perspectivas

Sábado, 16 Julho 2016

O nominalismo do Anselmo Borges, e o da Igreja Católica do papa Chico

 

O Anselmo Borges escreveu o seguinte acerca do Papa Bento XVI:

“Em 1972, [Bento XVI] ainda professor, escreveu um ensaio académico, manifestando abertura à admissão à Eucaristia dos divorciados recasados, no caso de a nova união ser sólida, haver obrigações morais para com os filhos, não subsistindo obrigações do mesmo tipo em relação ao primeiro casamento, "quando, portanto, por razões de natureza moral é inadmissível renunciar ao segundo casamento".

Ora, este ensaio foi retirado das "Obras Completas" de Ratzinger, cuja edição está a cargo do cardeal G. Müller, um dos opositores a Francisco, concretamente nesta questão”.

Não sabemos se o papa Bento XVI escreveu de facto aquilo; e, se escreveu, não sabemos em que contexto o fez. Mas demos de barato a veracidade do facto.


Eu estou disposto a mudar de opinião acerca do “recasamento católico” se me responderem racionalmente à seguinte pergunta:

¿Quem emite o juízo de valor acerca da nova união sólida, de haver obrigações morais para com os filhos, etc.? ¿É o Padre? ¿É a comunidade? ¿São os próprios recasados que julgam em causa própria?

  • Se for o Padre a emitir o juízo de valor (a julgar a consentaneidade do casal recasado com os requisitos da Eucaristia), estamos a admitir a ideia de que o Padre não pode errar, ou que o Padre não pode assumir atitudes de nepotismo.
  • Se forem os próprios recasados a julgarem-se a si mesmos, é dúbio que existam refractários: todos ou praticamente todos os casais recasados que frequentam a missa acharão que reúnem as condições necessárias para a comunhão eucarística.
  • Se for a comunidade a emitir um juízo de valor acerca do casal recasado, ficamos sem saber quem representa comunidade — porque haverá sempre, dentro da comunidade, quem não concorde com a maioria.

Podemos concluir o seguinte: ou a Igreja Católica admite a comunhão eucarística a toda a gente, independentemente de ser casados, recasados, e re-recasados, re-re-recasados, re-re-re-recasados, e de comportamentos e de acções privadas; ou se mantém a tradição do casamento católico. O papa Chico tem que escolher. “Ou há moralidade, ou comem todos”. Pois então, sigamos a opinião do Anselmo Borges e ponhamos toda a gente a “comer”.


Os julgamentos puramente subjectivos acerca do comportamento dos outros, são falaciosos. Para emitirmos juízos de valor, temos que nos basear em factos; ou então, ignoremos quaisquer factos e não julguemos ninguém. Parece ser esta última hipótese a defendida pelo Anselmo Borges e pelo papa Chiquito.

O nominalismo é uma deficiência psicológica que decorre de um subjectivismo radical; é uma doença existencial. Quando nos detemos no particular, de tal forma, que não conseguimos ver o universal, somos como um surdo que não consegue apreciar uma boa peça musical: temos uma deficiência cognitiva.

É verdade que a moral pertence à realidade subjectiva, mas os valores que regem a moral (os valores da ética) devem ser universais e racionalmente fundamentados. Se concebemos os valores éticos como sendo apenas válidos para cada indivíduo (nominalismo ético) e desprovidos de universalidade, a moral não pode existir.

Segunda-feira, 27 Junho 2016

O politicamente correcto diz que a moral católica reprime a sexualidade

 

O jornal Púbico publica um artigo da autoria da jornalista Ana Cristina Pereira, com o título “A prostituição diz muito sobre a sociedade”, que aborda o episódio das “Mães de Bragança”.

O artigo é uma crítica cultural ao homem/marido [de Bragança, neste caso — mas extensível ao marido em geral], e uma tentativa de vitimização da esposa, por um lado, e por outro lado incute a ideia da prostituta como uma espécie de “instrumento de revolução cultural”. E o corolário dessa revolução cultural está expresso no fim do texto, no seguinte trecho:

«Algumas mulheres [de Bragança] “começaram a deixar esturricar a comida, a tolerar os buracos nas meias dos maridos, a desleixar-se nas tarefas domésticas”, garante o sociólogo. Arranjaram tempo para frequentar salões de beleza, cuidar mais da sua imagem. E “a estabilidade matrimonial começou a ceder à influência de novas correntes socioculturais, propensas à valorização dos enlaces efectivos eróticos e não apenas à dos vínculos patrimoniais”.»

Naturalmente que uma “revolução” pressupõe, no pensamento mitológico da nossa actual cultura, uma melhoria e um progresso [entendido como “lei da Natureza”] em relação a condições anteriormente existentes. Mas o mais espantoso, no artigo, é a utilização sistemática da falácia da generalização: qualquer caso particular é generalizado em nome da “ciência social” de um tal José Machado Pais.
O corolário da tese ideológica do texto é a necessidade de precarização dos laços do casamento em nome da libertação da mulher; e, por outro lado, “quando um homem casado vai ao bar de alterne é sinal de quebra de estabilidade conjugal, diz o investigador”. E, a ida do homem [em geral, o que constitui uma falácia da generalização] ao bordel significa [segundo o artigo] “um afrouxar da ordem moralista ou repressiva” — e aqui está, na berlinda, a moral católica.

Ou seja, segundo o artigo, a existência de prostitutas até é uma coisa boa conquanto vá contra “a moral católica sexualmente repressiva”.


prostit-imNo século XV, e nas cidades da Europa, o bordel contribuía para a manutenção da paz social, e neste sentido, era uma “instituição católica”. Em meados do século XVI, o papado, para responder às críticas protestantes [Reforma], sentiu-se forçado a emitir uma defesa deste tipo [“o bordel contribui para a manutenção da paz social”] para justificar a existência dos “banhos públicos” em Roma. Ou seja, ao contrário do que dizem implicitamente a “jornalista” e o “sociólogo”, a moral católica não reprimia a prostituição [na Idade Média]; e a atitude tolerante de Salazar em relação à prostituição reflecte essa tradição católica medieval — que depois foi contrariada pela Contra-Reforma que, no fundo, imitou a Reforma.

A repressão [política] da prostituição iniciou-se com a Reforma protestante; e, de certo modo, essa “repressão sexual” foi imitada pela Contra-Reforma católica através da influência dos jesuítas na Igreja Católica. Em geral — e não só em relação às prostitutas —, antes da Reforma, as relações sexuais aconteciam frequentemente antes da actual “idade adulta” [21 anos]. A Igreja Católica medieval instituiu a figura cultural do padrinho de baptismo, que impedia que um homem mais velho pudesse ter relações sexuais com uma jovem afilhada com quem tinha um “relacionamento espiritual”; e era vulgar [na Idade Média] que uma menina pudesse ter vários padrinhos de baptismo: só depois da Reforma e da Contra-Reforma, o padrinho de baptismo passou a ser um só, e a sua figura foi desvalorizada pelo protestantismo.

Em consequência da repressão da prostituição, a partir do século XVII, (e da repressão sexual em geral), os casamentos passaram a realizar-se mais tarde na vida das pessoas, por um lado, e por outro lado, a idade dos nubentes passou a ser semelhante.


Não estou aqui a defender a prostituição; o que eu quero dizer é que é falso que a Igreja Católica tenha sempre reprimido a prostituição — porque os católicos medievais já tinham compreendido, mesmo sem dados científicos objectivos, que a mulher produz 400 óvulos durante toda a sua vida, ao passo que o homem produz biliões de espermatozóides. É a p*ta da realidade!

Quarta-feira, 1 Junho 2016

O Bem Soberano e a virtude moral

 

Eu vou comentar um outro textículo do Luís Laparoto, porque ele próprio colocou a ligação, à laia de comentário, do meu mural do FaceBook; ou eu apagava o comentário, ou comento. Vou comentar.

“Debater um tema aparentemente tão exaurido quanto o da "adopção gay" parece inútil, não fosse o mesmo remeter para uma divisão profunda, bipolar, que fractura a Ética e explica, em parte, a celeuma existente entre "conservadores" e "libertários".”

A adopção de crianças por pares de invertidos tem pouco a ver com “libertarismo”; tem sobretudo a ver com o chamado “marxismo cultural” da Escola de Frankfurt. O que pode acontecer — e muitas vezes acontece — é que os verdadeiros libertários sejam os idiotas úteis, assim como os anarquistas russos do princípio do século XX foram os idiotas úteis de Lenine.

A adopção de crianças por pares de invertidos não é só apenas uma questão de ética: é também uma questão cultural (cultura antropológica).

