Os princípios que orientam a dialéctica hegeliana e/ou marxista estão hoje destruídos pela verificação dos factos científicos.
A quântica deveria ser uma disciplina do curso superior de filosofia. Não a mecânica quântica propriamente dita (com o seu formalismo matemático), mas antes as consequências teóricas e filosóficas da mecânica quântica. Se a quântica fosse uma cadeira do curso superior de filosofia, haveria desde logo duas implicações directas na cultura intelectual: os paradigmas da ciência passariam a ser olhados muito mais criticamente, por um lado, e, por outro lado, a dialéctica hegeliana e marxista seriam totalmente destruídas através da infiltração dos novos intelectuais nos me®dia. Ora, é isto que não convém à actual classe política. À actual classe política convém o obscurantismo.
Os princípios que orientam a dialéctica hegeliana e/ou marxista estão hoje destruídos pela verificação dos factos científicos, mas a maioria das pessoas ainda não se deu conta disso. A filosofia não pode só olhar para o passado. Tem que olhar também para o presente, para aquilo que existe hoje. A filosofia não pode olhar só para o passado para fazer de conta que o presente não existe. A filosofia não pode continuar a validar a dialéctica hegeliana e marxista, mesmo que se saiba hoje que a ciência já as invalidou. A filosofia não se pode afastar da ciência.
Mesmo em Proudhon, a sua “dialéctica das sociedades” — oposto a Hegel na medida em que recusa o movimento da síntese — é aparente. Se eu olho para, ou analiso a sociedade que me rodeia, é-me impossível dissociar dela, fazer de conta de que eu estou numa posição exterior a ela. É essa também a dificuldade dos antropólogos e dos sociólogos que estudam a sociedade como um objecto em relação ao qual eles se colocam numa posição de sujeito, como se estivessem separados da sociedade que analisam. No conceito de “dialéctica das sociedades” de Proudhon, acontece um fenómeno semelhante: conceitos como os da “dialéctica das sociedades” são simplificadores, interpretam a aparência.
A lógica matemática, que está na base da física quântica, tem símbolos que se referem representações. A filosofia não tem que se preocupar com os símbolos matemáticos, mas com as representações desses símbolos com recurso a imagens perfeitamente compreensíveis por alguém minimamente preparado intelectualmente.
Com a quântica, alguns conceitos familiares — como por exemplo, o de dialéctica, de Hegel ou de Proudhon — abrem falência desde que tentemos transpô-los para fora do domínio limitado no qual têm uma utilidade prática. A dialéctica é um método aparente ( uma “bengala” ) de interpretação de uma parte da realidade, assim como o conceito abstracto mas inexistente de “espaço absoluto” foi um método (uma “bengala conceptual”) utilizado por Newton para conceber a sua mecânica.
A dialéctica, com síntese (Hegel e Karl Marx) ou sem síntese (Proudhon) é uma interpretação ingénua da realidade, porque num caso como noutro, pressupõe um determinismo na acção humana ou das sociedades. Um exemplo de um “escritor quântico”, por assim dizer, é José Luís Borges, que através da sua obra desenvolveu o paroxismo a tal ponto em que as estratégias de conhecimento desembocam num universo labiríntico em relação ao qual não se aplica qualquer sistema dialéctico, em que a acção flui sem que se oponham tese e antítese e sem que exista uma síntese, e na medida em que cada momento do tempo é totalmente independente de qualquer outro momento — como se o universo fosse recriado a cada segundo cósmico.
Da mesma forma que nós vemos de facto uma trajectória de uma seta disparada contra um alvo, quando na realidade essa trajectória não existe de facto mas é apenas a soma de todas as posições isoladas, e independentes umas das outras, da seta no decurso do movimento em direcção ao alvo — assim a dialéctica é a trajectória da História que nós “vemos”, ilusoriamente, mas que não existe na realidade enquanto tal.

1/ Não existe uma 





O desenho aqui ao lado apareceu no Facebook, publicado obviamente por um brasileiro. O Brasil é um caso curioso, porque parece que toda a gente tem opinião, e isso é bom; pelo menos, têm opinião. Um português não publicaria uma coisa semelhante com relação a Portugal, talvez por indiferença em relação à política ou mesmo por insensibilidade política. Enquanto que o brasileiro que fez o desenho, errou, o português talvez não errasse porque é, cada vez mais, politicamente amorfo. 














