perspectivas

Sexta-feira, 26 Agosto 2016

Há sempre o risco de ser um “fassista”, contra ou a favor do burkini

Filed under: cultura — O. Braga @ 1:49 pm
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Antes de lerem este “post” do João Távora acerca do burkini, peço que leiam estoutro meu sobre o mesmo assunto; mas leiam-no devagar, cogitando cada conceito — por exemplo, o conceito de “religião” que, segundo o João Távora (erradamente), não tem nada a ver com as antigas viúvas aldeãs portuguesas vestidas de negro e com lenço na cabeça.

O conceito de “religião” é assim reduzido a uma espécie de ideologia que contenha em si uma qualquer ideia de transcendência “sobrenatural” que a ciência não controla; e neste sentido, não passaria pela cabeça do João Távora considerar o materialismo dialéctico e/ou histórico como uma religião (embora o materialismo dialéctico não faça parte da ciência porque não é falsificável). E é também por isso que muitos “intelectuais” da treta consideram o Budismo como uma filosofia, e não como uma religião, alegadamente porque (dizem eles) se trata de um monismo imanente (imanência).


Foi Eric Voegelin que cunhou o termo “religião política” que caracterizou, por exemplo, os jacobinos, o romantismo do Positivismo, o marxismo, etc.. Até o ateísmo é uma espécie de religião desprovida de ritos comunitários, mas que inclui um conjunto comum de crenças que compreendem um aspecto subjectivo (o sentimento religioso da crença racionalista ou romântico-positivista). O empirismo e o puritanismo são duas faces da mesma moeda (o que justifica o puritanismo dos republicanos de 1910).

No fim da década de 1970, cheguei a ver homens e mulheres fisicamente separados (mulheres à direita, homens à esquerda na igreja), nas missas católicas em uma aldeia de Trás-os-Montes. Era o costume, dizia o povo; “que não tinha nada a ver com o Padre”. Portanto, é impossível separar os costumes, a moral, a ética, a estética, a metafísica, e portanto, a religião (ou “religiosidade” como soe moderno e prá-frentex dizer-se), da cultura.

burqui

O problema do burkini vestido por uma mulher islâmica (sublinho: islâmica) é o seu símbolo — é aquilo que o burkini simboliza através da cultura islâmica. Esse símbolo tem uma representação que é repugnante e que nunca existiu — nos mesmos moldes — na cultura europeia desde a Antiguidade Tardia.

Neste caldo de culturas em França, há duas possibilidades:

  • ou o burkini não é proibido, e as raparigas de raiz familiar islâmica passam a ser publicamente coagidas pela cultura islâmica a considerarem-se a si mesmas ontologicamente inferiores (de acordo com a ideologia política islâmica);
  • ou então o burkini é proibido e o laicismo transforma-se em uma religião de Estado em França, à maneira da ex-URSS.

Há uma terceira possibilidade, que não digo agora, porque não me apetece ser apodado de “fassista”.

Segunda-feira, 22 Agosto 2016

O burkini até poderia entrar na moda

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:10 pm
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O poeta André Gide dizia que “o importante não são as coisas, mas a forma como olhamos as coisas”. E quando pensamos que os costumes (a moral) nada tem a ver com qualquer religião, é porque a sua relação com a religião é negativa.

Vemos aqui em baixo duas imagens: o burkini, e o fato de banho típico da década de 1920.

burkini-1920

O problema é o de que o burkini tem uma conotação religiosa, e aparentemente o fato feminino de 1920 não tem essa conotação; mas tinha. Todo e qualquer costume tem uma conotação religiosa, seja esta negativa em relação a uma religião predominante ou histórica, seja positiva em relação a uma forma religiosa emergente (que pode ser uma religião do não compromisso religioso, uma metafísica negativa).

Conforme escreveu Fernando Pessoa, “só as raças vestidas dão valor à beleza do corpo”.

Portanto, o que realmente incomoda não é a indumentária do burkini: é, em vez disso, o anacronismo do Islão que considera a mulher ontologicamente inferior.

E o problema é que eu não tenho a certeza de que andar de monoquini numa praia é mais civilizado do que andar de burkini. Não tenho a certeza de que o nudismo é sinal de “civilização”. Não fosse o anacronismo do Islão, o burkini até poderia “virar” moda.

