perspectivas

Quarta-feira, 21 Janeiro 2015

Resposta a um leitor

Filed under: Ciência — O. Braga @ 2:21 pm
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A única coisa em que o vídeo e a sua teoria têm razão objectiva — repito: objectiva, porque teorias há muitas — é sobre o aparecimento abrupto de novas espécies. Até hoje, o darwinismo não conseguiu explicar (de forma racional e não dogmática) a explosão câmbrica.

Ludwig Krippahl: mistura, baralha, confunde, e diz que é ciência

Filed under: A vida custa,Ciência — O. Braga @ 6:00 am
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Neste verbete defendi muito sucintamente a tese segundo a qual  “a evolução darwinista é impossível”. Quanto falo em “evolução” quero dizer “macro-evolução”. O Ludwig Krippahl critica aqui o meu verbete mas referindo-se à  micro-evolução (adaptação ao meio-ambiente). Assim a gente não se entende.

Parece que o Ludwig Krippahl incorre da falácia do espantalho, porque critica uma posição minha que eu não defendi.


Definição:

No sentido biológico, “evolução” designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios exclusivamente naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica.


Escreve o Ludwig Krippahl:

“Em biologia, o termo (evolução) refere-se à variação da distribuição de características hereditárias numa população conforme novas gerações substituem as anteriores.

O que se propõe ser mais ou menos aleatório são os mecanismos que influenciam a evolução de uma população.”

Ou seja, segundo o Ludwig Krippahl, a evolução não é aleatória, mas é “mais ou menos” aleatória. É um NIM.

Mas aqui o Ludwig Krippahl está a misturar a micro-evolução com a macro-evolução — está a meter tudo no mesmo saco —, enquanto eu faço a distinção entre os dois tipos de “evolução”. A adaptação ao meio-ambiente (micro-evolução) é evidente: não precisa de demonstração. Nem faz parte só da ciência: faz parte do senso-comum muito antes de Darwin: Aristóteles já falava do assunto.

Portanto, estamos certamente a falar de coisas diferentes, e o Ludwig Krippahl partiu do princípio errado de que eu me referia à  micro-evolução. E como o princípio não está correcto, a argumentação subsequente do Ludwig Krippahl “falha o alvo”.

A seguir, escreve o Ludwig Krippahl:

“Finalmente, Braga alega que a evolução é impossível porque «não existe informação prévia» (…). Mas a evolução não procura (…) qualquer alvo predeterminado.”

Pois é: segundo o Ludwig Krippahl, a evolução é cega, porque “não procura qualquer alvo predeterminado”. Ou seja, segundo ele, “a evolução é aleatória e não guiada”, tal como me referi no meu verbete e que foi, em uma primeira fase do verbete dele, negado.

Se a evolução (segundo o Ludwig Krippahl) “não procura qualquer alvo predeterminado”, não pode ser guiada e tem que ser aleatória no sentido em que a informação disponível em um determinado estádio de evolução — “evolução” segundo o conceito do Ludwig Krippahl — não prevê minimamente as características do estádio de evolução seguinte.

Na teoria da informação — simplificando o que é complexo — podemos fazer uma analogia com a segunda lei da termodinâmica: a quantidade de informação transmitida pode ser entendida como entropia negativa; na transmissão de informação, a entropia negativa decresce continuamente, uma vez que a entropia positiva (perdas de informação) aumenta também continuamente. Ou a teoria da informação é falsa, ou a evolução darwinista (ver definição supracitada) é impossível.

A noção que o Ludwig Krippahl tem no teorema de Gödel parece ser rudimentar, e mesmo imprecisa. Escreve ele:

“O teorema de Gödel mostra que qualquer sistema formal suficientemente expressivo admite proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas a partir dos axiomas desse sistema formal.”

Se uma proposição não pode ser demonstrada a partir de axiomas desse sistema formal, ¿como é que o Ludwig Krippahl sabe que a proposição é verdadeira? Ele sabe que a proposição é verdadeira porque existe um segundo sistema superior ao primeiro que demonstra a veracidade da proposição do sistema inferior — e por aí fora. Ou seja, existe uma informação de ordem superior que legitima e demonstra a veracidade da informação de um sistema inferior.

Por exemplo, o teorema de Gödel, e segundo a teoria da informação, exclui a possibilidade de se construir uma máquina que resolva todo e qualquer problema — o que torna absurda a ideia do Ludwig Krippahl segundo a qual o teorema de Gödel “é importante para alguns problemas lógicos, matemáticos ou de computação, mas não tem nada que ver com a teoria da evolução”  — porque a evolução não é outra coisa senão uma tentativa continuada de resolução de problemas. ¿Será que o Ludwig Krippahl entende bem o que eu quero dizer?

Se a concepção da vida, segundo a evolução darwinista, é mecanicista (naturalismo), o teorema de Gödel aplica-se-lhe que nem uma luva, por maior ou menor dissonância cognitiva que o Ludwig Krippahl tenha que enfrentar.

Se a evolução não é guiada — ou seja, se não existe qualquer informação prévia que oriente a evolução nos sucessivos estádios —, ou seja, se o naturalismo se associa à  evolução, então a possibilidade das nossas faculdades cognitivas serem credíveis é muito baixa. Se “evolução + naturalismo” é aceite, não estamos em presença de faculdades cognitivas credíveis. Não dá com certeza para um prémio Nobel senão em um mundo em que o naturalismo é uma religião que é incompatível com a própria evolução.

“Nem é relevante para a formalização matemática da teoria nem é preciso os escaravelhos saberem que o teorema de Goodstein sobre sequências de números naturais não pode ser demonstrado na álgebra de Peano para que os mais camuflados se escapem melhor dos predadores.”

Segundo o Ludwig Krippahl, os nossos cérebros — à  semelhança dos cérebros dos escaravelhos — são formatados pela “evolução” para a sobrevivência, e não para a verdade. Com um jeitinho da política, ele terá o Nobel garantido.

Segunda-feira, 19 Janeiro 2015

Física de Plasma: a teoria da não-teoria

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 6:44 pm
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Um leitor chamou-me à  atenção para este vídeo acerca da chamada “Física de Plasma”. Vamos tentar simplificar conceitos para que o leitor entenda o que está em causa.

Em primeiro lugar, vamos citar uma quadra do nosso poeta Aleixo:

“P’rá mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à  mistura
qualquer coisa de verdade.”

A teoria da Física de Plasma, segundo o vídeo citado, tem qualquer coisa de verdade.

Em segundo lugar, vamos saber o que significa uma “teoria”.

Uma teoria é uma síntese que engloba leis naturais (por exemplo, a teoria da gravitação engloba a lei da queda dos corpos ) destinada a considerar os dados da experiência.

Portanto, uma teoria sem dados da experiência, ou é um delírio, ou é metafísica que, por inerência  faz parte da filosofia. Mas a metafísica não é ciência. O que pode acontecer é que a ciência esbarre contra um qualquer limite conceptual que não permita construir uma “teoria corroborada”.

¿O que é uma “teoria corroborada”? Uma teoria corroborada é uma teoria que resistiu às tentativas mais sérias e severas de falsificabilidade através da experimentação. ¿O que é “experimentação”? Em ciência, experimentação é o conjunto dos meios e procedimentos de controlo destinados a verificar uma hipótese ou uma teoria (não confundir “experimentação” com “experiência”: a experiência pode não ser científica). ¿O que significa “verificar”? Verificar é o acto de “verificação”, sendo que verificação é o processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição.

Depois destas “definições reais” — as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência — que são necessárias embora não devamos exagerar na sua utilização, podemos partir pára a teoria da Física de Plasma.

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Domingo, 18 Janeiro 2015

A ciência e o sentido da vida

Filed under: ética,Ciência,filosofia — O. Braga @ 5:54 pm
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Quando a ciência — os cientistas — se metem na filosofia, e principalmente na metafísica e na ética, normalmente dá merda: julgam que estão a filosofar quando apenas “opinam”. Confundem filosofia com opinião.

Ter construído um formalismo qualquer não significa tê-lo interpretado; ter tornado eficaz uma ciência não chega para lhe esgotar o conteúdo. Mesmo nas suas formas mais arcaicas, a ciência mudou continuamente o panorama da filosofia, é verdade; mas sem nunca conseguir suplantá-la! A força considerável  da ciência não chega para destruir a filosofia. A filosofia conservará sempre o seu próprio domínio e o seu próprio modo de ser e proceder.

Quando tropeça em um problema de interpretação de uma teoria, o cientista é tentado a resolvê-lo sem rigor, segundo a sua filosofia “espontânea”, ou seja, à  luz unicamente das suas concepções pessoais — um realismo ingénuo ou um positivismo anacrónico. É difícil ao cientista eliminar as aporias que provêm de definições recebidas sem crítica ou de argumentos empilhados de maneira arbitrária.


O Diogo Queiroz de Andrade cita aqui a “explicação” que um apologeta do cientismo — o apresentador da série de televisão “Cosmos” Neil deGrasse Tyson — dá a uma criança acerca do sentido da vida. Diz ele:

“Muitas vezes as pessoas presumem que o sentido da vida é algo que as pessoas podem procurar e encontrar, sem considerar a possibilidade de que o sentido da vida é algo que se cria – para nós e para os outros.”

“Por isso, quando penso no sentido da vida, pergunto-me: aprendi alguma coisa hoje que não soubesse ontem? Isso leva-me um bocadinho mais perto de conhecer os segredos do universo, por mais longe que eles estejam.”

Nesta perspectiva, cada ser humano que se dedique com todo o empenho a uma tarefa leva, de facto, uma vida que faz sentido. Todos aqueles que tentam fazer o melhor da sua vida — por exemplo, “aprender alguma coisa que não soubesse ontem, os segredos do universo” — têm um objectivo à  sua frente e, por isso, um sentido para a sua vida.

No entanto, o que é notório nesta argumentação é a norma subjectiva que é aplicada pelo Diogo Queiroz de Andrade e pelo pseudo-cientista comentador de televisão. De acordo com esta perspectiva, só a própria pessoa pode saber se a sua vida tem ou não sentido.

Como seria a resposta ao “sentido de vida” se considerássemos a vida de Hitler?

Ele tinha, com certeza, a impressão subjectiva de que a eliminação de milhões de seres humanos lhe oferecia uma vida com sentido. O mesmo se poderia dizer de Estaline que criou os Gulag e dormia a sesta profundamente satisfeito no seu sofá no Kremlin.

A impressão subjectiva de levar uma vida com sentido não chega para garantir que essa impressão esteja correcta.

Pelo contrário, tem que se admitir que também devem ser considerados aspectos que transcendem o sujeito, portanto, aspectos que vão para além dele. Por esta razão, deve colocar-se a questão sobre o sentido da vida humana enquanto tal. Mas este é outro assunto com o qual não vale a pena perder tempo com o Diogo Queiroz de Andrade e com o Neil deGrasse Tyson.

Sexta-feira, 9 Janeiro 2015

O Carlos Fiolhais subscreve qualquer burrice em nome da ciência

 

Carlos Fiolhais  faz aqui uma crítica a Olavo de Carvalho.

Contudo, com o frenesim de substanciar a sua crítica, subscreve a tese de um qualquer estudante de Física — quando o Carlos Fiolhais  aceita a “explicação” do tal estudante em relação ao conceito de “curvatura do espaço” que, segundo o inteli-jumento com alvará de inteligência, atribui aos teoremas da geometria pura.

Os vários sistemas da geometria (euclidiana, Lobachevsky e Riemann) estão, em si mesmos, isentos de conteúdo empírico (vou repetir, para que o Carlos Fiolhais  entenda bem: isentos de conteúdo empírico!) — só quando se conjugam com certos princípios da mecânica é que surgem proposições empiricamente significativas. Ou seja, é necessário especificar como é que os termos como “ponto”, “linha” e “ângulo” se devem medir antes que os teoremas geométricos se possam aplicar à  experiência.

A geometria pura, é arte, e não é ciência! 

O conceito de “curvatura do espaço” explica-se mediante o conceito de “massa” — e não com os teoremas geométricos de Lobachevsky e Riemann tal como o querido aluno do Carlos Fiolhais  pretendeu dizer. Ou seja, o Carlos Fiolhais subscreveu uma burrice.

É certo que Olavo de Carvalho cometeu um erro — está errado. Afinal ele é um ser humano. Só os inteli-jumentos como o Carlos Fiolhais  não cometem erros.

Sexta-feira, 2 Janeiro 2015

A pseudo-ciência que condena a pseudo-ciência

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 10:01 pm
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É muito interessante este verbete no blogue Blasfémias, e aconselho veementemente uma visita.

O referido verbete coloca a nu a falácia cientificista da Ideologia de Género — pena é que os vídeos estejam sub-titulados em inglês, porque a maioria da população portuguesa não lê em inglês; e aposto quanto quiserem que aqueles vídeos jamais serão passados em qualquer canal de televisão português.

Vivemos em um tempo muito complicado, em que pseudo-cientistas politicamente correctos — como por exemplo os que escrevem no blogue Rerum Natura — se dedicam a denunciar a pseudo-ciência. Vemos, por exemplo, esta notícia no Rerum Natura segundo a qual  se realizará um encontro onde “criadores, cientistas, ensaístas” abordarão o problema do livre-arbítrio. Escreve o Carlos Fiolhais :

“Estamos habituados a pensar que somos livres para decidir e escolher os nossos actos. Não passará esta certeza de uma ilusão? Experiências na área das neuro-ciências colocam dúvidas sobre a existência do livre-arbítrio, embora não exista consenso dos cientistas e dos filósofos quanto à interpretação dessas mesmas experiências. A discussão sobre este conceito é, aliás, muito antiga. O mais tardar desde Santo Agostinho que a existência do livre-arbítrio tem sido uma questão central na História da Filosofia e da Teologia e, mais recentemente, na História da Ciência. Ao longo do processo histórico, a relação entre livre-arbítrio e responsabilidade tem passado pela discussão sobre a compatibilidade do determinismo e do indeterminismo com o livre-arbítrio.”

Se o Homem não tivesse livre-arbítrio não seria possível a ciência — ver: pesadelo do determinismo físico. Já uma vez aconselhei o Carlos Fiolhais a ter lições de lógica do Desidério Murcho.

Portanto, é um absurdo que cientistas se reúnam para discutir se existe ou não o livre-arbítrio no ser humano: basta isto para termos a noção da cultura do absurdo intelectual em que vivemos. Bem faz o Passos Coelho em cortar as prebendas a esses sibaritas.

Não é só a validade da experiência humana que é negada: é também a realidade exterior que é tacitamente negada por aquilo a que hoje se chama “ciência”, e que se aproxima cada vez mais do imperativo orwelliano.

Quarta-feira, 24 Dezembro 2014

A falácia ad Verecundiam e a burrice do Rolando Almeida

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 9:44 am
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burro com oculos 300 web“Um dos erros mais elementares consiste em pensar que uma pessoa ou é religiosa e por isso espiritual ou não é religiosa e por isso pouco ou nada espiritual. Na verdade uma pessoa pode ser religiosa e muito pouco espiritual (mesmo pensando que é profundamente espiritual) e pode ser não religiosa e profundamente espiritual. Isto porque a dimensão espiritual não é uma propriedade exclusiva das religiões nem das crenças religiosas.

Edward O. Wilson é talvez o biólogo vivo mais respeitado no mundo e professor emérito da Universidade de Harvard, com um currículo de mais de 100 prestigiados prémios.”

Ciência, espiritualidade e humanidades, por Rolando Almeida

1/ o Rolando Almeida fala em “espiritual” sem que se saiba o que se pretende dizer com “espiritual”. Por exemplo: uma pessoa que gosta de música clássica ¿é, só por esse facto, “espiritual”? ¿O que significa “espiritual”?

Espiritual vem do latim spiritus, que significa “sopro”. Em filosofia (vamos deixar a teologia de parte!), o espírito é aquilo que se opõe à natureza e à matéria; é um princípio imaterial que é considerado primordial na escala da essência e do conhecimento.
Segundo Hegel, o espírito é o princípio racional que anima a História; e o Espírito Absoluto — segundo Hegel — é o espírito que alcançou a sua verdade ou a sua realização absoluta através da mediação da arte, da religião e da filosofia. Portanto, até Hegel, que defende um monismo, alia necessariamente a religião ao espírito.

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Terça-feira, 23 Dezembro 2014

Stephen Hawking e a morte da filosofia

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 11:31 am
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“Hawking defende que a filosofia morreu pois as grandes questões são respondidas pelas ciências da natureza, nomeadamente a física. Mas parece existir um grande problema na afirmação de Hawking. Como é que a física pode mostrar cientificamente que a filosofia morreu? Como é que Hawking consegue responder a essa grande questão sobre a morte da filosofia sem, ao mesmo tempo, filosofar? Que pensar disto?”

A filosofia morreu

Stephen Hawking parte de um princípio (um postulado; ou um axioma) segundo o qual “as pessoas só vivem neste mundo uma vez”. Não é possível fazer prova científica (no sentido do método das ciência da natureza) da verdade desse argumento, mais quando sabemos que a primeira célula viva que apareceu no universo ainda existe hoje — ou seja, essa célula primordial não morreu. Mas partir desse princípio também é filosofar — assim como um matemático parte sempre de um postulado para construir uma teoria através do formalismo matemático; e, neste sentido, também o matemático é um filósofo.

Stephen Hawking entende a filosofia no sentido do Positivismo, ou do neo-empirismo, em que filosofia era entendida como produto da “ilusão da linguagem”. Hoje ainda existem muitos pobres espíritos que pensam assim, apesar de demonstrações lógicas entretanto feitas que refutam o simplismo dessa forma de conceber a filosofia e o pensamento humano.

Stephen Hawking ficará para a História como o estereótipo do “cientista idiota”: através de um pensamento circular, recusa o carácter tautológico da ciência, por um lado, e por outro  lado confunde “ciência” com “técnica”.

Domingo, 14 Dezembro 2014

O progresso, o Aquecimento Global e a pseudo-ciência do David Marçal

 

O Desidério Murcho deveria organizar umas aulas de filosofia (principalmente de lógica) para os editores do blogue Rerum Natura.

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Terça-feira, 2 Dezembro 2014

A pseudo-ciência do David Marçal

 

O David Marçal, que escreve no blogue rerum natura,  escreveu um livro sobre “pseudo-ciência”; mas o livro aplica-se a ele próprio.

No domínio do chamado “aquecimento global” — que agora mudou, em certos círculos, para “alterações climáticas” — tudo o que não corresponda a uma norma idealizada por uma certa comunidade “científica” comandada e controlada pela plutocracia internacional, é sinal de “culpa do ser humano”.

O David Marçal deu uma entrevista à Antena 1 1em que falou do Aquecimento Global Antropogénico (Aquecimento Global por culpa do ser humano). Para poupar ao leitor a audição da entrevista toda, oiça aqui em baixo a parte que interessa ao caso.

 

lund universityDesde logo, David Marçal é bioquímico; não tem qualquer autoridade, nem de direito, nem de facto, para falar em Aquecimento Global, e muito menos antropogénico. Estamos já no domínio do dogma, e não da ciência.

David Marçal acusa os cépticos do Aquecimento Global de serem pagos para serem cépticos. E quem paga a David Marçal para defender um dogma em nome da ciência? Pois bem: quem lhe paga, directa ou indirectamente, são os poderosos do mundo, os plutocratas como por exemplo Rockefeller, os Rothschild, Bill Gates ou George Soros, que são os que promovem, nos me®dia, a ideologia do Aquecimento Global Antropogénico no sentido da limitação da presença de seres humanos na Terra através do aborto e da eutanásia mais ou menos compulsivos.

David Marçal é um mercenário cientificista: faz política em nome da ciência. E a Rádio Renascença dá-lhe cobertura política! Não se deixe enganar, caro leitor: mantenha um espírito crítico que é próprio da verdadeira ciência!

Nota
1. Por lapso, tinha referido a Rádio Renascença em vez da Antena 1.

Domingo, 30 Novembro 2014

A teoria científica como “explicação” da realidade

Filed under: Ciência — O. Braga @ 7:21 pm
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O Carlos Fiolhais explica aqui, embora de forma enviesada, por que razão Galileu foi condenado pela Igreja Católica; mas não explica por que razão Copérnico, que defendeu a mesma tese de Galileu antes deste, não foi condenado pela Igreja Católica. Ou seja, a teoria de Carlos Fiolhais é deficitária e tem que ser substituída por uma teoria melhor.

“Qualquer cientista propriamente dito reconhece hoje, e a partir da perspectiva actual segundo o conceito de paradigma de Thomas Kuhn, que a reacção do Papa às teses de Galileu foi absolutamente correcta. As teses de Copérnico receberam o imprimatur porque foram formuladas como hipóteses. Porém, Galileu não quis formular quaisquer hipóteses, mas afirmar verdades absolutas — e isto numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

A Igreja Católica, naquela época, defendeu a concepção científica mais moderna embora se tenha atido a concepções cosmológicas erradas.”

Afinal, ¿do que é que Carlos Fiolhais está a falar quando se refere ao bosão de Higgs? Está a falar de uma “teoria que explica alguma coisa”. ¿E o que é uma “teoria”?

1/ o fundamento de qualquer teoria é a Lógica que não existe da mesma forma na realidade quântica e na realidade macroscópica. Na realidade quântica, “a nossa lógica é uma batata”. O que significa, por inferência, que as teorias científicas acerca da realidade quântica são apenas “teorias da batata” (hipóteses mais ou menos verificáveis).

2/ a “lógica dedutiva”, que está subjacente à teoria científica, baseia-se por sua vez na teoria do silogismo de Aristóteles: é, ela própria uma teoria da validade das inferências lógicas ou da relação de sequência lógica. Se as premissas de uma inferência válida forem verdadeiras, então segue-se que a conclusão também deverá ser verdadeira.

3/ na ciência trabalha-se com teorias, ou seja, sistemas dedutivos que tentam “explicar” um problema científico. Mas não se trata de “explicar”: trata-se de “descrever” — porque se uma teoria científica se baseia na “lógica dedutiva” que é ela própria uma teoria, a ciência prossegue em circulus in demonstrando: a teoria científica baseia-se sempre em uma teoria prévia e axiomática (a Lógica), e portanto, o conceito de “teoria científica” é tautológico. Uma tautologia não explica nada: apenas pode descrever alguma coisa.

4/ é melhor ter uma teoria, apesar da tautologia, do que não ter nenhuma — porque uma teoria revela a preocupação com a verdade que nos distingue dos animais irracionais.

5/ não existe uma ciência de observação pura: todas as ciências estão imbuídas de teorias. O leitor retire desta proposição a conclusão que quiser.

Quinta-feira, 27 Novembro 2014

A pseudo-ciência da investigadora Ana Cristina Santos da Universidade de Coimbra

Filed under: Ciência,cultura — O. Braga @ 11:13 am
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Há que ver a diferença entre ciência, por um lado, e a moda, por outro lado. Quando essa diferença não é feita, não estamos a falar de ciência, mas de pseudo-ciência. A ciência não anda ao sabor da moda, embora esteja condicionada por paradigmas. Uma das funções da filosofia é justamente a de vigiar a ciência, fazer-lhe a crítica, no intuito de impedir que a ciência se transforme em pseudo-ciência.

Neste texto publicado no jornal Púbico, uma tal Ana Cristina Santos, que dizem ser socióloga investigadora da Universidade de Coimbra, e resumindo, fala-nos basicamente do conceito actual de “autonomia” que consiste na adulteração actual e ignara do princípio de autonomia de Kant. Mas, antes de mais, vamos falar um pouco sobre a sociologia e/ou as chamadas “ciências sociais e humanas”.


A sociologia da Ana Cristina Santos baseia-se naquilo a que Karl Popper chamou de “naturalismo incorrecto das ciências sociais” ou “cientificismo metodológico”, que consiste no mito segundo o qual se exige que as ciências sociais recorram ao método das ciências da natureza para aprenderem o que é o método científico. Este naturalismo incorrecto estabelece algumas exigências; por exemplo: partir de observações ou/e medições como levantamentos estatísticos; prossegue, depois, indutivamente para generalizações e elaboração de teorias, tentando assim uma aproximação ao ideal da objectividade científica própria das ciências da natureza.

Ignora-se que é muito mais difícil — se é que é possível! — conseguir uma idêntica objectividade nas ciências sociais e nas ciências da natureza, uma vez que a objectividade implica despojamento de valores, e a socióloga só em casos muito raros consegue libertar-se das valorações da sua própria camada social, por forma a poder avançar no sentido de uma independência valorativa da objectividade.

Portanto, sob a capa de uma objectividade científica que não existe, a socióloga Ana Cristina Santos tece considerações que pertencem menos à ciência do que à pseudo-ciência. O que ela faz é juízos pessoais de valor que não fazem parte da ciência mas antes pertencem à ética e/ou à metafísica.


Voltamos agora ao princípio de autonomia de Kant e ao conceito actual de “autonomia”.

Pergunta: ¿uma mulher tem o direito de não querer ter filhos? Claro que tem! Sempre teve. Por exemplo, na Idade Média, muitas mulheres escolhiam a vida religiosa que impedia a procriação. Mas não só: muitas mulheres das classes mais altas, ao longo da História, optavam pelo celibato aparente.

feminismo actual webMas o direito de uma mulher ou homem a não ter filhos é um direito negativo. Um direito positivo está directamente relacionado com um dever e/ou obrigação moral e mesmo legal (em alguns casos); um direito negativo está relacionado com a não-interferência de uns em relação aos direitos de outros.

Por isso, quando uma mulher decide não ter filhos, está a exigir da sociedade (dos outros) o direito a uma não-interferência (da sociedade) em relação à sua decisão; recusando um dever (o de ter filhos que contribui para a continuidade da sociedade), ela exige que esse seu direito negativo seja respeitado pela sociedade.

Um direito negativo pode ser compensado com um direito positivo: por exemplo, uma mulher pode escolher não ter filhos mas dedicar parte da sua vida a educar as crianças dos outros: assim, compensa o direito negativo com um direito positivo. Do ponto de vista cultural, social e ético, o importante é que os direitos negativos sejam equilibrados com direitos positivos.

A autonomia da pessoa  (seja mulher ou homem) pressupõe a liberdade no sentido negativo (o tal direito negativo do cidadão), por um lado, e por outro lado pressupõe também a liberdade no sentido positivo (o tal direito positivo do cidadão enquanto legislador). Porém, a narrativa do pasquim Púbico e da socióloga Ana Cristina Santos só concebe a liberdade no sentido negativo e o direito negativo. Ou seja, o conceito de “autonomia” é propositadamente adulterado no sentido de valorizar uma cultura sociopata. Portanto, o problema colocado pela socióloga Ana Cristina Santos é ético, e não propriamente científico.


“Apesar de há décadas ter sido conseguida, através da medicina, a separação entre sexualidade e reprodução, a verdade é que essa separação, em termos culturais, não se deu na sua totalidade”

(…)

“A primeira é a desnaturalização do sexo (que não tem de ser reprodutivo) e a segunda é a desnaturalização, também, dos papéis de género atribuídos às mulheres.”

Ana Cristina Santos.

O conceito de “desnaturalização do sexo” é contraditório nos seus próprios termos. É delírio interpretativo. Não se pode desnaturalizar uma coisa que pertence à natureza; e mesmo as intervenções artificiais do Homem, são artificiais apenas aparentemente, porque mesmo as intervenções humanas na natureza são regidas por leis naturais. O Homem não pode fugir às leis da natureza — nem mesmo quando envia uma sonda a Marte!

A socióloga Ana Cristina Santos incorre em uma série de falácias: por exemplo, a ideia segundo a qual “através da medicina”, se consegue “a separação entre sexualidade e reprodução”. Seria como se disséssemos que “a medicina erradica e cura uma gripe”, quando na verdade a medicina apenas trata uma gripe, e esta pode ressurgir mais tarde. Mesmo a varíola, que já foi “erradicada” na maior parte do mundo, pode ressurgir a qualquer momento.

A medicina não cura; a medicina trata.

Em boa verdade, a separação de facto entre a sexualidade e a reprodução é uma impossibilidade objectiva, e só uma pessoa em delírio pode conceber essa ideia. Essa separação é cultural, e não é biológica nem “natural”. Não é legítimo que a socióloga Ana Cristina Santos invoque a natureza para justificar um fenómeno cultural: ela incorre simultaneamente em duas falácias lógicas: a falácia do apelo à natureza, por um lado, e a falácia naturalista, por outro lado.

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