perspectivas

Quarta-feira, 15 Fevereiro 2017

A eutanásia e a autonomia do indivíduo

 

Um artigo escrito por um Diogo Costa Gonçalves, acerca da eutanásia e com o título “Eutanásia e o ‘mito da autonomia’”:

“Sucede, porém, que a autonomia é um mito: um novo dogma moderno com pouco sustentação na realidade. Não, não somos autónomos!”


“Autonomia” é também, e em primeiro lugar, o livre-arbítrio de S. Tomás de Aquino. Em segundo lugar, é sobretudo a “autonomia” segundo Kant que resume o conceito de livre-arbítrio de S. Tomás de Aquino.

No sentido comum ou vulgar, autonomia é a capacidade de um indivíduo ou de um grupo de determinar ele próprio o seu modo de organização e as regras em relação às quais se submete.

Mas, no sentido filosófico (ética) e moral, a autonomia pode ser uma de duas coisas:

1/ Em Kant, é a característica da vontade que se submeteu livremente à lei moral sancionada pela razão pura prática, por respeito a essa lei, e excluindo qualquer outro móbil.

2/ liberdade moral do sujeito que age de acordo com o que a sua razão lhe dita e não por simples obediência às suas paixões.


Em Kant, a autonomia é simultaneamente liberdade negativa e liberdade positiva.

A liberdade negativa é aquela que consiste em não ser impedido de agir — a de não ser impedido por outrem naquilo que desejamos fazer, ou a liberdade de se exprimir sem censura.

Em contraponto, a liberdade positiva é a liberdade do cidadão-legislador, segundo o princípio de autonomia de Kant, que consiste em tomar parte nas decisões políticas e públicas, e de co-exercer a autoridade em geral.

Segundo Kant, uma acção não pode ser verdadeiramente moral se não obedece a razões sensíveis, exteriores à razão legislativa. Por exemplo, segundo Kant, se ajo por amor à Humanidade, não ajo por dever, mas por sentimento. Ora, uma acção cuja máxima se baseia num sentimento não pode aspirar à universalidade e servir de lei a todo o ser racional.

Em contrapartida, e seja qual for o meu sentimento em relação à Humanidade, “tratar a Humanidade na minha pessoa e na pessoa de qualquer outro, sempre simultaneamente como um fim, e não simplesmente como um meio”, é a máxima exigível universalmente, um dever para todos; a vontade que determina a sua acção a partir dela, é uma vontade autónoma, na medida em que se submete livremente à lei da razão pura prática.


Os que defendem a legalização da eutanásia e afins (que são todos de esquerda, mesmo que digam que não são de esquerda) utilizam o conceito de “autonomia” de forma abusiva e falaciosa, porque não cabe em nenhuma das duas noções de “autonomia” supracitadas. É neste sentido que o Diogo Costa Gonçalves tem razão: em nome da “autonomia” (vista apenas como liberdade negativa), negam-se deveres (liberdade positiva), por exemplo, o dever de solidariedade.

Ou seja: a autonomia (enquanto livre-arbítrio) não é um mito, como diz o Diogo Costa Gonçalves. O que que esquerda faz (por exemplo, Rui Rio, que diz que não é de esquerda) é interpretar erroneamente o conceito de “autonomia”; é ver só uma parte do conceito de “autonomia”, ou seja, vê-lo à luz das paixões (sentimentalismo), e não à luz da razão que universaliza a vontade e a lei moral. De resto, o Diogo Costa Gonçalves tem razão:

“Se a dependência é vista como um fardo, como um indignidade, o direito a uma morte rápida e indolor transforma-se facilmente num dever de morrer dignamente, de não ser pesado, de não onerar o outro com a minha existência.

Não tenhamos dúvidas: é isto o que está em debate na eutanásia. O sofrimento do outro – por quem, infelizmente, poucos realmente se interessam – é apenas um pretexto emocional para a discussão… tudo mais (menos cuidados paliativos, mais consentimento informado, etc.) são minudências de uma discussão que só não vê quem não quer.”


 

O utilitarismo da esquerda contemporânea
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Sexta-feira, 10 Junho 2016

O papa Chico não só é anticatólico: é anticristão

 

É velha, de muitos séculos, a querela (na Igreja Católica medieval) acerca do Absoluto dos valores da ética, por um lado, em contraposição aos que consideravam que os valores da ética, tidos como absolutos, são apenas um ideal irrealizável, face à condição imperfeita do ser humano, por outro lado. Eu vou tentar expôr aqui, de uma forma tão simples quanto possível (porque o assunto não é fácil), a mundividência do papa Chico, e como ela colide com o Cristianismo (e não só com o catolicismo).

Pelo menos desde S. Tomás de Aquino (e antes deste, estava implícita na doutrina da Igreja Católica), todos os papas defenderam a ideia de que os ensinamentos da Igreja (que incluem os valores da ética cristã) se escoram no Absoluto; por exemplo, para a Igreja Católica, o valor da Justiça é absoluto, por um lado, e por outro lado, o valor da Justiça existe por si mesmo e independentemente de qualquer utilidade humana (realismo ético).

¿O que significa dizer que “o valor da Justiça é absoluto”?

Significa afirmar que existe realmente (e não é um mero “ideal”) um conceito de “Justiça perfeita” (absoluta), da qual emanam os valores relativos (individuais) de “justiça”. Não é possível que cada indivíduo tenha uma concepção ligeiramente diferente da justiça em relação a outros indivíduos, se não existir realmente um padrão absoluto (perfeito e divino) de Justiça: se não existe nenhuma possibilidade de enraizar a ética no absoluto, todas as reflexões são inúteis e a lógica não existe. E isto é um facto que é independente da teoria segundo a qual “o ser humano é sensível à Justiça devido à evolução darwinista”.

O papa Chico não concorda com todos os papas anteriores a ele, e principalmente com João Paulo II.

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Diz o Chiquinho que quem considera que existem realmente valores absolutos, é um herege. Em uma homilia da Casa de Santa Marta, o Chico disse o seguinte:

“This (is the) healthy realism of the Catholic Church: the Church never teaches us ‘or this or that.’ That is not Catholic. The Church says to us: ‘this and that.’ ‘Strive for perfectionism: reconcile with your brother. Do not insult him. Love him. And if there is a problem, at the very least settle your differences so that war doesn’t break out.’ This (is) the healthy realism of Catholicism. It is not Catholic (to say) ‘or this or nothing:’ This is not Catholic, this is heretical. Jesus always knows how to accompany us, he gives us the ideal, he accompanies us towards the ideal, He frees us from the chains of the laws’ rigidity and tells us: ‘But do that up to the point that you are capable.’ And he understands us very well. He is our Lord and this is what he teaches us.”

O papa Chiquinho inventou um espantalho que consiste em uma falsa dicotomia entre o “absoluto do valor” e o “valor relativo de cada indivíduo”: diz ele que ou existe o absoluto do valor, ou existe o valor relativo de cada indivíduo — e sem terceira possibilidade. Mas o Chico diz, entrando em auto-contradição, que “a Igreja nunca ensina que é isto ou aquilo”. Essa falsa dicotomia serve para justificar o relativismo ético, por um lado, e para justificar a negação do âmago do espírito do Cristianismo, por outro lado.


papa-freak-webNa Suma Teológica (II), S. Tomás de Aquino fala do retorno da criatura racional para o seu Princípio: a criatura (ser humano) deseja a felicidade, porque a criatura foi conformada (tomou forma) pela lei (de Deus) e foi edificada pela Graça (II,1). Ou seja, o desejo humano ocupa uma função dirigente (conducente) em razão de um estatuto cósmico: todo o ser humano deseja o seu fim (Deus) e tende naturalmente para Ele, embora de acordo com um movimento (individual) que corresponde à sua própria natureza.

Como todos os seres, em geral, o ser humano tende necessariamente para o seu fim (que no caso do Homem, é Deus), e tem um arbítrio: move-se por si mesmo e escolhe certos actos entre outros. Mas, diferentemente dos outros seres, o ser humano tem a capacidade de abstracção, porque é capaz de representar o objecto do seu desejo na sua ausência, porque pode tornar, ou não, presente um objecto como desejável, e por isso o seu arbítrio é livre.

No ser humano, a vontade é um desejo informado pelo intelecto.

A partir do momento em que o Bem se apresenta ao intelecto, este deseja-o naturalmente — mesmo que mantenha a capacidade de se abster em relação a esse Bem. A falta, que consiste em querer um bem particular que não é o bem devido, explica-se pela mediação do intelecto: este pode apresentar ao desejo um objecto menos perfeito do que o do Bem, e arrastar então para uma escolha desviante, para uma falta.

