perspectivas

Sexta-feira, 14 Novembro 2014

Uma correcção ao professor Rolando Almeida

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 1:44 pm
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O professor Rolando Almeida escreveu aqui que “não existem ciências exactas e outras não exactas”. Mas, em todo o texto, o professor Rolando Almeida não definiu “ciência”, o que seria o ponto de partida para a justificação da sua proposição supracitada. Por isso, vamos definir “ciência”.

Chamamos “ciência” ao conhecimento positivo (neopositivismo) — a “ciência experimental” — que se apoia em critérios precisos de verificação, e permitindo, por isso, uma objectividade dos resultados.

Poderíamos definir “ciência” de outra maneira, mas é esta definição real que é geralmente válida nas universidades e no meio científico.

Em função desta definição de ciência — que o professor Rolando Almeida não fez —, podemos distinguir três tipos de ciências:

  1. as ciências experimentais ou empíricas; são as chamadas “ciências da natureza”, que se referem a um dado objecto na experiência e validam-se através de controlos experimentais;
  2. as ciências formais; a matemática e a lógica, baseadas na dedução a partir de axiomas. Nas ciências formais, não há qualquer necessidade de verificação experimental, porque a matemática e a lógica não têm um objecto exterior à sua construção;
  3. as ciências humanas (história, sociologia, antropologia, psicologia, etc.) que são aquelas em relação às quais não se pode aplicar igual- e literalmente o método das ciências da natureza (ler Karl Popper). A ideia segundo a qual se pode aplicar literalmente o método das ciências da natureza às ciências humanas, é um mito cientificista.

É neste sentido — baseado no facto de não se poder aplicar igualmente e literalmente o método das ciências da natureza às ciências humanas — que se faz a distinção real entre aquilo a que se convencionou chamar de “ciências exactas” (pontos 1 e 2) e “ciências não exactas” (ponto 3).

Terça-feira, 4 Novembro 2014

O conceito metafísico de “evolução darwinista” é incompatível com a metafísica religiosa

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 11:22 am
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Quando analisamos argumentos, devemos, em primeiro lugar, estudar quanto possível a essência deles, e só depois devemos partir para a abordagem lógica que poderá eventualmente encontrar contradições nesses argumentos.

De qualquer modo, ao ser humano é impossível a absoluta não-contradição.

O cientista informático Larry Stockmeyer demonstrou que a verificação lógica de apenas 558 teoremas implica a necessidade de um computador do tamanho do universo. Se cada teorema for fraccionado em todas as suas partes lógicas possíveis, comparado com todas as conclusões lógicas, silogismos e sorites, estaremos em presença de fracções na ordem de 10^168 (1 seguido de 168 zeros) — mesmo um computador do tamanho do universo bloquearia ao tentar analisar o teorema número 559. Para verificar as possíveis contradições em apenas 100 proposições, podemos obter um número prolixo de fracções, na ordem de 10^30 (1 seguido de 30 zeros). Pedir a um ser humano que seja mais perfeito, no seu raciocínio, do que um computador do tamanho do universo, é defender a ideia de um super-homem.


O Domingos Faria começa por não definir “evolução darwinista”, porque o que lhe interessa é a redução à análise lógica da contradição entre “evolução darwinista” e as religiões universais (e não só os teísmos!) — por exemplo, as várias estirpes do Hinduísmo são incompatíveis com o conceito de evolução darwinista.

No seu sentido biológico, ‘evolução’ designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica” (Michael Behe).

Isto significa que o conceito de “evolução darwinista” pertence à metafísica, e não à ciência. Ou, se quisermos uma abordagem neo-kantiana:

“O criacionismo é um mito, assim como o darwinismo é um mito, porque é impossível explicar a mutação das formas”. — Eric Voegelin

Segundo o físico ateu Fred Hoyle, a probabilidade de que os tijolos da vida (os aminoácidos) se juntem na sequência correcta para formar uma proteína, é de 1 em 10^40 (1 seguido de 40 zeros). Note-se que os matemáticos consideram a hipótese de 10^50 (1 seguido de 50 zeros) como uma “impossibilidade matemática”. O físico Chandra Wickramasinghe escreveu o seguinte:

“As hipóteses de a vida ter aparecido por acaso e de forma aleatória são semelhantes às hipóteses de um ciclone soprar num qualquer cemitério de automóveis e construir-se assim um Boeing 747”.


