perspectivas

Sábado, 28 Fevereiro 2015

O Miguel Esteves Cardoso tem a certeza de não ter certezas

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:17 am
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Este meu textículo não é uma crítica a estoutro do Miguel Esteves Cardoso; é apenas a minha manifestação de solidariedade para com ele — desde logo porque não é possível qualquer coerência absoluta no discurso humano.

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Theodore Dalrymple, e a hipocondria como um problema religioso e filosófico

São psiquiatras como Theodore Dalrymple que metem outros — como, por exemplo, o Júlio Machado Vaz — no bolso mínimo das moedas das minhas calças de ganga.

“There is no doubt that hypochondriacs are boring; you fear to ask them how they are in case they should tell you.

But one cannot help but suspect that their excessive concern with the state of their health is a defence against something worse, an existential fear that life has no meaning beyond itself, and that therefore the achievement of health, the avoidance of illness, is the highest goal possible.

(..)

In the absence of a transcendent purpose in life, staving off death becomes all-important. Hypochondriasis, then, is in part a religious or philosophical problem.”

The cure for hypochondria

Domingo, 22 Fevereiro 2015

A filosofia não é literatura

Filed under: filosofia — O. Braga @ 12:27 pm
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“A análise da experiência real NÃO É a mesma coisa que a análise lógica das proposições que imperfeitamente a expressam.

Na análise da experiência real levamos em conta sensações e estados interiores que nem mesmo saberíamos traduzir em palavras, mas que estão vivos na nossa memória.

Reduzir a filosofia a análise de proposições é o mesmo que imaginar que decorar a lista telefónica é conhecer todas as pessoas.”

→ Olavo de Carvalho, no FaceBook

Neste contexto, aquilo a que Olavo de Carvalho chama de “experiência real” é a experiência subjectiva. Mas para que a experiência subjectiva passe a ser intersubjectiva (ou seja, passe a ser objectiva), temos que recorrer a símbolos que contêm em si mesmos uma qualquer axiomática que confere ao símbolo uma representação ou um representado — ou seja, os símbolos têm que ter, subjacente a eles, um qualquer nexo lógico implícito.

A filosofia não é uma narrativa literária ou poesia, em que os escritos do autor podem ser facilmente interpretados conforme a subjectividade de cada leitor. Por exemplo, se lermos alguns poemas de Fernando Pessoa, em cem pessoas podemos encontrar outras tantas interpretações diferentes desses poemas — porque a poesia é filosofia sem lógica.

Esta é uma das razões por que Heidegger ou Nietzsche, por exemplo, são menos filósofos do que literatos: uma boa literatura não significa “filosofia” propriamente dita.

O que eu fiz aqui foi uma análise das proposições supracitadas de Olavo de Carvalho. Isso não significa que eu tenha reduzido a filosofia à  análise de proposições: significa que, sem a análise de proposições, a “filosofia” é pura literatura.

Segunda-feira, 16 Fevereiro 2015

¿É a presciência divina compatível com o livre-arbítrio?

Filed under: filosofia — O. Braga @ 8:06 pm
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Se transformarmos Deus num objecto, a Sua existência é por isso causada por um sujeito, e, deste modo, o sentido do conceito de Deus é invertido. Um Deus que existe, não existe. A questão se Deus existe ou não — do mesmo modo em que existe uma pedra ou o vizinho do lado — é uma falta questão.

Quando falamos em “presciência de Deus”, não podemos conceber Deus como um ser que existe da mesma forma que existe um ser humano. O ser humano não pode superar a divisão entre sujeito e objecto, e portanto o próprio conceito de “presciência” permanece no domínio humano do relativo (daquilo que está relacionado com a subjectividade humana).

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Terça-feira, 10 Fevereiro 2015

Uma abordagem ao dualismo

Filed under: filosofia — O. Braga @ 11:20 am
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Quando falamos de “ser humano único e irrepetível”, devemos ter atenção, para além do espírito ou daquilo a que o Domingos Faria chama aqui de “alma”, os seguintes factores:

1/ a genética;
2/ a epigenética;
3/ a posição do universo (leis da Natureza) no momento sideral da concepção uterina e/ou do nascimento;
4/ a transformação biológica do ser humano desde que é concebido no útero até que morre;
5/ o meio-ambiente em vive o ser humano a cada momento da sua vida (educação, cultura, religião, etc.).

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Domingo, 8 Fevereiro 2015

Richard Dawkins e a consciência

Filed under: filosofia — O. Braga @ 10:05 am
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Richard Dawkins on Twitter

 

Por estes dias, deu-me para seguir o Richard Dawkins no Twitter:

“Se cada átomo do teu corpo fosse duplicado, ¿a cópia serias tu?

¿Duas cópias da tua consciência?

¿Depois separar-se-iam as duas cópias à  medida que as respectivas experiências divergissem?”


Nesta mensagem de Richard Dawkins é assinalável a sua (dele) preocupação com o EU (que difere do EGO), por um lado, e com a consciência, por outro  lado. Nem tudo está perdido.

Mas quando Richard Dawkins fala em “duplicação do corpo”, não se refere apenas à  duplicação do ADN: ele quer dizer que a duplicação inclui cada átomo do teu corpo — e uma vez que, para ele, a consciência é um epifenómeno do cérebro — que inclui a consciência.

Parece-me que Richard Dawkins não tem a noção de “identidade”. Devemos demonstrar compreensão e compaixão em relação aos biólogos.

Ser idêntico é ser único, embora possivelmente sob nomes diferentes (por exemplo, o vitríolo é idêntico ao ácido sulfúrico).

Ora, se fosse possível duplicar um corpo humano em todos os seus átomos, o princípio da identidade — “A = A” — estaria colocado em causa: até os cépticos em relação ao princípio de identidade colocam o problema de não existirem duas gotas de água totalmente idênticas em todo o universo; mas o  ateu Richard Dawkins acredita na possibilidade de duplicação atómica total do seu corpo que inclui a consciência.

Se o princípio da identidade está colocado em causa por Richard Dawkins, o princípio da não-contradição e o princípio do terceiro excluído  também estão colocados em causa — diria eu que Richard Dawkins seria budista. Ou melhor: para budista só lhe faltam as penas!

Por outro  lado, Richard Dawkins considera que a identidade de um ser humano é reduzida ao seu conjunto de átomos. Quando o vemos reduzir-se a si mesmo a um conjunto de átomos, quase acreditamos que ele tem razão…!

Segundo Richard Dawkins, o que faria a diferença entre dois corpos “atomicamente” idênticos seria apenas e só a experiência de vida que viria depois da cópia atómica. Ou seja, a constituição dos dois corpos (a cópia atómica) — mesmo que, por absurdo, sejam idênticos — não é considerada uma experiência humana em si mesma, e por isso a sua constituição só pode ser atribuída a uma entidade metafísica. Richard Dawkins está a tornar-se místico!

Por fim, a consciência.

A consciência é uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como também em termos existenciais.

Mesmo que, por absurdo, fosse possível copiar todos os átomos de um corpo, a consciência seria originariamente diferente nos dois corpos e independentemente da experiência de vida que os dois corpos pudessem ter.

Segunda-feira, 2 Fevereiro 2015

Pierre Duhem, a ciência, e a obsessão dos biólogos em relação a Deus

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 12:19 pm
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Pierre Duhem foi um físico muito importante para a filosofia e história da ciência. Foi um físico, e não um biólogo. O único biólogo importante para a história da ciência foi Darwin que não era biólogo. A biologia continua a ter uma visão cartesiana da natureza e da vida, embora a maioria dos biólogos nem sequer saibam como pensava Descartes; penso mesmo que muitos deles nem sequer têm a ideia precisa de quem foi Descartes.

DuhemSegundo  Pierre Duhem, uma teoria científica não tem por finalidade explicar os dados observáveis — o que seria transformar a ciência em metafísica, na medida em que a teoria se pronunciaria acerca da natureza do real —, mas antes uma teoria científica procede a uma classificação lógica dos fenómenos segundo um princípio de economia (navalha de Ockham).

Assim, uma teoria científica é uma abstracção que permite resumir leis experimentais de uma forma convencional: uma teoria científica é um sistema abstracto construído por convenção, por um lado, e por outro  lado, uma teoria científica não explica nada acerca os fenómenos observados, entendidos em si mesmos. 

Os princípios fundamentais da teoria científica não pretendem enunciar as propriedades reais dos corpos: em vez disso, os princípios fundamentais são hipóteses arbitrariamente escolhidas e em relação às quais se exige que sejam coerentes entre si, e que demonstrem as observações e as medidas efectuadas.

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Terça-feira, 27 Janeiro 2015

Vitalismo

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:44 am
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Quando falamos em vitalismo, devemos distinguir a doutrina da Escola de Montpellier 1, segundo a qual um princípio vital rege os fenómenos da vida, por um lado, e por outro lado qualquer teoria que se opõe a uma redução da vida aos seus caracteres psico-químicos e recorre a um força vital distinta da matéria 2.

Portanto, o vitalismo é um conceito muito alargado e com muitas noções diferenciadas. Seja como for, o vitalismo baseia-se sempre em uma concepção imanente da realidade e, por isso, ou não considera a transcendência, ou remete a transcendência para um plano secundário.


Notas
1. Georg E. Stahl, Théophile de Bordeu, Paul Joseph Barthez
2. por exemplo, Henri Bergson, Claude Bernard

Segunda-feira, 26 Janeiro 2015

Crítica sucinta da fenomenologia (Husserl)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:38 am
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  1. A fenomenologia é um idealismo.

  2. Existe na fenomenologia uma tensão (ou mesmo uma contradição) entre um mundo que precede a consciência (a consciência é vista como estritamente humana), por um lado, e por outro  lado a consciência (humana) que dá todo o sentido ao mundo.

  3. A fenomenologia coloca em causa o absoluto da consciência — seja esse absoluto imanente (Hegel), seja transcendente.

Embora a fenomenologia tenha sido útil em áreas da ciência cognitiva, na psiquiatria ou na sociologia, sob ponto de vista da filosofia (e por ser um idealismo) não é uma corrente filosófica que me mereça especial atenção.

Quarta-feira, 21 Janeiro 2015

O nominalismo e o delírio

Filed under: ética,filosofia,Política,politicamente correcto,Portugal — O. Braga @ 4:33 pm
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nominalismo

O nominalismo é uma teoria segunda a qual “nada há de universal no mundo para além das denominações, porque as coisas nomeadas são todas individuais e singulares”. O nominalismo nega a existência dos géneros e das espécies que, alegadamente, não existiriam senão em nome.

Ou seja, o nominalismo defende a ideia segundo a qual as coisas ou objectos da experiência não têm realidade intrínseca fora da linguagem que as descreve. Se eu quiser afirmar que “uma baleia é um cão”, esta minha afirmação é legítima — segundo o nominalismo — porque os dois objectos (a baleia e o cão) não têm realidade intrínseca fora da linguagem que utilizemos. Por isso, para o nominalismo, uma baleia pode perfeitamente ser um cão.

O nominalismo está mais próximo do idealismo moderno (Fichte, Hegel, etc.) do que do racionalismo kantiano, e opõe-se totalmente ao platonismo. Outra característica do nominalismo é a de que tem uma grande dificuldade em reconhecer a noção de juízo universal — o que é uma das características do politicamente correcto.

O politicamente correcto é a expressão máxima possível do nominalismo: a verdade, entendida em si mesma, não existe: a verdade é criada pelo ser humano ao sabor das modas de cada tempo. Para o nominalismo só existem “situações particulares”, e por isso não existe nem bem nem mal, não existe ordem, não existe civilização, não existe natureza humana, nem verdade universal: apenas existe a “necessidade” de alguma coisa.

A realidade concreta não só não existe, como é produto de pura convenção. A realidade inteira é reduzida a uma “construção” arbitrária humana; as ideias não têm qualquer carácter durável e universal: o nominalismo recusa aceitar a intersubjectividade que subjaz ao universal, e reduz todo e qualquer aspecto da realidade a um qualquer signo convencionado (a um nome) que pode ter outro nome diferente já amanhã.

A realidade é vista de uma forma fragmentada, mas essa fragmentação da realidade é intencional — não decorre da natural dificuldade da definição de “realidade”. Aliás, o nominalismo detesta definições; a pior coisa que se pode fazer em relação ao nominalismo é definir o que quer que seja. Não existe “natureza humana” enquanto tal; não existem instituições sociais; não existe ordem política no sentido intersubjectivo e universal; a política está atomizada: o ser humano é um átomo. Não existe verdade política, mas apenas uma corrente da História que não é outra coisa senão “a modificação constante da natureza humana”.

Quando vemos aquela notícia em epígrafe, temos um resumo do nominalismo. Uma imagem vale mais do que mil palavras.

Segunda-feira, 19 Janeiro 2015

Física de Plasma: a teoria da não-teoria

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 6:44 pm
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Um leitor chamou-me à  atenção para este vídeo acerca da chamada “Física de Plasma”. Vamos tentar simplificar conceitos para que o leitor entenda o que está em causa.

Em primeiro lugar, vamos citar uma quadra do nosso poeta Aleixo:

“P’rá mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à  mistura
qualquer coisa de verdade.”

A teoria da Física de Plasma, segundo o vídeo citado, tem qualquer coisa de verdade.

Em segundo lugar, vamos saber o que significa uma “teoria”.

Uma teoria é uma síntese que engloba leis naturais (por exemplo, a teoria da gravitação engloba a lei da queda dos corpos ) destinada a considerar os dados da experiência.

Portanto, uma teoria sem dados da experiência, ou é um delírio, ou é metafísica que, por inerência  faz parte da filosofia. Mas a metafísica não é ciência. O que pode acontecer é que a ciência esbarre contra um qualquer limite conceptual que não permita construir uma “teoria corroborada”.

¿O que é uma “teoria corroborada”? Uma teoria corroborada é uma teoria que resistiu às tentativas mais sérias e severas de falsificabilidade através da experimentação. ¿O que é “experimentação”? Em ciência, experimentação é o conjunto dos meios e procedimentos de controlo destinados a verificar uma hipótese ou uma teoria (não confundir “experimentação” com “experiência”: a experiência pode não ser científica). ¿O que significa “verificar”? Verificar é o acto de “verificação”, sendo que verificação é o processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição.

Depois destas “definições reais” — as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência — que são necessárias embora não devamos exagerar na sua utilização, podemos partir pára a teoria da Física de Plasma.

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O infinito e a transcendência

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:47 am
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infinito

Algumas notas de cálculo — estudo do artigo de Alfred van der Poorten sobre a irracionalidade de zeta de 3, ζ(3), segundo Roger Apéry


O conceito de “irracional”, em matemática, é diferente do “irracional” do senso comum e mesmo da filosofia de consumo universitário. Quando se diz que uma função ou/e um número é “irracional” quer-se dizer que não são nem redutíveis a uma fracção finita, nem são periódicos. Mas não só: a função pode ser “transcendente”, o que significa que é uma “singularidade”.

No trecho supracitado, é utilizado o termo “transcendente”: uma equação é irracional e transcendente porque se aproxima de uma “singularidade”, que é o ponto em um determinado domínio de uma função no qual o valor da função se torna indefinido.

Em uma singularidade típica, a função matemática “aponta para o infinito”, ou seja, na área em torno da singularidade, o valor da função aumenta à medida em que este se aproxima daquela ― quanto mais próximo da singularidade, maior é o valor; quando o valor chega à singularidade, torna-se infinito. A singularidade aponta para o “irracional” (entre aspas) de uma função.

Na astrofísica, o buraco-negro é também referido como uma “singularidade”. Quando a matéria de uma estrela em fim de vida é comprimida para além de um terminado ponto — conhecido como “radius de Schwarzchild” —, torna-se impossível a alguma coisa escapar à sua gravidade, produzindo um ponto de massa de uma “densidade infinita”. Na singularidade, as leis da Física (e da ciência em geral) deixam de ser aplicáveis.

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