perspectivas

Sexta-feira, 29 Abril 2016

O Fernando Rosas é uma contradição com duas pernas

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 9:29 am
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O Fernando Rosas tem razão quando critica o “fim da História” de Francis Fukuyama; mas perde a razão quando defende o “fim da História” de Karl Marx. O Fernando Rosas tem uma visão maniqueísta da História que é, segundo ele, o palco da luta das forças do bem contra as forças do mal. Essa visão maniqueísta caracteriza os gnósticos modernos e os puritanos contemporâneos; a diferença fundamental entre os gnósticos modernos e os da Antiguidade Tardia é a de que os primeiros têm uma religiosidade imanente, ao passo que a religiosidade dos segundos era transcendente.

O Fernando Rosas tem razão quando critica o presentismo:

No entanto, identificou os processos pelos quais, na actual sociedade portuguesa, se desenvolvem as “tentativas de reinterpretação” do passado recente. A primeira que apontou foi a “desmemória” criada pelos media, pela escola e as novas tecnologias, que criam um ambiente de “presente contínuo”, que significa “uma forma de manipulação da memória” pelo “apagamento de acontecimentos, de processos históricos e de valores que transportem do passado um potencial subversor da nova ordem que se pretende estabelecer”. “Uma espécie de amoralismo paralisante” que inculca “a aceitação acrítica da lei do mais forte, da injustiça social, da destruição das forças produtivas”, disse.

Mas o Fernando Rosas perde a razão quando se verifica que o corte radical com o passado (cultural, tradicional, epistemológico) é característica da revolução marxista que ele defende. O presentismo é uma consequência cultural da tentativa da construção marxista do Homem Novo, em que o passado histórico é desconstruído e denunciado como negativo à luz da dialéctica hegeliana que define o progresso como uma lei da Natureza. A responsabilidade do Diktat cultural do presentismo não é apenas dos neoliberais: os marxistas são também responsáveis (juntou-se a “fome” com a “vontade de comer”, em uma conjunção de vontades que destrói a sociedade).

O Fernando Rosas reduz a moral à economia; ou seja, a ética e o valor da justiça são reduzidas às relações económicas. É certo que a equidade é uma característica da justiça, mas ficamos sem saber por que razão o Fernando Rosas critica a lei do mais forte (darwinismo social) ao mesmo tempo que defende o aborto, por exemplo. Se há exemplo escandaloso da lei do mais forte é o exercício discricionário do aborto, porque configura um acto gratuito que representa o exercício de um arbítrio total.

O Fernando Rosas é uma contradição com duas pernas. O rei vai nu.

Domingo, 15 Fevereiro 2015

O Recentismo

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 8:18 pm
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O Recentismo é uma teoria de desconstrução da História segundo a qual , por exemplo, Jesus Cristo terá nascido no ano de 1053 e crucificado no ano de 1086; e as cruzadas terão acontecido logo após a morte de Jesus Cristo em 1086… o Livro do Apocalipse terá sido escrito em 1486, e o Antigo Testamento terá sido escrito na Baixa Idade Média.

Isto significa que Portugal não poderia ter sido fundado em 1143, porque nesta data não havia Antigo Testamento e os textos da Igreja Católica do tempo da fundação da nacionalidade portuguesa já faziam referência ao Antigo Testamento. Portanto, Portugal terá sido fundado em fins da Idade Média e D. Afonso Henriques simplesmente não existiu ou viveu no século XV. Provavelmente, a I dinastia portuguesa não existiu e os descobrimentos portugueses terão começado no século XVII… !

O Recentismo é uma teoria russa que coloca em causa a História ocidental e ataca a Igreja Católica: diz que foi a Igreja Católica que aldrabou a História da Europa. Na modernidade tudo é possível, incluindo colocar em causa factos históricos documentados. Nenhum documento histórico é hoje considerado fiável pelo Recentismo.

Domingo, 14 Dezembro 2014

A segunda lei da termodinâmica aplicada à História

Filed under: Europa — O. Braga @ 11:25 am
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O José Pacheco Pereira escreveu aqui um texto interessante (ficheiro PDF) — o que já é coisa rara no nosso panorama da chamada “cultura intelectual”, o que corrobora a ideia de um fim de ciclo civilizacional.


