perspectivas

Segunda-feira, 22 Julho 2019

Um exemplo de anfibolia

Filed under: filosofia,lógica — O. Braga @ 8:52 pm

Escreve-se aqui:

« (…) desconsiderando a velha questão de saber se o PSD é, ou não, ideologicamente um partido de direita ou se é um partido de centro-esquerda e social-democrata, boa parte do seu eleitorado foi-o sempre. »

A anfibolia é uma imprecisão (em lógica informal) que ocorre quando as premissas usadas num argumento são ambíguas em função do uso de expressões imprecisas ou de frases gramaticais erradas.

Por exemplo:

“O ministro solicitou aos agentes da polícia que dispersassem os manifestantes, mas eles recusaram-se.”

Neste exemplo, ficamos sem saber se o termo “eles” se refere aos agentes da polícia ou se se refere aos manifestantes.

No caso do exemplo supracitado, em que “boa parte do seu eleitorado foi-o sempre”, não ficamos com a certeza de que essa “boa parte do eleitorado” do PSD “foi sempre”  uma coisa ou outra.

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Segunda-feira, 3 Junho 2019

O Argumentum ad Verecundiam ou Falácia da Autoridade

Filed under: filosofia — O. Braga @ 5:59 pm
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Quando a autoridade de direito  de alguém coincide (teoreticamente) com a sua autoridade de facto, então não há uma razão   objectiva para duvidar da autoridade dessa pessoa em áreas da sua especialização — excepto quando se invocam outros argumentos provenientes de outras autoridades de facto da mesma área.

Se a mera invocação da autoridade de facto  fosse, em si mesma, uma falácia  lógica , então o conhecimento  não seria possível.

O Argumentum ad Verecundiam  ou Falácia da Autoridade pretende sustentar uma tese fazendo unicamente apelo a uma personalidade de reconhecido mérito, mas cujo saber ou competência é irrelevante para o tema em discussão.

Ora, isto é diferente do que foi escrito aqui.

Um exemplo de uma falácia da autoridade  “O Cristiano Ronaldo é cliente do Banco X, e por isso esse Banco é o melhor de Portugal”.

Ou: “O Carlos Fiolhais considera Karl Marx como o maior filósofo de todos os tempos, o que faz deste, de facto, o melhor de todos”.

Nem o CR7 é especialista em Bancos, nem o Carlos Fiolhais tem autoridade em filosofia suficiente para fazer juízos de valor  válidos sobre o “maior filósofo”.

E, por exemplo, se um médico dá uma opinião sobre matérias da sua especialidade, isso não configura necessariamente uma Falácia da Autoridade.

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Quinta-feira, 11 Abril 2019

“Why Liberalism Failed” (Patrick Deneen) — Parte 2

Filed under: Esta gente vota,filosofia,Raquel Varela — O. Braga @ 2:55 pm
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O chamado “liberalismo” evoluiu para um nominalismo radical, que se revela (no seu absurdo esplendor) quando se transforma a excepção em regra (a negação “liberal” do juízo universal, o que é uma característica do politicamente correcto e/ou marxismo cultural) — como podemos ver neste artigo no Insurgente assinado por um tal Martinho.

patrick-deneen-webEsse Martinho é de opinião segundo a qual um marxista pode defender a liberdade de expressão  (!).

De duas, uma: ou a Raquel Varela e o Ricardo Araújo Pereira não são marxistas, ou a defesa da liberdade de expressão (por parte destas duas avantesmas marxistas) faz parte de uma estratégia do processo dialéctico” de instauração de um regime marxizante em Portugal.

Afirmar que (por exemplo) a marxista Raquel Varela defende a liberdade de expressão, é um oxímoro só possível vindo da parte de um “liberal” que já perdeu as suas referências históricas — e é o que se passa com o actual “liberalismo”, não só em Portugal mas também um pouco por todo Ocidente.

