perspectivas

Sábado, 14 Fevereiro 2015

A matemática e os órgãos dos sentidos

Filed under: Ciência — O. Braga @ 10:51 am
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“Quando vão entender que qualquer expressão matemática só corresponde a uma realidade analogicamente, e que em última instância o único juiz dessa correspondência é o testemunho dos tão desprezados órgãos dos sentidos?”

→ Olavo de Carvalho

É verdade a que matemática parte de postulados — e não de evidências —, mas também é verdade que os órgãos dos sentidos fundamentam-se em crenças; e o problema é o de saber quando e se essas crenças (e não me refiro a fé religiosa, que é outra coisa) ditadas pelos órgãos dos sentidos são verdadeiras ou falsas.

Por exemplo, se os órgãos dos sentidos são o único juiz da realidade, então o darwinismo está correcto — até porque o darwinismo é fortemente intuitivo e não propriamente atreito a formalismos matemáticos. Ora, a principal objecção em relação ao darwinismo é que se baseia quase exclusivamente nos órgãos do sentidos (por exemplo, a comparação visual de Ernst Haeckel entre um feto de um peixe e um feto humano). É mesmo contraditório que um cientista aceite simultaneamente e sem reservas o darwinismo e a física quântica. Nenhum biólogo darwinista (passo a redundância), digno desse nome, deixa de ser fortemente céptico em relação a qualquer aspecto da física quântica, porque a biologia tem como fundamento os órgãos dos sentidos, a categorização da informação que recebe dos órgãos dos sentidos, e a intuição sensível.

Do empirismo só podemos esperar soluções empíricas.

Eu estou de acordo com Olavo de Carvalho quando ele separa a matemática, por um lado, do testemunho dos órgãos dos sentidos, por outro  lado. Mas já não estou tão certo sobre se o único juiz da realidade é o testemunho dos órgãos dos sentidos (ver teoria do balde).

Penso mesmo que este problema é insolúvel — refiro-me ao problema do juízo sobre a realidade ou sobre partes dela — se não seguirmos S. Tomás de Aquino: “A verdade é a adequação do intelecto à  realidade”. S. Tomás de Aquino falou em “intelecto”, e não em “órgãos dos sentidos”.

É claro que o intelecto interpreta a informação que nos chega dos órgãos dos sentidos, mas também  coloca em causa essa informação; o intelecto questiona os órgãos dos sentidos. Portanto, os órgãos dos sentidos não podem ser o único avalizador da realidade.

Os órgãos dos sentidos são imprescindíveis para a sobrevivência do ser humano em um mundo com determinadas características. Mas, ao contrário do que defendeu Bergson ou Husserl (cada um à  sua maneira), é a inteligência e não só a intuição que permite construir conceitos capazes de descrever partes da realidade.

A intuição leva a dizer que a Terra é plana e/ou que o homo sapiens é descendente do macaco segundo um processo aleatório de evolução. A intuição salva as aparências. A intuição é necessária, mas já verificámos o facto do recuo da intuição sensível em favor da inteligência (do “intelecto”, de S. Tomás de Aquino). É o intelecto (que inclui a matemática) e não a intuição que nos diz que, mesmo que seja verdade que o homem descenda do macaco, isso não poderá ter acontecido através de “um processo aleatório de evolução mediante pequenos passos”.

Quarta-feira, 4 Fevereiro 2015

David Marçal, Carlos Fiolhais, e a homeopatia

Filed under: Ciência — O. Braga @ 2:47 pm
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Em relação a este artigo publicado no Rerum Natura por David Marçal e Carlos Fiolhais, digo o seguinte:

1/ tenho muitas reservas acerca da visão científica desses dois senhores: servem-se do método científico para defender um pensamento dogmático baseado em paradigmas imobilistas que pretendem petrificar a ciência em conformidade com as suas crenças pessoais, políticas e subjectivas. Fazendo uma analogia: esses senhores desempenham hoje o papel da Igreja Católica da Idade Média em relação a Galileu: defendem dogmaticamente um paradigma.

2/ pelo exemplo daqueles dois senhores, devemos duvidar — no sentido da “dúvida metódica”, e não no sentido da “dúvida céptica” — da ciência: eles representam a normalidade científica actual que se confunde com o cientismo.