“O dogma que cria a renitência relativamente à adopção homo-parental é o mesmo que demoniza, patologiza, a homossexualidade: ele é "psicanalítico", não é partilhado por toda a ciência "psicológica" (ou mesmo por parte da psicanálise contemporânea), e prolonga um tipo de moral paternalista, que coloca o fulcro ético na imagem do homem/pai e "diaboliza" o feminino, assim como o que este representa. Sabemos que a psicanálise contrapôs a grande parte da repressão devida e criada pela moral conservadora, muito associada ao ideal platónico-cristão, mas também é vero que o mesmo método cimentou a visão do equilíbrio bi-parental centrado particularmente na representação masculina enquanto gerador de saúde mental e da plena diferenciação do filho.”

foi cesarianaA psicanálise não faz parte da ciência, porque não é falsificável (Karl Popper); é estranho que o Laparoto, que, segundo parece, estudou medicina, não saiba que não pode invocar a psicanálise em contexto científico. Portanto, caro leitor, quando você ouvir um douto qualquer invocar a autoridade de direito científica da psicanálise, mande-o à merda! (e pode dizer que vai da minha parte).

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Terça-feira, 22 Março 2016

O Alexandre Castro Caldas e a eutanásia

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:38 am
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Regra geral, quando um homem da ciência aborda a ética, não sai coisa boa. O Alexandre Castro Caldas deveria preocupar-se com o epifenomenalismo próprio da neurologia, em vez de se meter por becos que desconhece.

“O problema [da eutanásia] não é, também, de natureza religiosa, podendo, no entanto, ser considerado de natureza espiritual. É, sem sombra de dúvida, uma questão de ciência médica que tem que saber recrutar os seus melhores recursos para combater o sofrimento e trazer quem sofre à qualidade de vida que todos merecemos. Mas sobretudo temos que concordar que o problema não é de natureza política, e muito menos será de desentendimentos entre esquerda e direita”.

Alexandre Castro Caldas


No tempo de Aristóteles, praticava-se o infanticídio; o próprio Aristóteles defendeu o infanticídio. Hoje, Peter Singer defende o infanticídio por razões utilitaristas (utilidade). Mas não é por que um facto existe, que se pode defender uma norma que o legitime. Quando nos baseamos em factos para defender a imposição de uma norma (moral ou jurídica), incorremos no sofisma naturalista.

A ciência não pode determinar os valores da ética. A ideia de “responsabilidade moral” reside na experiência subjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas pelas leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas”.

O Alexandre Castro Caldas revela a ignorância que grassa na nossas elites. Estamos entregues à bicharada. Por acaso, ele não defende a eutanásia; mas só por acaso, porque quando ele diz que o problema da eutanásia é, “sem sombra de dúvida, uma questão de ciência médica”, verificamos a precariedade da sua posição.

A normalização da eutanásia (porque é disto que estamos a falar: da normalização, da criação de uma norma), é um problema político, embora não seja uma questão partidária. O Alexandre Castro Caldas confunde “partidos políticos”, por um lado, e “política”, por outro lado.

E a eutanásia é um problema político porque se confunde o conceito de “autonomia da pessoa”, por um lado, com “individualismo” (partidos da direita) ou com “colectivismo” (partidos da esquerda), por outro lado. A partir do momento em que a realidade é definida como uma “construção social e cultural”, surge o individualismo (direita) e o colectivismo (esquerda) que já pouco têm a ver com o conceito de “autonomia da pessoa”.

O que une o Rui Rio (direita) ao João Semedo (esquerda) na defesa da eutanásia é a ideia de que a realidade é um produto de uma “construção social e cultural”.


eutanasia-cadeiras

Sendo um problema político, a eutanásia é também um problema religioso no sentido da cultura antropológica:

A ética está para a moral, assim como a musicologia está para a música. Podemos dizer que a ética está mais próxima das determinações do comportamento da subjectividade activa dos indivíduos, enquanto que a moral é a exigência universal irredutível e transcendente. A ética radica-se nos valores, ao passo que a moral radica-se na lei — lei esta que, nos tempos modernos, é escorada no enquadramento jurídico que pretende (e consegue-o, até certo ponto) moldar os costumes e a tradição da cultura antropológica.

A ideia, absurda, segundo a qual é possível existirem valores da ética sem lei moral, é uma característica do pós-modernismoporque a própria ausência de lei moral universal é, em si mesma, uma lei moral. Quando a lei moral não é universal, continua a existir uma lei moral que, neste caso, determina que ela não é universal. E quando os valores da ética não têm correspondência na lei moral, a ética deixa de fazer sentido na cultura antropológica: seria como se um musicólogo e se alheasse do sentido da música que estuda.

Os valores da ética existem por si mesmos: não podem ser deduzidos de qualquer utilidade. Assim, por exemplo, o valor da justiça vale por si, o que pode ser compreendido por cada ser humano. Se fizéssemos depender o valor da justiça de algo que não estivesse — de um modo ou de outro — já incluído no seu significado; se deduzimos o valor da justiça da utilidade ou de uma oportunidade política, o valor da justiça estaria em uma situação muito precária (que é o que acontece hoje na nossa “democracia”).

A diferenciação cultural introduzida pelos monoteísmos, e principalmente pelo Cristianismo, introduziu na cultura antropológica a noção do “realismo na ética”, segundo o qual os valores da ética existem por si mesmos, e não podem ser deduzidos de qualquer utilidade. Neste sentido, concordo com o Alexandre Castro Caldas: a eutanásia é um retrocesso civilizacional, porque também é um problema religioso.

Sexta-feira, 19 Fevereiro 2016

A falsa separação entre lei jurídica, por um lado, e norma moral, por outro lado

Filed under: Política — O. Braga @ 3:19 pm
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A julgar por este texto do Rolando Almeida, podemos pensar que o Estado é moralmente neutro.

“A segunda distinção a ter em conta é entre o que é legal e o que é moral. Muitas vezes, como vi acontecer programa de TV, associamos o legal e o moral. E é verdade que muitas das leis são derivações da racionalidade moral. Mas o que é moral é muito diferente do que é legal. Para o perceber basta pensar que nem tudo o que é de lei é necessariamente moral, como o que é moral não tem de ser necessariamente legal. A escravatura foi durante muito tempo legal e daí não se segue necessariamente que seja moral”.

É impossível existir neutralidade entre a não-neutralidade, por um lado, e a neutralidade, por outro lado. O Estado toma sempre partido moral. A putativa neutralidade moral do Estado — invocando a neutralidade moral da lei — é um sofisma.

Uma lei jurídica é uma norma.

A norma é o critério ou princípio que rege a conduta ou o comportamento, ou ao qual nos referimos para fazer um juízo de valor; e é "normativo" qualquer juízo ou discurso que enuncie tais princípios. A norma é facilmente associada às noções de lei ou de regra, porque conduz à prescrição dos comportamentos ou dos estados aos quais está ligado em valor especial – e porque, tal como acontece com a lei e com a regra, é fixada por um indivíduo, um grupo ou uma instituição. Uma norma é instituída em relação a uma medida, ou a um ideal.

Ser “normativo” é privilegiar os valores, ou mesmo impor os valores. E só uma comunidade de valores pode fundar a adesão a um juízo normativo.

Quinta-feira, 2 Julho 2015

As três normas da moral cristã

Filed under: ética — O. Braga @ 8:24 am
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Um artigo assinado por José Paulo do Carmo, no semanário SOL, é crítico em relação à forma como o sexo é concebido na cultura actual — especialmente em Lisboa.

“Assim se explicam tantos divórcios, tantas separações, porque vivemos numa dicotomia de valores em que queremos ser livres mas ‘ai de que o nosso companheiro/a faça o mesmo’. Deixámos de ser apedrejados por adultério, perdeu-se o julgamento em praça pública, gradualmente tudo passou a ser normal porque o tempo encarregou-se de desresponsabilizar esse tipo de atitudes”.

As relações sexuais

A moral é hoje reduzida ao conceito de “não chatear o outro”. Hoje só existe uma única norma moral: a liberdade negativa: “cada um faz o que quer e não tens nada a ver com isso! Vive e deixa viver!”.

Esta norma moral é válida; mas não é a única. Existem, para além dela, mais duas normas morais:

  • a necessidade de uma determinada harmonia interior em cada pessoa, que tenha em conta também a liberdade positiva;
  • o problema do sentido da vida. A forma como organizamos as nossas vidas e as nossas mundividências de forma a obtermos um sentido justo e racional para as nossas vidas.