Hoje, aplica-se integralmente, em relação ao chamado “liberalismo”, esta frase de Eric Voegelin:

« When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa. »

Ou seja: quando as referências históricas do liberalismo político desvanecem-se da memória dos actuais “liberais”, a epistemologia  desaparece e só lhes resta a mera opinião. E a opinião não é necessariamente científica, porque não se escora necessariamente em factos e na experiência.

Quarta-feira, 10 Abril 2019

“Why Liberalism Failed” (Patrick Deneen) — Parte 1

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:13 pm
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No seguimento de um verbete anterior, irei proceder aqui à análise crítica (faseada) do livro de Patrick Deneen com o título original “Why Liberalism Failed”,  e que foi mal traduzido para “¿Porque Está a Falhar o Liberalismo?”.

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Segunda-feira, 18 Março 2019

A Razão por que o deputado Bruno Vitorino tem razão

 

Hoje é preciso afirmar pública- e peremptoriamente não só o que é óbvio, mas também o que é auto-evidente.

Há quem diga que a culpa da loucura modernista é de Kant; Kant tem as costas largas. Kant pode ser culpado de muitas coisas, mas não de negar o óbvio e o evidente. Kant foi o último iluminista: o problema da modernidade veio depois dele, já no século XIX, por exemplo, com a influência da Cabala Zoah na filosofia alemã e desde o idealismo monista de Hegel, na esteira de Friedrich Schleiermacher e de Jakob Böhme — já não falando nos monistas Schopenhauer, Lessing, Schelling, todos eles adeptos de uma qualquer forma de monismo.

… a irracionalidade voltou a estar na moda…

O problema da modernidade não tem a sua causa directa no Iluminismo (ao contrário do que se diz por aí), mas antes escora-se no Idealismo do século XIX e nas suas sequelas e antíteses (incluindo Karl Marx, que foi buscar a Hegel não só a visão monista do mundo, mas também a dialéctica 1). Como escreveu Nicolás Gómez Dávila : “os monismos transformam-se em panteísmos quando estão em mãos limpas; e em materialismos quando em mãos sujas”.

O pior que nos poderia ter acontecido não foi Kant: foi Hegel ! O espírito crítico sempre foi uma tradição cristã — por exemplo, com S. Tomás de Aquino, ou com Santo Agostinho. No entanto, são os hegelianos actuais (mais ou menos encobertos e disfarçados) que criticam Kant.

Hoje é preciso afirmar pública- e peremptoriamente não só o que é óbvio, mas também o que é auto-evidente.

Por exemplo, é preciso afirmar peremptoriamente que existe uma diferença biológica (cientificamente comprovada) entre a categoria dos homens, por um lado, e a categoria das mulheres, por outro lado. Mas quem afirma essa diferença, que é evidente, corre actualmente o risco de ser sacrificado no altar da desumanidade. Isto nada tem a ver com o legado de Kant que foi um acérrimo crítico do dogmatismo ideológico e da “bovinidade” humana; e tem tudo a ver com o século XIX e do que se desenvolveu a partir dos jacobinos e quejandos, que adoptaram Rousseau.


A ideologia é inimiga do espírito crítico. Esta ideia traduz perfeitamente este trecho de uma tal Sónia Sapage que escreve no jornal Púbico:

« Há uma diferença “colossal” entre educar contra o preconceito e influenciar a orientação sexual de uma criança. Tal como há uma grande diferença entre ter o direito de optar entre fazer ou não fazer um aborto e obrigar alguém a fazê-lo, coisa que a lei nunca permitiu nem permitirá. E o mesmo acontece com a eutanásia. Será sempre uma opção sentida e consentida, nunca uma imposição. A liberdade também é isso: respeitar todas as opções.»

Vemos como ela mistura ali as coisas de adultos (aborto, eutanásia), por um lado, com as das crianças ( “educação” como sendo “sensibilizar crianças de 10 e 11 anos sobre diferentes orientações sexuais”), por outro lado.

A actual ausência de espírito crítico das elites permite que a diferença entre uma criança e um adulto se esbata: para as actuais elites, as crianças são uma espécie de “adultos em miniatura”. Ora, esta ausência de espírito crítico não tem nada a ver com Kant, e tudo a ver com o Romantismo que se seguiu ao Iluminismo.

O que se está a passar na nossa sociedade é tenebroso!; e muito complicado, porque a irracionalidade está na moda.

Hoje, quanto mais irracional se é, melhor apreço se tem da parte das elites! E isto tem a ver com o legado ideológico do Romantismo (Rousseau, Hegel, etc.) que descambou no niilismo de Nietzsche (outro romântico) e de Schopenhauer (outro), e depois, já no século XX, no niilismo existencialista de Heidegger e/ou Jean-Paul Sartre.


Gente que outrora pertenceu à Esquerda moderada, como por exemplo Hannah Arendt, é hoje completamente ignorada pelas elites. Hoje vive-se em um eterno presente (presentismo); eliminou-se o passado. Hoje, as elites não querem que se saiba de onde vieram as suas ideias que pretendem utilizar para controlar o mundo.

A partir de Rousseau, “a educação transformou-se num instrumento da política, e a própria actividade política foi concebida como uma forma de educação” (Hannah Arendt, “Entre o Passado e o Futuro”, 2006, pág. 186).

O papel desempenhado pela educação em todas as utopias políticas, desde a antiguidade até aos nossos dias, mostra bem como pode parecer natural querer começar um mundo novo com aqueles que são novos por nascimento e por natureza. No que diz respeito à política há aqui, obviamente, uma grave incompreensão: em vez de um indivíduo se juntar aos seus semelhantes, assumindo o esforço de os persuadir e correndo o risco de falhar, opta por uma intervenção ditatorial, baseada na superioridade do adulto, procurando produzir o novo como um “fait accompli” [um dado adquirido], quer dizer, como se o novo já existisse.

É por esta razão que, na Europa, a crença de que é necessário começar pelas crianças se se pretendem produzir novas condições, tem sido monopólio principalmente dos movimentos revolucionários com tendências tirânicas, movimentos esses que, quando chegam ao Poder, retiram os filhos aos pais e, muito simplesmente, tratam de os doutrinar.

A educação não pode desempenhar nenhum papel na política, porque na política se lida sempre com pessoas já educadas.

Ora, a educação não pode desempenhar nenhum papel na política, porque na política se lida sempre com pessoas já educadas [adultos]. Aqueles que se propõem educar adultos, o que realmente pretendem é agir como seus guardiões e afastá-los da actividade política. Como não é possível educar adultos [não é possível educar a Sónia Sapage!], a palavra “educação” tem uma ressonância perversa em política — há uma pretensão de educação quando, afinal, o propósito real é a coerção sem o uso da força. Quem quiser seriamente criar uma nova ordem política através da educação, quer dizer, sem usar nem a força ou o constrangimento nem a persuasão, tem de aderir à terrível conclusão platónica: banir todos os velhos do novo Estado a fundar.

Mesmo no caso em que se pretendam educar as crianças para virem a ser cidadãos de um amanhã utópico, o que efectivamente se passa é que se lhes está a negar o seu papel futuro no corpo político, pois que, do ponto de vista dos novos, por mais novidades que o mundo adulto lhes possa propôr, elas serão sempre mais velhas que eles próprios.

Faz parte da natureza da condição humana que cada nova geração cresça no interior de um mundo velho, de tal forma que, preparar uma nova geração para um mundo novo só pode significar que se deseja recusar àqueles que chegam de novo a sua própria possibilidade de inovar. [Hannah Arendt, idem].

Por isto tudo é que o deputado Bruno Vitorino tem razão.


Nota
1. A negação dialéctica não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.” (Nicolás Gómez Dávila)

Quinta-feira, 28 Fevereiro 2019

O ateu Jean-Paul Sartre nunca perdoou a Deus a Sua inexistência

Filed under: filosofia — O. Braga @ 10:03 pm
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É preciso dizer à professora Helena Serrão que a negação da metafísica é, ainda assim, uma metafísica.

Quando Jean-Paul Sartre nega a metafísica, labora na metafísica — só que é uma metafísica que estabelece o limite existencial da espécie humana nos satélites artificiais que circulam em redor do planeta Terra.

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Por outro lado, existe uma contradição entre a “liberdade de Sartre” e o Estado marxista que ele defendeu: uma multidão igualitária e, por isso, homogénea, não reclama a liberdade; só em uma sociedade hierarquizada, e de classes bem marcadas, o homem pode ser livre.

Ao contrário do que Sartre preconiza, a liberdade não é um fim em si mesma, mas antes é um meio: e quem toma a liberdade como um fim não sabe o que fazer com ela, quando a obtém. Quando entendida como um ideal supremo existencial, a liberdade é o primeiro passo para o niilismo final.

Na sociedade moderna, onde se professa um determinismo científico, a defesa da “liberdade” é um “retrocesso” cristão — e é uma contradição intrínseca do marxista Sartre.

Gadamer, e a estética do olho-do-cu

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:11 pm
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“O que há de inebriante no mau gosto, é o prazer aristocrático de desagradar” → Baudelaire

A questão do “gosto” é das mais difíceis de abordar, se a estética for separada da ética.

Por exemplo, a proposição “os gostos não se discutem” leva-me a concluir, por exemplo, de que o valor da estética do olho-do-cu é tão legítima e valiosa como o valor da estética de uma qualquer pintura de Leonardo da Vinci.

E aqui passamos à perspectiva kantiana que separa o “belo”, por um lado, do “agradável”, por outro lado: para os apreciadores da estética do olho-do-cu, a contemplação de uma imagem anal é agradável porque reflecte os seus (deles) interesses e preferências subjectivos. Para o apreciador da estética do olho-do-cu, não há nenhuma argumentação possível que o demova da sua preferência.


A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto de Gadamer acerca do “gosto”. Gadamer invoca a teoria do gosto do judeu de Belmonte, Baltasar Gracian :

« Gracian parte do princípio de que o gosto, sensível, o mais animalesco e o mais íntimo dos nossos sentidos, já contém o ponto de partida da diferenciação que se realiza no julgamento espiritual das coisas.

O diferenciar do gosto, que é, de uma forma mais imediata, o usufruir da receptividade e da rejeição, não é, pois, na verdade, um mero instinto, mas já mantém o meio termo entre o instinto e a liberdade espiritual.

(…)

Existem pessoas que têm uma boa língua, gourmets, que cultivam essas alegrias. Assim, esse conceito do “gusto” é, para Gracian, o ponto de partida para a formação do ideal social de Gracian. O seu ideal do instruído (do discreto) consiste em que o “hombre en su punto” adquire a correcta liberdade de distância com relação a todas as coisas da vida e à sociedade, de maneira que saberá diferenciar e escolher consciente e ponderadamente. (…) »


(more…)

Quarta-feira, 27 Fevereiro 2019

Bertrand Russell “já era”

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:29 pm
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A professora Helena Serrão transcreve aqui um textículo de um livro de Bertrand Russell. Devo dizer que tenho a primeira edição desse livro publicada em Portugal na década de 1960. Já o estudei 1 de trás para frente depois de frente para trás. E o seu conteúdo (da filosofia de Bertrand Russell) está, em grande parte, ultrapassado, isto é, não é válido (por exemplo) no que diz respeito à alegada contraposição (ou oposição) da ciência em relação à metafísica ou à religião em geral.

Para fazermos uma crítica a Bertrand Russell, reduzindo as suas teses ao absurdo, devemos ler três autores: 1/ Karl Popper, na área da ciência; 2/ Louis Lavelle, na metafísica e na ética; e 3/ Eric Voegelin, nas ciências da História.

Naturalmente que nunca veremos a professora Helena Serrão citar quaisquer destes três autores; aliás, só lhe falta começar a citar Karl Marx, Engels e Feuerbach, por exemplo.


O que mais me choca em Bertrand Russell é a ética (dele). Em resumo e simplificando, ele diz o seguinte (hiperbolizando): se uma maioria de pessoas, em uma determinada sociedade, for de opinião (por exemplo) de que o infanticídio é moralmente aceitável, então essa ética é aceitável porque é apoiada pela maioria das pessoas (é o mesmo princípio da ética do “modelo discursivo” do marxismo cultural de J. Habermas e de K. O. Apel).

A ética de Bertrand Russell é humeana (David Hume), e por isso mesmo subjectivista e auto-contraditória — porque, a julgar pelos seus próprios parâmetros, ele objectivamente torna legítima a ética do regime nazi (por exemplo), ao mesmo tempo que subjectivamente critica o nazismo. Como em toda a ética de raiz humeana (como é o caso, por exemplo, do utilitarismo), há na ética de Bertrand Russell uma contradição insanável e irreconciliável entre o subjectivo e o objectivo.


Vamos analisar apenas uma proposição do referido texto; por exemplo:

¿Estará o mundo dividido entre espírito e matéria, e sendo assim, que é espírito e que é matéria?


bertrand-russell-300-webActualmente, só um burro coloca o problema da Realidade desta forma, depois das descobertas da física quântica. Aliás, a física quântica incomoda os “filósofos de academia”, aqueles que têm como função principal justificar o espírito empedernido de técnicos que se auto-intitulam “cientistas”. 2

Não quero eu com isto dizer que não exista eventualmente diferença entre espírito e matéria (“espírito” aqui entendido no sentido de “consciência”): o que eu quero dizer é que não existe nenhum ser humano, cientista ou não, que me dê uma definição de “matéria”. Se houver por aí um génio que me defina “matéria”, agradeço antecipada- e encarecidamente. Ora, Bertrand Russell fala de conceitos que não têm uma definição precisa, e por isso entra pela metafísica que ele próprio critica.

Porém, se partirmos do princípio segundo o qual “tudo o que tem massa é matéria”, então a "função de onda quântica" (princípio da sobreposição) 3 revela-nos de que existem aspectos da Realidade que não têm massa, e portanto não podem ser considerados como sendo “matéria”.

“A distinção entre matéria e espaço vazio teve que ser finalmente abandonada, quando se tornou evidente que as partículas virtuais [partículas elementares] podem ser criadas espontaneamente, a partir do vazio, e nele desaparecem novamente, sem que esteja presente algum nucleão ou qualquer outra partícula que interactue fortemente.

As partículas [partículas elementares] formam-se a partir do nada e desaparecem novamente no vácuo. De acordo com a “teoria de campo”, acontecimentos deste tipo estão constantemente a acontecer. O vácuo está longe de se encontrar vazio. Pelo contrário, contém um ilimitado número de partículas que surgem infinitamente.”

Fritjof Capra, “O Tau da Física”, página 184

Este trecho de Fritjof Capra destrói qualquer construção ideológica clássica de Bertrand Russell em torno do conceito de “matéria” — porque se as partículas elementares surgem e desaparecem “espontaneamente” no universo, ficamos sem saber o que significa “matéria”.


Notas

1. Estudar não é apenas ler: é analisar cada palavra do ponto de vista morfológico e sintáctico, e depois fazer uma síntese tão simplificada quanto seja possível e sem gongorismos.  
2. O chamado “cientista trabalhador” (em contraponto ao “cientista pensador”), que dispõe de fórmulas comprovadas que estão resumidas em uma espécie de “livro de receitas”: até mesmo um físico medíocre pode fazer um bom trabalho no laboratório, embora não tenham consciência das consequências da física quântica actual para a questão da Realidade.
3. Em Física, chamam de “complementaridade” a um método duplo que consiste em determinar o comportamento de uma partícula elementar, que pode comportar-se como uma onda (sem massa) ou como matéria; aos dois métodos complementares para determinar o comportamento de uma partícula elementar, chamou-se de “complementaridade”.

Segunda-feira, 28 Janeiro 2019

¿Julgamos uma coisa boa porque a desejamos (Espinoza) ? — ¿Ou porque não temos (ainda) consciência (desconhecemos, ainda) de outras coisas melhores ? (S. Tomás de Aquino)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:49 pm
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¿Julgamos uma coisa boa porque a desejamos (Espinosa) ? — ¿ou porque não temos (ainda) consciência (desconhecemos, ainda) da existência de outras coisas melhores ? (S. Tomás de Aquino)


“Há também muitos casos em que agimos contra o nosso melhor julgamento e que não podemos descrever isso como sucumbindo à tentação. Nos relatos usuais de incontinência existem, começa agora a aparecer, dois temas bem diferentes que se entrelaçam e tendem a confundir-se. Um é que o desejo nos distrai do bem ou força o mal; a outra é que a acção incontinente sempre favorece a paixão egoísta suplantando o chamamento do dever e da moralidade”.


Este trecho é de Dostoievski e foi repescado neste verbete da professora Helena Serrão.

Acontece que Dostoievski foi um literato, e não propriamente um filósofo (tal como Nietzsche). O literato não se preocupa muito com a lógica — por isso é que as mulheres cabem melhor na poesia do que na filosofia.

Neste trecho, vemos como Dostoievski inverteu os termos do nexo causal: é a paixão egoísta (endógena) que está na causa da acção incontinente, e não o contrário disto. Neste sentido estrito, o desejo é própria a paixão egoísta.

Os “estados contraditórios” derivados do desejo, a que se refere Dostoievski no texto, são as dissonâncias cognitivas e as ambivalências que nos afligem enquanto seres humanos, por um lado, e por outro lado, as ambiguidades que desafiam a nossa coerência lógica.

A posição de Dostoievski (utilizando / parafraseando Austin) parece aproximar-se mais de Espinosa (um ateísmo camuflado e sofisticado) do que de Platão (realismo).

Espinosa criou uma falsa dicotomia  entre o desejo  e o valor, fazendo com que o objecto do desejo seja (alegadamente, segundo ele) uma fabricação humana (Espinosa faz lembrar aqueles “Prometeus” cientificistas modernos que dizem que “o ser humano inventou os números primos” e/ou que “a lógica evolui”).

Existem valores que o ser humano ainda não descobriu (realismo de Platão, Nicolau Hartmann, Louis Lavelle).

Segunda-feira, 14 Janeiro 2019

As mulheres deveriam circunscrever-se à poesia

Filed under: filosofia,Kant,metafísica — O. Braga @ 10:08 pm

 

A professora Helena Serrão publica um excerto de uma tal Stéphane Ferret que eu não sei quem é nem quero saber. Só sei que — à semelhança do paralamento português – ela descobriu que “a Terra é redonda”.

O problema é que a Terra não é exactamente redonda; é achatada nos pólos. É aqui que a Stéphane Ferret “se ferra”.

“Contrariamente a uma longa tradição filosófica que reserva a intencionalidade para o homem, parece ser um dado adquirido que também os animais (pelo menos alguns) são entidades capazes de acção. Aos olhos da maioria dos homens, parece não restarem dúvidas de que também os símios, os burros ou as girafas são criaturas agentes”.

Ao ler esta passagem do texto, por um segundo quase acreditei que a Stéphane Ferret tinha razão.


É isto o que acontece quando as fêmeas se põem a filosofar: por exemplo, Hannah Arendt sempre afirmou dela própria que não era filósofa — o que revela grande inteligência da sua parte.

¿A Stéphane Ferret age porque é livre? Ou ¿é livre porque age?

Quando ela se compara aos animais, sou induzido a pensar que ela é livre porque age. É este o grande problema da modernidade: as pessoas consideram-se livres porque agem.

Eu prefiro dizer de mim mesmo que ajo porque sou livre — e é na liberdade que reside o busílis da questão: se considerarmos que a burra é livre, então podemos equiparar a sua acção à do vulgar ser humano.

A liberdade na acção pressupõe autoconsciência!.


Immanuel Kant chamou à atenção para o facto de nós termos sempre de acrescentar um suplemento a todos os nossos pensamentos, independentemente daquilo que estamos a pensar: a frase “eu penso”.
Sem a consciência de que “sou eu que penso”, não existe qualquer pensamento que mereça esse nome. Sem a autoconsciência de que a consciência se pensa a si mesma, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência.

Um computador pode percorrer o seu programa sem este “eu penso”, mas não pode, por isso, pensar como um ser humano.

No “eu penso” do sujeito humano, todos os conteúdos da consciência estão ligados; o “eu penso” do humano é a condição lógica de qualquer pensamento — constitui o último ponto de referência lógico e o ponto de unidade de todo o conhecimento.

Na linguagem de Kant: o “eu penso” é a condição da possibilidade do pensamento.

Este “eu penso”, segundo Kant, é o “X” da condição humana.

Não é possível reconhecer este “X”, porque qualquer acto de pensamento já o pressupõe: o X é anterior ao próprio pensamento — e por isso é que nenhum computador (ou nenhuma burra!) tem ou alguma vez terá este X. A comparação que os naturalistas fazem entre os símios, os burros ou as girafas, por um lado, e um ser humano, por outro lado (sociobiologia), é uma estupidez de uma grandeza elevada à potência infinita.

Sábado, 27 Outubro 2018

Thomas Nagel e a Teoria do Aspecto Dual

Filed under: filosofia,metafísica — O. Braga @ 7:05 pm

 

A professora Helena Serrão publica aqui uma citação do autor ateu americano Thomas Nagel, na qual este nos dá a ideia de ter uma “terceira via” para a dicotomia (falsa) entre o dualismo metafísico (não confundir com o dualismo ontológico), por um lado, e o chamado “fisicalismo” por outro lado.

A essa terceira via, Nagel chama de “Teoria do Aspecto Dual”. Mas esta teoria não é outra coisa senão uma forma de epifenomenalismo.


Thomas Nagel é um pensador americano que se diz simultaneamente ateu e contra o materialismo. E o problema é que ele não vê nenhuma contradição naquilo que ele diz que é.

Em 1974, ele escreveu um ensaio com o título “Como É Ser Um Morcego?”, em que Nagel pretende imaginar como seria ser um morcego, na perspectiva de um ser humano. Sabemos que os morcegos percepcionam o mundo, por exemplo, através de uma espécie de radar, em que os impulsos de ultra-sons são enviados a partir do cérebro do morcego e os respectivos ecos permitem-lhe distinguir os objectos do meio-ambiente.

Thomas Nagel chegou a uma conclusão: podemos imaginar como é a tentativa de ser um morcego, mas mais nada do que isto. Podemos conceber e imaginar a nossa experiência se nos comportássemos como morcegos, mas nunca saberíamos o que é ser de facto um morcego. Ou seja, somos obrigados pela Razão a reconhecer a existência de factos onde nunca poderemos racionalmente penetrar. Há coisas que nos são inacessíveis porque temos que observá-las a partir de fora, do exterior dessas coisas em relação às quais podemos conhecer a verdade relativa, mas não a sua verdade absoluta.

A Razão diz-nos que a própria Razão tem limites. O mesmo critério aplica-se à ciência: a Razão diz-nos que a ciência tem limites.


Voltando à “terceira via” de Thomas Nagel.

Ele pretende fazer a distinção entre um alegado “processo físico” (alegadamente mensurável ou observável pela ciência), por um lado e, por outro lado, a subjectividade da eventual acção do processo físico, a que ele chama de “aspecto mental do processo cerebral”.

Ora esta teoria nada mais é do que uma forma de epifenomenalismo, ou a ideia segundo a qual alguns ou todos os estados mentais são meros epifenómenos (efeitos secundários ou sub-produtos) do estado físico do mundo — o epifenomenalismo nega que a mente tenha qualquer influência no corpo ou em qualquer outra parte do mundo físico: enquanto que os estados mentais são causados por estados físicos, os estados mentais não têm influência nos estados físicos.

Para o epifenomenalismo, as ideias são apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.


Karl Popper demoliu o epifenomenalismo quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir o epifenomenalismo: esta teoria não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária ao epifenomenalismo, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente.

Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.


A física quântica veio alterar este paradigma científico, colocando em causa a concepção do universo como sistema fechado.

A “amplitude de probabilidade de função de onda” (ou "função de onda quântica", ou ainda, na terminologia mais recente, "vector de estado"), por exemplo, de uma partícula atómica, não constitui um campo material (ou não tem massa ou tem uma massa mínima), mas actua sobre a matéria ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares. Estamos a falar de um facto científico baseado na experimentação, e não apenas de uma teoria. Este facto científico abriu as possibilidades de estados finais diferentes resultantes de processos dinâmicos idênticos, e sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais (como, por exemplo, o abastecimento de energia).

Ou seja, segundo a ciência mais recente, o universo como sistema fechado e a primeira lei da termodinâmica estão colocados em causa. A primeira lei da termodinâmica pode ainda ser utilizada em ciência da mesma forma que o conceito de “absoluto” foi utilizado por Newton para elaborar a sua Dinâmica (o conceito de “absoluto”, em Newton, era uma espécie de muleta).

Resulta disto que a alma ou/e espírito não é um produto da evolução (evolução entendida no sentido naturalista e darwinista), e que o dualismo metafísico passa a fazer sentido mesmo à luz da ciência. Hoje já não faz sentido que um cientista seja necessariamente ateu, ou que defenda uma mundividência naturalista do ser humano.

Sábado, 6 Outubro 2018

A física e a metafísica pertencem à mesma realidade

Filed under: Ciência,David Hume,filosofia,Kant,metafísica — O. Braga @ 4:25 pm

Temos aqui um texto da professora de filosofia Helena Serrão: « ¿Será possível o conhecimento "a priori"? »


O referido texto explica o que significa o “a priori”, segundo Kant. Mas a concepção da diferença entre o “a priori” (o conceito de “relação de ideias”, de Hume), por um lado, e o “empírico” (o conceito de “questões de facto”, de Hume), por outro lado, é anterior a Kant e pertence a David Hume (a Helena Serrão não referiu este facto que é muito importante para a epistemologia).

O que é novo em Kant (em relação a David Hume) é o conceito de “interpretação da realidade” por parte do ser humano, conceito que é compatível com a filosofia quântica. Segundo Kant, as impressões dos sentidos (empirismo) fornecem a matéria bruta do conhecimento (empírico), mas o sujeito (humano) é pensante e responsável pela organização estrutural e relacional dessa matéria bruta.

“O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da Natureza, mas impõe-lhe-as” → Kant (Crítica da Razão Pura).

Com esta frase de Kant se resume o conceito de “a priori”, que tem como base o conceito de “interpretação da realidade”. Exactamente por isso é que Karl Popper tem razão quando diz que “a ciência é composta por conjecturas”, porque até as próprias leis da natureza verificadas empiricamente foram verificadas (estatisticamente) no passado, e não há (racionalmente e em bom rigor) uma certeza de elas sejam exactamente as mesmas no futuro.


O que eu não concordo, nem com a Helena Serrão, nem com Kant ou Hume, nem mesmo com Aristóteles, é com a diferenciação entre “física”, por um lado, e “metafísica”, por outro lado (seja o que for que estes dois termos signifiquem). É esta a razão por que escrevo este verbete.

Se existisse uma diferenciação real entre a física e a metafísica, a ciência não teria avançado ou progredido (o único “progresso” que existe de facto é na ciência) — porque muita coisa que pertencia à metafísica, em um determinado momento, passou pertencer a física noutro momento (como podemos constatar actualmente com a física quântica).

Por exemplo, o conceito científico de “não-localidade” ainda há pouco tempo pertencia à metafísica.

Aliás, Kant entra em contradição quando, por um lado, diferencia a física e a metafísica, e por outro lado introduz o “princípio da intencionalidade da Natureza” (Crítica da Razão Pura, 1790).

Kant insistiu que embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada (de uma determinada forma), devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se fosse organizada intencionalmente — o que é uma forma metafísica de conceber a Natureza.

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