perspectivas

Domingo, 18 Janeiro 2015

A ciência e o sentido da vida

Filed under: ética,Ciência,filosofia — O. Braga @ 5:54 pm
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Quando a ciência — os cientistas — se metem na filosofia, e principalmente na metafísica e na ética, normalmente dá merda: julgam que estão a filosofar quando apenas “opinam”. Confundem filosofia com opinião.

Ter construído um formalismo qualquer não significa tê-lo interpretado; ter tornado eficaz uma ciência não chega para lhe esgotar o conteúdo. Mesmo nas suas formas mais arcaicas, a ciência mudou continuamente o panorama da filosofia, é verdade; mas sem nunca conseguir suplantá-la! A força considerável  da ciência não chega para destruir a filosofia. A filosofia conservará sempre o seu próprio domínio e o seu próprio modo de ser e proceder.

Quando tropeça em um problema de interpretação de uma teoria, o cientista é tentado a resolvê-lo sem rigor, segundo a sua filosofia “espontânea”, ou seja, à  luz unicamente das suas concepções pessoais — um realismo ingénuo ou um positivismo anacrónico. É difícil ao cientista eliminar as aporias que provêm de definições recebidas sem crítica ou de argumentos empilhados de maneira arbitrária.


O Diogo Queiroz de Andrade cita aqui a “explicação” que um apologeta do cientismo — o apresentador da série de televisão “Cosmos” Neil deGrasse Tyson — dá a uma criança acerca do sentido da vida. Diz ele:

“Muitas vezes as pessoas presumem que o sentido da vida é algo que as pessoas podem procurar e encontrar, sem considerar a possibilidade de que o sentido da vida é algo que se cria – para nós e para os outros.”

“Por isso, quando penso no sentido da vida, pergunto-me: aprendi alguma coisa hoje que não soubesse ontem? Isso leva-me um bocadinho mais perto de conhecer os segredos do universo, por mais longe que eles estejam.”

Nesta perspectiva, cada ser humano que se dedique com todo o empenho a uma tarefa leva, de facto, uma vida que faz sentido. Todos aqueles que tentam fazer o melhor da sua vida — por exemplo, “aprender alguma coisa que não soubesse ontem, os segredos do universo” — têm um objectivo à  sua frente e, por isso, um sentido para a sua vida.

No entanto, o que é notório nesta argumentação é a norma subjectiva que é aplicada pelo Diogo Queiroz de Andrade e pelo pseudo-cientista comentador de televisão. De acordo com esta perspectiva, só a própria pessoa pode saber se a sua vida tem ou não sentido.

Como seria a resposta ao “sentido de vida” se considerássemos a vida de Hitler?

Ele tinha, com certeza, a impressão subjectiva de que a eliminação de milhões de seres humanos lhe oferecia uma vida com sentido. O mesmo se poderia dizer de Estaline que criou os Gulag e dormia a sesta profundamente satisfeito no seu sofá no Kremlin.

A impressão subjectiva de levar uma vida com sentido não chega para garantir que essa impressão esteja correcta.

Pelo contrário, tem que se admitir que também devem ser considerados aspectos que transcendem o sujeito, portanto, aspectos que vão para além dele. Por esta razão, deve colocar-se a questão sobre o sentido da vida humana enquanto tal. Mas este é outro assunto com o qual não vale a pena perder tempo com o Diogo Queiroz de Andrade e com o Neil deGrasse Tyson.

Sexta-feira, 9 Janeiro 2015

O Carlos Fiolhais subscreve qualquer burrice em nome da ciência

 

Carlos Fiolhais  faz aqui uma crítica a Olavo de Carvalho.

Contudo, com o frenesim de substanciar a sua crítica, subscreve a tese de um qualquer estudante de Física — quando o Carlos Fiolhais  aceita a “explicação” do tal estudante em relação ao conceito de “curvatura do espaço” que, segundo o inteli-jumento com alvará de inteligência, atribui aos teoremas da geometria pura.

Os vários sistemas da geometria (euclidiana, Lobachevsky e Riemann) estão, em si mesmos, isentos de conteúdo empírico (vou repetir, para que o Carlos Fiolhais  entenda bem: isentos de conteúdo empírico!) — só quando se conjugam com certos princípios da mecânica é que surgem proposições empiricamente significativas. Ou seja, é necessário especificar como é que os termos como “ponto”, “linha” e “ângulo” se devem medir antes que os teoremas geométricos se possam aplicar à  experiência.

A geometria pura, é arte, e não é ciência! 

O conceito de “curvatura do espaço” explica-se mediante o conceito de “massa” — e não com os teoremas geométricos de Lobachevsky e Riemann tal como o querido aluno do Carlos Fiolhais  pretendeu dizer. Ou seja, o Carlos Fiolhais subscreveu uma burrice.

É certo que Olavo de Carvalho cometeu um erro — está errado. Afinal ele é um ser humano. Só os inteli-jumentos como o Carlos Fiolhais  não cometem erros.

Sexta-feira, 2 Janeiro 2015

A pseudo-ciência que condena a pseudo-ciência

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 10:01 pm
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É muito interessante este verbete no blogue Blasfémias, e aconselho veementemente uma visita.

O referido verbete coloca a nu a falácia cientificista da Ideologia de Género — pena é que os vídeos estejam sub-titulados em inglês, porque a maioria da população portuguesa não lê em inglês; e aposto quanto quiserem que aqueles vídeos jamais serão passados em qualquer canal de televisão português.

Vivemos em um tempo muito complicado, em que pseudo-cientistas politicamente correctos — como por exemplo os que escrevem no blogue Rerum Natura — se dedicam a denunciar a pseudo-ciência. Vemos, por exemplo, esta notícia no Rerum Natura segundo a qual  se realizará um encontro onde “criadores, cientistas, ensaístas” abordarão o problema do livre-arbítrio. Escreve o Carlos Fiolhais :

“Estamos habituados a pensar que somos livres para decidir e escolher os nossos actos. Não passará esta certeza de uma ilusão? Experiências na área das neuro-ciências colocam dúvidas sobre a existência do livre-arbítrio, embora não exista consenso dos cientistas e dos filósofos quanto à interpretação dessas mesmas experiências. A discussão sobre este conceito é, aliás, muito antiga. O mais tardar desde Santo Agostinho que a existência do livre-arbítrio tem sido uma questão central na História da Filosofia e da Teologia e, mais recentemente, na História da Ciência. Ao longo do processo histórico, a relação entre livre-arbítrio e responsabilidade tem passado pela discussão sobre a compatibilidade do determinismo e do indeterminismo com o livre-arbítrio.”

Se o Homem não tivesse livre-arbítrio não seria possível a ciência — ver: pesadelo do determinismo físico. Já uma vez aconselhei o Carlos Fiolhais a ter lições de lógica do Desidério Murcho.

Portanto, é um absurdo que cientistas se reúnam para discutir se existe ou não o livre-arbítrio no ser humano: basta isto para termos a noção da cultura do absurdo intelectual em que vivemos. Bem faz o Passos Coelho em cortar as prebendas a esses sibaritas.

Não é só a validade da experiência humana que é negada: é também a realidade exterior que é tacitamente negada por aquilo a que hoje se chama “ciência”, e que se aproxima cada vez mais do imperativo orwelliano.

Quarta-feira, 24 Dezembro 2014

A falácia ad Verecundiam e a burrice do Rolando Almeida

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 9:44 am
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burro com oculos 300 web“Um dos erros mais elementares consiste em pensar que uma pessoa ou é religiosa e por isso espiritual ou não é religiosa e por isso pouco ou nada espiritual. Na verdade uma pessoa pode ser religiosa e muito pouco espiritual (mesmo pensando que é profundamente espiritual) e pode ser não religiosa e profundamente espiritual. Isto porque a dimensão espiritual não é uma propriedade exclusiva das religiões nem das crenças religiosas.

Edward O. Wilson é talvez o biólogo vivo mais respeitado no mundo e professor emérito da Universidade de Harvard, com um currículo de mais de 100 prestigiados prémios.”