A raiz do pecado reside no intelecto, e a liberdade humana consiste em querer o que é racional — quando o intelecto apresenta ao apetite o Bem verdadeiro, e não apenas um bem aparente.

Segundo Aristóteles, o conhecimento do objecto mais excelente (absoluto), pela mais excelente faculdade, é o acto por excelência que conduz o ser humano ao seu paroxismo; em S. Tomás de Aquino, o desejo humano alcança o seu repouso e o seu cumprimento perfeito na visão intelectual de Deus, a realização da humanidade no acto de perfeita felicidade que é a beatitude.

Mas o ser humano é apenas uma parte do Bem universal, e a parte é sempre menos amável que o Todo que a engloba. Ou seja, em cada ser humano, o bem é relativo (e não é absoluto). Mas sendo que a natureza humana é racional, fazer o bem moral é aquilo que está de acordo com a Razão: um acto é moralmente bom quando é virtuoso, ao passo que o vício é contra a natureza — ou seja, não pode haver um compromisso entre a virtude, por um lado, e o vício, por outro lado.

Se a lei eterna se apresenta ao ser humano pela voz da consciência, é a consciência que obriga vontade a obedecer à lei eterna; mas as consciências não são todas idênticas. Não é pois, o próprio acto do ser humano, mas antes a percepção de que a Razão (o intelecto) dele dá, que qualifica a vontade: se a consciência o apresenta como um mal, e ainda que esse acto seja um bem, a vontade adere-lhe com um mal. Vem daqui a célebre posição de S. Tomás de Aquino segundo a qual é preciso (a cada ser humano em particular) obedecer sempre à consciência, mesmo que esteja errada: a vontade que se inclina para um objecto que percebe como mal, é uma vontade má — ainda que a sua percepção seja defeituosa e o objecto seja bom em si mesmo; e quando a vontade se desvia da consciência: “toda a vontade que se afasta da Razão, seja aquela recta ou errónea, é sempre má” (I – II, 19, 5).

Mas, ao contrário do papa Chiquitito, S. Tomás de Aquino não sacraliza o arbitrário subjectivo através do conceito de “inclusão absoluta” do “e”, em lugar do “ou”.

S. Tomás de Aquino constata apenas que um acto cometido por uma determinada consciência errónea continua a ser mau em si mesmo, e distinto daquele que obrigaria uma consciência informada; e obedecer à sua consciência nada retira à falta prévia de não ter informado a sua consciência. Se apenas podemos obedecer à nossa (má) consciência e à nossa natureza, temos o dever de a substituir por uma melhor, sempre que pudermos. E esse dever passa por categorizarmos os valores da ética e enraizá-los no Absoluto, porque, de outra forma, não saberíamos como melhorar o que quer que seja.

Terça-feira, 18 Agosto 2015

Os modernos dizem que “a lógica evolui”

Filed under: ética — O. Braga @ 1:05 pm
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Temos aqui uma citação de um tal “filósofo” Richard Kearney sobre o problema do Mal. No fundo, trata-se de uma versão moderna e invertida da Teodiceia. O que faz o “filósofo”?

Primeiro cita Santo Agostinho, esquecendo-se que Santo Agostinho baseia-se em ideias de Jesus Cristo (S. Mateus 15, 18-20): é o que sai do homem que pode ser mau, e não o que entra nele. “Filósofo” moderno que se preze, não cita Jesus Cristo.

Logo a seguir o “filósofo” perverte o sentido dado por Santo Agostinho às ideias de Jesus Cristo: diz ele (implicitamente): “se o mal vem de dentro do homem, e se há muitos homens, então segue-se que não existe um Mal universal”. O raciocínio é non sequitur. E depois justifica a negação do Mal universal através de S. Tomás de Aquino:

“E existirá uma noção universal de Mal? Não, disse Kearney, mas é preciso explicar este “não”. Para São Tomás de Aquino pode dar-se o caso de as pessoas que cometem o Mal pensarem que estão a fazer Bem. Com base em Espinoza, precisou que isso não decorre da opinião, decorre sim da interpretação: o Mal humano é o que está sujeito a um conflito de interpretação”.

