perspectivas

Sexta-feira, 29 Abril 2016

O Fernando Rosas é uma contradição com duas pernas

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 9:29 am
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O Fernando Rosas tem razão quando critica o “fim da História” de Francis Fukuyama; mas perde a razão quando defende o “fim da História” de Karl Marx. O Fernando Rosas tem uma visão maniqueísta da História que é, segundo ele, o palco da luta das forças do bem contra as forças do mal. Essa visão maniqueísta caracteriza os gnósticos modernos e os puritanos contemporâneos; a diferença fundamental entre os gnósticos modernos e os da Antiguidade Tardia é a de que os primeiros têm uma religiosidade imanente, ao passo que a religiosidade dos segundos era transcendente.

O Fernando Rosas tem razão quando critica o presentismo:

No entanto, identificou os processos pelos quais, na actual sociedade portuguesa, se desenvolvem as “tentativas de reinterpretação” do passado recente. A primeira que apontou foi a “desmemória” criada pelos media, pela escola e as novas tecnologias, que criam um ambiente de “presente contínuo”, que significa “uma forma de manipulação da memória” pelo “apagamento de acontecimentos, de processos históricos e de valores que transportem do passado um potencial subversor da nova ordem que se pretende estabelecer”. “Uma espécie de amoralismo paralisante” que inculca “a aceitação acrítica da lei do mais forte, da injustiça social, da destruição das forças produtivas”, disse.

Mas o Fernando Rosas perde a razão quando se verifica que o corte radical com o passado (cultural, tradicional, epistemológico) é característica da revolução marxista que ele defende. O presentismo é uma consequência cultural da tentativa da construção marxista do Homem Novo, em que o passado histórico é desconstruído e denunciado como negativo à luz da dialéctica hegeliana que define o progresso como uma lei da Natureza. A responsabilidade do Diktat cultural do presentismo não é apenas dos neoliberais: os marxistas são também responsáveis (juntou-se a “fome” com a “vontade de comer”, em uma conjunção de vontades que destrói a sociedade).

O Fernando Rosas reduz a moral à economia; ou seja, a ética e o valor da justiça são reduzidas às relações económicas. É certo que a equidade é uma característica da justiça, mas ficamos sem saber por que razão o Fernando Rosas critica a lei do mais forte (darwinismo social) ao mesmo tempo que defende o aborto, por exemplo. Se há exemplo escandaloso da lei do mais forte é o exercício discricionário do aborto, porque configura um acto gratuito que representa o exercício de um arbítrio total.

O Fernando Rosas é uma contradição com duas pernas. O rei vai nu.

Domingo, 11 Maio 2014

Acerca do sincretismo da “Direita dos valores e da Esquerda do trabalho”

 

Os valores têm que ser fundados (e fundamentados) em alguma coisa de essencial (essência), e não apenas em factos históricos. Os factos históricos apenas corroboram simbolicamente a essência que os transcende e que, pelo menos até certo ponto, os condiciona.

Quando nós fundamos os nossos valores apenas em factos históricos, a nossa mundividência é imanente e, por isso, alvo fácil da corrupção por via da sucessão temporal do “espírito tempo” ou da moda: os nossos valores tornam-se facilmente susceptíveis de desqualificação e desvalorização através das mudanças culturais que são normais e naturais.

Se as mudanças culturais são normais e naturais, já os valores axiomáticos são intemporais.

Podem mudar os tempos, e com eles mudam-se vontades (como dizia o poeta), mas não pode mudar a essência dos valores. Os valores devem ser como os axiomas da lógica: não podem ser mudados (senão por gente psicótica: só gente desfasada da realidade “muda” os axiomas da lógica). No entanto, são esses mesmos axiomas da lógica, imutáveis, que estão por exemplo na base do desenvolvimento da matemática que nos permitiu viajar no espaço cósmico. Assim como os axiomas da lógica são os primeiros princípios da matemática e da própria ciência, assim os valores intemporais são os primeiros princípios da ética que necessariamente determina a política e todas as actividades humanas.

A ética e os valores estão a montante da política e da economia (estão “antes” da política e da economia), e não o contrário disto. Os valores da ética não podem ser uma consequência da práxis política nem dos interesses da economia, sob pena de não termos nenhum ponto de referência ontológico que nos permita escorar racionalmente a acção humana.

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Domingo, 1 Dezembro 2013

Nicolás Gómez Dávila refuta Hegel em 112 palavras

 

“A negação dialéctica não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.”

— Nicolás Gómez Dávila

Sexta-feira, 27 Abril 2012

A dialéctica de Hegel é anacrónica

A característica fundamental da dialéctica de Hegel — que marcou a filosofia [materialismo, existencialismo], a política [por exemplo, Karl Marx, Adorno e a Escola de Francoforte], e até a religião [por exemplo, a Nova Teologia de Bonhoeffer, ou a teologia da libertação, no Brasil] — é a ideia de que “o Todo é igual à soma das Partes”.

Se se destruir o pressuposto da dialéctica de Hegel — ou seja, o princípio baseado em Lavoisier, segundo o qual o Todo resulta da soma das Partes —, então todo o edifício ideológico da dialéctica hegeliana cai estrondosamente.

O movimento triádico — tese, antítese e síntese —, que é a base da dialéctica de Hegel, aplica-se também à sociedade na medida em que impede que se conceba o todo [social] organicamente e segundo o princípio de que “o todo é mais do que a soma das partes”.

[o princípio da dialéctica hegeliana opõe-se, por sua própria natureza, à concepção orgânica do Todo; a “síntese” hegeliana é apenas o processo de transformação da matéria segundo Lavoisier]
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Quinta-feira, 7 Outubro 2010

O Erro de Hegel (3)

A filosofia de Hegel é gnóstica cristã. O problema dela está, em primeiro lugar, na identificação da noção de Absoluto com o Todo, que para Hegel é a mesma coisa — sendo que o Todo é a soma das partes. A diferença em relação ao panteísmo de Espinosa é que enquanto este vê o Todo como “substância”, Hegel vê o Todo como uma espécie de “organismo” complexo.
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Quarta-feira, 6 Outubro 2010

O Erro de Hegel (2)

O Homem moderno está absolutamente convencido de que o mito é coisa do passado, que pertence às chamadas “sociedades arcaicas”. A partir do Iluminismo, o Homem entrou em uma fase de estupidificação causada pelas elites : o pior estúpido é aquele que se julga aquilo que não é.
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Domingo, 3 Outubro 2010

O erro de Hegel

« 1. O princípio da ciência é o conceito imediato, indeterminado, do ser. — 2. Este [o ser], na sua ausência de conteúdo, equivale ao nada. O nada, enquanto pensar daquela vacuidade, é assim inversamente ele próprio um ser e, em virtude da sua natureza, o mesmo que aquele [que o ser]. — 3. Não é, pois, nenhuma diferença do mesmo, mas o que é, é assim apenas a posição dos mesmos termos enquanto indistintos e o esvanecimento de cada um no seu contrário, ou é o puro devir. »

— Hegel, Propedêutica Filosófica

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Sexta-feira, 4 Setembro 2009

A alienação ideológica do conceito de “necessidade natural”

No seu livro “Questões de Método”, Jean-Paul Sartre referiu-se, num pequeno trecho que cito abaixo, sobre a “necessidade” do ser humano face às condições específicas em que nasce e vive.

« Para nós, o Homem caracteriza-se, antes de mais, pela superação de uma situação, por aquilo que ele consegue fazer do que dele fizeram, ainda que ele nunca se reconheça na sua objectivação.

Esta superação, encontramo-la na raíz do humano, e, em primeiro lugar, na necessidade: é ela que conduz, por exemplo, a escassez da população feminina das ilhas Marquesas, como facto estrutural de grupo, à poliandria como instituição matrimonial.

Com efeito, esta escassez não é uma simples carência: da forma mais crua, exprime uma situação na sociedade e já pressupõe um esforço para superá-la; a mais rudimentar das condutas deve determinar-se tanto em relação aos factores reais e presentes que a condicionam, como em relação a um certo objecto ulterior a que ela tenta dar vida. »

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