perspectivas

Sábado, 9 Abril 2016

Os dogmas católicos e a física quântica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:12 pm
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Os dogmas cristãos consistem na tentativa de codificar (formalizar) as experiências de convivência com o mistério de Deus, conservando, ao longo de séculos, as experiências intersubjectivas com Deus sob a forma de teses. A religião propriamente dita cria comunidade, e por isso tem que possuir conteúdos universais — mesmo que esses conteúdos se encontrem no limite daquilo que é exprimível em termos da lógica. Os dogmas cristãos são pilares impregnados no terreno do inexprimível para delimitar um espaço claro de comunicação para uma comunidade; os dogmas foram arrancados ao silêncio: são uma tentativa paradoxal de exprimir aquilo que não pode ser expresso por palavras, mas que quer ser exprimido.

Porém, a linguagem corrente e comum consiste em conceitos universais. Em rigor, o ser humano só pode entrar em comunicação sobre aquilo que nele não é individual. Por isso, no quotidiano, falamos sempre sobre temas a que todos (ou quase todos) têm acesso.

Mas um dogma cristão é uma afirmação sobre a realidade que está para além daquilo é alcançável através da linguagem corrente. Para que as experiências intersubjectivas com Deus, e as imagens que as representam e evocam, possam fundar uma comunidade que perdura há mais de dois mil anos, elas são formalizadas em dogmas.


A física quântica tem uma situação semelhante aos dogmas da Igreja Católica.

A física quântica, tendo-se construído em ruptura com conceitos que nos são familiares, teve que forjar outros conceitos fora da linguagem corrente, que estão tão afastados da experiência corrente (experiência no sentido do “empírico”) que se perde toda a intuição sensível e empírica desses novos conceitos, e quase todo o contacto. Por outras palavras, a física quântica abriu um espaço ou um hiato entre o concreto e o abstracto (tal como acontece com o dogma católico). Tudo se passa como se a física quântica se tivesse desembaraçado da linguagem corrente graças a uma formalização integral do seu conteúdo. Ora, o objectivo da comunicação e da vulgarização da física quântica é precisamente dizer tudo por palavras — e por isso existe aqui uma antinomia (tal como acontece com os dogmas religiosos).

Essa antinomia, que torna difícil uma transmissão ou comunicação metafórica através da imagem ou da linguagem, não é fácil de ultrapassar — porque há uma grande dificuldade em explicar o seu conteúdo à luz da linguagem corrente, e porque “explicar qualquer coisa a alguém” é colocar essa coisa em relação a noções já conhecidas, ou, por outras palavras, com noções que lhe são familiares e que quase todos têm acesso.

Por isso é que, à luz da linguagem corrente e da mentalidade do Homem contemporâneo (incluindo a maior parte dos filósofos modernos), os conceitos da física quântica não são considerados interessantes (tal como acontece em relação aos dogmas cristãos) — porque entram em um domínio que está para além da linguagem corrente; ou então, esses conceitos quânticos são deformados pelas filosofias New Age, como por exemplo, com o uso que se faz do conceito quântico de “não-separabilidade”: ao contrário do uso vulgar do conceito, a não-separabilidade não implica a transmissão instantânea de energia ou de sinais à distância — exactamente porque o fenómeno da não-separabilidade ocorre fora do espaço-tempo.

Tanto os dogmas cristãos como os conceitos da física quântica encontram-se em um domínio que está para além da linguagem corrente. E num caso como no outro, o concreto é o abstracto que se torna familiar pelo hábito.

Quinta-feira, 19 Setembro 2013

O valor (1)

Filed under: A vida custa,cultura,filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 10:01 am
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Temos vindo aqui a falar de cultura, de ética e de valores. O que é o “valor”? No seu livro “Tratado dos Valores” (com cerca de 850 páginas, dependendo da edição), Louis Lavelle define o valor como “espírito em acto” (página 744). (more…)

Segunda-feira, 10 Junho 2013

Os dogmas racionais e os dogmas irracionais

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 12:14 pm
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Por contraditório que possa parecer, um dogma – por exemplo, da Igreja Católica – pode ser racional, e outro dogma pode ser irracional. A religião utiliza meios e métodos semelhantes aos utilizados pela física; mas em vez de símbolos matemáticos, a religião utiliza imagens, símbolos e mitos como instrumentos de compreensão dos nexos de um mundo que excede a razão humana.

