas que pressupõe construção e invenção. O instinto é, pelo contrário, um comportamento adaptador estereotipado, dependendo de uma programação genética. A espécie humana, em relação aos outros animais, é relativamente pouco determinada pelo instinto; daí que o ser humano necessite da educação que pressupõe inteligência inata.

A intuição (Descartes) é a concepção imediata e perfeitamente clara de uma ideia pelo espírito e, por isso, a intuição é espiritual — e distingue-se da inferência que estabelece as suas verdades por intermédio de uma demonstração. É este conceito de “intuição” que caracteriza a arte e os artistas, mas que Nietzsche e académicos contemporâneos negam porque fazem coincidir os conceitos de “intuição” e de “instinto”.

Por exemplo, Fernando Pessoa não escrevia, de pé e horas a fio, por instinto, mas antes por uma espécie de inteligência a que chamamos de “intuição”. Amália Rodrigues não cantava por instinto, mas por uma espécie de intuição a que os artistas chamam de “inspiração”. E por aí fora.

Se a arte é uma actividade ordenada com vista a um fim deferente dela própria, uma obra de arte comunica os seus signos — que ela própria criou — com o mundo através da intuição. É neste sentido que se pode falar em “transcendência da obra de arte”, no sentido em que ela “sai” da subjectividade do artista e se universaliza através da intuição que é mais ou menos comum ao ser humano em geral.

Uma obra de arte apela à intuição, e não ao instinto — exactamente porque o fim da obra de arte é diferente de ela própria. Quando uma representação apela apenas ao instinto, o seu fim não se transcende: pelo contrário, o seu fim mantém-se restrito, limitado, à sua própria representação; e por isso não é uma obra de arte propriamente dita.

Na medida em que uma representação pornográfica (e falo aqui de pornografia ou libido, e não de erotismo ou eros) apela menos à intuição (a uma espécie de “inteligência irracional”) do que ao instinto (que é “irracionalidade sem inteligência”), é praticamente impossível que ela inclua em si mesma a potencialidade de se transcender (sair fora de) em relação ao seu próprio significado intrínseco.

A pornografia é uma forma negativa de arte, no sentido em que intuitivamente podemos saber, através dela, o que é a arte propriamente dita. A pornografia é um contraste da arte que a intuição permite identificar.

Quarta-feira, 17 Junho 2015

¿ A pornografia pode ser arte ? (parte I)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:29 am
Tags: , , ,

 

“A estética não existe.”Paul Valéry


O discurso filosófico académico moderno contemporâneo é sistematicamente ambíguo e/ou ambivalente, o que resulta da cultura académica filosófica americana pós-moderna (nitidamente) herdeira de Nietzsche. O filósofo académico pós-moderno dá a sensação de que se senta na sanita e não sabe se há-de cagar ou se há-de “dar corda ao relógio”. É o que se pode inferir deste texto publicado por Carlos Fiolhais no Rerum Natura.

Nietzsche antecipou — como a profecia que se auto-realiza — as modificações que a contemporaneidade provocou na concepção da “arte”, definindo-a mais como um movimento (político) diversificado do que como a procura de um ideal de beleza.

Tudo isto parte do erro do convencionalismo de Nietzsche — a ideia segundo a qual realidade e factos não existem per se (anti-realismo), e de que tudo o que aparentemente existe (incluindo a ciência) são apenas e só convenções sociais. Não sei se o Carlos Fiolhais se deu conta de que ao publicar aquele extracto do prefácio de um determinado livro, assume as dores de uma corrente filosófica anti-realista e, por isso, anti-científica.

A arte é, por definição, uma actividade ordenada com vista a um fim deferente dela própria (o que a diferencia do jogo), por um lado, e cujas técnicas são objecto de aprendizagem ou de ensino, por outro lado.

O discurso ético — e portanto, filosófico — académico contemporâneo sobre a “arte” baseia-se fundamentalmente em alguns conceitos-chave falaciosos: liberdade, tolerância, consentimento etário. Principalmente estes três. É disto que falarei em um próximo verbete (porque agora estou sem tempo e espaço).

Segunda-feira, 16 Março 2015

A cultura actual que elimina o feio

 

Platão escreveu na “República” que “dado que o belo se opõe ao feio, são duas coisas diferentes. (…) E isto é igualmente verdadeiro para o justo e para o injusto, para o bem e para o mal, e para todas as Formas”.

A concepção platónica das Formas — ou das Ideias — já não se aplica na nossa sociedade; ou pelo menos tende a desaparecer. A oposição entre o belo e o feio (estética) e entre o bem e o mal (ética) tende a esbater-se em nome da absolutização do subjectivo. Por exemplo, a arte moderna começou alegadamente como um movimento de protesto contra o filistinismo burguês; mas o corolário da arte moderna é o de que, hoje, a arte não conhece o feio: “é tudo uma questão de gosto”, dizem-nos, “não há o feio nem o belo: há apenas gostos diferentes”. 

O mesmo critério de esbatimento da oposição das Formas aplica-se hoje à  ética (a ética e a estética andam de mãos dadas) e à  justiça (a justiça depende da ética). O ser humano orienta-se na vida pela oposição de conceitos (grande/pequeno, bom/mau, belo/feio, justo/injusto, etc.), e quando esta oposição entre conceitos se esbate, a sociedade tende a regredir a um estado de selvajaria.

