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Terça-feira, 17 Maio 2016

O David Marçal, a mecânica de Newton e a astrologia (parte II)

Filed under: Ciência — O. Braga @ 8:50 am
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(em continuação do verbete anterior)

Pessoas como o David Marçal ganharam notoriedade pública devido ao politicamente correcto, e por isso têm acesso livre aos me®dia. O politicamente correcto é o “bom gosto” actual; e aquilo a que (sempre) se considerou de “bom gosto”, ao longo da História moderna da Europa, fez mais vítimas inocentes, só nos últimos 200 anos, do que a Igreja Católica desde a Antiguidade Tardia (incluindo as cruzadas, a Inquisição, as guerras religiosas na Europa, a colonização, etc.).

No verbete anterior abordamos o anacronismo da lei gravitacional de Newton na medida em que serve de fundamento à principal crítica dita “científica” do David Marçal em relação à astrologia. Hoje temos a Teoria da Relatividade e a física quântica (embora não compatíveis entre si), que fazem com que a mecânica de Newton se remeta à utilidade do ensino secundário. O David Marçal parece ter parado no tempo; não há Zodíaco que o valha.


É conhecida a teoria das marés de Galileu, que se demonstrou errada porque ele baseou a sua teoria apenas no movimento de rotação da Terra, e propositadamente não tomou em consideração a influência da Lua no movimento das marés. Galileu não colocou a hipótese da influência lunar no movimento das marés porque tinha um preconceito negativo — normal entre os naturalistas daquela época — em relação à astrologia.

Recorde-se o principal argumento do David Marçal contra a astrologia:

“De todas as implausibilidades, a menos implausível é a gravidade. Mas a força gravítica é proporcional à massa dos corpos (o Sol é gigante e determina o movimento dos planetas no sistema solar) mas diminui com o quadrado da distância. Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra). Como afirmou o astrónomo e divulgador de ciência Carl Sagan: «Marte tem muito mais massa, mas o obstetra está muito mais próximo.» E mesmo que houvesse uma qualquer influência da posição dos astros durante o nascimento, ficaria por demonstrar que isso seria determinante para o resto da vida”.

Tal como Galileu, o David Marçal faz de conta que a Lua não existe.

“Assim, a força gravítica que o corpo do obstetra exerce sobre o bebé no momento do nascimento é mais forte do que a exercida por Marte ou por qualquer outro planeta (à excepção da Terra)”.

Só a Terra existe — tal como raciocinou Galileu na sua teoria das marés; para o David Marçal, a Lua não existe. E ele chama à sua tese de “científica”; ele fala em nome da ciência, e até invoca o argumento de autoridade de Carl Sagan. Basta só o facto de o David Marçal se ter esquecido da Lua, para que o seu principal argumento contra a astrologia ir pela pia abaixo.

Quando, em um manicómio, existirem perturbações comportamentais entre os doentes mentais durante a Lua Cheia, o David Marçal irá chamar uma catrafada de obstetras para acudir à crise.


O segundo argumento do David Marçal contra a astrologia é o seguinte:

“Por causa do movimento de precessão do eixo da Terra, as zonas do céu em que vemos as constelações ao longo do ano não são as mesmas de quando a astrologia foi inventada.”

Em primeiro lugar, parece que o David Marçal acredita que qualquer tipo de experiência indutiva (ciência de qualquer espécie) é uma invenção humana — o que é típico do positivismo. A experiência humana face aos factos e aos fenómenos é considerada uma “invenção humana”. Os números primos, por exemplo, também são considerados como uma “invenção humana”, por um lado; e por outro lado, “a lógica evolui”.

Perante o arquétipo mental do David Marçal, só nos resta sorrir…

Em segundo lugar, a tese do “movimento de precessão do eixo da Terra” confunde “signos do Zodíaco”, por um lado, com “constelações do Zodíaco”, por outro lado. Ou seja, o David Marçal confunde a “estrada da Beira” com a “beira da estrada”.

A astrologia ocidental — dita “Tropical” — é baseada na posição dos planetas calculada em função do “trânsito” do Sol conforme visto da Terra, em vez dos padrões aparentes das estrelas mais distantes — como invoca o David Marçal.

Ptolomeu instituiu um sistema em função da chamada “Precessão dos Equinócios” (detectado pelo grego Hiparco), fazendo com que o Zodíaco se iniciasse em Carneiro com a posição do Sol no equinócio da Primavera. Ou seja, o Zodíaco (tropical) é estático e não é afectado pelas mudanças do eixo da Terra. No entanto, Ptolomeu manteve os nomes antigos dos signos no seu sistema actualizado, nomes esses que eram os mesmos das constelações artificiais antigas desde o tempo da Babilónia e da Mesopotâmia — e foi isso que causou a confusão do David Marçal.

Ou seja, o Zodíaco (Tropical) mantém-se inalterado desde há cerca de 2.200 anos.

Mesmo os astrónomos modernos utilizam ainda o sistema do Zodíaco de Ptolomeu naquilo a que chamam de Sistema de Coordenadas Eclípticas, que corresponde exactamente aos signos do Zodíaco Tropical.

Com Ptolomeu, a astrologia ocidental (Tropical) passou a reger-se pelo Tempo, e não pelo espaço exterior ao sistema solar.

Domingo, 15 Maio 2016

Um eucariote sem mitocôndria !?

Filed under: Ciência — O. Braga @ 7:23 pm
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Foi descoberto um organismo celular sem mitocôndria!

Até agora, os biólogos acreditavam que a mitocôndria era essencial para o fornecimento de energia da célula através da síntese de moléculas ATP. Mas, recentemente, descobriu-se que um organismo celular de tipo eucariote (com núcleo separado por uma membrana) não possui mitocôndria — os nutrientes exteriores são transformados em energia directamente no citosol da célula, num dispositivo biológico baseado em enxofre.

“Rather than evolving without mitochondria, biologists believe the cells lost these power organs at some point in their evolutionary past.

Instead, it is thought the cells swapped traded DNA with bacteria – in a process known as gene transfer – in order to inherit a sulphur transfer process which produces energy”.

Os cientistas acreditam que esse organismo não “evoluiu” sem mitocôndria! Claro que acreditam, porque não podem provar isso ou o contrário.

Quarta-feira, 30 Março 2016

Os unicórnios existem

Filed under: Ciência — O. Braga @ 3:59 pm
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Em muitas discussões metafísicas, era normal que os ateístas invocassem o argumento do “mito de Deus”, afirmando que “os unicórnios não existem”; e eu respondia que é impossível à ciência afirmar que os unicórnios não existem — porque a ciência não pode provar que uma determinada coisa não existe.

Pois bem: os unicórnios existem. Ou já existiram. Mais um argumento ateísta e cientificista que vai pela pia abaixo.

 

unicornio

Sexta-feira, 25 Dezembro 2015

O biólogo Denis Noble mete Richard Dawkins no lixo

Filed under: Ciência — O. Braga @ 8:35 am
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Terça-feira, 1 Dezembro 2015

Quando a ciência é vista como a negação da razão

Filed under: A vida custa,Ciência — O. Braga @ 10:15 am
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“Uma das primeiras grandes verdades que eu aprendi nos EUA foi que não é possível argumentar com o sucesso.

Quando analisamos um caso clínico, por exemplo, que teve um desfecho positivo, apesar dos erros crassos que foram cometidos durante o tratamento, é inútil apontar esses erros porque, em última análise, alguém vai sempre invocar o sucesso do resultado para demonstrar que não houve qualquer erro”.

Não é possível argumentar com o sucesso

Temos aqui um juízo que ignora o conceito de juízo universal — o que é característica do politicamente correcto. Dou um exemplo.

Um tio meu fumava dois maços de cigarros por dia e morreu aos noventa e tal anos. Consideramos que a longevidade dele foi um “desfecho positivo”, apesar de ser um fumador inveterado. Portanto, é inútil apontar comportamentos menos correctos (EM GERAL) às pessoas porque, em última análise, alguém vai sempre invocar a longevidade de uma pessoa para demonstrar que não houve qualquer erro de comportamento.

Esta confusão do politicamente correcto da negação do juízo universal em questões de facto começou com Montaigne e atingiu o seu refinamento com o cepticismo de David Hume.

Segundo Hume, negar uma afirmação de origem empírica não é uma auto-contradição, alegadamente porque o estádio dos assuntos descritos poderia ter sido outro.

Por outras palavras: “se a minha avó tivesse rodas era um avião; portanto, a minha avó só não é um avião porque não tem rodas. E se ela tivesse fogo no cu era um foguetão”.

Mas a verdade é que a ciência (empírica) é feita com estatísticas (ver indução). E as estatísticas implicam necessariamente um juízo universal em que há regras, e admite-se por princípio que possam haver excepções às regras.

Quando se invoca o sucesso de um resultado para obliterar ou escamotear os erros do método seguido — então segue-se que ou o método normalmente seguido está errado e necessita de ser reanalisado, ou estamos perante um resultado que é uma excepção indutiva à regra do método.

Afirmar que, em ciência, não é possível argumentar com sucesso, é um absurdo. Completo absurdo.

Sexta-feira, 9 Outubro 2015

David Marçal tem razão

Filed under: Ciência — O. Braga @ 7:17 am
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Segundo o director-geral da Saúde, Francisco George, “muito mais de 20% dos cidadãos procuram terapias não-convencionais”; 1 e por isso,

« A Lei de 2003 “pretendeu acabar com a má prática da medicina não-convencional”, bem como “disciplinar o sector”, afirmou. Do mesmo modo, a regulamentação dessas terapias, em 2014, surgiu com o objectivo de “reduzir os efeitos negativos das más práticas, em nome dos interesses da saúde”.»

Pseudo-ciência usa linguagem científica para confundir as pessoas

Ou seja: segundo o raciocínio de Francisco George, se 20% da população acreditasse em bruxas, os hospitais públicos deveriam ter de plantão uma bruxa a tempo inteiro. O argumento é ridículo: havendo 20% da população que acredite em bruxas, há que regulamentar por lei o “estatuto curativo” da bruxaria.

O problema da democracia é este: se é o povo que mais ordena, então é o povo que define — por exemplo — o que é ciência. Um dia destes ainda vamos ver o professor Karamba a dar aulas na faculdade de medicina de Lisboa.

Prof Karamba

Nota
1. Argumentum ad Numerum

Terça-feira, 8 Setembro 2015

A ciência descreve, mas não explica

Filed under: Ciência — O. Braga @ 4:21 pm
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O Ludwig Krippahl escreve um texto longo sobre três textos longos meus. Como cantou José Afonso, “já nos cansa esta lonjura…por aqueles olivais perdidos, foi-se embora o vento norte”. Portanto, vou-me concentrar apenas na primeira parte do texto do Ludwig Krippahl, no qual ele afirma que “explicar” é o mesmo que “descrever”:

“No primeiro post, Braga afirma que «a ciência não explica: em vez disso, descreve» (1). É uma afirmação curiosa porque uma explicação também descreve e o que a ciência faz é precisamente procurar as melhores explicações que, por o serem, são também a melhor forma de descrever a realidade”.

Ludwig Krippahl

Quando consultamos um dicionário, vemos que “explicar”, no sentido lato, significa esclarecer, tornar compreensível, tornar inteligível — por exemplo, explicar um texto, ou explicar um símbolo, ou explicar um enigma. Ou seja, no dicionário encontramos definições nominais que assentam em uma convenção prévia.

Por exemplo, se a sociedade convencionar que o casamento inclui a ligação afectiva e sexual entre os seres humanos e os canídeos, a definição nominal de “casamento” — a que consta dos dicionários — passa a incluir essa ligação. Teríamos, então, que o casamento incluiria (segundo os dicionários) a ligação afectiva e sexual entre um homem e uma cadela.

Porém, e para além das definições nominais (a tais que constam dos dicionários), existem as definições reais que são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência. Os dados da experiência indicam que a ligação afectiva e sexual entre um homem e uma cadela é uma parafilia a que se convencionou chamar de “zoofilia” — e não propriamente “casamento”. Portanto, por muito que a política pretenda alterar a noção de “casamento” incluindo nela a zoofilia, por exemplo, a definição real de “casamento” não se deixa alterar pelo desejo ou capricho humanos.


Na definição nominal, “explicar” é clarificar, tornar inteligível o que surge, à primeira vista, obscuro e enigmático. Quando se refere a um produto cultural, a explicação actualiza a estrutura subjacente, esclarece o que está implícito e os pressupostos daquilo que investiga — por exemplo, um texto, uma obra, um mito, etc. — visando encontrar o seu significado: o objectivo da explicação é, neste caso, a compreensão do objecto estudado.

O mesmo não se passa no domínio dos fenómenos naturais.

No domínio dos fenómenos naturais, a explicação dissocia-se da compreensão. Em boa verdade (que não é a do Ludwig Krippahl), o cientista não investiga o significado de um fenómeno (o fenómeno da atracção, por exemplo) quando tenta “explicá-lo”. Em vez disso, enuncia uma lei — ou seja, uma correlação constante entre um certo número de parâmetros — que deverá permitir que dele se aperceba.

O cientista não procura razões; antes, procura causas: apenas trata de estabelecer relações constantes entre dados observáveis e responder à pergunta: “¿Como?” — não procurando compreender a natureza íntima dos fenómenos (por exemplo: “¿porque se atraem os corpos?”).

Deste modo, por exemplo, “explicar” a origem do universo através do Big Bang não é compreender a sua razão de ser. Por isso é que eu digo que “a ciência descreve, mas não explica”.

Terça-feira, 1 Setembro 2015

Cientismo, sociobiologia, e o altruísmo

Filed under: A vida custa,Ciência,Esta gente vota — O. Braga @ 11:06 am
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Assim como a URSS era o Sol do Mundo para o Partido Comunista, assim os países nórdicos da Europa são hoje o Sol do Mundo para a actual Esquerda socialista. E uma das características culturais que marca o norte da Europa é o cientismo; senão, vejamos este artigo:

ltruismo genetico

Segundo a “ciência” nórdica, já se descobriu a razão para o altruísmo humano: está nos genes.

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Sábado, 29 Agosto 2015

Ludwig Krippahl, a ciência e a moral — Parte III

Filed under: Ciência,cultura — O. Braga @ 10:37 am
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“Nas religiões, teologias e tretas afins, o procedimento padrão é assentar argumentos dedutivos numas poucas premissas tidas como inquestionáveis. Que Deus existe e inspirou a Bíblia ou que os astros influenciam a nossa vida conforme a sua posição aparente, por exemplo. Se a ciência fosse assim, realmente seria apenas mais uma treta. Mas não é.

A ciência não deduz uma conclusão a partir de um conjunto de premissas. A ciência procura as melhores explicações admitindo todas as premissas. Por exemplo, se admite a premissa de que a Terra é plana, admite também que pode ser cúbica, ou esférica ou esferóide alargada no equador. Admite também várias hipóteses sobre fios de prumo, relógios solares, esquadros e réguas. Depois interpreta a sombra ao meio dia a várias latitudes e os eclipses lunares à luz de cada combinação de premissas – não há dados brutos que possam ser apreendidos sem assumir nada – e nota que, na vasta maioria dos casos, as coisas não encaixam. Eventualmente, isto obriga a concluir que a Terra é aproximadamente esférica, mais uma data de coisas. Que por sua vez levantam novas questões, inspiram novas fornadas de hipóteses e novas iterações do processo. Sem nunca acabar.

A ciência não assume à partida que isto ou aquilo é que é verdade. Explora continuamente todas as hipóteses em aberto à procura das melhores explicações.”

Ludwig Krippahl

O Ludwig Krippahl vê a ciência como uma espécie de investigação do Monsieur Poirot: perante o crime, todos os intervenientes são suspeitos à partida. A diferença é que o Monsieur Poirot descobre a verdade, mas a ciência (segundo o Ludwig Krippahl) não. Obviamente que o raciocínio do Ludwig Krippahl é falso; só não sei se ele procede propositadamente ou não.

De facto, à semelhança da actividade do Monsieur Poirot, a ciência é uma actividade de resolução de problemas; mas a ciência parte sempre de uma premissa inquestionável: se o problema existe, terá que existir uma solução para ele: é esta a fé do cientista, que é a maior de todas porque é inconfessável. Portanto, a ciência assume à partida que é possível resolver problemas e descobrir a verdade — porque, de contrário, a ciência não faria qualquer sentido; se assim não fosse, a ciência seria a encarnação de Sísifo.

Ao contrário do que o Ludwig Krippahl, a ciência deduz, de facto, conclusões a partir de premissas: a essas premissas chamamos de “paradigma”.

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Sexta-feira, 28 Agosto 2015

Ludwig Krippahl, a ciência e a moral — Parte II

Filed under: A vida custa,Ciência,Esta gente vota — O. Braga @ 8:26 pm
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Se eu vejo alguém dar um pontapé num cão e este gane, determinar se o cão sofreu ou não com o pontapé não é um problema científico: é uma questão metafísica e de intuição. A intuição diz-me o seguinte: se eu levar com um pontapé, também sofro; portanto, aplica-se aqui a regra de ouro: não faças aos outros o que não queres que te façam. A regra de ouro não tem nada a ver com a ciência: pertence à ética que se liga intrinsecamente à metafísica, que são partes da filosofia.

Mas o Ludwig Krippahl diz que não: diz que determinar se o cão sofreu ou não com o pontapé, é um problema científico. Já lá iremos; mas antes vamos desmontar um sofisma do Ludwig Krippahl: diz ele:

Na matemática, na lógica e na metafísica podemos estipular verdades por definição. Por exemplo, na álgebra da escola primária é verdade que 1+1=2, na álgebra de Boole a verdade é que 1+1=1 e nada nos impede de inventar uma álgebra na qual 1+1=3”.

O que o Ludwig Krippahl se refere é à chamada “álgebra da lógica”, expressão criada por volta de 1850 pelo matemático Boole para designar a sua própria construção da lógica dita “tradicional” sob a forma de símbolos matemáticos que a aproximam de um “cálculo de classes”, ou seja, de uma série de manipulações que obedecem a princípios de extensão ou de redução dos diferentes conceitos. A chamada “álgebra da lógica” de Boole foi mais tarde englobada naquilo a que chamamos hoje “logística”.

“Logística” é o termo adoptado no princípio do século XX para designar o conjunto de processos e sistemas que fundam a lógica como coerência de símbolos sujeitos a um número de regras fixadas e decididas livremente, sem referência aos hábitos intuitivos de significação nela referenciados e igualmente matematizáveis. A logística quer ser também o “jogo da escrita” comum às diversas ciências, incluindo uma lógica diferente da lógica “tradicional” — mas nada ainda provou que esta lógica “nova” não se reduz àquele “jogo da escrita”, de facto continuamente obrigado a ir buscar o fundamento dos seus exercícios à lógica dita “anterior” ou à experiência empírica.

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Quarta-feira, 26 Agosto 2015

Ludwig Krippahl, a ciência e a moral — Parte I

Filed under: A vida custa,Ciência,Esta gente vota — O. Braga @ 10:27 am
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Eu faço a seguinte afirmação: “Os dinossauros extinguiram-se há 65 milhões de anos”. Ou ainda outra: “o universo formou-se há 13,5 mil milhões de anos (luz)”. Estas afirmações são científicas. ¿Mas estarão correctas a 100%? O Ludwig Krippahl diz que sim:

“As mesmas equações que usamos para determinar onde a Lua vai estar na próxima semana também servem para saber onde esteve na semana passada e todos os dados que a ciência usa são históricos, seja o resultado da experiência de ontem, seja a luz que saiu de uma galáxia distante há dez mil milhões de anos”.

Karl Popper, que comparado com o Ludwig Krippahl é uma merda, escreveu o seguinte:

“As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecer para sempre conjecturas ou hipóteses”.

Como é evidente, a maioria das pessoas acredita mais em Ludwig Krippahl do que em Karl Popper.


Vamos ver, por exemplo, as leis da gravidade: primeiro, temos que nos abstrair de alguns factores, como por exemplo a forma e a cor dos objectos, ou a resistência ao ar. Ou seja, abstraímo-nos de qualquer caso real na natureza observável na Terra, simplificando consideravelmente as condições. Uma vez compreendidas as condições no vácuo, elas permitem então (juntamente com outros princípios) a compreensão da queda dos aviões, ou das folhas, por exemplo.

folhas-outonoImaginemos uma floresta de folhagem caduca, no Outono. Com o vento, as folhas vão caindo. A ciência pode tentar compreender e prever o local da queda das folhas. O Ludwig Krippahl diria o seguinte: “É errado alguém dizer que nunca a ciência compreenderá a combinação da queda das centenas de milhares de folhas”. Ele tem razão por um lado, mas não a tem por outro lado.

Em princípio, a Física tem as folhas em redemoinho sob controlo, ou seja, o processo pode ser compreendido como um caso concreto (nominalismo) de um pequeno número de princípios gerais. Mas, por outro lado, precisamos de ter em conta o facto de esta compreensão fundamental não poder impedir que um físico não possa descrever a trajectória de uma folha, senão de uma forma aproximada. No entanto, esta forma aproximada é tão geral que também é possível prever como as folhas cairiam na Lua.

Em suma: para que seja possível formular leis a partir das observações científicas, é preciso simplificar e criar modelos que constituam uma abstracção da complexidade da realidade. Os modelos, todavia, constituem aproximações à verdade do fenómeno a investigar, sem que possam, como é evidente, chegar alguma vez a compreendê-la completamente. Por isso é que dizemos que “a ciência não explica: em vez disso, descreve”.

Portanto, ficou aqui reduzida ao absurdo a ideia do Ludwig Krippahl segundo a qual “a ciência pode determinar o que é historicamente verdadeiro”.


“A mente humana é constituída de tal forma que o erro e a mentira podem sempre ser expressos de maneira mais sucinta do que a sua refutação. Uma única palavra falsa requer muitas para ser desmentida.” — Olavo de Carvalho

Em uma segunda parte, falarei do resto da treta do Ludwig Krippahl.

Domingo, 2 Agosto 2015

A homeopatia não faz parte das Ciências da Natureza. Ponto final.

Filed under: Ciência — O. Braga @ 12:18 pm
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Um leitor deixou-me ficar a seguinte mensagem:

“Junto, em anexo, um artigo que vem na Revista nº161 da Ordem dos Médicos de Julho (…) Pelo que pude deduzir, parece que a Ordem dos Médicos só poderá aceitar o carácter científico da homeopatia baseando-se no efeito placebo e num conceito de interacção mente-matéria de intenção terapêutica.

Ora, este conceito parece-me ser um ressuscitar do epifenomenalismo do séc. XIX, com ‘ar fresco’ do séc. XXI, misturando tudo com a douta sapiência de António Damásio e o Erro de Descartes, até que a massa fique com a consistência necessária”.


1/ A homeopatia não faz parte das Ciências da Natureza porque não se verificou — pelo menos até agora — uma regularidade estatística universal do seu método. Isto não significa que o princípio da indução, que caracteriza a ciência, seja indubitavelmente válido 1 : significa apenas que não existe (ainda, pelo menos) um qualquer nexo causal, universal e abstracto, nos fenómenos homeopáticos que lhe possa conferir a classificação de “ciência”.

A homeopatia não é refutável. Portanto, e pelo menos por agora, não pode pertencer às Ciências da Natureza. Dizer que “a homeopatia é ciência” (no sentido das Ciências da Natureza), é falso.

2/ É falsa a ideia segundo a qual “um cientista tem que ser materialista” e, por isso, tem que assumir o epifenomenalismo. O epifenomenalismo é uma extrapolação metafísica (filosófica) a partir de factos, e por isso não é ciência. A ciência baseia-se na regularidade dos factos indutivamente abstraídos em leis gerais; mas a interpretação metafísica dos factos é teoria, e por isso faz parte da filosofia (e não da ciência propriamente dita).

3/ Os epicuristas da antiga Grécia, por exemplo, eram epifenomenalistas; Demócrito também tinha uma certa tendência para o epifenomenalismo. O epifenomenalismo não é uma teoria do século XIX.


Nota
1. porque o princípio da regularidade dos fenómenos naturais é em si mesmo um princípio geral (axiomático) e, por isso, não pode ser estabelecido indutivamente

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