perspectivas

Quinta-feira, 1 Julho 2010

A Europa precisa de um novo Renascimento

O caso da prepotência da empresa espanhola Telefónica que se atreveu a desafiar, com uma insolência inaudita, não só o Estado português mas principalmente o sentimento esmagadoramente maioritário do povo português em relação à Portugal Telecom, constitui a evidência da modernidade que coloca em causa o direito de todas as comunidades humanas a pretender desenvolver as suas riquezas culturais próprias, valorizar o que as distingue e reforçar as suas identidades próprias.

Porém, antes de ser de um tempo e de um país, o Homem é um ser humano. O pluralismo das culturas não se opõe, à partida, ao reconhecimento de um fundamento ético comum. Cresce o abismo entre os produtores dos me®dia (vulgo comunicação social) e os utilizadores dos me®dia, entre os grupos dominantes e a maioria do povo que é transformada, por estes grupos dominantes, em minoria cultural. O povo massivo transformado pelos me®dia em minoria cultural, ao perder as suas tradições, vê-se totalmente desguarnecido e desprotegido. Os me®dia permitem às culturas dominantes das religiões políticas — estas sim, minoritárias — penetrar na intimidade dos lares, para lá verterem os seus arquétipos e os seus slogans.

Resulta disto uma cultura de consumo (de ideias e de bens materiais) que é sobretudo atordoamento, fuga perante a realidade quotidiana e o seu lote de misérias, privilegiando um comportamento plano e chão, horizontal, canino. O pluralismo exacerbado defendido pela “Direita Medíocre” leva os homens a viverem cada um por si e, simultaneamente, a dar-se de razões de pensar, de agir, que revestem um carácter momentaneamente absoluto e, consequentemente, absolutamente relativo. Se cada um só tem direitos, quem tem o dever de os respeitar?

No âmago desta dicotomia cultural abre-se a fenda entre a liberdade e a verdade — e/ou a realidade. Porém — e como dizia Lenine que apesar de comunista não era estúpido — “os factos são teimosos” e a afirmação da liberdade e da dignidade da pessoa humana permanece uma instituição fundamental da consciência moderna.

A Direita Medíocre (que se opõe à Direita Conservadora), tal como o marxismo económico e cultural, é dualista: “Quem não é por nós, é contra nós”, o mesmo soe dizer-se, “quem não concorda connosco é socialista”. A “Direita Medíocre” e o marxismo cultural são as duas faces da mesma moeda, ambos fazendo do cientismo — aplicado à economia e às ciências humanas em geral — o seu valor supremo.

Ora, é desta dicotomia doentia, maniqueísta e gnóstica moderna — a “Gnose de Princeton”, de que falarei eventualmente noutro postal — , que a Europa terá que sair através de um Renascimento cultural, porque ao nível da moral vivida, o consenso sobre os valores fundamentais e a concepção do bem comum enfraquecem cada vez mais. É necessário voltar à lucidez racional que marcou a civilização europeia do tempo anterior à predominância das religiões políticas: não se trata de uma ucronia, mas de um Renascimento no mesmo sentido em que ocorreu o Renascimento europeu no fim da Baixa Idade Média.

O pluralismo ético entendido como um valor em si, e a fragmentação da moral vivida, longe de exprimirem as escolhas livres e responsáveis das pessoas, têm tendência a ameaçar directamente as bases da vida comum na sociedade portuguesa (e europeia em geral).

Ficheiro PDF

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: