perspectivas

Domingo, 10 Novembro 2013

De Kierkegaard a José Régio

 

Já Hannah Arendt afirmou que a filosofia de Kierkegaard foi o início da crise moderna do Cristianismo. E tinha razão. Por muito que não gostemos (e eu não gosto dessa ideia), Hannah Arendt tinha razão.

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Terça-feira, 18 Junho 2013

O dualismo céptico e radical de Kant

Se perguntarem a um céptico radical que se encontre em Lisboa, se às 11 da manhã de hoje haverá transeuntes na Avenida da Liberdade no Porto, a provável resposta será esta: “Não sei. Pode haver transeuntes ou não. A única forma de ter a certeza é ir ao local, àquela hora, verificar se há ou não”.

Um realista (de Realismo como corrente filosófica) em Lisboa dirá o seguinte: “Ao longo de séculos sempre houve transeuntes na Avenida da Liberdade do Porto às 11 horas da manhã. Por isso, baseando-nos na nossa experiência multissecular, podemos dizer que não só é provável mas até verdadeiro que existam transeuntes a essa hora e nessa avenida”.

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Quarta-feira, 6 Fevereiro 2013

Sofia Reimão e o cepticismo de David Hume

Filed under: ética,filosofia — O. Braga @ 5:37 pm
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(Os verbetes desta série podem ser lidos sob esta categoria).

Sofia Reimão escreve o seguinte (pág. 63 do referido livro):

(i) Embora inclua fundamentais problemas teóricos de natureza metafísica e teológica, o tema da morte permanece, antes de mais, como um assunto antropológico: diz respeito à vida humana.

(ii) A questão do significado da morte está relacionada com a questão da natureza humana, com a questão fundamental que é a de saber “o que é o homem”.

(iii) Este problema não pode ser esclarecido se for negligenciado o problema da realidade da mortalidade.


1/ Verificamos aqui, neste excerto, com uma clarividência total, a inversão da prioridade lógica das coisas (a inversão revolucionária do nexo causal), causado pelo embotamento intelectual da pós-modernidade absorvida pela Técnica. Desde logo, seria avisado que se utilizasse a conjunção adversativa “ou” — de natureza metafísica ou teológica — em vez da copulativa “e”, porque a “metafísica”, mesmo sendo a “clássica” (como se houvesse outra!), não é a mesma coisa que “teologia”.

2/ Depois, diz que os problemas de natureza metafísica são “teóricos”, e por isso, relegados para um segundo plano, uma vez que o termo usado, “antes de mais”, releva a prioridade da morte como um “assunto antropológico”, em detrimento dos primeiros princípios. Ou seja, por exemplo, a primeira lei de Leibniz é considerada “teórica” e, por isso, de importância secundária. Ou os axiomas da lógica, que não são físicos, têm uma importância relativa e secundária para a “questão do ser”.
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Domingo, 9 Dezembro 2012

“O Novo Rebelde”, segundo Chesterton

“O novo rebelde é um céptico que não confia integralmente em nada. Não tem nenhuma lealdade; por isso, não pode ser nunca realmente um revolucionário. E o facto de ele duvidar de tudo constitui um obstáculo quando pretende denunciar qualquer coisa — porque toda a denúncia implica uma doutrina moral de qualquer tipo; e o revolucionário moderno duvida não só de uma qualquer instituição que ele denuncia, mas também duvida da doutrina através da qual ele a denuncia. Por isso, ele escreve um livro queixando-se que o império insulta a pureza das mulheres, e depois escreve outro livro (acerca do problema sexual) em que ele insulta o sexo. Ele insulta o Sultão porque as raparigas cristãs perdem a sua virgindade, e depois insulta a senhora D. Grundy porque ela guarda a sua virgindade.

chesterton-daguerre-webComo político, ele gritará que a guerra é uma perda de vidas, e depois, como filósofo, dirá que a vida é uma perda de tempo. Um pessimista russo denuncia um polícia por ter morto um camponês, e depois demonstra através de mais altos princípios filosóficos que o camponês se deveria ter suicidado. Um homem denuncia o casamento como sendo uma mentira, e depois denuncia os devassos aristocráticos por tratarem o casamento como uma mentira. Diz que a bandeira é uma bugiganga, e depois culpa os opressores da Polónia e da Irlanda porque lhes retirarem e proibirem as respectivas bugigangas.

O homem desta tendência moderna vai primeiro a uma reunião política onde se queixa que os selvagens são tratados como se fossem bestas; e depois pega no chapéu e no guarda-chuva e vai para uma reunião científica onde ele faz prova de que os selvagens são praticamente bestas. Em resumo, o revolucionário moderno, sendo um céptico infinito, está sempre comprometido em minar as suas próprias minas. No seu livro acerca da política, ele ataca os homens por transgredirem na moral; e no seu livro acerca da ética, ataca a moral por transgredir em relação aos homens. Por isso, o homem moderno em revolta tornou-se praticamente inútil para todos os propósitos de revolta. Revoltando-se contra tudo, ele perdeu o direito de se revoltar contra o que quer que seja.”

— G. K. Chesterton

Domingo, 14 Outubro 2012

O século de David Hume

A principal característica do cepticismo moral do homossexual David Hume foi o de se agarrar a excepções para definir o geral. Ou, por outras palavras, Hume dedica o seu interesse às excepções, outorgando-lhes um valor tão fundamental quanto ao conjunto de casos ordinários.

Ficou célebre o exemplo que David Hume deu do pai que não sente espontaneamente amor pelos seus filhos e que, segundo Hume, esse pai censurava-se a si mesmo por esse facto; e por receio de sair da normalidade, esse pai obrigava-se a esse amor que não tinha, fingindo que o tinha. A partir desta clara excepção à regra, David Hume generaliza: conclui ele que a moral não surge senão mediante o equivalente a “sentimentos supostos naturais”. Ou, melhor dizendo: a excepção, segundo o homossexual David Hume, passou a ser a regra geral.

Hoje vivemos no tempo do esplendor do cepticismo moral de Hume: as excepções ditam a regra. E, muitas vezes de modo inconsciente, toda a gente pretende ser a excepção que dita a regra. Perdeu-se a noção de juízo universal. Em nome das excepções, sacrifica-se a regra da maioria. David Hume foi o campeão das ditaduras das minorias que surgem agora, no século XXI, com todo o seu potencial totalitário.

Os novos totalitarismos que se anunciam serão diferentes dos do século XX: não serão totalitarismos de maiorias, mas em vez disso, de minorias. Serão as excepções à regra que farão a regra da maioria à força do controlo policial orwelliano.

Quarta-feira, 8 Agosto 2012

O ateísmo religioso neo-ateísta

A única forma de ser ateu é ser-se radicalmente céptico. Não se pode ser ateu acreditando que Deus ou deuses não existem, porque para além de não ser científica tal postura — a ciência não pode provar que uma coisa não existe —, a crença segundo a qual Deus não existe não deixa de ser uma crença.
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Segunda-feira, 16 Julho 2012

O Relativismo Activo do “Livro do Desassossego”

«O meu hábito vital de descrença em tudo, especialmente no instintivo, e a minha atitude natural de insinceridade, são a negação de obstáculos em que eu faço isto constantemente.

No fundo, o que acontece é que eu faço dos outros o meu sonho, dobrando-me às opiniões deles para, expandindo-as pelo meu raciocínio e a minha intuição, as tornar minhas e (eu, não tendo opinião, posso ter a deles, como quaisquer outras) para as dobrar a meu gosto e fazer das suas personalidades coisas aparentadas com os meus sonhos.

De tal modo anteponho o sonho à vida que consigo, no trato verbal (outro não tenho), continuar sonhando, e persistir, através das opiniões alheias e dos sentimentos dos outros, na linha fluída da vida individualmente amorfa.

Cada outro é um canal ou uma calha por onde a água do mar só corre a gosto deles, marcado, com as cintilações da água ao sol, o curso turvo da sua orientação mais realmente do que a secura deles o poderia fazer.

Parecendo, às vezes, à minha análise rápida parasitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção. Hábito de viver as cascas das suas individualidades. Decalco as suas passadas em argila do meu espírito e assim mais do que eles, tomando-as para dentro da minha consciência, eu tenho dado os seus passos e andando no seu caminho».

— “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares [aka, Fernando Pessoa]

Quando lemos o “Livro do Desassossego” devemos fazê-lo analiticamente, de outra forma correndo o risco de entrarmos em depressão psíquica. Das duas uma: ou não compreendemos minimamente o que está lá escrito — o que é óptimo para uma mente sadia —, ou compreendendo alguma coisa teremos sempre que manter um espírito crítico e impessoal, semelhante ao do médico que analisa cientificamente uma metástase.
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Quinta-feira, 26 Abril 2012

A educação como um fim em si mesma

Filed under: ética,cultura,educação,filosofia,Política,Portugal — O. Braga @ 11:41 am
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Parece-me que a educação [das crianças] deve ser considerada como um fim em si mesma; ou seja, a educação deve ter em conta a vocação e a formação profissionais, mas deve também estar para além da profissão e de uma visão utilitarista e puramente instrumental da pessoa. A criança deve ser educada para ser uma adulta educada [passo a redundância], e não só para ser, por exemplo, engenheira ou médica. Não é liquido que uma médica, por exemplo, seja necessariamente uma pessoa educada.
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Segunda-feira, 21 Novembro 2011

O Cepticismo invadiu a nossa cultura

Filed under: ética,cultura,filosofia,politicamente correcto — O. Braga @ 9:13 am
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“Yet, scepticism, says the French philosopher Jacques Maritain, “is one of the most alarming symptoms of the crisis of our civilization” (Man and the State, 1951). It is a disturbing sign of what ails some college and university podiums.”

via MercatorNet: Professing at the podium.

O Cepticismo (com maiúscula) é uma doutrina filosófica fundada na antiga Grécia por Pirron de Élis segundo a qual “não podemos ter a certeza de alcançar a Verdade” — o que é diferente de dizer que “a Verdade” [com maiúscula, ou seja, a verdade absoluta] “é inacessível à condição humana”: quem afirma que a Verdade é inacessível, tem uma opinião acerca da Verdade; mas quando os cépticos dizem que não podemos ter a certeza de alcançar a Verdade, pretendem suspender a opinião [suspensão da opinião] acerca da Verdade; ou seja, a opinião acerca da Verdade, mesmo que fundamentada na lógica, passa a ser proibida — o que é um absurdo e uma contradição da parte dos cépticos, porque a verdade absoluta é sempre o objectivo de cada afirmação, mesmo que esta afirmação seja a negação da afirmação; o céptico, ao dizer que “não podemos ter a certeza de alcançar a Verdade”, entra em autocontradição, na medida em que pretende que esta afirmação seja verdadeira.
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Quinta-feira, 15 Setembro 2011

A crença no cepticismo

Descobri em um artigo na Internet uma frase escrita por um “filósofo” naturalista americano (não me lembro agora do nome dele) que diz o seguinte:

“Não acredito na ciência; a ciência é a única defesa em relação às crenças”.

O dito “filósofo” pensa ter afirmado uma grande coisa, mas não se deu conta de que a segunda parte da sua proposição contradiz a primeira.

Enquanto a ciência não se convencer de que não pode reduzir o conhecimento humano ao que se passou apenas depois da revolução burguesa de 1789, talvez comece a entrar pelo bom caminho.

Leibniz tem uma pergunta e uma proposição lapidares: “Por que há algo, em vez de nada?”; e : “nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente”.

Se “há algo em vez de nada”, é impossível Não-Ser e é impossível não crer em alguma coisa — quanto mais não seja, tem que se crer que não se crê. Isto é tão básico que até um filósofo naturalista terá capacidade de compreender…

A “razão suficiente” não é apenas uma causa natural. A “razão suficiente” é algo intrinsecamente racional, ou seja, inteligente; e é a razão pela qual “há algo em vez de nada”.

Se perguntarem a um cientista contemporâneo se sabe quem foi Leibniz, ele provavelmente responderá que o cálculo infinitesimal foi “inventado” por Newton.

Quinta-feira, 30 Junho 2011

Karl Popper e a ética de Kant

Karl Popper foi um neo-kantiano — tal como Eric Voegelin o foi, antes de se ter demarcado dessa corrente filosófica. Uma característica comum a todos os neo-kantianos é a conjugação do cepticismo (entendido aqui no sentido filosófico, e não no sentido comum do termo) com um racionalismo exacerbado.
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Sexta-feira, 29 Outubro 2010

Sobre o conhecimento e a limitação humana

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:49 pm
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«Se você afirma que o ser humano não tem capacidade de conhecer quase nada, você automaticamente se coloca numa posição sobre-humana.»

Esta proposição foi publicada no Twitter. Devemos ter em atenção, antes de mais, os seguintes detalhes da proposição :

  • fala-se em ser humano em geral, e depreende-se que se refere à condição humana, e não a um grupo social especifico, situado em qualquer tempo;
  • quando se fala em “conhecer”, quer-se dizer “conhecer a verdade”;
  • falta definir “quase nada”.

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