perspectivas

Quinta-feira, 14 Abril 2016

¿Você sabia? Eu não sabia!

 

“Sabia o leitor que as barrigas de aluguer vão hoje a votos no parlamento? Pois é, não sabia. Só sabemos e só discutimos aquilo que o BE e a ala jacobina do PS colocam na agenda dos noticiários.”

Ainda vamos a tempo

A democracia de Esquerda é assim: sub-informação e pseudo-informação.

Terça-feira, 15 Dezembro 2015

Mary Wagner foi presa outra vez

 

“People have often asked me if I could not simply stay outside the area I am forbidden to enter, and in that way, avoid arrest.”

“But this question forgets something: the children scheduled to be killed will have no one to stand up for them. We will stop being present to them and to their mothers out of obedience to an immorally imposed restriction by those entrusted with authority.”

(Mary Wagner)

Pro-life prisoner of conscience Mary Wagner arrested on Feast of Our Lady of Guadalupe

Já ouviram o papa-açorda Francisco referir-se ao nome de Mary Wagner? Jamais!

maryw-webMary Wagner foi presa pelo menos 6 vezes por entrar em clínicas de aborto e oferecer panfletos e flores às mães que pretendem abortar; e passou quatro anos na prisão por tentar dissuadir as mães a não abortar.

“As crianças condenadas à morte não têm ninguém que as defenda. Só desobedecendo a uma restrição imoral imposta pela autoridade podemos estar juntos das crianças e das mães”.

Esta frase de Mary Wagner segue a linha ideológica de S. Tomás de Aquino. Para S. Tomás de Aquino, a lei exprime a justiça na dimensão do espaço-tempo (no finito): se a lei não é justa, então nem sequer merece esse nome. Uma lei injusta não é lei. Perante uma lei injusta, não a cumprir não é desobedecer, mas simplesmente reconhecer que essa lei simplesmente não existe.

Mary Wagner é um daqueles seres humanos excepcionais que nascem de vez em quando. São pessoas raras. São pessoas que têm consciência de que têm uma missão a cumprir, e que o desígnio dessa missão as transcende.

Sexta-feira, 20 Novembro 2015

A Esquerda é mais inteligente do que a Direita

 

No discurso ético, político e jurídico, não devemos apresentar a nossa oposição a uma determinada ideia “útil” apresentando uma alternativa “útil”.

Ou, por outras palavras: não devemos apresentar uma alternativa utilitarista a uma ideia utilitarista — como se faz aqui. Não devemos apagar o fogo com gasolina. Vejamos este panfleto:

adohomo-utilitarista-web

Esta forma utilitarista de apresentar alternativas a ideias utilitaristas pode ser ilustrada da seguinte forma:

“Em Portugal não se justifica o aborto, porque existe uma distribuição quase gratuita de preservativos e de contraceptivos”.

A verdade é que o aborto não se justifica por si mesmo, independentemente da “distribuição quase gratuita de preservativos e de contraceptivos”.


Não podemos criar uma relação de nexo causal utilitarista entre o aborto, por um lado, e os preservativos e contraceptivos, por outro lado — até porque esse nexo não existe de facto. Estamos a falar de coisas diferentes; o aborto não é a mesma coisa que o onanismo sexual, por exemplo. E não podemos dizer que “o aborto não se justifica porque existe a possibilidade do onanismo sexual” — porque estaríamos a justificar a negação de uma acção utilitarista através de uma outra acção utilitarista.

A Direita que temos está embrutecida, porque se deixou vencer pelo utilitarismo, que é a expressão do positivismo na ética. Nem tudo o que é útil é bom; e quem não sabe ver a diferença entre aquilo que é útil, por um lado, e aquilo que é bom e/ou belo, por outro lado, é um utilitarista.

Pelo seu lado, a Esquerda é utilitarista quando lhe convém, porque tira partido da contradição endógena do utilitarismo entre uma proposição positiva (que diz que os homens devem ser considerados como indivíduos egoístas, calculadores e racionais, e que tudo deve ser pensado e elaborado a partir do seu ponto de vista), por um lado, e por outro lado, uma proposição normativa (que afirma que os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou do “maior número”).

Por exemplo, a Esquerda é utilitarista nas matérias de costumes, porque lhe interessa destruir a tradição e a cultura antropológica. Mas já não é utilitarista, por exemplo, em matéria de economia: a posição da Esquerda em relação à privatização da TAP, por exemplo, é uma posição não-utilitarista.