Quando vemos que a ciência se fecha em si mesma e se dogmatiza, mas ainda assim defende o método científico para “salvar as aparências”, e pior, serve de arma de arremesso político e ideológico — temos a obrigação de duvidar dela.

3/ parece-me claro que a homeopatia não obedece a critérios objectivos de verificação. A homeopatia não é falsificável. Portanto, não podemos dizer que a homeopatia faz parte da ciência.

Mas isso não significa necessariamente que todos os aspectos da homeopatia não mereçam investigação científica. E é esta negação dogmática, radical e irracional em relação a todas as áreas da homeopatia que caracteriza o David Marçal e o Carlos Fiolhais. Por exemplo, em relação a Jacques Benveniste, existem alguns desenvolvimentos: o que está em causa é não considerar a ciência como uma área fechada em função de crenças ideológicas, políticas, ou outras.

Segunda-feira, 2 Fevereiro 2015

Pierre Duhem, a ciência, e a obsessão dos biólogos em relação a Deus

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 12:19 pm
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Pierre Duhem foi um físico muito importante para a filosofia e história da ciência. Foi um físico, e não um biólogo. O único biólogo importante para a história da ciência foi Darwin que não era biólogo. A biologia continua a ter uma visão cartesiana da natureza e da vida, embora a maioria dos biólogos nem sequer saibam como pensava Descartes; penso mesmo que muitos deles nem sequer têm a ideia precisa de quem foi Descartes.

DuhemSegundo  Pierre Duhem, uma teoria científica não tem por finalidade explicar os dados observáveis — o que seria transformar a ciência em metafísica, na medida em que a teoria se pronunciaria acerca da natureza do real —, mas antes uma teoria científica procede a uma classificação lógica dos fenómenos segundo um princípio de economia (navalha de Ockham).

Assim, uma teoria científica é uma abstracção que permite resumir leis experimentais de uma forma convencional: uma teoria científica é um sistema abstracto construído por convenção, por um lado, e por outro  lado, uma teoria científica não explica nada acerca os fenómenos observados, entendidos em si mesmos. 

Os princípios fundamentais da teoria científica não pretendem enunciar as propriedades reais dos corpos: em vez disso, os princípios fundamentais são hipóteses arbitrariamente escolhidas e em relação às quais se exige que sejam coerentes entre si, e que demonstrem as observações e as medidas efectuadas.

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Sábado, 31 Janeiro 2015

É preciso ter muita paciência… com o Ludwig Krippahl

Filed under: Ciência — O. Braga @ 5:39 am
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O bioquímico americano Michael Behe, no seu livro “A Caixa Negra de Darwin”, definiu assim “evolução” :

«No sentido biológico, “evolução” designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios exclusivamente naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica.»

O Ludwig Krippahl não concorda com a definição de “evolução” de Michael Behe. Ainda vou ver o Ludwig Krippahl laureado com o Nobel, passando a perna ao Michael Behe e gozando na cara dele…
Portanto, seria bom que não perdêssemos tempo com assuntos de “lana caprina” e com tergiversações que têm por objectivo desviar as atenções do essencial. Aliás, o Ludwig Krippahl é useiro e vezeiro — especialista, até! — na falácia do espantalho.


O Ludwig Krippahl escreveu o seguinte:

“Braga discordou também da minha explicação de que os mecanismos da evolução podem ser mais ou menos aleatórios (5). Aparentemente, julga ser aleatório é como estar grávida. Ou está, ou não está. Mas isto é errado.

O resultado de lançar um dado equilibrado é aleatório, com uma probabilidade de um em seis para cada número. Se o dado estiver viciado e a probabilidade de sair 6 for 50%, o resultado continua a ser aleatório mas será menos aleatório porque é mais previsível. E se lançarmos ambos os dados um milhão de vezes, é praticamente certo que o dado viciado terá um resultado médio superior ao do dado equilibrado. É isto que acontece na evolução. O acaso tem alguma influência.”

Repare-se como o Ludwig Krippahl começa por falar em “aleatório” no sentido do jogo do “dado” (o polígono), e por fim já fala em “acaso”. Vejam bem como ele confunde (propositadamente, penso eu; só pode!)  os dois conceitos diferentes de “aleatório”: é que, no jogo do dado, estamos a falar de probabilidades limitadas, em função de dados previamente conhecidos — por isso é que se chama “dado” (do latim “datus”, “aquilo que nos foi entregue”), porque as probabilidades são-nos dadas a priori. Quando jogamos com um dado, não nos pode sair o número 7, ou 8, etc. As probabilidades são limitadas.

