perspectivas

Terça-feira, 26 Agosto 2008

Giordano Bruno

Filed under: filosofia — O. Braga @ 10:50 am
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Não há nada que possa justificar a Inquisição católica; mas a Inquisição secularista, cientificista e ateísta do século 20 foi de uma virulência tal que transforma os inquisidores católicos medievais em meninos de coro.

Giordano Bruno

Giordano Bruno

Há já tempo que estou para escrever alguma coisa sobre Giordano Bruno; sempre que me deparo com um postal blogosférico clamando por justiça contra a ICAR a favor do mártir herético, lembro-me do caso de Galileu: a razão porque Galileu caiu na desgraça da ICAR prendeu-se com uma sua publicação na qual deliberadamente caricaturou a figura do Papa; tratou-se de uma questão pessoal. Afinal, o diferendo entre o “físico” e a ICAR resumiu-se a um diferendo pessoal e privado entre ele e o Papa Urbano VIII ― a ICAR já tinha inclusivamente aceite o heliocentrismo nove anos antes de Galileu o ter proclamado, através da teoria heliocêntrica da autoria do clérigo católico polaco Copérnico ― pasme-se! o heliocentrismo original é da lavra de um padre católico. Portanto, a estória de Galileu foi mal contada, ou pelo menos, enviesada. Coisa semelhante se passa com Giordano Bruno.

Giordano Bruno não foi morto por serviços prestados à ciência, assim como Galileu não foi perseguido por defender o heliocentrismo. Bruno foi morto por razões que se misturam entre a transgressão espiritual e teológica, e questões pessoais e privadas.

Giordano Bruno nasceu em 1548, em Nola, Itália. Em Portugal reinava então D. João III, e os portugueses tinham sido os primeiros europeus a chegar ao Japão cinco anos antes (1543). Em Espanha imperava Carlos V (casado com a Infanta D. Isabel de Portugal, irmã de D. João III) e em Inglaterra, o rei Henrique VIII ― da dinastia dos Tudor ― que fundou a Igreja anglicana para assim se poder divorciar de Ana Bolena, dedicava-se de alma inteira e coração ao deboche, à lascívia, à gula, e à decapitação das suas mulheres. Um ano antes do nascimento de Bruno (1547), uma bula papal autorizava a fundação da Inquisição portuguesa baseada no modelo espanhol. Em Itália, a Inquisição católica ― que existia de uma forma mitigada devido à influência do Renascimento italiano ― foi reforçada pelas invasões do Imperador católico Calos V de Espanha, que conquistou Milão e todo o norte de Itália, aliando-se ao Vaticano na imposição de uma política inquisitorial mais extremada. Foi neste contexto histórico que Giordano Bruno nasceu e foi educado.

Giordano Bruno teve uma educação católica e tornou-se um frade dominicano. A acumulação de divergências que levaram Bruno à fogueira tiveram um cunho teológico e filosófico, e não “científico” como pretendem fazer crer; tratou-se de um problema religioso entre o frade católico Giordano Bruno e a Igreja Católica ― uma “justitia inter pares”.

Giordano Bruno pôs sistematicamente em causa os princípios teológicos da ICAR, como por exemplo, o princípio da Trindade católica ― isto na Baixa Idade Média!. A posição de Bruno em relação à religião era a posição de Averróis embora sem o respeito que Averróis tinha pela religião. Bruno foi uma das inspirações de Nietzsche, através do seu naturalismo mágico e dionisíaco.

Giordano Bruno era o que podemos chamar um “casmurro”. Incompatibilizado com a ICAR, vai para o norte protestante da Europa onde foi acolhido, nomeadamente, pela Rainha Isabel I de Inglaterra (filha de Henrique VIII) ― naturalmente por razões políticas: o inimigo do meu inimigo, meu amigo é. Porém, rapidamente Bruno se incompatibiliza com o protestantismo também, que considera ainda pior do que o catolicismo porque “nega a liberdade e o valor das obras boas e introduz o cisma e a discórdia entre os povos”, porque Bruno vinha de uma Itália renascentista e deu com um a sociedade Calvinista muito menos dada ao deboche do renascimento italiano.
Seja qual fosse o sistema no poder, Bruno era do contra; ser contra tudo e todos fazia parte da sua natureza, independentemente de quem estivesse no poder. Temos que convir que uma pessoa assim não se dá mal só na Idade Média: o Arquipélago do Gulag secularista e ateísta encheu-se de gente como Giordano Bruno.

Para que se tenha uma ideia da casmurrice de Giordano Bruno , veja-se que ele esteve preso sete anos em Roma antes de ser queimado vivo; durante esses sete anos, foi pedido a Bruno que se retratasse em relação às suas ideias, e sete anos seguidos Bruno recusou a desdizer-se para salvar a sua vida. Onde quer que Bruno chegasse, arranjava discussões, polémica e problemas. Na Suíça protestante, Bruno foi preso por desafiar as leis de funcionamento da Universidade de Genebra; acabou sendo libertado mediante pedido de desculpas feito de joelhos perante os responsáveis da universidade. Em França, onde entrou na corte de Henrique III através da promessa de iniciar os cortesãos na arte luliana (1) secreta da “memória artificial”, Bruno acabou por “dar com os burros na água” quando a corte francesa desconfiou que a teoria de Bruno era uma charlatanice que lhe permitia viver com algum fausto. A verdade é que Bruno passou metade da sua vida a viver de expedientes considerados pouco honestos.

Não foi intenção deste postal abordar a filosofia de Giordano Bruno, mas apenas situar o homem no seu tempo e traçar um esboço do seu perfil psicológico. Não há dúvidas, porém, de que Bruno foi um homem de uma estatura intelectual notável para o seu tempo, e por isso, padeceu. Contudo, não nos podemos esquecer que actualmente existe muita gente nas quatro partidas do mundo que é perseguida por razões semelhantes às de Bruno, e nem por isso podemos agora assacar responsabilidades à Igreja Católica. O preconceito negativo e o dogmatismo ideológico não é uma característica exclusiva da ICAR medieval; a História fez prova de que o secularismo iluminista e ateísta pode ser (ainda) muitíssimo pior.

(1) relativa a Raimundo Lúlio, escritor e alquimista espanhol.

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