Depois de um ciclo começa outro; o homem religioso propriamente dito vê a História em ciclos — desde o ciclo temporal e alternado do sagrado e do profano, até aos ciclos da História que se renova; e mesmo o Cristianismo que se arroga herdeiro da História linear judaica, anuncia a escatologia do “fim dos tempos” que dará lugar a um novo ciclo. Fernando Pessoa materializou o conceito dos ciclos da História através da noção da “velhice do eterno novo”.

O conceito de “história cíclica” é profundamente anti-hegeliano — e talvez seja essa uma das razões por que o José Pacheco Pereira se diz “agnóstico”, sendo que o agnosticismo é uma forma religiosa que se baseia essencialmente em uma espécie de monismo, seja este mecanicista (materialismo) ou dialéctico (Hegel) — porque não concebe o “progresso na Terra”.

De certa forma, a ideia de “história cíclica” aproxima-se do conceito do Eterno Retorno de Nietzsche e/ou dos Yuga dos brâmanes hindus, com a diferença de que o homem religioso não vê, nos ciclos da história, a expressão de um absurdo existencial, mas antes vê neles algo que dá sentido à existência (no sentido terrestre), na esperança de um Nirvana ou de uma vivência na Transcendência.

Não me lembro se foi Spengler que escreveu que “quanto mais se desenrola a História, menos tem para desenrolar”. É como se os acontecimentos tivessem um limite físico, uma finitude endógena, e depois se repetisse tudo outra vez, embora com outras cores — a essência mantém-se, a forma muda. Ao mudar a forma, parece-nos que a essência muda também.

O problema é o de saber se, com o globalismo, haverá espaço para ciclos históricos alternativos, porque um sistema isolado (fechado) exige que a entropia1 aumente com a passagem do tempo. A globalização (que não é a mesma coisa que “globalismo”, e que existe pelo menos desde o século XV) tolerava a existência de sistemas alternativos (embora sujeitos a uma hierarquização valorativa subjectiva ou objectiva) que comunicavam autonomamente entre si, e portanto não havia propriamente um sistema isolado/fechado. Havia trocas entre os vários sistemas.

Com o globalismo, paradoxalmente, a diferença (entre sistemas) vai sendo triturada à medida em que a entropia vai alcançando o seu valor máximo2 .

Quando Agostinho da Silva dizia que “do português há a esperar tudo, e haver um povo no Mundo do qual tudo há a esperar parece-me ser uma coisa extraordinária” — isso foi ainda no tempo subjectivo dele em que a imprevisibilidade do povo português ainda era um facto.

Com a entropia em um sistema fechado (globalismo), a degradação da energia é irreversível e toda a evolução se produz no sentido de estados cada vez mais prováveis e previsíveis. A imprevisibilidade vai desaparecendo à medida que a entropia avança e vai atingindo o seu máximo possível. Este crescendo da entropia globalista constitui um regresso progressivo a uma não-diferenciação da qual teria nascido a História — um regresso cíclico à “matéria inerte” da História que se traduz, como escreveu o José Pacheco Pereira, nos exemplos do “quadro branco de Malevitch, o urinol de Duchamp, o Finnegans Wake de Joyce, o teatro de Beckett, a música de John Cage, as imagens de Andy Warhol”. Enfim, desemboca-se no deserto da História.

Porém, nesta evolução entrópica da História em direcção ao estado mais provável, admite-se hoje que o desenrolar dos acontecimentos possa ser “travado” — por dados ainda não integrados pela teoria da relatividade — através do conceito de neg-entropia. Os sistemas ainda vivos e relativamente autónomos protegem-se do caos circundante criando uma ordem interna específica e própria (retorno ao nacionalismo), em uma espécie de “casulos” semi-autónomos que negam o sistema fechado globalista, por um lado, e por outro lado, exportam a sua própria entropia para os sistemas vizinhos, reforçando assim a sua própria ordem interna.

Portanto, o ciclo fecha-se e abre-se outro. Deste fechar de ciclo, muitos sistemas desaparecerão — aqueles que recusaram reconhecer que em um sistema globalista isolado se evolui irreversivelmente de tal modo que a energia se degrada (por dissipação parcial irrecuperável) em direcção ao seu máximo de entropia.

Notas
1. A entropia é a medida do grau de organização em um sistema isolado/fechado. Um aumento da entropia significa um decréscimo da organização de um sistema.
2. A Segunda Lei da Termodinâmica, também conhecida como Princípio de Carnot, estabelece que os processos que ocorrem naturalmente num sistema isolado aumentam, ao longo do tempo, a entropia do sistema. Ou seja, a quantidade de entropia (desorganização, ou desordem) de qualquer sistema isolado [fechado] tende a aumentar com o tempo e de uma forma espontânea, até alcançar um valor máximo.

Quarta-feira, 26 Novembro 2014

As causas primevas da letargia do povo português

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 6:52 am
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“Como é que os portugueses passaram de um povo guerreiro que em tempos se destacou pela tenacidade com que empreenderam a Reconquista e posteriormente a fantástica epopeia dos Descobrimentos, para um povo que arrisco chamar de letárgico, é coisa que não consigo compreender e sinceramente duvido que alguém seja capaz de tal.”

A Podridão do Regime

Uma resposta parcial pode ser encontrada em Maquiavel (não gosto dele, mas por vezes ele tinha razão). Outra razão foi a eliminação da diferença cultural hierarquizada. E, finalmente, a decadência das elites a partir de metade do século XVI que fez descambar Portugal para o domínio da Espanha dos Filipes.

Estas três componentes, digamos assim, devem ser vistas em conjunto, ou seja, estão interligadas e coincidiram fatidicamente as três em um espaço de tempo inferior a 100 anos: foi quanto bastou para a “letargia” de Portugal, que só foi mitigada no tempo através do apoio político e militar de Inglaterra.

Vamos a Maquiavel.

Nas suas Cartas, Maquiavel criticou o “otium” (lazer, inacção, ócio), porque, segundo ele, o ócio corrompe. Enquanto que para Petrarca e os filósofos do seu tempo, o lazer permitiria o regresso da pessoa a si própria, Maquiavel via no lazer a condição da dissolução do compromisso civil. Petrarca argumentava que poderia existir um ócio activo (“otium negotiosum”), mas Maquiavel afirmava que era tudo a mesma coisa: ócio é ócio, e nada mais do que isso.

Dizia Maquiavel que “as letras seguem as armas”, e que, “nas cidades, os capitães aparecem à frente dos filósofos”; “o poder de homens de armas não se pode corromper mais honradamente do que pela prática das letras, nem a ociosidade instalar-se na cidade de maneira mais pérfida e perigosa”. Isto foi o que aconteceu em Portugal até meados do século XVI, em que, por exemplo, o poeta Luiz de Camões seguiu a saga e a acção dos capitães dos Reino, e não o contrário disto. Até 1550, sensivelmente, os poetas e filósofos portugueses seguiam as armas; o regime político de antanho era “anti-ócio”.

Dizia Maquiavel que o lazer intelectual é ocioso, porque, alegadamente e segundo ele, nasceu da paz e nela se instalou criando a ilusão de ter toda a razão de ser nela própria: erradamente pensa-se, então, que bastaria amar a paz para ter a paz, o que faz com que se transforme o repouso, conquistado pelas armas, na ociosidade que faz baixar as armas e leva à extinção da virtude guerreira.

Por isso, diz Maquiavel, é preciso imitar Catão, que vendo a juventude romana afeiçoar-se a filósofos gregos Diógenes e Carnéades, “e sabendo o mal que tão honesta ociosidade podia trazer à pátria”, “tudo fez para que nenhum filósofo pudesse ser recebido em Roma”.

Portugal, até meados do século XVI, esteve praticamente fechado a influências ideológicas externas e, portanto, quase imune a qualquer tipo de desnacionalização (com excepção da influência dos reis católicos de Espanha), por um lado, e de contágio ideológico corruptor, por outro lado.

Maquiavel também se refere à localização geográfica onde vive um determinado povo. ¿Qual será o melhor local? — pergunta Maquiavel: ¿será preferível um local fértil ou um local estéril?