O “aleatório” no sentido de “acaso” é outra coisa.

O acaso é a causa acidental de acontecimentos ou de fenómenos que não foram provocados deliberadamente; ou, melhor dizendo, e segundo Cournot, o acaso é constituído por fenómenos ou acontecimentos produzidos pela conjugação imprevisível de séries causais independentes. É neste sentido que se deve falar em “aleatório” quando nos referimos à  evolução darwinista no sentido da macro-evolução.

O aleatório, ou acaso, na macro-evolução darwinista, remete para o carácter verdadeiramente fortuito e geralmente imprevisível de relações entre cadeias causais independentes; o acaso ou aleatório, neste sentido, provém de uma conjugação de factos racionalmente independentes uns dos outros. A complexidade do real é de tal forma que a redução deste tipo de acaso ou aleatório não pode ser encarado cientificamente — o que significa que toda a representação ingenuamente determinista do universo, tanto natural como humano, é-nos vedada. Repare-se que estamos a falar aqui de macro-evolução, e não de micro-evolução ou adaptação ao meio ou a ecossistemas.

Eu sei que o facto de estar a escrever isto não vai adiantar nada em relação ao Ludwig Krippahl. Mas faço-o para o leitor inteligente que por aqui passar.

Continua o Ludwig Krippahl:

“Por exemplo, a retina dos vertebrados desenvolve-se como uma extensão do cérebro e acaba por ficar ao contrário, com os receptores atrás dos nervos e dos vasos sanguíneos. Nos invertebrados, a retina desenvolve-se a partir de uma invaginação da cabeça e fica orientada da forma mais conveniente.”

Quando o Ludwig Krippahl fala em “retina”, mais valia estar calado; ou, em alternativa, o Ludwig Krippahl terá que ter uma explicação racional e científica para o aparecimento do olho nos animais. Estamos em presença de um génio português que ninguém conhece lá fora… vanitas vanitatum, omnia vanitas…

Continua o Ludwig Krippahl:

“Braga acrescenta agora que eu estou «a misturar a micro-evolução com a macro-evolução» enquanto que ele só está a falar desta última. Este é um truque comum entre os “cépticos” da evolução. A ideia é a de que aceitam que as populações se vão modificando com o passar das gerações mas não aceitam que a alteração seja muito grande. Exactamente o que isso quer dizer ou porque defendem isso nunca é explicado. É como aceitar que uma pessoa pode envelhecer um ou dois anos mas nunca setenta, porque o macro-envelhecimento é impossível.”

Quando o Ludwig Krippahl me explicar o surgimento nos animais, do sistema imunitário, ou do olho, deixarei de fazer a distinção entre macro e micro-evolução. Vou esperar sentado.

Tudo o resto do texto do Ludwig Krippahl é uma narrativa fastidiosa — é uma estória. É como se eu justificasse o facto de as folhas das árvores serem verdes “porque uns homenzinhos verdes, com pincéis verdes e tintas verdes, pintam as folhas todas as noites”. É uma teoria que pega nos dados objectivos de um segmento da realidade e interpreta-os subjectiva- e intersubjectivamente segundo paradigmas estabelecidos por uma determinada cultura e comunidade (científicas). É uma espécie de religião.

O único facto que pode sustentar ainda a macro-evolução darwinista é a intersecção/semelhança de dados de ADN entre as diferentes espécies — mas mesmo estas semelhanças de ADN apresentam hoje vários problemas de validação científica que não cabem aqui e agora referir.

Quando uma pessoa pega em um segmento da realidade e faz dele toda a realidade, acaba por ter o raciocínio e a mundividência do Ludwig Krippahl.

A “não-fundamentação científica da homeopatia”, segundo o David Marçal

Filed under: Ciência — O. Braga @ 4:01 am
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Um estudo científico realizado nos Estados Unidos revelou que o “efeito placebo” — ou seja, a homeopatia — resulta melhor ou mais quando os medicamentos químicos da medicina convencional são mais caros.

Los medicamentos crean expectativas de curación en los pacientes. En numerosas ocasiones, estas esperanzas producen una mejoría similar o mayor a la que producen los fármacos, lo que se conoce como efecto placebo.

