perspectivas

Sexta-feira, 20 Janeiro 2017

Os chinocas podem ser proteccionistas; mas os outros, não!

 

Há no Ocidente uma espécie de tendência para o suicídio, seja na cultura antropológica ou na economia; e a tal ponto que se a China, por exemplo, protege (de várias maneiras) a sua economia, as cabeças bem pensantes do Ocidente acham normal; mas se os Estados Unidos fazem o mesmo, então já é “proteccionismo”.

E são essas luminárias suicidárias que transformam a economia política em uma ciência exacta; desenham um gráfico qualquer e atribuem-lhe a exactidão de um axioma. E pensam exactamente (sem tirar nem pôr) como pensa o George Soros (o tal que levou o Banco de Inglaterra à falência). É desta estirpe de animais suicidários de que se constitui o capitalismo actual.


"Those who will not even admit the Capitalist problem deserve to get the Bolshevist solution."

→ G. K. Chesterton

Por isso é que temos uma geringonça a governar Portugal: é produto dos “liberais” que temos.

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Quinta-feira, 12 Janeiro 2017

O argumento neoliberal da inferioridade ontológica portuguesa

 

“O Reino Unido e a Irlanda efectivamente usaram um modelo de nacionalizações temporárias, com posterior privatização. Este modelo é interessante, mas não o podemos aplicar a Portugal esquecendo-nos de um factor de contexto relevante: estamos em Portugal. Em Portugal, como a Caixa aliás ilustra, o banco serviria para atender a interesses e caprichos políticos, e é questionável se a gestão sob batuta pública seria mais eficaz. Olhando para a Caixa, a conclusão seria um rotundo não”.

Argumentos contra a nacionalização do Novo Banco (Insurgente)

É a merda da ideologia: quando o Reino Unido e a Irlanda procedem segundo a cartilha neoliberal, os portugueses são inteligentes e deveriam seguir-lhes o exemplo. Quando o Reino Unido e a Irlanda são pragmáticos e fogem à ideologia, os portugueses são uma merda e não podem seguir-lhes o exemplo.

Podemos ver também o enviesamento ideológico de sinal contrário em Paul Krugman: o défice excessivo é bom se for de esquerda; se for de direita, é mau.

Toda a gente com bom senso sabe que a melhor solução para o Novo Banco é a nacionalização temporária temporária, estúpido! Limpa a cera dos ouvidos!

Sábado, 24 Dezembro 2016

A estupidez dos liberais

 

Um liberal é quase tão perigoso quanto um comunista. Partem ambos da ideologia para a realidade: segundo Hannah Arendt, todo o pensamento ideológico (as ideologias políticas) contém três elementos de natureza totalitária:

1/ a pretensão de explicar tudo;
2/ dentro desta pretensão, está a capacidade de se afastar de toda a experiência;
3/ a capacidade de construir raciocínios lógicos e coerentes que permitem crer em uma realidade fictícia a partir dos resultados esperados por via desses raciocínios — e não a partir da experiência.

Vejam aqui um exemplo de uma teoria liberal aplicada a priori em relação a Donald Trump.

“Um país não se desenvolve, não enriquece, só com menos impostos e mais despesa pública.”

¿Onde é que Donald Trump defendeu um “aumento da despesa pública”? Onde? O liberal de serviço está a especular segundo a cartilha oficial. Cortar muito na despesa de uma área e investir um pouco mais noutra não lhe passa pela cabeça (foi por isso que Passos Coelho falhou e fodeu a direita portuguesa).

“O proteccionismo de Trump até pode criar um aumento temporário dos salários e do emprego. Mas um país fechado não inova e, mais cedo ou mais tarde, é ultrapassado por outros que produzem melhor e mais barato”.

A filha-da-putice do liberal (que só existe no Ocidente) diz que o proteccionismo trumpista não inova; mas o proteccionismo chinês já inova: a inovação depende da nacionalidade. O proteccionismo chinês inova porque copia o que é dos outros e a um preço mais barato devido a Dumping do Estado chinês que os liberais adoram. Segundo os liberais, o proteccionismo chinês é fixe e recomenda-se, ao passo que Donald Trump é um filho-de-puta.

