perspectivas

Domingo, 5 Setembro 2021

O Anselmo Borges, o Queiruga, e a galinha que nasceu primeiro que o ovo

Filed under: Anselmo Borges,ética,filosofia,Igreja Católica,religião — O. Braga @ 1:33 pm

1/ A propósito deste texto (ler em PDF) do “padre” Anselmo Borges: discordo totalmente do seu ponto 2., por exemplo.

“Assim, como escreve A. Torres Queiruga, na estrutura íntima do processo religioso "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum"”

Ou seja, o Anselmo (e o Queiruga) têm a certeza de que “quem nasceu primeiro foi a galinha, e não o ovo”.


Depois, o Anselmo implica (ou defende) a absolutização da subjectividade no processo de interpretação do mundo: se vês o mundo de uma forma ou de outra, deve-se exclusivamente à interpretação que fazes dele, e que pode ser diferente da interpretação do teu vizinho.

(pergunto-me muitas vezes como é que este indivíduo é professor universitário de filosofia)

Há limites para o Construtivismo (a construção do mundo por nós, enquanto indivíduos); e o principais limites são o da intersubjectividade, por um lado, e o pensamento lógico, por outro lado.

Ou seja, a “realidade para nós” (a realidade construída por nós, indivíduos) tem os limites impostos pela intersubjectividade (ou, mutatis mutandis, “objectividade”) e pelos axiomas da lógica (que não são físicos). A “realidade para nós” (a subjectividade) não é (metaforicamente) uma auto-estrada sem limite de velocidade — a não ser no mundo louco dos esquerdistas (e gnósticos) como o do Anselmo Borges.

Cada indivíduo vive a sua vida a partir de uma determinada cosmovisão que nunca é resultado de uma reflexão racional.

Através da citação supra, o Anselmo Borges (e o Queiruga) eliminam o conceito de “interpretação pré-racional” — que é aquela que existe antes de o indivíduo pensar/reflectir que “a interpretação racional que tem do mundo, é a melhor”.

A “interpretação pré-racional” é uma hipótese de fundo não-reflectida (não racionalizada) sobre o sentido da vida e sobre o valor das coisas: cada indivíduo vive a partir de uma determinada cosmovisão que nunca é resultado de uma reflexão racional.

Se alguém vive a sua vida segundo a ideia de que a vida não obedece a nenhum valor superior, ou quando alguém goza a vida sem quaisquer limitações físicas e/ou éticas, ou assume que a vida não tem qualquer sentido, ou de que tudo depende do ponto de vista que se assume — então esse alguém também já fez uma interpretação pré-racional da existência.

Neste sentido, é mais verdadeiro que se diga que “interpretamos o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu”, do que dizer que “é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo”.

Ou seja, é mais verdadeiro (baseados na experiência) defender o oposto do que é defendido pelo Anselmo Borges.


2/ Estou parcialmente de acordo com o ponto 1. do texto do dito “padre”: a Igreja Católica deveria abster-se, dentro do possível, de citar as cartas deuteropaulinas — como é o caso da Carta de S. Paulo aos Efésios.

As chamadas epístolas “deuteropaulinasnão foram escritas por S. Paulo, a ver:

Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses, 1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito.

As que não fazem parte desta lista foram mesmo escritas por S. Paulo. Porém, mesmo nas que se demonstrou terem sido escritas por S. Paulo, existem as chamadas “interpolações”, como por exemplo em 1 COR 14, 34-35 — ou seja, esta passagem de Coríntios 1 não é de S. Paulo.

As “interpolações” têm origem em notas marginais que os monges escribas, mais tarde e já na Alta Idade Média, incorporaram no próprio texto, inserindo-as em alguns casos em um determinado lugar, e noutros casos, noutro lugar.

Sábado, 5 Junho 2021

Kant é essencial para salvar a ciência e a ética, em relação ao niilismo do pós-modernismo

Filed under: ética,Ciência,filosofia,Kant — O. Braga @ 12:32 pm
Tags: , ,

O Ludwig Krippahl escreve aqui um texto que rebate (ou contradiz) a ideia segundo a qual

“a ética é uma palhaçada, porque, enquanto os objectos de estudo [da ciência] continuariam a existir quer existissem humanos ou não, os valores morais não existem sem sujeitos”.

Ora, o que o Ludwig Krippahl está a contraditar, são exactamente os princípios filosóficos que regeram o advento da modernidade — Francis Bacon, Hobbes (principalmente), e Descartes.

(more…)

Terça-feira, 13 Abril 2021

Jason Brennan e o Pragmatismo, contra a democracia representativa, e a favor do fascismo chinês

Estou a acabar de ler o livro “Contra a Democracia”, do “filósofo” americano Jason Brennan, em que o referido autor pretende convencer-nos de que a democracia representativa não é o melhor dos sistemas políticos. O referido livro foi publicado em 2016 pela universidade esquerdista de Princeton, e republicada (em português) em 2017 (1ª edição) e em 2020 (2ª edição) pela editora dirigida pelo Guilherme Valente.

against_democracy-webEu não tinha percebido por que razão Karl Popper não emigrou para os Estados Unidos, depois da segunda grande guerra, em uma época em que a emigração para os Estados Unidos era a “coqueluche” mundial, e até os membros da Escola de Frankfurt emigraram para este país; Karl Popper preferiu ficar em Inglaterra. E hoje percebo por quê: a maioria dos “filósofos” americanos é fortemente influenciada pelo Pragmatismo, enquanto doutrina. E o Jason Brennan não escapa à regra.

O Pragmatismo é um utilitarismo radical, exacerbado, levado até às suas últimas consequências possíveis.

Esta doutrina (o Pragmatismo) é produto da afirmação absolutista do darwinismo na cultura intelectual e antropológica do fim do século XIX; e, por outro lado, ela é também fruto das teorias físicas do mesmo século, onde as hipóteses científicas eram apreciadas e valorizadas em função da sua comodidade e utilidade.

Segundo o Pragmatismo (em que se inclui o “filósofo” Jason Brennan), quando uma determinada ideia é útil para a acção (política) e está de acordo com a realidade, então segue-se que essa ideia é verdadeira — o que é um absurdo completo: Ortega y Gasset, desde muito cedo no século XX, “malhou” no Pragmatismo.

Ou seja: para Jason Brennan (como para os pragmaticistas, em geral), a verdade deve ser encarada ou concebida em função do nosso desejo de acção, e não em função da reprodução do “real” exterior relativamente ao ser humano. Isto significa que, segundo o Pragmatismo, se o nosso desejo de acção for em um determinado sentido, todas as ideias que fundamentem esse nosso desejo de acção estão automaticamente justificadas e podem ser consideradas verdadeiras.

É neste contexto pragmaticista que o Jason Brennan defende a ideia segundo a qual “a democracia representativa não é necessariamente o melhor sistema de organização política”.

O conceito de “filósofo americano” é um oxímoro: a esmagadora maioria dos ditos “filósofos” são influenciados pelo Pragmatismo, que é uma anti-filosofia. Nos Estados Unidos, só os pensadores influenciados por uma qualquer religião se podem considerar “filósofos”, na medida em que estendem o conceito de “universo” para além dos satélites artificiais.

São esses mesmos “filósofos” pragmaticistas (e auto-denominados “progressistas”, e “liberais de esquerda”) que defendem hoje a legitimidade do regime fascista chinês — como o faz, por exemplo, o Guilherme Valente. Para o Pragmatismo, a verdade é um programa de acção que resulta do nosso desejo: é a criação, pelo homem, de uma verdade a partir de uma razão que “cola” à experiência, e tem como critério único a sua eficácia na acção.

Ou seja: para os pragmaticistas, “se o fascismo chinês funciona bem, em termos práticos, e é eficaz na sua acção política, então segue-se que o regime fascista chinês é bom”.

Quarta-feira, 31 Março 2021

A filosofia continua agarrada ao passado epistemológico, por pura conveniência egológica dos “filósofos”

Filed under: filosofia,Kant — O. Braga @ 10:08 pm

Eu entendo por que razão o ensino da filosofia continua a fazer, de Kant ou de Russell, paradigmas que orientam a mundividência intelectual. Mas a verdade é que Kant e Russell estão (em grande parte) obsoletos, porque o primeiro viveu antes de Einstein, e o segundo assumiu claramente que a teoria dos quanta era “coisa de malucos”.