Há aqui uma perversão ou uma distorção das ideias de S. Tomás de Aquino que caracteriza a filosofia moderna. Vejamos o que S. Tomás de Aquino quer dizer:

Se a lei eterna se apresenta ao homem pela voz da consciência, toda a prescrição da consciência humana obriga a vontade (do homem) a conformar-se-lhe. Acontece que as consciências (humanas) não são todas idênticas. Não é, pois, o acto (do homem) em si mesmo, mas antes é a percepção (a interpretação) que a razão do homem dá, que qualifica a sua vontade: se a consciência apresenta esse acto como um mal — ainda que o acto seja um bem — a vontade adere-lhe como um mal.

Até aqui, estamos todos entendidos. Prossigamos o raciocínio de S. Tomás de Aquino que se complica um pouco mais:

Em função do papel da consciência na percepção (interpretação) da razão, diz o Santo que é mister ao homem obedecer sempre à sua consciência, mesmo que errónea (mesmo que a interpretação esteja errada): a vontade que se inclina para um objecto que ele (o homem) percebe como um mal é uma vontade má — ainda que a sua percepção / interpretação seja defeituosa e o objecto seja bom em si mesmo —, porque a vontade desvia-se da consciência: “toda a vontade que se afasta da razão, seja ela recta ou errónea, é sempre má” (Suma Teológica, I-II, 19,5).

Mas, ao contrário do que foi proposto pelo “filósofo” moderno supracitado, S. Tomás de Aquino não sacraliza o arbitrário subjectivo!

O que S. Tomás de Aquino constata é que um acto apenas é moral se se conforma com os ditâmes da consciência. O acto cometido por uma consciência errónea continua a ser mau em si mesmo, e distinto daquele que obrigaria uma consciência informada. E obedecer à consciência nada retira à falta prévia de o homem em causa não ter informado a sua consciência — se apenas podemos obedecer à nossa natureza pessoal, temos o dever de a substituir por uma melhor sempre que possível.

Em suma:

  • um acto é moral apenas e só quando o homem obedece à sua consciência;
  • é melhor obedecer à consciência, mesmo que estejamos errados, do que não lhe obedecer;
  • o facto de se obedecer à consciência não significa que o acto seja bom ou mau: a bondade ou maldade do acto depende da capacidade de informarmos a nossa consciência.

O ensino escolar deve ser um contributo para que as crianças informem as suas consciências o melhor possível.

A ideia segundo a qual “os valores foram inventados pelo homem e evoluem” é tão estúpida que pode ser até acariciada pela Helena Damião. Com jeitinho, a Helena Damião e o “filósofo” moderno dirão que “os números primos foram invenção humana” e a que “a lógica evolui”. Esta gente não tem emenda.

Sexta-feira, 14 Novembro 2014

O “acidental” e o “necessário”, segundo S. Tomás de Aquino

Filed under: filosofia — O. Braga @ 5:10 am
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Vemos neste vídeo em baixo, uma metáfora dos conceitos de tomistas (e aristotélicos) de “necessário” e de “acidental”.

O “necessário”, segundo S. Tomás de Aquino, não é desprovido de liberdade: em vez disso, a “necessidade” resulta da inteligência que condiciona e determina o grau de liberdade. Em contraponto, o “acidental” é aleatório e não se guia pelos critérios de necessidade (as leis) que a inteligência imprime à Realidade.

Vemos como os movimentos aleatórios do gato — os factos “acidentais” — podem ser integrados em um desígnio maior através da inteligência que determina a “necessidade”. A construção musical inteligente em torno dos movimentos “acidentais” do gato determinam um nexo causal e musical (com leis próprias e intrínsecas) que dão inteligibilidade e coerência à aleatoriedade dos fenómenos.

Quando as pessoas dizem que “o mundo não faz sentido” — metaforicamente, só vêem os movimentos aleatórios do gato; não conseguem ouvir a música inteligente que integra o “acidental” em um Todo inteligível que dá sentido ao aleatório.

Sexta-feira, 4 Julho 2014

A desconstrução revolucionária do modelo da monarquia tradicional

Filed under: Justiça — O. Braga @ 3:22 pm
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Este texto é inacreditável. Com todo o respeito, trata-se de uma inversão revolucionária dos factos históricos.

