perspectivas

Domingo, 12 Junho 2016

Continuam as asneiras sobre o fascismo e comunismo

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 12:01 pm
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« When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa. » — Eric Voegelin

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O Renato Epifânio também deu a sua opinião sobre a polémica gerada pelo José Rodrigues dos Santos.

«Não, não foi por acaso, nem sequer de forma ilegítima, dado que o fascismo foi, a seu modo, uma variante do socialismo – um “socialismo de direita”».

Remeto para a diferença entre o romantismo e o racionalismo. Não confundam as duas coisas. E, por favor, não digam que o corporativismo medieval (as guildas, as confrarias, etc.) — que o fascismo pretendeu emular, de forma anacrónica — era uma “variante do socialismo”. Tenham dó!

“Dito isto, José Rodrigues dos Santos não tem razão na sua tese (algo provocatória, reconheça-se) de que “o fascismo tem origem no marxismo”. Já teria mais razão se defendesse que o fascismo e o comunismo têm, em parte, origens comuns, sendo que, para tal, teria de recuar muito mais na história. Recuemos nós a Platão (século V a.C.) e à sua “República” e perguntemos: a utopia platónica era mais proto-fascista ou mais proto-comunista?”

O Epifânio tem razão quando diz que há uma origem comum ao fascismo e ao comunismo, mas essa origem comum não se encontra em Platão. Quando se utiliza o conceito de “colectivismo” para designar toda a doutrina social que sacrifica o indivíduo à colectividade — que é o que o Epifânio faz —, incorre-se em abuso.

“Colectivismo” é um termo empregue em dois sentidos:

1/ de maneira histórica, para designar a doutrina dos socialistas não-estatistas do Congresso de Basileia de 1869.

2/ Hoje, para designar as experiências socialistas que só parcialmente resultam do marxismo, e que se caracterizam por uma intervenção moderada do Estado que se exerce através da planificação e das nacionalizações parciais (por exemplo, o socialismo da Índia ou os Kibutzim em Israel).

Ou seja, não confundir “colectivismo” com “comunismo” (marxista); e não confundir “colectivismo” com “fascismo”.

As origens comuns do fascismo e do comunismo encontram-se na Idade Clássica e na Razão de Estado (que não exista, como tal, na Esparta de Platão), e já no século XVIII, nos enciclopedistas franceses e principalmente em Rousseau e no seu conceito de "Vontade Geral". Dizer que as origens comuns do fascismo e do comunismo encontram-se em Platão, é um anacronismo (falácia de Parménides).

“Isso levou a que o fascismo acentuasse a sua dimensão anti-comunista, que não anti-comunitarista, bem como a outros desvios em relação às suas teses de raiz – sendo talvez o exemplo maior a sua relação com o cristianismo: em tese, o fascismo tende a ser anti-cristão (pelo seu anti-igualitarismo, desde logo); na prática, como sabemos, houve, nalguns casos, uma aproximação mútua, por mais que, em tese, o cristianismo esteja bem mais próximo do comunismo do que do fascismo (não é por acaso que muita gente, ainda hoje, e com bons argumentos, considera o comunismo como uma versão ateia do cristianismo)”.

Confusão de grelos.

O fascismo italiano (o genuíno) não era anti-cristão; pelo contrário!; e perseguiu ferozmente a maçonaria; e inicialmente não era declaradamente anti-semita: o anti-semitismo do fascismo italiano foi mais tarde imposto a Mussolini por Hitler. Dizer que “o fascismo é anti-cristão” é falso, por um lado, e por outro lado reduz o fascismo ao nazismo. Para o Epifânio, “fascismo = nazismo” (está na moda, nos meandros da chamada “extrema-direita”).

Mas mesmo o nazismo não era anti-cristão: era anticatólico, o que é diferente. O nazismo encontrou fortes bases sociais de apoio no luteranismo. O paganismo do nazismo tinha apenas como objectivo o fortalecimento do sentimento nacionalista alemão, e não tinha um suporte social e cultural alargado.

Por outro lado, está na moda (politicamente correcto) conceber o Cristianismo como uma forma de marxismo (ou melhor: vice-versa). O Epifânio não foge à regra.

  • O Cristianismo sempre separou o Estado (o Poder político) e a sociedade em geral;
  • o Cristianismo nunca pretendeu eliminar as hierarquias sociais (ver, por exemplo, S. Paulo);
  • o Cristianismo defendeu o respeito pelo Direito Natural (jusnaturalismo), e não um igualitarismo;
  • o Cristianismo é transcendente e dualista; o marxismo é imanente e monista;

Domingo, 10 Janeiro 2016

Construir um “mundo melhor”

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 9:42 am
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“Antes havia pessoas que queriam construir um mundo melhor. Nasceu a NATO, a ONU, a CEE e até a União Europeia. Havia um projecto, uma ideia, para o Mundo”.

¿Estão os portugueses mais inteligentes?