Reduzir toda a moral à liberdade negativa é característica da barbárie moderna contemporânea. E só o Cristianismo pode ajudar as pessoas a assimilar as duas outras normas que são hoje invisíveis.

Segunda-feira, 6 Abril 2015

Theodore Dalrymple fala do caso do co-piloto Lubitz da GermanWings

 

O conhecido psiquiatra Theodore Dalrymple diz, acerca do co-piloto da GermanWings que despenhou o avião matando 150 pessoas (ele incluído), que o problema deste não tinha qualquer tratamento psiquiátrico possível porque se tratava de um problema de carácter.

Theodore Dalrymple corrobora a minha opinião expressa aqui anteriormente: grande parte — senão a maioria — dos problemas ditos “psiquiátricos” que afligem a sociedade ocidental são realmente problemas sociológicos, ou dito de outra maneira, problemas culturais (doenças da cultura antropológica).

É impossível que os psiquiatras, em geral, não saibam disto. Sabem, mas escondem para alimentar o negócio e o lóbi político da psiquiatria.

“It seems to me likely (though I could not swear to it in a court of law) that Lubitz’s problem was one of character rather than of illness, and therefore unsusceptible to so-called treatment. Indeed, the very notion of such treatment might have been an obstacle to his self-amelioration, in so far as it would have given him the impression that he was ill and it was therefore up to others to cure him. When they failed to do so, which was inevitable, he felt absolved of responsibility for his own state.”

A “psiquiatrização” — o determinismo pseudo-científico psiquiátrico — da nossa sociedade faz com que psicopatas de origem congénita, hereditária ou epigenética, se sintam livres de fazer o que seja, alegando que “a ciência não os conseguiu curar”.

Psicopatas sempre os houve: a diferença é que hoje eles andam em roda livre porque não existe qualquer censura cultural (censura da cultura antropológica, estigmatização dos comportamentos, e os preconceitos necessários são diabolizados pela classe política), por um lado, e por outro lado porque o cientismo psiquiátrico tende a inibir o indivíduo de qualquer responsabilidade moral. Aliás, a moral já não existe: hoje diz-se que “cada um tem a sua moral”; ora, os valores da moral, ou são universais, ou não existem de facto.

“He was by all accounts a narcissistic type; and, as with many another, his enthusiasm for fitness wasn’t for fitness for any end other than a purely self-regarding one”.

O narcisismo sempre existiu nos seres humanos, mas a sua expressão generalizada, incontrolada, exacerbada e sem censura é um fenómeno contemporâneo. A atomização da sociedade, que as elites políticas impõem hoje, gera fenómenos de narcisismo radical. Para os narcisistas, a condição de anonimato é insuportável.

“Moreover, he is reported to have had a severe chagrin d’amour – or rather, I suspect, a crise de jalousie – not long before he crashed the aircraft. He was also said to have been a man of swiftly-changing mood, as the jealous often are: one minute domineering to the point of violence, the next apologetic and dove-like in their promises of reform. Such jealous men do not love the object of their supposed affections, but rather themselves: they need a lover as a prop to their own conception of themselves”.

Para além do problema de carácter, que é congénito ou hereditário, há um problema da formação da personalidade que é cultural. A formação da personalidade tem a ver com a educação, e mormente com a educação moral. Uma boa formação da personalidade pode mitigar traços de mau carácter.

O relativismo moral imposto pelas elites políticas à sociedade pulverizou qualquer conceito de moral — sendo que o sentido de um conceito só é definido por meio de uma experiência concreta. Os conceitos não têm sentido no absoluto; a sua definição é apenas operacional. O relativismo moral transformou a ética e a moral em fenómenos abstractos a que nem sequer podemos chamar de “conceitos”.

“As for cultural influences, I cannot help but think that our culture is propitious to the promotion of narcissism of the type that I suspect that Lubitz suffered from – or made others suffer from. Such narcissism is not new, for where human frailty is concerned there is nothing new under the sun: it is the frequency of the respective frailty rather than its novelty that is at issue”.

Uma boa formação — leia-se, uma boa educação que inclui a educação moral e o desenvolvimento da sensibilidade social — pode levar a uma alteração parcial das características congénitas, epigenéticas ou hereditárias do mau carácter. Antigamente tínhamos as aulas de religião e moral obrigatórias e universais: hoje temos o exemplo social da ética libertina da classe política e das elites em geral.

Sexta-feira, 27 Fevereiro 2015

Um ateu tem menos sensibilidade moral do que um cristão

Filed under: ética — O. Braga @ 3:42 pm
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Embora existam vários modelos de ateísmo1, podemos conceber genericamente o ateísmo como a consequência de uma explicação materialista da origem e da evolução do universo e do homem. Ora, se tomarmos em consideração as recentes descobertas da Física, alguém que tenha uma visão materialista do mundo — que inclui o universo e o homem — só pode ser um estúpido, porque nega a própria ciência. O ateísmo é sinónimo de materialismo.

Não devemos confundir ateísmo, por um lado, com agnosticismo, por outro. Com as descobertas recentes da Física, um filósofo ateu (materialista) é uma aberração intelectual; mas um filósofo agnóstico já é intelectualmente tolerável.

dawkins e hitlerQuando falamos em “religiões”, não devemos meter todas no mesmo saco, como se faz aqui — porque, por exemplo, os princípios e valores éticos que norteiam o Cristianismo são diferentes dos princípios e valores que norteiam a religião dos habitantes canibais das montanhas da Papua-Nova Guiné.  Meter as religiões todas no mesmo saco revela estupidez.

Um ateu moderno, por mais que o negue, está eivado de cultura cristã, seja através da cultura antropológica, seja através do legado histórico da Europa. Em princípio, um ateu moderno europeu assimilou alguns valores cristãos através da cultura antropológica em que está inserido.

Quando se diz que “um ateu não é mais propenso à  imoralidade do que um católico”, por exemplo, joga-se com a ignorância (politicamente correcta) do conceito de juízo universal: pelo facto de conhecermos um ateu moralmente íntegro, isso não significa necessariamente que a moralidade dos ateus, em geral, seja equivalente ou superior à  dos católicos. Por outro  lado, há muita gente que se diz “católica” mas que não respeita os valores da ética cristã (na prática, são ateus).

A ética ateísta é responsável pelo maior morticínio de que  alguma vez rezou a História: o holocausto silencioso de milhares de milhões de seres humanos, ou seja, o aborto.

Quando se invoca  um texto de S. Tomás de Aquino em que ele diz que a pena de morte aplicada a um herege é executada pelo poder político e secular, e ao mesmo tempo se invoca um pretensa superioridade da ética ateísta que legitima o aborto como um valor ético — estamos em presença da indigência intelectual e moral da actual Academia.

Nota
1. o materialismo dito “científico”, ou marxismo; o neopositivismo; Nietzsche e os seus seguidores; o Existencialismo ateu.

Terça-feira, 11 Novembro 2014

Como funciona o relativismo

Filed under: ética — O. Braga @ 3:23 am
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Sábado, 8 Novembro 2014

O professor Rolando Almeida e o método discursivo do marxista cultural Habermas

Filed under: ética — O. Braga @ 8:01 pm
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“Pensar na bondade para podermos fazer coisas boas envolve falar com os outros, aprender o que pensam sociedades diferentes e por que motivo, e perguntar as razões das pessoas para considerar que uma coisa é boa ou má.

O que aprendemos com tudo isto é que o «bem» vem de pensarmos com responsabilidade e sensibilidade sobre o efeito que os nossos pensamentos e actos têm em nós, nos outros e no mundo que nos rodeia.”

Começar a estudar filosofia moral


Os marxistas culturais Jürgen Habermas e Karl-Otto Apel sugeriram uma forma de resolver o problema da fundamentação das normas morais: em vez do sujeito solitário que pensa acerca da generalização de máximas e normas de actuação (à moda de Kant), recorreram à ideia de um discurso infinito, se possível de todos os seres humanos, no âmbito de uma putativa comunidade ideal de comunicação.

Ou seja: se as normas morais devem ser fundamentadas, todos aqueles a quem estas (as normas) dizem respeito devem ter, por princípio, a possibilidade de participação na discussão (pública) sobre elas. Por exemplo, se alguém afirma que o roubo é moralmente condenável, em todas as circunstâncias, tem que afirmar o seguinte perante todas as pessoas:

“Afirmo perante todos que o roubo representa uma acção moralmente proibida, declarando-me disposto a defender esta minha afirmação perante qualquer pessoa.”