“A verdade é que o poder régio nos séculos XVII e XVIII mostra que a concepção da soberania na monarquia absoluta estava nos antípodas do regime despótico. Quando o despotismo se tornou uma realidade, isso nada teve a ver com a soberania régia nem com a monarquia absoluta, mas sim com a progressiva desconstrução que a justiça foi sofrendo.”

E a seguir:

“A supremacia da justiça significava a supremacia da lei, mas tudo começou a inverter-se a partir da revolução francesa. A harmonia de relações que existia entre superiores e subordinados é destruída em favor de uma progressiva igualdade que destruiu por completo os fundamentos da Idade Média.”

Ou seja, alegadamente, a culpa da corrupção da justiça durante a monarquia absoluta é da Revolução Francesa que aconteceu depois. Seria como se eu dissesse que “a culpa da implantação da república em 1910 é dos capitães de Abril”.

Um dia destes, se Deus quiser e me ajudar, vou escrever aqui sobre as diferenças entre a monarquia tradicional, por um lado, e a monarquia absolutista, por outro lado — porque me parece que as pessoas ainda não compreenderam a diferença.

S. Tomás de Aquino, na “Suma Teológica” (I-II 93,3), escreve: “Todo o Poder vem de Deus”.

A interpretação, por parte do Absolutismo, desta proposição do santo é um contra-senso: consiste em dizer que toda a autoridade humana (do rei) é de direito divino — quando, em verdade, aquela frase de S. Tomás de Aquino significa, pelo contrário, que não há poder legítimo senão o que verdadeiramente procede de Deus para exigir obediência, e a própria autoridade (humana; por exemplo, o rei) deve obedecer à lei eterna.

É por isso que é legítimo não obedecer aos injustos (aos reis injustos). Para S. Tomás de Aquino, a lei exprime, por essência, a justiça na dimensão do Finito: e se a lei não é justa, nem sequer é lei!; e não a cumprir não é desobedecer, mas simplesmente reconhecer que a lei, sendo injusta, não existe.

Sábado, 7 Dezembro 2013

“O Papa, um homem de acção”

 

«Não toleremos que da palavra “empirismo” se apropriem os que negam três quartas partes do óbvio» — Nicolás Gómez Dávila


O Papa, um homem de acção

«Não sei se poderia ousar dizer que já posso fazer uma síntese. Vejo muitos elementos díspares, vejo um homem de acção – é a primazia da acção, sem dúvida; este não é um homem de doutrina. Um argentino me disse:

“Vocês europeus terão muita dificuldade para entender sua personalidade, porque o Papa Francisco não é um homem de doutrina, é um homem de acção, de práxis. Ele é um homem muito pragmático, muito próximo à terra”.

É visível em seus sermões que ele está perto da gente, e isso é talvez o que o faz muito popular, porque o que ele diz afecta a todos. Também irrita um pouco a todos, mas ele está muito próximo do chão. Não há muita teoria. Vemos isso claramente: trata-se de acção, pura e simples.»

Entrevista de Dom Bernard Fellay, superior da FSSPX, sobre o Papa Francisco


Ser um “homem de acção” e um empirista não significa que se tenha necessariamente que ser um psicótico e/ou que se lhe permita que “negue o que é óbvio”. Há uma grande diferença entre o empirismo e a burrice.

Um indivíduo que age sem pensamento prévio inverte a noção de liberdade que consiste em agir em função da Razão; esse indivíduo é uma espécie de animal irracional: é livre porque age! Em contraponto, o ser humano, porque é racional, deve agir porque é livre — a acção é filtrada pela razão que lhe dá a liberdade propriamente dita (S. Tomás de Aquino).

Terça-feira, 24 Setembro 2013

Interpretação deficiente de S. Tomás de Aquino por parte de Francisco I

 

“Você pergunta se o Deus dos cristãos perdoa aqueles que não crêem nem buscam a fé. Dado que – e isto é fundamental – a misericórdia de Deus não tem limites se aquele que pede por misericórdia o faz com contrição e com um coração sincero, a questão para aqueles que não acreditam em Deus está em obedecer sua própria consciência. De facto, ouvi-la e obedecê-la significa decidir sobre aquilo que se percebe como bom ou como mau. A bondade ou malícia do nosso comportamento depende dessa decisão.”

— Francisco I, em reposta a uma pergunta do entrevistador

os-sapatos-cambados-do-papa-webS. Tomás de Aquino defendeu este princípio — o da necessidade de obedecer à consciência, em primeiro lugar — mas quando aplicado a pessoas que são cristãs. (Suma Teológica, I-II, 19, 5). Em um juízo universal, o cristão tem já uma espécie de “bússola interior” ou intuição ética formatada.

Mas, simultaneamente, S. Tomás de Aquino não sacraliza o arbitrário subjectivo, mas somente constata que um acto apenas é moral se se conforma com o ditame da consciência. E diz, a seguir, que o acto cometido por uma consciência errónea continua a ser mau em si e distinto daquele que obrigaria uma consciência informada. E — continua o Santo — obedecer à sua consciência em NADA retira à falta prévia de não ter informado a sua consciência.

Portanto, parece que o Papa adopta (no texto) apenas uma parte da ética de S. Tomás de Aquino, por um lado, e, por outro lado, comente o erro de a estender a todas as pessoas que não têm uma formação cristã.

Sábado, 27 Julho 2013

Não devemos respeitar quem não merece respeito

Quando a racionalidade e a intemporalidade, que condicionam o valor do “respeito”, não são tidos em conta, então “não devemos respeitar quem não merece respeito”.

Leio aqui que “sem respeitar os outros ninguém merece o respeito de si mesmo. Porque só quem respeita o seu próximo é verdadeiramente digno do eminente valor da sua própria vida”. Desde logo, parece-me que existe uma contradição no primeiro parágrafo, porque seguindo o princípio lógico implícito na citada proposição, mesmo que livremente não respeitem os outros, alegadamente merecem respeito – o que é, em si mesmo, contraditório. Teremos que saber, em primeiro lugar, o que significa “respeito”.

S. Tomás de Aquino dizia o seguinte: “Não devemos respeitar quem não merece respeito”. Obviamente que o Santo também se referia a nós próprios: não nos devemos respeitar (a nós próprios) se não merecemos respeito (de nós próprios). O problema do “respeito” liga-se, por um lado, com o valor (ou desvalor) dos princípios éticos pelos quais nos norteamos (a nossa “bússola” interior, internalismo), e depois depende da correcta interpretação (racionalidade, externalismo) do termo “respeito” (já lá iremos).

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Quinta-feira, 18 Julho 2013

O Papa Francisco I e as indulgências através do Twitter

Ontem passou uma notícia nos me®dia segundo a qual o Papa Francisco I concedia indulgências a quem seguisse a JMJ pelo Twitter. Veio-me à memória a querela das indulgências do século XVI que alimentou a sanha de Lutero e dos príncipes alemães, embora naquela época a indulgência servisse para sacar dinheiro para construir, por exemplo, a capela Sistina.

O Vaticano já veio corrigir a notícia dos me®dia. Mas corrigiu mal, porque mantém o essencial da concessão das indulgências, acrescentando apenas que o que conta, para receber a indulgência, é que os tuites que o Papa envie do Brasil ou as fotos da JMJ produzam um efeito espiritual autêntico no coração de todos.

Ou seja, para Francisco I, o pecado é subjectivo, e é essa implícita subjectividade do pecado que permite a indulgência “por atacado”. Este Papa não “funciona” na linha de S. Tomás de Aquino e na tradição da influência de Aristóteles na escolástica medieval. Pelo contrário, é um Papa puramente neoplatónico, na linha dos Fraticelli franciscanos da Alta Idade Média, na linha de Bernardo de Claraval, de Abelardo, de Robert Greathead, etc. – ou seja, na linha que mais tarde alimentou ideologicamente o movimento revolucionário.

Sexta-feira, 26 Abril 2013

O orgulho de ser moderno (2)

“Se a liberdade se cumpre em cada acto concreto, porque é uma possibilidade em cada acto e só nele, solicita uma ideia, decorre de uma inteligência. E isto tem que ser percebido por nós, (re)aprendido e exercitado e equilibrado por nós, para a podermos proporcionar às novas gerações.” — Via Rerum Natura

O ser humano age porque é livre, mas não é livre porque age. A liberdade humana é anterior ao agir. Em contraponto, um animal irracional é livre porque age: por exemplo, um cão é livre — mas não tem livre-arbítrio — na medida em que tem a sua liberdade de acção; mas um cão não pensa propriamente (embora se possa dizer de um cão que tem uma espécie de inteligência), e por isso não age porque é livre.