A oposição à adopção de crianças por pares de invertidos deve ser justificada em si mesma, e não recorrendo a paliativos utilitaristas alternativos.

A Direita deve ter valores que não se submetam ao “útil”.

Terça-feira, 17 Novembro 2015

Pílula da morte, grátis, na Holanda

Filed under: ética — O. Braga @ 8:19 am
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Na Holanda prepara-se a legalização de distribuição gratuita da pílula da morte para pessoas com 70 ou mais anos. Qualquer pessoa com 70 ou mais anos, mesmo que não esteja doente, poderá dirigir-se a uma farmácia e requisitar grátis e livremente a pílula da morte, e suicidar-se.

pilula-da-morte

Domingo, 15 Novembro 2015

O Anselmo Borges e os escândalos do Vaticano

 

O Anselmo Borges fala aqui nos escândalos do Vaticano que se relacionam — segundo as palavras dele — com a ganância do dinheiro e do Poder. Mas o que ele não se refere — porque é tabu e mesmo uma heresia católica contemporânea — é à máfia alfazema 1 .

anselmo-borgesPara o Anselmo Borges, parece que os escândalos no Vaticano estão circunscritos ao dinheiro — o que é uma característica geral dos hodiernos, em geral.

Que se façam orgias gay no Vaticano, para o Anselmo Borges é apenas a manifestação de uma “orientação sexual”: o que é escandaloso, para o Anselmo Borges, é que os clérigos católicos gay não se possam casar uns com os outros, quiçá em “casamentos” múltiplos.

Ao contrário do que o Anselmo Borges diz, a principal razão por que o Papa Bento XVI resignou foi devido à influência da máfia alfazema no Vaticano, como se pode verificar com os dois sínodos realizados pelo papa-açorda Francisco, e nos quais alguns prelados afectos à máfia alfazema defenderam o reconhecimento da Igreja Católica do “casamento” gay. Há mesmo hoje um “teólogo” católico que diz que S. Tomás de Aquino era a favor do “casamento” gay.

A estratégia do Anselmo Borges não é nova, nem é dele: concentrando o conceito de “escândalo” na ganância do dinheiro, liberta a máfia alfazema da noção de “escândalo” aos olhos do povo católico. Para o Anselmo Borges, a luxúria e a imoralidade é reduzida ao desfrute do dinheiro.


Monsenhor Battista Ricca, braço-direito do “papa Francisco”

ricca-pope-francis[4]

Nota
1. lóbi gay dentro do Vaticano

Sexta-feira, 13 Novembro 2015

O politicamente correcto vê violência sexual em tudo o que mexe

Filed under: ética,Justiça,politicamente correcto — O. Braga @ 7:36 pm

 

Vemos aqui um caso em Inglaterra em que uma mulher lésbica utilizou uma prótese de um pénis para convencer uma outra mulher — esta última, heterossexual ou mulher propriamente dita — a ir com ela para a cama, pensando que a lésbica era um homem. Há que realçar os seguintes factos:

1/ não há qualquer indício de ausência de consentimento por parte da mulher propriamente dita; portanto, não se tratou de uma violação sexual, ou de utilização de violência para acto sexual;

2/ a mulher propriamente dita aceitou (livremente) usar uma venda nos olhos durante os contactos sexuais que se repetiram em dez ocasiões diferentes no tempo.

3/ a lésbica apanhou oito anos de cadeia.

O artigo defende a ideia de que a pena aplicada foi exagerada. E tem razão. Este caso deveria ser equiparado ao de uma fraude sexual (Artº 167 do Código Penal) ou em analogia com o crime de bigamia (Artº 247 do Código Penal), com pena máxima, em ambos os casos, de 2 anos de cadeia.

Terça-feira, 10 Novembro 2015

Os crimes-de-ódio e a liberdade de expressão

Filed under: ética,Política,politicamente correcto — O. Braga @ 10:21 am
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Ursula-PresgraveEste texto traduz um dos maiores problemas da nossa sociedade actual: os chamados “crimes de ódio”. Uma galdéria inglesa que participa em “Reality Shows” (ver imagem de Ursula Presgrave) escreveu no FaceBook que “as crianças com Trissomia 21 deveriam ser abatidas”; foi levada a tribunal e condenada a 6 meses de prisão remíveis com 5 mil libras de multa.

