perspectivas

Domingo, 12 Junho 2016

O libertarismo de Esquerda é uma treta

 

“Entre um mundo sem qualquer forma de coerção e outro em que alguma (por vezes, muita) coerção é compensada por certos serviços e bens, a esmagadora maioria das pessoas preferirá o segundo”.

O nó górdio do libertarianismo

Os dados estatísticos dizem que a esmagadora maioria das mulheres preferem “a coerção do Estado compensada por certos serviços e bens”, e que uma minoria de homens tem essa preferência. Não quero com isto dizer que as mulheres não sejam “pessoas”: quero dizer que as “pessoas” são do sexo masculino ou do sexo feminino, e que os interesses dos dois sexos são diferentes.

Em qualquer seita, como em qualquer sociedade, um dos “segredos” do Poder está no controlo das mulheres: controlem as mulheres e os homens (em geral) seguem-nas de forma canina, mesmo que não concordem com elas. O que se passa hoje é que o controlo das mulheres é realizado através do fomento de uma “indisciplina cultural feminina”: a mulher é controlada (pela Esquerda) deixando-a em “roda livre”, porque se sabe que a mulher sacrifica a sua liberdade em favor da segurança do “guarda-chuva” do Estado.

A “liberdade da mulher”, propalada pela Esquerda, é apenas a tendência da mulher de se sujeitar ao Estado. igualdade-diversidade

Até há pouco tempo, eu pensava que a democracia fosse um sistema político racional — ou, pelo menos, mais racional do que os outros. Mas hoje verifico que a democracia conduz à negação da democracia, na medida em que o corolário do “caminho democrático para o socialismo” (porque as mulheres são maioritárias na sociedade e têm direito a voto, e porque o protagonismo das mulheres na política tem vindo a aumentar) significa, a prazo, a negação da democracia na medida em que o indivíduo se vai diluindo no colectivo.

Naturalmente que a Esquerda dita “libertária” diz que defende os “direitos do indivíduo” — o que nos causa alguma confusão: ¿como é possível que o Bloco de Esquerda, por exemplo, defenda os “direitos do indivíduo” e, simultaneamente, tenha uma visão colectivista da sociedade?

O reconhecimento social de toda a espécie de “direitos” e “liberdades” tem como contraponto o retraimento narcísico dos indivíduos e o seu desinteresse pela coisa pública, em que, finalmente, a omnipresente encenação da liberalização dos costumes encobre uma propensão para o mimetismo, um seguidismo, e um conformismo sem precedentes. Ou seja, o “libertarianismo” sob tutela do Estado pode levar ao anonimato e à indistinção do indivíduo — e a Esquerda sabe disso.

O que a Esquerda “libertária” está a criar é um aumento progressivo da tutela da organização burocrática do Estado em que, por um lado, se afirma a singularidade do indivíduo, mas por outro lado, esse indivíduo é concebido de forma abstracta e em um anonimato generalizado. Quando o Bloco de Esquerda diz que defende os “direitos do indivíduo”, nada mais faz do que aumentar o poder do Estado sobre o indivíduo — o que é uma contradição em termos.

Portanto, o libertarismo de Esquerda é uma treta.

Quarta-feira, 1 Junho 2016

O símbolo de Hitler

Filed under: Política — O. Braga @ 7:25 pm
Tags: ,

 

“A obra icónica de Hitler é finalmente reeditada, isto após ter cessado a proibição da sua publicação na Alemanha, e, como já se esperava, uma polémica vê-se nascente, e ela vem contrapor, mais uma vez, o valor da Liberdade de expressão ao valor do controlo "sensato" dessa liberdade, em nome de um suposto respeito pela Ética.”

“Mein Kampf”: por que é importante reeditá-lo

Eu não li o livro, e por isso não posso pronunciar-me sobre o conteúdo de um livro que não li. Só nos devemos pronunciar sobre aquilo que sabemos. Porém, posso pronunciar-me sobre o símbolo cultural e espiritual do referido livro, que tem como representação uma determinada ideia de sociedade. Sobre esse simbolismo, posso falar. E o símbolo espiritual da “Minha Luta”, de Hitler, (que se reflecte em um determinado significado) para além de não ser comparável (simbolicamente) à obra de Nietzsche, é de tal forma negativo que deve ser tratado como uma espécie de “mal condensado”.

Se me disserem que o referido livro deve ser estudado e lido a nível dos estudantes universitários, não tenho nada contra. Que me digam que o livro pode ser vendido a qualquer bicho careta, mantenho as minhas reservas. As ideias têm consequências.

