perspectivas

Segunda-feira, 3 Agosto 2015

Na actualidade, um conservador não pode ser progressista

Filed under: Política — O. Braga @ 9:16 am
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“Lição do sábio Eugen Rosenstock-Huessy: só cretinos são conservadores ou progressistas. Todo homem normal é conservador e progressista.

Olavo de Carvalho

Teríamos que saber o que significa “progresso”, porque o conceito de “conservador” só existe em função do conceito de “progresso”. Antes de existir “progresso” não existiam “conservadores”.

Por exemplo, quando falamos em “progresso de uma doença”, ou em “progresso de uma epidemia”, a noção de “progresso” é (universalmente) negativa. Portanto, nem sempre o “progresso” é (universalmente) coisa boa. Mas não é esta interpretação de “progresso” que é dada na frase em epígrafe: ali, o conceito de “progresso” é positivo (entendido universalmente como coisa boa): trata-se de uma noção com um valor positivo e que significa a melhoria (seja o que for que a “melhoria” signifique) de uma escala de qualquer coisa: por exemplo, “o progresso do bem-estar social”, ou “o progresso moral”.

Mas se virmos bem, nem mesmo no conhecimento científico há progresso, a não ser em função de determinados pontos de referência estabelecidos a posteriori: em ciência, o progresso acontece só depois de se afirmarem determinados valores — primeiro na cultura da comunidade científica influenciada pela cultura das elites (a ruling class), e depois na cultura antropológica.

Não podemos falar de “progresso” em filosofia — a não ser na actualização de velhas noções, na releitura e enriquecimento das respectivas explicações iniciais, e eventualmente na rejeição de explicações consideradas obsoletas e que sempre se relacionam com a origem “não-filosófica” de toda a filosofia.

Portanto, o “progresso” existe apenas em função de valores que regem mundividências.

O conceito de “progresso” não pode ser claramente definido porque depende do conceito de “valor”. E quando falamos de algo que não tem uma clara definição real1 (em contraste com a definição nominal dessa coisa), entramos em terrenos movediços.

Os valores existem em si mesmos, e não dependem de uma qualquer utilidade. Por exemplo, se o valor da justiça dependesse de uma qualquer utilidade, a justiça andaria pelas ruas da amargura (como acontece amiúde). O valor da justiça (porque existe em si mesmo) não muda consoante os tempos (a justiça não é hegeliana) — o que significa que a justiça perfeita (a justiça absoluta) não é possível na sociedade, em qualquer tempo. O absoluto é uma referência da condição humana, um farol que nos guia nas procelas da existência no espaço-tempo.

Na dimensão dos valores, o que conta é a volição da aproximação ao absoluto dos valores (a aproximação à verdade, que também é científica), sejam estes negativos ou positivos. E aqui entramos em outro problema, que é do de saber como e por quê um valor é, em termos absolutos, positivo ou negativo (enquanto nos atemos à realidade da causa-efeito que condiciona a dimensão do espaço-tempo) — a não ser que digamos que um valor pode ser simultânea- e absolutamente positivo e negativo: se um conceito não tem, em si mesmo, um sentido exclusivo no absoluto, a sua definição é apenas operacional (prática e utilitária). Se o conceito de “justiça” (ou de “progresso”) não tem sentido no absoluto, então a sua definição é reduzida à sua utilidade, e o conceito de “justiça” (ou de “progresso”) deixa por isso de ter sentido em si mesmo.

Na dimensão dos valores, há que distinguir os meios e os fins. Se o conceito de “progresso” está imbuído de determinados valores, temos que saber se os meios utilizados — para atingir fins — estão de acordo com o absoluto desses valores (que existem em si mesmos). Antes mais nada, o problema do “progresso” é metafísico, e depois ético — antes de ser social, cultural, político, científico, etc..

Ora, o conceito de “progresso” faz hoje parte integrante de uma metafísica negativa — uma metafísica que nega os princípios metafísicos da realidade (a negação da metafísica não deixa de ser, ela própria, uma forma de metafísica). A não ser que um conservador adopte como positiva também essa metafísica negativa, não o podemos misturar com os protagonistas do “progresso”.

O problema da proposição de Olavo de Carvalho em epígrafe, é o de que descura o carácter actual e contemporâneo do conceito de “progresso”, que adopta uma metafísica negativa. É neste sentido que é impossível a um conservador ser simultaneamente progressista — exactamente porque um conservador propriamente dito é um reaccionário em relação ao conceito actual de “progresso”.


