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Sexta-feira, 23 Junho 2017

A lógica é imanente, e Causa Primeira é transcendente

Filed under: Ciência,Domingos Faria,filosofia,lógica,metafísica — O. Braga @ 7:58 pm

 

O Domingos Faria invoca um burro com um alvará de inteligente que escreveu um livro, para citar um argumento que coloca em causa o princípio da razão suficiente de Leibniz (e não de Espinoza, como escreveu o Domingos Faria) que reza assim:

“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”


Há vários erros no raciocínio do burro letrado, mas talvez o principal seja o exarado no ponto 5:

“Se S é necessária, então P é necessária. [de PRS e necessidade da implicação]”

Acontece que se uma Causa Primeira é necessária, não se segue que um determinado efeito (dessa causa) seja necessário— desde logo porque a Causa não se confunde (como seria lógico) com um qualquer seu efeito.

A proposição supra só teria alguma legitimidade “lógica” se a Causa Primeira fosse imanente, ou seja, se ela pertencesse à mesma Realidade dos seus possíveis efeitos (possibilidade ou probabilidade) segundo o princípio da causalidade — mas então teríamos que explicar, por exemplo, por que razão as partículas elementares (que são efeitos de uma Causa, ou seja, existem por uma qualquer razão suficiente) aparecem e desaparecem do universo como que por magia, vindas do Nada e para o Nada.

¿De onde vêm, e para onde vão, essas partículas elementares que aparecem e desaparecem continuamente no universo?

Para qualquer pessoa “inteligente” é difícil aceitar que no centro da Física, que pretende ser a ciência dos fundamentos de todo o universo, as leis da nossa razão deveriam ser anuladas.

E isto porque, ao contrário do que defendeu Einstein, “Deus lança mesmo os dados” — no sentido em que os efeitos enquanto factos têm uma probabilidade objectiva (e não uma probabilidade subjectiva humana, devida à falta de conhecimento científico): a “casualidade” (os acontecimentos “por acaso”) e a “a-causalidade” (aquilo que parece não ter causa) não são expressão dos nossos conhecimentos limitados, mas sim são constitutivas da própria Realidade.

É neste sentido que se fala em probabilidade objectiva, por contraposição a uma probabilidade meramente subjectiva, baseada apenas numa falta de conhecimento das razões causais.

Ou seja, o princípio da causalidade (que é exclusivamente imanente) foi refutado pela própria ciência atómica.

Mas essa refutação não significa que, 1/ não exista uma Causa primeira que determina a existência de uma probabilidade objectiva que pode ser contingente na sua condição de causa segunda, e por isso, 2/ não significa que essa probabilidade objectiva, enquanto efeito, seja necessária. Aqui, David Hume tem razão.

Ademais, o raciocínio do lógico em causa é uma tautologia— a inferência pretende ser sempre verdadeira quaisquer que sejam os valores de verdade atribuídos a priori às proposições.

A lógica não se pode fechar em si mesma e fazer de conta que a ciência não existe. Quando isso acontece, aparecem lógicos burros que escrevem livros. Hoje, vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa estúpida uma resposta estúpida em relação a uma pergunta estúpida — porque o pensamento e as crenças não coincidem.

Segunda-feira, 17 Abril 2017

A irracionalidade do Anselmo Borges

Filed under: Anselmo Borges,Fátima,filosofia,Igreja Católica,metafísica — O. Braga @ 1:57 pm

 

¿Como é que eu posso afirmar que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”?

“É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objectivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjectivo.”

Anselmo Borges


Quando alguém diz que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”, pretende demolir um dogma católico por intermédio de um pensamento dogmático — porque de facto não é evidente, por exemplo, que não existem extraterrestres. Uma pessoa que diga que “é evidente que não existem extraterrestres”, é estúpida e possui um pensamento dogmático. O mais que eu posso racionalmente dizer é que não é provável que existam extraterrestres; mesmo assim, a minha afirmação é controversa.

Ora, a pior coisa em religião e em teologia é a existência de um pensamento dogmático que critica os dogmas vigentes e ancestrais (novos dogmas que tentam demolir a tradição).

Se há coisa evidente nos acontecimentos de Fátima de 1917, é que nada é evidente (ver o que significa “evidência”). Exactamente porque nada é evidente em Fátima de 1917, é que o Anselmo Borges é burrinho; ele pode receber todos os salamaleques do mundo, mas o rei vai nu.