Un nuevo estudio, llevado a cabo por investigadores de la Academia Estadounidense de Neurología en enfermos con Parkinson, indica que este efecto es mayor cuando el precio de los remedios es elevado. El artículo ha sido publicado en la revista de la academia, American Academy of Neurology.”

El efecto placebo funciona mejor si el fármaco es caro

Entretanto, o David Marçal diz que “a homeopatia não tem qualquer fundamentação científica”: depende do que se entende por “ciência”.

O facto de os medicamentos criarem expectativas de cura é um facto fundamentado pela ciência ; que o efeito placebo é real, é um facto fundamentado pela ciência. Ou seja, o efeito placebo cura: o resultado da homeopatia nos doentes é um facto fundamentado pela ciência — ao contrário do que defende David Marçal.

Quarta-feira, 21 Janeiro 2015

Resposta a um leitor

Filed under: Ciência — O. Braga @ 2:21 pm
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A única coisa em que o vídeo e a sua teoria têm razão objectiva — repito: objectiva, porque teorias há muitas — é sobre o aparecimento abrupto de novas espécies. Até hoje, o darwinismo não conseguiu explicar (de forma racional e não dogmática) a explosão câmbrica.

Ludwig Krippahl: mistura, baralha, confunde, e diz que é ciência

Filed under: A vida custa,Ciência — O. Braga @ 6:00 am
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Neste verbete defendi muito sucintamente a tese segundo a qual  “a evolução darwinista é impossível”. Quanto falo em “evolução” quero dizer “macro-evolução”. O Ludwig Krippahl critica aqui o meu verbete mas referindo-se à  micro-evolução (adaptação ao meio-ambiente). Assim a gente não se entende.

Parece que o Ludwig Krippahl incorre da falácia do espantalho, porque critica uma posição minha que eu não defendi.


Definição:

No sentido biológico, “evolução” designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios exclusivamente naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica.


Escreve o Ludwig Krippahl:

“Em biologia, o termo (evolução) refere-se à variação da distribuição de características hereditárias numa população conforme novas gerações substituem as anteriores.

O que se propõe ser mais ou menos aleatório são os mecanismos que influenciam a evolução de uma população.”

Ou seja, segundo o Ludwig Krippahl, a evolução não é aleatória, mas é “mais ou menos” aleatória. É um NIM.

Mas aqui o Ludwig Krippahl está a misturar a micro-evolução com a macro-evolução — está a meter tudo no mesmo saco —, enquanto eu faço a distinção entre os dois tipos de “evolução”. A adaptação ao meio-ambiente (micro-evolução) é evidente: não precisa de demonstração. Nem faz parte só da ciência: faz parte do senso-comum muito antes de Darwin: Aristóteles já falava do assunto.

Portanto, estamos certamente a falar de coisas diferentes, e o Ludwig Krippahl partiu do princípio errado de que eu me referia à  micro-evolução. E como o princípio não está correcto, a argumentação subsequente do Ludwig Krippahl “falha o alvo”.

A seguir, escreve o Ludwig Krippahl:

“Finalmente, Braga alega que a evolução é impossível porque «não existe informação prévia» (…). Mas a evolução não procura (…) qualquer alvo predeterminado.”

Pois é: segundo o Ludwig Krippahl, a evolução é cega, porque “não procura qualquer alvo predeterminado”. Ou seja, segundo ele, “a evolução é aleatória e não guiada”, tal como me referi no meu verbete e que foi, em uma primeira fase do verbete dele, negado.

Se a evolução (segundo o Ludwig Krippahl) “não procura qualquer alvo predeterminado”, não pode ser guiada e tem que ser aleatória no sentido em que a informação disponível em um determinado estádio de evolução — “evolução” segundo o conceito do Ludwig Krippahl — não prevê minimamente as características do estádio de evolução seguinte.

Na teoria da informação — simplificando o que é complexo — podemos fazer uma analogia com a segunda lei da termodinâmica: a quantidade de informação transmitida pode ser entendida como entropia negativa; na transmissão de informação, a entropia negativa decresce continuamente, uma vez que a entropia positiva (perdas de informação) aumenta também continuamente. Ou a teoria da informação é falsa, ou a evolução darwinista (ver definição supracitada) é impossível.

A noção que o Ludwig Krippahl tem no teorema de Gödel parece ser rudimentar, e mesmo imprecisa. Escreve ele:

“O teorema de Gödel mostra que qualquer sistema formal suficientemente expressivo admite proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas a partir dos axiomas desse sistema formal.”