Nota
1. As definições nominais assentam numa convenção prévia (por exemplo, os sinónimos de um dicionário); as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência.

Terça-feira, 10 Março 2015

Um conservador não é um troglodita

Filed under: Política,Portugal — O. Braga @ 7:54 am
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Eu considero-me “conservador” mas não concordo com muita coisa neste texto. Vamos começar por aquilo com que concordo no texto: o sistema de valores de uma sociedade tem que se fundamentar (não só, mas essencialmente) em valores intemporais — o sistema fundamental de valores não deve mudar conforme as modas de cada época.

Mas (e aqui passo a discordar com o texto), o sistema de valores deve ser racionalmente fundamentado.

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Domingo, 16 Fevereiro 2014

O verdadeiro conservadorismo em França

 

familias de frança web

Sexta-feira, 9 Agosto 2013

O termo “fascismo” é uma “palavra total”

O termo “fascismo” é uma “palavra total”.

Alguém que baseie a sua mundividência política – e de concepção de Estado – no conceito de “vontade geral” de Rousseau não pode ser, por definição, conservador.

As “palavras totais” eram as palavras utilizadas pelo homem do paleolítico na sua simplicidade de cobrir nexos de significado maiores e comparáveis às imagens existentes – por exemplo, um quadrado gravado numa pedra – representando, em esboços básicos e rudimentares, uma mundividência abrangente. A “palavra total” é hoje uma espécie de slogan que simplifica o que é, em si mesmo, complexo. O politicamente correcto é o domínio da “palavra total” por excelência; é uma espécie de espaço cultural de reificação do homem do paleolítico moderno.

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Quarta-feira, 5 Junho 2013

Tretas liberais

Lemos aqui uma grande treta liberal.

“Segundo a direita conservadora, trata-se de uma estrutura pactuada pelos indivíduos, para que lhes sejam garantidas algumas condições elementares de vida social, que eles, por si, são incapazes de garantir plenamente. O estado deve, assim, situar-se nos domínios da segurança, da justiça, das relações externas e da economia, como garante da liberdade económica e das regras do mercado de livre concorrência. Alguma direita democrática mais ortodoxa quer ver o estado a promover o bem-estar social. Esta “direita” é objectivamente de esquerda e deve saltar para o parágrafo anterior.”

Os auto-proclamados “liberais” – que precisam do Estado para financiar a Banca privada, e que nacionalizam os prejuízos privados dos Bancos – reflectem a necessidade premente de auto-justificação que se traduz não só na alienação da interpretação da História, como faz a Esquerda radical descontrucionista – quando, por exemplo, identificam o liberalismo com a cultura política da Idade Média! Pasme-se!, como é possível uma aberração interpretativa deste calibre! -, mas também inventam um conceito de “liberalismo” que não existe no mundo mais desenvolvido. Exemplos de países do mundo em que a despesa do Estado é inferior a 40% do PIB:

  • Albânia, Argélia, Argentina (em crise endémica e enfeudada ao FMI há duas décadas), Arménia, Azerbaijão, Bahamas (paraíso fiscal), Barain (petróleo), Bangladesh, Belize, Benim, Bolívia, Cambodja, Camarões, e por aí fora, incluindo o Vietname. Os “liberais” adoram o Vietname e a Coreia do Norte…

Estes são os “bons exemplos” de “países liberais” que combatem o enfeudamento da economia ao Estado. Os “liberais” precisam dos absurdiandos ideológicos como do pão para a boca.

Domingo, 2 Junho 2013

José Pacheco Pereira e a defesa ‘conservadora’ da prostituição

“Sucede que este surto do politicamente correcto é, como de costume, dissolvente para o pensar, reforça o estado actual das coisas e é muito conservador, apesar dos seus utilizadores estarem convencidos que são muito progressistas. A verdade é que a prostituição não é um “trabalho”. Ponto. Despir-se num varão é trabalho. Muitas formas de exibir o corpo, masculino ou feminino, são trabalho, mesmo com todos os inuendos sexuais podem ser trabalho. E por muito que as fronteiras possam no limite ser ambíguas, como todas as fronteiras no corpo, prostituir-se é outra coisa muito diferente.”José Pacheco Pereira

José Pacheco Pereira diz que quando os me®dia descrevem a prostituição como “trabalho sexual”, estão a ser “conservadores”. Claro que se pedirmos a José Pacheco Pereira para definir “conservador”, ele não o faria: José Pacheco Pereira tem uma aversão natural às definições. Mas eu atrevo-me a dar a definição de “conservador”, segundo José Pacheco Pereira.

