perspectivas

Quinta-feira, 2 Maio 2013

A recusa do símbolo, da exegese e da hermenêutica

Um judeu, como George Steiner, que viveu o horror do holocausto nazi, e que recusa a existência do Estado de Israel, só tem uma classificação: é um hipócrita. Portanto, é saudável, desde logo, lançar esse estigma objectivo sobre Steiner. Ele tem o direito de ser o que quiser; mas não tem o direito de nos dizer, ou de nos tentar convencer, que é aquilo que não é.

Depois classificado Steiner, vamos a este textículo (aqui, em PDF).

1/ em primeiro lugar, Steiner confunde ou mistura propositadamente o Novo Testamento com o Antigo Testamento.
Por exemplo, os documentos apócrifos e gnósticos descobertos recentemente no Egipto em língua copta antiga sobre a vida do Jesus Cristo histórico, contam uma história parecida com a história oficial dos quatro evangelhos cristãos adoptados oficialmente — ou seja, a essência dos evangelhos apócrifos e gnósticos da Antiguidade Tardia descobertos recentemente, por um lado, e por outro lado a essência dos evangelhos oficiais desde o concílio de Niceia, são idênticas. Ou, simplificando: “a história bate certa”, ou “bate a bota com a perdigota”.

2/ através do seu textículo, Steiner recusa objectivamente o símbolo, embora o Homem seja um homo simbolicus (Cassirer). Ao recusar o símbolo, Steiner nega a hermenêutica. Ao negar a hermenêutica, Steiner entra em contradição consigo mesmo, porque nenhum literato pode pretender que os seus próprios textos sejam levados à letra — há sempre uma exegese a fazer de qualquer texto, mesmo em relação a uma literatura chã e basista como é a de Steiner.

Na mente de Steiner, o símbolo é nada mais do que um sinal. Confunde ele sinal e símbolo — o que é característica do homem moderno desde que o Pragmatismo foi inventado nos Estados Unidos em finais do século XIX. Por isso é que ele diz que “a Bíblia é um material mundano”, porque ele não consegue ver nela senão sinais que, por o serem (na opinião dele), não se referem a nenhum representado e podem, por isso, ser mudados arbitrariamente (à vontade do freguês).

3/ O símbolo tem um conteúdo, em que é simbolizado o representado, enquanto que os sinais são escolhidos arbitrariamente. O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva que adquire uma experiência intersubjectiva e universal) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda, porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; em contraponto, um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

4/ uma coisa semelhante se passa com o escriba do Bloco de Esquerda que escreveu o comentário ao textículo de Steiner: ele só concebe a existência de sinais, que são por natureza imanentes e arbitrários (os sinais podem ser mudados sem que mudem as suas representações; por exemplo, um sinal de trânsito). O escriba pretende substituir a putativa arbitrariedade dos sinais (na opinião dele) da Bíblia pela arbitrariedade dos sinais de uma determinada religião política que é a dele. Para ele, a Bíblia traduz ou interpreta uma religião política equivalente a uma outra qualquer, porque, para ele, a Bíblia não contem senão sinais políticos, arbitrários e convencionados.

Sendo que é considerado que na Bíblia não existem símbolos (que devem ser objecto de uma exegese e de uma hermenêutica) mas apenas sinais, estes assumem apenas e só uma dimensão política. E, se não existem símbolos mas apenas sinais, toda a realidade e vida humanas são reduzidas à política, e a nada mais do que à política — o que é realmente assustador.

“When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa.” — Eric Voegelin

3 comentários »

  1. Bom dia!

    Você é ou já foi estudante rosacruz?

    A forma como tratou dos conceitos sobre sinal e símbolo, da forma como expôs, só o vi em exposições rosacruzes no tempo em que eu mesmo fazia parte de loja… isso antes de retornar à comunhão Católica.

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    Comentar por Ebrael Shaddai — Quinta-feira, 2 Maio 2013 @ 2:13 pm | Responder

    • @Ebrael Shaddai: A distinção entre sinal e símbolo vem de Santo Agostinho. Depois, essa distinção passou por gente tão diversa como S. Boaventura, Hugo de S. Victor, e foi desenvolvida por Pascal, e Kant também pegou nessa questão. Cassirer (um neo-kantiano) levou ainda mais longe o problema do simbolismo na espécie humana. A história das ideias não se resume a três séculos — porque os rosa-cruzes organizaram-se apenas a partir de finais do século XVIII.

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      Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 2 Maio 2013 @ 2:22 pm | Responder

      • Sim, eu sabia que tais conceitos eram bem mais antigos. Só perguntei o que perguntei porque me impressionou a semelhança das formas de expor com o que ouvi dos estudantes rosacruzes há anos atrás, justamente por não ter lido ainda tais conceitos através de Santo Agostinho & alii.

        Grato pela explanação!

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        Comentar por Ebrael Shaddai — Quinta-feira, 2 Maio 2013 @ 2:44 pm


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