perspectivas

Sexta-feira, 20 Julho 2018

Ainda não batemos no fundo…

 

“Estive no Canal Q a debater a interpretação histórica do nazismo. Creio que o racismo não foi a causa mas a consequência, a causa foi a crise de 29 e o temor da revolução por parte quer da URSS quer do SPD”.

Raquel Varela


“A separação entre ciência fundamental e aplicada, ou entre ciências sociais e exactas é fictícia”.

Raquel Varela


1/ a Raquel Varela deverá estudar melhor a Idade Média na Alemanha. Em Portugal e em Espanha, o “problema judeu” não foi um problema de “raça”: foi um problema de conversão ao catolicismo. Na Alemanha medieval, a situação cultural foi totalmente diferente.

2/ toda a gente tem direito a “comes e bebes”; longe de mim querer tirar o tacho à Raquel Varela. Que se refastele à fartazana à mesa do Orçamento de Estado.

Mas se “a História está sujeita a interpretações”, então segue-se que as ciências sociais (por exemplo, a História) não são tão exactas quanto as ciências formais (a matemática), ou mesmo quanto as ciências da natureza.

Ou seja: ao contrário do que a Raquel Varela disse, a separação entre ciências sociais, por um lado, e as ciências exactas, por outro lado, não é fictícia.

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Domingo, 25 Março 2018

O Positivismo não tem que ser necessariamente materialista

Filed under: Ciência — O. Braga @ 1:40 pm

 

O Ludwig Krippahl fala aqui em uma tal Leonor Nazaré, que denuncia o «paradigma científico […] do materialismo positivista».

Ora, o positivismo não tem que ser necessariamente materialista, como podemos verificar com a filosofia imaterialista (de negação dos corpos materiais) do Bispo irlandês George Berkeley (deu o nome à actual universidade californiana); ou ao positivismo do austríaco Ernst Mach que foi um formidável adversário da teoria atómica — sendo que “materialismo” é o credo que concebe a matéria 1/ como não sendo, em princípio, explicável; 2/ contesta a realidade dos campos das forças materiais e 3/ nega a realidade do espírito ou da consciência e a realidade de tudo o que não é material.

O positivismo (o romantismo na ciência), entendido como “ciência enquanto saber certo”, conduz 1/ ao imaterialismo de Berkeley, Hume ou Mach; por um lado; e, por outro lado, conduz ao 2/ materialismo behaviourista (Watson, Skinner) tão em voga, hoje, pelo politicamente correcto nas chamadas “ciências sociais” e dos militantes LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros].

O primeiro nega a realidade da matéria — já que a única base segura e certa do nosso conhecimento consiste nas experiências subjectivas (das nossas próprias percepções), e estas são sempre imateriais. E o materialismo behaviourista nega a existência do espírito (e, desta forma, nega a liberdade humana), já que tudo o que se poderia observar seria o comportamento humano exterior que corresponde, sob todos os aspectos, ao comportamento animal (mesmo no que respeita ao “comportamento linguístico”).

O problema das chamadas “medicinas alternativas”, ou “tradicionais”, é a verificação.

Todos sabemos que, na ciência “clássica” (por assim dizer), a verificação (por indução e inferência) não é totalmente satisfatória; mas é fiável — o que não acontece com as “medicinas tradicionais”. Portanto, a minha desconfiança em relação às “medicinas tradicionais” é racional (o que não significa necessariamente uma total confiança na ciência dita “clássica”).


“A ciência engana-nos de três maneiras: 1/ transformando as suas proposições em normas; 2/ divulgando os seus resultados mas escamoteando os seus métodos; 3/ calando as suas limitações epistemológicas. Toda a ciência se nutre das convicções que estrangula”.
Nicolás Gómez Dávila

Quinta-feira, 22 Fevereiro 2018

O maniqueísmo politicamente correcto da “ciência que só tem um lado”

 

O Carlos Fiolhais plasmou no seu (dele) blogue um texto de uma tal Vera Novais acerca da “ciência oficial”, por um lado, e dos “hereges”, por outro lado — é claro que o Carlos Fiolhais faz parte da versão correcta da ciência que é aquela que faz parte do paradigma vigente.

Pelo que compreendi, a tal Vera quis saber se o leite faz mal ou bem à saúde, e para isso parece que “recorreu à ciência” que, diz ela, “se opõe à pseudo-ciência” — para escrever um artigo sobre o assunto (artigo esse a que eu não tive acesso, e até seria prolixo e improfícuo que eu tivesse porque não é isso que me interessa agora).

O que me interessa saber, da tal Vera, é esta proposição :

“ (Ela) não tinha de ouvir dois lados da questão, tinha de ouvir apenas um: o lado da Ciência”.

É claro que o Carlos Fiolhais, o sumo-sacerdote da ciência oficial e sacrossanta (positivista) em Portugal, tinha que vir a terreiro dar a bênção à Vera Novais. O problema é que a ciência tem de facto “vários lados”, ou seja, podemos dizer que “existem vários lados da ciência”.


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Quarta-feira, 27 Dezembro 2017

Por outras palavras: são burros

 

É curioso o facto de os ateístas (em geral) se preocuparem (pelo menos) tanto com Deus quanto os católicos. dawkins-and-freud-web

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Quarta-feira, 20 Dezembro 2017

O Carlos Fiolhais e a “prova” do milagre de Fátima

 

Richard Dawkins escreveu algures que se uma estátua de Nossa Senhora sair de uma igreja pelos seus próprios pés, tratar-se-ia certamente de um fenómeno natural. O Carlos Fiolhais é da mesma opinião.

O Carlos Fiolhais é demasiado estúpido para ser uma “referência da ciência” em Portugal. O rei vai nu.

Ele pode até ser uma referência do naturalismo; mas a ciência não se reduz nem se traduz na / à metafísica naturalista. Mas — obviamente — que o Carlos Fiolhais e quejandos não sabem a diferença entre uma coisa e outra. O Carlos Fiolhais é um técnico que se julga filósofo.

Diz o Carlos Fiolhais que “a ciência não vive de autoridade, mas antes vive de provas”. ¿O que é a “prova”?!

A verdade científica não pode ser “provada” com certeza, nem através da experiência e nem através da intuição intelectual, porque na ciência não existe nenhum indicador infalível para a verdade.

Por exemplo, na cosmologia: décadas de “provas” acumuladas não produziram o universo que a metafísica naturalista do Carlos Fiolhais tinha previsto e exigia. O Big Bang não nos levou a uma teoria com menor implicação teísta, e há indícios de um universo programado para a vida (Fine-tuned Universe).

Ou seja, a “prova naturalista” do Carlos Fiolhais é uma “batata sem grelo”. Ou, pelo menos, as provas “provam” exactamente o oposto do que o naturalismo pretendia “provar”.

A verdade científica não pode ser “provada” com certeza, nem através da experiência e nem através da intuição intelectual, porque na ciência não existe nenhum indicador infalível para a verdade.

Em bom rigor, não pode ser encontrada uma prova concludente para uma evidência tão simples como a existência de um mundo exterior a nós próprios. Kant chamou a isto o “escândalo da razão”.

A moderna teoria da ciência formula, com Karl Popper, uma versão mais moderada do “escândalo da razão” de Kant: segundo Karl Popper, “o mundo exterior [a nós próprios] é uma hipótese de trabalho para a ciência da natureza”.

Por isso é que o Carlos Fiolhais é estúpido. Não é uma acusação ad Hominem : é a constatação de um facto.

Um estúpido pode ser criativo: por exemplo, a teoria do Multiverso faz parte da metafísica naturalista e é bastante criativa — embora não necessite de “provas”. Os naturalistas (da laia do Carlos Fiolhais) defendem as “provas” quando lhes convém; mas quando não lhes convém, abraçam os dogmas do naturalismo enquanto religião secularista.

Quinta-feira, 30 Novembro 2017

Quem escreve o que o professor Galopim de Carvalho escreve, só pode ser burro

 

“À ciência se pode objectar a facilidade com que cai em mãos de imbecis — se o caso da religião não fosse igualmente grave”.

→ Nicolás Gómez Dávila


Desde que o professor Galopim de Carvalho escreveu que a vida surgiu da evolução da matéria inerte, deixei dar valor ao que ele escreve; até ontem, quando li uma nova pérola do professor:

“O pensamento, não surgiu no cérebro humano da noite para o dia. É um produto imaterial da matéria”.

Perante isto, gostaria que o professor nos dissesse ¿o que é a “matéria”? E se ele não souber o que é a “matéria”, que pergunte ao Carlos Fiolhais que é o génio que nos pode ajudar a definir “matéria”.


atenc3a7c3a3o-ao-burroO professor Galopim é um burro que escreve para o comum dos burros; cumpre a sua missão de abrutar o mundo; tal como os cientistas do século XIX, acredita que a vida surge da lama depois da chuva. E o pessoal do Rerum Natura bate palmas.

O blogue Rerum Natura  é um exemplo do Imbecil Colectivo .

O arquétipo mental do professor é o do século XIX: segue o positivismo, e o cientismo  — que é a ideia segundo a qual a ciência resolverá progressivamente todos os problemas dos seres humanos. Só um burro pensa assim.

A partir das bases ideológicas do positivismo e do cientismo, o professor constrói uma estória (uma narrativa) da carochinha (era uma vez…). O professor Galopim será, talvez, umas das poucas pessoas, em todo o mundo, que consegue definir “realidade” — os burros, na sua simplicidade, conseguem definir o que quiserem. E a acromania dá licença para tudo.


Albert Einstein ( que dizem que era ateu ou agnóstico) escreveu no seu livro “Worte in Zeit und Raum” (1992, Bonn):

“Mesmo que os axiomas de uma teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo, o que não se poderia esperar de maneira alguma”.

Ou seja, mesmo os ateus inteligentes têm a humildade e a sabedoria necessárias para não dizer asneiras. A vanguarda da ciência é cautelosa. Mas quando topamos com um ateu burro, lidamos com a plebe profissional que segue a vanguarda científica de uma forma presunçosa.

O professor Galopim de Carvalho não tem capacidade para falar de assuntos que extravasem a sua especialidade técnica. Melhor fora (para ele e para todos) ficar calado.

Quinta-feira, 2 Novembro 2017

António Damásio é extremamente perigoso, porque personifica a falácia ad Verecundiam

 

Eu não li o livro de António Damásio com o título “A Estranha Ordem Das Coisas” citado aqui pela Helena Damião; nem vou comprá-lo, porque estaria a beneficiar alguém que detesto solenemente.

Há muitas formas de espalhar o ódio e de “fomentar o recrudescimento dos extremismos na Europa”, mas o Damásio (à semelhança de outros intelectuais de merda como, por exemplo, o José Pacheco Pereira) só se fixa num dos lados do problema — e por isso é que ele é extremamente perigoso; e também porque se aproveita do seu estatuto para abusar da falácia ad Verecundiam.

Não ouviremos nunca o Tonho Damásio (nem o Zé Pacheco) criticar o Bloco de Esquerda, por exemplo, por este partido político pretender legalizar a “mudança de sexo” (como se fosse possível, do ponto de vista biológico, mudar de sexo) em crianças de 16 anos, e à revelia da opinião dos pais.

Para o Tonho Damásio, o Bloco de Esquerda não é um movimento político “extremista”; e “extremistas” são os que se opõem aos malucos da Esquerda.


Quando o Tonho Damásio diz que “o nosso sentimento de aceitar o outro” é a condição do “equilíbrio da sociedade”: aqui voltamos ao conceito de “autonomia” deturpado pelo politicamente correcto, em que o respeito pelo “princípio da autonomia” se torna mais importante do que o respeito pela pessoa em si mesma.

Por fim: quando o Tonho Damásio diz que a divisão entre Ciências Biológicas, por um lado, e as Humanidades, por outro lado, não faz sentido — o que ele pretende dizer é que o Positivismo se aplica de igual modo às Humanidades.

O Tonho colocou em causa a tese de Karl Popper segundo a qual as Ciências Sociais (as tais “Humanidades” a que o Tonho se refere) não podem ter o mesmo método de investigação das Ciências da Natureza.

Ou seja: o Tonho Damásio acaba de passar um atestado de burrice ao conhecido filósofo Karl Popper. O homúnculo Tonho tem que se lhe diga!

Sábado, 14 Outubro 2017

O método científico aplicado à acusação de José Sócrates

Filed under: Ciência,filosofia,josé sócrates,lógica — O. Braga @ 12:11 pm

 

Pergunta Sócrates: «Como é que provam que o dinheiro era meu?»

Resposta: Pensando.

Filosofia do crime


A ciência progride mediante a inferência.

A inferência é o acto que consiste em admitir como verdadeira uma proposição que não é directamente conhecida como tal, e por referência a outras proposições verdadeiras com as quais está ligada.

A inferência pode ser “racional” mas não enquanto “juízo lógico”: é “racional” no que diz respeito ao seu “conteúdo” — embora alguns lógicos admitam a existência formal (mediante juízo lógico) de inferências imediatas.

A inferência é dedutiva ou demonstrativa, quando a conclusão é logicamente necessária (como num silogismo, por exemplo). É indutiva ou não demonstrativa (indução) quando a conclusão não é mais que provável ou verosimilhante (por exemplo: “infiro a existência de um cão, se ouço ladrar”).

No caso da acusação de José Sócrates, as inferências são, em alguns casos, indutivas e por referência a outras proposições verdadeiras com as quais estão ligadas. Mas noutros casos são também inferências dedutivas porque as conclusões são logicamente necessárias.

Domingo, 25 Junho 2017

O Júlio Machado Vaz e as “humanidades”

Filed under: Ciência,Ciências Sociais,Humanidades,Júlio Machado Vaz — O. Braga @ 10:47 am

 

julio machado vaz webVinha, há pouco tempo, no carro e ouvi na rádio o Júlio Machado Vaz confundir “ciências sociais”, por um lado, e “humanidades”, por outro lado. Para o Júlio Machado Vaz, “humanidades” é sinónimo de “ciências sociais” — quando ele se referiu à sociologia como sendo um ramo das “humanidades”.

Ciências Sociais é um ramo das ciências, distinto das humanidades, que estuda os aspectos sociais do mundo humano, ou seja, a vida social de indivíduos e grupos humanos. Isso inclui antropologia, estudos da comunicação, marketing, administração, arqueologia, geografia humana, história, ciência política, ciência da religião, contabilidade, estatística, economia, direito, psicologia social, filosofia social, sociologia, e serviço social”.

Wikipédia

A sociologia faz parte das ciências sociais. Aconselho o Júlio Machado Vaz a ler a Wikipédia antes de ir dar lições para a Antena 1 da rádio pública.

Das “humanidades” ou “ciências humanas” fazem parte, por exemplo, a filologia ou o estudo de línguas vivas ou mortas (por exemplo, o latim ou o grego antigo), a filosofia, teoria da arte, cinema, administração, dança, teoria musical, design, literatura, etc..

Sexta-feira, 23 Junho 2017

A lógica é imanente, e Causa Primeira é transcendente

Filed under: Ciência,Domingos Faria,filosofia,lógica,metafísica — O. Braga @ 7:58 pm

 

O Domingos Faria invoca um burro com um alvará de inteligente que escreveu um livro, para citar um argumento que coloca em causa o princípio da razão suficiente de Leibniz (e não de Espinoza, como escreveu o Domingos Faria) que reza assim:

“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”


Há vários erros no raciocínio do burro letrado, mas talvez o principal seja o exarado no ponto 5:

“Se S é necessária, então P é necessária. [de PRS e necessidade da implicação]”

Acontece que se uma Causa Primeira é necessária, não se segue que um determinado efeito (dessa causa) seja necessário— desde logo porque a Causa não se confunde (como seria lógico) com um qualquer seu efeito.

A proposição supra só teria alguma legitimidade “lógica” se a Causa Primeira fosse imanente, ou seja, se ela pertencesse à mesma Realidade dos seus possíveis efeitos (possibilidade ou probabilidade) segundo o princípio da causalidade — mas então teríamos que explicar, por exemplo, por que razão as partículas elementares (que são efeitos de uma Causa, ou seja, existem por uma qualquer razão suficiente) aparecem e desaparecem do universo como que por magia, vindas do Nada e para o Nada.

¿De onde vêm, e para onde vão, essas partículas elementares que aparecem e desaparecem continuamente no universo?

Para qualquer pessoa “inteligente” é difícil aceitar que no centro da Física, que pretende ser a ciência dos fundamentos de todo o universo, as leis da nossa razão deveriam ser anuladas.

E isto porque, ao contrário do que defendeu Einstein, “Deus lança mesmo os dados” — no sentido em que os efeitos enquanto factos têm uma probabilidade objectiva (e não uma probabilidade subjectiva humana, devida à falta de conhecimento científico): a “casualidade” (os acontecimentos “por acaso”) e a “a-causalidade” (aquilo que parece não ter causa) não são expressão dos nossos conhecimentos limitados, mas sim são constitutivas da própria Realidade.

É neste sentido que se fala em probabilidade objectiva, por contraposição a uma probabilidade meramente subjectiva, baseada apenas numa falta de conhecimento das razões causais.

Ou seja, o princípio da causalidade (que é exclusivamente imanente) foi refutado pela própria ciência atómica.

Mas essa refutação não significa que, 1/ não exista uma Causa primeira que determina a existência de uma probabilidade objectiva que pode ser contingente na sua condição de causa segunda, e por isso, 2/ não significa que essa probabilidade objectiva, enquanto efeito, seja necessária. Aqui, David Hume tem razão.

Ademais, o raciocínio do lógico em causa é uma tautologia— a inferência pretende ser sempre verdadeira quaisquer que sejam os valores de verdade atribuídos a priori às proposições.

A lógica não se pode fechar em si mesma e fazer de conta que a ciência não existe. Quando isso acontece, aparecem lógicos burros que escrevem livros. Hoje, vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa estúpida uma resposta estúpida em relação a uma pergunta estúpida — porque o pensamento e as crenças não coincidem.

Domingo, 30 Abril 2017

As vacinas, e a indução na ciência

Filed under: Ciência,Cientismo,David Hume,indução,Karl Popper,utilitarismo,vacinas — O. Braga @ 11:41 am

 

Quando eu era menino, tive o sarampo, e o povo dizia: “Sarampo sarampelo, sete vezes no pêlo!”. Também apanhei a varicela, mas era só uma vez; e a papeira, que é aquela maleita que incha o pescoço. E como eu, a maioria das crianças teve sarampo, varicela e papeira; e, que eu saiba, ninguém da minha infância morreu por isso.

Quando eu era bebé, as vacinas eram: a BCG (tuberculose), a poliomielite, e a varíola. Ponto final. E a vacina não era tríplice: eram tomadas uma de cada vez, em separado e em tempos diferentes. Naquela época não havia vacina contra o “sarampo sarampelo, sete vezes no pêlo”.

Noutro dia fui ao Centro de Saúde aqui da zona, e o enfermeiro queria dar-me uma vacina contra o tétano; mandei-o dar uma volta ao bilhar grande.

Pode dar-nos a ideia de que determinadas pessoas, colocadas em altas posições sociais, estão convencidas de que as vacinas substituem o sistema imunitário, ou que impedem definitivamente o desenvolvimento de doenças — como é o caso da vacina contra o HPV (Human Papiloma virus) nas adolescentes, vacina essa que não impede a manifestação dessa doença. Mas segundo um vídeo que me enviaram, essa ideia pode estar errada: o que se passa é que há interesses financeiros por detrás da obrigatoriedade da toma de determinadas vacinas.

 


francisco-george-webMas vamos partir do princípio de que o senhor Francisco George, Director Geral de Saúde, é uma pessoa impoluta e que não cede aos interesses das multinacionais do medicamento. É apenas uma pessoa bem intencionada que acredita piamente na ciência.

Em ciência (ou em epistemologia), a indução é uma inferência  conjectural ou não-demonstrativa; ou seja, é o raciocínio que obtém leis gerais a partir de casos particulares.

Ao contrário do que acontece na dedução — na indução, as conclusões de um raciocínio não são logicamente necessárias. Na sequência de David Hume, filósofos como por exemplo Karl Popper insistiram no “círculo vicioso” da indução evocando, por exemplo, o princípio da regularidade dos fenómenos naturais, que é em si mesmo um princípio geral que, portanto, não pode ter sido estabelecido indutivamente. Karl Popper tira daqui o argumento para recusar à ciência fundar-se na indução.

David Hume rejeitou o princípio da indução, que, aplicado à questão causal, diz que

  • se A foi frequentemente acompanhado ou seguido de B, e se não se conhece nenhum caso em que A não seja acompanhado ou seguido de B, então é provável que na próxima ocasião em que A seja observado, seja acompanhado ou seguido por B.

Se o princípio é adequado, um número suficiente de exemplos dá uma probabilidade vizinha da certeza, e as inferências causais rejeitadas por Hume são válidas, não decerto para nos dar certeza, mas probabilidade praticamente suficiente.

Mas, se não é verdadeiro, todo o esforço de obter leis científicas a partir de observações particulares é falaz, e o cepticismo de Hume é irrefutável para um empirista. O princípio não pode inferir-se sem circularidade (como Karl Popper também afirmou) de umas uniformidades observadas, desde que por ele se justificam essas inferências. Deve, portanto, ser — ou ser deduzido de um princípio independente e não baseado na experiência. Nesta extensão, Hume provou que o empirismo puro não é base suficiente da ciência.

Para contrariar Hume, podemos nós dizer que a indução é princípio lógico independente, impossível de inferir da experiência ou de outros princípios lógicos, e que, sem esse princípio, a ciência é impossível.

O que eu pretendo dizer — com este relambório acerca da indução e da ciência — ao senhor Francisco George é o seguinte: as vacinas podem resultar bem, provavelmente em 99% dos casos, porque o critério da utilização da vacina segue o princípio da indução. Mas, provavelmente, existe 1% dos casos (por exemplo, mas podem ser mais) em que determinada vacina pode causar mais danos do que benefícios.

O problema do senhor Francisco George é o utilitarismo que predomina na nossa sociedade: “a maior felicidade para o maior número possível de pessoas”; e a quem não pertence ao “maior número”, diz o senhor Francisco George: “fodei-vos!”.

Sábado, 1 Abril 2017

O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, a estupidez de Rui Rio, a ciência, o aborto e a eutanásia

 

A eutanásia — assim como o aborto — é uma questão de ética, e não propriamente de ciência.

Naturalmente que a ciência pode dar opinião, mas não adianta de nada, como podemos ver na questão do aborto: hoje a ciência diz que o ADN único e irrepetível do ser humano tem o seu início no momento da concepção, mas nem por isso a opinião da ciência é ouvida pela classe política.

Eu diria mesmo que chegamos a um ponto da nossa sociedade em que a opinião da ciência se tornou irrelevante, na medida em que a ciência é amiúde adulterada no sentido de justificar determinadas religiões políticas.

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Na medida em que 1) o cientista deve procurar a objectividade; 2) em que a objectividade requer um despojamento de valores; 3) e em que o cientista é um sujeito [um ser humano] e a comunidade científica é composta por seres humanos [sujeitos] — a ciência [e sobretudo as ciências sociais] só muito raramente consegue libertar-se das valorações [éticas] da sua própria camada social, de modo a poder estabelecer uma independência valorativa e objectiva.

Em consequência, surgiu no século XX um fenómeno massivo de “liquidação do sujeito”, imposto por uma elite cientificista, e que se traduziu na emergência das religiões políticas totalitárias [por exemplo, o eugenismo característico dos “progressistas”, evolucionistas e socialistas; o nazismo e o comunismo]. Este processo cientificista de “liquidação do sujeito” levou a uma dissociação mental extrema entre a comunidade científica, e a uma inversão da moral.

O marxismo é um exemplo dessa dissociação mental extrema e da inversão da moral: por um lado, o marxismo liquida a ética e a moral [e também toda a filosofia], classificando-a de “subjectiva” e idealista, ao mesmo tempo que denuncia os tabus tradicionais e históricos (por exemplo, os tabus da cultura antropológica europeia do aborto e da eutanásia); e por outro lado, entrega-se a um excesso ético, que denuncia toda a oposição e crítica ao marxismo como um embuste, e estabelecendo simultaneamente novos tabus (Aquecimento Global, animalismo, etc.) contrapostos aos tabus tradicionais.

O marxismo — que se diz, dele próprio, científico — faz a crítica da nossa moral tradicional, mas de uma forma extremamente moralizante, e moralmente invertida e contra-natura. [ver mente revolucionária]

A ideia segundo a qual “o aborto e a eutanásia não são defendidas exclusivamente pela Esquerda, mas que, em vez disso, atravessam toda a sociedade”, é um embuste — a não ser que se reduza a Esquerda e a Direita à economia. O que se passa é que algumas pessoas que se dizem de Direita — como por exemplo, o economista Rui Rio — reduzem a realidade inteira à economia, e depois consideram-se mais inteligentes do que um qualquer analfabeto carrejão do Douro.

É evidente que o Rui Rio é um idiota útil.


eutanasia-velhariasEscreve o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada que “os médicos portugueses são, na sua grande maioria, contra a eutanásia”; mas são contra a eutanásia enquanto seres humanos dotados de sensibilidade, inteligência e intuição (que é uma forma de inteligência), e não enquanto médicos. Por exemplo, o João Semedo, do Bloco de Esquerda, é médico e é a favor da eutanásia. O problema é ético, e não científico.

A ética e a moral não podem ser definidas ou determinadas pela ciência.

A ideia de responsabilidade moral reside na experiência subjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas pelas leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica.

A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas” — estas aqui entendidas no sentido naturalista [naturalismo ≡ cientificismo metodológico].

A Esquerda marxista (Partido Comunista, Bloco de Esquerda, José Pacheco Pereira e Partido Socialista) pretende destruir a sociedade em que vivemos, para por cima dos seus escombros construir uma sociedade totalitária (no caso de José Pacheco Pereira, uma espécie de República de Platão em que impere o rei-filósofo, ou seja, ele próprio) .

Portanto, a posição da Esquerda é perfeitamente compreensível. O que é mais difícil de compreender são os individualistas ditos “de Direita” — como Rui Rio: colocam o seu individualismo e libertarianismo ao serviço de uma agenda política colectivista e totalitária.

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