perspectivas

Quinta-feira, 21 Maio 2015

Um recado para os aprendizes de filosofia

Filed under: filosofia — O. Braga @ 5:14 am

 

Não podemos confundir filosofia e ciência. A ciência teve sucesso exactamente porque se restringiu à análise de um pequeno segmento da realidade, dependendo de cada ciência. A filosofia tem como objecto toda a realidade possível de discernir. A filosofia é holística; a ciência é especializada.

Também não podemos misturar filosofia e religião. A religião pode ter a filosofia e/ou a lógica como fundamentação racional, mas a religião pertence ao domínio da que é um modo especial de crença que se baseia em uma certeza da verdade.

De modo semelhante existe uma diferença entre metafísica, por um lado, e teologia, por outro lado.

Misturar indiscriminadamente estes conceitos em um mesmo discurso não é racionalizar ou filosofar: é emissão de simples opinião.

Domingo, 10 Maio 2015

A verdade científica é uma crença, embora de grau superior

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:46 am
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“Crença” remete para o grau mais fraco do assentimento, ou da opinião — por exemplo, “creio que a verdade está na ciência” —, ou para um conhecimento propriamente dito, de origem externa e transformado em hábito — por exemplo, toda a gente “acredita” que a Terra é redonda. Ou seja, a crença pode portanto referir-se a uma “verdade” científica adquirida e que não é colocada em questão.

Não é por que a ciência defende uma determinada posição como sendo “verdadeira” que essa posição deixa de ser uma crença. Quando eu vejo gente como a Helena Damião ou os outros do Rerum Natura escrever coisas destas, fico com os cabelos em pé:

“As crenças são ideias a que nos afeiçoamos e que tomamos por verdades, ainda que não tenham suporte científico ou, mesmo, lógico. Fazem parte de nós, precisamos delas; sem crenças a nossa vida seria pouco interessante… Mas elas têm um lugar, e é nesse lugar que as devemos manter. Se queremos estudar física, antropologia, filosofia ou pedagogia é preciso estarmos muito atentos ao que pensamos e perguntarmos com frequência: será uma crença ou será um dado objectivo?

Em todas as áreas do saber que exigem objectividade, mesmo aquelas que se afirmam robustas, as crenças rodam e, sempre que podem, insinuam-se como certezas (é esta a sua tendência), há que ter uma permanente atenção a isso mesmo.”

A crença da Helena Damião, expressa na citação supracitada, não passa disso mesmo: uma crença. A crença pode referir-se a uma “verdade objectiva” — sendo que “verdade objectiva” é sinónimo de “verdade intersubjectiva”, porque não existe objectividade sem ser corroborada.

As “verdades” constatadas pela ciência são crenças de grau superior, mas não deixam de ser crenças; e são crenças de grau superior apenas na medida em que se baseiem no experimentalismo. Mas mesmo a verdade no experimentalismo — por exemplo, com Roger Bacon — é sustentada pela indução por enumeração simples. Stuart Mill formulou quatro regras de método indutivo, mas essas regras só são úteis se aceitarmos a lei da causalidade 1 ; mas esta lei tem como base a indução por enumeração simples 2 : ou seja, Stuart Mill pouco adiantou em relação ao método indutivo de Bacon.

Filósofos como por exemplo Karl Popper insistiram no “círculo vicioso” da indução evocando, por exemplo, o princípio da regularidade dos fenómenos naturais, que é em si mesmo um princípio geral que, portanto, não pode ter sido estabelecido indutivamente. Karl Popper tira daqui o argumento para recusar à ciência fundar-se na indução.

Portanto, o experimentalismo, por si só, não é suficiente para determinar qualquer “verdade objectiva”, embora a “verdade científica” seja uma crença de grau superior.


Notas
1. “Todo o fenómeno tem uma causa”.

2. Por exemplo, um antropólogo vai a uma aldeia portuguesa verificar quantas mulheres têm “Maria” no seu nome. Maria Isabel, Ana Maria, Maria Antónia, Maria Inês, Paula Maria, Maria Josefina, etc., e ao fim de 100 Marias, o antropólogo, assumindo o método de indução por enumeração simples, resolve encerrar a investigação, embora ainda faltassem investigar cinco mulheres; e uma das cinco que faltavam na investigação chamava-se Ambrósia Joaquina.

Sexta-feira, 1 Maio 2015

A Forma: Platão, Aristóteles e Avicena

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:26 pm
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A diferença entre Platão e Aristóteles no que respeita ao conceito de “mimesis” tem a ver com diferentes concepções da política. Aristóteles considera a ética como ramo da política; Platão considera a política como vergôntea da ética. Neste aspecto estou mais próximo do segundo do que do primeiro.

Platão considera — e com alguma razão — que o impacto do apelo emocional inerente à representação artística (mimesis) na populaça retira algum discernimento e racionalidade à ética e, em consequência, à política. É neste contexto que Platão critica Homero, e defendia mesmo que Homero fosse proibido — ao contrário do que se diz por aí, nunca Platão defendeu que os livros de Homero fosse queimados.

Há que escolher: ou você acha que a ética é consequência da política (Aristóteles), ou você acha que a política é consequência da ética (Platão). Esta é a grande diferença entre os dois que se reflecte na forma como a representação artística é concebida.

De resto, Aristóteles não colocou de parte a “teoria das ideias” de Platão que está na base do problema dos universais. Aristóteles tem a este respeito duas concepções: uma, quando pensa; e outra, quando se opõe a Platão. Mas quando Aristóteles pensa por si mesmo, não difere grande coisa de Platão.

A teoria das ideias e os universais estão na base de uma certa aversão de Platão à mimesis: uma cópia, para além de não ser obviamente o original, pode ser corrompida ou mal interpretada.

Sobre os universais, Avicena tem um conceito que destrói o nominalismo: os universais são simultaneamente antes das coisas, nas coisas, e depois das coisas; são antes das coisas no pensamento divino; são nas coisas nos objectos naturais; e são depois das coisas no nosso pensamento.

Segunda-feira, 27 Abril 2015

A crença de que há crenças científicas verdadeiras desligadas da metafísica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:02 am
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O Aires de Almeida cita aqui um texto sobre as “crenças”, texto esse que se auto-refuta — desde logo porque a Terra não é completamente redonda mas é achatada nos pólos, e depois, mesmo que não fosse achatada nos pólos, a Terra nunca seria idealmente redonda.

O conceito de “redondo” não é totalmente materializável senão eventualmente (“eventualmente” porque não está empiricamente verificado senão por inferência que pode ser falsa) a nível microscópico, e tudo o que é “redondo” no nosso mundo é uma aproximação a uma forma ideal de “redondo” (David Hume, por exemplo, ou Platão). O conceito de л (PI) é “irracional” (no sentido da razão humana), e por isso pertence à metafísica.

Quando dizemos que “a Terra é redonda”, laboramos em uma representação metafísica. Trata-se de uma razão epistémica que se fundamenta na metafísica. Portanto, a afirmação de que “a Terra é redonda” é uma crença verdadeira se, e só se, tiver como modelo ideal e representativo a “redondez” ideal e formal que não existe realmente no mundo macroscópico em que vivemos.

A proposição “a Terra é redonda” é uma proposição metafísica — porque, de contrário, não seria uma proposição verdadeira.

Podemos considerar uma crença como sendo falsa, mas sendo ela verdadeira; e podemos considerar outra crença verdadeira, mas sendo ela falsa. Não há nada que nos garanta que todas as crenças científicas actuais sejam verdadeiras. Portanto, não podemos afirmar que “ciência” é sinónimo de “verdade”: o que podemos dizer, com algum optimismo, é que “a ciência procura a verdade”.

O argumento de Pascal sobre a crença em Deus é lamentável — como quase todos os argumentos da escola de Port-Royal e dos Jansenistas são lamentáveis — porque é um argumento utilitarista no sentido moderno do termo: considera-se a “realidade de Deus” (e não a “existência de Deus”, porque Deus não existe no espaço-tempo da mesma forma que o personagem Aires de Almeida existe) em função de uma qualquer utilidade prática julgada conveniente. Portanto, não se trata de uma razão pragmática, mas antes de uma razão absurda.

Sábado, 25 Abril 2015

Platão, Aristóteles e a mimesis

Filed under: filosofia — O. Braga @ 4:38 am
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Platão nasceu em Atenas, no seio de uma família aristocrática. Como muitos filhos de aristocratas atenienses, foi discípulo de Sócrates. Quando Sócrates era jovem, chegou a conviver com Parménides que já era velho. Parménides ficou conhecido pela sua polémica com Heraclito: Parménides era pitagórico ao passo que Heraclito era herdeiro ideológico do pensamento da Ásia Menor (Tales, Demócrito, etc.).

Aristóteles nasceu na Trácia, longe de Atenas, em um território que era considerado em parte como “bárbaro” pelos atenienses. Portanto, para além de Aristóteles não ter convivido directamente com Sócrates, e embora tendo sido discípulo de Platão, as heranças culturais e o tipo de experiência de vida são muito diferentes em Platão e Aristóteles.

Para que possamos ter uma noção da base fundamental do pensamento de Platão (e não tanto de Aristóteles), temos que ter uma ideia do fluxo ideológico do platonismo:

Religiões dionisíacas → orfismo (reforma intelectual de Orfeu) → pitagorismo (reforma intelectual de Pitágoras) → platonismo → neoplatonismo (Plotino).

Existiu um outro fluxo ideológico a partir das mesmas origens:

Religiões dionisíacas → religiões de mistérios (populares) → gnosticismo da Antiguidade Tardia.

De facto Plotino criticou o gnosticismo, embora com certa dificuldade porque as origens do platonismo e do gnosticismo mergulham nas mesmas origens ancestrais e remotas (religiões báquicas).

A oposição ao conceito de mimesis — como cópia ou representação da “verdadeira realidade” — é tão antigo quanto o orfismo; por isso Platão assumiu-o segundo a sua herança cultural a partir do pitagorismo — ao passo que a influência de Alexandre e dos macedónios em Aristóteles, por um lado, e por outro lado as sua origens culturais, filtraram, por assim dizer, neste último a tendência pitagórica de Platão.

Finalmente, não é verdade que Aristóteles não tenha seguido o conceito de “forma” de Platão (a “teoria das ideias”): a “doutrina dos universais” foi desenvolvida por Aristóteles e essa doutrina baseia-se no conceito de “forma” de Platão. O que Aristóteles fez foi dar uma interpretação diferente da teoria de Platão, o que não significa que a não tenha seguido.

Terça-feira, 14 Abril 2015

O culto é a raiz de tudo

Filed under: ética,cultura,filosofia,Política — O. Braga @ 9:49 am
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“Ora, este é um dos pontos em que discordo da perspectiva de Rodrigo Constantino. Diz ele que devemos separar o autor, o criador, das opiniões políticas.

Que o actor pode ser um bom actor mas as suas opiniões desprezíveis. Certo, por sinal já pensei assim, hoje não. Não considero a possibilidade da separação entre as coisas, na medida em que vejo a pessoa como uma totalidade e como pertencente, para mais, a uma comunidade.

Não existe um indivíduo em parcelas, uma para a política, outra para o palco, outra para o dia-a-dia, etc. Tudo faz parte do todo. É também essa totalidade que tem de ser desmontada. E que não é, muitas vezes (para não dizer todas), pelos escritores liberais.”

Desconstruir a Esquerda caviar

Eu não sei quem é o Rodrigo Constantino (sou péssimo a fixar nomes), mas a julgar pelo trecho supracitado, também não concordo com ele.

Antes de mais temos que saber o que é um “bom actor”. Na arte (estética), como na ética, é difícil encontrar uma objectividade, e portanto um “bom actor” pode ser bom para o Constantino e não ser bom para mim.

É verdade que a neve é branca, mas já não é tanto verdade que “o actor é bom”. Temos que saber o que significa “bom”, e G E Moore ajuda-nos com a falácia naturalista.

Um indivíduo com icterícia veria a neve amarela, e para ele não faria sentido que se lhe dissesse que “a neve não é amarela” — a não ser que ele reconheça que tem icterícia. Uma pessoa pode padecer de uma “icterícia cultural” inconsciente e ver o mundo todo amarelo e convencer-se de que o vê de forma correcta. O “actor amarelo” do Constantino pode não ser o actor com cores normais.

A política expressa a cultura, e a cultura expressa o culto. O culto é a raiz de tudo. E o “actor amarelo” do Constantino — ou seja quem for — não deixa de se expressar segundo o seu culto. Ora, é o culto que pode estar objectivamente errado porque não tem em consideração o Absoluto. Um culto de uma pequena parte da realidade é um culto errado. Um culto de uma parte da realidade é doxa (opinião); um culto do Absoluto é episteme (sabedoria e conhecimento).

Uma coisa é o “actor amarelo” do Constantino que ama as coisas estéticas particulares que são belas, e por isso ele tem opinião; outra coisa, diferente, é amar a “beleza em si” que pertence ao Absoluto e que revela a objectividade da sabedoria e até do conhecimento (Platão).

É impossível separar o homem do seu culto. E é o seu culto que faz a sua cultura que, por sua vez, se reflecte nas suas opções políticas, estéticas e éticas.

Quarta-feira, 8 Abril 2015

Cícero e os deuses

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:13 am
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Não é porque a maioria pensa de uma certa maneira ou tem determinadas crenças em comum, que essas crenças são verdadeiras. Mas também não é porque uma minoria elitista ou revolucionária tem determinadas crenças que ela tem razão.

Por isso, a tese de Cícero em relação aos deuses não é válida em si mesma — o que não significa que o inatismo (no sentido do ponto 1) não seja (pelo menos parcialmente) válido ou seja falso: é o argumento de Cícero que é inválido, no sentido, por exemplo, em que não foi por que a maioria acreditou que o Sol se movimentava em torno da Terra que essa crença era verdadeira.

Cícero mistura o inatismo, por um lado, com aparência que a experiência pode contrariar, por outro lado.

Qualquer crença deve ter um fundamento racional para além do inatismo — ou seja, o inatismo deve ser combinado com a experiência. A crença em Deus como Princípio Primeiro ou Causal é racional, mas o mesmo já não podemos dizer dos “deuses” de Cícero.

Quinta-feira, 2 Abril 2015

O disparate do materialismo ateísta

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:31 am
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Os ateus são pessoas que se reúnem — na Internet, em fóruns, em blogues, em colóquios, em conferências, etc. — para protestar contra Aquele (Deus) que eles dizem que não existe.

 

olavo-de-carvalho-ateismo-web

O Ludwig Krippahl escolhe bem as suas “vítimas”. Tentou “discutir” comigo acerca de religião, e cedo se deu conta de que mais valia procurar “vítimas” mais fáceis de “caçar”. A estratégia retórica do Ludwig Krippahl é a amálgama: mistura, em um mesmo texto, alhos com bugalhos, na esperança de que, através da ciência, se opere um milagre e os alhos se transformem em bugalhos (ou vice-versa). Olhem para este texto verifiquem a amálgama. Olavo de Carvalho tinha razão quando escreveu o seguinte:

“A mente humana é constituída de tal forma que o erro e a mentira podem sempre ser expressos de maneira mais sucinta do que a sua refutação. Uma única palavra falsa requer muitas para ser desmentida.”

Refutar aquele texto do Ludwig Krippahl daria um ensaio de muitas páginas. A única forma de denunciar a erística dos argumentos-cacete do Ludwig Krippahl sem escrever um ensaio, é focalizando a nossa atenção em alguns argumentos-chave do referido texto: por exemplo, “verificação”, “crença”, “verdade”, “autoridade”, e obviamente “ciência” que, alegadamente, se opõe à  religião.


Comecemos pela alegada oposição entre ciência e religião. “Oposição”, aqui, deve ser entendida no sentido dialéctico: “Não nos devemos cansar de estudar os extremos opostos das coisas. O mais importante não é encontrar o ponto comum, mas deduzi-lo dos contrários; é este o segredo e o triunfo da arte” (Giordano Bruno). Invoco aqui Bruno para que não se diga que estou a utilizar uma autoridade eclesiástica católica qualquer.

Mesmo que a religião e a ciência estivessem em oposição, não nos deveríamos cansar de estudá-las — embora o mais importante não seja encontrar o ponto comum, mas antes deduzir esse ponto comum dos dois contrários. Desprezar os contrários ou um dos contrários, significa estupidez.

Mas a verdade é que a ciência e a religião não se encontram em oposição.

Perante as descobertas científicas da física quântica, o materialismo ateísta é a maior estupidez que pode existir no século XXI. Ser materialista, no sentido ateísta, é a negação da ciência. O antagonismo clássico “ciência contra a religião” já não existe actualmente: foi a própria ciência que o eliminou, ao alterar a sua auto-concepção e a sua exigência de validade. Não é de admirar que, no fim da investigação das partículas elementares (física quântica), surja nos ateus materialistas um grande silêncio: pelo menos, o disparate do século XX seria perfeito.

Nas ciências empíricas, é discutível falar de “verificação”. Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade). A “verificação” do Ludwig Krippahl é isto: pode-se dizer que uma coisa é falsa, mas não se pode dizer que outra coisa é verdadeira. E ele sente-se superior às pessoas religiosas apenas e só por isto…!

Dizer que “apenas a religião se baseia em crenças”, é ser intelectualmente míope. Duma maneira geral, a crença é adesão a uma ideia, um pensamento, uma afirmação, uma teoria, um dogma… Nesse sentido, a ingenuidade, o preconceito, o erro, a fé, a opinião, assim como o saber científico, são diferentes formas de crença.

Por último, afirmar que “na ciência não há autoridade de direito”, é tentar enganar os pacóvios. Basta que na ciência existam paradigmas para que prevaleça sempre a autoridade dos que seguem o paradigma vigente.

Quarta-feira, 1 Abril 2015

Panteísmo e panenteísmo

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:11 am
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Panentheism is the notion that everything is in God. It defines itself in contradiction to pantheism. Nevertheless it is a controversial idea, not least because to some it rather smells of pantheism. But in fact it isn’t anything like pantheism.”

Orthodox Panentheism

Ali diz-se que o panenteísmo é diferente do panteísmo (ver conceito). Ora, em metafísica, a definição de “panteísmo” é a seguinte: “doutrina segundo a qual  tudo o que existe está em Deus” — o que é exactamente a definição dada acima para “panenteísmo”.

Em bom rigor, a noção de panenteísmo dada por filósofos como por exemplo Karl Jaspers, é a de que “Deus é o englobante do universo, na medida em que está para além da dimensão do sujeito/objecto”. Portanto, segundo o panenteísmo, o sujeito e objecto anulam-se na dimensão do englobante do universo que é Deus.

A diferença entre o panteísmo, por um lado, e o panenteísmo, por outro  lado, é formal; no essencial são doutrinas idênticas. E partem ambas de um princípio contraditório: o de que a causa (Deus) se identifica com o efeito (o universo).

Ora, se existe uma identidade — ou seja, se não existe uma diferença essencial — entre uma causa e o seu efeito, então não podemos afirmar que se trata, de facto, de causa e de efeito. A condição de um fenómeno (a causa de um fenómeno) não se pode identificar, na sua essência, com o fenómeno produzido (com o efeito gerado).

O corolário do panteísmo e do panenteísmo é o de que criação do universo por Deus é implícita- (no caso do panenteísmo) ou explicitamente (no caso do panteísmo) negada — porque a causa e o efeito são anuladas. E sem causa e efeito, não há lugar para qualquer criação como “obra de Deus”.

1/ Para que o universo seja um efeito (uma criação de Deus) terá que haver uma causa suficiente distinta — na sua essência — do universo.

2/ Se a causa (Deus) é distinta na sua essência, em relação ao universo, não pode Aquele confundir-se essencialmente com este, seja na forma panteísta, seja na forma panenteísta.

3/ A distinção essencial entre a causa (Deus) e o efeito (mundo) não significa que “Deus tenha criado o mundo e se tenha, depois, ausentado” (deísmo, ou a doutrina do “Deus ausente”).

Isaac Newton defendeu — ao contrário do panenteísmo tendencial de Leibniz e do panteísmo claro de Espinoza — que “Deus actua no universo a cada instante cósmico, para reafirmar as leis da natureza e sob pena de universo se extinguir no olvido”. Embora a essência de Deus seja distinta da essência do mundo (não se podem confundir as duas essências), isso não significa que Deus (a causa) não possa intervir no mundo (o efeito).

4/ Se as essências de Deus e do mundo são distintas, a noção de “englobante do mundo” atribuída a Deus pelo panenteísmo, perde qualquer sentido — porque uma coisa que engloba outra coisa não é essencialmente distinta da coisa que engloba. O panenteísmo — tal como o panteísmo — nega logicamente a distinção entre as essências do mundo e de Deus.

O facto de Deus estar presente em todas as coisas, não significa que Deus e as coisas tenham a mesma essência (como logicamente defende o panenteísmo).

Por analogia (vou repetir: é uma analogia, uma metáfora):

Um patrão pode gerir a sua empresa por telefone a maior parte do tempo sentado no seu escritório que pode estar situado fora da empresa, sem que a sua identidade se confunda com a identidade da empresa. Através do telefone, o patrão faz com que as coisas aconteçam na empresa, por um lado, e por outro  lado assegura que as regras (as leis) sejam cumpridas dentro da empresa. Metaforicamente, o telefone é o que liga a imanência  da realidade da empresa à  transcendência da realidade do patrão.

Quarta-feira, 25 Março 2015

A presciência de Deus e o livre-arbítrio do ser humano

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:08 pm

 

O Domingos Faria faz aqui a “demonstração lógica” da incompatibilidade entre a presciência de Deus, por um lado, e o livre-arbítrio, por outro lado. Porém, e independentemente da veracidade ou da falsidade do raciocínio do Domingos Faria, há que atender ao seguinte:

1/ há que definir “tempo”. O Domingos Faria refere-se ao “tempo”, mas há que saber o que significa o “tempo” para que o seu (dele) raciocínio faça algum sentido.

2/ os axiomas da lógica não se aplicam na realidade quântica. O paradoxo do formalismo matemático é o de que demonstrou que os princípios fundamentais da lógica, como o princípio da identidade , da não-contradição e do terceiro-excluído, não se aplicam no microcosmos. No microcosmos, a lógica do Domingos Faria é uma batata.

3/ por isso, quando falamos na presciência de Deus, por um lado, e no livre-arbítrio do ser humano, por outro lado, estamos a falar de factos que pertencem a diferentes dimensões da realidade — seria como se estivéssemos a colocar num mesmo plano de análise melões e aviões.

4/ quando falamos no livre-arbítrio humano, não precisamos da lógica formal para nos ajudar a percebê-lo: basta-nos a lógica proposicional.

Quando olhamos para o passado da nossa vida, dá-nos a sensação de que tudo o que nos aconteceu não poderia ter acontecido de outra forma — dá-nos a sensação de um determinismo. Mas se olharmos para o presente, e perante as várias possibilidades de acção que podemos conceber em uma situação concreta, então verificamos que o livre-arbítrio existe de facto. Não precisamos da lógica formal porque é uma evidência.

5/ não podemos falar na presciência de Deus sem, pelo menos, termos uma noção bastante precisa — através de símbolos — da realidade quântica que anula a lógica que utilizamos na realidade macroscópica e que é indispensável à sobrevivência do ser humano. Na medida em que o Domingos Faria mistura planos da realidade que são incompatíveis, o raciocínio dele não se aplica.

Filosofia e ciência

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 9:17 am
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Thomas F. Bertonneau  é um filósofo e Sylvain Gouguenheim é um historiador (ciências humanas).

Thomas F. Bertonneau  pega num livro de Sylvain Gouguenheim e escreve este ensaio sobre ele (o livro). O filósofo faz uma análise à  tese de um historiador (neste caso), como poderia fazer uma análise de um qualquer postulado ou teoria científicos, seja na matemática, na química ou na física.

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Sexta-feira, 20 Março 2015

A negação da a-causalidade objectiva da realidade quântica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:13 pm
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Para se compreender este verbete, convém ver este vídeo.

Vamos passar adiante pelos modos efeminados do filósofo; parece que está na moda a ideia segundo a qual  o efeminado convence melhor.

Em resumo, temos aqui o problema da reversibilidade do tempo a nível quântico (aquilo a que se chama “simetria temporal” — e a irreversibilidade do tempo a nível macroscópico (“assimetria temporal”).

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