perspectivas

Sexta-feira, 27 Março 2015

O “suicídio colectivo” dos pilotos comerciais e o cientismo

Filed under: ética,cultura — O. Braga @ 6:56 am
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A Maria João Marques escreve aqui sobre os “perigos psicológicos”, sobre as “doenças psicológicas” que, entre outros casos, na última década têm levado ao “suicídio colectivo” de pilotos de aviões comerciais. Repito: na última década — porque tal nunca tinha acontecido desde o Dakota e o Super Constellation da década de 1950 até aos super jumbos de 2000.

super-constellation-tap-webMas a Maria João Marques não se questiona sobre a razão por que não existiram “suicídios colectivos” de pilotos durante 50 anos, e de repente e nos últimos 15 anos, aconteceram “uma data deles”. Prefere arrumar o problema nas gavetas da psicologia e da psiquiatria: “a ciência resolve todos os problemas da humanidade”.

Não é preciso ser psicólogo ou psiquiatra, ou licenciado em outra merda qualquer, para perceber que estamos perante um fenómeno cultural inédito. É uma coisa nova.

E devemos perguntar: se, durante 50 anos de aviação comercial, não foi precisa a psicologia e a psiquiatria para evitar “suicídios colectivos” de pilotos, então ¿por que razão presume a Maria João Marques que as ciências humanas e/ou sociais irão evitá-los no futuro?  

Se durante 50 anos nunca nenhum piloto sentiu a necessidade de se suicidar e levar consigo, para a morte, os passageiros, ¿por que razão este fenómeno passou a acontecer nos últimos 15 anos?

Esta é a pergunta que deveria ser respondida, e não tentando evitar a resposta incómoda — como faz a Maria João Marques — invocando a psicologia e a psiquiatria. Se alguma ciência humana pode ser chamada a estudar o fenómeno, é a sociologia, e não a psiquiatria ou a psicologia.

É certo que, até certo ponto, a psiquiatria pode detectar um psicopata, mas nem sempre. Estamos aqui no campo dos valores, no campo da ética que enforma uma determinada cultura antropológica, e por isso não há ciências humanas que valham para evitar mais “suicídios colectivos” de pilotos no futuro — a não ser que a liberdade do cidadão em geral vá sendo restringida em crescendo até ao advento de uma sociedade orwelliana: é assim que os liberais cientificistas se tornam totalitários (como eu compreendo o Carlos Abreu Amorim, que renegou o liberalismo!).

Por último: a Maria João Marques mistura o stress pós-traumático decorrente de uma situação de guerra de maior ou menor intensidade (soldados e polícias) com a situação do piloto comercial. Por aqui se vê a dificuldade que eu tive em analisar ideologicamente o verbete dela.

(imagem daqui).

Quinta-feira, 26 Março 2015

A Maria João Marques e “as barrigas e peitos de aluguer”

 

Pela minha experiência, parece-me que as pessoas nascidas depois de 1970 apresentam fortes tendências para a sociopatia (não confundir com psicopatia). Por exemplo, é normal no Twitter aparecerem anuências a imagens deste tipo:

gerações-de-urano

¿O que está errado nesta imagem? Uma pessoa nascida depois de 1970 (as “gerações de Urano”), regra geral, não saberá dizer. E dirá mesmo que concorda com a mensagem subliminar ou explícita da imagem. Se o leitor detectar alguma coisa de errada na imagem (do ponto de vista ético), deixe um comentário; se não, não se preocupe porque faz parte das “gerações de Urano”.


“Mas, em boa verdade, uma gravidez resultante de um preservativo que se rompeu num caso de uma noite também não é romântica. E um casal com problemas de fertilidade que se dedica mês após mês ao método tradicional de concepção de crianças acaba usando mais teimosia e voluntarismo do que desejo ou romantismo. Mais: o casamento por amor é uma realidade com pouco mais de um século e sempre houve numerosos filhos fora do casamento; não vale a pena exigirmos agora purismos às concepções que quantas vezes ocorreram distantes do ideal.”

Maria João Marques

Uma noite de amor em que o preservativo se rompe ¿deixa de ser uma noite romântica? E uma possível gravidez que advenha dessa noite romântica ¿já não é romântica porque o preservativo se rompeu?

A sociopatia da Maria João Marques e das gerações de Urano impedem qualquer análise objectiva que não seja a libertação da uniformidade a todo o custo, mesmo à custa do mais abstruso irracionalismo. O irracionalismo voltou a estar na moda. Nas gerações de Urano, os processos de separação em relação à sociedade e de individualização face ao colectivo implicam uma necessidade de marginalização que é erradamente tomada como “originalidade”.

E tal como na imagem acima, faz-se uma comparação entre coisas que não são comparáveis: os filhos fora do casamento, no neolítico como no século XXI, são feitos entre duas pessoas de sexos diferentes que se amaram, em princípio, em uma qualquer noite de amor, mesmo à custa do preço da infidelidade conjugal. Comparar o mal ético da infidelidade conjugal, que é amor apesar de tudo, por um lado, com o mal ético da inseminação in vitro ou com uma barriga que é alugada como se aluga um automóvel — só pode vir de uma mente sociopata das gerações de Urano.

Terça-feira, 24 Março 2015

O paradoxo liberal da autonomia

Filed under: ética,Política — O. Braga @ 5:34 pm
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Charles Taylor apresenta-nos o paradoxo da diferença entre a autonomia formal e a autonomia real.

A autonomia formal é a dos liberais que separaram o conceito de Bem, por um lado, do de Justiça, por outro (os herdeiros de Kant) — o grupo dos liberais pode ir, por exemplo, do Insurgente ao Jugular, cada um à sua maneira. A única preocupação os liberais é a coexistência da quasi-infinitude de noções de Bem, negando, portanto, qualquer possibilidade de legitimidade de um reconhecimento público universal dos valores. Os liberais dizem:

“Cada um tem a sua ética” (atomização da sociedade em nome da autonomia).

Para os liberais, o domínio da Justiça é alegadamente “universal”, mas já o domínio do Bem é particular e privado (Habermas, por exemplo, ou Hayek: vai dar ao mesmo); mas dizem os liberais que o seu conceito universal do “justo” é “neutro” em relação às concepções de Bem e aos estilos de vida que o exprimem (“neutralidade ético-simbólica”). Por exemplo, quando ouvimos os liberais dizer:

“O “casamento” gay ou a adopção de crianças por pares de invertidos não interfere com a minha vida privada. Problema deles!”

Por outro lado, os liberais entendem o “universal” (na Justiça) como uma simples forma ou processo de determinação da norma prática — ou seja, os paradigmas axiológicos e teleológicos da ética e do político são substituídos pelo paradigma jurídico (pelo processo de promulgação de leis do Direito Positivo).

Porém, (contra os liberais) o conceito liberal de “universal” (na Justiça) não é realmente neutro. Trata-se de uma falácia liberal. Por exemplo, a interpretação liberal dos direitos do homem abstrai o ser humano de qualquer determinação histórica: a construção de qualquer concepção acerca do “justo” insere-se sempre em um contexto de uma tradição prática específica que é portadora de critérios racionalizados de um ponto de vista prático. A razão prática é histórica. E o universal liberal não é neutro porque obedece a uma tradição liberal individualista que, como qualquer tradição prática, possui os seus próprios parâmetros de justificação racional.

O universalismo liberal é uma tradição, e por isso não pode ser neutro.

Os liberais, ao separarem o problema da justa coexistência (Justiça), por um lado, das questões relativas ao sentido da vida (o Bem) através do processualismo liberal (processo de promulgação do Direito Positivo), esquecem-se que o exercício da autonomia do indivíduo supõe a aquisição de mediações culturais específicas assim como instrumentos práticos de reflexão que permitam escolher a orientação mais apropriada para vida do indivíduo. Por outras palavras, a autonomia do indivíduo implica a intersubjectividade cultural e o pensamento crítico em relação a qualquer questão do sentido da vida.

O paradoxo liberal da autonomia é o de que, na ausência da intersubjectividade cultural e do pensamento crítico, os indivíduos caem na heteronomia que os liberais julgavam poder evitar: sob pressão dos preconceitos das modas, das imagens me®diáticas ou das ideologias paradigmáticas de cada época, os indivíduos podem efectuar escolhas que não sabem justificar com argumentos, e por isso não são verdadeiramente livres.

Ora, a aquisição da intersubjectividade cultural e do pensamento crítico não depende simplesmente da responsabilidade privada “de cada um” defendida pelos liberais através do formalismo do Direito Positivo: ela depende também e sobretudo da responsabilidade de todos, porque é determinada igualmente por condições sociais, económicas e educativas que traduzem escolhas sociais.

Domingo, 22 Março 2015

¿Um maluco é livre de escolher a sua própria morte?

Filed under: ética — O. Braga @ 8:42 am
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Entre 50 a 60 pessoas são eutanasiadas na Bélgica, a cada ano, por terem problemas psicológicos ou depressões.

Um dos problemas da psiquiatria actual é o de que depende muito da neuro-biologia que, por sua vez, já não distingue — em termos práticos — os problemas somáticos (por exemplo, a depressão que se traduz numa incapacidade de estabelecer laços sociais sem uma razão clara, sociopatia) e os problemas psíquicos (a depressão por infelicidade, porque morreu um familiar, porque perdeu o emprego, etc.).

A depressão psicológica tende hoje a ser reduzida a um problema físico de mau funcionamento de neuro-transmissores: é assim que raciocina o psiquiatra, por muito que o negue: enche o doente depressivo com químicos, na esperança que os neuro-transmissores voltem a funcionar ou que sejam desbloqueados. E quando os neuro-transmissores não voltam a funcionar, aceita-se a eutanásia como um “acto de liberdade” do alegado doente mental.

Ora, se uma pessoa é alegadamente maluca (os neuro-transmissores não funcionam bem), ¿como pode ser “livre de escolher” a eutanásia?

Na Bélgica, 18% dos doentes que morrem são assassinados pelos seus médicos. Temos a barbárie dentro da União Europeia, mas a classe política mantém-se calada. Mas se alguém vai contra o “casamento” gay e contra a adopção de crianças por pares de invertidos — aqui d’El Rei! porque não se pode contrariar os fanchonos.

Sábado, 21 Março 2015

O papa contra a pena-de-morte

Filed under: ética,Igreja Católica — O. Braga @ 5:23 am
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Quando o “papa Francisco” tem razão, também lhe dou razão.

¿Como é a Igreja Católica tem autoridade moral para defender a vida desde a sua concepção (contra o aborto) até à morte natural (contra a eutanásia) quando não critica a pena-de-morte?

Ser católico e contra a pena-de-morte é uma questão de coerência.

Quinta-feira, 19 Março 2015

Dolce & Gabanna é mesmo bom ! O Elton John que o diga.

 

Depois de Elton John ter apelado ao boicote dos produtos Dolce & Gabanna, foi visto Terça-feira com compras de produtos Dolce & Gabanna. Esta gente não é coerente nem com os seus próprios princípios — sabem que não estão bem com as suas consciências.

elton-john-dg

Segunda-feira, 16 Março 2015

A cultura actual que elimina o feio

 

Platão escreveu na “República” que “dado que o belo se opõe ao feio, são duas coisas diferentes. (…) E isto é igualmente verdadeiro para o justo e para o injusto, para o bem e para o mal, e para todas as Formas”.

A concepção platónica das Formas — ou das Ideias — já não se aplica na nossa sociedade; ou pelo menos tende a desaparecer. A oposição entre o belo e o feio (estética) e entre o bem e o mal (ética) tende a esbater-se em nome da absolutização do subjectivo. Por exemplo, a arte moderna começou alegadamente como um movimento de protesto contra o filistinismo burguês; mas o corolário da arte moderna é o de que, hoje, a arte não conhece o feio: “é tudo uma questão de gosto”, dizem-nos, “não há o feio nem o belo: há apenas gostos diferentes”. 

O mesmo critério de esbatimento da oposição das Formas aplica-se hoje à  ética (a ética e a estética andam de mãos dadas) e à  justiça (a justiça depende da ética). O ser humano orienta-se na vida pela oposição de conceitos (grande/pequeno, bom/mau, belo/feio, justo/injusto, etc.), e quando esta oposição entre conceitos se esbate, a sociedade tende a regredir a um estado de selvajaria.

O grau do estado de selvajaria de uma sociedade não depende do desenvolvimento tecnológico; o Estado nazi é a demonstração evidente de que uma sociedade pode regredir a um estado de selvajaria alimentando-se de uma tecnologia de ponta. Uma sociedade em regressão para um estado de selvajaria também pode ter muito investimento em dinheiro e meios na ciência positivista que se caracteriza exactamente pela erradicação das Formas platónicas: quando a ciência substitui a ética e os seus valores, o ser humano passa a ser um “selvagem actual”.

dolce gabannaOs homossexuais Domenico Dolce e Stefano Gabanna criticaram as “barrigas de aluguer” e a tecnologia de inseminação artificial.

Há nestas duas pessoas a ideia do belo e do feio, da justiça e da injustiça, do bom e do mau — para além da ciência e da tecnologia, e mesmo apesar da condição homossexual. Não é porque uma pessoa é homossexual que tem que abdicar de uma visão realista do mundo e da vida, que tem que deixar de pensar na ética e na estética, que tem que deixar de conceber os valores como existentes independentemente de nós e que não podem ser deduzidos de uma qualquer utilidade.

Por exemplo, eu não sou rico, mas aceito perfeitamente que existam ricos, porque o realismo e o conhecimento da Natureza Humana diz-me que sempre houve e haverá ricos. Não tenho inveja dos ricos (sinceramente!) nem qualquer ressentimento em relação a eles. O que eu não posso conceber, em nome a oposição entre o justo e o injusto, é que os ricos retirem direitos naturais aos pobres, como está a acontecer hoje em larga escala, criando uma situação política e social a que Hegel chamou de Notrecht (direito de necessidade).

No mundo das Ideias de Platão, um rico também pode ter a noção da oposição entre o belo e o feio, o bem e o mal, o justo e o injusto — porque a desigualdade injusta não se cura com igualdade, mas com desigualdade justa (Nicolás Gómez Dávila). A desigualdade justa tem em conta a equidade, e não a igualdade, porque é impossível sermos todos iguais.

Quando se pretende tornar igual aquilo que não é realmente possível que seja igual, perdemos a noção da oposição dos valores das Ideias de Platão que orientam a sociedade e o indivíduo; caímos em uma nova espécie de selvajaria nazi, em que o ser humano, enquanto pessoa, é desvalorizado em nome da absolutização do subjectivo, seja este individual ou colectivo.

Sábado, 7 Março 2015

A irracionalidade da ética do Pedro Galvão (parte I: aborto)

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 1:43 am
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Um tal Pedro Galvão publicou, com o apoio da Fundação da família do capitalista Francisco Manuel dos Santos, um opúsculo com o título “Ética com Razões”. Quando eu verifiquei que o livrinho tinha o apoio do professor secundário de “filosofia” Rolando Almeida e do utilitarista e naturalista Desidério Murcho, desconfiei.  Ainda assim comprei o livreco. Vou aqui comentar as várias partes do dito, começando hoje pela primeira parte: o aborto.

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Segunda-feira, 2 Março 2015

A Raquel Varela e a prostituição feminina

Filed under: ética,Política,politicamente correcto — O. Braga @ 7:51 pm
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A julgar pelas perguntas que a Raquel Varela faz aqui acerca da prostituição, talvez ela precise de ler o “Tratado da Natureza Humana” de David Hume — não porque  o livro tenha alguma coisa de positivo, mas pelo que ele tem de negativo.

“Dizem por aí que vender sexo é um trabalho como outro qualquer…

A mais velha profissão do mundo é…caçador-colector, pescador, cozinheiro, ama ou cuidador, vigia…A prostituição é histórica, como tudo. Não é natural. E por isso não tem que ser eterna. O sexo, sim, é natural. E também histórico, ou seja, a forma como o vivemos/fazemos muda no seio das relações que vivemos, e com quem vivemos.”

→ Raquel Varela

Podemos perguntar: ¿onde é que a História se desliga da Natureza Humana?

Do que estamos a falar é da Natureza Humana, e não da natureza do mundo animal, em geral. Ou seja, se a prostituição é histórica, então pertence à  Natureza Humana — a não ser que a Raquel Varela faça coincidir a História com a descoberta da escrita, e na medida em que a Natureza Humana não surgiu, como que por milagre, com a descoberta da escrita.

Através da sociobiologia, existe hoje uma tendência para desconsiderar a Natureza Humana enquanto tal, e inserir a natureza do ser humano no contexto do mundo animal em geral (falácia de apelo à natureza).

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Sexta-feira, 27 Fevereiro 2015

Um ateu tem menos sensibilidade moral do que um cristão

Filed under: ética — O. Braga @ 3:42 pm
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Embora existam vários modelos de ateísmo1, podemos conceber genericamente o ateísmo como a consequência de uma explicação materialista da origem e da evolução do universo e do homem. Ora, se tomarmos em consideração as recentes descobertas da Física, alguém que tenha uma visão materialista do mundo — que inclui o universo e o homem — só pode ser um estúpido, porque nega a própria ciência. O ateísmo é sinónimo de materialismo.

Não devemos confundir ateísmo, por um lado, com agnosticismo, por outro. Com as descobertas recentes da Física, um filósofo ateu (materialista) é uma aberração intelectual; mas um filósofo agnóstico já é intelectualmente tolerável.

dawkins e hitlerQuando falamos em “religiões”, não devemos meter todas no mesmo saco, como se faz aqui — porque, por exemplo, os princípios e valores éticos que norteiam o Cristianismo são diferentes dos princípios e valores que norteiam a religião dos habitantes canibais das montanhas da Papua-Nova Guiné.  Meter as religiões todas no mesmo saco revela estupidez.

Um ateu moderno, por mais que o negue, está eivado de cultura cristã, seja através da cultura antropológica, seja através do legado histórico da Europa. Em princípio, um ateu moderno europeu assimilou alguns valores cristãos através da cultura antropológica em que está inserido.

Quando se diz que “um ateu não é mais propenso à  imoralidade do que um católico”, por exemplo, joga-se com a ignorância (politicamente correcta) do conceito de juízo universal: pelo facto de conhecermos um ateu moralmente íntegro, isso não significa necessariamente que a moralidade dos ateus, em geral, seja equivalente ou superior à  dos católicos. Por outro  lado, há muita gente que se diz “católica” mas que não respeita os valores da ética cristã (na prática, são ateus).

A ética ateísta é responsável pelo maior morticínio de que  alguma vez rezou a História: o holocausto silencioso de milhares de milhões de seres humanos, ou seja, o aborto.

Quando se invoca  um texto de S. Tomás de Aquino em que ele diz que a pena de morte aplicada a um herege é executada pelo poder político e secular, e ao mesmo tempo se invoca um pretensa superioridade da ética ateísta que legitima o aborto como um valor ético — estamos em presença da indigência intelectual e moral da actual Academia.

Nota
1. o materialismo dito “científico”, ou marxismo; o neopositivismo; Nietzsche e os seus seguidores; o Existencialismo ateu.

Terça-feira, 24 Fevereiro 2015

Não há filósofos no CNECV (Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida)

Filed under: ética — O. Braga @ 7:34 pm

 

“O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), órgão consultivo cujo mandato terminou em Julho passado, não faz reuniões plenárias nem emite pareceres desde essa altura, e a escolha da sua nova composição está a revelar-se atribulada, avança o jornal Público.

Ainda em funções, o médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Miguel Oliveira e Silva, que preside ao CNECV desde 2009, diz que o seu substituto vai ser o médico João Lobo Antunes, “um homem inteligente e culto”, mas lamenta que “Portugal, pela primeira vez na história, não vá ter filósofos” neste órgão independente .”

Conselho de Ética para as Ciências da Vida não se reúne desde Julho

Eu acho muito bem que o CNECV (Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida) não tenha “filósofos”. A julgar pela qualidade dos filósofos que vemos por aí, mais vale não os ter.

Quinta-feira, 19 Fevereiro 2015

A Raquel Varela e Fourier

Filed under: ética — O. Braga @ 9:56 am
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O socialismo francês do século XIX teve várias tendências — por exemplo, com Jean Jaurés, ou com Proudhon, ou Saint-Simon — e uma delas foi a de Fourier ou também a de Cabet. Fourier defendia uma sociedade sem concorrência na economia; porém, a moral de Fourier era uma espécie de contabilidade do Deve e do Haver herdada do utilitarismo de Bentham. Todo o socialismo francês do século XIX manteve relações ideológicas estreitas com o utilitarismo de Bentham — a que Karl Marx chamou de “moral de merceeiro inglês”.

O utilitarismo do socialismo francês do século XIX, em geral, só se distingue do utilitarismo de Stuart Mill em aspectos formais, e não no conteúdo propriamente dito.

Vamos a Fourier.

“Vi apenas um escritor civilizado que se tenha aproximado um pouco da definição da verdadeira felicidade: é o Senhor Bentham”

— Charles Fourier, “Nouveau Monde Industriel et Sociétaire” (1829), capítulo 39.

Para Fourier, “a verdadeira felicidade consiste em ter muitas paixões e muitos meios de as satisfazer” (sic, ibidem). Mas, ao mesmo tempo (“sol na eira e chuva no nabal”), Fourier defende a ideia segundo a qual  o fim da sociedade não é a felicidade individual, mas antes é a felicidade colectiva. Comparado com Fourier, Karl Marx foi coerente.

E para chegar à  felicidade colectiva, Fourier diz que é preciso encontrar o meio de satisfazer as paixões de todos [Kant já tinha demonstrado, por a + b, que isso é impossível!]. Se Fourier critica o egoísmo, faz essa crítica em nome do individualismo e do sensualismo. Do ponto de vista da racionalidade da ética e da lógica, Fourier é absolutamente contraditório. Fourier é um hedonista teórico na linha de de Hume e de Mandeville. De todos os socialistas franceses do século XIX, Fourier é o que está mais próximo de Bentham.

A moral de Fourier é, por outro  lado, paradoxal — não tem lógica; é uma espécie de poesia: não compete à  moral servir o interesse (cristianismo), mas antes compete ao interesse servir a moral (gnosticismo escatológico e milenarista) para a construção do paraíso na Terra. Mas, ao mesmo tempo que inverte os termos do fundamento da moral, Fourier defende o princípio utilitarista de Bentham da “maior felicidade para o maior número”.

Fourier não é um asceta: é um hedonista chapado! A moral, em Fourier, supõe a abundância das riquezas; só uma sociedade rica é moralmente digna e uma sociedade pobre é moralmente indigna. Para Fourier, a dignidade do ser humano depende exclusivamente do dinheiro que ele tenha. Fourier acredita que, em uma sociedade de abundância material, os homens deixam de ter razões para ser velhacos, mentirosos ou ladrões — e aqui entra a componente gnóstica e psicótica da fé metastática que acredita na possibilidade de alteração dos fundamentos da natureza humana por intermédio de engenharias sociais.

Naturalmente que algumas pessoas, como é o caso da Raquel Varela que leu “umas coisas” de Fourier quando estudou a história do século XIX, poderão dizer que a utopia de Fourier é anti-utilitarista; mas essa interpretação errada baseia-se na defesa de Fourier de um reino da abundância e de abolição da raridade que deixa sem objecto todo o cálculo de maximização de interesses — o que é um utilitarismo que inverte a lógica do Marginalismo. Na sociedade de Fourier, não há economia: todas as actividades sociais nada mais são do que um puro brincar.



“A forma do que gostamos, do que desejamos, do que vemos e sentimos são menos determinadas pela “liberdade” e mais pelas formas sociais.” — Raquel Varela

Esta é uma proposição gongórica que necessita de ser decifrada.

Em primeiro lugar, não é possível separar a liberdade, por um lado, das formas sociais, por outro  lado.

Entende-se por “formas sociais” a organização da sociedade na sua ordem ética, que influencia a cultura antropológica, a política, e a economia (por esta ordem de valores).

O que tem variado, conforme as modas de cada época, é a noção de “liberdade”; mas a variação de noção de “liberdade” não torna por si só o homem mais livre, ou seja, não é por redefinirmos sistematicamente, ao longo do tempo, o conceito de “liberdade” que nos tornamos mais livres.

Em segundo lugar, as “formas sociais” não determinam a ordem ética preponderante na cultura antropológica (determinismo, ou lógica do formigueiro), mas antes é a ordem ética (os valores que  se escolhem para a ordem da sociedade) que determina as “formas sociais”. Isto ficou bem claro, por exemplo, com a passagem do estertor do império romano pagão e hedonista para a ordem ética cristã da Idade Média.

“A estrutura dos sentimentos – mal-grado quem pensa que os domina – é determinada de fora para dentro e de baixo para cima.” — Raquel Varela

A Raquel Varela está errada, porque tem uma visão determinista do ser humano.

Ela tem uma visão externalista da ética (ver Externalismo). Não é por que uma coisa é desejada (pela sociedade, ou pelo indivíduo) que ela é boa; e também não é por que essa coisa é desejável que ela é boa: pelo contrário, quando uma coisa é escolhida, é supostamente escolhida pelo aspecto de bondade que apresenta.

O problema é o de saber quais os critérios valorativos da escolha da bondade de uma coisa, e esse critério está estritamente ligado à  sensibilidade do ser humano enquanto indivíduo (e não enquanto sociedade ou “formas sociais”), e essa sensibilidade é natural: pode ser, até certo ponto, colmatada com a educação, mas não se aprende na escola. Por isso é que Fourier estava errado.

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