Para muitos físicos (para os “físicos trabalhadores”, mas não para os “físicos filósofos”) a equação de Schrödinger, por exemplo, é dogmática: é utilizada nos seus trabalhos como fazendo parte de uma espécie de “manual de instruções” ou de um “livro de receitas”, e esses “físicos trabalhadores” não pensam nas implicações filosóficas que a equação de Schrödinger possui em si mesma. Mas para os “físicos filósofos”, a equação de Schrödinger é uma construção matemática carregada de um simbolismo que a linguagem corrente não pode traduzir fielmente senão mediante imagens e metáforas – tal qual acontece na religião.

A filosofia também pode ser considerada uma ciência experimental no sentido em que acumula as experiências das tentativas humanas de explicação do Mundo ao longo de milhares de anos. E como a filosofia é uma componente essencial da teologia, esta não só pode ser considerada uma espécie de ciência experimental, mas também tem a característica da utilização de símbolos que traduzem a realidade que extravasa a razão humana — tal qual acontece na física.

Na ciência também existiram dogmas irracionais: por exemplo, a frenologia; ou a teoria de Ernst Haeckel segundo a qual a célula viva evoluía da matéria lamacenta (literalmente: a célula viva apareceria espontaneamente da lama). Mas também existiram dogmas racionais, como por exemplo a mecânica de Newton ou a teoria de Einstein.

O mesmo acontece na religião: existem dogmas racionais na medida em que são escorados na experiência humana através de milhares de anos – por exemplo, o dogma da Trindade, o dogma de Maria Imaculada de pecado, ou mesmo o dogma da transubstanciação. Estes são dogmas racionais.

E existem dogmas irracionais – por exemplo, o dogma que nega toda e qualquer pré-existência da alma, que foi imposto à Igreja Católica através da opinião pessoal de meia dúzia de pessoas influentes na Igreja do tempo do concílio de Niceia (Atanásio, Basílio, os dois Gregórios, e o próprio imperador Constantino e a sua mulher que tinha sido prostituta antes de se casar com ele).

Tal como na ciência, na religião devemos colocar em causa os dogmas irracionais. Um dogma irracional é aquele que recusa a experiência humana ao longo do tempo, e coloca em causa a realidade tal qual ela se nos apresenta.

Domingo, 24 Outubro 2010

A religião dos burros

Caro Jairo Entrecosto : a Palmirinha Espertalhona Tapadinha critica os mitos e dogmas de outrem e não se dá conta dos seus próprios mitos e dogmas. Este facto projecta a criatura em causa para uma espécie de uma versão feminina do super-homem de Nietzsche que pretendeu arrasar os mitos primordiais da humanidade criando um super-mito da sua lavra totalmente vazio de conteúdo.
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Quinta-feira, 2 Setembro 2010

O fim anunciado do marxismo cultural

O lavo de Carvalho escreve sobre o marxismo cultural decorrente da Escola de Francoforte ou Institut für Sozialforschung, a partir de uma frase citada de Lula da Silva : “Ainda não sabemos que tipo de socialismo queremos”. Todo o artigo é digno de ser lido, e eu queria aqui falar das minhas cogitações acerca do tema.
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Quinta-feira, 12 Agosto 2010

A fé e o dogma

Filed under: diarreias — O. Braga @ 5:44 am
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Existem diferenças entre teoria, doutrina e dogma. Uma teoria está aberta à discussão, uma doutrina estabelece um sistema de ideias que, segundo o teorema de Gödel, não identifica as suas próprias contradições, e o dogma fecha-se completamente em si próprio.
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