perspectivas

Sábado, 7 Março 2015

A irracionalidade da ética do Pedro Galvão (parte I: aborto)

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 1:43 am
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Um tal Pedro Galvão publicou, com o apoio da Fundação da família do capitalista Francisco Manuel dos Santos, um opúsculo com o título “Ética com Razões”. Quando eu verifiquei que o livrinho tinha o apoio do professor secundário de “filosofia” Rolando Almeida e do utilitarista e naturalista Desidério Murcho, desconfiei.  Ainda assim comprei o livreco. Vou aqui comentar as várias partes do dito, começando hoje pela primeira parte: o aborto.

E claro que o dito Pedro Galvão é a favor da liberalização do aborto. Através de uma linguagem ambígua, ambivalente, e mesmo falaciosa, vai levando o leitor “ao moinho dele”.

O argumento forte e principal dele é a noção de “pessoa”.

Trata-se de uma definição nominal, e não de uma definição real. Desde logo, ele divide o conceito de “humanidade” em dois: o conceito biológico de humanidade e o conceito psicológico de humanidade — como se os dois conceitos fossem independentes entre si; como se fosse possível existir psicologia sem biologia. Um absurdo! (Assim manobra o cigano!)

Segundo o seu (dele) conceito psicológico de humanidade, “a pessoa é um agente racional e consciente de si” (pág. 17) — o que retira os doentes de Alzheimer, por exemplo, da condição de “pessoa”; ou, para o Pedro Galvão, um doente em coma profundo não é uma pessoa. Não é racionalmente aceitável que utilizemos determinados critérios existenciais para dizer que um feto não é uma pessoa, e depois digamos que uma pessoa já nascida mas que obedeça a idênticos ou semelhantes critérios existenciais já é uma pessoa.

Nos primórdios do Cristianismo, o cônsul e filósofo romano Boécio definiu assim “pessoa” (“persona”, em latim):

“A pessoa é uma substância individual de uma natureza racional”.

Já na Idade Média, a escolástica católica alterou essa noção de “pessoa” que tinha prevalecido até então. Hugo de S. Victor (morto em 1141), definiu “pessoa” como segue:

“A pessoa é um espírito com consciência de si mesmo”.

Vemos aqui como o Pedro Galvão adopta a noção de pessoa de Hugo de S. Victor, e que a Igreja Católica também adoptou desde a alta Idade Média até hoje! — por isso não se percebe bem como é que a Igreja Católica é radicalmente contra o aborto, não só porque até finais do século XIX a Igreja Católica não condenava o aborto da mesma forma que hoje (só depois do surgimento da URSS, por “coincidência”, é que a Igreja Católica parece ter despertado para o problema do aborto), como ainda hoje as crianças abortadas espontaneamente não têm direito a funeral religioso na Igreja Católica.

A noção de “pessoa” adoptada pela Igreja Católica e pelo Pedro Galvão está errada, e portanto, todo o raciocínio do Pedro Galvão acerca do aborto está errado porque parte de um princípio errado: o de que “uma pessoa é restrita a uma condição em que tem consciência de si mesma”. Segundo esta noção, como disse atrás, um doente de Alzheimer em estado avançado da maleita não é uma pessoa, nem alguém em estado de coma profundo seria uma pessoa.

Ou seja, está certa a definição de Boécio:  “A pessoa é uma substância individual de uma natureza racional”.

“Natureza racional” não restringe a condição da “pessoa” a um determinado estádio da sua vida (seja dentro ou fora do útero), mas antes transforma a “razão”, na pessoa, em uma contingência. A “natureza racional” é um juízo universal, que é contingente, e que se aplica à “pessoa”.

O facto de uma pessoa estar “consciente de si” é uma contingência.

É contingente uma condição ontológica que não é, em si mesma, verdadeira ou falsa, na medida em que se refere a qualquer coisa que tanto pode ser ou não ser. É sempre contingente aquilo que não tem, em si, a sua razão de ser; e a “consciência de si”, no ser humano, não tem em si mesma a sua razão de ser.

Destruindo-se aqui a noção errada de “pessoa” de que parte o Pedro Galvão (e da Igreja Católica), todo o seu relambório livresco e utilitarista não passa de um encadeado de termos em lógica formal sem nenhuma aderência à  realidade.

O que me admira é que gente como o Pedro Galvão tenha apoio do Desidério Murcho para publicar acriticamente livrinhos sobre ética. É o que temos…

Segunda-feira, 2 Março 2015

A Raquel Varela e a prostituição feminina

Filed under: ética,Política,politicamente correcto — O. Braga @ 7:51 pm
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A julgar pelas perguntas que a Raquel Varela faz aqui acerca da prostituição, talvez ela precise de ler o “Tratado da Natureza Humana” de David Hume — não porque  o livro tenha alguma coisa de positivo, mas pelo que ele tem de negativo.

“Dizem por aí que vender sexo é um trabalho como outro qualquer…

A mais velha profissão do mundo é…caçador-colector, pescador, cozinheiro, ama ou cuidador, vigia…A prostituição é histórica, como tudo. Não é natural. E por isso não tem que ser eterna. O sexo, sim, é natural. E também histórico, ou seja, a forma como o vivemos/fazemos muda no seio das relações que vivemos, e com quem vivemos.”

→ Raquel Varela

Podemos perguntar: ¿onde é que a História se desliga da Natureza Humana?

Do que estamos a falar é da Natureza Humana, e não da natureza do mundo animal, em geral. Ou seja, se a prostituição é histórica, então pertence à  Natureza Humana — a não ser que a Raquel Varela faça coincidir a História com a descoberta da escrita, e na medida em que a Natureza Humana não surgiu, como que por milagre, com a descoberta da escrita.

Através da sociobiologia, existe hoje uma tendência para desconsiderar a Natureza Humana enquanto tal, e inserir a natureza do ser humano no contexto do mundo animal em geral (falácia de apelo à natureza).

(more…)

Sexta-feira, 27 Fevereiro 2015

Um ateu tem menos sensibilidade moral do que um cristão

Filed under: ética — O. Braga @ 3:42 pm
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Embora existam vários modelos de ateísmo1, podemos conceber genericamente o ateísmo como a consequência de uma explicação materialista da origem e da evolução do universo e do homem. Ora, se tomarmos em consideração as recentes descobertas da Física, alguém que tenha uma visão materialista do mundo — que inclui o universo e o homem — só pode ser um estúpido, porque nega a própria ciência. O ateísmo é sinónimo de materialismo.

Não devemos confundir ateísmo, por um lado, com agnosticismo, por outro. Com as descobertas recentes da Física, um filósofo ateu (materialista) é uma aberração intelectual; mas um filósofo agnóstico já é intelectualmente tolerável.

dawkins e hitlerQuando falamos em “religiões”, não devemos meter todas no mesmo saco, como se faz aqui — porque, por exemplo, os princípios e valores éticos que norteiam o Cristianismo são diferentes dos princípios e valores que norteiam a religião dos habitantes canibais das montanhas da Papua-Nova Guiné.  Meter as religiões todas no mesmo saco revela estupidez.

Um ateu moderno, por mais que o negue, está eivado de cultura cristã, seja através da cultura antropológica, seja através do legado histórico da Europa. Em princípio, um ateu moderno europeu assimilou alguns valores cristãos através da cultura antropológica em que está inserido.

Quando se diz que “um ateu não é mais propenso à  imoralidade do que um católico”, por exemplo, joga-se com a ignorância (politicamente correcta) do conceito de juízo universal: pelo facto de conhecermos um ateu moralmente íntegro, isso não significa necessariamente que a moralidade dos ateus, em geral, seja equivalente ou superior à  dos católicos. Por outro  lado, há muita gente que se diz “católica” mas que não respeita os valores da ética cristã (na prática, são ateus).

A ética ateísta é responsável pelo maior morticínio de que  alguma vez rezou a História: o holocausto silencioso de milhares de milhões de seres humanos, ou seja, o aborto.

Quando se invoca  um texto de S. Tomás de Aquino em que ele diz que a pena de morte aplicada a um herege é executada pelo poder político e secular, e ao mesmo tempo se invoca um pretensa superioridade da ética ateísta que legitima o aborto como um valor ético — estamos em presença da indigência intelectual e moral da actual Academia.

Nota
1. o materialismo dito “científico”, ou marxismo; o neopositivismo; Nietzsche e os seus seguidores; o Existencialismo ateu.

Terça-feira, 24 Fevereiro 2015

Não há filósofos no CNECV (Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida)

Filed under: ética — O. Braga @ 7:34 pm

 

“O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), órgão consultivo cujo mandato terminou em Julho passado, não faz reuniões plenárias nem emite pareceres desde essa altura, e a escolha da sua nova composição está a revelar-se atribulada, avança o jornal Público.

Ainda em funções, o médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Miguel Oliveira e Silva, que preside ao CNECV desde 2009, diz que o seu substituto vai ser o médico João Lobo Antunes, “um homem inteligente e culto”, mas lamenta que “Portugal, pela primeira vez na história, não vá ter filósofos” neste órgão independente .”

Conselho de Ética para as Ciências da Vida não se reúne desde Julho

Eu acho muito bem que o CNECV (Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida) não tenha “filósofos”. A julgar pela qualidade dos filósofos que vemos por aí, mais vale não os ter.

Quinta-feira, 19 Fevereiro 2015

A Raquel Varela e Fourier

Filed under: ética — O. Braga @ 9:56 am
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O socialismo francês do século XIX teve várias tendências — por exemplo, com Jean Jaurés, ou com Proudhon, ou Saint-Simon — e uma delas foi a de Fourier ou também a de Cabet. Fourier defendia uma sociedade sem concorrência na economia; porém, a moral de Fourier era uma espécie de contabilidade do Deve e do Haver herdada do utilitarismo de Bentham. Todo o socialismo francês do século XIX manteve relações ideológicas estreitas com o utilitarismo de Bentham — a que Karl Marx chamou de “moral de merceeiro inglês”.

O utilitarismo do socialismo francês do século XIX, em geral, só se distingue do utilitarismo de Stuart Mill em aspectos formais, e não no conteúdo propriamente dito.

Vamos a Fourier.

“Vi apenas um escritor civilizado que se tenha aproximado um pouco da definição da verdadeira felicidade: é o Senhor Bentham”

— Charles Fourier, “Nouveau Monde Industriel et Sociétaire” (1829), capítulo 39.

Para Fourier, “a verdadeira felicidade consiste em ter muitas paixões e muitos meios de as satisfazer” (sic, ibidem). Mas, ao mesmo tempo (“sol na eira e chuva no nabal”), Fourier defende a ideia segundo a qual  o fim da sociedade não é a felicidade individual, mas antes é a felicidade colectiva. Comparado com Fourier, Karl Marx foi coerente.

E para chegar à  felicidade colectiva, Fourier diz que é preciso encontrar o meio de satisfazer as paixões de todos [Kant já tinha demonstrado, por a + b, que isso é impossível!]. Se Fourier critica o egoísmo, faz essa crítica em nome do individualismo e do sensualismo. Do ponto de vista da racionalidade da ética e da lógica, Fourier é absolutamente contraditório. Fourier é um hedonista teórico na linha de de Hume e de Mandeville. De todos os socialistas franceses do século XIX, Fourier é o que está mais próximo de Bentham.

A moral de Fourier é, por outro  lado, paradoxal — não tem lógica; é uma espécie de poesia: não compete à  moral servir o interesse (cristianismo), mas antes compete ao interesse servir a moral (gnosticismo escatológico e milenarista) para a construção do paraíso na Terra. Mas, ao mesmo tempo que inverte os termos do fundamento da moral, Fourier defende o princípio utilitarista de Bentham da “maior felicidade para o maior número”.

Fourier não é um asceta: é um hedonista chapado! A moral, em Fourier, supõe a abundância das riquezas; só uma sociedade rica é moralmente digna e uma sociedade pobre é moralmente indigna. Para Fourier, a dignidade do ser humano depende exclusivamente do dinheiro que ele tenha. Fourier acredita que, em uma sociedade de abundância material, os homens deixam de ter razões para ser velhacos, mentirosos ou ladrões — e aqui entra a componente gnóstica e psicótica da fé metastática que acredita na possibilidade de alteração dos fundamentos da natureza humana por intermédio de engenharias sociais.

Naturalmente que algumas pessoas, como é o caso da Raquel Varela que leu “umas coisas” de Fourier quando estudou a história do século XIX, poderão dizer que a utopia de Fourier é anti-utilitarista; mas essa interpretação errada baseia-se na defesa de Fourier de um reino da abundância e de abolição da raridade que deixa sem objecto todo o cálculo de maximização de interesses — o que é um utilitarismo que inverte a lógica do Marginalismo. Na sociedade de Fourier, não há economia: todas as actividades sociais nada mais são do que um puro brincar.



“A forma do que gostamos, do que desejamos, do que vemos e sentimos são menos determinadas pela “liberdade” e mais pelas formas sociais.” — Raquel Varela

Esta é uma proposição gongórica que necessita de ser decifrada.

Em primeiro lugar, não é possível separar a liberdade, por um lado, das formas sociais, por outro  lado.

Entende-se por “formas sociais” a organização da sociedade na sua ordem ética, que influencia a cultura antropológica, a política, e a economia (por esta ordem de valores).

O que tem variado, conforme as modas de cada época, é a noção de “liberdade”; mas a variação de noção de “liberdade” não torna por si só o homem mais livre, ou seja, não é por redefinirmos sistematicamente, ao longo do tempo, o conceito de “liberdade” que nos tornamos mais livres.

Em segundo lugar, as “formas sociais” não determinam a ordem ética preponderante na cultura antropológica (determinismo, ou lógica do formigueiro), mas antes é a ordem ética (os valores que  se escolhem para a ordem da sociedade) que determina as “formas sociais”. Isto ficou bem claro, por exemplo, com a passagem do estertor do império romano pagão e hedonista para a ordem ética cristã da Idade Média.

“A estrutura dos sentimentos – mal-grado quem pensa que os domina – é determinada de fora para dentro e de baixo para cima.” — Raquel Varela

A Raquel Varela está errada, porque tem uma visão determinista do ser humano.

Ela tem uma visão externalista da ética (ver Externalismo). Não é por que uma coisa é desejada (pela sociedade, ou pelo indivíduo) que ela é boa; e também não é por que essa coisa é desejável que ela é boa: pelo contrário, quando uma coisa é escolhida, é supostamente escolhida pelo aspecto de bondade que apresenta.

O problema é o de saber quais os critérios valorativos da escolha da bondade de uma coisa, e esse critério está estritamente ligado à  sensibilidade do ser humano enquanto indivíduo (e não enquanto sociedade ou “formas sociais”), e essa sensibilidade é natural: pode ser, até certo ponto, colmatada com a educação, mas não se aprende na escola. Por isso é que Fourier estava errado.

Segunda-feira, 16 Fevereiro 2015

O problema ético do Ovo de Colombo

Filed under: ética — O. Braga @ 2:31 am
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Temos aqui um exemplo de um utilitarista anti-utilitarista. Hoje está na moda.

Toda a doutrina utilitarista encontra-se condicionada por duas proposições antitéticas ou contraditórias entre si:

  • uma proposição positiva, que diz que os homens devem ser considerados como indivíduos egoístas, calculadores e racionais, e que tudo deve ser pensado e elaborado a partir do seu ponto de vista;
  • e uma proposição normativa, que afirma que os interesses dos indivíduos, a começar pelo meu próprio, devem ser subordinados e mesmo sacrificados à felicidade geral ou do “maior número”.

Todo o utilitarismo mistura, em proporções infinitamente variáveis e dependente apenas da discricionariedade política das elites da sociedade, uma axiomática do interesse e uma axiomática sacrificialista, que é simultaneamente um encantamento pelo egoísmo e uma apologia do altruísmo, e uma tentativa de reconciliar um ponto de vista ferozmente individualista e uma vertente globalizada e holista.

Ou seja: todo o utilitarista é anti-utilitarista conforme os casos e quando lhe convém. É conforme chove ou faz sol.


Se alguém descobre como assentar o Ovo de Colombo em uma mesa, toda a gente fica a saber como se assenta o ovo. Mas antes de se saber, ninguém sabia. E quem se esforçou para ter a ideia do assentamento do Ovo foi o Colombo. Portanto, o Colombo merece ser recompensado pela sua ideia. Mas essa recompensa tem os limites do razoável ou da Razão.

Tratando-se de uma vida humana, os utilitaristas ficam entalados entre a proposição positiva, por um lado, e a proposição normativa, por outro  lado. E tratando-se do capitalismo neoliberal, é sempre e invariavelmente a proposição positiva que vence: a vida humana, segundo os utilitaristas (por exemplo, Peter Singer) tem um preço qualquer.

Só é possível defender a posição do Ludwig Krippahl ou do David Marçal se ambos não fossem utilitaristas; mas, no caso vertente, convém-lhe acentuar a proposição normativa do utilitarismo contra a proposição positiva do dito.

Quanto a mim, seguindo uma ética cristã segundo a qual a vida humana — desde a sua concepção até à  morte natural — não tem preço, em um tempo moderno em que, a partir da Revolução Francesa, a moral foi substituída pelo lucro (como diz Marion Sigaut, o Iluminismo resume-se à   substituição da moral pelo lucro desenfreado), defendo uma ideia diferente: a União Europeia (e não só Portugal) deveria confrontar a farmacêutica com uma proposta razoável: ou baixam o preço do medicamento para níveis aceitáveis, ou desenvolveremos a produção do medicamento na Europa.

Mas como a União Europeia é uma utopia, e como Portugal é um país pequeno, penso que o ministro da saúde Paulo Macedo fez um bom trabalho ao reduzir o custo do tratamento completo da Hepatite C, e por pessoa, para os 25 mil Euros. Mas não veria eu com maus olhos o estudo de rentabilidade e da possibilidade de se desenvolver o medicamento em Portugal, com calma e ponderação, e tendo em vista o futuro. Mas isso sou eu, que não sou utilitarista.

Sexta-feira, 6 Fevereiro 2015

O Tribunal Europeu dos "Direitos Humanos" apoia o tráfico e comércio de crianças.

Em termos simples: o Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos” apoia e fomenta uma nova escravatura: a do tráfico de crianças. O princípio da compra de seres humanos é o princípio que esteve sempre na base da escravatura, em que o ser humano é reduzido a um objecto que se compra e vende.

Um par de italianos (presume-se um casal) comprou uma criança na Rússia por 49 mil Euros e tentou registar a criança em Itália como tendo sido fruto de reprodução natural do casal. As autoridades italianas desconfiaram e fizeram testes de ADN ao bebé, e verificaram que a criança não era do casal. E por isso, as autoridades italianas retiraram o bebé do casal e colocaram-no em uma instituição para adopção.

O casal italiano recorreu para o Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos” que lhes deu razão e condenou o Estado italiano a pagar 30 mil Euros por “danos” (presume-se que “morais”). Ou seja, o Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos” beneficiou o prevaricador: toda a gente ficou a saber que quem traficar crianças terá sempre o apoio do Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”.

Para o Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos”, os direitos humanos não abrangem as crianças. Como as crianças não têm voz própria, não votam e não se podem defender em tribunal, podem ser tratadas como escravas que se vendem e se compram. 

Se é este o Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos” que exerce influência em Portugal, então há que tratar de acabar com essa influência. E para isso só há um caminho: negar a sua jurisprudência, o que significa recusar a União Europeia.

Quinta-feira, 29 Janeiro 2015

Os valores (da ética) não podem ser deduzidos de qualquer utilidade

Filed under: ética — O. Braga @ 9:17 pm
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Os valores (da ética) existem por si mesmos, e não podem ser deduzidos de qualquer utilidade.

Assim, por exemplo, o valor da justiça vale por si, o que pode ser compreendido por cada ser humano. Se fizéssemos depender o valor da justiça de algo que não estivesse — de um modo ou de outro — já incluído no seu significado; se deduzimos o valor da justiça da utilidade ou de uma oportunidade política, o valor da justiça estaria em uma situação muito precária.

Se uma coisa é boa porque é útil, ou é boa porque alegadamente beneficia o indivíduo e/ou a sociedade — então, em relação a um dos familiares que adoeceu na própria casa com uma infecção mortal: ¿é mais correcto abandonar a casa, de modo a não transmitir a infecção, ou cuidar do doente, mesmo que já não exista qualquer esperança?

Para a sociedade, seria mais útil (e a maioria das pessoas certamente que beneficiaria) se, por exemplo, doentes infectados com o vírus Ébola fossem abandonados ao seu destino, para que a causa da doença permanecesse isolada. Recentemente, em África, também seria mais útil para as enfermeiras católicas (as freiras) se se tivessem mantido afastadas, em vez de terem morrido por cuidarem dos doentes.

Terça-feira, 27 Janeiro 2015

Eutanásia é homicídio

Filed under: ética — O. Braga @ 9:12 pm
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“Pessoalmente, acho que decidir ajudar alguém a morrer não deve ser um gesto legitimado pela lei. Deve ficar claramente além da linha divisória, em território de ilegalidade ou de pecado (conforme a perspectiva). Deve ficar entregue à consciência de cada um – à insónia de cada um.

Em Million Dollar Baby, o fabuloso filme de Clint Eastwood, Maggie, uma jovem e ambiciosa pugilista, sofre um acidente no ringue e fica paralisada. O seu velho treinador, que a adoptou como filha, entra dissimuladamente no quarto de hospital onde ela jaz, uma noite, e fá-la morrer. Não pede cobertura legal nem alinha argumentos filosóficos ou morais. Age. Sozinho. Parece-me que é melhor assim.”

Luís Carvalho Rodrigues

¿Por que razão a eutanásia não deve ser legalizada tendo como base casos-limite? Porque os factos não justificam nem fundamentam necessariamente uma norma (falácia naturalista). Por exemplo, o facto de os homens terem naturalmente barba, isso não significa que se faça uma norma obrigando os homens a deixar crescer barba.

eutanasiaAlém disso, se a função do Direito Positivo é a de rectificar (o que existe), seria contraditório que fosse buscar os seus fundamentos naquilo que já existe. Não é porque um fenómeno social existe que se tem que o acomodar na lei ou tornar legal esse fenómeno.

Por exemplo, não é porque uma lésbica tem um filho e vive com outra lésbica (um facto, um fenómeno social que existe) que esse facto justifica necessariamente que se faça uma norma ou uma lei que retire à  criança, através da adopção, o direito à  sua linhagem genealógica de pai e mãe — porque se a norma não se baseia em factos, as normas criam factos: a legalização da eutanásia ou da adopção de crianças por pares de invertidos, criarão factos novos que não poderíamos hoje saber exactamente quais as consequências deles no futuro.

Se a eutanásia não deve ser legalizada — ¿qual é o valor de uma vida humana? —, alguém que tire a vida a outrem, seja em que circunstância for, deve ser sempre tratado pela lei como se tratam os homicidas. O Código Penal prevê categorias diferentes de homicídio e atenuantes que podem ser consideradas. Mas não deixa de ser um homicídio.

Quarta-feira, 21 Janeiro 2015

O nominalismo e o delírio

Filed under: ética,filosofia,Política,politicamente correcto,Portugal — O. Braga @ 4:33 pm
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nominalismo

O nominalismo é uma teoria segunda a qual “nada há de universal no mundo para além das denominações, porque as coisas nomeadas são todas individuais e singulares”. O nominalismo nega a existência dos géneros e das espécies que, alegadamente, não existiriam senão em nome.

Ou seja, o nominalismo defende a ideia segundo a qual as coisas ou objectos da experiência não têm realidade intrínseca fora da linguagem que as descreve. Se eu quiser afirmar que “uma baleia é um cão”, esta minha afirmação é legítima — segundo o nominalismo — porque os dois objectos (a baleia e o cão) não têm realidade intrínseca fora da linguagem que utilizemos. Por isso, para o nominalismo, uma baleia pode perfeitamente ser um cão.

O nominalismo está mais próximo do idealismo moderno (Fichte, Hegel, etc.) do que do racionalismo kantiano, e opõe-se totalmente ao platonismo. Outra característica do nominalismo é a de que tem uma grande dificuldade em reconhecer a noção de juízo universal — o que é uma das características do politicamente correcto.

O politicamente correcto é a expressão máxima possível do nominalismo: a verdade, entendida em si mesma, não existe: a verdade é criada pelo ser humano ao sabor das modas de cada tempo. Para o nominalismo só existem “situações particulares”, e por isso não existe nem bem nem mal, não existe ordem, não existe civilização, não existe natureza humana, nem verdade universal: apenas existe a “necessidade” de alguma coisa.

A realidade concreta não só não existe, como é produto de pura convenção. A realidade inteira é reduzida a uma “construção” arbitrária humana; as ideias não têm qualquer carácter durável e universal: o nominalismo recusa aceitar a intersubjectividade que subjaz ao universal, e reduz todo e qualquer aspecto da realidade a um qualquer signo convencionado (a um nome) que pode ter outro nome diferente já amanhã.

A realidade é vista de uma forma fragmentada, mas essa fragmentação da realidade é intencional — não decorre da natural dificuldade da definição de “realidade”. Aliás, o nominalismo detesta definições; a pior coisa que se pode fazer em relação ao nominalismo é definir o que quer que seja. Não existe “natureza humana” enquanto tal; não existem instituições sociais; não existe ordem política no sentido intersubjectivo e universal; a política está atomizada: o ser humano é um átomo. Não existe verdade política, mas apenas uma corrente da História que não é outra coisa senão “a modificação constante da natureza humana”.

Quando vemos aquela notícia em epígrafe, temos um resumo do nominalismo. Uma imagem vale mais do que mil palavras.

Domingo, 18 Janeiro 2015

A ciência e o sentido da vida

Filed under: ética,Ciência,filosofia — O. Braga @ 5:54 pm
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Quando a ciência — os cientistas — se metem na filosofia, e principalmente na metafísica e na ética, normalmente dá merda: julgam que estão a filosofar quando apenas “opinam”. Confundem filosofia com opinião.

Ter construído um formalismo qualquer não significa tê-lo interpretado; ter tornado eficaz uma ciência não chega para lhe esgotar o conteúdo. Mesmo nas suas formas mais arcaicas, a ciência mudou continuamente o panorama da filosofia, é verdade; mas sem nunca conseguir suplantá-la! A força considerável  da ciência não chega para destruir a filosofia. A filosofia conservará sempre o seu próprio domínio e o seu próprio modo de ser e proceder.

Quando tropeça em um problema de interpretação de uma teoria, o cientista é tentado a resolvê-lo sem rigor, segundo a sua filosofia “espontânea”, ou seja, à  luz unicamente das suas concepções pessoais — um realismo ingénuo ou um positivismo anacrónico. É difícil ao cientista eliminar as aporias que provêm de definições recebidas sem crítica ou de argumentos empilhados de maneira arbitrária.


O Diogo Queiroz de Andrade cita aqui a “explicação” que um apologeta do cientismo — o apresentador da série de televisão “Cosmos” Neil deGrasse Tyson — dá a uma criança acerca do sentido da vida. Diz ele:

“Muitas vezes as pessoas presumem que o sentido da vida é algo que as pessoas podem procurar e encontrar, sem considerar a possibilidade de que o sentido da vida é algo que se cria – para nós e para os outros.”

“Por isso, quando penso no sentido da vida, pergunto-me: aprendi alguma coisa hoje que não soubesse ontem? Isso leva-me um bocadinho mais perto de conhecer os segredos do universo, por mais longe que eles estejam.”

Nesta perspectiva, cada ser humano que se dedique com todo o empenho a uma tarefa leva, de facto, uma vida que faz sentido. Todos aqueles que tentam fazer o melhor da sua vida — por exemplo, “aprender alguma coisa que não soubesse ontem, os segredos do universo” — têm um objectivo à  sua frente e, por isso, um sentido para a sua vida.

No entanto, o que é notório nesta argumentação é a norma subjectiva que é aplicada pelo Diogo Queiroz de Andrade e pelo pseudo-cientista comentador de televisão. De acordo com esta perspectiva, só a própria pessoa pode saber se a sua vida tem ou não sentido.

Como seria a resposta ao “sentido de vida” se considerássemos a vida de Hitler?

Ele tinha, com certeza, a impressão subjectiva de que a eliminação de milhões de seres humanos lhe oferecia uma vida com sentido. O mesmo se poderia dizer de Estaline que criou os Gulag e dormia a sesta profundamente satisfeito no seu sofá no Kremlin.

A impressão subjectiva de levar uma vida com sentido não chega para garantir que essa impressão esteja correcta.

Pelo contrário, tem que se admitir que também devem ser considerados aspectos que transcendem o sujeito, portanto, aspectos que vão para além dele. Por esta razão, deve colocar-se a questão sobre o sentido da vida humana enquanto tal. Mas este é outro assunto com o qual não vale a pena perder tempo com o Diogo Queiroz de Andrade e com o Neil deGrasse Tyson.

Quarta-feira, 14 Janeiro 2015

O libertarismo é um puritanismo

 

O Rui Ramos escreve aqui um artigo ambíguo, ambivalente e até contraditório — porque o fundamento de que parte o seu (dele) raciocínio não é claro e inteligível.

Antes de mais, convém dizer que nada está acima da crítica; nem o Papa. As religiões são susceptíveis de crítica, como é óbvio. Mas temos que definir “crítica”, porque de outro modo não sabemos do que estamos a falar — como acontece com o texto do Rui Ramos.

Em segundo lugar, convém dizer que o homicídio é um acto social- e espiritualmente condenável.


“Crítica” não é a mesma coisa que “humilhação”.

O Rui Ramos não deveria confundir “liberdade de expressão” com “liberdade de excrementação”. Também existe a liberdade de borrar as paredes com grafiti, o que não significa que essa liberdade de excrementação seja necessariamente consentânea com o bom-senso. O bom-senso pode ser definido como o juízo prudente e saudável baseado na simples percepção das situações e dos factos – juízo esse que concede à sociedade um nível básico de julgamentos e de conhecimentos que lhe permita viver de uma forma razoável e segura.

A crítica pode ser, no sentido comum, “denúncia vigorosa” ou “contestação”. Mas é sobretudo a análise dos fundamentos de qualquer coisa ou de qualquer ideia. A crítica remete para uma actividade especial da razão: fazer divisões, discernimentos e juízos. A crítica é também a razão na sua dimensão jurídica: aparece como censor e juiz, separando o trigo do joio, distinguindo o verdadeiro do falso, o bom do mau.

Quando a crítica não obedece a estes critérios, não é crítica: é humilhação. E a humilhação é sempre uma característica de um qualquer puritanismo. A humilhação de outrem é uma característica do puritanismo politicamente correcto.

Diz o Rui Ramos que “o limite da liberdade é a lei”.

Bem, se assim for, na lei da selva, então a liberdade é ilimitada; mas isso não é liberdade, mas antes é libertinagem. Basta que o Código Penal seja reduzido apenas à  condenação do homicídio para que a liberdade seja concebida como um conjunto de actos gratuitos. Longe vão os tempos do Iluminismo e de Kant, que dizia que a liberdade é simultaneamente negativa (a pessoa livre de coacção) e positiva (o cidadão legislador).

Hoje, o libertarismo que o Rui Ramos defende é uma vergôntea do puritanismo que ele próprio critica nos outros: o puritanismo libertário tem a sua própria austeridade e rigidez de princípios que passa, por exemplo, pela sistemática humilhação irracional de outrem — e não pela crítica propriamente dita que deve ser sempre racional.

¿Podemos criticar, por exemplo, o Alcorão? Claro que sim! — mas por razões objectivas, e não com o propósito de humilhar. Uma “crítica” não significa “humilhação”, porque a humilhação é sempre irracional, e a crítica é racional.

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