perspectivas

Sexta-feira, 15 Agosto 2014

O cientista entendido como super-homem, e a ciência como sobrenatural

Filed under: ética,Ciência — orlando braga @ 11:56 am
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Como é sabido, a ciência parte do princípio de que se corrige a si mesma. Mas, paradoxalmente, este princípio de auto-correcção da ciência conduziu hoje à ideia de que a ciência não erra — porque se ela se auto-corrige, os erros são apenas incidentes menores no percurso que legitima a ideia imanente de “perfeição da ciência”.

O cientista é hoje concebido como uma espécie de super-homem cujos “super-erros” apenas legitimam a sua supra-naturalidade — porque os erros do “cientista super-homem” têm uma importância menor, assim como erros do deus grego Zeus não lhe retiravam a divindade mas antes catapultavam o estatuto do erro divino para uma dimensão sobrenatural. Hoje, a ciência é um mito e os cientistas fazem parte de um panteão.


madre-teresa-de-calcutaLemos aqui uma história verdadeira de uma mulher italiana que desejava engravidar por intermédio de inseminação artificial (vulgarmente chamada de “IVF”). Porém, aconteceu um erro humano: houve uma troca de embriões na clínica de fertilização, e foram-lhe implantados os embriões de um outro casal que também estava à procura de uma gravidez.

Naturalmente que a referida mulher, grávida de gémeos, diz que os filhos são seus porque é ela que está grávida e é ela que vai parir as crianças. Já o casal “proprietário” dos embriões diz que os filhos são seus, porque os genes das crianças estão relacionados com o casal.

Gerou-se uma guerra jurídica entre a mulher e o casal, mas ninguém colocou em causa a possibilidade de erro científico e/ou técnico. Ninguém critica o procedimento da IVF. A ciência tornou-se sobrenatural e, por isso, isenta de erros. Os erros da ciência transformaram-se em uma espécie de “necessidade” isenta de qualquer contingência — e, como tal, não são considerados erros humanos propriamente ditos.

Espantosa foi a solução para o problema apresentada pela bio-ética italiana: a mulher e o casal, em conjunto, devem participar na criação e educação das crianças!

Em vez de tentar remediar um erro humano, a bio-ética justifica o erro técnico-científico “sobrenatural” criando um problema maior. Em nenhum momento a IVF é colocada em causa: em vez disso, “empurra-se o problema com a barriga” e complica-se ainda mais aquilo que seria relativamente simples de resolver: se não podem ter filhos, adoptem crianças!

Sexta-feira, 8 Agosto 2014

O homem moderno chama “Acaso” a Deus

Filed under: Ciência,filosofia,Quântica — orlando braga @ 9:58 pm
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“A investigação da Física provou claramente que, pelo menos para a esmagadora maioria do desenrolar dos fenómenos cuja regularidade e constância levaram à formulação do postulado da causalidade universal, a raiz comum da rigorosa regularidade observada é o acaso.”

→ Erwin Schrödingen, Nobel da Física, durante uma lição inaugural na Universidade de Zurique em 1922 1

Ou seja, segundo Schrödinger, os processos que são orientados por leis da natureza surgem de estados que, anteriormente, não estavam sujeitos a regras e eram aleatórios. No referido livro 1 de Manfred Eigen e Ruthild Winkler podemos ler na página 35:

“Designamos como microcosmos o mundo das partículas elementares, dos átomos e das moléculas. Os processos físicos elementares ocorrem todos neste mundo 2. O Acaso tem a sua origem na indeterminação destas ocorrências elementares.”

A regularidade das leis da natureza não é desrespeitada quando Deus intervém no macrocosmos ou no mundo humano/universo. Quando Deus quer intervir num processo natural, fá-lo através do microcosmos e sem perturbar as expectativas de regularidade das leis da natureza. E a própria intervenção de Deus no nosso mundo através do microcosmos surge-nos conforme o princípio da causalidade.