“A que se junta a inflação, um risco natural para qualquer país que feche as portas à globalização. A inflação: essa forma de austeridade que tantos desejam e que afecta especialmente os que ganham menos e que têm mais dificuldade para fazer frente ao aumento dos preços. Para a evitar, a Reserva Federal já anunciou o aumento das taxas de juros e promete mais em 2017”.

dtO liberal é burro; mas é professor universitário!

Quando um Banco Central aumenta as taxas de juro é porque prevê (ou já existe) um “aquecimento da economia”. A inflação (ao contrário da deflação que acontece actualmente na União Europeia), desde que controlada, é um factor positivo para a economia. Vejam aqui, por exemplo, as taxas de inflação na China.

Eu compreendo que um liberal português não goste de Donald Trump: as políticas de Trump não serão “amigas da União Europeia”, e por isso, também de Portugal.

Mas um liberal que se preze não compreende que um americano não é um português, ou que um chinês não é um alemão — porque um liberal, à semelhança do comunista, parte da premissa da “igualdade” entre toda a gente; um liberal não compreende que há nações mais iguais do que outras.

Sábado, 12 Novembro 2016

Os liberais são contra a democracia, mas também a favor da democracia

 

Por um lado, Trump ganhou e é “mais um episódio da luta contra os valores do mercado (liberalismo)”; mas, por outro lado, “um liberal não distingue pessoas: crê que estas devem escolher, sendo as suas escolhas, certas ou erradas, aquilo a que se chama mercado”. Mas quando o sistema político americano escolheu Trump, o liberal já distingue pessoas. O liberal distingue pessoas apenas quando lhe dá jeito.

Lembre-se o leitor que quem escreveu isto é um professor universitário. Por aqui vemos o estado a que chegou a Academia. Já não se distingue entre a imigração legal, por um lado, e a imigração ilegal, por outro lado: para o professor universitário, toda a imigração é legal. Ou seja, o liberalismo passou a ser completa irracionalidade.

A “globalização” passou a ser uma espécie de entidade metafísica (dotada de vida própria) que está acima da populaça.

Essa entidade metafísica hipostasiada está acima da democracia que os ditos liberais defendem. Hoje, um liberal é alguém que depende da democracia para existir enquanto liberal, mas que condena a democracia em nome da deusa “Globalização”. Ou seja, um liberal é simultaneamente contra e a favor da democracia.

E quando a democracia assusta os liberais, dizem eles que é “populismo”.

Sábado, 28 Maio 2016

É Rousseau, estúpido!

 

Quando alguém da Esquerda pensa com lógica (coisa rara, aliás), sou obrigado a dar-lhe razão (por muito que me custe; e por vezes custa-me muito). Mas em Portugal há um maniqueísmo generalizado: a Esquerda diz que Direita nunca tem razão, e vice-versa; a Esquerda começou com a tolerância repressiva, e agora a Direita imitou a Esquerda. A política transformou-se em manicómio.

Na sequência da ideia de José Rodrigues dos Santos segundo a qual “o fascismo evoluiu a partir do marxismo”, um Insurgente (que é professor universitário, e por isso não tem desculpa), parece corroborar essa ideia:

“Não li o mais recente livro de José Rodrigues dos Santos mas, independentemente da sustentação que essa afirmação possa ter (ou não) no livro, a verdade é que está longe de ser um disparate, podendo a ligação entre marxismo e fascismo ser razoavelmente defendida por vários prismas. Dentro das limitações inerentes a um artigo como este, gostaria de realçar duas: as muitas semelhanças práticas entre regimes de inspiração marxista e fascista e as similitudes no plano ideológico”.

De Marx a Mussolini

E depois o professor universitário (com alvará de inteligência e tudo!) elabora uma lista de “similitudes” entre o marxismo e o fascismo, fazendo de conta de que as diferenças culturais são de tal grandeza que tornam as “similitudes” despiciendas.


O que há em comum entre o fascismo e o marxismo é, em primeiro lugar, o Romantismo do século XVIII, e mais precisamente o Contrato Social de Rousseau e o seu conceito de "Vontade Geral". E depois o marxismo adicionou o Positivismo à receita de Rousseau.