Quanto ao resto do texto:

simbolo-nazismo1/ a obra de Nietzsche (não a li: estudei-a!, linha a linha) não tem sido “demonizada”; quando as críticas são objectivas, não “demonizamos” ninguém. Quando eu digo, por exemplo e por analogia, que “um assassino é um assassino porque matou alguém”, não o estou da “demonizar”: estou a constatar um facto. Os factos, por si mesmos, não “demonizam”: é a interpretação emocional dos factos que pode “demonizar”. Nietzsche não foi um demónio; foi um pobre coitado que morreu louco.

“Nietzsche está morto” (Deus).

2/ do ponto de vista do seu simbolismo, não é possível comparar o livro de Hitler com qualquer outro livro jamais publicado. Não é possível comparar o simbolismo de Hitler com o de Darwin, com o de Adam Smith, com o de Nietzsche, com o de Platão, com o de Karl Marx, etc.. Quando um determinado símbolo tem, como seu representado (representação), a defesa (explícita ou implícita) da aniquilação humana na forma de uma determinada raça (estou a falar no símbolo, e não no livro que não li), esse símbolo não pode ser tratado como outro qualquer.

3/ o actual branqueamento do Holocausto é também uma consequência desse simbolismo do livro. Desde Sócrates (o grego) que sabemos que ninguém faz o mal pelo mal: quando alguém faz mal a outrem é porque quer algum bem, quanto mais não seja o seu próprio bem.

Mas o símbolo do nazismo (assim como o símbolo dos Gulag soviéticos) ultrapassou a fronteira do “mal”, entendido na forma humana e segundo Sócrates: com o nazismo, o mal tornou-se metafísico, manifestando-se através da liberdade da indiferença e do acto gratuito.

Quinta-feira, 5 Maio 2016

O Luís Aguiar-Conraria é um idiota chapado

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 5:22 pm
Tags: , ,

 

Quando o conceito de “direito” é distorcido de tal forma que se transforma em exigência de quebra de outros direitos fundamentais, não estamos em presença de “direitos”, mas de atentados à liberdade.

Por exemplo, em Espanha, o Podemos pretende introduzir na Constituição o “direito ao trabalho” e o “direito à despesa pública” — o que significa que qualquer desempregado poderá processar judicialmente o Estado por não ter trabalho.

A característica fundamental dos direitos clássicos do liberalismo é a de que o seu exercício, por parte de qualquer pessoa, não implica a usurpação de direitos de outras pessoas.

Ora, isto não acontece, por exemplo, com a adopção de crianças por pares de invertidos, em que estão envolvidos os direitos das crianças à sua árvore genealógica; nem acontece com a procriação medicamente assistida para todo o bicho careta, em que há crianças que nascem sem pai conhecido; nem acontece com as "barriga de aluguer" (a chamada “maternidade de substituição”), em que a criança é tratada como um objecto que se compra e se vende, e em que a mulher é tratada com um animal hospedeiro.

Mas é impossível que o Luís Aguiar-Conraria compreenda coisas tão simples como estas. É um idiota chapado. É um liberticida que usa e abusa do conceito de liberdade.

Segunda-feira, 7 Março 2016

A tentação totalitária da nossa época

Filed under: Política — O. Braga @ 9:53 am
Tags: , , , , ,

 

¿Como podemos compreender que o Bloco de Esquerda, que é constituído basicamente por trotskistas, seja hoje defensor radical dos “direitos do indivíduo”? ¿Como é que gente, como por exemplo o João Semedo que foi militante do Partido Comunista, defende hoje a “liberdade de consciência” do indivíduo para ter direito à eutanásia?

A resposta é simples: a expansão ilimitada do conceito de “direitos do indivíduo” está a ser utilizada para acabar com os direitos do individuo que diz defender, através de um Poder do Estado cada vez maior.

A lógica da Esquerda é seguinte:

1/ vamos invocar que o indivíduo tem direito a tudo e mais alguma coisa, em nome da sua liberdade de consciência;

2/ depois, vamos dizer só um Estado forte e totalitário pode garantir esses direitos do indivíduo;

3/ e quando a máquina de um Estado plenipotenciário estiver instalada, podemos retirar quaisquer direitos ao indivíduo sem que seja possível qualquer reacção por parte da sociedade.

É assim que raciocinam o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista (mas também do Partido Socialista de António Costa).


Vemos o caso do Canadá. A lei da eutanásia terá as seguintes características:

  • morte a pedido para pessoas com doenças graves;
  • morte a pedido para pessoas com deficiências;
  • idem, para pessoas com doenças mentais (se é um doente mental, ¿como pode pedir a sua própria morte?)
  • idem, para crianças “maduras”;
  • os enfermeiros e médicos serão obrigados a executar os doentes, sem qualquer direito a objecção de consciência;
  • os hospitais privados de cariz religioso (por exemplo, os hospitais católicos) serão obrigados a eutanasiar.

Ou seja, toda a sociedade é sacrificada, na sua consciência, para que alguns indivíduos tenham direito a ser eutanasiados, por um lado, e por outro lado para que o Estado adquira um maior Poder sobre a sociedade e sobre os indivíduos em geral. Em nome da liberdade do indivíduo, anula-se, a prazo, a liberdade do indivíduo através do reforço do poder do Estado.

É óbvio que o ataque da Esquerda é também contra a liberdade religiosa. A “liberdade do indivíduo” é colocada como motivo para se eliminar a liberdade dos indivíduos. Passam a existir indivíduos com mais direitos naturais que outros. Temos aqui uma nova versão da construção de uma espécie de URSS.

A perversidade e o cinismo desta estratégia política não se aplica apenas na lei da eutanásia. E os defensores de um Estado leviatão e absolutista serão sempre os guardiões das nossas consciências no futuro: nas palavras de Kant, “é o maior despotismo que pode existir”.

Quarta-feira, 24 Fevereiro 2016

Para a Esquerda, o ser humano não tem alma.

Filed under: Política — O. Braga @ 7:48 pm
Tags: , , , ,

 

A Esquerda é determinista; recusa a noção de liberdade. E apenas invoca a liberdade para justificar a sua visão determinista: a liberdade é vista, pela Esquerda, como uma forma de cada um obedecer às suas próprias leis endógenas alegadamente impostas pela Natureza.

Para a Esquerda, o ser humano não tem alma. E, por isso, o ser humano subordina-se exclusivamente às leis da natureza e às leis da causalidade: a liberdade do ser humano, segundo a Esquerda, consiste em não contrariar as supostas leis da natureza que o agrilhoam.

“O neoliberalismo tem-se relacionado com o aumento da obesidade. O neoliberalismo faz mal à saúde. Isto anda mesmo tudo ligado”.
Isabel do Carmo, radical de Esquerda, via

Seguindo o raciocínio da Isabel do Carmo, um assassino poderia explicar ao juiz que o seu acto resultou inevitavelmente, por exemplo, da sua predisposição genética, ou de um processo programado no cérebro (tal como um trovão se segue a um raio). Ou seja, a culpa seria da organização do mundo, ou então da Natureza que deixa que os seres humanos se tornem assassinos. E por isso, segundo a Esquerda, há que organizar o mundo de forma que os assassinos acabem, através da maior repressão política possível.

Deste modo, o ser humano degrada-se ao nível de um autómato que executa apenas aquilo a que é obrigado pela Natureza, ou então só faz aquilo a que é forçado pela organização da sociedade — porque o ser humano não tem livre-arbítrio. Os únicos com livre-arbítrio fazem parte da plêiade de iluminados de Esquerda. Só a elite de Esquerda é livre para determinar que a maioria não é livre.

Ou seja, segundo a Esquerda, o ser humano não é livre nem responsável pelas consequências dos seus actos. Por isso é que “os obesos são vítimas do neoliberalismo”: eles não têm livre-arbítrio. Isto significa que a igualdade perante a lei é uma ilusão, porque cada ser humano é dotado pela Natureza com dons diferentes. Em um mundo que é dirigido exclusivamente pelas leis da natureza, o conceito de “justiça” não tem qualquer sentido.

Esta mundividência de Esquerda é assustadora — porque defende a ideia segundo a qual, seja o que for que vou fazer, no momento da acção, passa-se comigo o mesmo que se passa com um autómato: não posso agir de outra maneira (“os gays nascem assim, e portanto não podem agir de outra maneira”).

Entre a Esquerda e a Direita existe esta diferença fundamental, e absolutamente irreconciliável. A Direita propriamente dita diz que alguns acontecimentos do mundo (o mundo moral) devem-se a decisões independentes de regras, e autónomas (autodeterminação): o conceito de autonomia da Direita baseia-se na Natureza Humana como algo de fundamentalmente inalterável — ao passo que a Esquerda nega o conceito de Natureza Humana perene, e acredita que pode alterá-la através de engenheiras sociais.

Terça-feira, 10 Novembro 2015

Os crimes-de-ódio e a liberdade de expressão

Filed under: ética,Política,politicamente correcto — O. Braga @ 10:21 am
Tags: ,

 

Ursula-PresgraveEste texto traduz um dos maiores problemas da nossa sociedade actual: os chamados “crimes de ódio”. Uma galdéria inglesa que participa em “Reality Shows” (ver imagem de Ursula Presgrave) escreveu no FaceBook que “as crianças com Trissomia 21 deveriam ser abatidas”; foi levada a tribunal e condenada a 6 meses de prisão remíveis com 5 mil libras de multa.

O articulista, que é um libertário (provavelmente de direita), diz que a Justiça inglesa não tem nada a ver com aquilo que as pessoas dizem, alegadamente porque as pessoas são livres de dizer o que quiserem e “lhes der na real gana”, em nome da “liberdade de expressão”; e até invoca Stuart Mill para sustentar a “liberdade de expressão”.

O problema ético (com consequências jurídicas) é o seguinte: ¿há limites para a liberdade de expressão? ¿E havendo, quais são esses limites?

Hoje há uma grande confusão acerca do conceito de “crimes-de-ódio”, e a Esquerda é a responsável por essa confusão.

Por exemplo, se um padeiro cristão afirma que se recusa a fazer um bolo para um “casamento” gay, é acusado e julgado em tribunal por “crime-de-ódio” contra os homossexuais; mas se alguém disser que “os gays devem ser abatidos”, é igualmente acusado e julgado em tribunal por “crime-de-ódio”. Deixou de existir um critério racional seguro acerca do que é a “liberdade de expressão”, devido ao politicamente correcto e/ou marxismo cultural.

O senso-comum deixou de ter bom-senso.

Esta confusão propositada da Esquerda conduz à confusão dos libertários de Direita que, em função do radicalismo politicamente correcto que pretende controlar o pensamento do cidadão, tendem a tornar absoluto o conceito de “liberdade de expressão”. Uns dizem que o discurso deve ser censurado, e os outros dizem que não deve haver qualquer censura no discurso.

Desde logo existe o critério do “alarme social”.

Não é a mesma coisa que um “blogueiro” obscuro escreva que “os gays devem ser abatidos”, ou que alguém que apareça na televisão diga a mesma coisa. Quem aparece nos me®dia tem um alcance sócio-cultural muito maior.

Depois existe o critério do “atentado à integridade física da pessoa”.

Alguém que escreva, por exemplo, que “os gays devem ser abatidos”, revela uma intencionalidade objectiva de que se atente contra a integridade física dos homossexuais em geral, e enquanto pessoas.


Portanto, o limite absoluto da liberdade expressão é, em primeiro lugar, o discurso de atentado à integridade física da pessoa, e depois o alarme social que esse discurso pode causar. Estes critérios devem ser universais (aplicável à Esquerda e à Direita), criando um senso-comum baseado no bom-senso.

Depois temos as alegadas “injúrias”, as “difamações”, etc., que podem ser ou não, dependendo das decisões dos tribunais, e que fazem parte da liberdade de expressão. Mas atentar de forma verbal, pública e com alarme social contra a integridade física de uma pessoa (nascida ou nascitura) não pode deixar de ser crime.

Domingo, 23 Agosto 2015

Portugal no lugar 25 dos países mais livres do mundo

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 2:36 pm
Tags:

 

Em uma lista de 155 países, Portugal ocupa a posição nº 25 no que diz respeito à liberdade pessoal e à liberdade económica, por exemplo à frente da Espanha que ocupa o lugar 37, da França que ocupa o lugar 33, e da Itália que ocupa o lugar 34. O Brasil de Dilma Roussef ocupa o lugar 82.

A lista é de 2015. Se os socialistas ganharem as próximas eleições, seguramente que vamos (mais uma vez) baixar no índice mundial de liberdade.

Segunda-feira, 17 Agosto 2015

Os libertários seguem Nietzsche

 

A Helena Damião chama aqui à atenção para a “coimbrização” 1 da classe académica em geral: hoje é preciso ter muito cuidado com os professores universitários, tanto em Portugal como no Brasil. Hoje, professor que se preze é “coimbrinha”. A inteligência académica atingiu o grau zero — embora ainda longe do zero absoluto.

Temos aqui um texto de um professor de Direito do Brasil. Vou citar uma amostra:

“O direito ao próprio corpo ainda está longe de ser conquistado e reconhecido como um direito fundamental da pessoa humana”.

pessoa-humana
Gostaria que um professor de Direito (coimbrinha) me explicasse o que é uma “pessoa não humana” — porque se existem “pessoas humanas” (e “círculos redondos”, também), também devem existir pessoas que não sejam humanas. Quando uma “pessoa humana” — como parece ser o meu caso — verifica que um professor de Direito constata a existência (do ponto de vista ontológico) de “pessoas não humanas”, começa a desconfiar da merda do Direito Positivo. Talvez o distinto professor de Direito estivesse a pensar no pai dele.

Temos ali um professor de Direito que recusa a normalização do Direito. Ou seja, defende a lei da selva. Ou melhor: o Direito é visto como negação da sociedade.2 Kant explica por que razão o professor é coimbrinha.

1/ Os homens são “insociavelmente sociáveis” (Kant); querem viver em sociedade, pois sabem que isso é necessário (sociabilidade), mas nenhum está disposto a impôr a si próprio as exigências provenientes dessa existência colectiva (insociabilidade). Se entregues a si mesmas, as relações humanas seriam passionais e gerariam conflitos e insegurança, acabando numa situação contrária ao objectivo da associação. É necessário, por isso, compreender em que condições um direito é verdadeiramente um direito — garantindo realmente a cada um a faculdade de usar os seus direitos (direitos subjectivos), mas impondo-lhe também deveres legítimos.

2/ Se a função do Direito Positivo é o de rectificar, seria contraditório que fosse buscar os seus fundamentos àquilo que existe (na sociedade e na Natureza). Por exemplo, não é porque existem (na Natureza e/ou na sociedade) homens mais fortes do que outros que o Direito tem que necessariamente defender os mais fortes; ou não é porque existem gays que se torna necessário legalizar o “casamento” gay como um direito; ou não é porque existem pessoas viciadas em heroína que o seu consumo deve ser necessariamente legalizado como sendo um direito.

Os factos não justificam o direito e não fundam o Direito. Um professor de Direito deveria saber disto.

A redução da norma ao facto, que caracteriza o Direito Positivo actual, deve-se ao problema de saber o que funda o direito: trata-se de um problema metafísico que os coimbrinhas fazem de conta que não existe.

3/

“Cada qual se considera livre exactamente onde o seu sentimento de existir é mais forte.”

— Nietzsche

Toda a actual infra-estrutura ideológica politicamente correcta do Direito e da política é baseada nas ideias de Nietzsche (que depois tiveram os seus sucessores ideológicos, desde Heidegger, Ayn Rand, a Foucault e a Derrida, por exemplo), — e, na economia liberal, nos marginalistas do século XIX que descambou na actual concepção de uma total subjectivização do capitalismo (neoliberalismo). Ou seja, a infra-estrutura ideológica vigente é baseada no sentimento, no subjectivo absolutizado, e na emoção; mas não na Razão.

Se o acto de meter uma bala nos miolos traduz o meu “sentimento mais forte de existir”, então segue-se que a minha felicidade de existir e de viver é reduzida à minha própria morte. O acto niilista do suicídio passa a traduzir uma felicidade de viver — o que é uma contradição em termos.

Segundo Nietzsche, por exemplo, o sentido da vida escolhido por Hitler é ontológica- e eticamente equivalente ao sentido de vida escolhido por Albert Schweitzer — porque, para ambos, alegadamente o que conta é que as suas (deles) liberdades foram apenas condicionadas pela força dos seus (deles) sentimentos (emoções) de existir.

A esta infra-estrutura ideológica niilista e nietzscheana, o politicamente correcto acrescentou uma super-estrutura ideológica baseada na absolutização (metafísica, ética, política e jurídica) da liberdade negativa a que chama “autonomia”.

À semelhança de Kant, o americano Isaiah Berlin3 opõe a liberdade negativa (por exemplo, a liberdade de se exprimir sem censura) à liberdade positiva que é o poder de tomar parte nas decisões públicas e de exercer a autoridade em geral.

Estes dois aspectos da liberdade deveriam sempre coincidir: aquele que exerce o Poder não pode (racionalmente) querer anular-se a si próprio.

Mesmo que coloquemos reservas a Kant e a Berlin, e seguíssemos o ponto de vista de Raymond Aron segundo o qual a liberdade negativa é a liberdade por excelência, então teríamos que aceitar todo o “pacote” ideológico de Aron que afirma que todas as outras liberdades — para além da liberdade negativa — não passam de “direitos-capacidades” ou de “direitos-crenças”: por exemplo, o direito a um emprego; ou o direito à educação; ou o direito ao reconhecimento legal de que um gay foi sexualmente violado durante a confusão de uma orgia gay; ou o direito ao “casamento” gay: tudo isto são “direitos-capacidades” ou de “direitos-crenças” (segundo Aron) que podemos exigir do Estado, mas que o Estado (ou seja, a sociedade organizada) não tem qualquer obrigação de conceder.

Porém, o que o professor coimbrinha brasileiro defende é liberdade negativa de Aron, e ao mesmo tempo a obrigação da sociedade em conceder “direitos-capacidades” ou de “direitos-crenças” em função da subjectivização absoluta do Direito e da ética, ou seja, negando qualquer critério à liberdade positiva: pretende conciliar Berlin e Kant, por um lado, e Aron, por outro lado, o que é uma impossibilidade objectiva.


Notas
1. A “coimbrização” é o equivalente português do Imbecil Colectivo, segundo Olavo de Carvalho: “O ‘imbecil colectivo’ é uma comunidade de pessoas de inteligência normal ou superior que se reúnem com o propósito de imbecilizar-se umas às outras”.

2. A sociedade é um reagrupamento de individualidades, estruturado por ligações de dependência recíproca, e evoluindo segundo esquemas regulamentados e regidas por instituições — sendo que “instituição” é uma forma de organização de vida social que a sociedade concede a si mesma para assegurar a sua perenidade.

3. “Duas Concepções da Liberdade”.

Terça-feira, 24 Março 2015

O paradoxo liberal da autonomia

Filed under: ética,Política — O. Braga @ 5:34 pm
Tags: , ,

 

Charles Taylor apresenta-nos o paradoxo da diferença entre a autonomia formal e a autonomia real.

A autonomia formal é a dos liberais que separaram o conceito de Bem, por um lado, do de Justiça, por outro (os herdeiros de Kant) — o grupo dos liberais pode ir, por exemplo, do Insurgente ao Jugular, cada um à sua maneira. A única preocupação os liberais é a coexistência da quasi-infinitude de noções de Bem, negando, portanto, qualquer possibilidade de legitimidade de um reconhecimento público universal dos valores. Os liberais dizem:

“Cada um tem a sua ética” (atomização da sociedade em nome da autonomia).

Para os liberais, o domínio da Justiça é alegadamente “universal”, mas já o domínio do Bem é particular e privado (Habermas, por exemplo, ou Hayek: vai dar ao mesmo); mas dizem os liberais que o seu conceito universal do “justo” é “neutro” em relação às concepções de Bem e aos estilos de vida que o exprimem (“neutralidade ético-simbólica”). Por exemplo, quando ouvimos os liberais dizer:

“O “casamento” gay ou a adopção de crianças por pares de invertidos não interfere com a minha vida privada. Problema deles!”

Por outro lado, os liberais entendem o “universal” (na Justiça) como uma simples forma ou processo de determinação da norma prática — ou seja, os paradigmas axiológicos e teleológicos da ética e do político são substituídos pelo paradigma jurídico (pelo processo de promulgação de leis do Direito Positivo).

Porém, (contra os liberais) o conceito liberal de “universal” (na Justiça) não é realmente neutro. Trata-se de uma falácia liberal. Por exemplo, a interpretação liberal dos direitos do homem abstrai o ser humano de qualquer determinação histórica: a construção de qualquer concepção acerca do “justo” insere-se sempre em um contexto de uma tradição prática específica que é portadora de critérios racionalizados de um ponto de vista prático. A razão prática é histórica. E o universal liberal não é neutro porque obedece a uma tradição liberal individualista que, como qualquer tradição prática, possui os seus próprios parâmetros de justificação racional.

O universalismo liberal é uma tradição, e por isso não pode ser neutro.

Os liberais, ao separarem o problema da justa coexistência (Justiça), por um lado, das questões relativas ao sentido da vida (o Bem) através do processualismo liberal (processo de promulgação do Direito Positivo), esquecem-se que o exercício da autonomia do indivíduo supõe a aquisição de mediações culturais específicas assim como instrumentos práticos de reflexão que permitam escolher a orientação mais apropriada para vida do indivíduo. Por outras palavras, a autonomia do indivíduo implica a intersubjectividade cultural e o pensamento crítico em relação a qualquer questão do sentido da vida.

O paradoxo liberal da autonomia é o de que, na ausência da intersubjectividade cultural e do pensamento crítico, os indivíduos caem na heteronomia que os liberais julgavam poder evitar: sob pressão dos preconceitos das modas, das imagens me®diáticas ou das ideologias paradigmáticas de cada época, os indivíduos podem efectuar escolhas que não sabem justificar com argumentos, e por isso não são verdadeiramente livres.

Ora, a aquisição da intersubjectividade cultural e do pensamento crítico não depende simplesmente da responsabilidade privada “de cada um” defendida pelos liberais através do formalismo do Direito Positivo: ela depende também e sobretudo da responsabilidade de todos, porque é determinada igualmente por condições sociais, económicas e educativas que traduzem escolhas sociais.

Segunda-feira, 9 Março 2015

A democracia, a Esquerda, a Direita da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e os direitos de braguilha

Depois da rejeição do Relatório Estrela pelo parlamento europeu, surgiram dois novos relatórios no mesmo sentido: o de instituir o aborto como um “direito humano”. São os relatórios Tarabella e Panzeri.

Se estes dois relatórios forem rejeitados pelo parlamento europeu, irão surgir provavelmente quatro novos relatórios no mesmo sentido; e se os quatro forem rejeitados, surgirão oito novos relatórios no sentido de instituir o aborto como “direito humano”. E assim por diante…

A democracia é isto: é o “progresso da opinião pública” mediante uma pressão política (por parte de uma elite psicótica) de tal forma violenta que vence pelo cansaço qualquer oposição e para além de qualquer racionalidade.

À  medida em que o tempo passa, e em função desta União Europeia, estou cada vez mais céptico em relação àquilo a que se convencionou chamar “democracia”. Se a democracia serve para nos impôr a desumanidade através do formalismo processual de promulgação do Direito Positivo, então nada distingue a democracia de um totalitarismo. E, totalitarismo por totalitarismo, mais vale optar por um que defenda a vida humana.

A estratégia seguida pelos progressistas (de direita e de esquerda, por que já não podemos falar de Direita ou de Esquerda) é o de Aldous Huxley na novela “Maravilhoso Mundo Novo”: o controlo das massas era realizado através de um mecanismo repetitivo e incessante dirigido ao inconsciente do cidadão durante as horas de sono. Hoje, essa função é realizada pelos me®dia apoiados por organizações capitalistas como, por exemplo, a Fundação Francisco Manuel dos Santos, ou a SIC de Pinto Balsemão  — e por isso é que já não faz sentido falar de Esquerda ou de Direita: a única coisa que os divide é o conceito de “propriedade privada”; em tudo o resto são iguais.

A “libertação das massas”, que o sistema democrático defende, segue o conceito de Marcuse de “desenvolvimento não repressivo da libido” (“Eros e Civilização”); se juntarmos ao “desenvolvimento não repressivo da libido” os efeitos afrodisíacos do consumismo exigido, por exemplo, pelos donos do Pingo Doce ou do Continente, em vez de libertação das massas temos uma nova escravatura das massas à  moda de Aldous Huxley. A felicidade passa a ser sinónimo de irresponsabilidade.

E, na actual época de crise económica, quando os afrodisíacos do consumismo estão pela hora da morte, resta aos donos da democracia propôr às massas a “libertação da libido” através da promulgação de direitos de braguilha que compensam os salários de miséria, até que se alcance um estado de animalização colectiva a que cinicamente se chama de “felicidade”, promovida por literatura “filosófica” barata (no preço e no conteúdo) como, por exemplo, a do Pedro Galvão subsidiada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Para se conseguir este estado de animalização feliz, o sistema democrático propõe-se erradicar o livre-arbítrio do ser humano. É neste contexto que surge o conceito contraditório de “aborto como direito humano” — como se assassinar um ser humano passasse a ser um direito — que se baseia em uma estratégia de estimulação contraditória que induz uma dissonância cognitiva nas massas que reduz drasticamente a capacidade crítica e o livre-arbítrio do cidadão.

A liberdade democrática é utilizada para retirar o livre-arbítrio e a capacidade de discernimento ao cidadão. Se isto é liberdade, então uma ditadura pode ser melhor.

Quinta-feira, 22 Janeiro 2015

A liberdade de expressão, o Charlie Hebdo e a estupidez

 

Eu estou de acordo com o nosso Rei, D. Duarte Pio: o Charlie Hebdo é um jornal desprezível, mas temos o dever imperativo de defender a vida da escória da sociedade, como eram os jornalistas do Charlie Hebdo. Esta é a minha posição acerca da liberdade de expressão: existe em todas as sociedades inevitavelmente uma escória moral que abusa da liberdade de expressão, mas cuja vida dos seus membros tem que ser defendida a todo o custo. O valor ético mais elevado é o da vida humana.