“Os homens agem por necessidade ou por opção (…) e daí que haja mais virtude onde a escolha é menos livre” — diz Maquiavel. A vantagem de um país menos rico em recursos é, em primeiro lugar, a de obrigar os homens a serem industriosos e menos preguiçosos, e a reforçar a sua unidade interna. Ao reforçar a concórdia interna, a necessidade satisfaz, então, a primeira condição da segurança da comunidade ou da nação. Porém, e para além dessa segurança interna, é necessário (segundo Maquiavel) ter capacidade de resistência às agressões externas, e por isso há que expandir o território através da criação de colónias, criando riqueza para aumentar o poder defensivo. Mas a criação de colónias apresenta o inconveniente de introduzir o ócio que ameaça a unidade dos cidadãos…

Para Maquiavel, o lazer adormece a consciência dos cidadãos em relação aos perigos latentes e faz perder as energias comunais, por um lado, e por outro lado contribui para o aumento exacerbado das ambições particulares que são sintoma de corrupção pública. Lazer e desunião são correlativos.

“As causas das desunião das repúblicas não são as mais das vezes a ociosidade e a paz; as causas da união, pelo contrário, são o medo e a guerra. Se, portanto, os habitantes de Véiès — que não cessaram de ofender os romanos com ataques e insultos — tinham sido sábios, mais o foram quando vendo Roma desunida, desviaram o pensamento da guerra e procuraram oprimir os romanos com a arte da paz”.

Quando a elite portuguesa (nobreza e o clero) da primeira metade do século XVI se apresentou desunida, foi oprimida pela “arte da paz” da potência espanhola.

Por fim, temos a eliminação da diferença cultural hierarquizada. Karl Popper chama à atenção para o facto de as civilizações surgirem em territórios onde existem diferenças culturais que coabitam, mas em que essas diferenças estão sujeitas a uma hierarquia de valor — as culturas coabitantes não são consideradas iguais entre si, mas antes há uma cultura que é preponderante e mais valorizada do que outras, ou seja, a antítese do actual multiculturalismo.

Com a perseguição aos moçárabes, e principalmente com a expulsão dos judeus a partir de D. Manuel I, Portugal deixou de ser uma sociedade em que existia uma diferença cultural hierarquizada.

Quarta-feira, 11 Dezembro 2013

Colonização europeia: não estamos arrependidos!

Filed under: Europa — O. Braga @ 4:01 am
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Domingo, 27 Outubro 2013

As análises históricas deve ser feitas em contexto

 

Uma qualquer análise às origens do nazismo não pode prescindir do contexto histórico e político, ou seja, não devemos considerar as correntes ideológicas nacionalistas alemãs, a partir da Reforma de Lutero, sem ter em conta a realidade política e efectiva daquilo a que se veio a tornar, na segunda metade do século XIX e com Bismarck, no “Segundo Reich” na Alemanha.

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Quarta-feira, 24 Julho 2013

As elites também se decapitam

No FaceBook encontrei o seguinte trecho:

« O que eu vou dizer poderia dar pano para muitas mangas, mas estou um pouco cansado de falar e de escrever. A principal razão que me levou ao cansaço de escrever é uma espécie de inevitabilidade do mal.

Parece que toda a gente sabe que as coisas estão mal em muitos aspectos da nossa vida, eu por exemplo sei o que vai mal no ensino. Mas fazer alguma coisa contra o sistema parece mal, parece que somos nós os inadaptados, os doentes mentais a quem custa obedecer seja ao que for.

E vamos calando e aceitando com receio que sejamos vistos como anormais, quiçá mesmo esquizofrénicos ou algo que o valha. Sabemos que está mal, que vai ser cada vez pior e vai acabar muito mal, mas sentimo-nos impotentes para evitar o desastre. »

Dois enormes intelectuais do início do século XX, Max Weber e Alexis de Tocqueville (para não falar em outras personalidades mais radicais, como Fernando Pessoa, René Guénon ou Julius Evola, que se opuseram à modernidade), tiveram perspectivas da realidade semelhantes às exaradas no texto supracitado (ler aqui o texto completo em PDF).