Afirmar que a criação da NATO, da CEE ou da União Europeia tiveram como objectivo a “construção de um mundo melhor” é a mesma coisa que dizer que a criação da Liga Hanseática ou o Tratado de Windsor tiveram como objectivo a “construção de um mundo melhor”.

Eu aceito a hipótese de ter uma grave deficiência cognitiva, porque até hoje ainda não consegui compreender o que é a “construção de um mundo melhor”.

Penso que se parte da premissa segundo a qual “o mundo é mau”, e por isso “é preciso melhorar esse mundo mau”.

Esse “mundo melhor” é um mundo colectivo: não se parte do princípio de que o indivíduo, enquanto tal, possa melhorar, mas antes que o colectivo — a humanidade — possa ser melhor.

O conceito de “construção de um mundo melhor” é um conceito colectivista, em que a “humanidade”, entendida como pessoa colectiva, elimina o mal do mundo. Neste sentido, o conceito de humanidade deixa de ser abstracto e/ou universal, e a humanidade é simbolicamente o antídoto de Deus que é o demiurgo que criou o mal do mundo.

Através da deificação do colectivo humano (o colectivo humano transformado em uma espécie de deus imanente), será possível a construção de um mundo melhor — é esta a ilação que eu retiro da ideia de “construção de um mundo melhor”. Esta ideia assusta. Parte-se do princípio de que o inconsciente colectivo (termo de Jung) é passível de “melhorar”, sendo que “melhorar” significa “eliminar o mal do mundo”.

Surpreende-me que o articulista do semanário ‘O Diabo’ utilize o conceito de “construção de um mundo melhor” em um mesmo artigo em que se questiona sobre se os portugueses estarão hoje mais inteligentes. Obviamente que a resposta é “não”.

Terça-feira, 23 Dezembro 2014

Os antolhos ideológicos do jornal “O Diabo”

Filed under: Passos Coelho,Política,Portugal — O. Braga @ 9:32 am
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Qualquer português sabe que a privatização dos CTT (uma empresa pública que dava lucro!) deu na degradação dos serviços de correios, por um lado, e por outro  lado transformou um monopólio do Estado em um monopólio privado.

A maior contradição liberal que possamos conceber é a ideia de “monopólio privado”; um liberal (em economia) que defenda um monopólio privado não faz ideia do que seja o liberalismo económico. Por isso é que o Carlos Abreu Amorim acaba por ser mais coerente do que os liberais de pacotilha que por aí pululam.

Portanto, é evidente que os serviços de correio, prestados pelos CTT, estão hoje degradados, e ainda não passou um ano sobre a privatização. Por este andar, Portugal vai voltar aos correios da Idade Média.

O jornal “O Diabo” tenta justificar a opção ideológica do governo de Passos Coelho de privatizar a TAP (nos termos em que a quer privatizar) através da crítica à ideologia aos sindicatos. Ou seja: tu quoque.

É este tipo de irracionalidade, de ambas as partes (capital versus sindicatos), que tomou conta de Portugal desde 1974, e que impede que ambas as partes tenham argumentos sólidos e atitudes e acções úteis — porque aquilo que é útil pode não ser pragmático, e porque o pragmatismo não considera a verdade como um valor. O pragmatismo de Passos Coelho (tal como o pragmatismo dos sindicatos) também é ideológico e não se preocupa com a verdade.


Diz O Diabo:

“O argumento oficial dos grevistas é primário: a TAP não deveria ser entregue a privados porque a empresa representa um interesse estratégico nacional. De nada tem servido lembrar-lhes que não cabe aos sindicatos decidir o que é ou não é o interesse nacional e como este deve ou não deve ser defendido, pois não detêm qualquer prerrogativa legislativa ou executiva no regime democrático.

Essa decisão cabe aos deputados da Nação, legitimamente eleitos pelo povo, e ao Governo que desse Parlamento imana e periodicamente presta contas ao eleitorado.”

burro com oculos 300 webQuando Passos Coelho foi eleito com um programa eleitoral que depois virou (literalmente) do avesso, é estranho que se venha defender a “legitimidade dos deputados da Nação”.

Ou seja, os “deputados da Nação” podem defender uma coisa e o seu contrário, mas a opinião pública e as organizações da sociedade civil (como é o caso dos sindicatos: são organizações da sociedade civil) não podem ter qualquer opinião ou empreender quaisquer acções “em defesa da Nação”. Foi com posições destas que o Estado chegou a este estado.

Com o programa eleitoral apresentado por Passos Coelho em 2011, e com o qual ganhou as eleições, o presidente da república deveria ter convocado eleições antecipadas logo que possível — porque Passos Coelho foi eleito de forma legal mas não é um legítimo primeiro-ministro. Nem tudo o que é legal é legítimo. Não é legítimo enganar os portugueses, embora neste país seja legal.

Mas como o presidente da república é da mesma cor política do primeiro-ministro, tornou-se legítimo o que é de facto ilegítimo. Esta é uma das muitas razões por que o Chefe-de-estado deve ser o Rei.

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