Para ele – como também, por exemplo, para Manuel Alegre – “conservador” é sinónimo de “burguês” (no sentido de “Alta Burguesia”). E por isso é que a apologia da prostituição é vista por ele como sendo “conservadora”.

A verdade é que o burguês do século XVIII e princípio do século XIX foi um revolucionário que rompeu com a moral do seu tempo: basta conhecer o pensamento ético/moral de Adam Smith, por exemplo, para sabermos de onde vem esta conotação errónea entre o “conservadorismo” e a “burguesia” – já não falando na “ética” dos ideólogos do Marginalismo , como por exemplo Leon Walras, ou Jean-Baptiste Say ou Carl Menger.

Eu não tenho a certeza se José Pacheco Pereira faz essa confusão de propósito, ou se é vício de forma adquirido por lobotomia ideológica, ou se é apenas e só ignorância.

Segunda-feira, 27 Maio 2013

David Cameron quer incluir líderes islâmicos na Câmara dos Lordes

Filed under: Europa — O. Braga @ 8:37 am
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A monarquia inglesa assenta sobre a liderança da rainha em relação à igreja anglicana. A rainha de Inglaterra é a governadora suprema da igreja anglicana .

Os dois partidos da “direita” inglesa estão divididos quanto à presença de 26 bispos anglicanos na Câmara dos Lordes : os liberais de Nick Clegg querem acabar com a presença dos bispos anglicanos nessa Câmara, e os “conservadores” de David Cameron querem incluir na Câmara a presença de imãs islâmicos. Tanto num caso como noutro, a autoridade religiosa da rainha de Inglaterra sai minada. E é isto a que chamamos hoje de “direita”. Imaginem a presença de chefes religiosos muçulmanos na Câmara dos Lordes da tradicional Inglaterra… ao lado dos bispos anglicanos.

Ninguém deve ser contra a mudança, mas deve saber por que se muda. O que acontece é que hoje é-se a favor da mudança porque está na moda mudar por mudar.

“Os conservadores são aqueles desejam e pretendem que o progresso político ou financeiro da nação se faça por alteração social produzida dentro de moldes políticos e sociais dessa nação”. (…) “Para o conservador, os moldes ficam em forma e em tamanho. Apenas muda o conteúdo.”
(…)
“Os liberais são aqueles que cuja teoria do progresso inculca a ideia de que ele se faz por uma lenta alteração da sociedade, não tanto nem somente dentro de moldes em que essa vida social se encontra vasada”. (…) “Para o liberal, os moldes alargam-se mas a sua forma fica.”
– Fernando Pessoa

A julgar pela definição de Fernando Pessoa de conservadores e liberais, hoje não existem, na Europa, nem os primeiros nem os segundos: a “direita” está controlada pelo marxismo cultural, porque tanto uns como os outros tendem a eliminar a forma das instituições.

Quarta-feira, 22 Maio 2013

Dominique Venner e a Igreja Católica

Filed under: Europa,Igreja Católica,Política — O. Braga @ 4:47 am
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O texto testamentário de Dominique Venner incui o seguinte trecho:

“I am healthy in body and mind, and I am filled with love for my wife and children. I love life and expect nothing beyond, if not the perpetuation of my race and my mind. However, in the evening of my life, facing immense dangers to my French and European homeland, I feel the duty to act as long as I still have strength. I believe it necessary to sacrifice myself to break the lethargy that plagues us. I give up what life remains to me in order to protest and to found.

I chose a highly symbolic place, the Cathedral of Notre Dame de Paris, which I respect and admire: she was built by the genius of my ancestors on the site of cults still more ancient, recalling our immemorial origins.”

Podem ler aqui o resto do texto, em PDF.

Dominique Venner diz que respeita e admira a catedral de Notre Dame apenas por duas razões: 1/ foi construída pelos génios seus (dele) ancestrais; e 2/ foi construída (alegadamente) no sítio dos cultos antigos e pagãos do neolítico. Esta foram as duas razões invocadas por Dominique Venner para suicidar dentro de uma catedral católica. O simbolismo do Cristianismo está totalmente ausente em Dominique Venner.