O Anselmo Borges gosta de ser do contra; ser do contra enche-lhe o ego, à laia do reviralho revolucionário. Ora, devemos ser do contra sempre que seja provável que o contra tem razão — e não, como acontece com o Anselmo Borges: ser do contra para ganhar notoriedade académica e pública, e vender livros, e independentemente da razão.


Do ponto de vista da filosofia, o Anselmo Borges está ultrapassado; ele já não tem autoridade de facto para dar aulas de filosofia. Pode ser teólogo, mas hoje qualquer merda é teólogo. Hoje, um professor universitário de filosofia tem que ter bases suficientes (não precisa ser especialista)  em matemática (e não só em lógica) e em Física (incluindo a física quântica).

O Anselmo Borges diz que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”, porque, alegadamente, “uma aparição é algo objectivo”.

¿O que significa “objectivo”?

É sinónimo de “intersubjectivo” (definição nominal). Quando três crianças (e não só uma) vêem a mesma coisa, trata-se de um fenómeno intersubjectivo, ou seja, objectivo. O problema é o de saber se a coisa vista pelas três crianças (e não só por uma) é o que elas julgam que viram — mas seria estúpido e dogmático dizer-se que “é evidente que não foi aquilo ou não foi aqueloutro”.

Em toda a minha vida, eu passei talvez meia-dúzia de vezes pelo santuário de Fátima e nunca lá estive por ocasião do 13 de Maio. Estou à vontade para falar porque não sou, por assim dizer, um “fanático de Fátima”. Mas hei-de lá ir em um 13 de Maio futuro, se Deus quiser.

Seguindo o raciocínio do Anselmo Borges, poderia dizer-se: “é evidente que Jesus Cristo não ressuscitou”, porque “uma aparição de Jesus depois de morto seria algo objectivo, o que não foi o caso”. O chip que regula o software do pensamento do Anselmo Borges é positivista — nem sequer é o mais moderno, em termos científicos: Anselmo Borges vive no século XIX.

Aqui, o problema do Anselmo Borges é o conceito de “objectivo”.

Em ciência (positivista), é objectivo um fenómeno que se mede estatisticamente mediante repetição verificada (verificação) de forma intersubjectiva (objectiva), ou através da indução que, em epistemologia, é uma inferência conjectural e não-demonstrativa que obtém leis gerais por intermédio de casos particulares.

É certo que o Anselmo Borges não compreendeu Karl Popper (o que não é invulgar); e muito menos compreendeu Niels Bohr, Heisenberg, Wolfgang Pauli, David Bohm, John Wheeler, etc.. o Anselmo Borges precisa de se actualizar; mas duvido que burro velho retome andadura.


Não podemos separar a matéria, por um lado, da pessoa, ou do modo como a pessoa observa, por outro lado.

A única realidade que existe são as respostas às nossas perguntas, e a única coisa que conhecemos do mundo são os resultados das nossas experiências. Isto significa que os elementos básicos do mundo têm uma origem imaterial que, aliás, define a “consciência”: a consciência é uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como também em termos existenciais.

Uma imagem que vemos (“nós vemos”, intersubjectivamente, ou objectivamente, o que é o mesmo) não é menos o resultado das nossas acções do que, por exemplo, uma imagem que pintamos, ou de uma casa que construímos.

A realidade do nosso mundo é um facto (do latim facere = fazer); portanto, algo feito por nós; algo feito pelo Anselmo Borges, por exemplo, ou feito pelos três pastorinhos e pelas milhares de pessoas que testemunharam a dança do Sol em 1917, em Fátima. Não há razão nenhuma objectiva (ou seja, intersubjectiva) para que possamos supôr que “os factos do Anselmo Borges” tenham uma valia superior à dos “factos de milhares de pessoas” que assistiram (objectivamente, ou seja, intersubjectivamente) aos fenómenos de Fátima em 1917.