A “vontade geral” de Rousseau não é idêntica à vontade da maioria ou até à da totalidade dos cidadãos.

Rousseau entende a “vontade geral” como a vontade do corpo político que se assume arbitrariamente como intérprete da vontade do povo, na medida em que Rousseau considera a sociedade civil como uma pessoa e com atributos de uma personalidade ― tal como Hobbes ― que inclui o atributo da vontade. Segundo Rousseau, a sociedade civil não é (ou não deve ser) um conjunto de indivíduos organizados, mas antes uma pessoa colectiva.

Segundo Rousseau, o que interfere com a expressão da “vontade geral” é a existência de “associações subordinadas” ― ou seja, comunidades da sociedade civil ― dentro do Estado. Segundo Rousseau, cada uma delas quer ter a sua vontade geral, que pode ser oposta à da comunidade como um Todo. Escreve Rousseau:

»pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo«.

rosseauAs consequência práticas ― e se levadas até ao limite delas ― das ideias de Rousseau são as de que o Estado teria que proibir as igrejas ― excepto a igreja do Estado, que no caso português é cada vez mais a Maçonaria ―, proibir partidos políticos, sindicatos e todas as organizações de homens com interesses económicos e/ou políticos semelhantes. O resultado seria obviamente o Estado corporativista e/ou totalitário, em que o cidadão nada pode, isto é, em nome do diálogo directo entre o cidadão, entendido como indivíduo isolado, por um lado, e o Estado, por outro lado, Rousseau condena assim o cidadão à subordinação impotente inerente ao anonimato total.

O conceito negativista de democracia, segundo Rousseau, tem além do mais, uma outra particularidade: ele baseia-se na democracia da cidade-estado grega, e particularmente na democracia de Esparta em antagonismo com a democracia de Atenas. Porém, Rousseau diz que a democracia é de realização impossível porque o povo não pode estar sempre reunido para deliberar sobre os negócios públicos. Escreve Rousseau:

“Se o povo fosse composto por deuses, o governo seria democrático. O governo perfeito não é para os homens”.

Em consequência, aquilo a que os democratas chamam de “democracia”, Rousseau e os seus herdeiros ideológicos, chamam de “aristocracia electiva”, que ele quer dizer ser o melhor governo mas que não é possível em todos os países:

o clima não deve ser nem muito quente nem muito frio; a produção não deve exceder muito o necessário porque senão o demónio do luxo é inevitável; e o melhor é confinar a “aristocracia electiva” ao controlo de uma elite política, do que difundir a democracia na população.

Com tais limitações estabelecida por Rousseau para aquilo que ele entende por democracia, há largo campo aberto a um governo despótico.

O Contrato Social foi a "bíblia" da maioria dos chefes da Revolução Francesa ― incluindo Robespierre que era amigo íntimo de Rousseau ―, mas como é a sorte das bíblias, não foi bem lido e ainda menos compreendido por muitos discípulos: a sua teoria da “vontade geral” tornou possível a identificação mística do chefe com o povo, o que levou ao caudilhismo que não precisa de ser confirmado por coisa tão mundana como a urna de voto.

Hegel seguiu Rousseau para formatar a autocracia prussiana que levou à primeira grande guerra. Robespierre reinou segundo os princípios de Rousseau, e segundo este foram também formatados os princípios de afirmação política dos jacobinos. As ditaduras russas e alemã do século passado ― principalmente a última ― foram consequências da doutrina de Rousseau.

Sexta-feira, 6 Maio 2016

A direita lambe-cus da esquerda

Filed under: Esta gente vota — O. Braga @ 11:55 am
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Há um idiota que escreve no Insurgente que dá pelo nome de Carlos Guimarães Pinto:

“Eu concordo com muitos dos argumentos aqui expostos pelo Luis Aguiar-Conraria. Também a mim me preocupa alguma obsessão da direita com as questões de costumes, como se o estado devesse intervir (ou sequer tivesse a capacidade de o fazer de forma relevante) na forma como a sociedade evolui. Com excepção da questão do aborto, da qual não falarei agora, alinho em geral nas causas do liberalismo nos costumes. Não partilharia alguns artifícios retóricos usados pelo Luis, mas não serei eu a atirar a primeira pedra nestes assuntos”.