Quinta-feira, 28 Julho 2016

Kant e a beleza

Filed under: cultura — O. Braga @ 11:46 am
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“Silvana Lima é a melhor surfista do Brasil e foi duas vezes vice-campeã do mundo. Apesar disso, como não é “bonitinha”, não consegue patrocínios.

A sexualização feminina é muito comum. Enfatiza-se atributos que estimulam a atracção sexual no sexo oposto e usa-se esses atributos para avaliar as mulheres. As mini-saias das jogadoras de ténis, as poses sugestivas das raparigas nos anúncios e a atenção dispensada à roupa da ministra ilustram esta prática que muitos dizem ser machista. Ironicamente, o machismo está no diagnóstico”.

Ludwig Krippahl

Kant define o “belo” como “o que agrada universalmente, sem conceito (“Crítica do Juízo”, §9); e, por isso, distingue a beleza livre (por exemplo, a beleza de uma flor), que não pressupõe nenhum conceito, e a beleza aderente (por exemplo, a de uma mulher ou de um edifício) que pressupõe o conceito daquilo que a coisa deve ser. A beleza aderente não é um juízo de gosto propriamente dito, porque supõe o conceito daquele gosto que deve ser válido: é, em vez disso, um conceito de gosto construído por critérios intelectuais (me®dia, elite intelectual e as elites em geral, etc.).

Por isso, Kant diz que “a beleza é a forma da finalidade de um objecto, na medida em que é nele (no objecto) percebida (a beleza) sem a representação de uma finalidade”.

Ou seja, a beleza não se identifica necessariamente com o útil (a finalidade), embora o útil esteja já incluído na beleza em situação valorativa subalterna. Toda a gente (ou quase toda a gente) está de acordo sobre a validade do juízo aderente ou juízo intelectual acerca da beleza, mas o juízo do gosto ou beleza livre não tem necessidade do juízo intelectual. O senso comum acerca da beleza é apenas uma norma ideal que depende da cultura intelectual de cada época: em uma época de cultura intelectual miserável, como é a nossa, o senso comum acerca da beleza também é miserável.


Há que distinguir entre a intuição da beleza, por um lado, e o instinto sexual (masculino, por exemplo), por outro lado.

Intuição (que é uma forma de inteligência) e instinto não são a mesma coisa. O Ludwig Krippahl confunde as duas coisas. A intuição do belo não pressupõe a sua finalidade e utilidade; mas o instinto sexual não pressupõe outra coisa; a intuição do belo não pode ser manipulada pelas elites: ou é clara na consciência do Homem, ou está obnubilada pela cultura intelectual através do belo aderente do “deve ser assim e não de outra forma”.

O Ludwig Krippahl diz que a Silvana Lima “apesar de ser campeã (ou por causa disso), é sexualmente menos atraente do que uma rapariga bonitinha que não faça nada de jeito”.

Mas o juízo de beleza a que se refere o Ludwig Krippahl é o da beleza aderente, e não a da beleza livre; ele refere-se a um padrão de beleza “que deve ser”, fabricada pelas elites intelectuais do nosso tempo. A beleza aderente é determinada pela cultura antropológica imposta, pela propaganda persuasiva dos me®dia, pelas elites em relação às massas.

silvana-lima

Podemos ver na Silvana Lima a beleza livre (uma beleza exótica, até!) de que nos fala Kant. É a simetria e a harmonia das formas que define a beleza, e não os elementos e detalhes secundários do corpo. É evidente que a atracção sexual (o instinto) é, em grande parte, determinada pela beleza aderente (a da cultura antropológica imposta pelas elites) que é aquela que “deve ser válida”; mas qualquer pessoa com intuição mínima sabe imediatamente que a Silvana Lima é bela.

Quinta-feira, 21 Julho 2016

O João César das Neves não percebeu tudo; ou faz de conta

Filed under: cultura — O. Braga @ 9:48 pm
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O João César das Neves escreveu:

“¿Por que razão então a Europa e os Estados Unidos são vistos como inimigos figadais [do terrorismo islâmico]?