Ambas as alegações não são verdadeiras. Quem dirigiu a construção da catedral de Notre Dame foram mestres maçons que nem sequer eram franceses de origem étnica, e que foram contratados por exemplo em Itália (o estilo gótico surgiu em Itália), e outros mestres maçons eram oriundos do médio oriente. E, por outro lado, não está provado historicamente que o sítio da construção da catedral tenha sido anteriormente um sítio de culto pagão.

Dominique Venner poderia, por exemplo, dar um tiro na cabeça em frente ao parlamento francês, ou suicidar-se em frente ao palácio presidencial do Eliseu. Mas em vez disso, e não sendo ele católico, Dominique Venner resolveu suicidar-se dentro de uma igreja católica. Este tipo de actos de uma certa “direita” — que não é direita propriamente dita porque é socialista ou colectivista, e que não é conservadora porque renega o valor do Cristianismo na edificação da civilização europeia — apenas prejudica a luta dos católicos (e dos cristãos e conservadores em geral) contra o marxismo cultural que alimenta o actual politicamente correcto.

O acto de Dominique Venner revela que a Europa precisa de uma nova direita que respeite a história, as tradições e os costumes, e que respeite a separação do Estado em relação às religiões, mas que não seja a “direita socialista” e laicista (*) de tipo Frente Nacional de Marie Le Pen, por um lado, e que, por outro lado, coloque em cheque a actual “direita” do PPE (Partido Popular Europeu) que mais não é do que uma extensão da esquerda radical e jacobina.

(*) Ver a diferença entre secularismo e laicismo.

Sábado, 18 Maio 2013

Esta ‘direita’ está controlada pela esquerda.

Sobre este verbete no Insurgente:

1/ Já se começa a perceber que o argumento ad Novitatem aplicado à cultura antropológica, constantemente utilizado pela esquerda, coincide com a construção do Homem Novo que mais não é do que uma tentativa de metanóia colectiva e revolucionária, que não é só defendida pelo marxismo cultural, mas também pela maçonaria jacobina.

Por exemplo, o argumento da “geração grisalha” esgrimido por Passos Coelho e pelo seu Partido Social Democrata vai totalmente ao encontro da validação do argumento ad Novitatem defendido pela esquerda — e por isso (e por outras razões) é que eu considero Passos Coelho o líder do Partido Social Democrata mais limitado intelectualmente (mais burro!) da história desse partido.

Muita gente ainda não ganhou consciência do prejuízo que Passos Coelho provocou ao Partido Social Democrata, por simples estupidez. Quando olhamos para a estrutura intelectual de Carlos Moedas, de Vítor Gaspar ou de Álvaro Santos Pereira, entre muitos outros, percebemos o enorme problema do Partido Social Democrata de Passos Coelho.

Um partido liberal (no sentido de “liberalismo económico”) e simultaneamente revolucionário, como é o Partido Social Democrata de Passos Coelho, é uma contradição em termos. Um partido precisa de técnicos, mas precisa sobretudo de capacidade crítica que orienta a política. Os técnicos aplicam a política, mas não são eles que a definem. E este Partido Social Democrata de Passos Coelho não tem capacidade crítica.

2/ O caso do CDS/PP é diferente. O problema está em Paulo Portas, não porque ele seja burro, que não é, e pelo contrário tem aquilo que Fernando Pessoa chamava da “degeneração moral dos génios políticos”, mas antes pela truculência que utiliza em função da sua própria condição ontológica. Em questões culturais e de costumes, é impossível a um homossexual não ser homossexual. E por muito que Paulo Portas diga que é contra a adopção de crianças por pares de invertidos, a sua acção prática dentro do CDS/PP revela que Paulo Portas não se lhe opõe. “Em política, o que parece, é!” — dizia o velho António. E parece que Paulo Portas não é contra a adopção de crianças por pares de fanchonos; e, portanto, como parece, ele não é de facto contra a adopção de crianças por pares de fanchonos. Ponto final.

3/ Esta “direita” está controlada pela esquerda. Através do “progresso da opinião pública”, esta direita dissolve-se (desaparece) na cultura antropológica, e com o passar do tempo. Só não vê quem não quer ver.

4/ a política económica é indissociável da cultura antropológica. Isto é dos livros. Por exemplo, quando eu vejo “liberais” defender a ideia segundo a qual o Estado deve pagar abortos em hospitais públicos, concluo que a esquerda radical já ganhou a batalha política. Mas existe outra armadilha em que os liberais caem: a insensibilidade social. A burrice de Passos Coelho é de tal calibre que a ideologia hayekiana assume nele as mesmas proporções que o marxismo assume nos neurónios de Jerónimo de Sousa.

Não é possível transformar a sociedade portuguesa e liberalizar a economia em dois ou três anos. Passos Coelho pensa que sim; é um revolucionário hayekiano. É um político que não tem a virtude da Fronèsis (a prudência) que Sólon alardeou. Na Alemanha comunista de leste (ex-RDA) a liberalização da economia durou mais de dez anos e com muito investimento do Estado alemão.

5/ as pessoas devem começar a circunscrever Hayek a uma determinada realidade ideológica. A obra e das ideias de Hayek não são uma espécie de Bíblia ou Livro Vermelho de Mao Tsé Tung. Mas para a maioria dos liberais, Hayek é autor de uma cartilha ideológica.

 

Adenda: um exemplo do que a direita deve fazer:

“A reforma da Educação aprovada pelo Governo espanhol do Partido Popular (direita) prevê que a nota na disciplina de Religião no ensino secundário volte a contar para a média.”

Naturalmente que, em Portugal, viríamos o Fernando Rosas a chorar baba e ranho nas pantalhas, a berrar que “Deus é injusto”, a clamar pela matança de inocentes em uma nova revolução francesa — mas a direita é isto mesmo: agir e não ter medo da acção.

Sexta-feira, 17 Maio 2013

Uma errata para um verbete sobre o conservantismo

Filed under: Política,Ut Edita — O. Braga @ 6:28 am
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Vamos fazer um breve fisking de um texto publicado aqui, como segue:

“ [características do conservadorismo] descrença em modelos racionalistas que ignoram o facto de que os homens são governados mais pelas emoções que pela razão;”

Não devemos confundir “emoção”, por um lado, com “intuição”, por outro lado. A intuição é uma forma de inteligência, e portanto, uma forma de razão. E se houve alguém que se apoiou quase exclusivamente na emoção (nas paixões) para justificar o comportamento humano foi David Hume, o pai do cepticismo moderno. E dizer que Hume foi conservador é um preciosismo.

“Em minha interpretação da leitura dos textos conservadores, eis o que ficou de mais relevante: uma cautela contra tudo que é extremista e utópico; a preferência por reformas graduais em vez de saltos revolucionários;”

Uma reforma pode ser extremista, independentemente de ser utópica ou não. Extremismo e utopia não são sinónimos nem podem ser colocados num mesmo plano. Por exemplo, em relação à sua época, o Cristianismo foi extremista. Um conservador pode ser extremista sem ser utópico, dependendo das circunstâncias.

“Há em todo conservador uma boa dose de respeito pelo árduo processo de tentativa e erro ao longo dos tempos, que serviu para moldar instituições úteis a nossa sobrevivência. E o mais importante: tais instituições nem sempre podem ser perfeitamente compreendidas pela nossa razão. O liberal Friedrich Hayek tinha postura semelhante, apesar de não se considerar conservador.”

O segundo parágrafo é absolutamente falso; aliás, entra em contradição com o primeiro parágrafo.
O processo de “tentativa e erro” é um processo científico, e portanto racional. É aqui que está a contradição entre o primeiro e o segundo parágrafos.

Hayek adoptou o cepticismo de David Hume. Não há um liberal qualquer que se atreva a desmentir isto, ou então não sabe o que diz. O cepticismo de David Hume é o cepticismo moderno, que também influenciou, por exemplo, Bertrand Russell. Em contraponto, o conservador é um céptico no sentido grego (no sentido socrático), o que é uma coisa totalmente diferente.
Por outro lado, Hayek juntou, na sua teoria, um certo optimismo utópico de Kant ao cepticismo de Hume — o que é uma contradição em termos, porque Kant não fez outra coisa senão colocar em causa Hume.

“Para Hayek, faltava aos conservadores a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais novas conquistas humanas irão surgir.”

Há aqui uma confusão entre conservantismo, por um lado, e tradicionalismo, por outro lado. Um conservador pode não concordar com algumas tradições, por razões éticas. Para um conservador, os valores da ética devem ser universais, fundamentados racionalmente, intemporais, e facilmente distinguíveis nas suas características principais. Para um conservador, sendo realista, os valores existem por si mesmos e não decorrem de uma qualquer utilidade prática.

Por exemplo, eu não concordo com a tradição islâmica da excisão feminina. E também não concordo com o aborto livre que já se vai tornando uma tradição na Europa: de certa forma, também existe uma tradição liberal ou de esquerda, e um conservador não concorda necessariamente com essas tradições.

E, por outro lado, há que definir “mudança” para sabermos do que estamos a falar. É absolutamente falso que, a um conservador propriamente dito e consciente, lhe falte “a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais novas conquistas humanas irão surgir”.

Isso nos remete ao outro ponto de divergência entre liberais radicais e conservadores: estes são, via de regra, mais pessimistas. Para Rothbard, por exemplo, a “atitude adequada ao libertário é a de inextinguível optimismo quanto aos resultados finais”, enquanto o “erro do pessimismo é o primeiro passo descendente na escorregadia ladeira que leva ao conservadorismo”.

Há distinguir “pessimismo” de “realismo”. O pessimismo é a atitude de espírito que consiste em pensar que, no mundo em que se vive, a soma dos males é superior à soma dos bens. Ora, um conservador não pode pensar assim sob pena de não o ser, porque por muito mal que exista no mundo, ele vê esse mal como uma mera ausência de bem. Normalmente os liberais perguntam: “porque é que existe o mal no mundo?”; enquanto o conservador pergunta ao liberal: “e porque é que você não pergunta por que existe o bem?”

O pessimismo pode ser revolucionário (no sentido de ser não-conservador), como por exemplo em Schopenhauer que via o mundo como absurdo; e o mesmo se se passou com Nietzsche que foi um pessimista e de conservador tinha quase nada, e passa-se com os existencialistas que fazem também a apologia do absurdo.

O conservador não vê o mundo como absurdo: pelo contrário, ele vê um fundamento racional no mundo. O conservador é realista em dois sentidos diferentes mas que se conjugam nele: 1/ é realista no sentido em que tende a valorizar a realidade como um dado a considerar, por não ser possível proceder de outro modo; e 2/ o conservador, à semelhança do matemático, é realista quando afirma que existe uma realidade independente do pensamento e do espírito humano.

Em outras palavras: até que ponto a “morte de Deus” não abriu espaço para o nascimento do “Deus Estado” e, com ele, dos totalitarismos modernos? Não tenho a pretensão de saber a resposta, mas reconheço que há aqui uma importante divergência entre liberais e conservadores. Se estes afirmam a religião como garantidora do tecido social, aqueles preferem a defesa secular das liberdades.

Não podemos confundir secularismo — que os conservadores também defendem — com laicismo — que muitos liberais defendem. Um conservador não tem nenhum problema em relação ao secularismo. Aliás, a história da Igreja Católica na Europa é — salvo raros momentos de radicalismos — a de um certo equilíbrio notável entre o poder secular e o poder religioso, ao contrário do que se passou por exemplo no mundo islâmico, ou mesmo na Rússia cristã ortodoxa.

Há conservadores seculares, como Oakeshott. Mas talvez seja um ponto fraco do conservadorismo moderno esta enorme dependência da religião. Talvez a filosofia, as artes e a literatura possam substituir a religião neste encanto pelo mistério do universo, nesta contemplação pelo desconhecido, eterno e indizível. Mas talvez os conservadores, apelando para o argumento utilitarista da fé, tenham um ponto quando alegam que, sem o freio religioso, as massas demandarão algum outro “Pai” em seu lugar.

Quem escreveu isto é burro. Ou seja, é tipicamente um liberal. Se o homo sapiens sapiens existe na Terra há pelo menos 75 mil anos e sempre teve religião, o burro revolucionário e liberal vem dizer que hoje, devido a uma e qualquer putativa mutação genética no ser humano que de facto não existe, “a religião é substituível”. Fernando Pessoa dizia que “a religião não só é a condição da liberdade eficaz do pensamento, como é a condição da função hígida do pensamento”. Duvido que o liberal típico consiga perceber o que Fernando Pessoa quis dizer.

O texto é longo e é um exemplo de um conjunto de meias-verdades, por um lado, e por outro lado é uma narrativa. Ora, um texto filosófico deve ser sucinto quanto baste, evitar o gongorismo e não contar estórias; e deve ser preciso nos termos que usa e não incorrer na falácia da anfibolia.

Terça-feira, 26 Março 2013

Fernando Pessoa ajuda-nos a compreender a política das engenharias sociais e das fracturas culturais

Fernando Pessoa, nas suas Obras em Prosa coligidas, 1975, Tomo III, páginas 17 e 18, transcreve um trecho do livro “Conservantismo”, da autoria do Lorde Hugh Cecil, filho do marquês de Salisbúria, como segue:

«Tornou-se altamente interessante inquirir onde está o centro do Poder que domina, em última análise, a Casa dos Comuns e a autoridade ilimitada que, pela Constituição, essa Casa exerce. É interessante e importante, porém não é muito fácil. Pode dizer-se que o Poder está no Gabinete, isto é, nos quinze ou vinte homens predominantes do partido em maioria.

Mas isso nem sempre será verdade. Pode às vezes haver discordâncias no Gabinete. ¿Qual é a força que então determina que a decisão seja dada num sentido ou noutro? A melhor resposta é que a autoridade suprema num Partido é em geral exercitada pelos mais activos e enérgicos dos organizadores partidários sob comando de um ou mais dos principais chefes do Partido. Às vezes o chefe nominal do Partido está entre estes homens; outras vezes não está. Mas eles derivam a sua força, não só da sua situação pessoal, mas de que, de um modo ou de outro, influem no que se pode chamar de Guarda Pretoriana do Partido, isto é, os seus elemento mais activos e ardentes.

Se é assim, temos graves razões de receio. A Casa dos Comuns nomeia o executivo e tem domínio absoluto sobre a legislação. O Partido em maioria na Casa dos Comuns domina absolutamente a Casa dos Comuns. Esse Partido é, por sua vez, dominado pelos seus elementos mais ardentes e enérgicos, sob o comando dos políticos a quem esses são mais afectos. Quer isto dizer que a suprema autoridade do Estado está nas mãos de partidários extremos e nas mãos dos estadistas que mais admirados são por esses partidários extremos. É quase impossível conceber uma forma menos satisfatória de governo. Isto, contudo, é que é a realidade.

A aparência é que a Casa dos Comuns representa o povo. Mas, de facto, o povo nem tem a voz dominante na escolha da Casa dos Comuns, nem domínio real sobre ela, uma vez escolhida. O povo tem, na prática, só a liberdade de escolher entre o candidatos partidários que são submetidos à sua escolha. São os partidários ardentes — a Guarda Pretoriana — quem escolhe os candidatos; os eleitores têm somente que determinar se querem ser representados pelo nomeado dos Pretorianos Conservadores ou pelo nomeado dos Pretorianos Liberais, ou, em casos mais raros, podem escolher um candidato, não menos disciplinado, nomeado pelo Partido Trabalhista.

Os independentes podem propor-se, e algumas vezes se propõem à eleição. Mas as eleições, nas condições modernas, são a tal ponto matéria de organização e mecanismo que é com grande desigualdade que um independente se pode bater contra os candidatos nomeados pelos partidos. O triunfo de uma candidatura independente é a coisa mais rara deste mundo. A única e verdadeira influência que têm os independentes está no desejo dos chefes partidários de lhes obter os votos. Mas até isto tem na prática um alcance limitado. Há assuntos controversos sobre os quais os partidários ardentes, de um lado e de outro, sentem tão fortemente que quase nada se importam da opinião do público não partidário. E, quando a Casa está eleita, a influência da opinião pública fica semelhantemente limitada.

Alguma coisa se fará para obter apoio na próxima eleição geral; mas, sempre que os homens do Partido do governo realmente se empenhem num assunto, correrão todos os riscos para fazer vingar a sua política. Sobretudo o farão quando o assunto de que se trate envolva o crédito pessoal de um dos chefes da sua confiança. O facto formidável é que a mais alta autoridade do nosso Império imenso e único se encontra alternadamente nas mãos de dois grupos de homens veementes, intolerantes e desequilibrados.»

Mais adiante, no mesmo Tomo, na página 22, Fernando Pessoa escreve o seguinte:

«Um hábito social, isto é, uma tradição, uma vez quebrado, nunca mais se reata, porque é na continuidade que está a substância da tradição. Além de que, não sabendo ninguém o que é a sociedade, nem quais são as leis naturais por que se rege, ninguém sabe se qualquer mudança não irá infringir essas leis. Em igual receio se fundamentam as superstições, que só os tolos não têm — no receio de infringir leis que desconhecemos, e que, como não as conhecemos, não sabemos se não operarão por vias aparentemente absurdas. A tradição é uma superstição. »

No mesmo Tomo, Fernando Pessoa escreve:

«Só pode ser universalmente aplicável o que é universalmente verdadeiro, isto é, um facto científico. Ora, em matéria social não há factos científicos. A única coisa certa em “ciência social” é que não há ciência social. Desconhecemos por completo o que seja uma sociedade; não sabemos como as sociedades se formam, nem como se mantêm nem como declinam. Não há uma única lei social até hoje descoberta; há só teorias e especulações, que, por definição, não são ciência. E onde não há ciência não há universalidade.»

Segunda-feira, 17 Dezembro 2012

Para fechar aqui a polémica acerca das declarações públicas de Isabel Jonet

O Vasco Pulido Valente escreve sobre Isabel Jonet criticando a posição de José Pacheco Pereira assumida no seu blogue. As vezes que fiz referência a Isabel Jonet, foi aqui e aqui.

É óbvio que as sucessivas opiniões dadas por Isabel Jonet nos me®dia revelam um certo alinhamento político com a “aragem política-ideológica” emanada de Passos Coelho; ambos os discursos têm alguma substância em comum, e como eu não acredito no Acaso, só posso concluir que existe um certo alinhamento político. E por isso é que o Vasco Pulido Valente se “enxofrou” por causa da opinião de José Pacheco Pereira.

As posições públicas de Isabel Jonet não se restringiram às suas (dela) convicções religiosas: também entraram por uma esfera ideológica auto-contraditória, porque não é possível defender simultaneamente as ideias de S. Paulo ou as da Igreja Católica, por um lado, e por outro lado, alinhar com as ideias de Passos Coelho.

Ao contrário do que Vasco Pulido Valente implicitamente afirma, Passos Coelho é tão anti-clericalista quanto se pode ser anti-clericalista. Quando nós vemos, por exemplo, um anti-clericalista primário e básico, e abortista militante confesso, como é o Carlos Abreu Amorim, a defender com unhas e dentes o Passos Coelho, não podemos ter dúvidas acerca do anti-clericalismo primário da ideologia que norteia a governança de Passos Coelho.

Não há nada de conservador e/ou tradicionalista — no sentido cultural do termo — em Passos Coelho. Nada!. A Esquerda radical diz que Passos Coelho é “conservador” porque confunde “conservadorismo” com “lei da selva” — em contraponto à política da “selva sem lei” e de terra queimada proposta por essa Esquerda.

Acredito piamente que Passos Coelho irá ser julgado pela História como um dos grandes equívocos da III república. Passos Coelho não causou ainda mais estragos ao país — em todas as áreas, incluindo na cultura antropológica — porque existe no governo uma certa força independente dele que tem equilibrado os excessos coelhistas.

Hoje, confunde-se Conservadorismo com Neoliberalismo. Vale a pena lembrar uma frase de G. K. Chesterton:

“Too much capitalism does not mean too many capitalists, but too few capitalists.” — G. K. Chesterton : ‘The Uses of Diversity.’

(demasiado capitalismo não significa a existência de demasiados capitalistas, mas antes significa a existência de muito poucos capitalistas).

O conservadorismo não é a promoção política e ideológica de um “capitalismo de uns poucos capitalistas”; quem assim procede é neoliberal, e não conservador. A ideologia política de Passos Coelho é influenciada pelo António Borges da Goldman Sachs que defende um “capitalismo de uns poucos capitalistas”. Pelo contrário, a tradição conservadora defende um capitalismo com muitos capitalistas, em que a maioria dos cidadãos possa ter o seu negócio familiar ou edificar a sua micro-empresa, ou ser sócio de uma média empresa. E é exactamente contra esta tradição conservadora que Passos Coelho e António Borges governam.

O artigo de Vasco Pulido Valente demonstra que 1/ a discussão política resume-se hoje à partidarite pura e simples; já não há ideias: em vez de ideias, imperam os maniqueísmos partidários, como aconteceu no rotativismo monáquico; 2/ a “direita” está a ser tramada por Passos Coelho, e o PSD do Pernalonga arrisca a levar banhadas sucessivas nas próximas eleições — e é isto que preocupa o Vasco Pulido Valente.

Ai aguentam, aguentam!

Ai aguentam, aguentam!

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