Para um empiricista radical como era Russell, a teoria dos quanta não passava disso mesmo: uma teoria.

Escreve-se aqui, no Porta da Loja:

“É aqui que se explica a ideia de Kant sobre a existência de Deus, arrasando toda a tentativa intelectual de comprovar a Sua existência e reservando para a Crítica da Razão Prática os motivos pelos quais acredita que são diversos.”


Aconselho a leitura de uma série de apostilas:


A fenomenologia (Husserl) surgiu também depois de Kant e foi literalmente ignorada por Russell.

Partindo da noção medieval de “intencionalidade” (Brentano), segundo a qual “a consciência psicológica nunca está vazia e é sempre consciência de alguma coisa exterior a si”, Husserl estabeleceu que a consciência lógica não age a partir de dados empíricos, mas antes a partir de certas “essências” ou “objectos ideais”.

Por exemplo: se segurarmos esta mão cheia de fósforos, não podemos imaginar “claramente” os quarenta fósforos que ela contém, pois que nos servimos correntemente do número 40. Transpondo os “objectos ideais” para a lógica, Husserl infere que a consciência, munida de intencionalidade, abarca e cativa esses “objectos ideais”.


A ideia segundo a qual “Deus existe” é obsoleta; desde Karl Jaspers que sabemos isso. Deus não “existe” da mesma maneira ou forma que existe uma pedra, o meu vizinho ou o presidente da república.

“Existência é algo que nunca se tornará um objecto, é a origem, a partir da qual eu penso e actuo — existência é aquilo que apenas posso ser, mas que não posso ver ou saber”.

(Karl Jaspers, Von der Wahrheit, 1958).

Existência não significa um simples existir, mas sim uma categoria contraposta aos objectos.

A existência não é uma coisa do mundo, se se entende por mundo os objectos que nos rodeiam. Para a razão humana, a existência é um domínio que ela não pode alcançar através do pensamento, e que permanece totalmente remoto. A razão não encontra nada na procura da existência. A existência escapa ao pensamento que transforma tudo o que apanha em uma qualquer coisa objectiva. Tal como o ser humano não pode alcançar a sua própria sombra, o pensamento não pode alcançar a existência daquele que pensa.

Do ponto de vista do pensamento objectivo, a existência é um Nada da perspectiva do ser humano vivo, é a raiz absolutamente indubitável da qual o seu estar nasce a cada segundo.

Dizer que “Deus existe” é apenas uma força de expressão. Mas para Kant, a “existência de Deus” era um fenómeno literal, era uma “personagem” que existia em coadjuvação com o universo.


“É nesta parte que Russell escreve que Kant entende que a lei moral exige justiça i.e. felicidade proporcional à virtude e por isso só a Providência o poderá garantir. E é também aqui que se explica o conceito de imperativo categórico”.

¿Por que razão “a lei moral exige justiça”?! E que “justiça”? O que é a “justiça”?

Nem Russell nem Kant dizem por quê. Kant e Russell partem de um postulado, segundo o qual “a lei moral exige justiça”. Mas, por exemplo, para Hitler, a lei moral não exigia o mesmo tipo de “justiça” advogado por Kant e Russell. Este argumento de Russell e de Kant é muito fraco.

Ademais, o imperativo categórico pode ser explicado, grosso modo, da seguinte forma: segundo Kant, não é permitido mentir, por exemplo, porque a mentira considerada como uma lei geral — “todos podem mentir” — significaria o fim de qualquer comunicação humana.

Se o meu comportamento se orientasse por uma norma que me permitisse mentir sempre que quisesse, então todos os outros seres humanos teriam o mesmo direito de o fazer. No entanto, se todos podem mentir, não se acredita em ninguém e nenhum mentiroso alcança o seu objectivo.

Até aqui, Kant está correcto. Aplicada a todos os seres humanos de uma forma consequente, a máxima da mentira permitida, anula-se a si própria.

Porém, eu não sou — de modo algum — inconsequente se prefiro que os outros sigam as regras que eu próprio não gostaria de seguir. Se eu minto sempre que me apetece, mas desejo que todos os outros digam sempre a verdade, na minha qualidade de grande oportunista, sou, em certa medida, perfeitamente consequente com a aplicação do imperativo categórico de Kant.

Segunda-feira, 16 Novembro 2020

A aleatoriedade, entendida estritamente enquanto tal, é uma forma de determinismo

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 7:16 pm

Niels Bohr afirmou que “quem não desespera com a teoria quântica, não a entendeu” [“Atomic Physics and Human Knowledge”, 1958, pág. 56]. Ou seja: qualquer abordagem à teoria quântica, do ponto de vista filosófico, é muito difícil (e do ponto de vista lógico-matemático, também).

Lendo este texto publicado pela professora Helena Serrão, estava eu a concordar com ele quando passei a discordar (passo o truísmo) a partir do ponto em que o respectivo autor nos diz que “o que a indeterminação (quântica) nos dá, é aleatoriedade”. O autor diz-nos que, na realidade quântica, as coisas acontecem de forma aleatória, ou seja, sem que exista uma ordem racional intrínseca e/ou definível pelo observador humano.

Porém, em boa verdade, a casualidade e a-casualidade (aleatoriedade), no domínio atómico, não são a expressão dos nossos conhecimentos humanos limitados, mas antes são constitutivas desse domínio da realidade. Por isso, falamos em “probabilidade objectiva”, em contraposição a uma probabilidade meramente subjectiva (aleatoriedade) baseada apenas no nosso desconhecimento das razões causais dos fenómenos.

Ou seja: não se trata de “indeterminação quântica => aleatoriedade”: trata-se, em vez disso, da expressão, por assim dizer, de uma vontade objectiva que é, na sua acção, independente da vontade do ser humano, e que tem as suas próprias razões que são independentes do nosso conhecimento ou desconhecimento circunstancial destas.

A tendência para uma ocorrência / acontecimento, no espaço-tempo, decorre de uma probabilidade (ou possibilidade) objectiva que é independente da vontade do observador humano — embora não possamos separar a matéria, por um lado, da pessoa ou do modo como a pessoa observa, por outro lado, na medida em que a observação é uma forma de medição, e a medição perturba e/ou revela o resultado da acção objectiva das “possibilidades quânticas” [Wheeler].

Por esta razão é que, por exemplo, as câmaras nocturnas de vigilância em vídeo, providas com feixes de infra-vermelhos, conseguem detectar e gravar a chamada “actividade paranormal” (observar é medir, e medir é perturbar o comportamento das partículas elementares = princípio de Heisenberg).

Sábado, 22 Agosto 2020

Desidério Murcho: a narrativa da “eutanásia para todos, em nome da liberdade”

O Desidério Murcho escreveu aqui uma coisa a favor da liberalização da eutanásia.

O tipo de argumentação é sempre o mesmo: vai-se buscar um ou dois exemplos extremos de casos que não sejam passíveis de tratamento médico ou de cuidados paliativos, para depois — em cima desses dois exemplos extraordinariamente raros mas cuidadosamente escolhidos — construir a narrativa da “eutanásia para todos em nome da liberdade”.

“É a constituição moral da sociedade que fixa, a cada momento, o contingente dos mortos voluntários.” → Durkheim

1/ Em primeiro lugar, o mais surpreendente é que o Desidério Murcho defenda a eutanásia aplicada pelo Estado; o Estado passa a aplicar a pena-de-morte alegadamente consentida.

Temos um caso, na Bélgica, de um multi-homicida condenado a pena de prisão perpétua que solicitou (voluntariamente!) a eutanásia; e parece que o Estado belga está aberto a matar um homem que tinha anteriormente condenado à prisão perpétua. Ou seja, as bases do próprio sistema judicial ocidental começam a vacilar.

(more…)

Sexta-feira, 21 Agosto 2020

As asneiras acientíficas do Carlos M. Fernandes

Filed under: Ciência,filosofia — O. Braga @ 8:30 pm

Cita-se aqui um tal Carlos M. Fernandes, a propósito do conceito de “verdade”, em ciência:

“A ciência é o artefacto sistematizado da curiosidade humana. Como tal, está em permanente dialéctica com a ignorância, alimentando-se da dúvida, da incerteza, do risco, e, sobretudo, da liberdade de pensamento. Conceitos como consenso, autoridade e verdade, são-lhe estranhos. O conhecimento científico, «qual pluma al vento», é volúvel e entre as suas funções não se encontra a formulação de juízos metafísicos.”

Vou tentar ser o mais afável e simpático possível com o Fernandes, neste meu comentário.


Em ciência, o conceito de “verdade” faz parte do método científico (faz parte da ciência) — ao contrário do que diz aquele senhor. O que não existe, em ciência, é o conceito de “certeza — este sim, faz parte do cientismo ou da fé religiosa —; mas, ainda assim, podemos citar aqui (metaforicamente) o físico francês Roland Omnès:

“A fé do cientista é a maior que existe, porque é inconfessável.”

Por vezes pergunto-me ¿por que razão há gente (como o Fernandes) por aí a “ditar filosofia” sem a necessária preparação para tal?!

A “verdade” é a definição das condições gerais do “verdadeiro” — sendo que o “verdadeiro” (em ciência) diz respeito apenas aos domínios do conhecimento, e difere radicalmente dos outros objectos dos juízos de valor, na medida em que está determinado fixá-lo antes dos juízos e de uma forma vaga e não estruturada.


Outra asneira do Fernandes é a ideia segundo a qual a ciência não tem nada a ver com a metafísica:

“O conhecimento científico, «qual pluma al vento», é volúvel e entre as suas funções não se encontra a formulação de juízos metafísicos.”

O que o Fernandes diz é que “tudo aquilo que não é passível de ser verificado empiricamente (passo a redundância) não tem significado, em ciência”. Porém, a proposição “aquilo que não é passível de ser verificado empiricamente, não tem significado” não é, ela própria, verificável.

Isto significa que a ciência parte de um axioma metafísico (de uma espécie de dogma), por um lado, e por outro lado, verificamos que, em qualquer circunstância, a negação da metafísica é sempre uma forma de metafísica.


Aconselho o Carlos M. Fernandes a dedicar-se à pesca.

Quinta-feira, 26 Março 2020

Distinção entre vontade e interesse próprio

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:27 pm

Um leitor escreveu:

“certa vez um amigo me fez a seguinte afirmação: “Toda pessoa age por interesse. Isso é um axioma!”.

Eu concordo que a maioria das pessoas age por interesse. Logo não seria um axioma.

O que você poderia falar sobre essa questão?”


Um exemplo de um axioma, na geometria plana: “duas rectas encontram-se, ou não (neste último caso, são rectas paralelas).

Ou seja, é um axioma a proposição segundo a qual “duas rectas se encontram”; mas também é um axioma  que “duas rectas não se encontram” (as rectas paralelas).

O axioma não exige quetodas as rectas se encontrem, ou não se encontrem”.

Portanto, também podemos considerar axiomática (também é axioma) a proposição segundo a qual “a maioria das pessoas age por interesse”.


O problema é saber o que é “interesse” — porque se é verdade que toda a gente age por interesse (interesse = vontade do indivíduo), temos que distinguir “interesse” enquanto vontade, por um lado, de “interesse próprio”, por outro lado.

“Nem toda a gente age sempre por interesse próprio”; esta proposição também pode ser considerada axiomática.

Quinta-feira, 27 Fevereiro 2020

Os factos são intersubjectivos, e não propriamente “objectivos”

Filed under: Ciência,filosofia,metafísica,Quântica — O. Braga @ 8:48 pm

A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto que é uma logomaquia, ou, melhor dizendo talvez, um texto que pretende negar tudo, afirmando contudo o que se pretende.

No referido texto (da autoria de um tal David Wootton, ver em PDF), tergiversa-se sobre o conceito de “facto”.


A palavra “facto” vem do latim factum, que significa “aquilo que está feito” — o que contradiz (pelo menos, em parte) a noção expressa no referido texto segundo a qual não existia, no advento da modernidade e no latim, uma palavra que significasse “facto”. O que não existia, na Idade Média, era o conceito  enviesado de “facto” que existe hoje — senão vejamos o que pensa o Fernando Pessoa acerca do conceito de “facto”:

«Narrar é enganar-se, porque narrar repousa sobre factos; e não há factos, mas apenas impressões. Certos argumentos são bem feitos; é isso que é verdade.

Não há factos, só interpretações de factos. Quem narra factos, só pode ter a certeza de que corre o risco de errar nos casos, no que narrou, e na maneira de o narrar. Quem só interpreta, dispensa um dos riscos. Certos argumentos são bem feitos, porque os factos são apenas os argumentos.»

→ Fernando Pessoa (“O Sentido do Sidonismo”)

Quando Fernando Pessoa diz que “não há factos, só interpretações de factos”, entra em um circulo vicioso “contraditório” (o que é próprio do poeta: a poesia é filosofia desprovida de lógica) — porque se não há factos, não podem existir “interpretações de factos” (interpretações daquilo que não existe).


A definição comum de “facto” é a seguinte: “um facto é um dado da experiência, com o qual o pensamento pode contar”.


1/ A ideia de “facto” como “um dado da experiência” corrobora a ideia de Fernando Pessoa segundo a qual “o facto é uma impressão”.

olhos-de-sapo-webSenão, vejamos qual é a experiência, por exemplo, de um sapo face à realidade dele: este batráquio só come uma mosca (que esteja ao seu alcance físico) se esta estiver em movimento: se a mosca estiver imóvel, o sapo não a vê, e por isso não a pode comer. O mundo do sapo está limitado àquilo que mexe; e tudo que está imóvel faz parte de uma realidade que é indistinta para ele.

O ser humano moderno, adepto incondicional da ciência, afirma que o ser humano é diferente do sapo — no sentido em que as percepções humanas (ao contrário do que acontece com o sapo) são absolutas, na medida em que (alegadamente) as percepções humanas (os tais dados da experiência) abrangem a realidade inteira: para o ser humano moderno, não existe uma realidade indistinta (à semelhança do sapo), que seja inacessível ao ser humano, alegadamente porque “a ciência baseia-se em factos”.

Para o ser humano moderno, os factos que ele constata e/ou verifica (factos entendidos como alegados “dados da experiência”) formam a única realidade concebível — tal como os objectos em movimento fazem parte da única realidade concebível pelo sapo.

 Em bom rigor, o ser humano moderno em pouco se diferencia do sapo.

Na tradição de Kant, Karl Popper denunciou o culto empiricista da ciência. Não cabe agora aqui falar da oposição de Kant ao empirismo de Hume.

2/ Os professores de filosofia (como é o caso da Helena Serrão) ignoram completamente a filosofia quântica —, talvez por conveniência ideológica. Ignoram porque não sabem, ou ignoram porque não querem que se saiba.

Se tivermos em consideração a mecânica quântica, o “facto” — o da Helena Serrão e o do tal David Wootton — torna-se translúcido.

Ora, a mecânica quântica faz parte da ciência: ou seja, é a própria a ciência que coloca hoje em causa a suprema importância do “facto” como “dado da experiência”; e nunca vi um professor de filosofia mencionar este facto.

Os “factos” (como “dados da experiência”) são importantes para a nossa orientação e para o nosso comportamento saudável em um universo que resulta da entropia da gravidade (o universo que experimentamos é o produto de duas grandes forças: a força quântica e força da gravidade).

A ciência é um instrumento da nossa vontade de sobreviver neste universo, mas não substitui a filosofia ou/e a teologia.

A ideia — implícita no texto da Helena Serrão — segundo a qual a ciência pode substituir a religião por um saber inequívoco, está ultrapassada. Só os professores de filosofia ainda não se deram conta disso.

Terça-feira, 29 Outubro 2019

Schopenhauer é uma fraude

Filed under: filosofia — O. Braga @ 7:34 pm

A filosofia (uma teoria) não pode ser um exercício paranóico de retórica subjectivista; ou uma logomaquia irracional e gongórica desenvolvida em nome da “complexidade filosófica” — como é o caso de Schopenhauer, como podemos ver aqui.

Schopenhauer passou a vida a copiar o modelo filosófico hindu e budista, tentando adaptar o monismo oriental ao idealismo alemão. Aliás, o idealismo alemão não fez outra coisa senão copiar os monismos orientais, desde que Schelling foi rebuscar o modelo cabalístico de Jacob Böhme, somou-lhe uns pozinhos ideológicos oriundos do monismo budista, e inventou o conceito de “dialéctica” — que Hegel veio depois a copiar e a desenvolver.

Schopenhauer é uma anedota; foi uma espécie de autor de livros de “auto-ajuda” do seu tempo; e não pode, de modo nenhum, ser colocado no mesmo patamar de Kant, ou mesmo ser comparado com este.

E é um erro falar em “construtivismo idealista”, referindo-se a Kant: seria como se disséssemos que “Platão foi um idealista” porque lucubrou acerca de um “mundo das ideias”; ou que Karl Popper foi um “idealista” porque  tergiversou sobre o conceito de “Mundo 3”.

Quinta-feira, 10 Outubro 2019

Rousseau passou a vida a plagiar conceitos

Filed under: Ciência,filosofia,Rousseau,Santo Agostinho — O. Braga @ 8:34 pm
Tags: ,

Vemos aqui um texto que nos demonstra como o Jean-Jacques Rousseau foi o precursor da Teoria Crítica — a arte retórica niilista de colocar em dúvida a própria dúvida: e é só nisto que Rousseau é original, porque a crítica que Rousseau faz aos filósofos é literalmente copiada de Pascal [por exemplo, quando Blaise Pascal afirma que a filosofia conhece “280 bens supremos” de modo que cada filósofo teria a sua própria moral].

Ainda no referido texto, Rousseau [a negação romântica da ciência, como acontece hoje, por exemplo, com o Bloco de Esquerda e com uma certa parte do Partido Socialista] refere-se à dúvida sistemática de Descartes, criticando-a:

“Estava naquele estado de espírito de incerteza e de dúvida que Descartes exige para a procura da verdade. Este estado não é feito para durar, é inquietante e penoso; deixa-nos apenas o interesse do vício e a preguiça na alma. Não tinha o coração tão corrompido para aí me comprazer; e nada preserva melhor o hábito de reflectir que estar mais satisfeito consigo do que com o seu destino”.

Mas assim como Rousseau copiou Pascal, assim Descartes copiou Santo Agostinho que antecipou, no século IV, a famosa ideia de Descartes do século XVII: “cogito, ergo sum”:

“¿Quem quereria duvidar de que vive, se lembra, compreende, pensa, sabe ou julga? É que, mesmo quando se duvida, compreende-se que se duvida… portanto, se alguém duvida de tudo o resto, não deve ser dúvidas acerca disto. Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido. Porque a dúvida só é possível se eu existo”.

→ “Cidade de Deus” (Santo Agostinho)

A professora Helena Serrão chapou o referido texto de Rousseau sem quaisquer comentários (“quem cala, consente”, diz o povo) — um texto da respigado da obra de Rousseau “L’Émile ou de l’éducation”, obra essa que fez [talvez] com que Rousseau enviasse os seus cinco filhos para um orfanato para não ter a preocupação e a trabalheira de os educar.


“Quando vemos ambos que aquilo que dizes é verdadeiro — ¿onde é que o vemos?, pergunto-te. Decerto não é em ti que o vejo, não é em mim que o vês. Vemo-lo ambos na imutável Verdade, que se encontra acima das nossas inteligências.”

→ Santo Agostinho, Confissões, XII, XXIV, 35

Segunda-feira, 22 Julho 2019

Um exemplo de anfibolia

Filed under: filosofia,lógica — O. Braga @ 8:52 pm

Escreve-se aqui:

« (…) desconsiderando a velha questão de saber se o PSD é, ou não, ideologicamente um partido de direita ou se é um partido de centro-esquerda e social-democrata, boa parte do seu eleitorado foi-o sempre. »

A anfibolia é uma imprecisão (em lógica informal) que ocorre quando as premissas usadas num argumento são ambíguas em função do uso de expressões imprecisas ou de frases gramaticais erradas.

Por exemplo:

“O ministro solicitou aos agentes da polícia que dispersassem os manifestantes, mas eles recusaram-se.”

Neste exemplo, ficamos sem saber se o termo “eles” se refere aos agentes da polícia ou se se refere aos manifestantes.

No caso do exemplo supracitado, em que “boa parte do seu eleitorado foi-o sempre”, não ficamos com a certeza de que essa “boa parte do eleitorado” do PSD “foi sempre”  uma coisa ou outra.

Página seguinte »

%d bloggers like this: