perspectivas

Terça-feira, 21 Maio 2013

Carlos Fiolhais e Galileu

Filed under: A vida custa,Ciência,filosofia — O. Braga @ 9:18 am
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Estava a ler este artigo de Carlos Fiolhais, e estava a concordar com o seu conteúdo até que esbarrei com invocação sistémica de Galileu:

“Esta separação de águas, possível dentro da mesma pessoa, pode ser remontada a Galileu, um homem de fé que não perdeu a fé diante do Tribunal da Inquisição, quando se viu no lugar de actor principal num drama que marcou a história das relações entre igreja e ciência, hoje já resolvido após o papa João Paulo II ter admitido um erro de juízo.”

Qualquer cientista propriamente dito reconhece hoje, e a partir da perspectiva actual segundo o conceito de paradigma de Thomas Kuhn, que a reacção do Papa às teses de Galileu foi absolutamente correcta. As teses de Copérnico receberam o imprimatur porque foram formuladas como hipóteses. Porém, Galileu não quis formular quaisquer hipóteses, mas afirmar verdades absolutas — e isto numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

A Igreja Católica, naquela época, defendeu a concepção científica mais moderna embora se tenha atido a concepções cosmológicas erradas. Um critério semelhante ao da Igreja Católica daquele tempo é hoje utilizado por Carlos Fiolhais quando defende o paradigma do darwinismo: mas Carlos Fiolhais fala sistematicamente em Galileu sem falar nele próprio e naquilo que comprovadamente de errado ele ainda defende.

Carlos Fiolhais comporta-se hoje de forma mais dogmática do que a Igreja Católica do tempo de Galileu.

Não me agrada um certo paternalismo espertalhão de Carlos Fiolhais em relação à religião. “A fé do cientista é a maior que existe, porque é inconfessável” — escreveu o físico francês Roland Omnès. Dizer que “um cientista não tem fé”, e que “a fé só é característica dos religiosos”, só pode vir de um paternalismo espertalhão em relação à religião. O que acontece é que a fé do cientista é uma fé chã, reduzida a uma parte ínfima da realidade. Por isso, comparar negativamente a fé de um ateu com a fé de um religioso é manifestação de má-fé.

Carlos Fiolhais não compreendeu, do alto da sua cátedra, que não existe tal coisa de “não-crença”. A verdade é que a não-crença é sempre uma forma de crença. O que existe é “crença inadequada”, ou reduzida, ou limitada a uma parte da realidade; e a ciência é esta crença limitada e/ou reduzida.

Carlos Fiolhais não percebe que um ateu é herdeiro da cultura cristã; e como não percebe isto que é tão simples de perceber, também não percebe que o Cristianismo está presente na mundividência do ateu mesmo que ele não queira. E depois, como não percebe isto, Carlos Fiolhais vem dizer que “um ateu pode ter um sentido da existência humana impregnado de ética” — como se a ética do ateu existisse independentemente da História do Cristianismo e da ética cristã.

Quando leio Carlos Fiolhais fico mal-disposto — não porque não concorde com ele, mas porque é gente desta estirpe que molda a opinião pública.

Domingo, 12 Maio 2013

A psicologia científica de urinol

Um bêbedo entra num urinol, saca um testículo para fora da braguilha, faz força, urina no interior das calças, e depois desata a berrar que tem “os testículos rotos!”…

A ciência está igual ao bêbado: descobre uma determinada partícula a que chamou de “bosão de Higgs”, identificou essa partícula com o Graviton (*), e porque essa partícula — que a ciência diz (alegadamente) ser o Graviton — tem um campo baixo de energia, conclui a ciência que o Big Bang não existiu, que o universo surgiu do nada e é eterno (não sei como é possível uma coisa “surgir do nada” e ser simultaneamente “eterno”: mas isso sou eu, que sou estúpido).

C’a Gand’a ciência!

O problema da ciência com o Big Bang, é ideológico, e por isso não é científico. Ou seja: o problema da ciência é que a merda da teoria do Big Bang, e das estúpidas inferências de facto que levaram a ela, é coincidente com a porcaria da metáfora do Génesis bíblico!

Mas C’a Gand’a Treta do Big Bang!

Para a ciência, em vez da teoria do Big Bang inferida da estupidez factual da radiação de base e da maldição obscurantista do efeito de Doppler (Hubble) — é preferível uma teoria que recuse o princípio de causalidade e que defenda a ideia segundo a qual “o universo surgiu do nada”.

C’a Gand’a metafísica! Quanto mais esta ciência “avança”, mais o bêbedo tem razão!

(*) o Graviton é o “missing link” da Física: é a partícula charneira entre a força quântica e a força entrópica da gravidade.

Terça-feira, 23 Abril 2013

Pessoa, ou substância individual de natureza humana

Filed under: ética,Ciência,Ut Edita — O. Braga @ 8:41 am
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Durante a Idade Média, a Escolástica definiu “pessoa” como “substância individual de natureza racional” (Boécio). Esta definição de pessoa — em relação à qual a Igreja Católica também é co-responsável — manteve-se como uma sombra negativa sobre a Humanidade e foi mesmo adoptada pelo chamado Humanismo anti-religioso que se serviu religiosamente da ciência para negar a religião propriamente dita.

O eticista anti-ética Peter Singer, baseando-se neste conceito de pessoa, defende a ideia segundo a qual uma criança já nascida não só não é pessoa, como tem o estatuto ontológico de um peixe; e defende que um ser humano que tenha perdido as suas faculdades cognitivas já não é uma pessoa, e que por isso pode e deve ser eutanasiado.

Esta definição de pessoa já não tem sustentação racional:

“Infants have a sophisticated behavioral and cognitive repertoire suggestive of a capacity for conscious reflection. Yet, demonstrating conscious access in infants remains challenging, mainly because they cannot report their thoughts. Here, to circumvent this problem, we studied whether an electrophysiological signature of consciousness found in adults, corresponding to a late nonlinear cortical response [~300 milliseconds (ms)] to brief pictures, already exists in infants. We recorded event-related potentials while 5-, 12-, and 15-month-old infants (N = 80) viewed masked faces at various levels of visibility. In all age groups, we found a late slow wave showing a nonlinear profile at the expected perceptual thresholds. However, this late component shifted from a weak and delayed response in 5-month-olds (starting around 900 ms) to a more sustained and faster response in older infants (around 750 ms). These results reveal that the brain mechanisms underlying the threshold for conscious perception are already present in infancy but undergo a slow acceleration during development.”

A Neural Marker of Perceptual Consciousness in Infants

Um estudo científico publicado recentemente apresenta as primeiras verificações de que os bebés têm consciência, pelo menos a partir dos cinco meses de idade. É tempo de mudar a noção de pessoa que nos chega da Idade Média. A nova definição de pessoa deve ser a seguinte: substância individual de natureza humana.

Sexta-feira, 19 Abril 2013

Um exemplo de como o Positivismo pode ser anti-científico

Existe gente aparentemente inteligente que sabe juntar duas ou três palavras, mas que é intrinseca e naturalmente estúpida.
Vejamos esta tese:

“Where we really disagree, though, is about how to conceive of the relation between norm-governed practices and principles. On your view, I take it, the principles have some sort of priority, and the practices are justified (or not) in light of those principles.

On my view, the principles are just explications of what is already implicitly at work within the epistemic and moral practices themselves.

So we can appeal to various principles as tools for articulating what it is that we are committed to, and hence they are valuable tools for critically reflecting on and revising those practices, but they cannot endow our practices with any more authority than those practices already and implicitly have, nor can the principles explain just why it is that the practices have any implicit authority.”


O que ressalta da tese é a seguinte proposição:

“Os princípios são apenas explicações daquilo que está já em funcionamento dentro da prática epistemológica e moral”.

Por exemplo, e segundo a proposição, poderámos concluir o seguinte: “uma bola rola. Logo, o princípio, que está implícito no facto de a bola rolar, existe porque a bola rola; e esse princípio decorre do próprio facto do rolamento da bola. É o facto de a bola rolar que explica o princípio. Se os seres humanos desconhecem o facto de uma bola rolar, esse princípio subjacente ao rolamento da bola também não existiria”.

(mais…)

Quinta-feira, 11 Abril 2013

A razão por que a filosofia não morreu

Filed under: Ciência,filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 10:15 pm
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OPositivismo e os positivistas passam a vida a dizer que “a filosofia morreu”. Vamos demonstrar em poucas linhas por que razão os positivistas estão errados. Para isso, é preciso ler em primeiro lugar este texto de apologia aos feitos da ciência. (PDF).

1/ O texto fala em “imagens captadas pelos seus olhos, mais precisamente pelas células fotossensíveis existentes nas suas retinas, são traduzidas em milhões de impulsos nervosos”. Desde logo, quem o escreveu “esquece-se” de falar na complexidade irredutível do sistema ocular; e depois, qualquer pessoa minimamente inteligente — excepto os positivistas — pergunta-se como é possível que “imagens captadas pelos seus olhos, mais precisamente pelas células fotossensíveis existentes nas suas retinas, são traduzidas em milhões de impulsos nervosos” tenham surgido na natureza por puro acaso.

2/ Como podemos concluir da leitura do texto [1], a ciência não explica os fenómenos: apenas descreve o “funcionamento” dos fenómenos. Explicar um fenómeno significa desvelar o nexo causal desse fenómeno, e não apenas uma causa próxima. Por exemplo, se virmos um raio no céu nublado, podemos dizer qual é a causa próxima desse fenómeno como uma descarga de electrões; mas a ciência positivista não sabe, nem nunca saberá, o nexo causal que conduza a uma explicação sobre a existência dos electrões ou de qualquer outra partícula elementar longeva.

[1] Citação: “Há mais de um século que o incontornável histologista espanhol Ramón y Cajal (Prémio Nobel da Medicina em 1906”

Domingo, 7 Abril 2013

O erro da crença ideológica de Carlos Fiolhais e do blogue Rerum Natura

Carlos Fiolhais ficará na história da ciência e da pedagogia portuguesas como um dos piores exemplos de seguidismo cego de um determinado paradigma totalmente submetido a um “espírito do tempo” marcado pela ideologia, por um lado, e por outro lado por ter caído no erro de colocar, num mesmo plano epistemológico, a física e a biologia.

dawkins-papaO Rerum Natura, através do seu “repórter” de serviço António Piedade, fala-nos de um novo livro acerca do darwinismo (ou neodarwinismo) cujo conteúdo é corroborado por Carlos Fiolhais. Eu não li o livro (com o título “A Evidência da Evolução – Porque é que Darwin Tinha Razão”), e apenas estou a fazer um juízo acerca do texto do verbete publicado no Rerum Natura. Não li o livro nem vou ler, porque o título indica “mais do mesmo”, e porque a própria sinopse de António Piedade confirma o “mais do mesmo”.

Carlos Fiolhais, ao corroborar o conteúdo deste livro, terá que estar pelo menos parcialmente de acordo com Richard Dawkins quando este escreveu acerca do dito: “Quem não acredita na evolução ou é estúpido, ou é louco, ou não leu Jerry Coyne” (SIC) Reparem bem!: quem não acredita”! Eu diria que se Carlos Fiolhais acredita no que escreveu Richard Dawkins, então são tão estúpidos um como o outro.

Em ciência, o “acreditar” — a crença — é justificável e não pode ser, à partida, criticável. Nem todas as crenças são injustificáveis ou irracionais.

Portanto, ninguém pode estar contra toda a crença em ciência. Quando Newton publicou a sua teoria, baseou-se numa “crença” a que Kant classificou de “juízo sintético a priori”. Alguns aspectos da teoria de Newton estavam errados, mas muita da sua teoria salvou-se e foi até adoptada, por exemplo, por Einstein. Mas a biologia não entra nos pressupostos necessários para a elaboração de um juízo sintético a priori — que Kant, e muito bem, reduziu à matemática e à física.

A biologia — e muito mais ainda, a paleontologia — é uma ciência que se baseia essencialmente no juízo sintético à posteriori, e por isso a “crença científica”, em biologia, não se pode aplicar do mesmo modo que é aplicada na matemática e na física. Em biologia, não é possível uma “crença científica” senão se se tiver como motor dessa “crença” uma determinada ideologia política, ou então mediante o predomínio de uma mundividência subjectivista que determine essa crença (por exemplo, o positivismo).

Numa altura em que as macromutações, entendidas segundo o neodarwinismo, estão claramente colocadas em questão, e em que a maioria dos cientistas concordam com a ideia segundo a qual só se aplicam as “leis de Darwin” às micromutações inerentes à adaptação ao meio-ambiente — e o mais interessante é que as micromutações são reversíveis! —, o Rerum Natura e Carlos Fiolhais insistem em uma determinada crença aplicada a uma ciência (a biologia) que não pode, por sua própria natureza, estar legitimamente sujeita ao juízo sintético a priori.

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Terça-feira, 2 Abril 2013

Prémio Unicórnio Voador 2014 para David Marçal

Por ter confundido ciência, por um lado, com filosofia e/ou metafísica, por outro lado, David Marçal é um sério candidato ao Prémio Unicórnio Voador de 2014.

Ciência não é filosofia, não é ética e nem é metafísica. Qualquer confusão entre estes conceitos é produto de cientismo, e por isso merece o dito prémio — a não ser que “ciência” seja a mesma coisa que “cientismo”, e neste caso o próprio prémio Unicórnio Voador mereceria o prémio Unicórnio Voador.

Sábado, 30 Março 2013

Volta!, Positivismo! Estás perdoado!

Wittgenstein falou daquilo que se deve calar devido à impossibilidade de falar disso. Dizia ele que “é impossível falar daquilo que se deve calar”, mas não deixou de falar daquilo que, segundo ele, se devia calar. E depois de falar daquilo que deveria ter sido calado por ser impossível falar disso, Wittgenstein foi apresentado nos meios intelectuais como um génio, e chegou a ser professor universitário em Inglaterra.

Hoje, já quase ninguém fala em Wittgenstein. Mas se os intelectuais colocam hoje em causa o positivismo como uma “coisa ultrapassada, antiga, horrorosa!”, abraçam agora o sofismo que restou do abandono do positivismo.

O sofismo, no avesso do positivismo, diz que “é possível não falar daquilo que não se deve calar” — e portanto, as ideias e as opiniões são todas iguais. Ou melhor dizendo: o que distingue hoje a validade de uma opinião em relação a uma outra, é a lei: desde que duas opiniões não sejam contra a lei, são ambas igualmente válidas mesmo que contraditórias e/ou opostas entre si.

No tempo em que o positivismo de Wittgenstein e Schlick era rei, uma resposta correcta e lógica anulava a razão da pergunta. Por exemplo, a pergunta: ¿Quanto é 1+1? Resposta: 2. Logo, a pergunta ficava resolvida e não se falava mais nisso. Assunto arrumado.
Hoje, porém, com o sofismo instalado na nossa cultura, a coisa já não funciona assim. Se eu disser que 1+1=2, há sempre alguma alma sabichona que me diz pesporrentemente: “Caro amigo: isso é a sua opinião…!”

No tempo do positivismo, diziam os intelectuais que “o critério da significação (a validade do significado de uma proposição ou questão) é a sua verificação (científica)”. Rapidamente se verificou que esta asserção se refuta a si mesma, porque ela própria não é verificável. Mas hoje estamos ainda pior, porque o sofismo instalado defende a ideia segundo a qual “o critério da verificação é a sua significação”, o que transforma a ciência em qualquer coisa que tenha um qualquer significado exclusivamente subjectivo. O positivismo matou o sujeito, e o subjectivismo sofista vingou-se e matou a ciência.

Quinta-feira, 14 Março 2013

Richard Dawkins diz que um feto humano tem menos valor do que um porco

As opiniões de Richard Dawkins, ou de outro burro qualquer, não me incomodam. Sempre existiram burros, e como escreveu C. Cipolla, a percentagem de estúpidos em circulação é sensivelmente idêntica em todas as sociedades de todas as épocas. O que me incomoda é caixa de ressonância dos me®dia: algumas das vezes acrítica, porque entre os pasquins — como, por exemplo, o jornal Público — a percentagem de estúpidos é superior ao normal; outras vezes propositada quando alinhada com um certo niilismo ético de uma política cultural de “terra queimada”.

dawkins and freud webQuando dizemos que “aquele animal sente dor”, essa nossa constatação é intuitiva.

Do ponto de vista estritamente do método científico positivista, nenhum cientista pode verificar e confirmar que um animal sente dor. O cientista pode inferir a dor de um animal, mas essa inferência tem origem intuitiva, e não uma origem estritamente científica no sentido de verificação empírica e positivista.
A presumível dor de um ser não é um critério científico — em sentido estrito do método científico — para estabelecer razões para o aborto ou para a eutanásia. A constatação da dor de um qualquer ser é intuitiva, e por isso, do domínio da ética, e logo, do domínio da filosofia. Quando a ciência diz que “um feto humano não sente dor”, incorre em um grave erro e abuso metodológicos.

Por isso é que Richard Dawkins é burro, porque ele deveria estar concentrado na biologia em vez de se meter pela filosofia adentro. Porém, para além de burro, é estúpido, porque ele consegue intuir a dor de um animal qualquer, mas já não consegue intuir a presença de um ser humano num feto humano.

Quarta-feira, 27 Fevereiro 2013

Conferência de Michael Behe na universidade de Toronto: “Evidência de Desenho Inteligente a partir da Biologia”

Filed under: Ciência,cultura,Darwinismo — O. Braga @ 11:44 am
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michael behe toronto web

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=s6XAXjiyRfM

Domingo, 24 Fevereiro 2013

Michael Behe e os limites do darwinismo (vídeo)

Eu penso que o mais importante deste vídeo (ligação em rodapé, com 1 hora e 25 minutos de duração) — de uma conferência do bioquímico Michael Behe, professor da universidade de Pensilvânia, nos Estados Unidos, e gravado recentemente — é a redução ao absurdo da narrativa darwinista. Um exemplo da narrativa darwinista é este texto do professor Galopim de Carvalho segundo o qual “as células são produto de evolução atómica”. A forma de reduzir ao absurdo este conceito do professor Galopim de Carvalho é a de descrever (e não, “explicar”, porque a ciência não “explica” o universo, no sentido literal do termo) o que se passa dentro de uma célula, por exemplo; ou descrever como uma pessoa se torna imune à infecção pelo vírus da malária.