O motivo é cultural, não político ou militar. O maior inimigo dos fundamentalistas islâmicos não é o governo norte-americano, mas o seu cinema; não são os EUA ou a União Europeia que os atingem, mas o laicismo ocidental, o seu consumismo, promiscuidade, liberdade de expressão e hábitos religiosos, familiares, de vestuário, alimentação e tantos outros. Esses são os adversários que eles abominam, precisamente por serem tão atraentes. O Ocidente é execrado porque se insinua de forma imparável na vida e costumes das populações muçulmanas, algo que esses extremistas consideram inaceitável. E reagem da única forma que sabem, gerando o terror.”

Nas décadas de 1930, 1940, 1950 e 1960, muitos países islâmicos tentaram separar o Islão e o Estado — por exemplo, o Egipto, a Jordânia, a Síria, o Líbano, a Pérsia (hoje Irão), Argélia, Marrocos, Tunísia, Turquia, entre outros. Naquele tempo (e não vai há muito), a cultura ocidental era vista com bons olhos pelo mundo islâmico, e muitos países islâmicos adoptaram uma tentativa de secularização (e não “laicização”, como diz o João César das Neves) da sociedade nos seus países.

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Com o chamado pós-modernismo (principalmente a partir de Maio de 1968), a cultura intelectual ocidental mudou, e com ela foi mudando a cultura antropológica (por Trickle-down Effect), mas para bem pior. Em nome de uma pretensa “liberdade”, o Ocidente entrou pelo libertinismo adentro. Mas este libertinismo não é isento de uma determinada ordem social que é negativa: tenta apenas e só destruir a ordem social anterior. Hoje já não podemos falar propriamente de uma “civilização ocidental”.

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O divórcio entre as culturas islâmica e ocidental também ocorreu com a Rússia do Cristianismo Ortodoxo; e países como a Hungria, a Polónia, Eslovénia, Sérvia e os países bálticos (e até o Japão), mantêm sérias reservas em relação à actual cultura antropológica da maioria dos países ocidentais.

O fenómeno de recusa da influência actual cultura antropológica ocidental não é apenas uma característica dos países islâmicos.

Por detrás da propagação da actual cultura antropológica decadente — através me®dia controlados pelo poder do dinheiro — está a plutocracia internacional em um certo encontro de vontades com uma certa Esquerda dita “marxista cultural” (Bloco de Esquerda, alas esquerdas do Partido Socialista e do Partido Social Democrata).

O “choque de civilizações” entre o Islão e o Ocidente, no sentido estritamente cultural, é relativamente  recente.

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As sociedades europeias mudam agora rapidamente para matriarcados desestruturados, e sustentados pelo Estado, negando o patriarcado moderado anterior à “revolução sexual” do pós-modernismo — patriarcado moderado esse que os muçulmanos tinham adoptado como uma via plausível para escapar ao patriarcado radical estipulado pelo Alcorão.

A sociedade europeia caminha rapidamente para o predomínio de um matriarcado alimentado por um Estado plenipotenciário; os atributos tradicionais da masculinidade são não só negados, mas mesmo condenados à exclusão cultural — o que torna as sociedades mais fracas e totalmente dependentes do Estado.

A cultura islâmica poderia ter entrado por uma espécie de “Iluminismo”; mas a decadência ética e moral da cultura antropológica ocidental fez com que o Islão mais retrógrado e bárbaro encontrasse argumentos para predominar na maioria dos países islâmicos.

Segunda-feira, 18 Julho 2016

A Elisabete Rodrigues e a estória da Ana que já era lésbica quando nasceu

 

Todos sabemos que uma grande percentagem de adultos homossexuais tiveram algum tipo de trauma em contexto sexual, na infância ou na adolescência. Até o Júlio Machado Vaz pode corroborar isso.

Mulheres que se dizem “lésbicas” decidiram, a nível inconsciente e por razões diversas em cada caso, que ser fêmea é indesejável (porque viram no modelo feminino o “sexo fraco”) ou inseguro (porque sofreram qualquer agressão sexual ou física, e não souberam resolver psicologicamente esse problema).

No lesbianismo, 1/ ou a rapariga não suplantou a fase marcadamente narcísica da adolescência; ou então 2/ a rapariga “aprendeu” a odiar os rapazes devido a qualquer trauma sexual marcante na infância ou na adolescência, ou foi alvo de rejeição sistemática por parte dos rapazes — que tem como consequência a rejeição da identidade feminina.