Só existe totalitarismo ou tirania quando a maioria — o povo — é animalizado (irracionalizado). E está em curso um processo de animalização e de irracionalização dos povos dos países da União Europeia.

A principal diferença entre os dois tipos de liberdade (ou autonomia) é a de que o ser humano é capaz de representar o objecto do seu desejo na ausência desse objecto e, portanto, o arbítrio do ser humano é livre — enquanto que um animal irracional (por exemplo, um cão) não é capaz de o fazer. O ser humano tem livre-arbítrio porque, nele, a vontade é o desejo [ou a paixão] informada pelo intelecto (ou seja, informada pela razão). [S. Tomás de Aquino].

Portanto, concluímos que a liberdade de um cão não é do mesmo tipo do da liberdade do Homem. Mas para o homem contemporâneo, a liberdade no ser humano é semelhante à liberdade de um cão, na medida em que, para ele, o homem é livre porque age. O próprio marxismo (e toda a filosofia de acção) é o corolário desta concepção irracional e contraditória de liberdade que tem origem em Kant: o marxista típico é livre porque age na sociedade (e por isso é que o conceito de liberdade de Sartre, por exemplo e entre outros, é paradoxal e auto-contraditório).

A partir desta primeira conclusão, podemos passar ao problema da liberdade humana propriamente dita (ou da autonomia).

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Segunda-feira, 22 Abril 2013

A principal diferença entre Bento XVI e João Paulo II, por um lado, e Francisco I, por outro lado

Se quisermos saber a origem da mente revolucionária, teremos que estudar a história dos Fraticelli da Idade Média.

Desde a Idade Média que existem duas mundividências distintas, a que correspondem duas correntes doutrinais diferentes, por assim dizer, dentro da Igreja Católica. Estas duas correntes são, quer queiramos quer não, irreconciliáveis. A primeira é a chamada corrente “intencionalista”, que foi iniciada no século XI por Abelardo, e adoptada em surdina pelos franciscanos e Fraticelli (e por Joaquim de Fiore), e que mais tarde, no século XVI, esteve na origem da Reforma protestante.
À segunda corrente podemos chamar de “tomista” (de S. Tomás de Aquino) embora as suas origens sejam anteriores, por exemplo em João de Salisbúria ou em Hugo de S. Victor.

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Sexta-feira, 19 Abril 2013

O ‘direito divino dos reis’ e S. Tomás de Aquino

Os teóricos do Absolutismo e da Razão de Estado do século XVII deturparam a doutrina da Igreja Católica expressa na seguinte proposição das Escrituras: “Todo o Poder vem de Deus”.

O contra-senso da época clássica e da idade moderna consistiu, nesta matéria, em interpretar esta proposição no sentido de consentir ao rei um poder divino (o “direito divino dos reis” absolutistas), e afirmar que “toda a autoridade é de direito divino” — quando essa proposição não significava outra coisa, por exemplo em S. Tomás de Aquino, senão que “não há poder legítimo senão o que verdadeiramente procede de Deus”; e significava que, para exigir a obediência dos cidadãos, a própria autoridade deve obedecer à lei eterna (leia-se, com “lei eterna”, a lei natural ou a “lei racional” dos estóicos e de S. Tomás de Aquino).

Esta confusão de conceitos dura até hoje, tanto numa certa direita absolutista, como na esquerda totalitária que tenta legitimar os seus tiques elitistas (gnósticos) através da crítica ao passado histórico e ao “direito divino dos reis”. Uns e outros são ignorantes.

Aliás, é difícil conceber uma concepção crítica do Poder político mais subversiva do que a defendida por S. Tomás de Aquino. Para ele, é absolutamente legítimo não obedecer ao poder político injusto. Para S. Tomás de Aquino, a lei exprime a justiça na dimensão do espaço-tempo (no finito): se a lei não é justa, então nem sequer merece esse nome. Uma lei injusta não é lei. Perante uma lei injusta, não a cumprir não é desobedecer, mas reconhecer que essa lei simplesmente não existe.

Não há nada mais subversivo em relação ao poder político do que este conceito de “lei”. A verdadeira doutrina da Igreja Católica é hoje mais subversiva do que nunca, e por isso, talvez, os católicos se tenham transformado no alvo a abater pelo laicismo radical.

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