perspectivas

Terça-feira, 2 Fevereiro 2016

Como surgiu o capitalismo

Filed under: filosofia — O. Braga @ 4:30 pm
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Eu acredito na tese de Max Weber — “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, 1905 — segundo a qual foi o ascetismo intra-mundano dos empresários calvinistas (cristãos) que (também) está na origem do capitalismo.

“¿Por que é que os interesses capitalistas na China ou na Índia não conduziram ao desenvolvimento científico, artístico, político, económico para via de racionalização que é característica do Ocidente?” → Max Weber

Há quem diga que “os calvinistas não eram católicos” e que “o catolicismo proibia a taxa de juro”. É falso!

Por exemplo, o prémio de seguro de risco foi “inventado” pelos frades menores franciscanos no século XIII (os “Fratelli”), e os templários utilizavam taxas de juro na suas transacções financeiras na Europa do mesmo século. A proibição da taxa de juro era apenas uma corrente ideológica da Igreja Católica, que não era unânime.

Os primeiros empresários capitalistas — segundo Max Weber — não procuravam o lucro desenfreado e cego por especuladores e aventureiros, mas antes procuravam o exercício honesto e constante de uma profissão: tratava-se de uma acumulação de riqueza destituída de qualquer interesse pelos prazeres que poderia proporcionar.

Por outro lado, segundo o Calvinismo, Deus decidiu, em virtude de decretos insondáveis e irrevogáveis, que “certos homens estão predestinados à vida eterna e outros destinados à morte eterna” (Confissão de Westminster, de 1647), o que causava uma angústia entre os calvinistas: “¿Será que eu serei eleito para a vida eterna?”

Nunca certo da sua eleição, o calvinista buscava os sinais dela aqui no mundo, nos frutos do trabalho, sem descanso nem alegria, trabalhava para a glória de Deus e, sobretudo, para mitigar a sua angústia. Os primeiros capitalistas eram frugais e quase ascetas, sem qualquer propensão para o luxo que a riqueza proporciona; a riqueza acumulada era apenas um sinal de bênção divina.

Foi assim que o capitalismo nasceu — segundo Max Weber — porque “se um tal travão ao consumo se alia à procura desenfreada do ganho, o resultado prático é evidente: o capital forma-se pela poupança forçada e ascética”.

A partir do momento da sua instituição, o sistema capitalista passou a obedecer às suas próprias leis — a partir do século XIX deixou de necessitar da religião que o fundou: dilui-se gradualmente no utilitarismo profano, e o fervor do capitalista religioso originário cede lugar ao homem absorvido pelo trabalho, esse calculador isolado que não conhece nem reconhece outra religião senão a do dinheiro.

O que, de início, era uma escolha — os actos de trabalhar e calcular — transformou-se em um destino: a perda da liberdade. “O puritano (calvinista) queria ser um homem trabalhador, e nós somos forçados a sê-lo”.

Não podemos separar a origem do capitalismo, por um lado, do Cristianismo, por outro lado. E quando separamos, não temos capitalismo propriamente dito, mas antes temos o neoliberalismo que se iniciou com a preponderância ideológica do Marginalismo de finais do século XIX.

Sábado, 9 Janeiro 2016

O ser humano conhece através dos opostos

Filed under: filosofia — O. Braga @ 1:11 pm
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O ser humano vai conhecendo a realidade através da dialéctica dos opostos (no sentido de Heraclito, e não de Hegel); mas a premissa do conhecimento, é a consciência de que os opostos são a condição (do conhecimento). Uma coisa é conhecer; outra coisa, diferente, é ter a consciência de que se vai conhecendo — ou seja, ter a consciência do conhecimento, entendido em si mesmo.

Exactamente porque a maioria dos seres humanos não tem a consciência de que vai conhecendo — não só “conhecer” por experiência própria, mas também através da epistemologia —, um dos opostos é alternativamente abraçado como sendo o próprio conhecimento; os opostos são concebidos como objectos (Metaxia).

Por exemplo, é ética- e moralmente repugnante a violência sexual recentemente sobre mulheres na cidade de Colónia, Alemanha. Para além da violência em si mesma, é também eticamente reprovável o obsceno — que é a erosão da fronteira entre o que é público e o que é privado.

Porém, o ser humano tem a tendência para justificar a objectivação de um oposto, com outro oposto transformado em objecto. Vê-se nesta fotografia um exemplo:

oposto

“Respeitem-nos! Nós não somos oferecidas, mesmo quando estamos nuas”.

A “coisificação” da mulher acontece nos dois opostos, porque ambos entram no domínio do obsceno; e quem se viu confrontado com os dois opostos e não os considerou como tal, não ganhou consciência de que não existe diferença real e substantiva entre eles.

Sábado, 14 Novembro 2015

Os dados da experiência vão além da “utilidade prática”

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 6:36 pm
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O Domingos Faria conclui aqui que é possível que se obtenha conhecimento a partir de falsidades; e deu como exemplo as horas de um relógio, que é um instrumento de medição (neste caso, medição do tempo).

1/ É claro que podemos obter conhecimento a partir de “falsidades”, mas apenas se entendermos “falsidade” como sinónimo de “verdade parcial”. Uma verdade parcial não é a verdade absoluta mas também não é erro absoluto. Por exemplo, a dinâmica de Newton era em grande parte falsa, o que não significa que fosse totalmente falsa. Ou seja, a ciência adquiriu conhecimento a partir da teoria (parcialmente) falsa de Newton.

2/ Uma teoria que consideremos falsa pode ser verdadeira; e uma outra que consideremos verdadeira pode ser falsa.

3/ Mas, do conhecimento a partir de uma falsidade a que se refere o Domingos Faria no caso do relógio, resulta uma “verdade” que só é aplicável no sentido prático, ou seja, no sentido de uma utilidade prática (aplicável à nossa realidade macroscópica). Todos os instrumentos de medição — incluindo o relógio do Domingos Faria — são falíveis (dão-nos sempre apenas uma aproximação à verdade) fora da utilidade prática que caracteriza a chamada “física clássica”.

4/ Nada, na realidade do infinitamente pequeno, obedece às leis ordinárias da física clássica — incluindo as leis que medem o tempo e o relógio do Domingos Faria. A medição define literalmente o sistema medido.

Não podemos afirmar que uma partícula elementar já tinha uma determinada característica, antes e/ou independentemente da observação ou medição da dita através de um instrumento. Se utilizarmos um instrumento para medir um sistema microscópico, por exemplo, uma medição da sua energia, produz-se uma redução brutal do seu vector de estado: apenas um dos termos da soma do “vector de estado” subsiste: aquele que corresponde ao valor da energia que foi efectivamente medida.

5/ E se o relógio do Domingos Faria fosse colocado na estratosfera, “andaria” mais depressa, e provavelmente induziria em erro o seu proprietário: poderia ele julgar que já estaria atrasado para a conferência das 17 horas quando, na “verdade horária” da crusta terrestre, ainda eram 16:59 horas. Os próprios relógios andam mais depressa ou mais lentamente dependendo do local terrestre em que se encontrem.

6/ A física mais actual demonstrou que o ser humano está confrontado com uma eterna (“eterno” no sentido do “tempo”, que é finito) “aproximação à verdade”, porque os seus instrumentos de medição da realidade são falíveis e têm apenas uma utilidade prática.

Domingo, 1 Novembro 2015

A falácia naturalista de Epicuro

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 6:24 am
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« Epicuro, na Carta a Meneceu, defende que estar morto nunca é um mal para quem morre. Por isso, não nos devemos incomodar ou ter medo da nossa futura condição de estar morto. Epicuro justifica que estar morto não é um mal para quem morre argumentando que “todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte”. »

Será mau estar morto? Um argumento de Epicuro


Podemos comparar a tese de Epicuro com a tese de Peter Singer segundo a qual os seres humanos com deficiências graves não têm qualquer direito à vida porque, diz este, a situação real de um deficiente grave é “uma vida que não vale a pena”.

Tal como Peter Singer, Epicuro incorre em uma sofisma naturalista, visto não se poder tirar conclusões morais de um facto — por exemplo, o facto de os homens, em geral, terem barba não significa que todos devam deixar crescer a barba; não se retira (de forma automática e necessária) do facto de os homens terem barba uma obrigação de deixar crescer a barba.

Epicuro não pode dizer se “a morte é boa ou má para quem morre”, porque não pode tirar conclusões morais de um facto; e porque ele teria que pré-definir o “bom” e o “mau”. Ora, “bom” é uma proposição sintética; não podemos identificar o “bom” ou o “mau” com a sensação, com o prazer ou com o desejo: o conteúdo do conceito de “bondade” (ou “maldade”) é indefinível, inefável e intuitivo.


Ademais, Epicuro “aplaina” o subjectivo, ou seja, ignora o conceito de “auto-referencialidade”. Vejamos a seguinte frase:

“Houve um tempo em que eu não vivia, e chegará um tempo em que não viverei”.

Na tentativa de pensar a minha não-existência (por exemplo, a minha morte), tenho que inventar uma imagem de mim próprio como se fosse outra pessoa. Porém, é um facto que nunca poderei sair de mim próprio de modo a pensar-me a partir do exterior. Se me penso a partir do exterior, não me penso a mim; se me penso a partir do meu interior, então não posso pensar como seria não-existir.

Em suma: quando Epicuro afirma que “chegará um tempo em que estarei morto, e isso não será mau”, tenta pensar a sua não-existência — porém, o Eu não pode compreender-se a si próprio e (simultaneamente) para si próprio —, por um lado, e incorre em uma falácia naturalista, por outro lado.


Finalmente, a primeira premissa de Epicuro está errada. A premissa é a seguinte: “Não somos afectados por um evento ou estado de coisas antes de acontecer”.

Esta premissa é falsa. Por exemplo, se a NASA anunciar que um meteoro com 2 quilómetros de diâmetro terá uma probabilidade de embater na Terra dentro de 30 anos, esse evento provável, embora não ocorrido, vai afectar-nos a nível psico-somático. Mesmo que tentemos ignorar a morte eminente e imanente, ela não desaparece das nossas vidas (a não ser que sejamos loucos).

Sábado, 31 Outubro 2015

O positivismo é o romantismo das ciências (para memória futura)

 

« O positivismo é o romantismo das ciências. A tendência própria do romantismo para identificar o finito com o infinito1 para considerar o finito como a revelação, e a realização progressiva do infinito é transferida e realizada pelo positivismo no seio da ciência.

Com o positivismo, a ciência exalta-se, apresenta-se como a única manifestação legítima do infinito e, assim, assume um carácter religioso, prendendo suplantar as religiões tradicionais.

O positivismo é parte integrante do movimento romântico do século XIX. Que o positivismo seja incapaz de fundar os valores morais e religiosos e, especialmente, o próprio princípio de que dependem, a liberdade humana, é um ponto de vista polémico, que a reacção anti-positivista, espiritualista e idealista da segunda metade do século XIX fez prevalecer na historiografia filosófica. Assim se pode considerar justificado, no todo ou em parte, este ponto de vista.

Mas é fora de dúvida que, nos seus fundadores, e nos seus epígonos, o positivismo se apresenta como a exaltação romântica da ciência, como infinitização, como pretensão a valer de única religião autêntica, e por conseguinte, como único fundamento possível da vida humana individual e social.

O positivismo acompanha e promove o nascimento e a afirmação da organização técnico-industrial da sociedade, fundada e condicionada pela ciência. Exprime as esperanças, os ideais e a exaltação optimista que provocaram e acompanharam esta fase da sociedade moderna. O Homem, nesta época, julgou ter encontrado na ciência a garantia infalível do seu próprio destino. Por isso rejeitou, considerando-a inútil e supersticiosa, toda a garantia sobrenatural e pôs o infinito na ciência, encerrando nas formas desta, a moral, a religião, a política – a totalidade da sua existência.

(…)

O materialismo, que alguns epígonos deduzem do positivismo evolucionista, é, ele próprio, uma metafísica romântica: a deificação da matéria e o culto religioso da ciência. »

→ “História da Filosofia”, de Nicola Abbagnano, Tomo X, §629, Editorial Presença, Lisboa, 1970


Nota
1. A imanência

Sexta-feira, 30 Outubro 2015

Complementando Feynman

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 7:14 am
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«O que não está rodeado de incerteza não pode ser verdade.»Feynman.

Mas isso não significa que a verdade se identifique (seja idêntica à) com a incerteza: significa apenas que há uma verdade na incerteza que o ser humano não controlará jamais.

Sexta-feira, 16 Outubro 2015

Heidegger e o grau zero da filosofia

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:53 am
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“Qualquer pessoa pode seguir os caminhos da reflexão à sua maneira e dentro dos seus limites. Por quê? Porque o homem é o ser (Wesen) que pensa, ou seja, que medita (sinnende). Não precisamos, portanto, de modo algum, de nos elevarmos às ‘regiões superiores’ quando reflectimos. Basta demorarmo-nos (verweilen) junto do que está perto e meditarmos sobre o que está mais próximo: aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e agora; neste pedaço de terra natal, agora, na presente hora universal.”

Martin Heidegger

Este texto de Heidegger cria uma dicotomia entre aquilo que “está perto” ou “mais próximo”, por um lado, e por outro lado aquilo que pertence às “regiões superiores” (a religião, ou a metafísica). Embora seja uma tentativa de negação da metafísica, o texto é metafísico — embora se trate de uma metafísica negativa.

A dicotomia é falsa; o facto de meditarmos sobre aquilo que “está perto” ou “mais próximo”, não implica a necessidade de não meditarmos também sobre aquilo que pertence às “regiões superiores”. Para além de falsa, a dicotomia reduz a Realidade inteira ao mundo sub-lunar limitado pelos satélites artificiais — o que é característica do gnosticismo moderno (visão anti-cósmica).

Ademais, o conceito de “regiões superiores” sugere a ideia de “regiões longínquas”, em contraponto à ideia de “regiões mais próximas”.

Ou seja, Heidegger nega o conceito de Metaxia: o encontro da consciência humana com a transcendência (as “regiões superiores”) não ocorre na história dos acontecimentos mundanos, mas antes ocorre no processo interno da experiência da consciência humana. A Metaxia é o lugar onde o ser humano participa, com o divino, na realidade da consciência. E não há nada “mais próximo” do ser humano do que a sua própria consciência.

Quinta-feira, 15 Outubro 2015

O Quim e o Nozick

Filed under: ética,filosofia,Justiça,Política,politicamente correcto — O. Braga @ 11:16 am

 

No debate ético americano, a oposição contemporânea à Esquerda (John Rawls, Dworkin) foi feita pelos anarco-capitalistas hayekianos radicais, liberais e utilitaristas, representados por Robert Nozick e por Buchanan (e até David Gauthier), por um lado, e por outro lado pelos chamados “comunitaristas” como Michael Sandel, Alasdair MacIntyre, Charles Taylor, e até Michael Walzer.

Rawls fez uma crítica ao utilitarismo; Nozick defendeu, contra Rawls, um utilitarismo radical e exacerbado próximo do Marginalismo; e os comunitaristas, dentro de uma linha não-utilitarista, fizeram também uma crítica fundamental a Rawls.

A principal diferença entre os anarco-capitalistas hayekianos, por um lado, e os comunitaristas por outro lado, é a de que os primeiros defendem uma concepção ética e de justiça utilitarista, ao passo que os segundos fazem uma crítica ao utilitarismo.

nozick

Por exemplo, os radicais utilitaristas (como Nozick) reduzem as regras da justiça distributiva à noção de “processo”, em particular à noção de “processo contratual”: (alegadamente) aquilo que é justo é aquilo que resulta de um “resultado correcto” da aplicação de um processo sobre o “bem”: o que interessa não é o bem ou a felicidade entendidos em si mesmos — porque, por exemplo, um sado-masoquista tem uma ideia de bem e de felicidade diferente —, mas o que interessa é o “processo contratual” jurídico (os meios utilizados, através do “processo”, justificam qualquer fim dentro do princípio de não-agressão, o que significa a afirmação quase absoluta de uma liberdade negativa) que permita satisfazer qualquer idiossincrasia privada, por mais aberrante que seja. Em suma, segundo Nozick, a moral é o que cada um quiser que seja.

Em contraponto, os comunitaristas introduzem na reflexão moral e política o que os radicais utilitaristas (Nozick) quiseram eliminar. Por exemplo, a preeminência do bem sobre o justo: os princípios que organizam uma sociedade não podem ser neutros em relação às concepções substantivas do bem que estão em confronto entre os cidadãos.

Ou seja, segundo os comunitaristas, há uma concepção substantiva da vida social que visa a promoção do bem-comum — e é isto que Nozick nega. Para Nozick, o que interessa é o processo jurídico (seja qual for) que permita a afirmação de um relativismo moral na sociedade, e não qualquer ideia de bem-comum. A noção de bem-comum é estranha a Nozick.

Por outro lado, os comunitaristas insistem no facto de que as concepções individuais de “vida de sucesso” (a “vida boa” de Aristóteles) não são independentes do enraizamento dos indivíduos em um contexto social que tem uma história e que condiciona as soluções que podemos dar aos problemas morais em geral, e, em particular, aos problemas da justiça distributiva.

O argumento de Nozick de “neutralidade moral” (do Estado) é uma falácia: por exemplo, saber se o facto de Estado se recusar intervir no tema do aborto depende da verdade ou da falsidade da doutrina moral que concebe o aborto como um assassínio. O argumento dos comunitaristas é o seguinte: apenas se a tese do aborto como assassínio se revelar falsa, se terá, então, o direito de exigir ao Estado que permaneça neutro quanto ao assunto e, por isso, deixe exercer o “direito ao aborto” (Sandel). Ademais, o Estado não pode permanecer neutro em relação à verdade ou falsidade verificadas pela ciência.


Vejamos agora este texto do Quim sobre o Nozick:

“Um argumento filosófico é uma tentativa de levar alguém a acreditar em algo, quer esse alguém o aceite ou não. Um argumento filosófico com sucesso, um argumento poderoso, obriga a uma crença.

Apesar da filosofia ser, portanto, uma actividade coerciva, a ameaça dos filósofos é contudo fraquinha. Se o outro estiver disposto a ficar com a etiqueta de ‘irracional’ ou de ‘ter os piores argumentos’, pode afastar-se alegremente com as sua crenças prévias”.

→ Nozick

Ou seja, por exemplo, se eu demonstrasse que o Quim tem uma insuficiência cognitiva, ele poderia afastar-se alegremente desvalorando qualquer argumento que demonstre a sua (dele) insuficiência — o que seria óbvio: nenhum anormal dá importância à sua anormalidade.

O mesmo critério de Nozick aplica-se à ciência:

“Um argumento científico é uma tentativa de levar alguém a acreditar em algo, quer esse alguém o aceite ou não. Um argumento científico com sucesso, um argumento poderoso, obriga a uma crença.

Apesar de a ciência ser, portanto, uma actividade coerciva, a ameaça dos cientistas é contudo fraquinha. Se o outro estiver disposto a ficar com a etiqueta de ‘irracional’ ou de ‘ter os piores argumentos’, pode afastar-se alegremente com as sua crenças prévias”.

O problema é o de que um argumento científico só se combate com outro argumento científico, ou então com um argumento filosófico (por exemplo, utilizando a lógica). Por exemplo, havia muita gente que não acreditava — portanto, não aceitava — que a NASA levou o homem à Lua em 1969. Portanto, segundo Nozick, a crença segundo a qual “o homem foi à Lua” é tão relevante como a crença da “impossibilidade de o homem ter ido à Lua”: o céptico em relação a um facto científico “pode afastar-se alegremente com as sua crenças prévias”.


O problema português é o de que tanto a Esquerda (excepto o Partido Comunista) como a Direita seguem os princípios utilitaristas de Nozick. E tanto a primeira como a segunda vivem em contradição em relação às matrizes históricas das suas respectivas mundividências. A política em Portugal é absolutamente irracional: face a uma qualquer verificação ou demonstração, qualquer político “pode afastar-se alegremente com as sua crenças prévias” e subjectivas.

Segunda-feira, 12 Outubro 2015

O Domingos Faria consegue definir “realidade”

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:43 am
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O Domingos Faria começou muito bem este seu (dele) artigo sobre as definições, mas teve necessariamente que borrar a pintura quando estendeu o conceito de “definição”, a Deus. Ao pretender definir Deus, o Domingos Faria pensa que pode também definir “realidade” (porque existe uma identificação representativa entre Deus, por um lado, e a realidade, por outro lado). Ora eu, simples mortal, não consigo definir a “realidade”; mas isso sou eu, que não tenho a genialidade do Domingos Faria.

Quando definimos uma coisa, definimos o conteúdo representativo dessa coisa, e não apenas a sua forma. Ora, de Deus — assim como da “realidade” — só podemos falar da forma; por isso, tanto os conceitos de Deus como o de “realidade” são indefiníveis.

lobotomia-png-webSe concebermos a “realidade” como qualquer coisa absolutamente racional (no sentido empírico), então segue-se que a “realidade” é reduzida à exterioridade ou ao concreto; e esta redução da realidade ao concreto só encontra o seu sentido através da dialéctica (Hegel): mas a finalidade da dialéctica é abolir a realidade — o que é uma contradição nos seus próprios termos, para além de ser um absurdo porque não podemos abolir o indefinível (à luz de lógica humana).

Também não podemos definir “consciência”, mas parto do princípio de que o Domingos Faria tem consciência (embora eu não possa ter a certeza: só posso ter a certeza da minha consciência). Não é porque não podemos definir “consciência” que o Domingos Faria seria desprovido de uma.

O conceito de “consciência” também não tem definição, o que não significa necessariamente que o Domingos Faria seja inconsciente.

Se reduzirmos o conceito de “consciência” à actividade química do cérebro (ou seja, a redução da “consciência” ao concreto e ao exterior = epifenomenalismo), caímos no absurdo da Teoria da Identidade.

Mas isto, o Domingos Faria não irá certamente ensinar aos seus alunos: em vez disso, irá dizer-lhes que “cada um pode definir Deus, a realidade e a consciência, como quiser”.

Domingo, 4 Outubro 2015

A ciência demonstrou e verificou a necessidade da identidade

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 12:41 pm
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“Uma afirmação de identidade é qualquer afirmação segundo a qual um objecto A é numericamente idêntico a um objecto B. Por exemplo, a afirmação de que Bernardo Soares é idêntico a Fernando Pessoa é uma afirmação de identidade deste género, tal como sucede com Túlio e Cícero, Véspero e Fósforo, Miguel Torga e Adolfo Correia da Rocha, ou água e H2O, etc.”

Domingos Faria

Bernardo Soares não é idêntico a Fernando Pessoa, como é evidente; embora H2O seja idêntico à água, assim como o vitríolo é idêntico ao ácido sulfúrico concentrado. Para serem idênticas, duas coisas devem ser indiscerníveis. Não devemos confundir identidade, por um lado, e semelhança, por outro lado; nem devemos confundir identidade e igualdade: o facto de um conjunto de pessoas ser tratado da mesma maneira não significa que essas pessoas sejam idênticas.

A identidade é o carácter do que é completamente semelhante a qualquer coisa, ou do que permanece o mesmo através do tempo.

Na física quântica, uma partícula elementar é idêntica a outra partícula elementar. Por exemplo, um electrão é (rigorosamente) idêntico a outro electrão. De certa forma, Leibniz tinha razão quando se referiu à “identidade dos indiscerníveis”. A identidade tem maior dificuldade em se manifestar, aos nossos olhos, na realidade macroscópica em que existe o ser humano, mas isso não significa que o conceito de identidade seja uma abstracção.

Não é necessário recorrer à lógica de Kripke para justificar a tese da necessidade da identidade: basta falar com o Carlos Fiolhais . Ele explicaria, melhor do que eu (obviamente), que a identidade entre partículas elementares é um facto necessário. E sem partículas elementares não há força entrópica da gravidade, nem o universo conforme se nos apresenta aos sentidos.

Domingo, 27 Setembro 2015

A diabolização da metonímia

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:00 am
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Alguém colocou o seguinte comentário sobre um verbete que aborda uma opinião de Olavo de Carvalho:

“Olha mais num tipico pensador metonímico de dois neurônios. pró ou contra.

Onde no texto onde o Olavo fala que temos que combater o gayzismo esse panaca não entendeu? Claro que Luiz Mott não se encaixa porque ele não é um mero homossexual, mas um gayzista militante, e quanto aos pedófilos, a pedofilia é crime, ao contrário do homossexualismo entre adultos. Onde ele se refere á pedofilia? Ou foi voce quem introduziu no texto dele?

Putz mas como tem idiotas neste mundo!”

“Pensador metonímico”. ¿O que é um “pensador metonímico”? Desde logo, a metonímia assume, no comentário, um cariz negativo; ¿e por que razão? ¿o que é uma metonímia?

A metonímia é uma figura de retórica que consiste no emprego de uma palavra por outra com a qual se liga por uma relação lógica ou de proximidade. A metonímia baseia-se na analogia.

Ou seja, a metonímia pode estar intimamente ligada à “analogia” — que não é a mesma coisa que “comparação”.

O raciocínio por analogia (indução) não tem em si mesmo um valor formal (matemático); mas a analogia é segundo Platão, “o mais belo de todos os nexos”, e é indispensável à ciência. Sem analogia não há ciência; e a metonímia é a forma de tradução, na linguagem, da analogia. A diabolização da metonímia acaba por traduzir, no limite, uma negação radical da ciência.

Domingo, 20 Setembro 2015

O ser imutável necessariamente existe por si só

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:13 pm
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Em um verbete anterior, citei Pasquale Galluppi, como segue:

“Um ser mutável não pode existir por si; esta verdade é um resultado do raciocínio que mostra a identidade entre a ideia do ser por si próprio, por um lado, e a ideia do ser imutável, por outro lado.”

Um leitor fez o seguinte comentário:

“ ¿Por que razão o ser imutável necessariamente existe por si só?”


1/ Para falar em “ser mutável” e “ser imutável”, temos em primeiro lugar que constatar que “o mundo é composto de mudança”, como escreveu o poeta:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades”.

Já outro poeta [Fernando Pessoa], em vez de “mudança” no sentido de “inovação acidental”, preferiu falar em “velhice do eterno novo”.

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