Não existe um “gene gay”; ninguém “nasce homossexual”. O que podem existir são anomalias cromossómicas, mas a esmagadora maioria dos homossexuais não tem essas anomalias.

Podem existir, na definição da homossexualidade em uma pessoa, influências da epigenética. Mas a epigenética não determina comportamentos necessitantes, nem transforma eventuais tendências comportamentais em uma força insuperável pela vontade do ser humano.


Esta estória da Elisabete Rodrigues conta que “a Ana sempre se sentiu atraída por mulheres” — o que não é possível.

Sabemos por experiência própria (não é preciso consultar o Júlio Machado Vaz) que até as meninas “Marias-Rapaz”, por exemplo, fazem do predomínio relacional sobre os meninos, uma forma de aproximação ao sexo oposto: a mulher “dominadora” em relação ao sexo oposto não é necessariamente nem maioritariamente lésbica.

A conhecida psicoterapeuta Diane Eller-Boyko, que foi lésbica e hoje é casada (com um homem, naturalmente), escreveu o seguinte:

Our culture especially honors the masculine – strength, dominance, achievement, striving. That creates in many women a neurotic split from their authentic natures. The woman represses the inner hurt and pain, and starts to identify with the masculine. It is out of the unhealed places of the wounded feminine psyche that she becomes aggressive and loud. Many women today are depressed, shut down, and over-functioning.

Lesbianism quite naturally allies itself with feminism. In the lesbian community you hear, ‘You don’t need a man, you can do it on your own.’ Or, ‘What good are men? They only want one thing. Who needs them?’ This, combined with a rebellious attitude toward the idea of receptivity, is part of Lesbianism.

Yet receptivity is the very core of the feminine. Rather than championing a war against men, we must bring back the life-giving spirit of the feminine.”

O que pedimos à Elisabete Rodrigues é que tenha um pouco de juízo; um poucochinho só.

feminismo

Quarta-feira, 13 Julho 2016

A arte é incompatível com ciência (do Iluminismo)

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:24 pm
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“O Real nunca é belo” — Jean-Paul Sartre

Se partirmos dos princípios fundamentais do Iluminismo, arte e ciência são inconciliáveis — ao contrário do que defende o Carlos Fiolhais ; ou então, ele coloca em causa o próprio Iluminismo, o que eu não acredito que seja verdade. Defender a conciliação entre a arte e a ciência é colocar em causa não só o Positivismo mas também o Iluminismo que está na sua origem.

“A estética não existe” — Paul Valéry

Segundo o Iluminismo, a ética, a estética e a metafísica são subjectivas, e alegadamente não fazem parte da experiência (empirismo) que legitima a ciência. Segundo o Iluminismo, a razão opõe-se à tradição; e não é possível ética, estética, e mesmo ciência, sem tradição.

O problema fundamental escora-se na lógica do Iluminismo: a ciência não explica nada, não explica as causas dos fenómenos naturais: apenas descreve os fenómenos; vem daqui a frase célebre de Newton: Hypotheses non fingo — ao passo que a obra-de-arte pretende explicar a realidade de um só golpe: uma obra-de-arte não é uma descrição da natureza: antes, é (pelo menos) uma tentativa de a explicar.

A estética, como a ética, pertence ao domínio da metafísica, ao passo que a ciência iluminista é uma metafísica que nega a metafísica (é uma metafísica negativa).

Terça-feira, 12 Julho 2016

Os judeus e o Cristianismo

Filed under: A vida custa,cultura — O. Braga @ 7:57 pm
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¿O leitor sabe qual é a origem do nome do Banco Montepio? Já lá vamos. Antes vamos analisar as asneiras escritas aqui, segundo as quais o Cristianismo foi um instrumento utilizado pelos judeus para derrubar o império romano.


Todo aquele que resiste ao Poder (político do império romano), resiste a Deus.” – S. Paulo, Romanos, XIII, 2

O Cristianismo, por sua própria natureza, defende a submissão do cristão ao Poder político; esta ideia de submissão ao Poder só foi ligeiramente alterada século XIII através de S. Tomás de Aquino que dizia que uma lei injusta não chega a ser lei, e por isso o cristão não tem que obedecer. Mas, nos primórdios do Cristianismo, S. Paulo era o paradigma. Por isso, não faz sentido alguém dizer que “o Cristianismo minou o Poder do império romano”. Quem escreveu aquilo não tem noção da História da Antiguidade Tardia.

A queda do império romano tem razões exógenas e endógenas. As exógenas têm a ver com os movimentos dos povos bárbaros do norte da Europa, acossados pelos mongóis. Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de História sabe disto; e por isso fico surpreendido como alguém que se diz licenciado em História parece ignorar esse facto. As razões endógenas têm a ver com a decadência da cultura antropológica da Roma dos imperadores, que já pouco tinha a ver com a cultura saudável da república romana de Catão.

Infelizmente, os cristãos sempre foram contra os judeus. Uma característica do Cristianismo — seja católico ou luterano — foi o anti-semitismo. Isto é um facto histórico tão inelutável que até arrepia que alguém que se diz “licenciado em História” não reconheça.

Para além dos muçulmanos, os principais inimigos da humanidade — segundo os cristãos da Idade Média — era as bruxas e os usurários. Desde Santo Ambrósio, no século V, até S. Bernardo, no século XV, que os pregadores cristãos insistiam em que ser usurário era um meio de hostilidade e uma ofensa contra a caridade para com o próximo. Ora, os judeus não faziam outra coisa senão praticar a usura.

No século XV, para combater a usura dos judeus, os frades católicos italianos fundaram uma instituição bancária de nome Monti di Pietá, que abriu várias sucursais em cidades italianas. É da instituição italiana Monti di Pietá que adveio o nome do Banco Montepio. Diziam os frades italianos que, uma coisa é uma pessoa particular emprestar dinheiro a juros a outra (o que envolve uma relação entre indivíduos), e outra coisa, diferente, é a criação de uma instituição financeira (os Monti di Pietá) impessoal, destinada a financiar a economia em geral e em termos impessoais. Vemos esta tendência contra a usura, por exemplo, em Shakespeare e no “Mercador de Veneza”: levar qualquer coisa a mais em troca de um empréstimo era um golpe na amizade.

Em toda a Idade Média, de todos os que eram mais considerados, pelos cristãos, como pertencendo à categoria dos inimigos da raça humana, eram os judeus. A diferença de atitude para com os judeus e para com os muçulmanos é inconfundível, e não se pode atribuir à existência, no primeiro caso, e à ausência, no segundo caso, de fortes poderes de retaliação. Os judeus não eram uma classe, mas antes eram um povo; e se estavam frequentemente ligados à usura e à cobrança de impostos, essa era a consequência de um antagonismo antigo. Cristãos e judeus nunca se deram bem, desde S. Paulo.

Os judeus foram os primeiros inimigos de Cristo, autores da crucificação e morte, e ficaram maculados, assim como os seus filhos, pelo sangue de Jesus. Era assim que o cristão da Idade Média via os judeus. Para as comunidades judaicas, agrupadas em torno das suas sinagogas, desde Sevilha a Frankfurt, por mais certas que de que estivessem da benevolência dos reis, o tempo da Páscoa cristã era sempre perigoso. No carnaval, em Roma, os judeus eram obrigados a exibirem-se publicamente como um instrumento do diabo, a fazerem corridas nas ruas debaixo de insultos ou chicotadas, e a manterem-se em cena como alvo de troça e zombaria. Em Espanha e na Idade Média, era vulgar que, durante a Semana Santa, se realizasse um qualquer ataque ao bairro judeu. Depois da Reforma, na Alemanha, era comum que fosse tabu qualquer contacto físico com judeus (considerado pecaminoso). O tabu também abrangia as prostitutas, considerando-se que era económico e sensato — por exemplo, em Frankfurt — situar os bordéis nos bairros dos judeus.

Neste estado de emoção pública, a reacção imediata a um qualquer sinal de ira divina, em qualquer cidade com judeus, era atacá-los e fazer a depuração, expulsando-os, queimando-os ou matando-os. A passagem da Peste Negra na Alemanha deixou um rasto de destruição entre as comunidades judaicas. Na península ibérica, o problema dos judeus foi resolvido de forma diferente: em vez de uma política de perseguição ou de exterminação, adoptou-se uma política de conversão compulsiva ao Cristianismo — transformando-se assim um problema de judeus, em um problema de hereges, o que levou a persegui-los durante mais de um século.

O que é espantoso é que um licenciado em História diga que o Cristianismo era aliado dos judeus. Eu, que já sou avô, pergunto-me sobre o que se ensina hoje nas universidades.

Quinta-feira, 7 Julho 2016

O erro de Espinoza

Filed under: cultura — O. Braga @ 2:37 pm
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O essencial das ideologias de Richard Dawkins e/ou de Peter Singer encontrava-se já em Espinoza.

SpinozaPor isso é que Espinoza é adulado por ideólogos de Esquerda: Espinoza é ensinado nas escolas e nas universidades assim como uma espécie de “introdução ao ateísmo” que é determinista por natureza; os comunistas apreciam muito Espinoza.

Mas quando analisamos uma teoria ou uma doutrina de um determinada época, temos também que a avaliar em função dos conhecimentos que temos hoje.

Espinoza partiu do princípio de que o universo é eterno; e a não ser que a Física actual esteja errada, o universo que temos teve um princípio (Big Bang), e por isso, teve um início no tempo. Portanto, se o princípio de que parte Espinoza está errado, toda a teoria dele está errada. Além disso a Física actual chegou à conclusão que a natureza não é determinista (como defende Espinoza e o ateísmo), por um lado, e por outro lado que o nexo causal que existe na leis da natureza macroscópica se deve à entropia da gravidade, mas as leis da natureza não são 100% infalíveis — por exemplo, e por mais estranho que nos possa parecer, a ideia segundo a qual “o Sol nascerá amanhã” não é garantida a 100%.

Espinoza esteve errado em quase tudo o que defendeu; até a sua ética é inconsequente porque não tem uma relação coerente com a sua (dele) metafísica: não se pode defender a liberdade do ser humano, ao mesmo tempo que se defende que o ser humano obedece ao mesmo princípio totalmente determinístico das leis da natureza.

Espinoza deve ensinado aos estudantes de filosofia no sentido de lhes transmitir um exemplo de uma teoria e doutrina erradas.

Sábado, 18 Junho 2016

O catecismo da Igreja Católica

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:33 pm
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homossexualidade_catecismo

2357 A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (103) a Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (104). São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados.

catecismo da Igreja Católica

Antes de mais, vamos saber o que significa “catecismo”.


Na Alta Idade Média, “catecismo” era um ritual exorcista católico efectuado antes do baptismo de uma criança. Quando uma criança nascia, o Padre era imediatamente chamado para exorcizar a criança, ou seja para operar o catecismo da criança; e o baptismo podia esperar: só mais tarde, às vezes meses depois, é que a criança era baptizada.

A partir do século XIII, a palavra “catecismo” sofreu lentamente uma deslocação semântica: passou a designar o ensino oral da doutrina da Igreja Católica às crianças, que era principalmente função dos padrinhos de baptismo da criança, e principalmente da madrinha.

Com a descoberta da imprensa por Gutemberg no século XV, a doutrina da Igreja Católica passou a ser impressa em latim, e a Igreja Católica chamou a si o ensino do catecismo (já com o novo sentido semântico de “ensino da doutrina”). O catecismo passou a ser ensinado às crianças nas paróquias, nas igrejas (nas línguas locais, e não em latim), mosteiros e outras instituições católicas, e os padrinhos perderam o protagonismo no ensino da doutrina. Em alguns países, como por exemplo em Itália, a Igreja Católica criou escolas especializadas no ensino do catecismo para as crianças, nas principais cidades, e o catecismo passou a ser impresso nas línguas nacionais; estamos no século XVI.

No princípio do século XVII, as instituições da Igreja Católica que ensinavam o catecismo passaram também a ensinar às crianças a “civilidade cristã” (as boas maneiras), e no fim desse século passaram também a alfabetizar as crianças.

Tinha nascido a escola primária na Europa.

Portanto, desde sempre, o catecismo era dirigido às crianças, e não aos adultos. Só com a modernidade os adultos passaram a ser tratados como crianças, e o catecismo assumiu uma função de referência da doutrina para adultos. Não passaria pela cabeça de ninguém, na Idade Média, que o catecismo não fosse uma forma de exorcismo do pecado original, e por isso apenas dirigido às crianças.

De modo semelhante, a palavra “religião” (religio) tinha função concreta e designava uma qualquer instituição católica, por exemplo, uma Ordem religiosa (dominicanos, franciscanos, etc). O conceito de “religião”, concebida fora do concreto, não existia na Idade Média. A abstracção do conceito de “religião” teve origem nos naturalistas renascentistas; para o homem medieval (até ao século XVI), a religião era como o ar que ele respirava: fazia parte dele, e não fazia qualquer sentido definir “religião”.

Mesmo que no catecismo não existisse a classificação do acto homossexual como sendo pecado (o que não é verdade hoje, mas era verdade na Idade Média), e sendo que o catecismo (em minha opinião, como é óbvio) ainda hoje se destina a crianças, seria perfeitamente natural que nele não houvesse qualquer alusão à homossexualidade. Não faz qualquer sentido ensinar às crianças que tomar no cu e chupar pica é pecado.

Para os adultos, basta ler S. Paulo (ou alguém que leia e recite) — “passiones ignominiae”, “usum contra naturam” et “turpitudinem operantes” (Romanos 1, 26-27) — para saber que o acto homossexual é pecado.

Terça-feira, 7 Junho 2016

A União Europeia é satânica

Filed under: cultura — O. Braga @ 9:56 am
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Os principais líderes da União Europeia — François Hollande, Matteo Renzi, Angela Merkel — compareceram à cerimónia de inauguração do maior túnel do mundo através dos Alpes. Prestem atenção ao vídeo e aos símbolos.

Sábado, 28 Maio 2016

Foi descoberto o túmulo de Aristóteles

Filed under: cultura,curiosidades — O. Braga @ 4:59 pm
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“Vingt ans après le début de ses recherches au nord de la Grèce, le chercheur Konstantinos Sismanidis prétend avoir situé, «avec quasi-certitude», la sépulture du philosophe et disciple de Platon”.

Un archéologue estime avoir identifié la tombe d’Aristote

Quinta-feira, 7 Abril 2016

¿Por que razão a Sociedade S. Pio X divergiu do Concílio do Vaticano II?

Filed under: cultura — O. Braga @ 11:31 am
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O papa Chico recebeu esta semana D. Bernard Fellay, o superior geral da Sociedade S. Pio X. Naturalmente que voltaram a surgir, nos me®dia, os convites do Chico para que a SSPX aceitasse o Concílio do Vaticano II. Afinal, ¿qual é a divergência da SSPX em relação ao Concílio do Vaticano II?

Existem divergências formais ou de conteúdo.

As divergências formais têm a ver com os símbolos (a liturgia); o Concílio do Vaticano II está imbuído de uma visão hegeliana da História que transforma os símbolos religiosos em meros sinais que podem ser mudados a qualquer momento e de forma arbitrária, dependendo do Zeitgeist (a imanência do Concílio do Vaticano II).

A divergência de conteúdo tem a ver com questão da “consciência” no ser humano.

Uma das razões por que eu não gosto de Kierkegaard é a noção dele (kantiana) segundo a qual “a verdade absoluta é sempre uma verdade individual”. O Concílio do Vaticano II levou esta noção ao extremo quando adoptou basicamente todos os preceitos da Nova Teologia, que faz com que o conceito de “verdade” se pulverize e se atomize.

Grosso modo, a noção de “verdade”, segundo o Concílio do Vaticano II, é a seguinte: “Cada indivíduo tem a sua verdade absoluta que é igual à verdade absoluta de qualquer outro”.

É dentro deste espírito do Concílio do Vaticano II que surgem criaturas como o Frei Bento Domingues e o Anselmo Borges, e em última análise, o papa Chico. Dentro desta concepção de “verdade”, o papa Chico estabelece um diálogo dito “ecuménico” com toda a espécie de gente (porque, alegadamente, “a verdade absoluta é de cada um”), recebe amistosamente no Vaticano maçons, pederastas e muçulmanos radicais, critica o capitalismo mas nunca criticou Fidel Castro, etc..

Para a Sociedade S. Pio X, a verdade e o bem são objectivos, e não meramente subjectivos. E na linha de S. Tomás de Aquino, a liberdade do ser humano consiste em escolher (ou não) essa verdade objectiva que implica o bem.

Ou seja, para o Sociedade S. Pio X, o Bem coincide com o Justo; mas para o Concílio do Vaticano II e para o papa Chico, o Justo é universal e o Bem é privado.

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