O articulista, que é um libertário (provavelmente de direita), diz que a Justiça inglesa não tem nada a ver com aquilo que as pessoas dizem, alegadamente porque as pessoas são livres de dizer o que quiserem e “lhes der na real gana”, em nome da “liberdade de expressão”; e até invoca Stuart Mill para sustentar a “liberdade de expressão”.

O problema ético (com consequências jurídicas) é o seguinte: ¿há limites para a liberdade de expressão? ¿E havendo, quais são esses limites?

Hoje há uma grande confusão acerca do conceito de “crimes-de-ódio”, e a Esquerda é a responsável por essa confusão.

Por exemplo, se um padeiro cristão afirma que se recusa a fazer um bolo para um “casamento” gay, é acusado e julgado em tribunal por “crime-de-ódio” contra os homossexuais; mas se alguém disser que “os gays devem ser abatidos”, é igualmente acusado e julgado em tribunal por “crime-de-ódio”. Deixou de existir um critério racional seguro acerca do que é a “liberdade de expressão”, devido ao politicamente correcto e/ou marxismo cultural.

O senso-comum deixou de ter bom-senso.

Esta confusão propositada da Esquerda conduz à confusão dos libertários de Direita que, em função do radicalismo politicamente correcto que pretende controlar o pensamento do cidadão, tendem a tornar absoluto o conceito de “liberdade de expressão”. Uns dizem que o discurso deve ser censurado, e os outros dizem que não deve haver qualquer censura no discurso.

Desde logo existe o critério do “alarme social”.

Não é a mesma coisa que um “blogueiro” obscuro escreva que “os gays devem ser abatidos”, ou que alguém que apareça na televisão diga a mesma coisa. Quem aparece nos me®dia tem um alcance sócio-cultural muito maior.

Depois existe o critério do “atentado à integridade física da pessoa”.

Alguém que escreva, por exemplo, que “os gays devem ser abatidos”, revela uma intencionalidade objectiva de que se atente contra a integridade física dos homossexuais em geral, e enquanto pessoas.


Portanto, o limite absoluto da liberdade expressão é, em primeiro lugar, o discurso de atentado à integridade física da pessoa, e depois o alarme social que esse discurso pode causar. Estes critérios devem ser universais (aplicável à Esquerda e à Direita), criando um senso-comum baseado no bom-senso.

Depois temos as alegadas “injúrias”, as “difamações”, etc., que podem ser ou não, dependendo das decisões dos tribunais, e que fazem parte da liberdade de expressão. Mas atentar de forma verbal, pública e com alarme social contra a integridade física de uma pessoa (nascida ou nascitura) não pode deixar de ser crime.

Domingo, 1 Novembro 2015

A falácia naturalista de Epicuro

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 6:24 am
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« Epicuro, na Carta a Meneceu, defende que estar morto nunca é um mal para quem morre. Por isso, não nos devemos incomodar ou ter medo da nossa futura condição de estar morto. Epicuro justifica que estar morto não é um mal para quem morre argumentando que “todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte”. »

Será mau estar morto? Um argumento de Epicuro


Podemos comparar a tese de Epicuro com a tese de Peter Singer segundo a qual os seres humanos com deficiências graves não têm qualquer direito à vida porque, diz este, a situação real de um deficiente grave é “uma vida que não vale a pena”.

Tal como Peter Singer, Epicuro incorre em uma sofisma naturalista, visto não se poder tirar conclusões morais de um facto — por exemplo, o facto de os homens, em geral, terem barba não significa que todos devam deixar crescer a barba; não se retira (de forma automática e necessária) do facto de os homens terem barba uma obrigação de deixar crescer a barba.

Epicuro não pode dizer se “a morte é boa ou má para quem morre”, porque não pode tirar conclusões morais de um facto; e porque ele teria que pré-definir o “bom” e o “mau”. Ora, “bom” é uma proposição sintética; não podemos identificar o “bom” ou o “mau” com a sensação, com o prazer ou com o desejo: o conteúdo do conceito de “bondade” (ou “maldade”) é indefinível, inefável e intuitivo.


Ademais, Epicuro “aplaina” o subjectivo, ou seja, ignora o conceito de “auto-referencialidade”. Vejamos a seguinte frase:

“Houve um tempo em que eu não vivia, e chegará um tempo em que não viverei”.

Na tentativa de pensar a minha não-existência (por exemplo, a minha morte), tenho que inventar uma imagem de mim próprio como se fosse outra pessoa. Porém, é um facto que nunca poderei sair de mim próprio de modo a pensar-me a partir do exterior. Se me penso a partir do exterior, não me penso a mim; se me penso a partir do meu interior, então não posso pensar como seria não-existir.

Em suma: quando Epicuro afirma que “chegará um tempo em que estarei morto, e isso não será mau”, tenta pensar a sua não-existência — porém, o Eu não pode compreender-se a si próprio e (simultaneamente) para si próprio —, por um lado, e incorre em uma falácia naturalista, por outro lado.


Finalmente, a primeira premissa de Epicuro está errada. A premissa é a seguinte: “Não somos afectados por um evento ou estado de coisas antes de acontecer”.

Esta premissa é falsa. Por exemplo, se a NASA anunciar que um meteoro com 2 quilómetros de diâmetro terá uma probabilidade de embater na Terra dentro de 30 anos, esse evento provável, embora não ocorrido, vai afectar-nos a nível psico-somático. Mesmo que tentemos ignorar a morte eminente e imanente, ela não desaparece das nossas vidas (a não ser que sejamos loucos).

Terça-feira, 20 Outubro 2015

O determinismo dá muito jeito quando aplicado aos outros

Filed under: ética — O. Braga @ 10:50 am
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Até hoje ainda ninguém me conseguiu explicar como se pode acreditar no determinismo aplicado ao ser humano sem exista uma possibilidade de escolher acreditar no determinismo aplicado ao ser humano.

Domingo, 18 Outubro 2015

A confusão ontológica do Rolando Almeida entre um bebé e um touro

Filed under: ética — O. Braga @ 11:42 am
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Escreve o Rolando Almeida:

Assistimos hoje em dia a inúmeras discussões sobre a moralidade das touradas. Ocorre ocasionalmente o seguinte argumento:

“Os animais não humanos não têm quaisquer direitos morais, pois também não têm deveres. E só tem direitos quem tem deveres. Como os animais não têm deveres, logo, não têm direitos”

Podemos recorrer a um argumento válido, sólido e cogente para refutar este argumento:

(P1) Se só possuísse direitos morais quem tem deveres morais, então os bebés não teriam direitos, pois não têm quaisquer deveres.

(P2) Ora, os bebés possuem direitos, mas não têm deveres morais

(c) Logo, é falso que só possui direitos quem tem deveres.


Premissa 1: O genoma de um bebé é diferente do de um touro;
Premissa 2: um bebé é um ser humano adulto em potência, porque tem um genoma idêntico ao de um ser humano adulto;
Conclusão: Logo, é um sofisma atribuir a um touro os direitos idênticos aos de um bebé, ou fazer uma comparação entre direitos de um touro e os de um bebé.

Explicando o raciocínio:

1/ O genoma de um ser humano determina a noção de “direito”, na medida em que só os seres humanos têm direitos propriamente ditos.

2/ Um touro não tem direitos, na medida em que não os pode atribuir a si mesmo; quem atribui direitos ao touro é o ser humano, por extensão dos que este já tem por natureza, ou por mimetismo cultural: é o ser humano que dá direitos ao touro (seja o touro adulto, ou não), e não é o touro que atribui direitos a si mesmo.

3/ O ser humano tem direitos per se que decorrem da sua racionalidade que é ontologicamente exclusivista.

4/ Dado que os genomas de um ser humano adulto e o de um bebé são idênticos, segue-se que um bebé é um adulto em potência — ao passo que um touro nunca é nem será um ser humano em potência.

5/ Portanto, um touro e um bebé, ou um touro e um ser humano em coma, por exemplo, não podem ter os mesmos direitos (ou direitos idênticos, ou direitos semelhantes) porque são ontologicamente diferentes.

Quinta-feira, 15 Outubro 2015

O Quim e o Nozick

Filed under: ética,filosofia,Justiça,Política,politicamente correcto — O. Braga @ 11:16 am

 

No debate ético americano, a oposição contemporânea à Esquerda (John Rawls, Dworkin) foi feita pelos anarco-capitalistas hayekianos radicais, liberais e utilitaristas, representados por Robert Nozick e por Buchanan (e até David Gauthier), por um lado, e por outro lado pelos chamados “comunitaristas” como Michael Sandel, Alasdair MacIntyre, Charles Taylor, e até Michael Walzer.

Rawls fez uma crítica ao utilitarismo; Nozick defendeu, contra Rawls, um utilitarismo radical e exacerbado próximo do Marginalismo; e os comunitaristas, dentro de uma linha não-utilitarista, fizeram também uma crítica fundamental a Rawls.

A principal diferença entre os anarco-capitalistas hayekianos, por um lado, e os comunitaristas por outro lado, é a de que os primeiros defendem uma concepção ética e de justiça utilitarista, ao passo que os segundos fazem uma crítica ao utilitarismo.

nozick

Por exemplo, os radicais utilitaristas (como Nozick) reduzem as regras da justiça distributiva à noção de “processo”, em particular à noção de “processo contratual”: (alegadamente) aquilo que é justo é aquilo que resulta de um “resultado correcto” da aplicação de um processo sobre o “bem”: o que interessa não é o bem ou a felicidade entendidos em si mesmos — porque, por exemplo, um sado-masoquista tem uma ideia de bem e de felicidade diferente —, mas o que interessa é o “processo contratual” jurídico (os meios utilizados, através do “processo”, justificam qualquer fim dentro do princípio de não-agressão, o que significa a afirmação quase absoluta de uma liberdade negativa) que permita satisfazer qualquer idiossincrasia privada, por mais aberrante que seja. Em suma, segundo Nozick, a moral é o que cada um quiser que seja.

Em contraponto, os comunitaristas introduzem na reflexão moral e política o que os radicais utilitaristas (Nozick) quiseram eliminar. Por exemplo, a preeminência do bem sobre o justo: os princípios que organizam uma sociedade não podem ser neutros em relação às concepções substantivas do bem que estão em confronto entre os cidadãos.

Ou seja, segundo os comunitaristas, há uma concepção substantiva da vida social que visa a promoção do bem-comum — e é isto que Nozick nega. Para Nozick, o que interessa é o processo jurídico (seja qual for) que permita a afirmação de um relativismo moral na sociedade, e não qualquer ideia de bem-comum. A noção de bem-comum é estranha a Nozick.

Por outro lado, os comunitaristas insistem no facto de que as concepções individuais de “vida de sucesso” (a “vida boa” de Aristóteles) não são independentes do enraizamento dos indivíduos em um contexto social que tem uma história e que condiciona as soluções que podemos dar aos problemas morais em geral, e, em particular, aos problemas da justiça distributiva.

O argumento de Nozick de “neutralidade moral” (do Estado) é uma falácia: por exemplo, saber se o facto de Estado se recusar intervir no tema do aborto depende da verdade ou da falsidade da doutrina moral que concebe o aborto como um assassínio. O argumento dos comunitaristas é o seguinte: apenas se a tese do aborto como assassínio se revelar falsa, se terá, então, o direito de exigir ao Estado que permaneça neutro quanto ao assunto e, por isso, deixe exercer o “direito ao aborto” (Sandel). Ademais, o Estado não pode permanecer neutro em relação à verdade ou falsidade verificadas pela ciência.


Vejamos agora este texto do Quim sobre o Nozick:

“Um argumento filosófico é uma tentativa de levar alguém a acreditar em algo, quer esse alguém o aceite ou não. Um argumento filosófico com sucesso, um argumento poderoso, obriga a uma crença.

Apesar da filosofia ser, portanto, uma actividade coerciva, a ameaça dos filósofos é contudo fraquinha. Se o outro estiver disposto a ficar com a etiqueta de ‘irracional’ ou de ‘ter os piores argumentos’, pode afastar-se alegremente com as sua crenças prévias”.

→ Nozick

Ou seja, por exemplo, se eu demonstrasse que o Quim tem uma insuficiência cognitiva, ele poderia afastar-se alegremente desvalorando qualquer argumento que demonstre a sua (dele) insuficiência — o que seria óbvio: nenhum anormal dá importância à sua anormalidade.

O mesmo critério de Nozick aplica-se à ciência:

“Um argumento científico é uma tentativa de levar alguém a acreditar em algo, quer esse alguém o aceite ou não. Um argumento científico com sucesso, um argumento poderoso, obriga a uma crença.