O grau do estado de selvajaria de uma sociedade não depende do desenvolvimento tecnológico; o Estado nazi é a demonstração evidente de que uma sociedade pode regredir a um estado de selvajaria alimentando-se de uma tecnologia de ponta. Uma sociedade em regressão para um estado de selvajaria também pode ter muito investimento em dinheiro e meios na ciência positivista que se caracteriza exactamente pela erradicação das Formas platónicas: quando a ciência substitui a ética e os seus valores, o ser humano passa a ser um “selvagem actual”.

dolce gabannaOs homossexuais Domenico Dolce e Stefano Gabanna criticaram as “barrigas de aluguer” e a tecnologia de inseminação artificial.

Há nestas duas pessoas a ideia do belo e do feio, da justiça e da injustiça, do bom e do mau — para além da ciência e da tecnologia, e mesmo apesar da condição homossexual. Não é porque uma pessoa é homossexual que tem que abdicar de uma visão realista do mundo e da vida, que tem que deixar de pensar na ética e na estética, que tem que deixar de conceber os valores como existentes independentemente de nós e que não podem ser deduzidos de uma qualquer utilidade.

Por exemplo, eu não sou rico, mas aceito perfeitamente que existam ricos, porque o realismo e o conhecimento da Natureza Humana diz-me que sempre houve e haverá ricos. Não tenho inveja dos ricos (sinceramente!) nem qualquer ressentimento em relação a eles. O que eu não posso conceber, em nome a oposição entre o justo e o injusto, é que os ricos retirem direitos naturais aos pobres, como está a acontecer hoje em larga escala, criando uma situação política e social a que Hegel chamou de Notrecht (direito de necessidade).

No mundo das Ideias de Platão, um rico também pode ter a noção da oposição entre o belo e o feio, o bem e o mal, o justo e o injusto — porque a desigualdade injusta não se cura com igualdade, mas com desigualdade justa (Nicolás Gómez Dávila). A desigualdade justa tem em conta a equidade, e não a igualdade, porque é impossível sermos todos iguais.

Quando se pretende tornar igual aquilo que não é realmente possível que seja igual, perdemos a noção da oposição dos valores das Ideias de Platão que orientam a sociedade e o indivíduo; caímos em uma nova espécie de selvajaria nazi, em que o ser humano, enquanto pessoa, é desvalorizado em nome da absolutização do subjectivo, seja este individual ou colectivo.

Quinta-feira, 6 Novembro 2014

Realismo metafísico (ou neo-tomista) versus idealismo (ou por que razão Simone Veil está errada)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:43 pm
Tags: , ,

 

“A beleza do mundo não é um atributo da própria matéria. É uma relação do mundo com nossa sensibilidade, essa sensibilidade que depende da estrutura do nosso corpo e da nossa alma.”

Simone Veil

O conceito de “matéria” é hoje de difícil definição, à luz da ciência mais actual. Mas vamos poupar os leitores de um arrazoado quântico, e vamos partir do princípio de que “matéria” significa a realidade macroscópica que nos rodeia.

A mundividência de Simone Veil é idealista.

Um realista diz que a beleza do mundo é um atributo daquilo a que se convencionou chamar de “matéria”. O que acontece é que o ser humano descobre a beleza que existe na matéria através do desenvolvimento e aprimoramento da sua sensibilidade — assim como o Homem foi descobrindo os valores (da ética) que existem em si mesmos e independentemente de qualquer utilidade.

Os valores, assim como a beleza que existe na matéria, não estiveram à espera que o ser humano surgisse na natureza para existirem. Os valores e a beleza da matéria existem independentemente da existência do ser humano.

Os valores eternos (ética) e a beleza da natureza (estética) não podem ser deduzidos da experiência (humana): são atributo do espírito e do seu estádio de desenvolvimento que definem o grau de sensibilidade de cada ser humano.

Sábado, 26 Outubro 2013

A “arte” moderna

 

Morreu o escultor abstracto modernista Anthony Caro (notícia respigada aqui). Vemos aqui em baixo dois exemplos da “arte” moderna de Anthony Caro (clique mas imagens para ampliar).

(more…)

Segunda-feira, 3 Junho 2013

A igualdade feminina das mamas ao léu

Eu tive um professor de matemática que se dirigiu uma vez a um aluno que entrou na sala de aula com uma camiseta (vulgo T-shirt de basquetebol) sem mangas: “Rua! Não quero aqui invertidos!”. Naquela altura, no tempo do faxismo, tanto homens como mulheres não podiam andar de tronco nu na rua.

Depois veio o progresso. E em nome do progresso, a cidade de Nova Iorque decidiu agora que as mulheres têm o direito à igualdade em relação aos homens – e por isso elas têm o direito de andar na rua com as mamas à mostra .

Se o Bloco de Esquerda sabe disto vai propor uma “lei das mamas ao léu”, na assembleia da república.

igualdade-das-mamas-ao-leu-web.jpg

A igualdade das tetas ao léu

Página seguinte »

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: