perspectivas

Sábado, 22 Fevereiro 2014

O neoliberalismo libertário (tal como o existencialismo de Ayn Rand) foge com o rabo à seringa

 

Quando Ayn Rand procurou dar um nome à sua teoria filosófica, deu-lhe o nome de Objectivismo porque, segundo ela, o termo Existencialismo — que ela preferiria para rotular a sua teoria — já estava tomado e ocupado. Ou seja, Ayn Rand procurava uma originalidade absoluta.

O neoliberalismo libertário de Hayek despreza os princípios do liberalismo clássico e privilegia absolutamente as comissões e bónus provenientes dos negócios.

O que Ayn Rand talvez desconhecesse ou não quis saber, é que o termo Existencialismo é multifacetado. Por exemplo, existe o Existencialismo cristão que vai de Dostoievski e Kierkegaard a Paul Tillich, passando por Karl Jaspers; existe o Existencialismo ateu de Merleau-Ponty ou Jean-Paul Sartre; e existe um Existencialismo pagão de Heidegger ou Gadamer. Portanto, quando falamos de Existencialismo, entendido como uma categoria de mundividência, temos que saber qual a sub-categoria que a caracteriza, para além da especificidade do pensamento individual do autor.

Ou seja, em vez de Objectivismo, Ayn Rand poderia perfeitamente ter optado pelo termo “Existencialismo libertário”, que estaria de facto mais de acordo com as características da sua teoria.

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Segunda-feira, 26 Novembro 2012

O Neoliberalismo combate o Estado, mas depende do Estado para combater o Estado (2)

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Segunda-feira, 17 Setembro 2012

O problema da ideologia política ou religião de Estado

« Ali, umas centenas de ricos, muito ricos, de vários países do mundo assistem a uma palestra proferida por um consultor estrangeiro sobre “como Portugal é a melhor escolha fiscal em 2012”, pois “às vezes as medidas de austeridade em Portugal para os mais ricos são mais aparência do que realidade”… Isto é dito e está escrito num slide da sua apresentação. »

via De Rerum Natura: "Isto não é socialmente aceitável, pois não?".

Eric Voegelin dizia que as ideologias são “religiões políticas”.

O que move Passos Coelho & Comandita, é uma religião política, ou seja, é uma religião imanente e materialista. Enquanto que as religiões propriamente ditas decorrem de uma teologia complexa que, por sua vez, assenta na metafísica — em contraponto, a ideologia é a redução de um qualquer sistema filosófico ou corrente filosófica a uma crença dogmática fundada em princípios inflexíveis e inconformes com a realidade. Podemos dizer que Passos Coelho é uma espécie de Jerónimo de Sousa da direita.

Só neste contexto se compreende a fé do Ministro das Finanças :

« Ministro espera que pressão da opinião leve a EDP e Galp a baixarem preços com o jackpot da TSU. »

via Vítor Gaspar tem fé na redução do gás, da luz e dos combustíveis | iOnline.

O dogma ideológico — o dogma da ideologia política ou da “religião política” — impõe a necessidade de uma fé, mas ao contrário da “fé racional” que podemos extrair da religião transcendental por intermédio da razão [Fides quaerens intellectum*], a fé da religião política é irracional na medida em que não toma em consideração a realidade no seu todo, ou seja, concentra-se apenas em uma parte muito restrita da realidade.

A religião política conduz à irracionalidade — como pudemos ver na decisão de Passos Coelho em alterar a TSU. Subjacente a essa decisão está uma fé, ou seja, Passos Coelho pretende impôr a toda a sociedade as consequências da sua própria fé. No fundo, estamos em presença exclusivista de uma religião secularista de Estado que o próprio secularismo de Estado proíbe em relação às religiões propriamente ditas.

Portanto, quando alguém diz que “a religião de Estado acabou em Portugal”, só pode ser míope: não só a religião de Estado não acabou, como temos hoje mudanças de religiões de Estado ao sabor das modas e do espírito do tempo, e são religiões políticas de Estado cuja mundividência é restrita, restritiva e imanente, conduzindo, ao longo da passagem das gerações, ao embotamento intelectual e espiritual progressivo dos cidadãos.

* Santo Anselmo, no seu Proslógion, diz que é a fé e a intuição que procuram a razão, e não é a inteligência que procura e encontra a fé. Quando a fé procura a razão, é a realidade total que é objecto da procura através a intuição que é uma forma de conhecimento sem intermediação.

Quarta-feira, 6 Junho 2012

A Teoria do Balde, de Karl Popper

“É revelador da condição humana que todas as provas e factos empíricos são por norma incapazes de mudar as fortes crenças ideológicas dos indivíduos. É por isso que só é possível contrapor uma narrativa (política) com outra mais sedutora.”

Esta proposição foi respigada no FaceBook e é da autoria de um jovem que faz um mestrado universitário, e que colabora num blogue hayekiano. A proposição necessita de ser interpretada para fazer algum sentido, porque inclui nela uma série de conceitos que, sem uma interpretação, valem pouco.

Duas perguntas: 1) o que é um facto? 2) será que depois de definirmos “facto”, podemos saber se os factos conduzem a uma aproximação da verdade que racionalize [ou seja, que as fundamentem logicamente] as crenças ideológicas?
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Quarta-feira, 28 Março 2012

Sobre a crítica ao Distributismo [parte I]

Filed under: ética,economia — O. Braga @ 6:51 pm
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Este texto de crítica ao Distributismo tem várias invectivas que vou dissecar, se Deus quiser, ao longo de alguns postais, tentando uma resposta disciplinada a um texto crítico confuso e indisciplinado.


Em primeiro lugar, o texto critica o desconhecimento dos católicos distributistas em relação a Carl Menger; é desta crítica que vou falar neste postal.
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Domingo, 22 Janeiro 2012

A crítica neoliberal ao Distributismo

Nesta crítica neoliberal ao Distributismo, vemos duas citações, uma de Hayek e outra de Von Mises, que raiam o cinismo: em suma, a lógica das citações é a seguinte: “se a minha avó não tivesse existido, eu não existiria”.
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Terça-feira, 19 Julho 2011

Já estou a ver alguns “porcos de Epicuro” a ranger os dentes…

“O relativismo e a decadência” — pelo Prof. Adriano Moreira

“No centro do relativismo em que se vai deteriorando a identidade e capacidade dos ocidentais para sustentarem uma posição igual na coexistência em liberdade com as áreas culturais que antes dominaram em regime imperial, parece estar a questão da relação entre valor e preço, em que este serviu de eixo a um credo de mercado que conduziu à crise financeira e económica actual.”

Quinta-feira, 30 Junho 2011

Bernard de Mandeville e a sociedade ocidental da ética anética

“Vícios privados são virtudes públicas” — Bernard de Mandeville

Se quisermos encontrar as causas ideológicas próximas do desastre ético que acontece hoje no Ocidente, teremos que recordar o bisavô da ética utilitarista: Bernard de Mandeville — mais conhecido em Inglaterra do princípio do século XVIII, como “Man Devil”. Normalmente, dizemos que Bentham foi o avô da ética utilitarista, e é verdade; mas o conceito de “maior felicidade para um maior número de pessoas” não é da autoria de Bentham, mas do outro bisavô do utilitarismo inglês: Hutcheson.
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Sexta-feira, 3 Junho 2011

O sistema de Hayek e a axiologia humana

Filed under: filosofia — O. Braga @ 10:20 pm
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Normalmente, tende-se a meter no mesmo saco Hayek e von Mises; e há mesmo quem diga que Hayek segue a tradição de Edmund Burke — o que é tão evidentemente absurdo que até a Wikipédia o desmente. Da obra de Hayek não resulta apenas uma teoria económica, mas um sistema entendido como a exposição de um conjunto de teorias (que não são só estritamente económicas, mas filosóficas) que se transformou, a partir do Nobel de Hayek, em doutrina pelos seus discípulos e críticos, e evoluiu para um dogma a partir da queda do muro de Berlim.
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Quarta-feira, 1 Junho 2011

Ainda sobre a ética de Hayek

Segundo os gregos, episteme (ciência) é um tipo de conhecimento simultaneamente eminente — ou seja, é um saber superior —, é universal — na medida em que se opõe às opiniões particulares —, e é teórico (porque difere de aptidões práticas).
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Terça-feira, 31 Maio 2011

Afinal, o Estado não é neutral

Parece que já avançamos qualquer coisa, porque o Samuel concorda que é impossível ao Estado ser neutral em matéria de moralidade. Isto significa que a primeira proposição abordada neste postal, segundo a qual “a moralidade de uma acção não é passível de ser objecto de controlo coercivo pelo Estado”, é falsa, porque de uma forma positiva (acção) ou negativa (omissão), o Estado está sempre presente na formatação da moralidade.
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Sobre a fusão sinistra da religião política hayekiana e o Estado

« Quando o episteme (conhecimento científico) está arruinado, os homens não param de falar sobre a política; mas agora expressam-se em modo de doxa (opinião) »

― Eric Voegelin, “Nova Ciência da Política”


Convém dizer ao Samuel que uma pessoa não passa automaticamente a ter razão ao escrever um texto longo e com algum empastelamento ideológico. Aborrece-me que eu fale de uma situação em concreto e me respondam com o conteúdo inteiro de uma enciclopédia; e aborrece-me porque o empastelamento ideológico torna quase impossível o debate de ideias. Enfim, vou tentar abordar aqui as linhas fundamentais do seu postal.
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