O nosso comportamento, perante a realidade, não é passivo: pelo contrário, nós participamos activamente na construção da realidade — sem que, contudo, criemos a “realidade em si mesma”, porque, em regra, não inventamos os dados a partir dos quais o nosso cérebro constrói as coisas; mas somos criadores da “realidade para nós”, o nosso cérebro monta precisamente aquelas coisas que estamos (todos nós, ou todos os milhares de pessoas em Fátima em 1917, de forma intersubjectiva, ou seja, objectiva) a ver a partir dos dados da “realidade em si”. Isto justifica aquilo que se disse em S. Mateus 13,58:

“E Ele não fez ali muitos milagres, por causa da falta de fé daquela gente”. [O Anselmo Borges também estava lá, no meio daquela gente].

Não podemos separar a realidade, por um lado, da pessoa, ou do modo como a pessoa observa, por outro lado. Só podemos limitar-nos a esperar que a “realidade para nós”, por um lado, e a “realidade em si”, por outro lado, sejam tão semelhantes quanto possível — o que levou à definição de “verdade” por parte de S. Tomás de Aquino:

«A verdade é a adequação entre a inteligência que concebe (a “realidade para nós”), e a realidade (“a realidade em si”)».


Não temos qualquer acesso ao mundo independentemente da interpretação — nem no conhecimento, nem na acção, nem em qualquer outro lugar.

Ora, não há nenhuma razão objectiva para supormos que a interpretação do Anselmo Borges é superior ou mais válida do que a interpretação intersubjectiva dos três pastorinhos, ou do que a interpretação objectiva (intersubjectiva) de milhares de testemunhas em Fátima de 1917.

O Anselmo Borges acredita que ele sabe como está estruturada a “realidade em si”, para além da interpretação humana.

Trata-se de um pensamento dogmático do Anselmo Borges — porque o pensamento humano não é capaz, por princípio, de dizer como se estrutura a “realidade em si”. Portanto, o que está por detrás das nossas construções intersubjectivas da realidade é um mistério — e foi o que se passou em Fátima de 1917: um mistério —, mistério esse que nos fornece os dados para a interpretação, mas que permanece eternamente incognoscível.

A única coisa que podemos dizer, com certeza, sobre a "a realidade em si", independente de nós, é como ela não é (conceito negativo), porque quando as nossas construções fracassam (como fracassou o positivismo do Anselmo Borges, ou o romantismo dele), deparamo-nos com a realidade “por detrás” da nossa construção da realidade. Porém, dado que só podemos descrever e explicar sempre o nosso fracasso através dos conceitos que utilizámos para a construção das estruturas falhadas, isso nunca nos pode proporcionar uma imagem do mundo que pudéssemos responsabilizar pelo fracasso.

É o que acontece com o Anselmo Borges: ele explica o fracasso da teologia cristã através de conceitos que ele próprio utiliza para a construção das suas estruturas pessoais falhadas, e por isso, ele nunca terá uma imagem do mundo que possa responsabilizar-se pelo seu próprio fracasso interpretativo.

Eu nunca vi o Anselmo Borges — nem na televisão, nem pessoalmente. Apenas vi fotografias dele nos jornais; mas uma fotografia não tem vida própria.

Contudo, seria estúpido da minha parte se dissesse que “é evidente que o Anselmo Borges não existe”, apenas e só porque nunca o vi pessoalmente. Chegam-me testemunhos de milhares de pessoas que dizem que o Anselmo Borges existe, ou seja, a figura viva do Anselmo Borges é intersubjectiva (ou objectiva). Se nós só acreditarmos naquilo que virmos, seríamos da espécie do “Anselmo Borges”.

Sábado, 27 Agosto 2016

Convém misturar Giordano Bruno com Newton

Filed under: filosofia — O. Braga @ 1:16 pm
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O Carlos Fiolhais gosta de misturar coisas, principalmente quando uma das coisas misturadas é logicamente inconsistente mas adequa-se a uma determinada ideologia que ele perfilha. Neste caso, o Carlos Fiolhais mistura, no mesmo texto, o Giordano Bruno e Newton. A essencial diferença entre os dois é que Newton via Deus como transcendente em relação às leis da natureza e ao universo (embora Deus seja interventivo em relação ao universo), enquanto que o Giordano Bruno era um panteísta (panteísmo).

Vemos aqui um artigo que nos diz (por inferência) que Newton estava correcto e que Giordano Bruno estava errado:

“After measuring alpha in around 300 distant galaxies, a consistency emerged: this magic number, which tells us the strength of electromagnetism, is not the same everywhere as it is here on Earth, and seems to vary continuously along a preferred axis through the Universe,” said Webb.

The implications for our current understanding of science are profound. If the laws of physics turn out to be merely “local by-laws”, it might be that whilst our observable part of the Universe favors the existence of life and human beings, other far more distant regions may exist where different laws preclude the formation of life, at least as we know it.”

Our Solar System "Is in a Unique Place in the Universe — Just Right for Life"

A “solução” panteísta de Giordano Bruno (e mais tarde de Espinoza, ou de Hegel) é uma forma de naturalismo; perante a assertividade da mundividência de Newton, o Carlos Fiolhais entra em uma dissonância cognitiva que tem que ser compensada pelo panteísmo do mártir naturalista Giordano Bruno.

É conhecida a polémica entre Leibniz e Newton, em que o primeiro defendia a ideia segundo a qual Deus criou o universo de uma vez por todas e depois retirou-se do mundo — ao passo que Newton defendia a ideia segundo a qual, sendo que Deus transcende o universo (é “exterior” ao universo), mas contudo Ele age constantemente (em termos de tempo cósmico) no universo apesar das leis da natureza por Ele definidas, e que sem a intervenção constante de Deus no universo não poderia haver a ordem e uma determinada constância das leis da natureza que permitem a existência da vida.

Sexta-feira, 15 Abril 2016

Prémio Unicórnio Natural para o António Piedade

 

Para António Gomes da Costa, presidente da SciCom Pt – Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia, “a COMCEPT desenvolve um trabalho essencial: exigir que as afirmações, julgamentos e decisões que fazemos requeiram sempre uma grande e salutar dose de lógica e de razão e, sobretudo, que se baseiem em factos concretos e bem demonstrados. Tudo o que assim não for não passa de uma opinião ou de uma crença e deve ser encarado com todas as reservas.”

António Piedade

unicornio-natural

1/ ¿O que é um “facto”? É algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência.

2/ Em ciência, os factos são intersubjectivos (ou seja, objectivos), por um lado, e sujeitos a verificação estatística, por outro lado.

3/ ¿O que é “verificação”? É o processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição.

4/ ¿O que é “consciência”? É uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como também em termos existenciais.

5/ As estatísticas pertencem sempre ao passado (não existe tal coisa como “estatísticas feitas no futuro”); e não há qualquer garantia absoluta de que os fenómenos estatísticos, demonstrados por indução, se repitam exactamente no futuro.

6/ ¿O que é “indução”? Chama-se indução ao argumento em que, se as premissas forem verdadeiras, isto é, tiverem valor lógico de verdade, a conclusão não é necessariamente verdadeira, mas apenas provavelmente verdadeira. Em epistemologia, a indução é a inferência conjectural ou não-demonstrativa; é o raciocínio que obtém leis gerais a partir de casos particulares.

7/ A indução, a verificação, e os “factos” a que se refere o António Piedade, pertencem à realidade macroscópica determinada pela força entrópica da gravidade. Ou seja, na realidade quântica não existe lógica (tal qual a concebemos na realidade macroscópica), não existem “factos” mas apenas relações; e a verificação, na realidade quântica, só pode ser feita por aproximação grosseira. E apesar disso, a física quântica também pertence à ciência.

8/ O António Piedade parece dizer que a física quântica não pertence à ciência; e as ciências formais (que não necessitam de verificação empírica) também não: para o António Piedade, a ciência é confinada às ciências experimentais ou empíricas.

Ou seja, para o António Piedade “o critério da verdade científica é a verificação empírica”; mas esta proposição não é, ela mesma, verificável.

Sábado, 9 Abril 2016

Os dogmas católicos e a física quântica

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:12 pm
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Os dogmas cristãos consistem na tentativa de codificar (formalizar) as experiências de convivência com o mistério de Deus, conservando, ao longo de séculos, as experiências intersubjectivas com Deus sob a forma de teses. A religião propriamente dita cria comunidade, e por isso tem que possuir conteúdos universais — mesmo que esses conteúdos se encontrem no limite daquilo que é exprimível em termos da lógica. Os dogmas cristãos são pilares impregnados no terreno do inexprimível para delimitar um espaço claro de comunicação para uma comunidade; os dogmas foram arrancados ao silêncio: são uma tentativa paradoxal de exprimir aquilo que não pode ser expresso por palavras, mas que quer ser exprimido.