Perante a imposição cultural e quase absoluta da mentalidade utilitarista, tanto Weber como Tocqueville estavam convencidos de que a cultura utilitarista produz um tipo de homem decadente – “homem” entendido principalmente como “indivíduo”, e só depois como colectivo -, por um lado, mas por outro lado estavam ambos convencidos que seria totalmente inútil opor-se a uma dinâmica histórica que, segundo os dois, se reveste de um carácter de fatalidade. Ambos se dedicaram a procurar as origens propriamente religiosas desta doutrina utilitarista que nega o valor à religião e à ética axiológica universal. Weber entra num “desencanto em relação ao mundo”, e Tocqueville aceita, mas apenas e só enquanto cristão, este homem moderno.

Este conceito de “homem moderno” a que se refere Weber e Tocqueville obedece a um preconceito evolucionista que foi traduzido, nomeadamente, por Herbert Spencer com que ele explicava as sociedades industriais, e de acordo com o qual todos os fenómenos da natureza – incluindo o ser humano – passam fatalmente de uma “homogeneidade indefinida, incoerente, para uma heterogeneidade definida, coerente” (Spencer, “Primeiros Princípios”, 1862). Ou seja, para Spencer e para os liberais, quanto mais atomizada é uma sociedade, mais evoluída, desenvolvida e moderna ela é; mas quando a atomização das sociedades europeias levou aos totalitarismos do século XX, nunca os liberais colocaram em causa esta teoria, ou sequer admitiram uma qualquer ligação lógica entre a visão liberal spenceriana da evolução da sociedade, por um lado, e os totalitarismos do século XX, por outro lado.

Herbert Spencer (e os liberais, em geral) invertem a finalidade da sociedade. A existência do individuo para a sociedade, que existia antes da imposição cultural utilitarista do modernismo, passou a ser a existência da sociedade para o indivíduo. De um extremo, caiu-se noutro extremo; do oito passou-se ao oitenta.

Parece que existe uma “dinâmica histórica” contra a qual, segundo Weber e Tocqueville, é impossível qualquer oposição. Parece que só nos resta baixar os braços e deixar fluir a “dinâmica histórica” do nosso tempo. Parece que não há nada a fazer contra a “dinâmica histórica”.

Durkheim – que não era, de todo, um conservador, na sua época – contesta esta visão da fatalidade do mundo e de dinâmica histórica fatal. Segundo Durkheim, Spencer engana-se quando subordina o conceito de “organização da sociedade” ao princípio económico de “utilidade”. Da atomização da sociedade não pode surgir nenhum poder regulador, mas antes prevalece apenas o conflito de forças antagónicas e contraditórias, que estabelecem, na sociedade, relações efémeras e instáveis.

Segundo Durkheim, o primado da liberdade negativa na modernidade – que funda a cooperação entre indivíduos ao mesmo tempo que erradica a solidariedade – não é fundamento de unidade social: a luta de interesses particulares passa a ser um fenómeno sem fim e em constante renovação. A cooperação liberal não pode fundar a solidariedade social, porque defender esta tese é tomar o efeito pela causa: o ser humano é, em primeiro lugar, solidário, e só depois, e em função da solidariedade, ele coopera, celebra contratos, troca bens e serviços, etc.. Antes da cooperação entre seres humanos, está a solidariedade orgânica que insere o indivíduo num Todo que o ultrapassa e o transcende.

Portanto, verificamos que a “fatalidade da dinâmica histórica” pode ser explicada por uma imposição das elites – a ruling class – que comanda o Poder político. Ou pode ser explicada por uma determinada mundividência ideológica sintética e sincrética, imposta na cultura antropológica, pelas elites. Mas uma coisa é certa: as elites também se decapitam, como a História bastamente nos tem demonstrado.

Sábado, 1 Junho 2013

Luiz de Camões, Shakespeare e o efeito Trickle-down de Georg Simmel

Só tive consciência plena de quem era Camões quando fui obrigado a estudar, no antigo 4º Ano dos Liceus, os Lusíadas. A “coisa” metia medo. Os Lusíadas não eram apenas lidos: eram estudados. E eram mesmo decorados, em algumas partes. E como escreveu Edouard Herriot (e não André Gide, como alguns dizem), “a cultura é o que fica quando se esqueceu tudo”.

A “coisa” era levada muito a sério. A tolerância era quase zero: quem não estudava os Lusíadas não passava na disciplina de Português. De vez em quando lá surgia um professor meio canhoto e canhestro que, identificando Camões com o Estado Novo, via no poeta um símbolo do “fascismo”. E foi aqui que começou o problema do negacionismo da nossa cultura, quando o reviralho fez associações simbólicas indevidas e irracionais entre a História de Portugal, por um lado, e as ideologias políticas coevas, por outro lado. A verdade é que Camões nada teve a ver com o “fascismo”, quanto mais não seja porque no século XVI ainda não tinha surgido o Afonso Costa.

E os doutos picaretas ideológicos das canhas começaram, então, a martelar na cultura. Por exemplo, davam uma ligeira ensaboadela d’Os Lusíadas em um mês, e depois impunham o estudo de Aquilino Ribeiro durante um trimestre inteiro. Foi assim que os invertidos políticos destruíram a cultura portuguesa. Não é que Aquilino não seja legível: o que é, é que o cu não tem nada a ver com as calças, e o estudo de um não proíbe o estudo de outro. Mas os professores do reviralho silencioso, no Estado Novo, não pensavam assim.

Depois veio o 28 de Abril de Troca-O-Passo. A “coisa” piorou. Na filosofia, por exemplo, a teoria do conhecimento foi erradicada e substituída por Karl Marx. Passamos a conhecer as ideias de Karl Marx e Engels sem termos mínima ideia do que era o Conhecimento. Iniciou-se o desconstrutivismo histórico – tão caro a Fernando Rosas e ao Bloco de Esquerda e ao Partido Comunista – que transformou a História de Portugal em uma narrativa acerca de gerações multi-seculares de malfeitores façanhudos sem escrúpulos. Os nossos tetravós passaram a ser uns filhos da puta, e o Camões da família deles. “Vai chatear o Camões!”, passou a ser o slogan. Isto é uma das “coisas” que eu nunca perdoarei à Esquerda! Jamais!

Mas se eu só tive consciência plena de quem era Camões quando fui obrigado a estudá-lo, já tinha ouvido falar nele através do efeito de Trickle-down. Camões era mencionado amiúde em conversas de família, ou em conversas entre adultos a que a criança assiste. Apesar do negativismo comuna embutido no sistema, Camões era falado, conversado, e mencionado às mesas dos cafés, em tertúlias de amigos, nas famílias – e as crianças ouviam. Hoje, as crianças não ouvem nada porque ninguém fala.

Portanto, não admira que as crianças inglesas não saibam hoje quem foi Shakespeare , assim como não me admiro que as crianças portuguesas só conheçam o Camões quando querem mandar alguém à bardamerda. A Esquerda venceu a guerra cultural. E depois, ainda se queixam

Adenda: o que interessa é ensinar, nas escolas, a “educação sexual”, e a ideia de que “não existem sexos”. E que se lixe o Camões! A cultura faz-se nas alcovas!

Quinta-feira, 9 Agosto 2012

O complexo do troglodita e “a velhice do eterno novo”

Filed under: A vida custa,filosofia,Sociedade,Ut Edita — O. Braga @ 6:25 am
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Confunde-se inovação com a negação do conservadorismo. Confunde-se conservadorismo com arcaísmo. Lavra-se num erro fundamental, porque não existe tal coisa de “inovadores-para-melhor”. Inovação-para-melhor é uma ilusão. O que existe é inovadores-para-diferente.

O que pode ser melhor ou pior não é a inovação em si, mas antes é a forma como os homens, já em um estágio histórico de pós-inovação, lidam com a realidade. Elsa Triolet traduz exactamente o que se passa quando diz: “O futuro não é a melhoria do presente: é outra coisa”. De modo semelhante, o presente não é a melhoria do passado: é outra coisa.
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Quarta-feira, 4 Julho 2012

O presentismo, a desintegração social, e o ataque às disciplinas da área das Humanidades

O político medíocre, como todo o homem medíocre, é fruto da falta de formação. Faltam Humanidades no nosso sistema de ensino. A cada reforma curricular, disciplinas como História, Filosofia, Psicologia ou Sociologia perdem terreno e exigência no currículo dos alunos.

O paradigma dominante é tecnológico e económico. Não há discurso político contemporâneo que não vá por aí. Di-lo o Presidente da República e também o Primeiro-Ministro do país hipotecado, os Presidentes da Câmara e da Junta, que fincam pé para que todos os gaiatos tenham pc e naveguem pela net, mesmo sem nunca terem visto o mar. E os velhos, que não podem morrer sem mandar um email, não vá a entrada no céu ou mais abaixo precisar de conta aberta no Google. O futuro é tecnológico, digital, interactivo, pronto a servir e a ser vivido. Ainda não entendemos o jargão, mas já não estranhamos. A tecnologia acoplada a tudo o que mexa. O economês como língua oficial. O deserto em volta.

via De Rerum Natura: DA FALTA DE HUMANIDADES À MISÉRIA DOS POLÍTICOS.

Este verbete no Rerum Natura merece o tempo da sua leitura [“adparent rari nantes in gurgite vasto”].

A eliminação paulatina das disciplinas de Humanidades é propositada e têm a ver com a política presentista de que falei aqui. A “coisa” é mesmo feita de propósito. Trata-se de uma parte de um ideário político. E está também ligada às forças de desintegração social e nacional de que falei aqui.

Sexta-feira, 4 Maio 2012

O sentido da História

Filed under: filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 11:12 am
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Há quem diga que a História tem um sentido oculto — por exemplo, os marxistas e os milenaristas em geral, e também a maçonaria —, e há quem diga que a História não tem sentido nenhum — por exemplo, os neoliberais, ou os existencialistas. Eu não concordo nem com uns, nem com outros.

Não existe sentido oculto da História porque aquilo que não é, por sua própria natureza, inteligível pelo ser humano não é, por definição, oculto. Só é oculto aquilo que pode ser ocultado a alguém. A História não é um enigma que possa ser descodificado: antes, faz parte de um mistério que, por sua própria natureza, é inacessível ao racionalismo humano. É neste sentido que não existe um sentido oculto da História.

Por outro lado, a História não é necessariamente desprovida de sentido porque, se olharmos para o passado, verificamos que existiu um princípio que aponta necessariamente para um fim [no sentido de finalidade]; não há nenhum princípio que não aponte necessariamente para um fim, mesmo que esse fim seja infinito. O ser humano não pode, por sua própria condição, saber qual é esse fim, na medida em que não consegue prever o futuro.

A História situa-se no espaço-tempo e, como sabemos, é composta pelo passado, pelo presente e pelo futuro. Portanto, temos:

  • No passado, “Deus escreveu direito por linhas tortas”, porque verificamos um princípio que aponta necessariamente para um fim;
  • “O futuro a Deus pertence”, porque o ser humano não consegue dizer o futuro.
  • E só o presente nos pertence integralmente, porque “Deus criou o ser humano livre” e detentor de livre-arbítrio.

É esta a minha concepção da História.

Quarta-feira, 18 Janeiro 2012

A maior ameaça ao sistema político decadente actual, é o conservadorismo

Quando o governo da direita medíocre de Passos Coelho e de Paulo Portas acaba com o feriado de 1 de Dezembro e ressuscita o feriado de 5 de Outubro, revela o maior inimigo do sistema político vigente: o conservadorismo português, ou melhor, o “nacionalismo integral” segundo o conceito de Fernando Pessoa — em contraponto ao “nacionalismo tradicionalista” de uma certa “direita” extrema, e em oposição ao “nacionalismo sintético” [segundo Fernando Pessoa] do CDS/PP de Paulo Portas, por um lado, e ao internacionalismo europeísta do Partido Social Democrata e do Partido Socialista, por outro lado.

O nacionalismo integral é — não só, mas também — representado pelos adeptos da restauração da monarquia e, por isso, pelos adeptos da defesa da originalidade e dos valores da singularidade cultural portuguesa. Por isso é que o 1º de Dezembro de 1143, dia da independência nacional, foi eliminado da lista dos feriados nacionais, por um lado, e, por outro lado, mantido o feriado do 5 de Outubro de 1910, dia do golpe-de-estado maçónico que assassinou o rei D. Carlos I. O que se pretende é erradicar da memória dos portugueses a noção da sua independência e da sua História.

Esta gentalha vai ter, um dia destes, que ser julgada; e se for caso disso, em praça pública.

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