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Domingo, 5 Setembro 2021

O Anselmo Borges, o Queiruga, e a galinha que nasceu primeiro que o ovo

Filed under: Anselmo Borges,ética,filosofia,Igreja Católica,religião — O. Braga @ 1:33 pm

1/ A propósito deste texto (ler em PDF) do “padre” Anselmo Borges: discordo totalmente do seu ponto 2., por exemplo.

“Assim, como escreve A. Torres Queiruga, na estrutura íntima do processo religioso "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum"”

Ou seja, o Anselmo (e o Queiruga) têm a certeza de que “quem nasceu primeiro foi a galinha, e não o ovo”.


Depois, o Anselmo implica (ou defende) a absolutização da subjectividade no processo de interpretação do mundo: se vês o mundo de uma forma ou de outra, deve-se exclusivamente à interpretação que fazes dele, e que pode ser diferente da interpretação do teu vizinho.

(pergunto-me muitas vezes como é que este indivíduo é professor universitário de filosofia)

Há limites para o Construtivismo (a construção do mundo por nós, enquanto indivíduos); e o principais limites são o da intersubjectividade, por um lado, e o pensamento lógico, por outro lado.

Ou seja, a “realidade para nós” (a realidade construída por nós, indivíduos) tem os limites impostos pela intersubjectividade (ou, mutatis mutandis, “objectividade”) e pelos axiomas da lógica (que não são físicos). A “realidade para nós” (a subjectividade) não é (metaforicamente) uma auto-estrada sem limite de velocidade — a não ser no mundo louco dos esquerdistas (e gnósticos) como o do Anselmo Borges.

Cada indivíduo vive a sua vida a partir de uma determinada cosmovisão que nunca é resultado de uma reflexão racional.

Através da citação supra, o Anselmo Borges (e o Queiruga) eliminam o conceito de “interpretação pré-racional” — que é aquela que existe antes de o indivíduo pensar/reflectir que “a interpretação racional que tem do mundo, é a melhor”.

A “interpretação pré-racional” é uma hipótese de fundo não-reflectida (não racionalizada) sobre o sentido da vida e sobre o valor das coisas: cada indivíduo vive a partir de uma determinada cosmovisão que nunca é resultado de uma reflexão racional.

Se alguém vive a sua vida segundo a ideia de que a vida não obedece a nenhum valor superior, ou quando alguém goza a vida sem quaisquer limitações físicas e/ou éticas, ou assume que a vida não tem qualquer sentido, ou de que tudo depende do ponto de vista que se assume — então esse alguém também já fez uma interpretação pré-racional da existência.

Neste sentido, é mais verdadeiro que se diga que “interpretamos o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu”, do que dizer que “é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo”.

Ou seja, é mais verdadeiro (baseados na experiência) defender o oposto do que é defendido pelo Anselmo Borges.


2/ Estou parcialmente de acordo com o ponto 1. do texto do dito “padre”: a Igreja Católica deveria abster-se, dentro do possível, de citar as cartas deuteropaulinas — como é o caso da Carta de S. Paulo aos Efésios.

As chamadas epístolas “deuteropaulinasnão foram escritas por S. Paulo, a ver:

Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito.

As que não fazem parte desta lista foram mesmo escritas por S. Paulo. Porém, mesmo nas que se demonstrou terem sido escritas por S. Paulo, existem as chamadas “interpolações”, como por exemplo em 1 COR 14, 34-35 — ou seja, esta passagem de Coríntios 1 não é de S. Paulo.

As “interpolações” têm origem em notas marginais que os monges escribas, mais tarde e já na Alta Idade Média, incorporaram no próprio texto, inserindo-as em alguns casos em um determinado lugar, e noutros casos, noutro lugar.

Sábado, 5 Junho 2021

Kant é essencial para salvar a ciência e a ética, em relação ao niilismo do pós-modernismo

Filed under: ética,Ciência,filosofia,Kant — O. Braga @ 12:32 pm
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O Ludwig Krippahl escreve aqui um texto que rebate (ou contradiz) a ideia segundo a qual

“a ética é uma palhaçada, porque, enquanto os objectos de estudo [da ciência] continuariam a existir quer existissem humanos ou não, os valores morais não existem sem sujeitos”.

Ora, o que o Ludwig Krippahl está a contraditar, são exactamente os princípios filosóficos que regeram o advento da modernidade — Francis Bacon, Hobbes (principalmente), e Descartes.

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Quinta-feira, 20 Maio 2021

A Esquerda (incluindo o actual Partido Comunista) é utilitarista

Filed under: ética,Moral,utilitarismo — O. Braga @ 5:26 pm
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“Se não se crê em Deus, o mais honesto é o Utilitarismo vulgar; e o resto é retórica.”

Nicolás Gómez Dávila


Alguns professores de filosofia (por exemplo, o Rolando Almeida) têm vindo a injectar nos nossos adolescentes a ideia da primazia do Utilitarismo, enquanto ética societária (ou seja, como moral adoptada pela sociedade).


O Utilitarismo é uma doutrina elaborada por Bentham, retomada e aprofundada por John Stuart Mill, segundo a qual a utilidade é o principal critério da actividade (da acção) do ponto de vista da ética e da moral.

Segundo o Utilitarismo, o objectivo da sociedade deve ser “o maior bem-estar do maior número”, ou seja, a soma dos prazeres de cada indivíduo.

O Utilitarismo faz da “utilidade” o único critério da moralidade: alegadamente, uma acção só é boa na medida em que contribui para o bem-estar do “maior número” de indivíduos; e quem não pertence ao “maior número”, está f*d*do!; ou então que se f*da!

O Utilitarismo diferencia-se do Pragmatismo apenas porque este não aceita a identificação do “útil”, por um lado, com o “verdadeiro”, por outro lado.


Porém, a doutrina utilitarista encontra-se condicionada por duas proposições antitéticas ou contraditórias entre si (no Bloco de Esquerda, por exemplo, esta contradição é gritante):

  • uma proposição positiva, que diz que os homens devem ser considerados como indivíduos egoístas, calculadores e racionais, e que tudo deve ser pensado e elaborado a partir do seu ponto de vista [Bloco de Esquerda, IL (Iniciativa Liberal];
  • e uma proposição normativa, que afirma que os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou felicidade do "maior número" [Bloco de Esquerda, Partido Comunista, IL (Iniciativa Liberal), Partido Social-democrata, Partido Socialista].

Ou seja: o utilitarismo (principalmente o bloquista, mas não só) mistura, em proporções infinitamente variáveis e dependente apenas da discricionariedade política das elites, uma axiomática do interesse e uma axiomática sacrificialista, que é simultaneamente um encantamento pelo egoísmo (a frase: “o corpo é meu!”, por exemplo, no que se refere ao putativo “direito” a matar nascituros) e uma apologia do altruísmo (“Venham daí os imigrantes de todo o mundo para a Europa!”), e tentativa de reconciliar um ponto de vista ferozmente individualista e uma vertente globalizada e holista.

Por enquanto, o CDS (sem  o Adolfo Mesquita Nunes) e o CHEGA são os dois partidos políticos que escapam ao Utilitarismo.


utilitarismo-webO Utilitarismo, aplicado à ética societária, é sinónimo directo e objectivo de degradação do nível médio de inteligência em circulação.

Só assim se explica, por exemplo, como gente com défice cognitivo — como é o caso vertente de Richard Dawkins — defenda a ideia segundo a qual os nascituros com Síndroma de Dawn devem ser abortados; e o “argumento” utilitarista (de Richard Dawkins, de Peter Singer ou do Rolando Almeida) é o seguinte: “se permitirmos que os nascituros com Síndroma de Dawn nasçam, o sofrimento existente no mundo não baixará de grau.”

Ou seja, segundo os utilitaristas, “eliminar o sofrimento” significa (literalmente) “eliminar o sofredor”.

E a justificação moral para o assassínio é feita ao abrigo da proposição normativa que afirma que «os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou do "maior número"».

Os utilitaristas são de opinião de que os seres humanos com Síndroma de Dawn não têm direito à vida. Eles justificam essa opinião com a situação real das crianças com Trissomia ― dizem eles que “é uma vida que não vale a pena”. Por outro lado, os utilitaristas dizem que é útil para a sociedade não ter encargos com pessoas com síndroma de Dawn.

Num primeiro momento, os utilitaristas incorrem em um “sofisma naturalista”, visto que não se pode tirar conclusões morais (a partir de) de um facto; e num segundo momento eles pressupõem um consenso acerca do valor e custos convenientes de uma vida humana ― consenso esse que não existe.

O utilitarista é intrinsecamente um atrasado mental, a quem permitimos que nascesse porque não somos utilitaristas.

Sábado, 13 Março 2021

A diferença entre o multiculturalismo, por um lado, e o interculturalismo, por outro lado

Filed under: ética,Karl Popper,multiculturalismo,Sociedade — O. Braga @ 8:32 pm
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As ideias de Karl Popper têm sido (em geral) adulteradas e manipuladas, não só (malevolamente) pela Esquerda declaradamente marxista, mas também idiota- e principalmente pelos chamados “liberais”.

Por exemplo: quando Karl Popper defendeu positivamente a convivência entre culturas diferenciadas — por exemplo, a convivência entre as diferentes culturas que se cruzaram no império austro-húngaro — que se reflectiam na cultura vivaz da cidade de Viena do princípio do século XX, Karl Popper não quis defender o multiculturalismo (como é, assim, alegado pelos ditos “liberais”); e isto porque a convivência entre culturas diferentes do império austro-húngaro foi sinónimo de uma claríssima superioridade social da cultura e língua de origem alemã — de tal forma que, ainda hoje, a língua alemã é correntemente falada na Hungria.

Ou seja:

  • no império austro-húngaro, “todas as culturas eram iguais”, embora uma delas (a cultura austríaca de origem alemã) fosse “menos igual do que todas as outras”; a predominância cultural, social e civilizacional da cultura de língua alemã era por demais evidente no império austro-húngaro;
  • o multiculturalismo é o igualitarismo cultural, ou seja, a defesa do acantonamento e do isolacionismo das diversas culturas presentes em um determinado espaço político. O multiculturalismo é a antítese do fenómeno social de convivência intercultural que se verificou no império austro-húngaro.

O que se verificou no império austro-húngaro foi um interculturalismo, e não um multiculturalismo.

No interculturalismo, está sempre subjacente uma hierarquia de valores que se reflecte na predominância (comummente aceite pelos intervenientes de todas as culturas em presença) de uma certa cultura em relação às outras, com as quais convive livremente.

No multiculturalismo, as diversas culturas em presença em um mesmo espaço político, acantonam-se e isolam-se, em nome de uma putativa “igualdade” entre elas. Ora, isto (o multiculturalismo) é exactamente o oposto do que defendeu Karl Popper.


karl popperO conceito de “etnocentrismo” — de que nos fala aqui a professora Helena Serrão, citando um relativista ideológico de seu nome Augusto Mesquitela Lima — aplica-se perfeitamente a uma sociedade multiculturalista, embora no sentido negativo (porque existe um etnocentrismo positivo, que é o que promove activamente a coesão do Todo social em uma sociedade étnica- e culturalmente homogénea).

Em uma sociedade dita “multiculturalista” (que não é a mesma coisa que “sociedade multicultural” ou “interculturalista”), existe um etnocentrismo negativo acantonado em cada uma das culturas antropológicas existentes e igualitariamente consideradas em um mesmo espaço político (por exemplo naquilo a que o presidente francês Emmanuel Macron, mas também e agora a Marine Le Pen, chamam de “separatismo islâmico” em França) .

Em suma, existe uma contradição fundamental no texto do tal Augusto Mesquitela Lima citado pela professora Helena Serrão, que consiste em afirmar, por um lado, uma crítica ao etnocentrismo, e, por outro lado, a defesa do relativismo igualitarista inerente ao multiculturalismo — porque uma das características do multiculturalismo é precisamente o exacerbar do etnocentrismo enquanto recusa de incorporação de uma das culturas no Todo social e político.

Numa sociedade interculturalista (por exemplo, a do império austro-húngaro), não existe o relativismo cultural defendido pelo Mesquitela, na medida em que existe uma hierarquia nas culturas em presença. E o multiculturalismo é a recusa dessa hierarquia entre culturas.

A posição ideológica do Mesquitela reflecte a ideia grega dos sofistas, segundo a qual “o homem é a medida de todas as coisas”; mas, ainda assim, o Mesquitela entra em contradição fatal (passo a citar um trecho do referido texto):

“A posição relativista (cultural) não significa, de forma alguma, que todos os sistemas de valores, todos os conceitos de bem e de mal, assentem sobre areias tão movediças que não haja necessidade de uma moral, de formas de comportamento estabelecidas e aceites, de códigos éticos.

Aliás, o relativismo cultural é uma filosofia que aceita os valores estabelecidos em qualquer sociedade, acentuando a dignidade inerente a qualquer desses sistemas de valores e a necessidade de tolerância em relação a eles, embora possam diferir dos que adoptamos e pelos quais nos conduzimos. Reconhece ainda a necessidade de conformidade com normas estabelecidas, como condição necessária para a normalidade da vida em sociedade.”

Segundo o Mesquitela, por um lado existe a necessidade da existência de uma ética (que, por definição, tem que ser universal e é imposta a toda a sociedade por uma determinada cultura antropológica); mas, por outro lado, o Mesquitela defende que todas as culturas presentes na sociedade (por mais dispares que sejam, entre si) produzem éticas equivalentes e igualmente dignas de respeito. Isto é digno de um idiota.

Sábado, 13 Fevereiro 2021

Os valores, e o utilitarismo

Filed under: A vida custa,ética,valor — O. Braga @ 8:23 pm

“A alma civilizada é aquela a quem interessam as verdades não utilizáveis” — (Nicolás Gómez Dávila)


A professora Helena Serrão publicou um trecho de um tal Frondizi (ler em PDF), um argentino que se dizia “filósofo” e que era muito bem-quisto pelos pragmatistas (americanos). Começa (o trecho) assim:

“O que são os valores? Dizemos que os valores não existem por si mesmos: necessitam de um depositário sobre o qual descansam. Aparecem-nos, portanto como meras qualidades desses depositários: beleza de um quadro, elegância de um vestido, utilidade de uma ferramenta. Se observarmos o vestido, o quadro ou a ferramenta, veremos que a qualidade valorativa é distinta das outras qualidades”.

Gente como o Frondizi reduziu a realidade ao subjectivo e ao solipsismo; um novo tipo de irracionalidade (anticientífica, porque é subjectivista) passou a estar na moda.

A ideia-base do referido trecho do “dito cujo”, é a de que “o ser humano cria os seus próprios valores” — da mesma maneira que há quem defenda (os modernos) a ideia segundo a qual “o ser humano criou a matemática, a lógica, e até os números primos”. Há quem fale em “evolução da lógica”! A cada passo, a modernidade insulta a nossa inteligência.

A ideia do tal Frondizi (amigo do pragmatismo) não é nova; tem milhares de anos.

Os primeiros filósofos (gregos, pré-socráticos) tinham já proposto um procedimento simplista: «eleva-se o critério de utilidade, a um princípio de conduta de vida: aquilo que é útil para o indivíduo ou para a sociedade, deve ser designado de “bom”».

Por exemplo: se a avó adoeceu com COVID-19, ¿é mais correcto que a família inteira abandone a casa, de modo a não transmitir a infecção, ou cuidar dela, mesmo que não exista qualquer esperança de vida?

Para a sociedade, seria mais útil que doentes idosos infectados com COVID-19 fossem abandonados ao seu destino, para que a causa da doença (o vírus) permanecesse isolada.

O utilitarismo, que é a escola materialista que defende este tipo de “raciocínio” ético, tem um problema fundamental e insolúvel: ¿quem define o que é útil? ¿E para quem há-de ser útil?

Segundo o avô do utilitarismo (Bentham), o critério de acção moral deve ser o do “maior bem para o maior número de pessoas”. ¿E o que acontece com aqueles que não fazem parte do “maior número”? Aqui, neste particular, estou de acordo com Karl Marx, que dizia que “o utilitarismo é moral de merceeiro inglês”.


Acontece o seguinte: os valores devem ser possuir uma validade universal, por um lado, e ser categóricos, por outro lado. Se cada um de nós tem uma ideia radicalmente diferente daquilo que é “viver bem”, e daquilo que é útil para se poder “viver bem”, segue-se que as exigências de um perfil aproveitável dos valores, permanecem irrealizáveis.

Ademais, o pensamento utilitarista tem outro ponto fraco: se os valores (morais) são estabelecidos de acordo com os critérios de “utilidade individual ou social”, uma pessoa pode, perfeitamente e sempre, abandonar esta moral por motivos de uma prudência egoísta. O princípio radical do interesse próprio, em última instância, também pode ser muito “útil”.

“¿Porque razão deve a utilidade ‘para o maior número possível de seres humanos’, estar acima da ‘utilidade para mim’ ?!”

Quando o professor de “filosofia”, Peter Singer, defende a opinião (utilitarismo) segundo a qual os seres humanos com deficiências físicas graves não têm qualquer direito à vida, justifica a sua opinião, por um lado, com a situação real de um deficiente grave —“uma vida que não vale a pena” (diz ele, sic); mas, por outro lado, também com a utilidade que representa, para a sociedade, não ter encargos materiais e financeiros com essas pessoas deficientes.

Assim, em primeiro lugar, o referido e douto professor universitário de filosofia incorre em um Sofisma Naturalista — dado que não podemos tirar conclusões morais a partir de um facto. E depois, ele pressupõe a existência de um consenso acerca do valor e dos custos convenientes de uma vida humana — consenso esse que não existe, de facto.

Ao contrário do que diz o texto do dito cujo: os valores existem independentemente do ser humano — assim como, por exemplo, os números primos já existiam antes de o ser humano aparecer na Terra.

Os valores morais estão pré-determinados objectivamente; e os seres humanos apenas têm de os encontrar (ou de os descobrir). Isto significa que, tal como existe uma verdade objectiva no domínio da Natureza (corroborada pelo método científico), também existem valores morais objectivos, no domínio do espírito.

Segundo o filósofo Nicolau Hartmann, “os valores possuem uma existência em si” — e independentemente do facto de o sujeito os considerar (ou não) como tal. Não é necessário que os seres humanos deduzam os valores morais de uma utilidade qualquer! — pelo contrário, os valores morais têm valor porque possuem o seu valor em si mesmos! Assim, por exemplo, o valor da justiça vale por si mesmo — e isto pode ser compreendido por cada ser humano.

Se fizéssemos depender o valor da “justiça”, por exemplo, de algo que não estivesse previamente (de um modo ou de outro) incluído no seu significado — se deduzíssemos esse significado, por exemplo, a partir da utilidade, ou da oportunidade política — o valor da justiça estaria entregue à bicharada (ou melhor!: “entregue à modernidade”, o que soe ser o mesmo).

Sábado, 22 Agosto 2020

Desidério Murcho: a narrativa da “eutanásia para todos, em nome da liberdade”

O Desidério Murcho escreveu aqui uma coisa a favor da liberalização da eutanásia.

O tipo de argumentação é sempre o mesmo: vai-se buscar um ou dois exemplos extremos de casos que não sejam passíveis de tratamento médico ou de cuidados paliativos, para depois — em cima desses dois exemplos extraordinariamente raros mas cuidadosamente escolhidos — construir a narrativa da “eutanásia para todos em nome da liberdade”.

“É a constituição moral da sociedade que fixa, a cada momento, o contingente dos mortos voluntários.” → Durkheim

1/ Em primeiro lugar, o mais surpreendente é que o Desidério Murcho defenda a eutanásia aplicada pelo Estado; o Estado passa a aplicar a pena-de-morte alegadamente consentida.

Temos um caso, na Bélgica, de um multi-homicida condenado a pena de prisão perpétua que solicitou (voluntariamente!) a eutanásia; e parece que o Estado belga está aberto a matar um homem que tinha anteriormente condenado à prisão perpétua. Ou seja, as bases do próprio sistema judicial ocidental começam a vacilar.

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Sexta-feira, 31 Julho 2020

A diferença ética e ontológica entre o Bloco de Esquerda e o IL (Iniciativa Liberal)

Filed under: animalismo,ética,marxismo,marxismo cultural,Peter Singer — O. Braga @ 6:28 pm
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Nicolás Gómez Dávila escreveu o seguinte, acerca do regime de democracia representativa:

“Hay que repetirlo y repetirlo: la esencia de la democracia es la creencia en la soberanía de la voluntad humana.”

Desta vez não concordo com ele. A democracia americana, tal como estipulada originalmente pela Constituição dos Estados Unidos, não prescinde de Deus: a vontade humana, neste caso, só existe com o beneplácito da vontade de Deus.

Se a vontade humana for uma consequência da vontade de Deus, então a vontade humana torna-se dependente de um primeiro princípio, ou de um axioma — ou de um “dogma” como se escreve aqui. E, sendo dependente, a vontade humana não é soberana, mesmo que o ser humano viva em democracia.

O facto de se viver em democracia não significa necessariamente que se imponha, na cultura antropológica  a crença  na soberania da vontade humana.


O que está a acontecer é uma revolução cultural e uma mudança de paradigma. Há cada vez mais pessoas que salvariam o seu cão em vez de um vizinho (des)conhecido de se afogar. O Humanismo está em falência não por ser errado, mas porque não tem sabido reconhecer no Animalismo um inimigo fatal.”

Em defesa dos direitos humanos ou introdução ao artigo de Joaquim Grave


Existe uma diferença de propósitos entre o liberalismo (utilitarismo) de Stuart Mill, por um lado, e o marxismo cultural, por outro lado.

O liberalismo utilitarista de Stuart Mill [representado actualmente em Portugal pelo IL (Iniciativa Liberal) e pelo PSD de Rui Rio] tinha (em finais do século XIX) como preocupação a organização da sociedade em benefício de seres humanos considerados “extraordinários” e extravagantes (os novos “super-homens” da nova aristocracia burguesa), e por isso obrigando toda a gente a “libertar-se” das restrições das tradições e dos costumes.

O marxismo cultural (representado em Portugal pelo Bloco de Esquerda, partido Livre, e uma parte do Partido Socialista, PAN) pretende o fim das restrições dos costumes como uma forma de minar a sociedade por dentro, tendo em vista um fim oposto ao do liberalismo: a instauração de um totalitarismo que imporá um “paraíso na Terra”, e que (alegadamente) surgirá espontaneamente na sequência de uma espécie de “apocalipse” (Fé Metastática).

O liberalismo utilitarista conduz a um social-darwinismo (uma sociedade organizada em benefício dos mais fortes). O marxismo cultural conduz a um totalitarismo distópico de tipo previsto no romance “1984” de George Orwell.

Ou seja, os meios são semelhantes entre uma e outra ideologia; mas os fins (os propósitos) são diferentes.

A preocupação do liberalismo utilitarista de Stuart Mill é com as “normas sociais opressivas” (a “libertação” em relação à opinião pública); em contraponto, os marxistas culturais servem-se da guerra contra as “normas sociais opressivas” para uma “destruição criativa”, radical e utópica da sociedade, tendo em vista um “paraíso” totalitário.


Uma sociedade sem tabus é um “círculo quadrado”.

especismo-2-webQuando se diz (na citação) que “o que está a acontecer é uma revolução cultural e uma mudança de paradigma”, o que se pode dizer é que o que está em causa é uma tentativa (por parte dos marxistas culturais) de mudar os tabus que regem a nossa sociedade — porque eles sabem muito bem que uma sociedade sem tabus é um “círculo quadrado”.

O aborto, o eugenismo, a eutanásia e o infanticídio são cada vez mais defendidos abertamente pelo movimento ecologista; os direitos dos animais em geral são equiparados aos direitos humanos.

Para que o aborto, o eugenismo, a eutanásia e o infanticídio deixem de ser tabus culturais, a Esquerda tem que encontrar (e impôr) novos tabus culturais — por exemplo, a censura da linguagem em nome de uma total discricionariedade subjectivista, a negação da existência dos dois sexos em nome da “igualdade”, a deslocalização do conceito de “opressão” da economia (marxismo clássico) para a psicologia — tornando a liberdade de expressão o grande problema da sociedade, e não a solução preconizada pelo Iluminismo; e o maniqueísmo de Marcuse traduz-se no conceito de tolerância repressiva: o marxismo cultural entende a liberdade de expressão como um mal que tem que ser erradicado.


end-espexcismo-webO movimento ecologista e animalista internacional trabalha arduamente para conduzir a humanidade à barbárie eugenista e anti-humanista a que já assistimos no princípio do século XX, nomeadamente com a ligação íntima entre os “Green Wing” alemães (Wandervögel) e o movimento nazi.

Hitler e Himmler eram vegetarianos e consideravam os direitos dos animais a par e equivalentes aos direitos humanos (Hitler gostava mais de cães do que de pessoas) ; a política nazi do “Blut und Boden” (Sangue e Chão) é indissociável da sua componente ideológica ecologista, que se desenvolveu a partir dos filósofos românticos como Nietzsche e do mito dogmático darwinista.

Mais tarde no século XX, alguns “filósofos” seguiram a tradição “revolucionária” de menorização da importância do ser humano no contexto da Natureza, nomeadamente Marcuse e/ou Heidegger; mas também, por exemplo, pelo Padre jesuíta (e, por isso, panteísta) Pierre Teilhard Chardin que muitos "católicos fervorosos" prezam.

Porém, o verdadeiro guru do animalismo ecologista actual é Peter Singer.

Para que se tenha uma ideia do enorme problema que os portugueses têm entre mãos, grande parte dos professores de filosofia em Portugal doutrinam as nossas crianças com a teoria do “especismo”, da autoria de Peter Singer (a ler: A incoerência da teoria ética de Peter Singer).

Em Portugal, um dos exímios intérpretes de Peter Singer é Pedro Galvão, que os “professores de filosofia” que estão na moda tanto respeitam.

Quarta-feira, 13 Maio 2020

A escola pública ensina e aconselha aos adolescentes as “virtudes do infanticídio”

Filed under: ética,educação,Ensino,Esquerda,esquerdopatia,Peter Singer — O. Braga @ 5:08 pm

Peter Singer é um professor de filosofia (o que não significa que ele seja necessariamente um filósofo) nos Estados Unidos.

Faz parte da filosofia moral de Peter Singer a defesa da legalização do infanticídio; e é esta “filosofia moral” que é ensinada a adolescentes do 10º ano de escolaridade, no “telensino” do Rolando Almeida.

telensino-singer-web

E depois temos gente a pedir prisão perpétua para os infanticidas — fazendo de conta que não sabem que é o próprio sistema de ensino e a cultura adquirida que estimulam a prática de infanticídio.

Terça-feira, 3 Março 2020

A Isabel Moreira e a negação do direito absoluto à vida humana

Filed under: ética,Igreja Católica,Isabel Moreira — O. Braga @ 9:15 pm

Vejo aqui escrito o seguinte:

« Num debate sobre a eutanásia, a deputada esquerdista Isabel Moreira afirmou que a vida humana não é um direito absoluto. Tal afirmação provocou indignação em muitos direitistas, que, assumindo uma posição mais humanista que católica, chegaram a diabolizar a deputada, acusando-a de nazismo.

Contudo, apesar de errada quanto à sua aplicação, a afirmação está correcta. De facto, à luz do Direito e da Moral Católica, a vida humana não tem um valor absoluto. Deus, que não Se engana nem nos engana, ensina pelo 5º Mandamento que é proibido matar. Mas também nos ensina, pelo mesmo Mandamento, que é lícito tirar a vida de outrem em certas ocasiões.»


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1/ Eu não vi o tal debate (eu não vejo a RTP, porque é um canal de pura propaganda política), e por isso não sei em que exacto contexto a Isabel Moreira afirmou que “a vida humana não é um direito absoluto”; desde logo porque seria preciso saber exactamente o que ela quis dizer com “direito absoluto”; e, ademais, não devemos confundir “direito absoluto”, por um lado, com “valor absoluto”, por outro lado — como parece que o escriba em epígrafe confundiu. Há muitos “valores” que não são expressos em “direitos”.

2/ Os casos em que a Igreja Católica — alegadamente, diz ele, através do catecismo de 1908 — é permissiva em relação ao homicídio, diz respeito a casos de legítima defesa — seja nos casos da guerra, em que matamos para defender a nossa vida (legítima defesa colectiva); seja nos casos de condenação à pena de morte, em que se mata para defender a vida na sociedade (as sociedades nómadas não tinham prisões); seja nos casos em que alguém mata outro indivíduo para não ser morto por este (legítima defesa).

Mas esta posição da Igreja Católica nada tem a ver com uma qualquer oposição ou divergência em relação a um qualquer “humanismo”, mas antes tem a ver com o Direito Natural. E a Isabel Moreira é inimiga fidagal do Direito Natural, enquanto tal: portanto, as razões que movem a Isabel Moreira não coincidem certamente com as razões que a Igreja Católica alegadamente invoca para justificar o assassínio em certos casos.

3/ A condenação à pena-de-morte é sempre, em primeiro lugar e em qualquer circunstância, um acto político — ou seja, extrapola sempre o simples procedimento judicial. A execução de um condenado à morte é, em primeiro lugar, uma afirmação (que se pretende absolutista) de um determinado sistema politicamente organizado. Uma determinada estrutura política não mata um condenado apenas para fazer justiça: mata sobretudo para afirmar inequivocamente o seu Poder (por exemplo, a condenação à morte de Sócrates, o grego).

4/ A auto-preservação da vida humana é inerente ao Direito Natural.

O conceito de “auto-preservação da vida humana” (que justifica a legítima defesa) corresponde ao conceito hegeliano de “direito de necessidade” (Notrecht), que decorre de uma situação tal em que o ser humano é conduzido a um estado natural, e em que a civilização — e, por isso, a ética cristã — deixa de fazer sentido por força de uma situação excepcional de ameaça à sua própria existência.

5/ A Igreja Católica não pode validar positivamente a simples possibilidade do conceito de “estado natural” do Homem, por razões óbvias.

Aceitar tal possibilidade (aceitar como positivo o “estado natural” do Homem) seria, por exemplo, aceitar o paganismo. Para a Igreja Católica, o estado natural do Homem terá que ser sempre um mal ou, pelo menos, algo de negativo; e nesta medida, não pode ser objecto de doutrinação positiva como (alegadamente segundo o escriba em epígrafe) acontece no caso da inclusão da pena-de-morte no catecismo da Igreja Católica.

6/ Para a Igreja Católica e para o Direito Natural, a legítima defesa é atenuante em caso de homicídio. A legítima defesa iliba judicialmente o homicida porque atenua a sua culpa em função do direito natural à sua auto-preservação.

Em suma:

É uma estupidez alguém dizer que “a vida humana não é um direito absoluto” invocando situações em que o ser humano é excepcionalmente conduzido ao seu estado natural — porque é evidente que, em uma qualquer situação excepcional de selvajaria, não existe sequer a possibilidade do exercício do Direito.

Porém, vindo da Isabel Moreira, já nada me espanta.


Adenda:


Em oposição ao conceito de Estado Civil, o Estado Natural designa — em Rousseau, Locke ou Hobbes — a situação do Homem anterior a qualquer sociedade organizada; e não é necessário que imaginemos se o Estado Natural existiu realmente: é apenas uma hipótese utilizada para a dedução da necessidade do contrato social.

Terça-feira, 4 Fevereiro 2020

A tentativa de normalização da política identitária e multiculturalista no Direito português

Uma professora de Direito, de seu nome Ana Paula Dourado, escreveu o seguinte (ler em ficheiro PDF):

“… o estrangeiro (isto é, o imigrante) pode reagir às adversidades do país de destino (neste caso, Portugal) com perda de auto-estima, isolamento, incapacidade de submissão às regras da cultura dominante, sem ter consciência dos motivos que o levam a cometer crimes.”


Em primeiro lugar, penso que os professores de Direito deveriam dedicar-se ao Direito, e deixar a ética para os filósofos.

Depois, o tipo de raciocínio da dita senhora é típico da extrema-esquerda identitária (marxismo cultural pós-modernista) — e por aqui vemos como as universidades portuguesas estão já ideologicamente “minadas”.


Os crimes praticados pelos imigrantes são vistos (pela dita senhora) como produtos de um determinismo sócio-cultural — como terá sido o caso daquele assassino que “não tinha consciência dos motivos que o levam a cometer o crime”, e que diz ao juiz: “A culpa não é minha, senhor juiz! A culpa é dos meus genes!”.

Uma das características da extrema-esquerda identitária (característica herdada do romantismo do século XVIII, e que se prolongou com as utopias do século XIX e XX), é a de que o erro humano individual não é geralmente considerado como sendo do foro psicológico, mas antes é atribuído a um qualquer padrão de valores (ou seja, a “culpa” é do “meio-ambiente” e/ou da “cultura dominante”).

Esta atribuição da responsabilidade dos actos do indivíduo ao “padrão de valores vigente” torna praticamente o prevaricador moralmente inimputável — embora ele possa ser condenado pela justiça, o criminoso imigrante tem geralmente penas atenuadas, como foram os casos dos dois últimos radicais islâmicos que esfaquearam transeuntes em Londres: eles tinham estado presos, mas foram libertados a meio da pena de prisão. E depois voltaram a matar gente.

Note-se que, na região de Londres onde 12% da população é muçulmana, a população das prisões londrinas é constituída por 30% de muçulmanos. E isto tem a ver com a cultura antropológica de origem dos imigrantes (seja da primeira ou das seguintes gerações de imigração), e não com o “meio-ambiente” ou com o “padrão de valores” da “cultura dominante”.

O que esteve subjacente a essa “cultura de perdão” da justiça britânica em relação aos referidos assassinos imigrantes islamitas foi exactamente o tipo de raciocínio (que esconde um racismo paternalista que é um “anti-racismo progressista”) que caracteriza a senhora referida em epígrafe. Aliás, a tese jurídica dela é decalcada da prática do Direito britânico actual.

Por exemplo, o conceito — radical, romântico e de extrema-esquerda — de “crime-de-ódio”, que ela refere no texto: em Inglaterra, por exemplo, se alguém ameaça (apenas verbalmente) outrem de morte, apanha 5 meses de prisão; mas se o ameaçado de morte for guei, então pode passar a ser um “crime-de-ódio” com pena de prisão até 6 anos. De 5 meses a 6 anos é diferença de ameaçar verbalmente de morte um guei.

Todo o texto da referida senhora professora de Direito é um apelo à aplicação em Portugal das políticas inglesas (e do norte da Europa, falhadas) em relação aos imigrantes. A dita senhora nada mais faz do que defender um decalque da ideologia politicamente correcta e multiculturalista que subjaz à relação da justiça inglesa com os criminosos imigrantes.

Segunda-feira, 22 Abril 2019

A ética de Espinoza é logicamente absurda

Filed under: ética — O. Braga @ 4:31 pm
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«É que, deve notar-se, em primeiro lugar, que é em virtude de um só e mesmo apetite que o homem se diz tanto agir como sofrer. Por exemplo, quando nós demonstramos que a natureza humana é constituída de tal maneira que cada um deseja que os outros vivam à sua maneira

(…)

Este apetite, num homem que não é conduzido pela Razão, é paixão, que se chama ambição e não difere muito do orgulho; e, ao contrário, num homem que vive segundo o ditame da Razão, é acção, ou seja, virtude, que se chama piedade»

Espinoza


Vemos, nas duas citações supra, como Espinoza faz uma crítica à Natureza Humana, e depois incorre no tipo de acção que ele próprio criticou anteriormente — por um lado, “cada um deseja que os outros vivam à sua maneira”; e, por outro lado, “quem vive segundo a minha perspectiva é virtuoso”.

A ética de Espinoza pretende recorrer à Lógica para fazer a crítica da Natureza Humana, mas acaba por incorrer no mesmo tipo de incoerência lógica que pretendia criticar. Ou seja, a ética de Espinoza é (intrinsecamente) absurda.

Isto não significa que a ética não deva ser racional; significa, em vez disso, que a ética não se pode reduzir à Razão (como pretendia Espinoza). O ser humano é uma espécie de “sistema aberto”, sobre o qual não é possível um juízo definitivo isento de contradições.

A redução da ética à Lógica (ou a redução da ética à ciência) reduz o ser humano a um determinismo que Espinoza invoca para exorcizar a Graçaao invocarmos a “causa e efeito”, afastamos o nosso medo e calamos a nossa culpa. Para poder abusar da sua liberdade, o puritano necessita adoptar uma doutrina determinista — o determinismo é a ideologia do puritanismo das perversões humanas.

O determinismo de Espinoza seria concebível se não existisse a sua própria noção.

Segunda-feira, 25 Fevereiro 2019

Devemos e podemos criticar Kant, mas não exageremos

Filed under: ética,Kant — O. Braga @ 10:49 pm

 

Diz a professora Helena Serrão :

“Já indiquei que aceito o primeiro ponto, o de que a ética implica a universalidade. O segundo ponto também é indesmentível. A razão tem de ser universal”.

Ou seja, segundo ela, 1/ a ética implica a universalidade, e 2/ a Razão tem que ser universal. O que ela diz também é que não existe uma relação de nexo causal entre a Razão e a ética.


Antes de mais, temos que saber o que significa “Razão”, por um lado, e “universalidade” (intersubjectividade), por outro lado.

A universalidade (em ética) diz respeito a um valor superior (ou um sistema de valores) ou a uma perspectiva susceptível de orientar a sociedade no seu todo. Neste sentido, a universalidade (valor intersubjectivo) de uma proposição (por exemplo, “Todos os homens são mortais”) deduz-se do raciocínio, por um lado, e da experiência, por outro lado. A universalidade de um determinado valor só pode ser um postulado, mas é requerida pela coerência de uma doutrina filosófica — essa coerência não é sinónimo, em si mesma, de “verdade”: apenas significa a coerência de um determinado discurso.

Kant adoptou a “lei de ouro” (imperativo categórico) : “Age unicamente segundo a máxima que permite que possas querer ao mesmo tempo o que se torne em uma lei universal” (Fundamentação da Metafísica dos Costumes); ou seja, a lei moral implica a sua universalidade.

Ou seja: não é porque um determinado discurso é coerente, ou porque um determinado valor é universal, que o primeiro é necessariamente verdadeiro e que o segundo é positivo. A universalidade de um valor ou de um sistema de valores, só por si, não determinam a racionalidade dos mesmos.

A Razão, neste contexto, é a faculdade de julgar bem — neste sentido, a Razão opõe-se à loucura e à paixão descontrolada, e é simultaneamente a priori, por um lado, e baseada na experiência, por outro lado. A Razão é universal.


Segundo o “imperativo categórico” de Kant, por exemplo, não é permitido mentir porque a mentira, entendida como uma lei geral (universal) significaria o fim de qualquer comunicação válida entre seres humanos — se o meu comportamento se pautasse por uma norma que me permitisse mentir sempre que eu quisesse, então seguir-se-ia que todos os outros seres humanos teriam o mesmo direito de o fazer. Porém, se todos podem mentir, ninguém acreditaria em ninguém, e nenhum mentiroso conseguiria o seu objectivo. Neste aspecto, Kant tem razão: aplicada consequentemente a todos os seres humanos, a máxima da “mentira permitida” anula-se a si mesma.

Contudo, ninguém me obriga a ser consequente com o imperativo categórico,  se eu prefiro que os outros sigam normas que não se apliquem a mim próprio. Se eu minto sempre que me apetece, mas simultaneamente desejo que todos digam sempre a verdade, sou perfeitamente consequente com o meu estatuto de oportunista que aplica o imperativo categórico.

¿Quem (ou o que) me impede de colocar o meu bem pessoal acima do bem comum?

Considerar-me a mim próprio uma excepção à norma ética, é uma aplicação consequente e útil do imperativo categórico de Kant. Aqui, a crítica da professora Helena Serrão ao imperativo categórico  de Kant tem alguma razão de ser:

“Todo o agente racional poderia aceitar que a actividade puramente egoísta de outros agentes racionais é racionalmente justificável. O egoísmo puro podia ser racionalmente adoptado por toda a gente”.

Porém, no seu (dela) raciocínio, a professora Helena Serrão parte do princípio de que é legítimo que alguém considere o seu interesse próprio mais valioso do que o interesse do bem comum:

“Todo o agente racional poderia aceitar que a actividade puramente egoísta de outros agentes racionais é racionalmente justificável. O egoísmo puro podia ser racionalmente adoptado por toda a gente. Vejamos a questão de mais perto.

Temos de conceder que há um sentido em que um agente racional puramente egoísta — chamemos-lhe Jack — não podia aceitar os juízos práticos de outro agente puramente egoísta — chamemos-lhe Jill”.

Tal como acontece com a “mentira permitida” e generalizada, o egoísmo generalizado anula-se a si próprio: se toda a gente é exclusivamente egoísta, o egoísmo deixa de existir, enquanto tal, em termos práticos, porque o egoísmo só resulta quando alguém “descuidado” não é egoísta.

Ou seja, ao contrário do que diz a professora, o egoísmo puro generalizado (assim como a “mentira permitida”) não pode ser aceite como uma base racional da acção de todos os agentes racionais — exactamente porque o egoísmo puro generalizado anula-se a si próprio.

Desde Sócrates que sabemos que ninguém faz o mal pelo mal: as pessoas querem sempre um qualquer bem, nem que seja o seu bem exclusivo e egoísta “contra tudo e contra todos”, que não deixa de ser um bem mitigado que, muitas vezes, se opõe ao bem comum.

Mas a Razão (a faculdade de julgar bem, baseando-nos na intemporalidade dos valores racionalmente fundamentados e na experiência humana) impede-nos de aceitar o “egoísmo puro generalizado” como base racional de acção ética — quanto mais não seja porque se anula a si próprio.

Não é racional que eu defenda um tipo de ética que se anula a si própria.

O argumento da professora Helena Serrão (ou de Peter Singer, ou de Desidério Murcho) não serve.

A irracionalidade voltou a estar na moda.

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