Notas
1. citado por Manfred Eigen e Ruthild Winkler no livro “The Laws of the Game: How The Principles of Nature Govern Chance”, 1987, p. 15
2. mundo do microcosmos

Segunda-feira, 21 Julho 2014

O absurdo da ideia da neurociência da “consciência como epifenómeno do cérebro”

 

Reza a história que num simpósio de investigadores da natureza realizado em Göttingen, Alemanha, em 1854, um fisiólogo presente, de seu nome Jacob Moleschott, declarou que, “tal como a urina é uma secreção dos rins, assim as nossas ideias são apenas secreções do cérebro”. Perante isto, o conhecido filósofo Hermann Lotze levantou-se, e disse que “ao ouvir tais ideias do distinto colega conferencista, quase acreditei que ele tinha razão…”

Hoje vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa uma resposta estúpida a uma pergunta estúpida, porque o pensamento e as crenças não coincidem.

O fluxo de sinais que aflui ao cérebro (cerca de 100 milhões de células sensoriais) não é portador de qualquer indicação de quaisquer propriedades (materiais) para além destas células — a não ser o facto de estas células terem sido estimuladas em determinados pontos da superfície do corpo.

Portanto, ainda é preciso acrescentar “algo” aos dados sensoriais (à sensação) na nossa cabeça para que esses dados possam dar origem a uma “realidade”.

Esse “algo” é o X de Kant ou a “alma” de Platão. Sem a autoconsciência de que a consciência se pensa, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência. O X de Kant e a “alma” de Platão são conceitos, e não são noções.

Não é possível definir o conteúdo do “ser”, porque qualquer conceito que se utilizasse para definir o “ser” seria imediatamente preenchido por algo que “é” — ou seja, o conceito já conteria aquilo que deveria ser ele a definir. Portanto, não pode existir qualquer definição de “ser” semelhante à definição de um objecto no mundo que se distinga de outros objectos.

Mas o facto de não ser possível definir o conteúdo do “ser”, isso não significa que o “ser” não exista. Estamos perante uma evidência — a existência do “ser” — que não necessita de qualquer experiência científica para ser verificada. O ser humano tem certezas sem provas; a ciência tem provas sem certezas. Ora, é esse tipo de evidências (as certezas sem provas) que a “ciência” actual pretende anular.

Se a consciência e a percepção se podem explicar pela constituição do cérebro — o que é defendido pela neurociência através daquilo que se chama “Teoria da Identidade” — então “o Eu não é nada mais senão uma hipótese do cérebro” (Susan Blackmore). O que a neurociência hoje defende é o abandono da ilusão de sermos alguém: “o Eu não é mais do que células nervosas que disparam” (Rudolfo Llinas, Patricia Churchland).

Paul Churchland afirma que é possível substituir a frase: “O senhor Pereira pensa que…”, pela frase: “No cérebro do senhor Pereira, disparam no momento T1 os neurónios N1 a N12 do núcleo Y, desta e daquela maneira”. Portanto, segundo a neurociência, o ser humano não pensa realmente de forma autónoma; ou seja, são os processos químicos e físicos dos neurónios que decidem o que eu faço, o que penso e o que sou; e minha vida psíquica e espiritual é secundária.

Karl Popper fez uma crítica demolidora à Teoria da Identidade, chamando à atenção para o facto de esta teoria não poder ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos. Se as minhas ideias são produtos ou efeitos da química que se processa na minha cabeça, então nem sequer é possível discutir a neurociência: a teoria da identidade não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que as provas da neurociência são também química pura: se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química apenas chegou a um resultado diferente. Karl Popper chamou a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.

Hoje vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa uma resposta estúpida a uma pergunta estúpida, porque o pensamento e as crenças não coincidem.

Terça-feira, 13 Maio 2014

É bom voltar a Aristóteles, face a idiotas que escrevem sobre a ciência

Filed under: A vida custa,Ciência,Esta gente vota — orlando braga @ 12:48 pm
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O António Piedade, do blogue Rerum Natura, escreve o seguinte:

“Assim como há 400 anos o telescópio desvendou um universo novo e quebrou mitos e lendas antigas, pulverizando visões cosmológicas que se revelaram erradas, também estas novas tecnologias de visualização cerebral abrem miríades de horizontes sobre a mente humana, e estendem as possibilidades da sua interacção com a Natureza.”

O que o António Piedade pretende dizer é que o telescópio e toda a parafernália tecnológica ao dispôr do Homem, “depois de ter quebrado mitos e lendas antigas, pulverizando visões cosmológicas que se revelaram erradas”, revelaram a verdade acerca do universo. Hoje, a julgar pelo pensamento do António Piedade, já não há mitos nem lendas. Assim como Karl Marx engendrou o fim da História, o António Piedade chegou ao fim da ciência.

“O que, em princípio, moveu os homens a proceder as primeiras indagações filosóficas foi, e como é hoje, a admiração. Entre os objectos que admiravam e que não podiam dar-se razão, aplicaram-se primeiro aos que estavam ao seu alcance; depois, avançando passo a passo, quiseram explicar os fenómenos mais relevantes; por exemplo, as diversas fases da Lua, o curso do Sol e dos astros e, por último, a formação do universo. Ir em busca de uma explicação e admirar-se é reconhecer que se ignora. E assim, pode dizer-se que o amigo da ciência também é, de certa maneira, amigo dos mitos, porque o assunto dos mitos é o maravilhoso.”

Aristóteles, “Metafísica”, II

Para o António Piedade, o amigo da ciência não é amigo dos mitos; para ele, a ciência não tem mitos, já que as crenças dele são certezas coimbrinhas.

Terça-feira, 29 Abril 2014

A ligação entre a consciência e a quântica

Filed under: Ciência — orlando braga @ 2:06 pm
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À medida que a ciência teórica (fundamentada pelo formalismo matemático) evolui, vai corroborando aquilo que até há pouco tempo era considerado pelo positivismo como “mitos das sociedades arcaicas”. Até a noção de “Multiverso” pode ser vista como o resultado da possibilidade que o formalismo matemático tem de penetrar em dimensões da realidade que escapam aos nossos sentidos. Convém que se diga que a noção de Multiverso não anula o problema da “causa primeira” (Aristóteles), nem torna infinito o universo ou qualquer “universo paralelo” material.

O cientista americano Robert Lanza (considerado pelo NYT como um dos três cientistas mais importantes da actualidade) lançou uma nova teoria a que chama de Biocentrismo, que consiste, grosso modo, na ideia segundo a qual  a vida e a consciência são fundamentais para o universo, por um lado, e por outro  lado, é a consciência (não nos referimos aqui apenas à consciência humana) que cria o universo material, e não o contrário disto. O Biocentrismo de Robert Lanza aproxima-se das teses do físico Amit Goswami.

Isto significa pelo menos duas coisas: que o epifenomenalismo está definitivamente colocado em causa, e que, por isso, chegou o momento de os editores do blogue Rerum Natura, envergonhados, irem embora para casa sem fazer ruído.

Assim como se demonstrou em laboratório a característica da não-localidade das partículas elementares, assim também a não-localidade é uma característica da consciência. O “problema” do Biocentrismo tem a ver com a aceitação do Multiverso como “universos materiais paralelos” (sublinho: materiais), e não apenas como o reconhecimento de “realidades ontológicas diferenciadas”. John Polkinghorne, um físico de partículas de Cambridge, escreveu no seu livro “Beyond Science”:

“É a matemática que nos dá a chave para abrirmos as portas secretas da natureza. Este conceito não é facilmente apreensível por todos, mas para aqueles que se expressam na linguagem matemática, a beleza matemática é uma qualidade evidente e reconhecida. Em suma, a matemática desponta da livre exploração racional da mente humana, o que parece indicar que as nossas mentes estão de tal modo sintonizadas com a estrutura do Universo que são capazes de penetrar nos seus segredos mais profundos.”

perth_tearoom_ghostO “problema” do Multiverso acontece aquando da interpretação dos dados matemáticos pela comunidade científica, sobretudo se essa interpretação é condicionada pelo preconceito ateísta e pelo actual paradigma darwinista. Ou seja: o formalismo matemático aponta para uma realidade para além do universo, e o preconceito ateísta conclui que essa realidade consiste em um Multiverso material, infinito e sem causa — porque o que é importante, para o paradigma científico positivista, é a negação metafísica de qualquer metafísica (o que é uma contradição em termos).

O absurdo do paradigma da ciência positivista é o de sentir uma necessidade absoluta de erradicar qualquer noção de absoluto, e a ponto de colocar em causa o corolário da teoria do Big Bang através de uma interpretação da Teoria de Cordas que conduza à conclusão de que, afinal, o Multiverso material é infinito (a realidade material tem que ser infinita “à força”, dê por onde der!); e a ciência positivista torna-se absurda no sentido em que, por definição, se baseia no nexo causal, por um lado, mas, por outro  lado, e através da noção de Multiverso infinito, recusa qualquer nexo causal para a existência da matéria que, alegadamente, coexiste nos “infinitos universos paralelos”.

Para o homem das ditas “sociedades arcaicas”, a existência de cada coisa começa no tempo e há um tempo especifico para cada coisa 1 : antes que o Cosmos viesse à existência, não havia tempo cósmico. Antes que tal espécie vegetal ter sido criada, não existia o tempo que a faz crescer agora, dar fruto e perecer. O tempo jorra com a primeira aparição de uma nova categoria de existentes.

Nota
1. [Mircea Eliade, “O Sagrado e o Profano”]:

Quarta-feira, 23 Abril 2014

David Marçal, a pesporrência cientificista que chama os outros de “ignorantes”

 

A pesporrência com que o David Marçal (o do blogue Rerum Natura) chama de “ignorante” a quem defende uma qualquer ideia contrária à dos cânones cientificistas, revela a estupidez por detrás da douta aparência da criatura.

A estratégia do asno é conhecida: mistura “Aquecimento Global”, por um lado, como “alterações climáticas”, por outro lado — na esperança de que as mudanças climáticas, que sempre ocorreram deste que a Terra existe, se confunda com a ideologia política cientificista do Aquecimento Global.

Escreve o David Marçal que “apesar das alterações climáticas naturais, as actividades humanas provocaram mudanças que não são devidas às alterações climáticas naturais”.

Ora, é impossível defender o contrário do que ele escreveu, ou seja, a tese do David Marçal não é refutável; ou melhor, não é refutável o postulado segundo o qual, se não existisse humanidade — ou se a humanidade estivesse reduzida a 500 milhões (ou coisa que o valha) —, não existiriam, se não estas alterações climáticas ou semelhantes, pelo menos outros fenómenos de alterações climáticas de semelhante relevância.

Não é possível defender o contra-factual, mas o David Marçal acha que “se a avó dele tivesse rodas, ele seria um autocarro”. Não é possível saber o que seria hoje o clima, se não existisse humanidade ou se a humanidade fosse constituída apenas de algumas centenas de milhões de pessoas! O contra-facto não pode ser verificado!

Ver o devir temporal do planeta Terra — ou seja, conceber uma “história do planeta” — como uma espécie de reacção química (A, → B), em que existe um nexo causal restrito (o determinismo característico de uma reacção química), não lembra ao careca — mas lembra a esta casta de inteligentes coimbrinhas.

Esta certeza simplista do futuro — que é assim alargada à complexidade dos fenómenos da natureza em geral, e que é baseada em casos muito concretos que a ciência pode prever — é uma doença mental.

Por outro lado, não está cientificamente provado que a humanidade está a causar um Aquecimento Global. Quando eu falo em prova, refiro-me à verificação. Existem teorias, e uma teoria não é uma prova. Há quem defenda a teoria segundo a qual, pelo contrário, vem aí um arrefecimento global. Ora, o David Marçal deveria saber disto; e sabe, mas a religião imanentista do Aquecimento Global é avassaladora.

O David Marçal é tão burro — tão burro! — que escreveu isto:

“O consenso científico acerca das alterações climáticas é avassalador. A historiadora de ciência Naomi Oreskes, fez uma análise de todos os artigos científicos publicados entre 1993 e 2003 e chegou à conclusão que nenhum (vou repetir: NENHUM) contrariava a ideia de que o clima está a ser alterado por causa das actividades humanas.”