Se uma proposição não pode ser demonstrada a partir de axiomas desse sistema formal, ¿como é que o Ludwig Krippahl sabe que a proposição é verdadeira? Ele sabe que a proposição é verdadeira porque existe um segundo sistema superior ao primeiro que demonstra a veracidade da proposição do sistema inferior — e por aí fora. Ou seja, existe uma informação de ordem superior que legitima e demonstra a veracidade da informação de um sistema inferior.

Por exemplo, o teorema de Gödel, e segundo a teoria da informação, exclui a possibilidade de se construir uma máquina que resolva todo e qualquer problema — o que torna absurda a ideia do Ludwig Krippahl segundo a qual o teorema de Gödel “é importante para alguns problemas lógicos, matemáticos ou de computação, mas não tem nada que ver com a teoria da evolução”  — porque a evolução não é outra coisa senão uma tentativa continuada de resolução de problemas. ¿Será que o Ludwig Krippahl entende bem o que eu quero dizer?

Se a concepção da vida, segundo a evolução darwinista, é mecanicista (naturalismo), o teorema de Gödel aplica-se-lhe que nem uma luva, por maior ou menor dissonância cognitiva que o Ludwig Krippahl tenha que enfrentar.

Se a evolução não é guiada — ou seja, se não existe qualquer informação prévia que oriente a evolução nos sucessivos estádios —, ou seja, se o naturalismo se associa à  evolução, então a possibilidade das nossas faculdades cognitivas serem credíveis é muito baixa. Se “evolução + naturalismo” é aceite, não estamos em presença de faculdades cognitivas credíveis. Não dá com certeza para um prémio Nobel senão em um mundo em que o naturalismo é uma religião que é incompatível com a própria evolução.

“Nem é relevante para a formalização matemática da teoria nem é preciso os escaravelhos saberem que o teorema de Goodstein sobre sequências de números naturais não pode ser demonstrado na álgebra de Peano para que os mais camuflados se escapem melhor dos predadores.”

Segundo o Ludwig Krippahl, os nossos cérebros — à  semelhança dos cérebros dos escaravelhos — são formatados pela “evolução” para a sobrevivência, e não para a verdade. Com um jeitinho da política, ele terá o Nobel garantido.

Segunda-feira, 19 Janeiro 2015

Física de Plasma: a teoria da não-teoria

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 6:44 pm
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Um leitor chamou-me à  atenção para este vídeo acerca da chamada “Física de Plasma”. Vamos tentar simplificar conceitos para que o leitor entenda o que está em causa.

Em primeiro lugar, vamos citar uma quadra do nosso poeta Aleixo:

“P’rá mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à  mistura
qualquer coisa de verdade.”

A teoria da Física de Plasma, segundo o vídeo citado, tem qualquer coisa de verdade.

Em segundo lugar, vamos saber o que significa uma “teoria”.

Uma teoria é uma síntese que engloba leis naturais (por exemplo, a teoria da gravitação engloba a lei da queda dos corpos ) destinada a considerar os dados da experiência.

Portanto, uma teoria sem dados da experiência, ou é um delírio, ou é metafísica que, por inerência  faz parte da filosofia. Mas a metafísica não é ciência. O que pode acontecer é que a ciência esbarre contra um qualquer limite conceptual que não permita construir uma “teoria corroborada”.

¿O que é uma “teoria corroborada”? Uma teoria corroborada é uma teoria que resistiu às tentativas mais sérias e severas de falsificabilidade através da experimentação. ¿O que é “experimentação”? Em ciência, experimentação é o conjunto dos meios e procedimentos de controlo destinados a verificar uma hipótese ou uma teoria (não confundir “experimentação” com “experiência”: a experiência pode não ser científica). ¿O que significa “verificar”? Verificar é o acto de “verificação”, sendo que verificação é o processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição.

Depois destas “definições reais” — as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência — que são necessárias embora não devamos exagerar na sua utilização, podemos partir pára a teoria da Física de Plasma.

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Domingo, 18 Janeiro 2015

A ciência e o sentido da vida

Filed under: ética,Ciência,filosofia — O. Braga @ 5:54 pm
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Quando a ciência — os cientistas — se metem na filosofia, e principalmente na metafísica e na ética, normalmente dá merda: julgam que estão a filosofar quando apenas “opinam”. Confundem filosofia com opinião.