Apesar de a ciência ser, portanto, uma actividade coerciva, a ameaça dos cientistas é contudo fraquinha. Se o outro estiver disposto a ficar com a etiqueta de ‘irracional’ ou de ‘ter os piores argumentos’, pode afastar-se alegremente com as sua crenças prévias”.

O problema é o de que um argumento científico só se combate com outro argumento científico, ou então com um argumento filosófico (por exemplo, utilizando a lógica). Por exemplo, havia muita gente que não acreditava — portanto, não aceitava — que a NASA levou o homem à Lua em 1969. Portanto, segundo Nozick, a crença segundo a qual “o homem foi à Lua” é tão relevante como a crença da “impossibilidade de o homem ter ido à Lua”: o céptico em relação a um facto científico “pode afastar-se alegremente com as sua crenças prévias”.


O problema português é o de que tanto a Esquerda (excepto o Partido Comunista) como a Direita seguem os princípios utilitaristas de Nozick. E tanto a primeira como a segunda vivem em contradição em relação às matrizes históricas das suas respectivas mundividências. A política em Portugal é absolutamente irracional: face a uma qualquer verificação ou demonstração, qualquer político “pode afastar-se alegremente com as sua crenças prévias” e subjectivas.

Quarta-feira, 23 Setembro 2015

Aqui não concordo com Olavo de Carvalho

Filed under: ética,Política,politicamente correcto — O. Braga @ 11:53 am
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“Já expliquei mil vezes: NUNCA critiquem alguém por ser homossexual. Nem por ser adúltero, masturbador, sado-masoquista ou qualquer outra coisa pelo género. Isso é moralmente errado, legalmente punível e politicamente um tiro no pé.

Você pode dizer, como eu mesmo digo, mil coisas horríveis contra o movimento gayzista, mas nunca ataque pessoas pela sua conduta sexual. Sobretudo não faça isso dando a impressão de falar em meu nome. Eu NUNCA fiz nem faria nem poderia aprovar ataques desse tipo.”

Olavo de Carvalho

oc-gayzismo

Um pedófilo é enviado para a cadeia. A pedofilia é também uma “conduta sexual”; é ilegal, mas nada nos garante que não passe a ser legal. Seguindo o raciocínio do Olavo de Carvalho, é moralmente errado criticar o comportamento sexual do referido pedófilo: podemos criticar a pedofilia, mas não a conduta do pedófilo. Esta é, aliás, a tese do “papa Francisco” contra S. Paulo.

Ora, o conceito de “pedofilia” não existe em abstracto: não existe pedofilia sem pedófilos. Os pedófilos são concretos, reais; a pedofilia é um conceito que se baseia no comportamento sexual (em geral) dos pedófilos. E segue-se que se não criticamos os pedófilos, também não é possível criticar a pedofilia.

O que Olavo de Carvalho propõe é uma espécie de suspensão de juízo moral em relação ao comportamento sexual, por um lado, e por outro lado a redução da crítica social à política: “¿Crítica ao movimento político gayzista? Sim! ¿Crítica ao comportamento sexual de um indivíduo? Não!”. Ou seja, Olavo de Carvalho, como aliás a maioria das pessoas, coloca a política antes da ética; a prioridade é política.

A redução da ética à política — assim como a redução da política à economia, que também está na moda — é um erro.

Em ética, “criticar” não é a mesma coisa que “condenar”. “Crítica” vem do grego Krinein, que significa “discernir”, “seleccionar”.

Uma coisa é “criticar”, outra coisa, bem diferente, é “xingar”. Uma crítica é sempre racional e é uma análise de fundamentos. Quando criticamos, por exemplo, o comportamento sexual de um determinado pedófilo, utilizamos argumentos racionais. Proibir a crítica moral individualizada é proibir a moral — o que é uma impossibilidade: a proibição da crítica moral extensível ao indivíduo é uma Moral em si mesma; em ética, não existe neutralidade.

Foi o que fez S. Paulo: « passiones ignominiae », « usum contra naturam » et « turpitudinem operantes » (Romanos 1, 26-27). S. Paulo fez uma crítica, não ao movimento político gayzista (que não existia naquela época), mas uma crítica moral a um determinado comportamento sexual, crítica essa que era logicamente extensível a todas as pessoas (indivíduos) que tinham esse comportamento.

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