Ou seja, o Aquecimento Global é como o darwinismo: não é (politicamente) refutável. O consenso científico é, segundo o David Marçal, dogmático. É dogma! É um paradigma dogmático. Segundo o David Marçal, ninguém se atreve a defender uma teoria diferente daquela. A teoria do Aquecimento Global, segundo o David Marçal, é tão unânime como é unânime a lei da gravidade.

Ou seja, para o David Marçal, o Aquecimento Global antropogénico já não é uma teoria: é uma lei da natureza!

Quando uma teoria não tem nenhuma oposição, ou não existem teorias divergentes, estamos em presença de uma religião política — e não de ciência! E por isso é que o David Marçal é burro ou desonesto, quando fala em nome da ciência.


Nas duas primeiras décadas do século XX, esteve na moda a defesa do eugenismo. A comunidade docente universitária anglo-saxónica (universidades de Harvard, Oxford, Cambridge, etc.) e os intelectuais (por exemplo, Bernard Shaw ou Margaret Sanger) baseavam-se no darwinismo para defender o eugenismo. O próprio Hitler foi beber ao eugenismo americano a essência que fundamentou o holocausto nazi.

Mas depois do horror nazi, esta gentalha não ficou contente: quer mais! E agora agarram-se a uma teoria do Aquecimento Global para defender novamente uma outra espécie de eugenismo, a do aborto em massa, da eutanásia compulsiva (como já acontece na Bélgica). E tudo isto em nome da ciência transformada em dogma. E são estes pulhas que criticam a religião cristã como sendo irracional!

Sábado, 19 Abril 2014

A Ressurreição de Jesus Cristo e a prova científica

Filed under: Ciência,Igreja Católica — orlando braga @ 11:58 am
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O Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada escreveu um texto que pode ser lido aqui (e aqui, em ficheiro PDF), e que pretende conciliar a “ciência dos factos”, por um lado, com a ressurreição de Jesus Cristo.

Antes de mais nada: ¿o que é um “facto”? É algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência.

“Facto” vem do latim “facere”, que significa “fazer”. Ou seja, um facto é “algo que é feito por nós”. Uma imagem que nós vemos não é mais nem menos o resultado das nossas acções quando comparada com uma imagem que pintamos, um trabalho que fazemos, ou um texto que escrevemos.

A realidade do nosso mundo é um “facto”; mas nós não inventamos os dados (da realidade do mundo) que são interpretados pela nossa mente: esses dados existem por si mesmos — constituem a “realidade em si” — em contraponto à nossa interpretação desses dados que constitui a “realidade para nós”. E, como dizia S. Tomás de Aquino, “a verdade é a adequação do pensamento à realidade”, ou dito por outras palavras, a verdade é a adequação da “verdade para nós”, por um lado, à “realidade em si”, por outro  lado.  No fundo, é esta “adequação” que a ciência vem procurando fazer.

Mas um “facto” não é só apenas aquilo que podemos medir experimentalmente. Por exemplo, os axiomas da lógica não são físicos, e não deixam, por isso, de constituírem “factos”.

E o que é a “prova”? Em primeiro lugar, a prova é intersubjectiva: só existe “prova” se for testemunhada e corroborada. Em segundo lugar, qualquer verificação científica de uma prova é sempre baseada na experiência do passado; e se dissermos que “o método científico se prova a si mesmo”, estamos perante uma tautologia.

Na medida em que o nosso cérebro interpreta a realidade — ou seja, a realidade é construída pela nossa mente —, segue-se que a ciência (que é humana) também não tem autoridade para fazer afirmações sobre “a realidade em si”: a ciência só se pode pronunciar acerca de casos concretos que não foram ainda refutados. E se reduzirmos toda a “realidade comprovada”, aos casos concretos que ainda não foram refutados pela ciência, reduzimos o conceito de realidade a uma condição paupérrima.