Ter construído um formalismo qualquer não significa tê-lo interpretado; ter tornado eficaz uma ciência não chega para lhe esgotar o conteúdo. Mesmo nas suas formas mais arcaicas, a ciência mudou continuamente o panorama da filosofia, é verdade; mas sem nunca conseguir suplantá-la! A força considerável  da ciência não chega para destruir a filosofia. A filosofia conservará sempre o seu próprio domínio e o seu próprio modo de ser e proceder.

Quando tropeça em um problema de interpretação de uma teoria, o cientista é tentado a resolvê-lo sem rigor, segundo a sua filosofia “espontânea”, ou seja, à  luz unicamente das suas concepções pessoais — um realismo ingénuo ou um positivismo anacrónico. É difícil ao cientista eliminar as aporias que provêm de definições recebidas sem crítica ou de argumentos empilhados de maneira arbitrária.


O Diogo Queiroz de Andrade cita aqui a “explicação” que um apologeta do cientismo — o apresentador da série de televisão “Cosmos” Neil deGrasse Tyson — dá a uma criança acerca do sentido da vida. Diz ele:

“Muitas vezes as pessoas presumem que o sentido da vida é algo que as pessoas podem procurar e encontrar, sem considerar a possibilidade de que o sentido da vida é algo que se cria – para nós e para os outros.”

“Por isso, quando penso no sentido da vida, pergunto-me: aprendi alguma coisa hoje que não soubesse ontem? Isso leva-me um bocadinho mais perto de conhecer os segredos do universo, por mais longe que eles estejam.”

Nesta perspectiva, cada ser humano que se dedique com todo o empenho a uma tarefa leva, de facto, uma vida que faz sentido. Todos aqueles que tentam fazer o melhor da sua vida — por exemplo, “aprender alguma coisa que não soubesse ontem, os segredos do universo” — têm um objectivo à  sua frente e, por isso, um sentido para a sua vida.

No entanto, o que é notório nesta argumentação é a norma subjectiva que é aplicada pelo Diogo Queiroz de Andrade e pelo pseudo-cientista comentador de televisão. De acordo com esta perspectiva, só a própria pessoa pode saber se a sua vida tem ou não sentido.

Como seria a resposta ao “sentido de vida” se considerássemos a vida de Hitler?

Ele tinha, com certeza, a impressão subjectiva de que a eliminação de milhões de seres humanos lhe oferecia uma vida com sentido. O mesmo se poderia dizer de Estaline que criou os Gulag e dormia a sesta profundamente satisfeito no seu sofá no Kremlin.

A impressão subjectiva de levar uma vida com sentido não chega para garantir que essa impressão esteja correcta.

Pelo contrário, tem que se admitir que também devem ser considerados aspectos que transcendem o sujeito, portanto, aspectos que vão para além dele. Por esta razão, deve colocar-se a questão sobre o sentido da vida humana enquanto tal. Mas este é outro assunto com o qual não vale a pena perder tempo com o Diogo Queiroz de Andrade e com o Neil deGrasse Tyson.

Sexta-feira, 9 Janeiro 2015

O Carlos Fiolhais subscreve qualquer burrice em nome da ciência

 

Carlos Fiolhais  faz aqui uma crítica a Olavo de Carvalho.

Contudo, com o frenesim de substanciar a sua crítica, subscreve a tese de um qualquer estudante de Física — quando o Carlos Fiolhais  aceita a “explicação” do tal estudante em relação ao conceito de “curvatura do espaço” que, segundo o inteli-jumento com alvará de inteligência, atribui aos teoremas da geometria pura.

Os vários sistemas da geometria (euclidiana, Lobachevsky e Riemann) estão, em si mesmos, isentos de conteúdo empírico (vou repetir, para que o Carlos Fiolhais  entenda bem: isentos de conteúdo empírico!) — só quando se conjugam com certos princípios da mecânica é que surgem proposições empiricamente significativas. Ou seja, é necessário especificar como é que os termos como “ponto”, “linha” e “ângulo” se devem medir antes que os teoremas geométricos se possam aplicar à  experiência.

A geometria pura, é arte, e não é ciência! 

O conceito de “curvatura do espaço” explica-se mediante o conceito de “massa” — e não com os teoremas geométricos de Lobachevsky e Riemann tal como o querido aluno do Carlos Fiolhais  pretendeu dizer. Ou seja, o Carlos Fiolhais subscreveu uma burrice.

