perspectivas

Quinta-feira, 17 Abril 2014

Quero dar os parabéns à Câmara Municipal de Vila Franca

Filed under: cultura — orlando braga @ 4:11 pm
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A Câmara Municipal de Vila Franca apoia a realização de touradas na praça da cidade. Quero daqui felicitar a Câmara Municipal de Vila Franca por apoiar a arte, a cultura, o turismo e o desenvolvimento económico naquela cidade.

picasso e touros2

O Direito Positivo, o "casamento" gay e a União Europeia

 

O Direito Positivo, segundo o seu principal ideólogo e promotor (Kelsen), pode ter qualquer conteúdo. Repito: qualquer conteúdo. O Direito Positivo é como uma grelha de uma folha de Excel: podemos meter nos quadrados da folha de Excel aquilo que nos der na real gana para atingirmos os resultados que quisermos, e independentemente da realidade objectiva ou factual.

O conteúdo do Direito Positivo pode ser anti-social; pode até (legalmente) conduzir toda uma sociedade ao suicídio.

O conteúdo do Direito Positivo é arbitrário (ou depende das elites, ou depende do voto popular), e por isso é que Kelsen defendeu a ideia segundo a qual o Direito Positivo só pode existir legitimamente em uma sociedade democrática (uma sociedade onde existam eleições livres), para que se evite a instalação de tiranias através do Direito Positivo. Essa associação entre o Direito Positivo de conteúdo arbitrário, por um lado, e a democracia, por outro lado, deu naquilo a que se convencionou chamar “Estado de Direito”.

Quando acontece uma crise da democracia — por exemplo, na actual União Europeia, cujas instituições com real Poder não são eleitas directamente —, o Direito Positivo vira-se quase sempre contra a própria sociedade.

Por outro lado, a validação do Direito Positivo faz-se através do processo de promulgação das leis. Uma lei injusta, se promulgada segundo um determinado processo definido pelas elites, é válida. Ou seja, o conteúdo do Direito Positivo é arbitrário e depende apenas do processo de promulgação das leis.

Até Abril de 1974, em Portugal, o Direito Positivo estava condicionado pelo Direito Natural.

ue out webDepois do 25 de Abril de 1974, o Direito Natural foi “oficiosamente” banido da ordem jurídica portuguesa e por influência estrangeira. Mas em países europeus actuais, como por exemplo na Hungria, ainda hoje o Direito Positivo é claramente condicionado pelo Direito Natural.

Leio aqui que um perito em direito internacional afirma que o “casamento” gay é uma ficção jurídica.

Quando o Direito Natural é banido, toda e qualquer lei de casamento pode ser validada através do processo de promulgação das leis — processo esse que, em Portugal, não é democrático. Por exemplo, o “casamento” gay não foi referendado pelo povo português, o que significa que a arbitrariedade do conteúdo do Direito Positivo em Portugal não é sancionado por uma verdadeira democracia. Portugal não tem uma democracia verdadeira.

Portanto, a ideia segundo a qual “a lei deve ser feita a partir da realidade sensível externa e das instituições sociais consagradas pelo hábito durante centenas de gerações, que constituem o fundamento de uma civilização”, é Direito Natural. Não é Direito Positivo.

O Direito Positivo não está, por sua própria natureza, obrigado a promulgar leis “feitas a partir da realidade sensível externa e das instituições sociais consagradas pelo hábito durante centenas de gerações, que constituem o fundamento de uma civilização”. O Direito Positivo pode promulgar, se assim quiser, o casamento entre um cão e um gato — desde que o processo de promulgação (qualquer que seja) seja válido.

Por isso é que a nossa Constituição terá que ser revista no sentido de tornar clara a condição “a priori” do Direito Natural sobre o Direito Positivo no nosso ordenamento jurídico. Ora, é isto que a União Europeia não permite de modo algum — porque a União Europeia é um projecto totalitário que pretende aproveitar-se da arbitrariedade intrínseca do Direito Positivo.

A substituição abusiva do senso-comum pela ciência

Filed under: Ciência,cultura — orlando braga @ 10:05 am
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Um médico morreu ontem em Aveiro devido a um enfarte no miocárdio, e os me®dia vêm dizer que “ele fumava muito”. O Manuel Forjaz morreu em um Domingo passado com um cancro no pulmão, mas os me®dia não vêm dizer que ele não fumava e que praticava jogging diário.

Ou seja, aquilo que constituía, no primeiro caso e para os me®dia, uma relação de nexo causal em relação a um determinado comportamento, já não pode existir logicamente no caso segundo — e por isso é que os me®dia não tentam justificar “cientificamente” o caso de Manuel Forjaz.

Parece-me óbvio (é uma evidência) que qualquer excesso comportamental pode ser prejudicial à saúde; mas daí a concluir que um qualquer comportamento é sempre e necessariamente prejudicial, é transformar a medicina em uma doutrina dogmática. E quando a medicina entra em dogma, isso significa que ela reconhece as suas limitações enquanto ciência — “ciência” entendida aqui no sentido de previsão dos acontecimentos futuros.

cientismoFace a isto, ¿o que fazem os ditos “cientistas”? Entram pela teoria da probabilidade adentro. Dizem eles: “é mais provável que aconteça o fenómeno A a quem tem um comportamento B, do que a outra pessoa que não tenha esse comportamento”. Ora, isto não é propriamente ciência: antes, é senso-comum.

Por exemplo, é mais provável que uma pessoa que se desloque num carro a 200 km/h, morra de um acidente do que uma pessoa que se desloque a 30 km/h. Isto é senso-comum, e já não tem nada a ver com a “ciência” enquanto “previsão do futuro”. E é senso-comum porque se baseia na experiência intersubjectiva que vem do passado: é algo que, através da experiência do senso-comum, se tornou evidente: é evidente que quem viaja a 200 km/h tem uma maior probabilidade de morrer de um acidente de viação do que se viajasse a 30 km/h.

A ciência baseia-se na estatística que, por sua vez, é fundada no passado. Não existe uma estatística feita no futuro (o que é uma contradição em termos). E, em bom rigor, não existe uma certeza do futuro, nem existe qualquer garantia de as leis da Física, por exemplo, serão aplicáveis amanhã de manhã. Ademais, as estatísticas nunca revelam um grau de probabilidade de 100% — mesmo as leis dita “certas”, como por exemplo a lei da gravidade, são abstracções de factos verificados pelo senso-comum.

A ciência tem provas sem certezas, e o ser humano tem certezas sem provas.

Vamos ver, por exemplo, a lei “certa” da gravidade. Quem quiser compreender a lei da gravidade tem que, em primeiro lugar, abstrair-se de factores como, por exemplo, a forma ou a cor dos objectos, ou a resistência ao ar. Ou seja, a lei da gravidade abstrai-se de qualquer caso real na natureza observável no planeta Terra — a lei da gravidade simplifica a realidade.

Mas a lei “certa” da gravidade nunca permitirá que a ciência possa descrever a trajectória da queda de uma ou mais folhas caducas de Outono, senão de uma forma aproximada. A ciência pode compreender o processo da queda de folhas de Outono e em um caso concreto através de princípios gerais (teóricos). Mas não pode prever exactamente a trajectória da queda de uma ou mais folhas de Outono. E mesmo esta previsão inexacta é tão geral que se poderia igualmente aplicá-la em relação a uma folha que hipoteticamente caia na Lua.

Para que seja possível formular leis a partir das observações científicas, é necessário simplificar e criar modelos que constituam uma abstracção da complexidade da realidade. Ou seja, a ciência simplifica a realidade. E os modelos, por sua vez, constituem meras aproximações descritivas em relação à verdade dos fenómenos sob investigação científica, sem que a ciência possa, jamais e em tempo algum, chegar a compreender a verdade completamente.

Esta verdade não é inventada pelos cientistas — por exemplo, o Idealismo defende a ideia segundo a qual a verdade de um fenómeno é produzida pelo observador do fenómeno, o que é uma afirmação absurda, na medida em que seria o cientista a produzir o objecto da investigação, e porque (segundo o Idealismo) o objecto sem a sua verdade, é impensável. O cientista não é o criador do mundo, mas simplesmente aquele que investiga o mundo.

Esta verdade está acima do espaço-tempo: é intemporal. E é esta verdade intemporal que o senso-comum intui, sem que seja necessário que a ciência venha tomar-lhe o lugar mediante a reivindicação de uma autoridade de direito que é ilegítima.

Como se pode ver, eu posso estar de acordo com Wittgenstein acerca do princípio da necessidade de afirmação do primado do senso-comum na nossa vida quotidiana — mas em vez de criticar a “usurpação da metafísica tradicional” (crítica feita por Wittgenstein à metafísica) em relação ao senso-comum, critico antes a transformação da ciência em uma espécie de metafísica exclusivista; e é isso que o cientismo faz: pretende substituir-se à metafísica filosófica tradicional, ao mesmo tempo que pretende tornar irracional o senso-comum.

O lava-pés do cardeal Bergoglio já inclui muçulmanos

Filed under: Igreja Católica — orlando braga @ 8:01 am
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Já não é só mulheres, como aconteceu no ano passado. Agora, o heterodoxo cardeal Bergoglio já meteu um muçulmano na cerimónia de lava-pés da Quinta-feira Santa. Um dia destes, vamos ver o cardeal Bergoglio fazer um lava-pés exclusivo para lésbicas; afinal, “quem é ele para julgar”? O cardeal Bergoglio só faz juízos de valor subjectivos e ambíguos.

Numa altura em que os cristãos estão a ser assassinados em massa na Nigéria, o cardeal Bergoglio lava os pés a muçulmanos.

Uma “religião” que permite que um homem tenha quatro mulheres, e o cardeal Bergoglio lava os pés a muçulmanos; uma “religião” que permite a excisão feminina, e o cardeal Bergoglio lava pés a muçulmanos; uma “religião” que defende — preto no branco — que as irmãs não têm o mesmo direito a herança dos irmãos, e o cardeal Bergoglio faz a triste figura de lavar os pés a símbolos dessa cultura.

O Islamismo não é propriamente uma religião: é um princípio de ordem política. Ao contrário do Cristianismo que afirma que devemos “dar a César o que é de César, e a Deus o que é Deus” (separação do espiritual em relação ao temporal), o Islamismo é uma espécie de ideologia política. Por isso é que qualquer esforço de secularização do Islamismo será sempre infrutífero, porque na sua base está um princípio de ordem política.

E é a este princípio político de ordem que o cardeal Bergoglio esfrega e beija os pés. A tudo se chega enquanto a vida dura. Sempre defendi o respeito pelas outras religiões, mas nunca imaginei que um papa incluísse um muçulmano no cerimonial do lava-pés da Quinta-feira Santa!

Quarta-feira, 16 Abril 2014

O Homem Novo da Esquerda

 

 

O Cristianismo, com a acção dos apóstolos de Jesus Cristo e, mais tarde, com a Patrística, anunciou o Homem Novo que era o cristão que se diferenciava dos pagãos. O que separava essencialmente o Homem Novo, ou seja, o cristão, por um lado, do pagão, por outro lado, era a ética. As éticas do cristão e do pagão eram diferentes — e isto para além de todas as considerações religiosas evidentes e das diferenças de mundividência.

Portanto, para o Cristianismo, o Homem Novo era aquele que assumia e interiorizava voluntariamente uma Nova Ética. Naturalmente que esta Nova Ética tinha uma relação estrita e directa com uma nova mundividência que, ao contrário do que parece dizer este papa (porque nunca sabemos exactamente o que ele quer dizer!), não eliminou hierarquias: antes, criou um novo tipo de hierarquia, não já baseada no poder material, mas na autoridade dos dignitários da Igreja que foi deduzida da Autoritas romana. Mas essa  autoridade emanava do povo cristão: por exemplo, os bispos eram eleitos pelo povo cristão! (¿você sabia disto?).

O filósofo Mircea Eliade escreveu o seguinte no seu livro “História das Ideias Religiosas” :

“(…) a fé inabalável e a força moral dos cristãos, a sua coragem perante a tortura e a morte, a qual foi admirada mesmo pelos seus maiores adversários (…)

Para todos os desenraizados do império (romano), para as vítimas de alienação cultural e social, a Igreja era a única esperança para alcançar a identidade e encontrar ou reencontrar um sentido para a existência. Visto que não existiam quaisquer barreiras sociais, raciais ou intelectuais, qualquer pessoa podia tornar-se membro desta comunidade optimista e paradoxal, na qual um cidadão poderoso, camareiro do imperador, se prostrava diante de um bispo que tinha sido seu escravo.

Muito provavelmente, nenhuma comunidade na História, nem antes, nem depois, conheceu uma igualdade, uma caridade e um amor entre irmãos tão grandes como aqueles que foram vividos nas comunidades cristãs dos primeiros quatro séculos.”

Essa “igualdade” cristã não significava “ausência de hierarquia”. A igualdade cristã era ontológica, o que não impedia que “um cidadão poderoso, camareiro do imperador, se prostrasse diante de um bispo”.


Em contraponto, para a Esquerda, o Homem Novo parece ser o ser humano biologicamente alterado. Leio aqui o seguinte:

O “homem novo”

Um dos campos onde a ideologia do género começa a ser imposta é nas escolas. Há planos para o efeito em vários países europeus, incluindo Portugal. Mas este é apenas um aspecto. Durante a polémica sobre a introdução da teoria do género no ensino em França, é de notar que o ministro socialista, responsável por essa pasta, afirmou que “o objectivo da educação é arrancar do aluno todos os determinismos, familiar, étnico, social , intelectual…” Assim se vê que o sonho de fabricar o “homem novo” se mantém vivo. Apenas se apresenta sob outras formas.

 

trans-humanismoA construção do Homem Novo da Esquerda tem pouco a ver com a Ética.

Quando o ministro socialista francês, o maçon inveterado Vincent Peillon, defendeu a ideia expressa segundo a qual “o objectivo da educação é arrancar do aluno todos os determinismos, familiar, étnico, social , intelectual…”, já não estamos a falar de ética: estamos antes a falar em separar o ser humano da sua biologia.

Para o marxismo clássico, o Homem Novo era também alguém que contrariava a natureza humana, mas nunca o marxismo clássico chegou ao ponto de negar a própria biologia. Ou seja, a Esquerda actual consegue ser ainda mais radical (no sentido de “eliminação de raízes”) do que o marxismo clássico.

Assim, o Homem Novo, para a actual Esquerda, é um conceito abstracto, é algo que não se pode encontrar de facto na realidade. Quando a Esquerda separa o ser humano, por um lado, da biologia, por outro lado, pretende fazer do ser humano uma abstracção — ou seja, algo que não existe na sociedade concreta e factual. O estatuto de “cidadania” passa a ser abstracto.

O “Homem Novo” da Esquerda não é construído a partir de uma diferenciação cultural com base em fundamentos éticos (como aconteceu com o Cristianismo), mas antes a Esquerda pretende construir esse outro Homem Novo a partir de uma transmutação biológica que consiste na recusa e negação da própria biologia humana. A recusa da biologia humana é já uma espécie de trans-humanismo: colocada face à condição humana, a Esquerda recusa-a terminantemente.

antinatural isabel moreiraNa medida em que, para a Esquerda, a “diferença” entre os seres humanos é sinónimo de “hierarquia”, então conclui a Esquerda que “a raiz do mal está na diferença” entre os seres humanos — ao contrário do que aconteceu com o Homem Novo do Cristianismo, em que a “igualdade” entre seres humanos era (e é!, ainda) ontológica e as suas diferenças eram consideradas como características intrínsecas da condição humana.

A própria agenda política eugenista da Esquerda (abortos selectivos, etc.) tem algo a ver com a identificação ideológica da Esquerda entre “diferença”, por um lado, e “hierarquia”, por outro lado. Uma criança nascida com uma deficiência é considerada como “um atentado natural à igualdade” entre os homens. E, por isso, a Natureza tem que ser negada no seu todo: “anti-natural, felizmente”, como diz a lésbica militante Isabel Moreira.

O que está a acontecer hoje, com o conceito de “Homem Novo” da Esquerda, é uma ruptura radical com a própria realidade material e ontológica. É uma postura radicalmente anti-científica. É a recusa da realidade (a “Grande Recusa”, de Herbert Marcuse 1). O que a Esquerda está a tentar fazer é induzir a toda a sociedade uma psicose colectiva: pretende transformar o cidadão comum, em geral, em um psicótico, para melhor poder controlar a sociedade e instituir um novo tipo de totalitarismo.

 


Nota
1. 

« Em “Eros e Civilização”, Marcuse sustenta que “a correlação freudiana repressão do instinto / trabalho socialmente útil / civilização pode, sem se tornar absurda, ser transformada na correlação libertação do instinto / trabalho socialmente útil / civilização”.

Pareceria, portanto que a libertação do homem não implicaria a abolição do trabalho. A “Grande Recusa” (designação inspirada no Manifesto do Surrealismo proclamado em 1924 por André Breton) consistiria no “protesto contra a repressão supérflua, na luta pela forma definitiva de liberdade — um viver sem angústia” (Ibidem, p. 121).

E a obra inteira tem como objectivo a demonstração de que a “auto-sublimação da sexualidade” destrói o primado da função genital, transforma todo o corpo em órgão erótico e o trabalho em jogo, divertimento ou espectáculo. Com o advento do puro Eros, ficaria destruída “a ordem repressiva da sexualidade procriadora” (ibidem, p. 137).

Mas não ficaria também destruída a capacidade humana de reprodução? »

Trecho retirado do Tomo XIV da “História da Filosofia”, de Nicola Abbagnano , § 865. Como podemos verificar, o conceito abstracto de “Homem Novo” da actual Esquerda é copiado literalmente do marxismo cultural ou utopia negativa.

Terça-feira, 15 Abril 2014

O Brasil e a arbitrariedade da língua

Filed under: acordo ortográfico — orlando braga @ 7:04 pm
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«[Pergunta] Li no livro de estilo de um grande jornal brasileiro que a palavra «caráter» forma o plural em «caracteres» (assim mesmo, com «c» antes de «t»). Como se explica esta alteração?

[Resposta] Não é uma alteração que afete globalmente os países em que o português tem estatuto oficial. Antes parece tratar-se de uma especificidade brasileira que está há muito fixada no próprio Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras (ver também o Dicionário Houaiss).»


Agora, pergunto eu: ¿como é possível um cidadão dominar uma língua que se afastou da sua raiz etimológica? Como é possível conhecer bem o presente sem ter uma noção do passado? E como é possível que se caia no ridículo de o singular de um substantivo não seguir a regra etimológica, mas, por outro lado, o plural do mesmo substantivo já seguir essa regra?!

É preciso ter cuidado com as palavras que utilizamos

Filed under: A vida custa — orlando braga @ 6:22 pm
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“Desmistificação” — ou o verbo desmistificar — é uma palavra inventada por Karl Marx e adoptada pelos marxistas, em geral. Portanto, não é suposto que seja utilizada em um blogue que defenda a tradição monárquica.

O cientismo é dogmático

Filed under: Ciência,cultura — orlando braga @ 8:18 am
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Um cego pode dizer que “não pode ouvir as cores”, e que, por isso, as cores não existem objectivamente.

De um modo semelhante, o cientismo diz que os valores da ética não existem objectivamente (e que só existem subjectivamente) porque são estranhos às ciências da natureza.

O problema é que os intérpretes do cientismo são supostos “cientistas” ou “homens da ciência”; e em vez de termos as sotainas da Idade Média, temos as batas brancas dos ratos de laboratório da contemporaneidade.

A reacção ao absurdo

Filed under: A vida custa — orlando braga @ 7:34 am

 

Lembro-me quando, adolescente, li o livro do Albert Camus “O Estrangeiro”: à medida que me ia entranhando na leitura, ia “sentindo” uma estranha ambiência à minha volta, como se o ambiente absurdo em que viviam as personagens do livro “saísse” do romance e impregnasse o mundo real.

O resultado desta hipostasia é uma espécie de vivência real do absurdo por osmose psicológica, que tende a paralisar a acção mental do leitor. Colocados face à evidência do absurdo — em que este se torna nítido — , tendemos ao entorpecimento da mente; mas esse entorpecimento, que é consciente, só acontece com quem identifica claramente as situações de absurdo: para os personagens do livro de Camus, é suposto que vivessem em um absurdo inconsciente.

A vida tem sempre alguma coisa de absurdo, e é (também) por isso é que procuramos uma certa lógica das coisas, uma ordem que se intui ou que se demonstra.

Porém, nos últimos tempos vivemos em um ambiente absurdo que parece tomar conta da vida real (social, cultural, política), excluindo-se qualquer possibilidade de verificação lógica que contrabalance ou compense o coeficiente de absurdidade natural ao mundo. Parece que um mundo irreal de um livro de Camus “saltou” para fora do romance e assumiu vida própria num mundo que deveria ser real; e que os personagens do romance de Camus animam agora o mundo, inadvertidamente inconscientes da absurdidade em que eles próprios vivem.

Perante um absurdo avassalador, sentimos uma certa impotência.

É essa impotência que tende a entorpecer o espírito consciente — porque o espírito inconsciente já está entorpecido por sua própria natureza. Cabe, contudo, ao espírito consciente, o reagir; e por isso é que ele se transforma em um “reaccionário”: é aquele que reage, que não se deixa levar pelo absurdo de uma qualquer narrativa novelesca que tende a envolver o mundo real; que se recusa a aceitar o entorpecimento do espírito induzido pela lógica do absurdo — porque o absurdo tem a sua própria lógica: aquela que se nega a si própria.

Domingo, 13 Abril 2014

Quando os patrões faziam milagres

Filed under: cultura — orlando braga @ 5:04 pm
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Um patrão para quem trabalhei em meados da década de 1980 era dos antigos, tinha uma gestão empresarial militarista — a gestão de tipo “cogumelo” 1 — e uma certa forma “patriarcal” de lidar com os trabalhadores — era como uma espécie de “grande pai de família” cujos “filhos” era os mais de 700 empregados da empresa. Isto já não existe: o mofo deu-lhe!

Uma vez por ano, perto do Natal, o patrão organizava uma festa com comida e bebida grátis para os trabalhadores, e realizava uma tômbola gigante, através da qual todos os trabalhadores (incluindo eu) se habilitavam ao sorteio de Mil Contos (cerca de 5 mil Euros).

Mas a tômbola estava viciada, embora só meia dúzia de pessoas (eu incluso) sabia da marosca: uns dias antes da festa, o patrão perguntava a essa meia dúzia de pessoas: “¿Quem anda aflito com a vida?”. A resposta vinha célere: “Fulano tem uma filha muito doente que precisa de uma operação muito urgente aos rins!”. “Pois bem”, dizia patrão patriarca, “vamos viciar a tômbola e atribuir o prémio dos Mil Contos ao número da tômbola do Fulano”. E assim era! Depois de saído o prémio, o povo trabalhador presente na festa comentava, atónito: “¿E não é que saiu o prémio mesmo a quem precisava?!! Parece que foi o Nosso Senhor que operou um milagre!”

E eram mesmo “milagres” que os patrões de antanho faziam, e que hoje já não existem: os trabalhadores deixaram de ser vistos, pelos actuais patrões, como ser humanos. Apesar da “gestão de cogumelo”, houve um tempo em que trabalhar em uma empresa fazia parte da nossa cultura e de um projecto de vida a prazo definido.

Nota
1. Gestão de tipo cogumelo: há um maioral, e o resto é tudo composto por cogumelos. De vez em quando o maioral defeca para cima dos cogumelos, esperando que eles cresçam!

A imagem de Passos Coelho na opinião pública

Filed under: Passos Coelho — orlando braga @ 8:20 am

 

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Respigado no FaceBook

O Estado Social e a contradição do Vasco Pulido Valente

 

Para evitar mal-entendidos, convém dizer, desde já, que não sou a favor do Estado Social no sentido definido, já no século XVIII, por Kant na sua crítica ao Camaralismo (por favor, ler: Kant contra Wohlfahrtsstaat).

Este texto de Vasco Pulido Valente é tão lunático como é lunática a defesa actual do Wohlfahrtsstaat — porque o Estado Social é o Wohlfahrtsstaat do tempo de Kant, embora actualizado.

vpvÉ inconcebível que o Vasco Pulido Valente pense que uma pessoa pobre não possa ter, de jure, qualquer possibilidade financeira de ser operado à apendicite, por exemplo; pelo menos eu penso que ele não pensa que um pobre, por ser pobre, deve sofrer uma espécie de “eutanásia lenta”… é preciso ter cuidado com os paradigmas mentais e reais (a Indonésia, por exemplo, não deve ser um paradigma real, nem a ucronia do retorno histórico deve ser um paradigma mental).

Portanto, o Estado Social deve ser entendido, na sua essência, conforme a crítica que Kant fez ao Wohlfahrtsstaat. Afirmar que “ a recusa do Estado Social significa a negação do direito do cidadão à assistência médica e hospitalar”, só pode vir de uma pessoa em estado de delirium tremens.

Se lermos o texto do Vasco Pulido Valente até ao fim, ele fala na família. ¿E o que diz ele?

“A família, que ajudava e completava a escola, está frágil ou, para efeitos práticos, desapareceu, e a escola teve de a substituir. O peso financeiro disto aumentou de ano para ano, de dia para dia, e não se prevê que alguma vez venha a diminuir.”

Ou seja, o texto do Vasco Pulido Valente é auto-contraditório e aponta para o absurdo: por um lado, pretende afirmar que “a assistência médica-hospitalar economicamente acessível aos cidadãos em geral é igual a Estado Social”, que ele diz que é insustentável; mas, por outro lado, ele reconhece um facto: a família tradicional, e mesmo a família natural, tendem a perder o valor simbólico que existia na nossa cultura antropológica e ainda há pouco tempo, se é que a destruição desse simbolismo não é já total e irreversível.

Ou seja, como não é possível ter “chuva no nabal e sol na eira”, o Vasco Pulido Valente infere que mais vale acabar com a chuva e com o sol. Que se impluda Portugal! O princípio do terceiro excluído parece não fazer parte do arquétipo mental do Vasco Pulido Valente.

Esta contradição do Vasco Pulido Valente reflecte uma contradição da União Europeia de que Portugal “apanha” por tabela.

Por um lado, temos as agendas políticas das engenharias sociais que tendem a transformar os Estados europeus em uma série de Wohlfahrtsstäte submetidas ao “directório europeu” liderado pela Alemanha. Por isso é que o Tribunal Europeu dos “Direitos Humanos” impõe aos Estados da União Europeia o “casamento” gay, a adopção de crianças por pares de invertidos, etc., destruindo os símbolos culturais desses países. Eu não ouvi o Vasco Pulido Valente falar quando o José Sócrates legalizou o “casamento” gay sem consulta popular: andou caladinho que nem um rato.

Por outro lado, e em contraponto à política das engenharias sociais, a União Europeia impõe um princípio de libertarismo económico que tende a reduzir o Estado à condição de “Estado exíguo”, nas palavras do professor Adriano Moreira.

Ora, não é possível termos as engenharias sociais (impostas pela União Europeia) e, simultaneamente, o libertarismo económico do “Estado mínimo” (também impostas pela União Europeia). Não é possível termos “sol na eira e chuva no nabal”. Esta contradição da União Europeia é também a contradição do Vasco Pulido Valente e de quase toda a “Direita” portuguesa. No meio disto tudo, só a Esquerda é coerente: defende as engenharias sociais e o Estado de Wohlfahrtsstaat devidamente actualizado.

Em suma, para que a crítica de Vasco Pulido Valente fosse coerente e eficaz, ele teria que, em primeiro lugar, fazer a crítica à agenda da política correcta das engenharias sociais. Mas isso ele não faz, porque ele não é tolo!: não há nada que lhe possa tirar o regalo de um bom vinho, um saboroso conduto e, depois do repasto, um charuto cubano! E viva o Passos Coelho!

Ficheiro PDF do texto de VPV

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