Com todo o respeito pela ciência, temos que admitir que o método científico não se prova a si mesmo. E temos que admitir que a Realidade não se reduz aos casos concretos que ainda não foram refutados pela ciência. Portanto, não vejo necessidade de justificar ou provar cientificamente a ressurreição de Jesus Cristo: a distância entre o finito e o infinito é infinita, e a realidade não se pode resumir ao método da ciência. E, se pensarmos assim, e só assim, poderemos conciliar a ciência com a Realidade. Ou ainda, como escreveu Einstein 1:


«¿Acha estranho que se considere a compreensibilidade do mundo como milagre ou como mistério eterno?

einstein webNa realidade, a priori, deveria esperar-se um mundo caótico que não se pode compreender, de maneira alguma, através do pensamento. Poderia (aliás, deveria) esperar-se que o mundo se manifeste como determinado apenas na medida em que intervimos, estabelecendo ordem. Seria uma ordem como a ordem alfabética das palavras de uma língua. Pelo contrário, a ordem criada, por exemplo, pela teoria da gravidade de Newton, é de uma natureza absolutamente diferente. Mesmo que os axiomas da teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo 2, que, objectivamente, não se poderia esperar, de maneira alguma. Aqui está o milagre que se reforça cada vez mais com o desenvolvimento dos nossos conhecimentos 3. Aqui está o ponto fraco para os positivistas e os ateus profissionais.

A ciência só pode ser feita por pessoas que estão completamente possuídas pelo desejo de verdade e compreensão. No entanto, esta base sentimental tem a sua origem na esfera religiosa. Isto inclui também a confiança na possibilidade de que as regularidades que valem no mundo existente sejam razoáveis, isto é, compreensíveis à razão. Não posso imaginar um investigador sem esta fé profunda.

É possível exprimir o estado de coisas através de uma imagem: a ciência sem religião é paralítica, a religião sem ciência é cega.»


Portanto, a ciência não deve insistir na sua pretensão de exclusividade na aproximação à verdade. O conhecimento científico é apenas um aspecto do Absoluto. Reduzir a toda a realidade, à ciência e à prova empírica, é a maior estupidez que o Iluminismo nos trouxe.

Notas
1. “Worte in Zeit und Raum”
2. a tal “realidade em si
3. conhecimentos científicos

Quinta-feira, 17 Abril 2014

A substituição abusiva do senso-comum pela ciência

Filed under: Ciência,cultura — orlando braga @ 10:05 am
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Um médico morreu ontem em Aveiro devido a um enfarte no miocárdio, e os me®dia vêm dizer que “ele fumava muito”. O Manuel Forjaz morreu em um Domingo passado com um cancro no pulmão, mas os me®dia não vêm dizer que ele não fumava e que praticava jogging diário.

Ou seja, aquilo que constituía, no primeiro caso e para os me®dia, uma relação de nexo causal em relação a um determinado comportamento, já não pode existir logicamente no caso segundo — e por isso é que os me®dia não tentam justificar “cientificamente” o caso de Manuel Forjaz.

Parece-me óbvio (é uma evidência) que qualquer excesso comportamental pode ser prejudicial à saúde; mas daí a concluir que um qualquer comportamento é sempre e necessariamente prejudicial, é transformar a medicina em uma doutrina dogmática. E quando a medicina entra em dogma, isso significa que ela reconhece as suas limitações enquanto ciência — “ciência” entendida aqui no sentido de previsão dos acontecimentos futuros.

cientismoFace a isto, ¿o que fazem os ditos “cientistas”? Entram pela teoria da probabilidade adentro. Dizem eles: “é mais provável que aconteça o fenómeno A a quem tem um comportamento B, do que a outra pessoa que não tenha esse comportamento”. Ora, isto não é propriamente ciência: antes, é senso-comum.

Por exemplo, é mais provável que uma pessoa que se desloque num carro a 200 km/h, morra de um acidente do que uma pessoa que se desloque a 30 km/h. Isto é senso-comum, e já não tem nada a ver com a “ciência” enquanto “previsão do futuro”. E é senso-comum porque se baseia na experiência intersubjectiva que vem do passado: é algo que, através da experiência do senso-comum, se tornou evidente: é evidente que quem viaja a 200 km/h tem uma maior probabilidade de morrer de um acidente de viação do que se viajasse a 30 km/h.

A ciência baseia-se na estatística que, por sua vez, é fundada no passado. Não existe uma estatística feita no futuro (o que é uma contradição em termos). E, em bom rigor, não existe uma certeza do futuro, nem existe qualquer garantia de as leis da Física, por exemplo, serão aplicáveis amanhã de manhã. Ademais, as estatísticas nunca revelam um grau de probabilidade de 100% — mesmo as leis dita “certas”, como por exemplo a lei da gravidade, são abstracções de factos verificados pelo senso-comum.

A ciência tem provas sem certezas, e o ser humano tem certezas sem provas.

Vamos ver, por exemplo, a lei “certa” da gravidade. Quem quiser compreender a lei da gravidade tem que, em primeiro lugar, abstrair-se de factores como, por exemplo, a forma ou a cor dos objectos, ou a resistência ao ar. Ou seja, a lei da gravidade abstrai-se de qualquer caso real na natureza observável no planeta Terra — a lei da gravidade simplifica a realidade.

Mas a lei “certa” da gravidade nunca permitirá que a ciência possa descrever a trajectória da queda de uma ou mais folhas caducas de Outono, senão de uma forma aproximada. A ciência pode compreender o processo da queda de folhas de Outono e em um caso concreto através de princípios gerais (teóricos). Mas não pode prever exactamente a trajectória da queda de uma ou mais folhas de Outono. E mesmo esta previsão inexacta é tão geral que se poderia igualmente aplicá-la em relação a uma folha que hipoteticamente caia na Lua.

Para que seja possível formular leis a partir das observações científicas, é necessário simplificar e criar modelos que constituam uma abstracção da complexidade da realidade. Ou seja, a ciência simplifica a realidade. E os modelos, por sua vez, constituem meras aproximações descritivas em relação à verdade dos fenómenos sob investigação científica, sem que a ciência possa, jamais e em tempo algum, chegar a compreender a verdade completamente.

Esta verdade não é inventada pelos cientistas — por exemplo, o Idealismo defende a ideia segundo a qual a verdade de um fenómeno é produzida pelo observador do fenómeno, o que é uma afirmação absurda, na medida em que seria o cientista a produzir o objecto da investigação, e porque (segundo o Idealismo) o objecto sem a sua verdade, é impensável. O cientista não é o criador do mundo, mas simplesmente aquele que investiga o mundo.

Esta verdade está acima do espaço-tempo: é intemporal. E é esta verdade intemporal que o senso-comum intui, sem que seja necessário que a ciência venha tomar-lhe o lugar mediante a reivindicação de uma autoridade de direito que é ilegítima.

Como se pode ver, eu posso estar de acordo com Wittgenstein acerca do princípio da necessidade de afirmação do primado do senso-comum na nossa vida quotidiana — mas em vez de criticar a “usurpação da metafísica tradicional” (crítica feita por Wittgenstein à metafísica) em relação ao senso-comum, critico antes a transformação da ciência em uma espécie de metafísica exclusivista; e é isso que o cientismo faz: pretende substituir-se à metafísica filosófica tradicional, ao mesmo tempo que pretende tornar irracional o senso-comum.

Terça-feira, 15 Abril 2014

O cientismo é dogmático

Filed under: Ciência,cultura — orlando braga @ 8:18 am
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Um cego pode dizer que “não pode ouvir as cores”, e que, por isso, as cores não existem objectivamente.

De um modo semelhante, o cientismo diz que os valores da ética não existem objectivamente (e que só existem subjectivamente) porque são estranhos às ciências da natureza.

O problema é que os intérpretes do cientismo são supostos “cientistas” ou “homens da ciência”; e em vez de termos as sotainas da Idade Média, temos as batas brancas dos ratos de laboratório da contemporaneidade.

Quarta-feira, 9 Abril 2014

O David Marçal (e o blogue Rerum Natura) representa o que há de pior na mentalidade cientificista em Portugal

Filed under: Ciência — orlando braga @ 7:20 am
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Em relação a mais esta escrevinhação do David Marçal, escolhi uma citação de um pensador ateu, para que fique acima de qualquer suspeita “supersticiosa”:

“Os técnicos que utilizam a técnica científica e, ainda mais, os governos e as grandes indústrias que utilizam os técnicos adquirem uma mentalidade completamente diferente da que caracteriza o homem de ciência, uma mentalidade onde impera a convicção de um Poder ilimitado, de uma certeza arrogante e de um prazer em manipular o material humano”.

(…)

A esfera dos valores está fora da ciência, salvo no que diz respeito ao facto de a ciência consistir na investigação do saber. A ciência, enquanto investigação do saber, não deve ser um obstáculo à esfera dos valores, e a técnica científica, se pretende enriquecer a vida humana, não deve superar os fins que deveria servir.”

- Bertrand Russell 1 


O David Marçal (e os outros) precisam de ler, por exemplo, o ateu Bertrand Russell (para não falar em outros ateus empedernidos como, por exemplo, Sir Fred Hoyle) e da sua Teoria do Conhecimento. O próprio Russell demonstra que é impossível à ciência “esclarecer os temas tabu” (pelo menos alguns temas tabus), como contrariamente defende David Marçal. 2

Acerca da guerra da “ciência” (que se confunde hoje com cientismo) em relação às religiões em geral, e embora Russell, como bom ateu, reconheça a falsidade da religião, diz ele que o corolário dessa guerra será uma “nova ética” que “tenderá a fazer sofrer os indivíduos a fim de salvar o bem público, e isto sem se sentir obrigada a provar que esse sofrimento seja merecido”. Ou seja, a “nova ética”, segundo Russell, será totalitária. E é essa essa “nova ética” que é defendida no blogue Rerum Natura — não só por este ataque do David Marçal em relação à religiosidade dos indivíduos relatados nas peças da RTP, mas pela própria orientação editorial, em geral, daquele blogue.

Notas
1. citado na “História da Filosofia” de Nicola Abbagnano, § 804
2. “O Conhecimento Humano, o seu âmbito e os seus limites” (1948)

Segunda-feira, 7 Abril 2014

Um recado de Ariano Suassuna para o António Piedade, Carlos Fiolhais & Cia. Ltda.

Filed under: Ciência — orlando braga @ 4:51 am
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Ariano Suassuna é membro da Academia Brasileira de Letras. Em contraponto, Carlos Fiolhais, António Piedade ou David Marçal, do blogue Rerum Natura, pertencem à academia coimbrinha e compartilham a ideia de Engels de “Humanização do Macaco pelo Trabalho”.

(respigado aqui)

Quinta-feira, 3 Abril 2014

A ciência tem vindo a resolver os problemas da humanidade — dizem eles

Filed under: Ciência — orlando braga @ 5:39 pm
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Hoje existe a noção, inculcada na cultura antropológica, segundo a qual “a ciência tem vindo a resolver os problemas da humanidade”. A ideia de que “a ciência resolve os problemas da humanidade” vem do século XIX e é partilhada, por exemplo, pelo blogue Rerum Natura.

Por exemplo, segundo essa noção (generalizada na cultura através da propaganda política do cientismo) um determinado medicamento engendrado pela ciência resolve o problema de uma determinada doença; por exemplo, “um medicamento anti-gripal elimina o problema da gripe” — é assim que se pensa hoje. Ou — diz-se hoje — “uma fórmula matemática pode eliminar um determinado problema matemático”.

Eu não critico o povo que foi induzido a pensar assim. Critico gente como a que escreve no blogue Rerum Natura, que, de uma forma desonesta e até maléfica, tem contribuído objectivamente para esta forma de pensar.


Uma fórmula matemática ou um medicamento não eliminam o problema ou a doença: apenas superam esses problemas de cada vez que eles se apresentam. A ciência não dá origem a uma situação definitivamente não problemática! — ao contrário do que é defendido pelo blogue Rerum Natura.

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