É certo que Olavo de Carvalho cometeu um erro — está errado. Afinal ele é um ser humano. Só os inteli-jumentos como o Carlos Fiolhais  não cometem erros.

Sexta-feira, 2 Janeiro 2015

A pseudo-ciência que condena a pseudo-ciência

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 10:01 pm
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É muito interessante este verbete no blogue Blasfémias, e aconselho veementemente uma visita.

O referido verbete coloca a nu a falácia cientificista da Ideologia de Género — pena é que os vídeos estejam sub-titulados em inglês, porque a maioria da população portuguesa não lê em inglês; e aposto quanto quiserem que aqueles vídeos jamais serão passados em qualquer canal de televisão português.

Vivemos em um tempo muito complicado, em que pseudo-cientistas politicamente correctos — como por exemplo os que escrevem no blogue Rerum Natura — se dedicam a denunciar a pseudo-ciência. Vemos, por exemplo, esta notícia no Rerum Natura segundo a qual  se realizará um encontro onde “criadores, cientistas, ensaístas” abordarão o problema do livre-arbítrio. Escreve o Carlos Fiolhais :

“Estamos habituados a pensar que somos livres para decidir e escolher os nossos actos. Não passará esta certeza de uma ilusão? Experiências na área das neuro-ciências colocam dúvidas sobre a existência do livre-arbítrio, embora não exista consenso dos cientistas e dos filósofos quanto à interpretação dessas mesmas experiências. A discussão sobre este conceito é, aliás, muito antiga. O mais tardar desde Santo Agostinho que a existência do livre-arbítrio tem sido uma questão central na História da Filosofia e da Teologia e, mais recentemente, na História da Ciência. Ao longo do processo histórico, a relação entre livre-arbítrio e responsabilidade tem passado pela discussão sobre a compatibilidade do determinismo e do indeterminismo com o livre-arbítrio.”

Se o Homem não tivesse livre-arbítrio não seria possível a ciência — ver: pesadelo do determinismo físico. Já uma vez aconselhei o Carlos Fiolhais a ter lições de lógica do Desidério Murcho.

Portanto, é um absurdo que cientistas se reúnam para discutir se existe ou não o livre-arbítrio no ser humano: basta isto para termos a noção da cultura do absurdo intelectual em que vivemos. Bem faz o Passos Coelho em cortar as prebendas a esses sibaritas.

Não é só a validade da experiência humana que é negada: é também a realidade exterior que é tacitamente negada por aquilo a que hoje se chama “ciência”, e que se aproxima cada vez mais do imperativo orwelliano.

Quarta-feira, 24 Dezembro 2014

A falácia ad Verecundiam e a burrice do Rolando Almeida

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 9:44 am
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burro com oculos 300 web“Um dos erros mais elementares consiste em pensar que uma pessoa ou é religiosa e por isso espiritual ou não é religiosa e por isso pouco ou nada espiritual. Na verdade uma pessoa pode ser religiosa e muito pouco espiritual (mesmo pensando que é profundamente espiritual) e pode ser não religiosa e profundamente espiritual. Isto porque a dimensão espiritual não é uma propriedade exclusiva das religiões nem das crenças religiosas.

Edward O. Wilson é talvez o biólogo vivo mais respeitado no mundo e professor emérito da Universidade de Harvard, com um currículo de mais de 100 prestigiados prémios.”

Ciência, espiritualidade e humanidades, por Rolando Almeida

1/ o Rolando Almeida fala em “espiritual” sem que se saiba o que se pretende dizer com “espiritual”. Por exemplo: uma pessoa que gosta de música clássica ¿é, só por esse facto, “espiritual”? ¿O que significa “espiritual”?

Espiritual vem do latim spiritus, que significa “sopro”. Em filosofia (vamos deixar a teologia de parte!), o espírito é aquilo que se opõe à natureza e à matéria; é um princípio imaterial que é considerado primordial na escala da essência e do conhecimento.
Segundo Hegel, o espírito é o princípio racional que anima a História; e o Espírito Absoluto — segundo Hegel — é o espírito que alcançou a sua verdade ou a sua realização absoluta através da mediação da arte, da religião e da filosofia. Portanto, até Hegel, que defende um monismo, alia necessariamente a religião ao espírito.

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