Na procura de um consenso surge então um discurso no qual podem e devem participar em pé de igualdade todos aqueles que são de qualquer modo afectados pela definição das normas morais. Assim, através de uma argumentação inteligente (que pode ser manipuladora) deve alcançar-se um consenso sobre as regras de jogo da moralidade: se se argumentar de forma inteligente, o resultado será o pretendido. E quem não respeitar o consenso alcançado por “todos”, deixa de poder reclamar que actua de acordo com a razão. Mas ficamos sem saber em que isto impede um ladrão de roubar…!

Para as pessoas que não participaram na discussão, ou porque não puderam fazê-lo por motivos práticos ou porque são crianças, doentes, ou porque ainda não nasceram, o consenso do método discursivo do marxista cultural Habermas não significa nada.

Além disso, o consenso do método discursivo não pode obrigar o oportunista, especialista na aplicação do princípio do interesse próprio, a agir no sentido do consenso — porque o cálculo só bate certo se todos os envolvidos abandonarem previamente o princípio do interesse próprio.

Ou seja, é necessária uma decisão moral prévia a qualquer discurso. E pergunto: ¿como é que essa decisão moral prévia pode ser fundamentada? O marxista Habermas não tem resposta para esta pergunta. Ademais, não está assegurado que um discurso, por muito inteligente que seja, garanta uma certeza — nem nas ciências da natureza o discurso científico oferece qualquer certeza.

No entanto são estes os princípios éticos com que o professor Rolando Almeida inicia os seus alunos.

Quinta-feira, 15 Maio 2014

O estado de putrefacção moral a que chegou o alto clero da Igreja Católica

Filed under: aborto,ética,Igreja Católica — O. Braga @ 8:15 pm
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joao-paulo-iiLeio aqui que um Bispo italiano, de seu nome Nunzio Galantino, afirmou que não se identifica com os católicos que rezam o terço perto das clínicas de aborto (de facto, ele utilizou a expressão “Interrupção Voluntária da Gravidez” em vez de “aborto”), mas antes (diz ele) “apoia os jovens que se opõem a esta prática e que lutam pela qualidade de vida do povo, pelo seu direito à saúde, ao trabalho”. Ou seja, o Bispo criou uma dicotomia entre o terço à porta das clínicas de aborto, por um lado, e, por outro lado, a melhoria das condições de vida do povo.

Essa dicotomia é inexistente e consiste em uma falácia Ignoratio Elenchi. Não tem nada a ver o cu com as calças. A luta pelas condições de vida do povo não é incompatível com o terço rezado à porta das clínicas abortadeiras. Pode-se fazer uma coisa e outra. Mas a posição do Bispo revela o estado putredinoso, intelectual e moral, a que chegou o clero superior da Igreja Católica em geral, e explica, em muito, por que razão o cardeal Bergoglio foi escolhido para Papa.

Por outro lado, a ideia segundo a qual um melhor nível de vida das populações reduz a incidência do aborto não corresponde aos dados da experiência. Portanto, a afirmação do Bispo italiano só pode ser entendida em um contexto de uma determinada ideologia que infestou o alto clero da Igreja Católica.

É nosso dever combater esse clero, colocando-o fora do poleiro se necessário for, correndo-os da Igreja para fora: a Igreja somos todos nós, católicos praticantes, e não uma cambada de ideólogos que tomaram de assalto a Igreja Católica, e que substituíram a teologia pela ideologia política.

“Não tenhais medo!”

Domingo, 23 Fevereiro 2014

Armadilha legalista da maçonaria

Filed under: Maçonaria — O. Braga @ 11:13 am
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“No domínio do Direito, nenhuma dedução científica é possível”S. Boaventura

A eutanásia foi legalizada na Bélgica em 2002, e agora surge a primeira litigância judicial contra um “médico” que assassinou uma “cliente”. Mas o problema de qualquer litigância judicial é que parte do princípio de que a lei (da eutanásia, neste caso) deve ser respeitada, ou seja, parte do pressuposto de que a lei (da eutanásia) é aceitável e legítima.

A única forma de combater uma lei maçónica iníqua — como, por exemplo, a lei da eutanásia ou do aborto — é não a considerar legal porque é ilegítima. Não há como considerar um quadro legal iníquo para uma qualquer litigância judicial: essa lei simplesmente não existe porque deve ser recusada enquanto lei ilegítima. E sendo que uma determinada lei não existe de facto (porque não é legítima), não faz sentido qualquer litigância judicial em torno dela.

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