Desde Galileu que a Igreja Católica “joga à defesa” (tentando evitar um erro que, de facto, não cometeu) em relação à ciência, e muitas vezes não se dá conta de que o conceito de “evolução darwinista” pertence à metafísica — como aconteceu recentemente com o “papa Francisco”.

Segundo o conceito actual de paradigma, de Thomas Kuhn, a reacção do Papa medieval às teses de Galileu foi absolutamente correcta. As teses de Copérnico receberam o imprimatur porque foram formuladas como hipóteses. Porém, Galileu não quis formular quaisquer hipóteses, mas afirmar verdades absolutas — e isto numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

A Igreja Católica, naquela época, defendeu a concepção científica mais moderna embora se tenha atido a concepções cosmológicas erradas.


Se tivermos em consideração devida a noção de “evolução darwinista”, o texto de Domingos Faria não faz sentido, porque especula sobre opiniões de gente que não tem em consideração exacta o princípio de que parte o darwinismo. Aliás, o conceito de “aleatoriedade do processo de evolução” está já, hoje, ferido de morte: a selecção natural pode explicar a sobrevivência de uma espécie adaptada, mas não consegue explicar por que razão essa espécie adaptada surgiu em primeiro lugar.

Quinta-feira, 30 Outubro 2014

¿Qual a diferença entre a pseudo-ciência que o David Marçal critica, e o cientismo que ele perfilha?

Filed under: Ciência — O. Braga @ 6:23 pm
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Praticamente nenhuma.

O cientismo é a atitude intelectual que se desenvolveu a partir da segunda metade do século XIX e que concede um valor absoluto ao progresso científico. O cientismo concede à ciência o monopólio do conhecimento verdadeiro e atribui-lhe a capacidade de resolver progressivamente todos os problemas que se apresentam à Humanidade. A noção de cientismo foi fundada por Augusto Comte, com o Positivismo.

A pseudo-ciência ignora o nexo causal dos fenómenos da realidade macroscópica que é produto da acção da Força Entrópica da Gravidade; o cientismo ignora ostensivamente o indeterminismo a-causal que é característico da realidade microscópica condicionado pela Força Quântica.

A diferença entre o cientista Carlos Fiolhais e a teóloga Teresa Toldy

Filed under: Ciência,Igreja Católica — O. Braga @ 9:41 am
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“É precisamente este “casamento” entre religião e ciência que incomoda Carlos Fiolhais, físico e um dos mais conhecidos divulgadores científicos portugueses. “Isso é um pouco mais perigoso. O perigo está em uma pessoa querer ir buscar à ciência fundamentos para a crença”, explica. “A crença em Deus, segundo penso, radica num ato que de modo algum tem sustentação científica. A fé, a crença, é um salto, que algumas pessoas conseguem dar e outras não, que é um impulso para o desconhecido. Fé é querer o desconhecido.”
Carlos Fiolhais

Eu não estou totalmente de acordo com o Carlos Fiolhais ; mas não é isso que está agora aqui em causa. O que interessa agora é que Carlos Fiolhais tenta basear-se em factos para defender a sua tese: o que conta é a forma de raciocinar de Carlos Fiolhais.

“Teresa Toldy, teóloga e professora universitária, também entende que “o discurso religioso é uma coisa e o discurso científico outra”. Mas não considera que o Papa Francisco estivesse a tentar encaixar as duas variáveis numa só”. Acho que o que ele está a dizer é que uma não é incompatível com a outra”, defende.”

A teóloga especula sobre a putativa e eventual intencionalidade das palavras do papa. Ela não fala de factos: interpreta subjectivamente aquilo que ela pensa que o papa quereria eventualmente dizer.

Isto não significa que todos os teólogos e filósofos utilizem o mesmo método de análise da teóloga Teresa Toldy. O que se quer dizer é que o argumento da teóloga Teresa Toldy não é válido. Quando interpretamos as palavras de alguém, devemo-nos basear em factos objectivos (no sentido puro das palavras, evidentemente intersubjectivas e de acordo com o senso-comum) e não (apenas) na nossa subjectividade.

“Interpretar” não é necessariamente “adulterar” ou “enviesar” ou “subjectivizar”.


Carlos Fiolhais está errado quando diz que “o perigo está em uma pessoa querer ir buscar à ciência fundamentos para a crença.”

Em primeiro lugar, a ciência é baseada em crenças. Por exemplo, quando a ciência diz que “a lei da gravidade se aplica igualmente em qualquer parte do universo”, trata-se de uma crença porque não há nenhuma verificação empírica desse facto. Este assunto “daria pano para mangas”. Em última análise, até o empirismo é uma crença.

Em segundo lugar, não há nenhuma incompatibilidade no facto de a ciência corroborar a religião (ou a metafísica). Trata-se de “corroborar”, e não de “fundamentar” como diz Carlos Fiolhais. “Corroborar” não é a mesma coisa que “fundamentar”. De modo semelhante, a religião (ou a metafísica) pode também corroborar a ciência (ou teorias científicas).

O problema do papa é que ele não quis corroborar coisa nenhuma. Como é costume nele, só disse asneiras.

Terça-feira, 21 Outubro 2014

As três dimensões da Realidade

Filed under: Ciência,filosofia,Quântica — O. Braga @ 9:36 am
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“A distinção entre matéria e espaço vazio teve que ser finalmente abandonada, quando se tornou evidente que as partículas virtuais podem ser criadas espontaneamente, a partir do vazio, e nele desaparecem novamente, sem que esteja presente algum nucleão ou qualquer outra partícula que interactue fortemente.

As partículas formam-se a partir do nada e desaparecem novamente no vácuo. De acordo com a “teoria de campo”, acontecimentos deste tipo estão constantemente a acontecer. O vácuo está longe de se encontrar vazio. Pelo contrário, contém um ilimitado número de partículas que surgem infinitamente.”

→ Fritjof Capra, “O Tau da Física”, página 184

Temos que compreender alguns conceitos exarados no texto supracitado, como por exemplo, os conceitos de “nada”, “vazio”, “partícula virtual”. E temos também que perceber a linguagem metafórica e anti-positivista não só de Fritjof Fritjof Capra, mas também a da maior parte dos físicos actuais.


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Sexta-feira, 3 Outubro 2014

Sem a confirmação da ciência, o Sol não nasce todos os dias

Filed under: Ciência,cultura — O. Braga @ 6:57 am
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Imagine o leitor que reputados cientistas se reuniam em uma conferência de imprensa para anunciar ao mundo uma nova e revolucionária descoberta: “O ser humano é um animal mamífero dotado de linguagem, bípede e inteligente”. E os me®dia anunciariam, com parangonas de pompa e circunstância, a nova descoberta da ciência; a noção de ser humano.

Hoje é absolutamente necessário que a ciência confirme o óbvio e o evidente, e a noção de ser humano só faz sentido se for corroborada pela ciência. Por exemplo, se é evidente que o Sol nasce todos os dias, essa evidência, por si mesma, não chega: é necessário que a ciência venha a terreiro confirmar o evidente, e sem a confirmação da ciência segue-se que deixa de existir o nascer-do-sol. Aquilo que a ciência não corrobore simplesmente não existe.

A ciência segue o exemplo de Groucho Marx quando perguntava: “ Acreditas no que os teus olhos mentirosos vêem, ou naquilo que eu te digo?”. E para que os nossos olhos não sejam mentirosos, temos que acreditar na ciência como em Deus Nosso Senhor.

Lemos aqui um artigo no qual se afirma que, afinal, a ciência não têm a certeza de que não exista livre-arbítrio no ser humano. Mas existe no texto um vício de forma: “a ciência ainda não tem a certeza acerca do livre-arbítrio do ser humano, mas as investigações continuam”.

Ou seja, a ciência determina que o ser humano tem livre-arbítrio — o livre-arbítrio no ser humano é, assim, determinado pela ciência. Se a ciência não determinasse o livre-arbítrio do ser humano, este não o teria. Em suma, parece que o determinismo da ciência declara a validade provisória da liberdade do ser humano.

Quarta-feira, 1 Outubro 2014

Ainda iremos voltar ao casamento com mulheres virgens

Filed under: Ciência — O. Braga @ 5:34 pm
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virgem casamentoA telegonia foi uma hipótese colocada pela primeira vez por Aristóteles e é hoje considerada “superstição” pela genética; mas uma experiência científica realizada com moscas da fruta demonstra que a genética não é tudo: existe também a epigenética.

Durante a experiência verificou-se que as fêmeas imaturas (que ainda não podiam procriar) que tinham sido “cobertas” por um determinado macho X, não tiveram prole porque ainda eram imaturas. Mas depois de ficarem maduras para a procriação, as fêmeas foram “cobertas” pelo macho Y, e verificou-se que a prole do macho Y tinha algumas características físicas evidentes do macho X que foi o primeiro a “cobrir” as fêmeas.

A experiência vai ser agora realizada com ratas (mamíferos). E se se verificar o mesmo fenómeno, vai passar a estar na moda o casamento com mulheres virgens.

no lovers

Terça-feira, 30 Setembro 2014

A pseudo-ciência aplicada à ética

Filed under: ética,Ciência — O. Braga @ 1:23 pm
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A pseudo-ciência é um fenómeno cultural oriundo da Esquerda; tem a sua raiz no cientismo jacobino de Augusto Comte, evoluiu através do socialismo maçónico francês do século XIX, depois através de Karl Marx, e finalmente através do Existencialismo materialista (por exemplo, Jean-Paul Sartre).

O David Marçal conta aqui um caso típico de pseudo-ciência na cultura antropológica, em que mulheres andaram de mamas ao léu no Algarve. Na pseudo-ciência, a ciência assume uma dimensão de possibilidade de mudança da natureza fundamental da realidade (fé metastática). Daqui não viria grande mal ao mundo se a pseudo-ciência não passasse a influenciar a ética.

Uma característica da Esquerda é o determinismo ético — a negação do livre-arbítrio humano — que deriva da implantação da pseudo-ciência no imaginário cultural esquerdista. Por exemplo, o caso que a Helena Matos revela aqui: segundo os me®dia, a crise na economia conduz inevitavelmente a uma decadência moral; trata-se da criação de um nexo causal (pseudo-científico) que não existe de facto.

Esta é uma das razões por que a Esquerda judicializa a ética; ou seja, substitui a ética e a moral pelo Direito Positivo. A própria lei passa a substituir a norma moral que por sua natureza não é escrita, o que significa que os juízes, por um lado, e os especialistas técnicos (médicos, por exemplo), por outro lado, passam a ter o poder político quase plenipotenciário que era próprio dos padres e bispos católicos da Idade Média. Vivemos hoje em uma “Idade Média contemporânea”.

A aliança entre a pseudo-ciência e o Direito Positivo é uma nova forma de opressão esquerdista e um instrumento político de restrição da liberdade do cidadão.


O determinismo moral pode ser caricaturado da seguinte forma: um assassino em série declara, perante o juiz:

— Senhor doutor juiz: a culpa dos homicídios não é minha!: em vez disso, é dos meus genes!

Depois, caberá ao juiz e de uma forma quase arbitrária, decidir se a culpa é dos genes ou do meio-ambiente em que o assassino foi criado. Esta é uma das razões por que a Esquerda pretende atenuar e diminuir as penas de prisão: porque nega a existência do livre-arbítrio no ser humano.

Sexta-feira, 26 Setembro 2014

O “Tao da Física”, de Fritjof Capra

Filed under: Ciência,Quântica — O. Braga @ 8:01 am
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“Quando a natureza essencial das coisas é analisada pelo intelecto tem que parecer absurda ou paradoxal” — Fritjof Capra, “O Tao da Física”, página 47, 1989 (Editorial Presença, Lisboa)

Fritjof Capra referia-se à dualidade da natureza das partículas elementares subatómicas. As partículas elementares manifestam-se, ora em forma de partículas, ora em forma de ondas. E conclui ele que, à luz do nosso intelecto, essa dualidade tem que parecer absurda e paradoxal.

Só uma pessoa formatada por uma cultura cientificista poderia pensar desta maneira. Ou seja, só um homem moderno pensaria assim. O homem moderno pensa que “a lógica evolui”: não lhe passa pela cabeça que o Homem descobriu apenas uma parte da lógica e que continua a descobri-la. Há mesmo quem diga que os números primos, por exemplo, foram inventados pelo ser humano, e que a própria lógica é uma invenção humana. Assim não admira que “quando a natureza essencial das coisas é analisada pelo intelecto tem que parecer absurda ou paradoxal”.

Nós passamos de um intuicionismo primordial e medieval para um racionalismo moderno e actual. Não encontramos um meio-termo. Não encontramos uma justa medida. Ainda não aprendemos a diferença entre “racionalismo”, por um lado, e “racionalidade”, por outro lado — e ainda não aprendemos que a intuição propriamente dita é racional. (more…)

Terça-feira, 23 Setembro 2014

Stephen Hawking e a entrevista ao jornal espanhol “El Mundo”

 

Não me queria referir a este assunto, porque o estado de saúde de Stephen Hawking merece misericórdia e respeito. Mas já que Carlos Fiolhais se referiu ao assunto, aqui vai.

Stephen-Hawking-a-secoO pensamento de Hawking é a negação do nexo causal, portanto, na prática, acientífico. A ideia de “um universo que se pode criar do Nada, por geração espontânea”, é acreditar num milagre. É evidente que existe aqui implícita a ideia de um “milagre”, e essa ideia de milagre (entendido em si mesmo) é de origem cristã (no caso de Hawking).

Quando Stephen Hawking fala em “mente de Deus” e “mente humana” (em inglês: “mind”, que significa também “espírito”), está a utilizar conceitos cristãos.

Por exemplo, um ateu propriamente dito e coerente, em vez de dizer à sua mulher “Amo-te de corpo e alma”, diria o seguinte: “Querida! A dopamina tomou conta do meu bolbo caudal raquidiano!”

Para um ateu não pode, em coerência, existir “mente” ou espírito”: antes existe uma caixa craniana com um montão de moléculas em constantes reacções químicas; também não pode existir “verdade”, porque o montão de moléculas em reacções químicas pode induzir tipos de verdades diferentes dependendo dos indivíduos. A minha química pode chegar a uma conclusão diferente da tua; por isso a verdade não existe e a ciência também não.

Há uma coisa que eu admiro em Stephen Hawking: tem uma vontade estóica. Qualquer pessoa na situação dele já tinha defendido a eutanásia. E essa qualidade de Stephen Hawking não pode ser escamoteada.

Segunda-feira, 22 Setembro 2014

Os porcos não voam, e em certos casos até concordo

Filed under: Ciência — O. Braga @ 6:12 pm
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Quando um homem das ciências se mete a dissertar sobre matérias que não são da sua especialidade, dá nisto:

“… ocorreu ontem à noite na TVI. No seu comentário habitual, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa equivocou-se, ao fazer uma comparação errónea.

Comentando os pedidos de desculpa dos ministros Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz, o Prof. Marcelo afirmou a certa altura: Eles entendem que, pedindo desculpa, cumpriram a sua missão. Mas isto tem um preço. É um bocadinho como a TAC: quando uma pessoa faz uma TAC, a TAC fica no corpo, aquela radiação fica lá e não se cura. Ver vídeo a partir dos 20 minutos.

Todos percebemos que se tratava de uma analogia, mas há limites para certas analogias, sobretudo quando são feitas perante centenas de milhar de pessoas… A TAC não fica no corpo (que é isto da TAC ficar no corpo?!). Os raios-X não ficam no corpo; entram, atravessam o corpo e são detectados, caso contrário nem produziriam qualquer imagem! E nem vale a pena referir o não se cura…”

Uma analogia bizarra

Repare-se como se falou, em primeiro lugar, em analogia, depois em comparação , e novamente em analogia — como se os dois conceitos fossem idênticos ou mesmo semelhantes.

O prof. Carlos Fiolhais tentou remediar o caso. Mas esqueceu-se de dizer que os cientistas, em geral, não aconselham uma mulher grávida a expor o ventre a raios-X — vá-se lá saber por que razão… !

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Sábado, 20 Setembro 2014

“O Relojoeiro Cego” de Richard Dawkins

Filed under: ética,Ciência,filosofia,Quântica — O. Braga @ 2:07 am
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“É imoral permitir o nascimento de crianças com síndroma de Down.”Richard Dawkins, no Twitter

“Na minha vida particular, estou pronto a exaltar-me com pessoas que cozem as lagostas vivas” — Richard Dawkins, “O Relojoeiro Cego”, 1986


“A biologia é o estudo de coisas complicadas, que aparentam terem sido concebidas com uma finalidade. A física é o estudo de coisas simples, que não nos tentam a invocar a concepção”. — Richard Dawkins, ibidem

“A física parece ser um tema complicado, porque nos é difícil entender as ideias da física.

(…)

O comportamento dos objectos físicos, não biológicos, é tão simples que é viável utilizar uma linguagem matemática conhecida para o descrever, razão por que os livros de física estão cheios de matemática.

Os livros de física podem ser complicados, mas os livros de física, tal como os automóveis e os computadores, são produto de um objecto biológico — a inteligência humana. Os objectos e os fenómenos que um livro de física descreve são mais simples do que uma única célula do corpo do seu autor”. Richard Dawkins, ibidem


Eu já pensei em criar um blogue com o título “O Relojoeiro Cego”, para ir refutando sistematicamente o livro. Mas depois pensei que seria uma tarefa inglória, porque seria lutar contra o paradigma científico de Richard Dawkins que marca, por exemplo, o blogue Rerum Natura. Talvez seja mais eficaz o que Passos Coelho está a fazer: corta-se neste tipo de “ciência”, e pronto!

Eu acho inacreditável como um professor universitário de Oxford tenha escrito dislates deste calibre. Mas isto é só uma pequena amostra (se calha, escrevo mesmo o blogue!). Por exemplo, sem a força entrópica da gravidade — que a física estuda — não seria possível que da realidade das partículas elementares pudessem surgir os aminoácidos que, através daquilo a que Richard Dawkins chama de “acaso cumulativo”, “aparecem espontaneamente” na natureza de sequência correcta para formar uma proteína.

Ou seja, a “inteligência humana”, a se refere Richard Dawkins, só se tornou possível porque existe uma área da Realidade primordial e muito complexa que a física estuda; e a biologia vem depois.

Afirmar que a interligação entre a força quântica, por um lado, e a força entrópica da gravidade, por outro lado, — interligação essa que está na base da teoria atómica e da física molecular que, por sua vez, estão na base do “surgimento” das moléculas, ácidos nucleicos, enzimas, etc.) — são “fenómenos simples de descrever”, é absolutamente inacreditável vindo de um professor universitário da área das ciências.

O sofisma de Richard Dawkins, tal como o dos darwinistas primevos (que diziam que “a célula viva surge espontaneamente da lama”), corresponde a uma certa ideia errada de Hegel, por um lado, e de Spencer, por outro lado, segundo a qual “o progresso é uma lei da natureza” e que “a evolução se processa necessariamente do mais simples em direcção ao mais complexo”. Como não se conhece empiricamente aquilo a que se chama de “simples”, então diz-se que “não é complexo”.

Como é evidente que Richard Dawkins tem uma enorme dificuldade de abstracção, afirma ele que “os livros de física estão cheios de matemática”, como se a matemática fosse a tal coisa “simples” que — na opinião dele — não se compara com a “complexidade da biologia”.

Eu não acho que cozer uma lagosta viva seja um acto de bom gosto; mas também não acho que seja imoral deixar nascer uma criança com síndroma de Down.

O que é anormal no tipo de “ciência” e de “cientistas” que temos hoje, é que se defenda a pertinência da primeira posição e a impertinencia da segunda posição. Mas é este tipo de “ciência” que é defendido, por exemplo, no blogue Rerum Natura. É este tipo de gente que tem que ser combatido sem quartel. Bem haja Passos Coelho, neste particular.

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