Ciência, espiritualidade e humanidades, por Rolando Almeida

1/ o Rolando Almeida fala em “espiritual” sem que se saiba o que se pretende dizer com “espiritual”. Por exemplo: uma pessoa que gosta de música clássica ¿é, só por esse facto, “espiritual”? ¿O que significa “espiritual”?

Espiritual vem do latim spiritus, que significa “sopro”. Em filosofia (vamos deixar a teologia de parte!), o espírito é aquilo que se opõe à natureza e à matéria; é um princípio imaterial que é considerado primordial na escala da essência e do conhecimento.
Segundo Hegel, o espírito é o princípio racional que anima a História; e o Espírito Absoluto — segundo Hegel — é o espírito que alcançou a sua verdade ou a sua realização absoluta através da mediação da arte, da religião e da filosofia. Portanto, até Hegel, que defende um monismo, alia necessariamente a religião ao espírito.

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Terça-feira, 23 Dezembro 2014

Stephen Hawking e a morte da filosofia

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 11:31 am
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“Hawking defende que a filosofia morreu pois as grandes questões são respondidas pelas ciências da natureza, nomeadamente a física. Mas parece existir um grande problema na afirmação de Hawking. Como é que a física pode mostrar cientificamente que a filosofia morreu? Como é que Hawking consegue responder a essa grande questão sobre a morte da filosofia sem, ao mesmo tempo, filosofar? Que pensar disto?”

A filosofia morreu

Stephen Hawking parte de um princípio (um postulado; ou um axioma) segundo o qual “as pessoas só vivem neste mundo uma vez”. Não é possível fazer prova científica (no sentido do método das ciência da natureza) da verdade desse argumento, mais quando sabemos que a primeira célula viva que apareceu no universo ainda existe hoje — ou seja, essa célula primordial não morreu. Mas partir desse princípio também é filosofar — assim como um matemático parte sempre de um postulado para construir uma teoria através do formalismo matemático; e, neste sentido, também o matemático é um filósofo.

Stephen Hawking entende a filosofia no sentido do Positivismo, ou do neo-empirismo, em que filosofia era entendida como produto da “ilusão da linguagem”. Hoje ainda existem muitos pobres espíritos que pensam assim, apesar de demonstrações lógicas entretanto feitas que refutam o simplismo dessa forma de conceber a filosofia e o pensamento humano.

Stephen Hawking ficará para a História como o estereótipo do “cientista idiota”: através de um pensamento circular, recusa o carácter tautológico da ciência, por um lado, e por outro  lado confunde “ciência” com “técnica”.

Domingo, 14 Dezembro 2014

O progresso, o Aquecimento Global e a pseudo-ciência do David Marçal

 

O Desidério Murcho deveria organizar umas aulas de filosofia (principalmente de lógica) para os editores do blogue Rerum Natura.

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Terça-feira, 2 Dezembro 2014

A pseudo-ciência do David Marçal

 

O David Marçal, que escreve no blogue rerum natura,  escreveu um livro sobre “pseudo-ciência”; mas o livro aplica-se a ele próprio.

No domínio do chamado “aquecimento global” — que agora mudou, em certos círculos, para “alterações climáticas” — tudo o que não corresponda a uma norma idealizada por uma certa comunidade “científica” comandada e controlada pela plutocracia internacional, é sinal de “culpa do ser humano”.

O David Marçal deu uma entrevista à Antena 1 1em que falou do Aquecimento Global Antropogénico (Aquecimento Global por culpa do ser humano). Para poupar ao leitor a audição da entrevista toda, oiça aqui em baixo a parte que interessa ao caso.

 

lund universityDesde logo, David Marçal é bioquímico; não tem qualquer autoridade, nem de direito, nem de facto, para falar em Aquecimento Global, e muito menos antropogénico. Estamos já no domínio do dogma, e não da ciência.

David Marçal acusa os cépticos do Aquecimento Global de serem pagos para serem cépticos. E quem paga a David Marçal para defender um dogma em nome da ciência? Pois bem: quem lhe paga, directa ou indirectamente, são os poderosos do mundo, os plutocratas como por exemplo Rockefeller, os Rothschild, Bill Gates ou George Soros, que são os que promovem, nos me®dia, a ideologia do Aquecimento Global Antropogénico no sentido da limitação da presença de seres humanos na Terra através do aborto e da eutanásia mais ou menos compulsivos.

David Marçal é um mercenário cientificista: faz política em nome da ciência. E a Rádio Renascença dá-lhe cobertura política! Não se deixe enganar, caro leitor: mantenha um espírito crítico que é próprio da verdadeira ciência!

Nota
1. Por lapso, tinha referido a Rádio Renascença em vez da Antena 1.

Domingo, 30 Novembro 2014

A teoria científica como “explicação” da realidade

Filed under: Ciência — O. Braga @ 7:21 pm
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O Carlos Fiolhais explica aqui, embora de forma enviesada, por que razão Galileu foi condenado pela Igreja Católica; mas não explica por que razão Copérnico, que defendeu a mesma tese de Galileu antes deste, não foi condenado pela Igreja Católica. Ou seja, a teoria de Carlos Fiolhais é deficitária e tem que ser substituída por uma teoria melhor.

“Qualquer cientista propriamente dito reconhece hoje, e a partir da perspectiva actual segundo o conceito de paradigma de Thomas Kuhn, que a reacção do Papa às teses de Galileu foi absolutamente correcta. As teses de Copérnico receberam o imprimatur porque foram formuladas como hipóteses. Porém, Galileu não quis formular quaisquer hipóteses, mas afirmar verdades absolutas — e isto numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

A Igreja Católica, naquela época, defendeu a concepção científica mais moderna embora se tenha atido a concepções cosmológicas erradas.”

Afinal, ¿do que é que Carlos Fiolhais está a falar quando se refere ao bosão de Higgs? Está a falar de uma “teoria que explica alguma coisa”. ¿E o que é uma “teoria”?

1/ o fundamento de qualquer teoria é a Lógica que não existe da mesma forma na realidade quântica e na realidade macroscópica. Na realidade quântica, “a nossa lógica é uma batata”. O que significa, por inferência, que as teorias científicas acerca da realidade quântica são apenas “teorias da batata” (hipóteses mais ou menos verificáveis).

2/ a “lógica dedutiva”, que está subjacente à teoria científica, baseia-se por sua vez na teoria do silogismo de Aristóteles: é, ela própria uma teoria da validade das inferências lógicas ou da relação de sequência lógica. Se as premissas de uma inferência válida forem verdadeiras, então segue-se que a conclusão também deverá ser verdadeira.

3/ na ciência trabalha-se com teorias, ou seja, sistemas dedutivos que tentam “explicar” um problema científico. Mas não se trata de “explicar”: trata-se de “descrever” — porque se uma teoria científica se baseia na “lógica dedutiva” que é ela própria uma teoria, a ciência prossegue em circulus in demonstrando: a teoria científica baseia-se sempre em uma teoria prévia e axiomática (a Lógica), e portanto, o conceito de “teoria científica” é tautológico. Uma tautologia não explica nada: apenas pode descrever alguma coisa.

4/ é melhor ter uma teoria, apesar da tautologia, do que não ter nenhuma — porque uma teoria revela a preocupação com a verdade que nos distingue dos animais irracionais.

5/ não existe uma ciência de observação pura: todas as ciências estão imbuídas de teorias. O leitor retire desta proposição a conclusão que quiser.

Quinta-feira, 27 Novembro 2014

A pseudo-ciência da investigadora Ana Cristina Santos da Universidade de Coimbra

Filed under: Ciência,cultura — O. Braga @ 11:13 am
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Há que ver a diferença entre ciência, por um lado, e a moda, por outro lado. Quando essa diferença não é feita, não estamos a falar de ciência, mas de pseudo-ciência. A ciência não anda ao sabor da moda, embora esteja condicionada por paradigmas. Uma das funções da filosofia é justamente a de vigiar a ciência, fazer-lhe a crítica, no intuito de impedir que a ciência se transforme em pseudo-ciência.

Neste texto publicado no jornal Púbico, uma tal Ana Cristina Santos, que dizem ser socióloga investigadora da Universidade de Coimbra, e resumindo, fala-nos basicamente do conceito actual de “autonomia” que consiste na adulteração actual e ignara do princípio de autonomia de Kant. Mas, antes de mais, vamos falar um pouco sobre a sociologia e/ou as chamadas “ciências sociais e humanas”.


A sociologia da Ana Cristina Santos baseia-se naquilo a que Karl Popper chamou de “naturalismo incorrecto das ciências sociais” ou “cientificismo metodológico”, que consiste no mito segundo o qual se exige que as ciências sociais recorram ao método das ciências da natureza para aprenderem o que é o método científico. Este naturalismo incorrecto estabelece algumas exigências; por exemplo: partir de observações ou/e medições como levantamentos estatísticos; prossegue, depois, indutivamente para generalizações e elaboração de teorias, tentando assim uma aproximação ao ideal da objectividade científica própria das ciências da natureza.

Ignora-se que é muito mais difícil — se é que é possível! — conseguir uma idêntica objectividade nas ciências sociais e nas ciências da natureza, uma vez que a objectividade implica despojamento de valores, e a socióloga só em casos muito raros consegue libertar-se das valorações da sua própria camada social, por forma a poder avançar no sentido de uma independência valorativa da objectividade.

Portanto, sob a capa de uma objectividade científica que não existe, a socióloga Ana Cristina Santos tece considerações que pertencem menos à ciência do que à pseudo-ciência. O que ela faz é juízos pessoais de valor que não fazem parte da ciência mas antes pertencem à ética e/ou à metafísica.


Voltamos agora ao princípio de autonomia de Kant e ao conceito actual de “autonomia”.

Pergunta: ¿uma mulher tem o direito de não querer ter filhos? Claro que tem! Sempre teve. Por exemplo, na Idade Média, muitas mulheres escolhiam a vida religiosa que impedia a procriação. Mas não só: muitas mulheres das classes mais altas, ao longo da História, optavam pelo celibato aparente.

feminismo actual webMas o direito de uma mulher ou homem a não ter filhos é um direito negativo. Um direito positivo está directamente relacionado com um dever e/ou obrigação moral e mesmo legal (em alguns casos); um direito negativo está relacionado com a não-interferência de uns em relação aos direitos de outros.

Por isso, quando uma mulher decide não ter filhos, está a exigir da sociedade (dos outros) o direito a uma não-interferência (da sociedade) em relação à sua decisão; recusando um dever (o de ter filhos que contribui para a continuidade da sociedade), ela exige que esse seu direito negativo seja respeitado pela sociedade.

Um direito negativo pode ser compensado com um direito positivo: por exemplo, uma mulher pode escolher não ter filhos mas dedicar parte da sua vida a educar as crianças dos outros: assim, compensa o direito negativo com um direito positivo. Do ponto de vista cultural, social e ético, o importante é que os direitos negativos sejam equilibrados com direitos positivos.

A autonomia da pessoa  (seja mulher ou homem) pressupõe a liberdade no sentido negativo (o tal direito negativo do cidadão), por um lado, e por outro lado pressupõe também a liberdade no sentido positivo (o tal direito positivo do cidadão enquanto legislador). Porém, a narrativa do pasquim Púbico e da socióloga Ana Cristina Santos só concebe a liberdade no sentido negativo e o direito negativo. Ou seja, o conceito de “autonomia” é propositadamente adulterado no sentido de valorizar uma cultura sociopata. Portanto, o problema colocado pela socióloga Ana Cristina Santos é ético, e não propriamente científico.


“Apesar de há décadas ter sido conseguida, através da medicina, a separação entre sexualidade e reprodução, a verdade é que essa separação, em termos culturais, não se deu na sua totalidade”

(…)

“A primeira é a desnaturalização do sexo (que não tem de ser reprodutivo) e a segunda é a desnaturalização, também, dos papéis de género atribuídos às mulheres.”

Ana Cristina Santos.

O conceito de “desnaturalização do sexo” é contraditório nos seus próprios termos. É delírio interpretativo. Não se pode desnaturalizar uma coisa que pertence à natureza; e mesmo as intervenções artificiais do Homem, são artificiais apenas aparentemente, porque mesmo as intervenções humanas na natureza são regidas por leis naturais. O Homem não pode fugir às leis da natureza — nem mesmo quando envia uma sonda a Marte!

A socióloga Ana Cristina Santos incorre em uma série de falácias: por exemplo, a ideia segundo a qual “através da medicina”, se consegue “a separação entre sexualidade e reprodução”. Seria como se disséssemos que “a medicina erradica e cura uma gripe”, quando na verdade a medicina apenas trata uma gripe, e esta pode ressurgir mais tarde. Mesmo a varíola, que já foi “erradicada” na maior parte do mundo, pode ressurgir a qualquer momento.

A medicina não cura; a medicina trata.

Em boa verdade, a separação de facto entre a sexualidade e a reprodução é uma impossibilidade objectiva, e só uma pessoa em delírio pode conceber essa ideia. Essa separação é cultural, e não é biológica nem “natural”. Não é legítimo que a socióloga Ana Cristina Santos invoque a natureza para justificar um fenómeno cultural: ela incorre simultaneamente em duas falácias lógicas: a falácia do apelo à natureza, por um lado, e a falácia naturalista, por outro lado.

Sexta-feira, 14 Novembro 2014

Uma correcção ao professor Rolando Almeida

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 1:44 pm
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O professor Rolando Almeida escreveu aqui que “não existem ciências exactas e outras não exactas”. Mas, em todo o texto, o professor Rolando Almeida não definiu “ciência”, o que seria o ponto de partida para a justificação da sua proposição supracitada. Por isso, vamos definir “ciência”.

Chamamos “ciência” ao conhecimento positivo (neopositivismo) — a “ciência experimental” — que se apoia em critérios precisos de verificação, e permitindo, por isso, uma objectividade dos resultados.

Poderíamos definir “ciência” de outra maneira, mas é esta definição real que é geralmente válida nas universidades e no meio científico.

Em função desta definição de ciência — que o professor Rolando Almeida não fez —, podemos distinguir três tipos de ciências:

  1. as ciências experimentais ou empíricas; são as chamadas “ciências da natureza”, que se referem a um dado objecto na experiência e validam-se através de controlos experimentais;
  2. as ciências formais; a matemática e a lógica, baseadas na dedução a partir de axiomas. Nas ciências formais, não há qualquer necessidade de verificação experimental, porque a matemática e a lógica não têm um objecto exterior à sua construção;
  3. as ciências humanas (história, sociologia, antropologia, psicologia, etc.) que são aquelas em relação às quais não se pode aplicar igual- e literalmente o método das ciências da natureza (ler Karl Popper). A ideia segundo a qual se pode aplicar literalmente o método das ciências da natureza às ciências humanas, é um mito cientificista.

É neste sentido — baseado no facto de não se poder aplicar igualmente e literalmente o método das ciências da natureza às ciências humanas — que se faz a distinção real entre aquilo a que se convencionou chamar de “ciências exactas” (pontos 1 e 2) e “ciências não exactas” (ponto 3).

Terça-feira, 4 Novembro 2014

O conceito metafísico de “evolução darwinista” é incompatível com a metafísica religiosa

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 11:22 am
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Quando analisamos argumentos, devemos, em primeiro lugar, estudar quanto possível a essência deles, e só depois devemos partir para a abordagem lógica que poderá eventualmente encontrar contradições nesses argumentos.

De qualquer modo, ao ser humano é impossível a absoluta não-contradição.

O cientista informático Larry Stockmeyer demonstrou que a verificação lógica de apenas 558 teoremas implica a necessidade de um computador do tamanho do universo. Se cada teorema for fraccionado em todas as suas partes lógicas possíveis, comparado com todas as conclusões lógicas, silogismos e sorites, estaremos em presença de fracções na ordem de 10^168 (1 seguido de 168 zeros) — mesmo um computador do tamanho do universo bloquearia ao tentar analisar o teorema número 559. Para verificar as possíveis contradições em apenas 100 proposições, podemos obter um número prolixo de fracções, na ordem de 10^30 (1 seguido de 30 zeros). Pedir a um ser humano que seja mais perfeito, no seu raciocínio, do que um computador do tamanho do universo, é defender a ideia de um super-homem.


O Domingos Faria começa por não definir “evolução darwinista”, porque o que lhe interessa é a redução à análise lógica da contradição entre “evolução darwinista” e as religiões universais (e não só os teísmos!) — por exemplo, as várias estirpes do Hinduísmo são incompatíveis com o conceito de evolução darwinista.

No seu sentido biológico, ‘evolução’ designa um processo pelo qual a vida emerge da matéria não-animada e se desenvolve depois por meios naturais. Foi esse o sentido que Darwin emprestou à palavra e foi retido pela comunidade científica” (Michael Behe).

Isto significa que o conceito de “evolução darwinista” pertence à metafísica, e não à ciência. Ou, se quisermos uma abordagem neo-kantiana:

“O criacionismo é um mito, assim como o darwinismo é um mito, porque é impossível explicar a mutação das formas”. — Eric Voegelin

Segundo o físico ateu Fred Hoyle, a probabilidade de que os tijolos da vida (os aminoácidos) se juntem na sequência correcta para formar uma proteína, é de 1 em 10^40 (1 seguido de 40 zeros). Note-se que os matemáticos consideram a hipótese de 10^50 (1 seguido de 50 zeros) como uma “impossibilidade matemática”. O físico Chandra Wickramasinghe escreveu o seguinte:

“As hipóteses de a vida ter aparecido por acaso e de forma aleatória são semelhantes às hipóteses de um ciclone soprar num qualquer cemitério de automóveis e construir-se assim um Boeing 747”.


Desde Galileu que a Igreja Católica “joga à defesa” (tentando evitar um erro que, de facto, não cometeu) em relação à ciência, e muitas vezes não se dá conta de que o conceito de “evolução darwinista” pertence à metafísica — como aconteceu recentemente com o “papa Francisco”.

Segundo o conceito actual de paradigma, de Thomas Kuhn, a reacção do Papa medieval às teses de Galileu foi absolutamente correcta. As teses de Copérnico receberam o imprimatur porque foram formuladas como hipóteses. Porém, Galileu não quis formular quaisquer hipóteses, mas afirmar verdades absolutas — e isto numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

A Igreja Católica, naquela época, defendeu a concepção científica mais moderna embora se tenha atido a concepções cosmológicas erradas.


Se tivermos em consideração devida a noção de “evolução darwinista”, o texto de Domingos Faria não faz sentido, porque especula sobre opiniões de gente que não tem em consideração exacta o princípio de que parte o darwinismo. Aliás, o conceito de “aleatoriedade do processo de evolução” está já, hoje, ferido de morte: a selecção natural pode explicar a sobrevivência de uma espécie adaptada, mas não consegue explicar por que razão essa espécie adaptada surgiu em primeiro lugar.

Quinta-feira, 30 Outubro 2014

¿Qual a diferença entre a pseudo-ciência que o David Marçal critica, e o cientismo que ele perfilha?

Filed under: Ciência — O. Braga @ 6:23 pm
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Praticamente nenhuma.

O cientismo é a atitude intelectual que se desenvolveu a partir da segunda metade do século XIX e que concede um valor absoluto ao progresso científico. O cientismo concede à ciência o monopólio do conhecimento verdadeiro e atribui-lhe a capacidade de resolver progressivamente todos os problemas que se apresentam à Humanidade. A noção de cientismo foi fundada por Augusto Comte, com o Positivismo.

A pseudo-ciência ignora o nexo causal dos fenómenos da realidade macroscópica que é produto da acção da Força Entrópica da Gravidade; o cientismo ignora ostensivamente o indeterminismo a-causal que é característico da realidade microscópica condicionado pela Força Quântica.

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