perspectivas

Sexta-feira, 16 Fevereiro 2018

O Domingos Faria sabe mais de ética católica do que o S. Tomás de Aquino

 

Aristóteles dizia que quando partimos de um princípio errado, todo o nosso raciocínio consequente (por mais “lógico” que seja) está errado. É o caso do Domingos Faria: parte de um princípio errado e por isso incorre (através da lógica mesma) em uma interpretação delirante dos factos.

O primeiro princípio errado é o seguinte: não são os “católicos mais conservadores” ou “mais tradicionalistas” que defendem a ideia segundo a qual o adultério é um pecado mortal: é o próprio Chico a quem chamam de "papa" que defende essa ideia — a não ser que o Domingos Faria venha agora com a ideia peregrina segundo a qual o Chico é um “radical ortodoxo”…!

O adultério é um pecado grave ou mortal na exacta medida em que viola o 9º Mandamento.

O segundo princípio errado do Domingos Faria é o seguinte: ele parte do princípio de que a moral católica se aplica, hoje e necessariamente, a toda a sociedade — o que é falso. A moral católica, hoje como era no tempo de Santo Agostinho, aplica-se aos católicos. Não se deve exigir coercivamente de um pagão moderno que siga a moral católica.

Ademais, o Domingos Faria abusa do conceito de “intenção” (de boas intenções está o inferno cheio) ou de “intencionalidade”. Uma boa intenção pode atenuar um erro, mas não o elimina (S. Tomás de Aquino): o Domingos Faria pensa como um luterano, com a teoria da justificação, em que a moral não é objectiva.

O protestantismo transformou a interiorização do Cristianismo em simples idiossincrasia que permite que perguntemos ao indivíduo pela sua religião, depois de lhe termos perguntado qual a sua côr preferida e qual o seu clube de futebol.


O Domingos Faria deveria saber que a ética católica se distingue, em muito, da ética de Kant, e muito mais da ética intencionalista de Abelardo.

Para o católico, a boa intenção (ou a falta de consciência) é apenas e só uma atenuante — assim como Jesus Cristo disse à mulher adúltera: Vai à tua vida, mas não voltes a pecar!, ou seja, tens atenuantes mas não repitas a receita. Existe em Jesus Cristo uma reprimenda implícita em relação ao comportamento da mulher adúltera. Podemos constatar isto mesmo na ética de S. Tomás de Aquino:

1/ o ser humano tende necessariamente para o seu fim; como todos os seres vivos, tem um arbítrio: move-se por si mesmo e escolhe certos actos entre outros; mas, diferentemente dos outros seres vivos, o Homem é capaz de se representar o objecto do seu desejo na ausência deste, porque pode tornar, ou não, presente um objecto como desejável — e por isso, o arbítrio do Homem é livre (Suma Teológica, I, 59,3);

2/ no Homem, a vontade é um desejo informado pelo intelecto (idem);

3/ a contingência da escolha releva dos juízos racionais que propõem a alternativa dos actos possíveis. Mas, a partir do momento em que o Bem se apresenta ao intelecto, este deseja-o naturalmente — mesmo se mantém a capacidade de se abster! A falta consiste em querer um bem particular que não é o bem devido, e explica-se pela mediação do intelecto: este pode apresentar ao desejo um objecto menos perfeito do que o Bem, e arrastar então o homem para uma escolha desviante (para uma falta). A raiz do pecado reside no intelecto e a liberdade humana consiste em querer o que é racional (o que corresponde a uma ordem cósmica!) — quando o intelecto apresenta ao apetite o Bem verdadeiro e não um bem aparente;

4/ a lei (ética) é uma “ordenação da razão” que tem “em vista o bem comum” para “aquele que tem o encargo de velar pela comunidade”, e “exige promulgação” (Suma Teológica, I,II,90,4). De Deus ao mais humilde homem, passando pelo príncipe, escalona-se toda uma hierarquia de legisladores: cada homem é livre, dotado de uma razão autónoma e legisladora, mas submetida à razão do Legislador Supremo — uma vez que toda a lei exprime a razão divina!;

5/ a lei manifesta-se em três graus: a lei divina, que é sabedoria eterna de Deus; a lei natural, que é a tradução da lei divina na ordem natural; e a lei humana, que é a sua formulação positiva e particular. Neste edifício insere-se a doutrina da virtude: um acto é moralmente bom quando é virtuoso: o vício é contra a natureza. Ora, como o ser humano é racional, o bem moral é aquilo que está de acordo com a razão (Ibidem, I,II,71,2): como em Aristóteles, S. Tomás de Aquino demonstra que a virtude consiste em ordenar as nossas paixões segundo a razão e não em suprimi-las (como defendeu o estoicismo).

6/ cada ser humano está condicionado pelo seu próprio intelecto. Neste contexto, um acto apenas é moral se se conforma com o ditame da consciência. O acto cometido por uma consciência errónea continua a ser mau em si mesmo e distinto daquele que obrigaria uma consciência bem informada. E obedecer à sua consciência errada nada retira à falta prévia de não ter informado a sua consciência: se apenas podemos obedecer à nossa má natureza, temos o dever de a substituir por uma melhor sempre que pudermos.


O exemplo da “provável viúva”, dado pelo Domingos Faria, não “cola”. A lei do Direito Positivo dos “cinco anos de espera da viúva” (ou viúvo) tem origem na tradição católica que seguiu a tradição do Direito romano do tempo de espera do cônjuge provavelmente morto na guerra. Portanto, não se coloca o problema da “presumível viúva que comete adultério”. Na lei católica medieval, um cruzado desaparecido em combate, por exemplo, obrigava a sua esposa a uma espera de cinco anos — salvo se houvesse testemunho fidedigno de que o marido se encontrava cativo dos mouros; de outro modo, ao fim do tempo de espera, a viúva estava livre para casar novamente porque o marido era suposto morto pela própria comunidade.


Quem estudou filosofia, sabe que a tese do Domingos Faria é idiota. Ele pode até perceber muito de lógica, mas contradiz-se quando nega a lógica através de uma defesa da casuística.

O problema da Igreja Católica actual é que gente como o Domingos Faria ou o Anselmo Borges pretende saber mais de ética católica do que S. Tomás de Aquino, por exemplo.


Finalmente: Santo Agostinho não era contra o divórcio e/ou contra o segundo casamento.

Segundo Santo Agostinho:

1/ o divórcio de mulher e homem cristãos (católicos) não é tolerável nem permitido pela Igreja Católica. Mas se um dos cônjuges não for católico e pretender o divórcio do outro cônjuge que é católico (ou vice-versa), a Igreja Católica deve aceitar esse divórcio, por um lado, e permitir que o cônjuge católico divorciado volte a casar, desta vez pela Igreja Católica, com um novo cônjuge católico.

2/ a união sexual do homem e da mulher é natural e é boa. O bem do casamento não é somente a procriação (procriação = colaboração com a obra do Criador), mas é também a união indissolúvel (figura simbólica da união de Jesus Cristo com a Igreja).

3/ a virgindade antes do casamento não é um bem absoluto, mas é “a melhor das coisas boas”: a virgindade é preferível, mas não condição necessária do casamento. O que é um bem em si é o casamento.

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Sábado, 3 Fevereiro 2018

O José Manuel Pureza e a nova versão do PREC [Processo Revolucionário em Curso]

Filed under: ética,Bloco de Esquerda,Esquerda,esquerdalho,eutanásia,utilitarismo — O. Braga @ 10:27 pm

“Nem a eloquência revolucionária, nem as cartas de amor, podem ser lidas por terceiros sem hilaridade.”

— Nicolás Gómez Dávila


Se lermos este texto do José Manuel Pureza, o conteúdo ideológico parece-nos uma espécie de “amanhãs que cantam” aplicados à ética e à cultura. A argumentação do Pureza sobre a legalização da eutanásia é histriónica; e por isso não é a argumentação que interessa analisar agora, mas antes interessa especificar a atitude do Pureza face à Realidade.

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Segunda-feira, 8 Janeiro 2018

A Rute à procura de Agulhas no palheiro

Filed under: ética,Moral,parafilias,Pedofilia — O. Braga @ 7:15 pm

 

Uma gaja que dá pelo nome de Rute Agulhas escreveu isto (via) — ver ficheiro PDF — acerca da hebefilia. Diz ela que um abusador sexual “pode aprender a mudar” “se for devidamente ajudado”. Mas não diz como se ajuda um abusador sexual a deixar de o ser. Diz ela que “a prisão não resolve. Pune e adia comportamentos, mas não os elimina”.

Há, no texto da gaja, um cheirinho a Foucault. E, portanto, um forte odor a marxismo cultural.

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Sexta-feira, 24 Novembro 2017

O consentimento, no processo de eutanásia

Filed under: ética,eutanásia — O. Braga @ 10:34 am

 

O “consentimento” é uma função do Poder.

Só existe verdadeiro consentimento se a relação de Poder (entre duas ou mais pessoas) não é assimétrica ou muito diferenciada entre si.

Esta noção de “consentimento” aplica-se, por exemplo, ao assédio sexual — mas também se aplica à eutanásia.

O dito “consentimento do suicida” é condicionado pelas relações de Poder assimétricas — pela desmoralização da pessoa em causa, pela influência de familiares que pretendem ficar com heranças, pela sensação de que se é um fardo para a sociedade, pela não existência de cuidados paliativos, pelo isolamento social do idoso ou doente, pela psicopatia de quem cuida da pessoa, e por outro tipo de pressões.

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Sexta-feira, 10 Novembro 2017

A ambiguidade ambivalente do Anselmo Borges

 

« When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa. » — Eric Voegelin


O Anselmo Borges resolveu fazer uma análise política da situação portuguesa. Escreve ele :

« Diz-se frequentemente: "Já não há valores." Não penso isso. O que se passa é que se inverteu a pirâmide dos valores e corre-se o risco de o valor dinheiro se tornar o valor e a medida de todos os valores. Onde está a honra, a dignidade, o valor da palavra dada, a solidariedade, a família como esteio que segura os valores, a escola que forma pessoas íntegras e, assim, bons profissionais, alguns princípios orientadores de humanidade e para a humanidade? »

A SIDA espiritual


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Para alguém que defendeu a legalização do aborto (como é o caso do Anselmo Borges: ver ficheiro PDF do jornal Púbico de Dezembro de 2003), por um lado, e por outro lado para quem defendeu que os abortos deveriam ser grátis e pagos por todos os portugueses — segue-se, então, que a tese do “valor do dinheiro” do Anselmo Borges perde força moral: é que não podemos “dar uma no cravo e outra na ferradura”, e depois assumir que o povão é burro.

A legalização do aborto, que o Anselmo Borges defendeu, é a maior manifestação possível de uma cultura do “valor dinheiro” que o Anselmo Borges agora recrimina. Como escreveu o poeta:

“O aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato. É um roubo… Nem pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo. O aborto é o roubo infinito” (Mário Quintana).

Tal como acontece com o chefe dele (o Chico Burrico), o Anselmo Borges joga sistematicamente, no seu discurso, com a indução de ambivalências (Estimulação Contraditória) através de uma ambiguidade deliberada, pensada e propositada. O Anselmo Borges é muito perigoso. No passado recente defendeu a “promiscuidade espiritual” (defendeu uma cultura de materialismo abortista), e agora critica a “SIDA espiritual”.

Por fim: ao contrário do que escreve o Anselmo Borges (“considero a actividade política uma actividade nobre, das mais nobres”), a política é tudo menos uma actividade nobre — dada a natureza antipolítica da Verdade. Infelizmente, Hannah Arendt tem razão. Uma actividade que é intrinsecamente contra a verdade não pode ser “nobre” senão na mente esclerosada do Anselmo Borges.

Quarta-feira, 1 Novembro 2017

As elites actuais negam que a Natureza Humana seja universal e imutável

O sistema político coloca jovenzinhos a defender o indefensável; são os novos jornaleiros dos me®dia, totalmente manipulados pela ilusão da falácia ad Novitatem segundo a qual “tudo o que é novo é melhor do que é velho”. O jornalismo actual vive da ignorância, como é o caso, por exemplo, desta Marta F. Reis; e quanto mais ignorante e estúpido, melhor é o jornaleiro de serviço.

E depois temos gente radicalmente venenosa, como é o caso do João Semedo (Bloco de Esquerda); e tecnocratas ignorantes que assaltam o Poder, como é o caso de Rui Rio (Partido Social Democrata). Gentalha desta espécie representa o Poder globalista que determina os rabiscos do jornalismo ignorante da laia da Marta F. Reis(more…)

Segunda-feira, 23 Outubro 2017

O tabu totalitário da proibição de tabus

 

“O impacto da ciência sobre a religião aconteceu no século XIX. O que acontece actualmente é o impacto da Técnica sobre a imaginação dos imbecis.” → Nicolás Gómez Dávila

O estado de degradação cognitiva das elites (a chamada “ruling class”), a que se chegou na nossa sociedade, é directamente proporcional ao aperfeiçoamento da Técnica. Verificamos hoje que, há mais de dois mil anos, Platão tinha razão quando opôs a Ciência à Técnica; a mentalidade moderna não é inventora da Técnica, mas antes é inventora dos fins que a pervertem. Para não pensar o mundo que a Ciência descreve, o Homem embebeda-se com a Técnica.

“A Técnica não cumpre os velhos sonhos do Homem, mas antes substitui-os manhosamente”.
→ Nicolás Gómez Dávila


Desde a entrada em vigor da legislação sobre gestação de substituição, a 1 de Agosto deste ano, há um pedido de celebração de contrato. Trata-se do caso em que uma mãe, de 49 anos, se propôs ser gestante do neto, uma vez que a filha não tem útero. Depois de uma deliberação favorável do CNPMA, o processo aguarda o parecer da Ordem dos Médicos”.

Debate clínico, jurídico e ético


“Os três inimigos do Homem são: o Diabo, o Estado e a Técnica.” → Nicolás Gómez Dávila

Fez-se uma lei que viola as leis da Natureza em nome da Técnica e de um putativo “progresso”, para servir um punhado de casos (ou melhor: 1 caso só, até hoje): o tabu da cultura que as elites nos impõem hoje é o da proibição de tabus (e uma cultura sem tabus é um círculo quadrado), o que conduz a sociedade a um totalitarismo — porque os tabus são formas que a cultura antropológica encontra de reconciliação do ser humano com a Natureza, por um lado, e com sobrenatural, por outro lado; e sem o conceito de “sobrenatural” não é possível criticar cabalmente o Poder político e/ou o Estado.

“O técnico acredita que é um ser superior, porque sabe o que — por definição — qualquer um pode aprender.”
→ Nicolás Gómez Dávila


“Helena Pereira de Melo, professora de Direito da Saúde e Bioética na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, defende que “não existem leis nem boas nem más” e que tudo depende da ‘forma como forem aplicadas’”.

A degradação cognitiva das elites produz pérolas deste calibre: “não existem leis nem boas nem más” e que tudo depende da ‘forma como forem aplicadas’”.

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Só uma besta com duas pernas poderia defender a ideia segundo a qual “não existem leis nem boas nem más”. Razão tinha o Olavo de Carvalho quando inventou o conceito de Imbecil Colectivo. Uma lei é uma norma, ou seja, é o critério ou princípio que rege a conduta ou o comportamento, ou ao qual nos referimos para fazer um juízo de valor; e é "normativo" qualquer juízo ou discurso que enuncie tais princípios.

A ideia segundo a qual “não existem normas boas ou más” é de um relativismo moral absoluto. E são idiotas desta espécie que estão à frente do nosso destino enquanto sociedade.

“A Natureza, para não perecer nas mãos da Técnica, refugia-se na imaginação de alguns homens.” → Nicolás Gómez Dávila

A lei da "barriga de aluguer" institui um direito negativo — ou seja, institui o direito que a Mulher passa a ter e que consiste em não recorrer à "barriga de aluguer".

Esse direito negativo — entre muitos outros, como por exemplo o "casamento" gay — serve para destruir o edifício do Direito Positivo escorado no Direito Natural, não só porque (o direito negativo) adequa a norma ao facto (e o facto não produz Direito, embora o Direito possa produzir factos), mas também porque transforma o Direito em um conjunto de normas que traduzem a arbitrariedade caprichosa das novas elites gnósticas que nos governam, fazendo com a que a aplicação da lei, muitas vezes, se transforme em um acto gratuito.

Sábado, 21 Outubro 2017

As contradições do David Benatar e do anti-natalismo

Filed under: Anti-natalismo,ética,David Benatar,niilismo,utilitarismo — O. Braga @ 8:19 pm

 

As pessoas que abraçam ou adoptam o Utilitarismo são as mais patéticas que poderiam existir.

manguito-webPorém, o mais estranho é que se considere o Utilitarismo uma filosofia, no sentido em que os seus especuladores sejam considerados “filósofos” — como é o caso de Peter Singer, e no caso vertente, de um idiota que dá pelo nome de David Benatar e que (desgraçadamente) é professor de filosofia em uma universidade da África do Sul.

Benatar vai mais longe do que Peter Singer, na medida em que o primeiro defende a ideia de que “todas as pessoas não deviam ter nascido” — mas ele ainda não se suicidou, para mal dos nossos pecados. Ou, pelo menos, ele pensa que as pessoas não devem ter filhos; e chama a essa teoria “anti-natalismo”. Peter Singer não foi tão longe.

Uma das características (tanto de Peter Singer como de Benatar e de todos os utilitaristas) do Utilitarismo é a capacidade que os utilitaristas têm de saber quanto vale uma vida humana (em geral); eles conseguem fazer o cálculo do valor da vida humana — quando, em geral, não existe um consenso sobre quanto vale uma vida humana.

Benatar baseia a sua teoria, literalmente, em Bentham e no cálculo de prazeres e dores (epicurismo). Um utilitarista é, desde logo e na melhor das hipóteses, um epicurista moderno.

Este texto de Benatar (que dizem ser um ensaio) está repleto de contradições — a começar pela estória de um indivíduo que lhe escreveu uma carta em que se queixa de que é muito feio e que, por isso, é desprezado pela comunidade; e, para além disso, tem uma doença cardíaca congénita e tem um enorme medo de morrer a qualquer momento. Ou seja: por um lado, esse indivíduo acha que não deveria ter nascido; mas, por outro lado, tem medo de morrer.

Outra contradição fundamental e primária é a de Benatar pensar a sua (dele) própria não-existência.

Kant defendeu a ideia segundo a qual um ser humano é, em geral, mais ou menos (dependendo dos indivíduos), responsável no sentido moral; e para que um ser humano tenha a possibilidade de ser responsável moralmente, tem que ter uma autoconsciência contínua — o que não significa que necessite dessa autoconsciência para ser considerado “pessoa”.

Em função dessa autoconsciência contínua, o desempenho mais importante é, sem dúvida, a formação de juízos: sem pensamento não existe qualquer filosofia e/ou qualquer ciência. A autoconsciência contínua é a condição lógica da nossa percepção do mundo, porque sem os seus juízos não saberíamos se, e como existe o mundo, incluindo o ser humano.

A reflexão de um ser humano acerca de si próprio leva-o ao reconhecimento da existência de um mistério insondável no qual se baseia o Mundo, e também o Eu do ser humano: o Eu (do ser humano) transcende infinitamente o pensamento, e é uma forma de manifestação daquilo que engloba o sujeito e o objecto. Por isso é que se revela necessário um enorme número de conceitos para descrever a Realidade, à qual, em última análise, só tem acesso cada ser humano individual (enquanto indivíduo).

A ciência descreve as coisas a partir da perspectiva da terceira pessoa; mas a autoconsciência contínua do ser humano só pode ser descrita adequadamente a partir da perspectiva da primeira pessoa (subjectividade). Esta é uma das razões por que é estúpido pretendermos saber ou afirmar o valor da vida dos outros.


Schelling chamou à atenção para o facto de não ser possível pensar a subjectividade sem contradições — porque a subjectividade é “circular” (do sentido de “redundante”), em si mesma (auto-referencialidade, ou referência circular). Por exemplo, a seguinte frase:

“Houve um tempo em que eu não vivia, e haverá um tempo em que não viverei”.

Tentando imaginar a minha própria não-existência, tenho que produzir uma imagem de mim próprio, como se eu fosse outra pessoa. No entanto, é óbvio que não podemos saltar para fora de nós próprios, de forma a pensarmo-nos a partir do exterior. Se me penso a partir do exterior, não me penso a mim; e se me penso a partir do meu interior não posso pensar como seria não existir.

É esta contradição que deita por terra toda a teoria da apologia da não-existência do burro Benatar que, por acaso, é professor universitário de filosofia.

Sábado, 30 Setembro 2017

Deduzo que o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada pensa que S. Roberto Belarmino não tinha razão

 

“Tanto quanto está autorizado a resistir a um Papa que comete uma agressão física, do mesmo modo que é permitido resistir-lhe se faz mal às almas ou perturba a sociedade e, com mais forte razão, se procurasse destruir a Igreja — é permitido, digo, opôr-se a ele não cumprindo as suas ordens e impedindo que a sua vontade seja realizada.

Não é lícito, contudo, julgá-lo em tribunal, impor-lhe punição, nem o depor, pois estes são actos próprios a um superior”.

→ São Roberto Belarmino, “De Romano Pontifice”, Livro II, Capítulo 29.


O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada pensa que não se deve resistir ao papa “se este faz mal às almas ou perturba a sociedade e, com mais forte razão, se procurasse destruir a Igreja”.

Um grupo de católicos, seguindo a opinião de S. Roberto Belarmino, não cumpre as ordens do papa Chico e impede que a sua (dele) vontade seja realizada no que diz respeito a uma determinada encíclica que é clara- e evidentemente permissiva em relação ao adultério.

O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada esconde-se por detrás da definição nominal canónica de “heresia”, esquecendo-se de que, sob o ponto de vista figurativo e simbólico, “heresia” significa também “acção ou palavra ímpia, sacrílega, disparate, absurdo”. Por exemplo, quando o Chico diz que “é mais importante o acolhimento de imigrantes do que a segurança das populações autóctones”, estamos perante um disparate que até um burro pode verificar — mas o Padre recusa-se a ver. Pior que um burro, é o “cego” que não quer ver.


A condenação do adultério faz parte dos Mandamentos não só do Judaísmo, mas também do Cristianismo, para além de outras religiões que também o condenam, como por exemplo, o Budismo. Neste sentido, podemos dizer que a condenação do adultério é dogmática — no sentido em que não se discute teologicamente, por ser teológica- e racionalmente consensual. Colocar em causa a condenação (ética e teológica) do adultério é, por analogia, como colocar em causa os Primeiros Princípios: as evidências não se questionam. Neste sentido, colocar em causa, explicita- ou implicitamente, o dogmatismo da condenação católica do adultério é uma forma de heresia.

Santo Agostinho distingue a “lei eterna” (pensada de acordo com o modelo dos estóicos), por um lado, da “lei natural”, por outro lado.

A lei eterna (a lei de Deus) desmultiplica-se e permanece idêntica a si mesma (apesar da passagem do tempo), inscrevendo-se como lei natural em cada consciência humana à maneira de um anel de cera (De Trinitate, XIV, xv, 21). Santo Agostinho assume assim a identidade entre a Lei Natural e a Lei de Moisés (os Mandamentos), e procede a uma nova divisão do Decálogo que foi aceite pela teologia romana, e depois pela luterana, estruturando as Sumas dos confessores da Idade Média. O número 6 do Decálogo de Santo Agostinho é a proibição do adultério.

Ora, o papa Chico mandou Santo Agostinho às malvas. E o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, de uma forma corporativista e desafiando a opinião de S. Roberto Belarmino (sim!, porque o Padre é muito mais importante que o Santo!), ataca quem critica o Chico. Ora, nem o papa está acima de críticas.

Quarta-feira, 5 Julho 2017

O grau zero da ética

Filed under: ética,Desidério Murcho,filosofia,Peter Singer,Rolando Almeida — O. Braga @ 7:00 pm

 

Quando nós temos gente miserável, do ponto de vista ético, a dar aulas de filosofia aos nossos filhos ou netos, deparamo-nos com artigos destes ilustrados com imagens como esta aqui em baixo:

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O problema ético da obesidade, segundo o Rolando Almeida (que segue o guru Peter Singer), são os “custos extras”.


Bobbi-Jo-Westley-webPodemos inferir do “raciocínio” do Peter Singer (que o Rolando Almeida venera) que “se a obesidade não tivesse custos extras” — por exemplo, se existisse a eutanásia compulsiva para os obesos — “não haveria qualquer problema ético com a obesidade”. E nada vale ao Rolando Almeida meter o Desidério Murcho na “cumbersa” — porque se o Desidério Murcho pensa da mesma maneira que o Rolando Almeida, é tão sabujo quanto ele.

Vemos, por exemplo, aqui ao lado a foto de uma mulher que pesa 250 kg e diz que se sente orgulhosa em ter as ancas mais largas do mundo com 2,41 metros.

Basta olharmos para ela para percebermos intuitivamente que o problema dela não são os “custos extras”; qualquer pessoa mentalmente saudável — que não seja o Rolando Almeida ou o Desidério Murcho — percebe intuitivamente que o problema dela é o da sua própria saúde, e que o valor da saúde dela está antes (vale mais do que) de qualquer custo material que possa existir em relação à sua condição existencial.

Por outras palavras: não existe qualquer consenso sobre quanto vale uma vida humana — mas o Peter Singer, o Rolando Almeida e o Desidério Murcho, entre outros, já fizeram as contas e já sabem quais são os “custos extras” de uma qualquer vida humana.

O problema acontece quando nos calha a nós próprios. O Peter Singer andou décadas a dizer que a vida dos doentes de Alzheimer não valia a pena ser vivida, mas quando a mãe dele contraiu a doença de Alzheimer, Peter Singer contratou as melhores enfermeiras para estarem com ela 24 horas por dia. E é este filho-de-puta incoerente que é adorado por “professores de filosofia” que escrevem livros, mas que têm um défice cognitivo evidente.

Reduzir os valores da ética aos “custos”, é de um cinismo inqualificável; ou é próprio de um mentecapto.


O verbete do Rolando Almeida em ficheiro PDF

Segunda-feira, 12 Junho 2017

¿O que é a “felicidade”?

Filed under: ética,Kant,metafísica,Santo Agostinho — O. Braga @ 8:32 pm

 

“Penso que o ser humano é um eterno insatisfeito. Isto porque é habitual ele ambicionar tudo o que possa dar-lhe algum prazer na vida; só que depois de ter conseguindo adquirir o que no seu querer estava traçado, decorrido algum tempo inventa ou cria uma nova necessidade que o vai levar a um novo objectivo, que no fim também o não irá satisfazer cabalmente; então, prosseguirá nesta condição sedenta até que a senilidade, a loucura ou a morte, lhe batam à porta”.

UMA BOA QUESTÃO…


Se perguntarmos a uma pessoa (qualquer que seja) ¿o que é a felicidade?, ela não saberá dizer o que é. A felicidade não tem uma definição: nem colectiva, nem individual (assim como não podemos definir “realidade”).

O “direito à felicidade”, como justificação para as engenharias sociais (que o papa Chico aprova) que têm a ilusória pretensão de alterar a natureza humana, é uma das maiores fraudes éticas, ideológicas e políticas da modernidade.

Toda a ética que inclui na sua teoria o “direito à felicidade” (seja a felicidade individual, seja colectiva), é uma ética falsa e absurda. E toda lei positiva que preveja o “direito à felicidade” como seu fundamento, é um contra-senso que tem a sua origem em um sistema ético absurdo.

Santo Agostinho observou (e bem!) que todos os homens desejam ser felizes, e a felicidade define-se (no sentido comum) pela obtenção do maior prazer. Porém, a diversidade de objectos que os homens têm em vista no sentido de atingirem a mais elevada satisfação, revela bem que este desejo existe sem que o seu verdadeiro objecto, útil, utilitarista e prático [de felicidade], lhe seja claramente dado: “Todos querem ser felizes, mas nem todos procuram viver do único modo que permite viver feliz” através do amor a Deus: “quem sabe amar-se, ama a Deus”.

Kant pegou nesta ideia de Santo Agostinho e desenvolveu-a com requinte.

1. O desejo humano em relação aos objectos do mundo (o tal “direito à felicidade” que implica uma conduta interessada) não é compatível com a ética e com a moral, a não ser por puro acidente — se for uma motivação sensível (o desejo) a comandar o estabelecimento de uma norma (lei positiva ou regra moral), então qualquer mudança no objecto de desejo e de satisfação implica ipso facto uma reviravolta da conduta.

2. O “direito à felicidade” não se pode traduzir em uma lei prática ou regra moral. A ideia que cada ser humano tem de “felicidade” é uma ideia absoluta — que satisfaz em sumo grau o máximo de inclinações no decurso de uma duração indeterminada.

Porém, o que acontece na realidade concreta, é que a experiência humana da satisfação das inclinações individuais, é fragmentária, contingente e parcial. Logo, existe uma contradição entre a exigência de felicidade, por um lado, e a experiência humana concreta relativamente ao conhecimento dos elementos que a produzem, por outro lado.

Ou seja: para que o homem pudesse ser feliz, teria que ter ao seu dispor exactamente o oposto do conhecimento empírico e contingente dos meios para satisfazer a exigência de felicidade: o ser humano teria, neste caso, que ser Deus — o que é uma impossibilidade objectiva.

Os homens querem ser felizes, mas não sabem exactamente o que querem para ser felizes — Kant corrobora Santo Agostinho —, exigência que apenas a religião, mesmo nos limites da razão, pode satisfazer.

Uma vez que a ética deve ser universal (a ética é para todos), e que o Direito não deve reduzir a norma ao facto, o “direito subjectivo à felicidade” de cada ser humano não pode fundamentar uma regra ética (ou parte dela) nem uma lei positiva.

O “direito subjectivo à felicidade” é um ideal de imaginação (de cada indivíduo), e não um ideal da razão.

O “direito à felicidade da sociedade” é uma ficção. Uma regra moral é apenas objectivamente válida na ordem prática, da mesma forma que uma lei positiva é válida na ordem teórica — na medida em que uma regra moral se impõe sem condições contingentes e subjectivas (ou seja, uma regra moral, sendo universal, não pode depender da experiência isolada, das ficções e dos ideias de imaginação dos indivíduos).


O que está a acontecer na sociedade europeia (e não só) é uma tentativa de destruição do Estado de Direito através da pulverização das normas legais, reduzindo-as aos factos. E é sobretudo uma tentativa de destruição da ética através de uma atomização da sociedade, traduzida na recusa da universalidade da ética sob pretexto de que “cada indivíduo tem o direito” de ver o seu “direito à felicidade” traduzido nas regras morais, transformando a ética exactamente no seu contrário. E quem está por detrás desta tentativa da destruição do direito e da ética, são os promotores dos novos totalitarismos que se anunciam.


“No entanto, a insatisfação do ser humano é a força motriz que o impulsiona para os complicados meandros da ciência, com vista a reduzir o seu esforço físico e intelectual e encarrilar pelo itinerário materialista com vista à supremacia; no fundo, a sua verdadeira paixão.

A insatisfação obriga à invenção, seja do que for. Esse descontentamento é, indubitavelmente, a alma da criatividade e do talento que constituem o cadinho de onde é derramado todo o progresso até hoje conhecido.”

ibidem

É um erro pensar que por detrás das descobertas da ciência está “o desejo de felicidade”.

Quem estudou alguma coisa da filosofia da ciência (epistemologia) sabe que o avanço da ciência se deve à imaginação como faculdade do espírito (e que é independente do “desejo de felicidade”) — a imaginação não é simples imitação do real por imagens: consiste em produzir representações e, por isso, pressupõe uma actividade do espírito. Esta actividade não consiste apenas no facto de se representar objectos ou seres ausentes: consiste também na possibilidade de combinar as ideias ou de antecipar acontecimentos, e mesmo na faculdade de nos fazermos representar no que não existe (ou ainda não existe), ou seja, na imaginação criadora.

Podemos dizer, contudo, que a imaginação não cria verdadeiramente, mas antes que ela inventa combinações novas com elementos dados. No entanto, é necessário que as combinações sejam completamente livres. A imaginação criadora manifesta a liberdade do espírito que se confunde com a faculdade humana que “ir para lá” do dado, de pensar o ausente, o passado, o futuro e o possível — independentemente do desejo de felicidade.

O Anselmo Borges tem a mente cristalizada no sistema triclínico-positivista

 

"Pensa-se , de facto, de modo geral, que as religiões caem do céu, havendo até quem julgue que Deus revelou directamente verdades , nas quais é preciso acreditar sem razões…

A fé, no seu nível próprio, tem razões, de tal modo que está sujeita a verificações.

Há Teologia, precisamente porque a fé exige debate público."

Anselmo Borges

( "Francisco – Desafios à Igreja e ao Mundo ")

Não sei se esta citação é do Anselmo Borges ou se é do Chico. Parece ser do Anselmo Borges acerca do Chico. Seja como for, esta citação vem de uma mente relativamente estúpida, na medida em que se pretende “intelectualizada”.


É claro, para mim, que “Deus revelou directamente verdades”, para quem as consegue vislumbrar.

Por exemplo, o teorema de Pitágoras (h^2=a^2 + b^2) é verdadeiro se aplicado a um triângulo recto; podemos dizer que o teorema de Pitágoras é uma “verdade revelada directamente por Deus”. Ou os números primos, por exemplo: quem os descobriu não os inventou, porque os números primos são axiomáticos e são revelados directamente por Deus aos homens com um QI superior ao do Chico.

Ou: “Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.” (Leibniz).

O resultado do teorema de Pitágoras é um facto provido de uma razão suficiente, razão essa que é axiomática, e que por isso acreditamos nela sem razões que a fundamentem do ponto de vista da causalidade científica. E aquilo que é axiomático não pode ser debatido publicamente: não cabe na cabeça de um qualquer careca (nem na do Anselmo Borges) que se discuta publicamente se o teorema de Pitágoras é verdadeiro ou falso.


Portanto, a ideia do Anselmo Borges — ou do Chico — segundo a qual “Deus não nos revelou directamente verdades”, só pode vir de um mentecapto, de alguém que tem uma mente cristalizada no sistema ortorrômbico, ou no sistema triclínico-positivista.

Nós partimos da fé para a razão (como diz o S. Anselmo de Aosta), e não da razão para a fé (como diz o Anselmo “Bosta” Borges ). O que é fundamentado racionalmente (as tais “verificações” de que fala o Anselmo “Bosta” Borges) são os valores da ética, e não a fé. A fé é confiança em Deus, e esta não depende de qualquer fundamentação racional; e por isso não depende de qualquer debate público.

O Anselmo Borges faz uma confusão diabólica entre “valores da ética”, por um lado, e “fé”, por outro lado.

Por exemplo, o que eu critico no Islamismo é a ética muçulmana (baseada na Sharia) que é demoníaca — e não a fé do muçulmano. Há que distinguir entre a fé do muçulmano e os valores da ética exarados na Sharia.

O que está sujeito a verificação são os valores da ética, e não a fé propriamente dita. E o que exige debate público é a ética subjacente a uma determinada religião, e não propriamente a fé. Vê se aprendes, Anselmo Borges, seu burrinho!.


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