Se eu escrevo em um jornal um artigo em que classifico uma determinada pessoa de “estúpida”, tenho que explicar por que razão essa pessoa é estúpida: está aqui o limite entre a injúria e a liberdade de expressão. Não tenho o direito, em nome da liberdade de expressão, de dizer que “Fulano é estúpido, porque sim!, porque me apetece!”: tenho que dizer que “Fulano é estúpido, por isto, por aquilo e por aqueloutro”  — tenho que fundamentar racionalmente a classificação da estupidez de Fulano.

A partir do momento em que se torna evidente, mediante uma demonstração racional, que Fulano é, de facto, estúpido — essa invectiva deixa de ser “injúria” (no sentido jurídico) para passar a fazer parte da liberdade de expressão. Portanto, a liberdade de expressão implica a responsabilidade que a razão exige. Por isso, eu acho que o papa Bergoglio foi estúpido quando defendeu a violência, mesmo que se tratasse de uma reacção em relação a uma injúria de facto.

O autor deste verbete está a ser estúpido — e eu vou explicar por quê (de outro modo seria injúria gratuita). Escreve ele:

“Outra vantagem da liberdade de insultar e ridicularizar é ser selectivamente corrosiva de más ideias.

Quem tentar ofender os físicos ridicularizando a termodinâmica ou a teoria da relatividade irá apenas fazer figura de parvo ou revelar a sua ignorância.

Em contraste, é muito fácil ofender quem acredita que o criador do universo encarnou num palestiniano para fazer meia dúzia de milagres e assim nos indicar que quando morrermos podemos ir para o céu. Essa ideia é tão descabida e ridícula já de si que qualquer piada que se faça vai ofender.”

Em primeiro lugar, parte do princípio de que os conceitos científicos actuais são verdades absolutas cuja ridicularização revelaria ignorância — o que é uma contradição em relação ao próprio espírito científico. Portanto, um defensor da ciência que afirma que a ciência detém verdades absolutas que não podem ser contestadas ou ridicularizadas, é um estúpido, como é estúpido o imã muçulmano que lança uma Fatwa de morte sobre quem se atreve a desenhar o profeta.

Em segundo lugar, é estúpido porque compara — ou coloca no mesmo plano de análise — a ciência, que é objectiva em si mesma (no sentido da experimentação e da verificação ) , com a religião, que é na sua essência um fenómeno subjectivo e intersubjectivo. Comparar alhos com bugalhos revela estupidez e fraco espírito científico.

Por isso é que o Ludwig Krippahl é estúpido.

Sábado, 17 Janeiro 2015

Os liberais Carlos Abreu Amorim, Ana Gomes e Boaventura Sousa Santos

 

Ontem à noite vi o debate entre o Carlos Abreu Amorim e Ana Gomes na TVI24. As posições de cada um face ao terror do Charlie Hebdo são baseadas nas posições clássicas do liberalismo de direita, por um lado, e no liberalismo de esquerda (também chamado “libertarismo” na Europa, e nos Estados Unidos de “liberalism”).

O liberalismo de direita — ou seja, para o Carlos Abreu Amorim — consiste na crença numa só verdade universal segundo a qual todas as pessoas têm direitos (jurídicos) iguais 1. E embora existam culturas diferentes, todas elas estão em conformidade com essa verdade universal única 2  — incluindo o Islão. Para as pessoas da direita-liberal, o “pecado” maior é a negação esta verdade universal única, e o seu corolário é o de que todas as pessoas são capazes de seguir essa verdade.

O libertarismo de esquerda  3 — ou Ana Gomes, ou Boaventura Sousa Santos — consiste na crença numa igualdade substantiva e moral da humanidade (relativismo moral: todas as culturas são igualmente válidas). O liberalismo de esquerda rejeita a noção de verdade universal única dos liberais de direita, porque essa verdade seria superior às outras verdades, e porque as pessoas que acreditem nessa verdade se sentiriam superiores e tentariam dominar as outras (marxismo cultural e a noção de “domínio”).

Para o liberalismo de esquerda, todas as verdades, todas as pessoas, todas as culturas, todas as religiões (incluindo a Macumba, o Satanismo e o Candomblé] têm que ser tratadas de forma igual. Para a esquerda liberal, o “pecado” mais grave é imaginar que alguém possa estar na posse da verdade e que possa esperar que outras pessoas dêem a anuência a essa verdade.

Corolário: a direita liberal pensa que a esquerda liberal comete o maior “pecado”, e vice-versa. Mas é o princípio da igualdade que lhes é comum.

(more…)

Página seguinte »

O tema Rubric. Create a free website or blog at WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 776 outros seguidores