Porém, a linguagem corrente e comum consiste em conceitos universais. Em rigor, o ser humano só pode entrar em comunicação sobre aquilo que nele não é individual. Por isso, no quotidiano, falamos sempre sobre temas a que todos (ou quase todos) têm acesso.

Mas um dogma cristão é uma afirmação sobre a realidade que está para além daquilo é alcançável através da linguagem corrente. Para que as experiências intersubjectivas com Deus, e as imagens que as representam e evocam, possam fundar uma comunidade que perdura há mais de dois mil anos, elas são formalizadas em dogmas.


A física quântica tem uma situação semelhante aos dogmas da Igreja Católica.

A física quântica, tendo-se construído em ruptura com conceitos que nos são familiares, teve que forjar outros conceitos fora da linguagem corrente, que estão tão afastados da experiência corrente (experiência no sentido do “empírico”) que se perde toda a intuição sensível e empírica desses novos conceitos, e quase todo o contacto. Por outras palavras, a física quântica abriu um espaço ou um hiato entre o concreto e o abstracto (tal como acontece com o dogma católico). Tudo se passa como se a física quântica se tivesse desembaraçado da linguagem corrente graças a uma formalização integral do seu conteúdo. Ora, o objectivo da comunicação e da vulgarização da física quântica é precisamente dizer tudo por palavras — e por isso existe aqui uma antinomia (tal como acontece com os dogmas religiosos).

Essa antinomia, que torna difícil uma transmissão ou comunicação metafórica através da imagem ou da linguagem, não é fácil de ultrapassar — porque há uma grande dificuldade em explicar o seu conteúdo à luz da linguagem corrente, e porque “explicar qualquer coisa a alguém” é colocar essa coisa em relação a noções já conhecidas, ou, por outras palavras, com noções que lhe são familiares e que quase todos têm acesso.

Por isso é que, à luz da linguagem corrente e da mentalidade do Homem contemporâneo (incluindo a maior parte dos filósofos modernos), os conceitos da física quântica não são considerados interessantes (tal como acontece em relação aos dogmas cristãos) — porque entram em um domínio que está para além da linguagem corrente; ou então, esses conceitos quânticos são deformados pelas filosofias New Age, como por exemplo, com o uso que se faz do conceito quântico de “não-separabilidade”: ao contrário do uso vulgar do conceito, a não-separabilidade não implica a transmissão instantânea de energia ou de sinais à distância — exactamente porque o fenómeno da não-separabilidade ocorre fora do espaço-tempo.

Tanto os dogmas cristãos como os conceitos da física quântica encontram-se em um domínio que está para além da linguagem corrente. E num caso como no outro, o concreto é o abstracto que se torna familiar pelo hábito.

Terça-feira, 5 Abril 2016

José Adelino Maltez e a tradição

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:49 pm
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Podemos ver neste texto do José Adelino Maltez — a propósito: ele acabou de me bloquear no Facebook, o que, para mim, é uma honra — uma contradição:

“Logo, teoricamente, o Ocidente aceitou o cristianismo, mas, na prática, o Ocidente permaneceu pagão (id. 377). E o resultado foi um hibridismo: o que no catolicismo tem um carácter realmente tradicional é bem pouco cristão e o que nele é cristão é bem pouco tradicional (id. 379)”. [José Adelino Maltez parafraseando Julius Evola].

Adiante, o Maltez escreve:

A tradição nada tem a ver com esse sucedâneo do mito pagão do eterno retorno, entendido como um simples círculo fechado, totalmente contrário ao conceito de tempo linear, assumido pelo libertacionismo judaico-cristão. Porque contra os sucessivos milenarismos do fim da história, há que proclamar, como Santo Agostinho, que não é o mundo que acaba, é um novo mundo que começa”.

Desde logo, é falso que o “libertacionismo judaico-cristão” fosse contrário ao conceito de tempo linear. Temos aqui que distinguir entre o Judaísmo de antes do Êxodo, e o posterior. Exactamente o que marca o Judaísmo do pós Êxodo é marcação do tempo linear. E Jesus Cristo — também através do autêntico S. Paulo — interrompeu os ciclos míticos do paganismo anterior ao Cristianismo [egípcio, mesopotâmico, órfico, dionisíaco, etc.], ao fazer com que o Messias nascesse de uma virgem, morresse e ressuscitasse, de uma vez por todas (tempo linear).

Aliás, o Milenarismo cristão é definitivo (marcado pelo tempo linear; não admite retorno), e não cíclico: a escatologia milenarista cristã acaba com a presente realidade que se transmuta em uma outra, transcendente (“o novo mundo que começa” é transcendente e não imanente, segundo Santo Agostinho).

Se “o que é tradicional é pouco cristão” [como escreve o José Adelino Maltez parafraseando Evola, e, portanto, assume-se que concorda com este], e se o que “é cristão é bem pouco tradicional — então segue-se, por exclusão, que o que é tradicional é marcadamente pagão (aliás, na linha de pensamento de Evola]. Mas se a tradição “nada tem a ver com esse sucedâneo do mito pagão do eterno retorno”, ficamos sem saber em que se escora a tradição.

Não vou discutir agora a forma quase poética como o tema é apresentado pelo José Adelino Maltez.

(ficheiro PDF do texto do JAM)

Domingo, 13 Março 2016

O João César das Neves e o papa-açorda Francisco: a visão política vem depois da ética

 

O João César das Neves, em um livro recentemente publicado, faz uma interpretação do comportamento (palavras, actos) do papa-açorda Francisco.

¿O que é uma “interpretação”?

"Interpretar" pode ter basicamente três sentidos:

  1. tornar claro, encontrar um sentido escondido, hermenêutica;
  2. deformar, desfigurar;
  3. abordar um tema ou uma obra de maneira a exprimir-lhe sentido; exegese.

A interpretação do João César das Neves em relação ao comportamento do papa-açorda Francisco está de acordo com o sentido de “hermenêutica”, “encontrar um sentido escondido”. Mas em ética, a interpretação deve ser sinónimo de “exegese”. E o papa não é um ocultista, ou pelo menos não é essa a sua principal função: não temos que fazer a hermenêutica das suas (dele) acções e palavras; devemos fazer a exegese das suas palavras e actos.

Assim como o João César das Neves interpreta hermeneuticamente o papa-açorda Francisco, assim o papa-açorda Francisco interpreta o Novo Testamento, desta feita deformando e desfigurando-o (no sentido do ponto 2) à luz de concepções políticas modernas. O problema da análise do João César das Neves é o de que ele se dissocia das consequências éticas da acção do papa-açorda Francisco, concentrando-se apenas na área da teoria económica. Ou seja, o João César das Neves cai na armadilha ideológica que o papa-açorda Francisco preparou minuciosamente.

A leitura parcial das escrituras

O papa-açorda Francisco dá especial atenção a determinadas passagens das escrituras cristãs, e escamoteia outras que não se coadunem com a sua mundividência ética. Por exemplo, nunca ouviram nem ouvirão (tenho a certeza) o papa-açorda Francisco referir-se a S. Paulo ou a um qualquer texto deste. Ora, as escrituras têm um conteúdo holístico, global, e um papa não deve instrumentalizar uns textos e escamotear outros.

O primado da intencionalidade na ética

Vou dar um exemplo introdutório: se queremos cozinhar, podemos ter que acender o fogo; mas não devemos acender o fogo muito perto de palha seca. Ou seja, temos que ter em consideração as consequências dos nossos actos, e a ignorância da lei ou da norma não inocenta quem a viola. O povo português traduz este conceito mediante de uma noção notável: “de boas intenções, está o inferno cheio”.

A ética do papa-açorda Francisco parece ser intencionalista; não tanto no sentido do imperativo categórico de Kant, mas sobretudo no sentido do intencionalismo de Abelardo (intencionalismo medieval, que voltou a estar na moda na nossa contemporaneidade).

De acordo com Abelardo, apenas a intenção moral (subjectiva) é susceptível de qualificação moral, qualquer que seja o acto exterior. O acto exterior — sendo sempre moralmente indiferente enquanto tal — é bom ou mau em função da intenção que o anima, pro intentionis agentis [“Ethica sive scito te ipsum”]. Segue-se, segundo Abelardo e o "papa Francisco", que nenhuma acção pode ser dita má a priori, “não sendo importante que este respeite o que se faz, mas antes o espírito no qual se faz” [“Dialogus”].

Se uma pessoa comete um grave dano mas não era essa a sua intenção, está inocente (Abelardo e o papa-açorda Francisco): “plurimum nocens, plurimum, ut nosti, sum innocens” (idem). Inversamente (segundo Abelardo e o papa-açorda Francisco), acontece muitas vezes que fazemos o que Deus quer que façamos, sem que a nossa intenção seja cumprir a vontade divina: neste caso, não agimos bem ainda que se realize alguma coisa boa. De acordo com a doutrina da indiferença dos actos externos, por mais que um homem faça o que Deus quer que ele faça, somente a boa intenção (subjectiva) torna a acção boa.

Por isso é que o papa-açorda Francisco afirmou, em relação ao comportamento homossexual, “¿quem sou eu para julgar?” — quando é certo que Jesus Cristo não fez outra coisa senão emitir juízos de valor.

A ética do papa-açorda Francisco é diametralmente oposta à do papa Bento XVI que se baseia em S. Tomás de Aquino (ética racional e consequencialista).


É em função da sua mundividência ética que o papa-açorda Francisco determina a sua visão política. Quem segue S. Tomás de Aquino não pode chegar às mesmas conclusões éticas e políticas a que chega o papa-açorda Francisco. É a mundividência ética que determina a política e, subsequentemente, a visão acerca da economia — e não o contrário disto. Por isso, saber se o papa-açorda Francisco é marxista ou não, é absolutamente irrelevante, porque o que devemos criticar nele é a sua concepção ética.

Domingo, 6 Março 2016

O discurso sinuoso da Helena Damião

Filed under: filosofia — O. Braga @ 1:35 pm
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“Vejo a ciência e a ética do mesmo lado, em última instância a mesma coisa. Isto se entendermos que toda e qualquer acção científica tem subjacente a noção de verdade, mas também a de responsabilidade.”

Helena Damião.

Presumo que o conceito de “ciência”, utilizado pela Helena Damião neste caso, se refere às ciências da natureza. Neste sentido, a ciência é o conhecimento científico positivo que se apoia nos critérios precisos da verificação, permitindo uma objectividade dos resultados.

A ciência não determina a ética; mas a ética não pode ignorar a ciência.

A ideia de “responsabilidade moral” reside na experiência subjectiva e intersubjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas por leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas”.

A Helena Damião faz uma confusão entre a acção do cientista, enquanto ser humano, por um lado, e a “acção científica” enquanto trabalho da ciência, por outro lado. A acção do cientista pode ser mais ou menos ética; a acção científica — no sentido do método das ciências da natureza — é eticamente neutra.

Sexta-feira, 26 Fevereiro 2016

O suicídio e a regra de ouro

Filed under: filosofia — O. Braga @ 2:24 pm
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Cristo não se pronunciou acerca de todas as questões da existência humana (v.g., eutanásia). Depois da sua morte, passou a competir à Igreja interpretar e exprimir o julgamento de Cristo acerca de cada nova ou velha questão que se põe à humanidade”.

Pedro Arroja

O que o Pedro Arroja escreve não corresponde à verdade. Jesus Cristo (Lucas 6, 31) falou da regra de ouro que, interpretada racionalmente, demonstra o contrário do que diz o Pedro Arroja. A regra de ouro engloba, em uma síntese, todas as questões da existência humana.

Naturalmente que se interpretarmos a regra de ouro de forma irracional, chegamos à conclusão de que o suicida deseja que toda a gente se suicide. Ou seja, a regra de ouro só se aplica no seu sentido positivo, porque se interpretada no sentido negativo, torna-se absurda e niilista.

A interpretação racional da regra de ouro diz-nos o seguinte: só se encontrarmos um sentido de vida seremos capazes também de suportar o sofrimento e a caducidade.

Quem tem a certeza do sentido da sua vida, pode morrer — por exemplo, Sócrates ou Jesus Cristo. Pelo contrário, quem sofreu uma perda do sentido de vida nem sequer pode morrer: a morte acontece-lhe; morre miseravelmente.

Sexta-feira, 19 Fevereiro 2016

Existência

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:31 pm
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Existência não significa um simples existir, mas sim uma categoria contraposta aos objectos.

“Existência é algo que nunca se tornará um objecto, é a origem, a partir da qual eu penso e actuo — existência é aquilo que apenas posso ser, mas que não posso ver ou saber” (Karl Jaspers, Von der Wahrheit, 1958).

A existência não é uma coisa do mundo, se se entende por mundo os objectos que nos rodeiam. Para a razão humana, a existência é um domínio que ela não pode alcançar através do pensamento, e que permanece totalmente remoto. A razão não encontra nada na procura da existência. A existência escapa ao pensamento que transforma tudo o que apanha em uma qualquer coisa objectiva. Tal como o ser humano não pode alcançar a sua própria sombra, o pensamento não pode alcançar a existência daquele que pensa.

Do ponto de vista do pensamento objectivo, a existência é um nada da perspectiva do ser humano vivo, é a raiz absolutamente indubitável da qual o seu estar nasce a cada segundo.

Terça-feira, 16 Fevereiro 2016

As objecções ao argumento de Plantinga, pelo Domingos Faria

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:34 pm
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O Domingos Faria escreve aqui um artigo sobre o argumento de Plantinga acerca da incompatibilidade entre o naturalismo e o evolucionismo. Eu já tinha escrito um outro verbete em 2008 acerca do mesmo assunto.

O Domingos Faria apresenta objecções ao argumento de Plantinga:

“Como objecção imediata a esta argumentação pode-se alegar, tal como Dennett (2011, p. 35-36/51-52), que os nossos cérebros são mecanismos sintácticos que são concebidos pela evolução para localizar a verdade. Deste modo, a evolução por selecção natural, com o pressuposto de que não é orientada, tal como explica por que razão os corações são altamente fiáveis na função de bombear o sangue ou por que razão os olhos são altamente fiáveis a percepcionar o meio envolvente, também explica por que motivo as crenças que são provocadas por esses olhos ou por outros sentidos são altamente fiáveis na função de obter a verdade”.

sapoDamos o exemplo de um sapo, que alegadamente foi objecto de evolução.

Um sapo come insectos; mas ele (o sapo) só vê os insectos que se mexem. Se uma formiga estiver a dois centímetros da boca dele mas estiver imóvel, o sapo não a “vê” e, portanto, não a come. Ou seja, o olho do sapo foi programado pela “evolução” para detectar apenas o movimento.

Portanto, a ideia segundo a qual os órgãos sensoriais são “altamente fiáveis” para detectar o meio-ambiente (ou a Verdade, no ser humano) em função da evolução, é um sofisma. Não se trata apenas de crenças: trata-se sobretudo de limitações orgânicas.

É certo que se a fisiologia humana não tivesse alguma correspondência com a Realidade, o ser humano seria extinto. Mas isso não significa que os mecanismos de sobrevivência sejam “altamente fiáveis” — como vimos no exemplo do sapo.

Terça-feira, 9 Fevereiro 2016

O conceito actual de “autonomia” coloca em cheque a “consciência”

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:07 pm
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“Só há a vida do indivíduo, mas a consciência ultrapassa o indivíduo e rompe sem cessar os seus limites.

(…)

A consciência conduz a vida sob a sua própria jurisdição, em lugar de ser ela a submeter-se à jurisdição da vida.

O animal não se eleva acima da vida. Mas a consciência só ilumina aquilo que existe para se interrogar sobre o seu valor; só é consciência psicológica por ser também consciência moral. A vida só conhece o bem do indivíduo; a consciência eleva-se até ao bem universal; e quando o bem do indivíduo a põe em cheque (à consciência), eis que surge o mal”.

(Louis Lavelle, “Tratado dos Valores”, T. 1, pág. 744)


A consciência é, aqui, a essência que caracteriza não só o indivíduo, mas também a que une todos os indivíduos (o Absoluto). A nível do indivíduo, a consciência é uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como também em termos existenciais.

Quando o “bem do indivíduo” coloca em causa, ou em cheque, a “consciência” que se eleva ao bem universal, surge o mal. Quando o conceito actual e politicamente correcto de “autonomia do indivíduo” ignora a consciência e o bem universal, destrói a sociedade e o indivíduo, em vez de os tornar melhores. Não é possível um “mundo melhor” que se baseie principalmente no bem do indivíduo — porque o animal não se eleva acima da vida que só conhece o bem do indivíduo.

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