Ou seja, a assunção genérica e “mágica” da narrativa do professor Galopim de Carvalho, segundo a qual “as células são produto de evolução atómica” — e que é aceite pela população em geral como um mito urbano que justifica o darwinismo, por um lado, e que por outro lado transforma o darwinismo em uma espécie de dogma moderno que pretende substituir os dogmas da religião tradicional — é “desmontada” ou desconstruída pela simples explicação genérica do que se passa efectivamente a nível celular.

dawkins and freud webEste tipo de intervenção pública de Michael Behe é importante porque desmascara, aos olhos dos povos, os actuais mentores do cientismo positivista — como parece ser o caso do professor Galopim de Carvalho, e entre muitos outros —; e desmistifica e demitifica o novo “clero” dogmático interpretado pelo cientista que transforma a ciência — conforme defendido por Augusto Comte, no século XVIII — em uma nova religião imanente e materialista.

Ao contrário de positivistas fundamentalistas, como por exemplo Richard Dawkins, Michael Behe presta um serviço inestimável à ciência ao sublinhar a dúvida metódica (e não a dúvida céptica, que é uma coisa diferente), em detrimento da certeza cientificista própria do darwinismo, certeza essa que se transforma numa espécie de fé própria de uma religião materialista, absurda, e intelectual e espiritualmente chã e básica.

Num mundo moderno, em que o ser humano perdeu o seu sentido, a denúncia do dogma darwinista através da ciência propriamente dita deve ser um dos principais deveres dos (verdadeiros) cientistas.

michael behe web

http://www.youtube.com/watch?v=V_XN8s-zXx4

Quarta-feira, 20 Fevereiro 2013

A mitificação da ciência e a demitificação da morte

“No âmbito da medicina actual, a situação é deveras problemática: no esforço de apagar do seu horizonte o sofrimento e a morte, a ciência médica investe na Técnica que está para além das suas possibilidades. Max Weber escreveu que a ciência médica não coloca a questão de se, e quando, a vida vale a pena ser vivida, omitindo a crise de identidade do médico perante o problema dos doentes terminais.

A medicina parece não poder resolver os problemas com que se confronta senão transformando um problema ético num problema técnico. — Sofia Reimão (página 168 do livro mencionado em rodapé).


forneira de Jean-François_Millet1/ O problema é, de facto, complexo, mas a responsabilidade da actual situação recai naqueles que, ao longo de várias gerações, e principalmente desde finais do século XVIII a esta parte, foram moldando a cultura antropológica do Ocidente, transformando a ciência num mito ao mesmo tempo que a morte era demitificada (“demitificar” não é a mesma coisa que “desmitificar”, e/ou “desmistificar”). A longo dos últimos dois séculos, a morte foi sendo demitificada na proporção directa da mitificação da ciência. Hoje, damo-nos conta dos erros culturais acumulados e da responsabilidade não só da comunidade científica desde o Iluminismo, mas também da responsabilidade das elites políticas e da ruling class em geral.

2/ Durante o século XX, principalmente nele, a mitificação da ciência acelerou-se, ao mesmo tempo que a demitificação da morte foi sendo imposta indirectamente na cultura antropológica a Ocidente mediante um combate feroz, levado a cabo pela ruling class e ao longo de gerações, não só contra todos os tipos de tradições, mas também tendo em vista a construção ontológica do Homem Novo, partindo do princípio de que é possível alterar a natureza fundamental do ser humano.

3/ Na sequência do Iluminismo, as elites passaram a acreditar no progresso e na perfectibilidade progressiva do ser humano enquanto tal. A mente humana, incluindo a volição e a razão, teriam a potencialidade de progresso. Por entre a ruling class do século XIX e grande parte do século XX, acreditava-se no “futuro da razão” e no inevitável progresso e avanço da mente humana. O progresso tornou-se numa lei da natureza que colocava em causa a própria natureza humana. O resultado dessa mundividência progressista foi dantesco: centenas de milhões de mortos, vítimas das revoluções progressistas e do movimento revolucionário em geral, e apenas no século XX.
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