A opção laica

O idiota preocupa-se com a “obsessão da Direita com as questões de costumes”, o que parece significar, por contraposição, que a Esquerda não se preocupa com os costumes. “A Direita é obsessiva em matéria de costumes, mas a Esquerda não é”. Segundo o idiota, com a Esquerda, o Estado não intervém na forma como a sociedade evolui.

Existe uma certa “direita lambe-cus da esquerda”: passam a vida a lamber o cu à esquerda. Vive de um permanente sentimento de culpa em relação à esquerda. É uma direita masoquista, que passa a vida a bater com mão no peito perante o altar do radicalismo de esquerda.

Sábado, 27 Fevereiro 2016

Não!, nunca fui Charlie, estúpido!

 

Nunca fui Charlie. E por uma razão: sendo a crítica livre, deve ser racional.

Qualquer religião não está acima da crítica racional. Nada está acima da crítica racional. Mas o que o Charlie Hebdo faz não é crítica racional: há quem lhe chame “humor”; eu chamo-lhe paródia de mau-gosto.

Por isso é que o estúpido que escreveu isto não tem razão — porque uma crítica racional (passo a redundância) não faz do escárnio e do mal-dizer fins em si mesmos.

Eu posso criticar o Islão, ou o Cristianismo, ou o Budismo, ou a maçonaria, ou qualquer outra religião — mas de uma forma racional, utilizando argumentos inteligentes e racionais. Outra coisa, bem diferente, é o ataque gratuito, irracional, grotesco, brutamontes, ignorante, aos símbolos de qualquer instituição (seja qual for). E só um estúpido não vê a diferença.

(Ele há uns espertalhões que escrevem umas coisas)

Segunda-feira, 23 Março 2015

Marine Le Pen, o Insurgente e o Jugular

 

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Começo por dizer que, se eu fosse francês, não votaria na Front Nationale de Marine Le Pen,  a não ser por voto de protesto contra o sistema político; por várias razões, e fundamentalmente porque a Front Nationale é tão radicalmente laicista quanto o Partido Socialista francês.

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Eu vou mais pelo secularismo, por exemplo, de um UKIP (United Kingdom Independent Party); vou mais por aqui, mas vou mais longe: em minha opinião, a Igreja Católica deveria fazer parte do protocolo de Estado, e portanto, fui contra a posição do Partido Social Democrata que há anos se aliou à  Esquerda e à  maçonaria para revogar a tradição portuguesa da presença da Igreja Católica nos protocolos de Estado que vigorava desde a fundação de nacionalidade.

Segundo o critério do Insurgente, o UKIP, sendo um partido nacionalista e que defende até a saída do Reino Unido da União Europeia, é um partido socialista.

(more…)

Sábado, 22 Outubro 2011

Os liberais mais “papistas que o Papa”

Filed under: A vida custa,Blogosfera,Esta gente vota — O. Braga @ 5:33 pm
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Recentemente passei a ter (novamente) o Insurgente nos meus feeds, porque a blogosfera portuguesa anda com uma qualidade sofrível e achei que deveria retomar leituras antigas. Mas ao deparar-me com postais como este, a frustração voltou.

“Estado mínimo”, diz ele. E aponta para um link, e o que vemos é uma lista de países que alegadamente têm um “Estado mínimo”. E quais são esses países (refiro-me aos países europeus)?

1) Suíça: país fora do Euro, com controlo de fronteiras e com taxas aduaneiras aplicadas a importações de produtos estrangeiros; 2) Irlanda: país intervencionado pelo FMI; 3) Dinamarca: país que está fora do Euro.

O que é que eu depreendo da leitura do Insurgente? Que Portugal deveria ter um “Estado mínimo” estando dentro do Euro, e mesmo sabendo que países como a Alemanha, França, Espanha ou Itália não têm esse “Estado mínimo”.

E então, o que é que o Insurgente quer? Quer ver Portugal levar no corpo, e tudo em nome de uma ideologia política.

Nota: é mais importante uma reforma da Justiça em Portugal do que o “Estado mínimo”. Incomparavelmente mais importante!

A ler: “Por que não sou liberal”

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