perspectivas

Sexta-feira, 23 Outubro 2009

A História de Aristides Sousa Mendes, segundo o professor, está mal contada

Filed under: Política — O. Braga @ 11:27 am
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O Odisseia transcreve uma parte da entrevista do professor José Hermano Saraiva ao semanário SOL, na qual se refere a Aristides Sousa Mendes nestes termos:

« Quando advogado, eu almoçava todos os dias num restaurante numa rua da Baixa, onde se comia muito bem, e travei relações com um homem que tinha sido subinspector da PIDE e que fora demitido. Tornara-se solicitador – um solicitador não encartado – e ajudava muitos advogados. Esse homem contou-me que tinha sido demitido por causa do processo do Aristides. Ele e outro inspector fizeram um cambalacho com uns passaportes falsos que venderam muito caro.

Mais tarde, o Eng. Leite Pinto antigo ministro da Educação, contou-me que, quando era administrador dos caminhos-de-ferro da Beira, Salazar lhe pediu para fazer uma operação-mistério, de grande porte, que era transportar da fronteira de Irun para Vilar Formoso milhares de republicanos espanhóis e judeus que lá estavam acumulados e que o Franco, se os apanhasse, matava. E que, se lá ficassem, eram mortos pelos apoiantes do Hitler. Então, os comboios do volfrâmio, que iam para lá selados, eram despejados em Irun e recarregados com os refugiados, que eram despejados em Vilar Formoso. Daí eram levados para várias terras – uma delas, as Caldas da Rainha, onde toda a gente sabe que estiveram um mês. Ao fim de um mês tinham de ir à sua vida.

De facto, qual era a possibilidade de um cônsul, um simples cônsul, mobilizar meios para transportar 40 mil pessoas através de um país hostil? Como é que isso seria possível? Só era possível para uma organização estatal, como é evidente. Mais: não há nenhum documento do Aristides que diga isso, não há nenhum. E ele nem sequer foi demitido, porque era monárquico, era irmão do César de Sousa Mendes, que tinha sido ministro juntamente com o Dr. Salazar, ministro dos Estrangeiros. Tinha uma carreira obscura, já com vários processos disciplinares. Naquela altura estava em Bordéus, que era um consulado sem grande importância, tinha uma família numerosa e dificuldades económicas. Fizeram umas centenas de passaportes, que venderam, até que a PIDE deu por isso. Acontece que um dos beneficiários dos passaportes, um judeu, soube que tinham sido salvas 40 mil pessoas e concluiu que o haviam sido pela mesma porta dele, pelo cônsul de Bordéus, e veio dizê-lo. E isso foi aceite imediatamente, sem a mínima investigação… »

O texto dá a ideia de que Salazar tomou a iniciativa, sem que fosse minimamente forçado ou obrigado a isso, de fazer transportar as alegadas 40.000 pessoas que se amontoavam na fronteira espanhola de Irun ― entre eles o conhecido marxista judeu Walter Benjamin que acabou por morrer no lado francês, com a demora na passagem e devido a doença. E é aqui que a História está mal contada.

Podemos até dar de barato que Aristides Sousa Mendes fez da emissão de umas centenas de passaportes um negócio para compor o orçamento da sua família numerosa; embora o professor Saraiva invoque uma testemunha ― o tal solicitador ― ficamos sem saber como é que um sub-inspector da PIDE se viu envolvido em Lisboa numa eventual negociata de emissão de passaportes realizada em Bordéus. A verdade é que o professor Saraiva acreditou no subinspector que tinha sido demitido por alguma razão que bem poderia não ter sido a invocada por ele, e duvidou da honestidade de Sousa Mendes.

Por outro lado, e sendo Salazar um férreo defensor da neutralidade portuguesa em relação às forças do Eixo, ficamos sem saber o que obrigou Salazar a demitir-se do seu pragmatismo político e desafiar Hitler e Franco, quando se aventurou, alegadamente por iniciativa própria, a transportar 40 mil refugiados de guerra de Irun até Lisboa. A História está mal contada…

Penso que o que se terá passado é que Aristides Sousa Mendes criou de tal forma expectativas de fuga entre os refugiados de guerra na zona de Bordéus, que a mensagem de liberdade alastrou como fogo em palheiro e as pessoas começaram a concentrar-se na zona fronteiriça à espera do salvo-conduto que alguns já teriam recebido de Aristides Sousa Mendes. O cônsul de Portugal em Bordéus — negociando com a venda de passaportes ou não — abriu um precedente para alguns refugiados o que levou a que uma mole de gente ansiasse pelo mesmo destino de fuga. Salazar, pragmático como sempre, não teve outro remédio senão “limpar” a imagem da diplomacia portuguesa fazendo “desaparecer” o problema de Irun. E a seguir demitiu o cônsul, embora o professor diga que Salazar não o fez; existem documentos que provam a demissão de Aristides Sousa Mendes ordenada por Salazar.

Eu tenho muito respeito pelo professor José Hermano Saraiva, mas todos sabemos que, por vezes, ele é um pouco “imaginativo” no que diz respeito à interpretação da História.

6 comentários »

  1. «(…) ficamos sem saber o que obrigou Salazar a demitir-se do seu pragmatismo político e desafiar Hitler e Franco». Não terá sido um desafio directo pois Salazar não proclamou que estava a salvar refugiados e podia sempre alegar que não estava ao corrente.
    A propósito, não se deve esquecer o seu papel fundamental na recusa de Franco em aceder ao pedido de Hitler para entrar na península e poder controlar o Mediterrâneo. Sem isso teríamos sido certamente envolvidos na 2ª GM e o nosso território teria sido alvo de combates atrozes.

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    Comentar por fsantos — Sexta-feira, 23 Outubro 2009 @ 3:29 pm | Responder

  2. Isto vai me dar um jeitao para o meu trabalho

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    Comentar por MARI — Segunda-feira, 22 Março 2010 @ 7:15 pm | Responder

  3. 1.«(…) ficamos sem saber o que obrigou Salazar a demitir-se do seu pragmatismo político e desafiar Hitler e Franco». Não terá sido um desafio directo pois Salazar não proclamou que estava a salvar refugiados e podia sempre alegar que não estava ao corrente.
    A propósito, não se deve esquecer o seu papel fundamental na recusa de Franco em aceder ao pedido de Hitler para entrar na península e poder controlar o Mediterrâneo. Sem isso teríamos sido certamente envolvidos na 2ª GM e o nosso território teria sido alvo de combates atrozes.

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    Comentar por MARI — Segunda-feira, 22 Março 2010 @ 7:18 pm | Responder

  4. Sabem o que é que eu acho disto?! É que é uma vergonha!! Aristides de Sousa Mendes não deveria ter desobedecido a Salazar! Se Salazar lhe disse para não passar os vistos, o que ele tinha de fazer era estar quietinho! Porque Salazar sabia que haviam espiões Alemães que se faziam passar por Judes para passarem a fronteira. E em relação a Salazar ter demitido de Aristides de Sousa Mendes, em primeiro lugar fê-lo, porque Aristides desobedeceu, e depois porque ele já tinha feito muitas trafulhices enquanto cônsul. E depois vêm dizer que o pobre coitado morreu na miséria, o que é mentira, porque esteve a receber dinheiro do estado e da comunidade Judaica até ao fim da sua vida!

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    Comentar por Francisco Câmara Sepúlveda da Fonseca — Segunda-feira, 9 Maio 2011 @ 4:40 pm | Responder

    • @ Francisco Câmara Sepúlveda da Fonseca:

      O seu comentário é ideológico. Este postal trata da História.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 9 Maio 2011 @ 7:41 pm | Responder

  5. […] Aristides Sousa Mendes já ouvi tudo. Inclusivamente há quem diga que ele teria cobrado uma comissão por cada judeu a quem deu o Visto de entrada em Portugal. Agora […]

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    Pingback por Ser anti-judaico é ser de Esquerda « perspectivas — Domingo, 11 Novembro 2012 @ 9:45 am | Responder


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