perspectivas

Terça-feira, 21 Maio 2013

Carlos Fiolhais e Galileu

Filed under: A vida custa,Ciência,filosofia — O. Braga @ 9:18 am
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Estava a ler este artigo de Carlos Fiolhais, e estava a concordar com o seu conteúdo até que esbarrei com invocação sistémica de Galileu:

“Esta separação de águas, possível dentro da mesma pessoa, pode ser remontada a Galileu, um homem de fé que não perdeu a fé diante do Tribunal da Inquisição, quando se viu no lugar de actor principal num drama que marcou a história das relações entre igreja e ciência, hoje já resolvido após o papa João Paulo II ter admitido um erro de juízo.”

Qualquer cientista propriamente dito reconhece hoje, e a partir da perspectiva actual segundo o conceito de paradigma de Thomas Kuhn, que a reacção do Papa às teses de Galileu foi absolutamente correcta. As teses de Copérnico receberam o imprimatur porque foram formuladas como hipóteses. Porém, Galileu não quis formular quaisquer hipóteses, mas afirmar verdades absolutas — e isto numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

A Igreja Católica, naquela época, defendeu a concepção científica mais moderna embora se tenha atido a concepções cosmológicas erradas. Um critério semelhante ao da Igreja Católica daquele tempo é hoje utilizado por Carlos Fiolhais quando defende o paradigma do darwinismo: mas Carlos Fiolhais fala sistematicamente em Galileu sem falar nele próprio e naquilo que comprovadamente de errado ele ainda defende.

Carlos Fiolhais comporta-se hoje de forma mais dogmática do que a Igreja Católica do tempo de Galileu.

Não me agrada um certo paternalismo espertalhão de Carlos Fiolhais em relação à religião. “A fé do cientista é a maior que existe, porque é inconfessável” — escreveu o físico francês Roland Omnès. Dizer que “um cientista não tem fé”, e que “a fé só é característica dos religiosos”, só pode vir de um paternalismo espertalhão em relação à religião. O que acontece é que a fé do cientista é uma fé chã, reduzida a uma parte ínfima da realidade. Por isso, comparar negativamente a fé de um ateu com a fé de um religioso é manifestação de má-fé.

Carlos Fiolhais não compreendeu, do alto da sua cátedra, que não existe tal coisa de “não-crença”. A verdade é que a não-crença é sempre uma forma de crença. O que existe é “crença inadequada”, ou reduzida, ou limitada a uma parte da realidade; e a ciência é esta crença limitada e/ou reduzida.

Carlos Fiolhais não percebe que um ateu é herdeiro da cultura cristã; e como não percebe isto que é tão simples de perceber, também não percebe que o Cristianismo está presente na mundividência do ateu mesmo que ele não queira. E depois, como não percebe isto, Carlos Fiolhais vem dizer que “um ateu pode ter um sentido da existência humana impregnado de ética” — como se a ética do ateu existisse independentemente da História do Cristianismo e da ética cristã.

Quando leio Carlos Fiolhais fico mal-disposto — não porque não concorde com ele, mas porque é gente desta estirpe que molda a opinião pública.

Segunda-feira, 20 Maio 2013

A Razão diz-nos que a Razão tem limites

Filed under: filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 12:13 pm
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thomas nagel 200 webThomas Nagel é um pensador americano que se diz simultaneamente ateu e contra o materialismo. E o que é curioso é que ele não vê nenhuma contradição naquilo que ele diz que é.

Em 1974, ele escreveu um ensaio com o título “Como É Ser Um Morcego?”, em que Nagel pretende imaginar como seria ser um morcego, na perspectiva de um ser humano. Sabemos que os morcegos percepcionam o mundo, por exemplo, através de uma espécie de radar, em que os impulsos de ultra-sons são enviados a partir do cérebro do morcego e os respectivos ecos permitem-lhe distinguir os objectos do meio-ambiente.

Thomas Nagel chegou a uma conclusão: podemos imaginar como é a tentativa de ser um morcego, mas mais nada do que isto. Podemos conceber e imaginar a nossa experiência se nos comportássemos como morcegos, mas nunca saberíamos o que é ser de facto um morcego. Ou seja, somos obrigados pela Razão a reconhecer a existência de factos onde nunca poderemos racionalmente penetrar. Há coisas que nos são inacessíveis porque temos que observá-las a partir de fora, do exterior dessas coisas em relação às quais podemos conhecer a verdade relativa, mas não a sua verdade absoluta.

A Razão diz-nos que a própria Razão tem limites. O mesmo critério aplica-se à ciência: a Razão diz-nos que a ciência tem limites.

Sábado, 18 Maio 2013

A quântica deve fazer parte do ensino da filosofia

Filed under: filosofia,Quântica,Ut Edita — O. Braga @ 8:33 pm
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Os princípios que orientam a dialéctica hegeliana e/ou marxista estão hoje destruídos pela verificação dos factos científicos.

A quântica deveria ser uma disciplina do curso superior de filosofia. Não a mecânica quântica propriamente dita (com o seu formalismo matemático), mas antes as consequências teóricas e filosóficas da mecânica quântica. Se a quântica fosse uma cadeira do curso superior de filosofia, haveria desde logo duas implicações directas na cultura intelectual: os paradigmas da ciência passariam a ser olhados muito mais criticamente, por um lado, e, por outro lado, a dialéctica hegeliana e marxista seriam totalmente destruídas através da infiltração dos novos intelectuais nos me®dia. Ora, é isto que não convém à actual classe política. À actual classe política convém o obscurantismo.

Os princípios que orientam a dialéctica hegeliana e/ou marxista estão hoje destruídos pela verificação dos factos científicos, mas a maioria das pessoas ainda não se deu conta disso. A filosofia não pode só olhar para o passado. Tem que olhar também para o presente, para aquilo que existe hoje. A filosofia não pode olhar só para o passado para fazer de conta que o presente não existe. A filosofia não pode continuar a validar a dialéctica hegeliana e marxista, mesmo que se saiba hoje que a ciência já as invalidou. A filosofia não se pode afastar da ciência.

Mesmo em Proudhon, a sua “dialéctica das sociedades” — oposto a Hegel na medida em que recusa o movimento da síntese — é aparente. Se eu olho para, ou analiso a sociedade que me rodeia, é-me impossível dissociar dela, fazer de conta de que eu estou numa posição exterior a ela. É essa também a dificuldade dos antropólogos e dos sociólogos que estudam a sociedade como um objecto em relação ao qual eles se colocam numa posição de sujeito, como se estivessem separados da sociedade que analisam. No conceito de “dialéctica das sociedades” de Proudhon, acontece um fenómeno semelhante: conceitos como os da “dialéctica das sociedades” são simplificadores, interpretam a aparência.

A lógica matemática, que está na base da física quântica, tem símbolos que se referem representações. A filosofia não tem que se preocupar com os símbolos matemáticos, mas com as representações desses símbolos com recurso a imagens perfeitamente compreensíveis por alguém minimamente preparado intelectualmente.

Com a quântica, alguns conceitos familiares — como por exemplo, o de dialéctica, de Hegel ou de Proudhon — abrem falência desde que tentemos transpô-los para fora do domínio limitado no qual têm uma utilidade prática. A dialéctica é um método aparente ( uma “bengala” ) de interpretação de uma parte da realidade, assim como o conceito abstracto mas inexistente de “espaço absoluto” foi um método (uma “bengala conceptual”) utilizado por Newton para conceber a sua mecânica.

A dialéctica, com síntese (Hegel e Karl Marx) ou sem síntese (Proudhon) é uma interpretação ingénua da realidade, porque num caso como noutro, pressupõe um determinismo na acção humana ou das sociedades. Um exemplo de um “escritor quântico”, por assim dizer, é José Luís Borges, que através da sua obra desenvolveu o paroxismo a tal ponto em que as estratégias de conhecimento desembocam num universo labiríntico em relação ao qual não se aplica qualquer sistema dialéctico, em que a acção flui sem que se oponham tese e antítese e sem que exista uma síntese, e na medida em que cada momento do tempo é totalmente independente de qualquer outro momento — como se o universo fosse recriado a cada segundo cósmico.

Da mesma forma que nós vemos de facto uma trajectória de uma seta disparada contra um alvo, quando na realidade essa trajectória não existe de facto mas é apenas a soma de todas as posições isoladas, e independentes umas das outras, da seta no decurso do movimento em direcção ao alvo — assim a dialéctica é a trajectória da História que nós “vemos”, ilusoriamente, mas que não existe na realidade enquanto tal.

O comentário professoral

Filed under: A vida custa,filosofia — O. Braga @ 2:44 pm

Normalmente, quando um qualquer leitor não concorda com os meus argumentos críticos em relação a Karl Marx, ou a Proudhon, ou a Nietzsche, ou a Heidegger, etc., escreve mais ou menos o seguinte nos comentários:

“Seu texto é interessante, inteligente. Entretanto comete equívocos graves em relação a Proudhon. Minha única dica é a seguinte: pesquise esse autor com mais atenção.”

A este tipo de comentário chamamos de professoral.

O comentário professoral é aquele que reconhece ao “aluno” o seu esforço, o seu progresso, mas não aponta erros de raciocínio e, em vez disso, aconselha mais estudo. “Meu caro, você esforça-se mas não chega: agarre-se aos livros”. E se se lhe perguntar: “mas onde está o meu erro de raciocínio?” A resposta surge veloz e escorreita: “Minha única dica é a seguinte: pesquise esse autor com mais atenção”.

Quando, numa discussão escrita, partimos de pressupostos que não são declarados expressamente (à partida) porque queremos esconder alguma coisa (por exemplo, queremos esconder a nossa incapacidade de argumentação), podemos incorrer na falácia Audiatur et altera pars. É o caso do comentário professoral.

Sexta-feira, 10 Maio 2013

A racionalidade da História e da Vida

José Pacheco Pereira faz aqui uma confusão entre racionalidade (da História) e racionalismo (da História).

“Eu não tenho a certeza que a história não seja fundamentalmente irracional, até por outras razões. Basta que se abandone qualquer transcendência (*), qualquer destino manifesto, qualquer variante hegeliana da História com H grande, seja marxista, seja cristã (como em Teilhard de Chardin) . Tira-se a teleologia e ficam os humanos com o ónus de fazerem a história, ficando os humanos, é o que se vê.”

Reconhecer uma racionalidade na História é equivalente (isto é uma analogia!, e não uma comparação) a reconhecer a presença de um designer na feitura da célula que é a base da vida. O que se passa é que o facto de se reconhecer a presença de um designer na criação da vida (na célula) não significa, para a ciência, que se tenha que identificar esse designer. Existe uma racionalidade de um designer na construção da célula, e ponto final — porque é impossível, para a ciência, determinar quem é esse designer.

Saber quem é o designer da vida não faz parte dos atributos da ciência, embora esta reconheça o facto insofismável segundo o qual é matematicamente impossível, por exemplo, que vinte blocos de aminoácidos se juntem, na natureza e de forma espontânea, para formar uma simples proteína — e pior ainda se tivermos em consideração a formação de um sistema irredutivelmente complexo, como é por exemplo, o cílio da célula eucariótica, ou o flagelo bacterial, ou o sistema de coagulação do sangue, ou o olho dos vertebrados, etc., etc..

Da mesma forma que a ciência actual e actualizada diz que a vida teve, na sua origem, a influência racional de um designer inteligente, mas não se imiscui na especulação racionalista que consista em identificar esse designer, podemos dizer também que a História tem uma base racional mas não devemos especular e/ou racionalizar sobre o fundamento dessa base racional — porque é impossível determinar as características dessa racionalidade histórica. E aquilo que o marxismo e outras doutrinas fizeram, em relação à História, foi racionalizar, e não raciocinar.

A base racional da História, por um lado, e a identificação do designer da célula, por outro lado, pertencem à teologia, e não à filosofia e/ou à ciência respectivamente. Enquanto não aprendermos a separar estas áreas e atribuindo a todas elas uma dignidade intrínseca própria, caímos nas religiões políticas que caracterizam a mentalidade actual: vemos hoje o cientismo que é a manipulação da ciência pelas ideologias políticas; vemos o Historicismo — que é uma forma de milenarismo — que consiste na redução de toda realidade à imanência mediante um racionalismo irracional; e vemos a teologia misturada com o presentismo paradigmático da ciência.

(*) À moda hegeliana, José Pacheco Pereira confunde transcendência com imanência. Para Hegel (influenciado pela Cabala e pelas ideias cabalísticas de Jaques Böhme e de Schelling), como para outros hegelianos como por exemplo, Karl Marx ou Heidegger, a imanência é sinónimo de transcendência que foi assim erradicada da mundividência moderna. A modernidade voltou aos gregos, fazendo de conta (irracionalmente, mas em nome do racionalismo) de que 1500 anos de história das ideias posteriores simplesmente não existiu.

Segunda-feira, 6 Maio 2013

A ética cibernética

A maior parte dos “eticistas” contemporâneos, ou não define o Bem, ou parte de uma concepção no mínimo dúbia e ambígua de Bem (parte de um conceito muito alargado de Bem, e não de uma definição propriamente dita). E depois lemos coisas deste tipo acerca das teorias de Kagan.

A noção de Bem é indissociável da noção de Felicidade, e Kant — na esteira de Santo Agostinho — já demonstrou que a felicidade é subjectiva, por um lado, e por outro lado, mesmo restrita ao nível do subjectivo, é inatingível. Portanto, a ideia segundo a qual “a melhor acção é aquela que propicia a maior felicidade ao maior número” (nota bem: esta ideia é originalmente de Hutcheson, e não de Bentham!) parte de duas axiomáticas (duas proposições antitéticas: uma normativa, e outra positiva) que são contraditórias entre si e que, mesmo assim, compõem a essência do consequencialismo (leia-se, utilitarismo). Ou seja, o consequencialismo é baseado em duas axiomáticas que se contraditam entre elas…

Esta contradição fundamental do consequencialismo condiciona tudo o que se queira dizer acerca dele. Por exemplo, Karl Marx dizia que o consequencialismo é “uma moral de merceeiro inglês”; e Kagan inventa a noção de “consequencialismo factorial” que nada mais é do que tentar dissimular essa contradição fundamental do consequencialismo. Ou seja, quando um princípio está errado, toda a teoria dele emanante está errada (Aristóteles).

Depois, teríamos que definir “melhores consequências”. O que são as “melhores consequências”? Voltamos ao problema da definição de Bem e de felicidade…

Os “eticistas” contemporâneos, como Kagan, fazem lembrar os darwinistas quando pretendem explicar a origem da vida: dizem eles que a origem da vida é uma coisa muito simples:

A –> B –> C –> D. E pronto! Está explicada a origem da vida!

Sendo que D era molécula de aminoácido mais abundante na natureza durante o tempo primitivo da “sopa pré-biótica”, e que a produção das outras moléculas (A, B e C) foram feitas “às arrecuas”, à medida em que D se foi tornando mais rara na natureza. E depois, a um determinado momento, os aminoácidos juntaram-se, como que por milagre, e formaram a primeira proteína.

Existe também neste gráfico darwinista uma sequência e, por isso, uma consequência. Mas eles não dizem que o significam realmente as letras do gráfico (na sua complexidade intrínseca), e o facto de não dizerem é propositado. De modo semelhante, os “eticistas” falam e Bem e de Felicidade como se fossem conceitos simples e assumidos universalmente de forma homogénea.

Domingo, 5 Maio 2013

‘A INVASÃO VERTICAL DOS BÁRBAROS’ – de Mário Ferreira dos Santos

Mário Ferreira dos Santos é mal conhecido em Portugal. Se perguntarem aos finalistas em filosofia se o conhecem, estou convencido de que quase cem porcento responderiam que não. Eu próprio tive que recorrer à Internet para procurar algum material dele, porque não existe nada de Mário Ferreira dos Santos publicado em Portugal.

“A conspiração do silêncio paira sobre os grandes homens que ergueram o pensamento humano a elevados níveis intelectuais. Os altos postos, infestados de medíocres, sempre mantiveram o cuidado de acobertar o vulto dos grandes, por defesa de sua própria mediocridade.

Valores como o de Dante, Camões, Cervantes e de inúmeros filósofos só puderam ser reconhecidos ante uma verdadeira avalanche de factos que, por não haver como contê-los, tornaram pública sua obra — muitas vezes, no fim das suas vidas, ou mesmo post mortem. Esta conspiração do silêncio, incapaz da humildade cristã, é uma obra bárbara que contaminou até mesmo muitos génios que não prestaram o devido reconhecimento e tributo a outros génios, seus contemporâneos.”

‘A INVASÃO VERTICAL DOS BÁRBAROS’ – de Mário Ferreira dos Santos (baixe aqui um resumo do livro, em PDF)

Quinta-feira, 2 Maio 2013

A recusa do símbolo, da exegese e da hermenêutica

Um judeu, como George Steiner, que viveu o horror do holocausto nazi, e que recusa a existência do Estado de Israel, só tem uma classificação: é um hipócrita. Portanto, é saudável, desde logo, lançar esse estigma objectivo sobre Steiner. Ele tem o direito de ser o que quiser; mas não tem o direito de nos dizer, ou de nos tentar convencer, que é aquilo que não é.

Depois classificado Steiner, vamos a este textículo (aqui, em PDF).

1/ em primeiro lugar, Steiner confunde ou mistura propositadamente o Novo Testamento com o Antigo Testamento.
Por exemplo, os documentos apócrifos e gnósticos descobertos recentemente no Egipto em língua copta antiga sobre a vida do Jesus Cristo histórico, contam uma história parecida com a história oficial dos quatro evangelhos cristãos adoptados oficialmente — ou seja, a essência dos evangelhos apócrifos e gnósticos da Antiguidade Tardia descobertos recentemente, por um lado, e por outro lado a essência dos evangelhos oficiais desde o concílio de Niceia, são idênticas. Ou, simplificando: “a história bate certa”, ou “bate a bota com a perdigota”.

2/ através do seu textículo, Steiner recusa objectivamente o símbolo, embora o Homem seja um homo simbolicus (Cassirer). Ao recusar o símbolo, Steiner nega a hermenêutica. Ao negar a hermenêutica, Steiner entra em contradição consigo mesmo, porque nenhum literato pode pretender que os seus próprios textos sejam levados à letra — há sempre uma exegese a fazer de qualquer texto, mesmo em relação a uma literatura chã e basista como é a de Steiner.

Na mente de Steiner, o símbolo é nada mais do que um sinal. Confunde ele sinal e símbolo — o que é característica do homem moderno desde que o Pragmatismo foi inventado nos Estados Unidos em finais do século XIX. Por isso é que ele diz que “a Bíblia é um material mundano”, porque ele não consegue ver nela senão sinais que, por o serem (na opinião dele), não se referem a nenhum representado e podem, por isso, ser mudados arbitrariamente (à vontade do freguês).

3/ O símbolo tem um conteúdo, em que é simbolizado o representado, enquanto que os sinais são escolhidos arbitrariamente. O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva que adquire uma experiência intersubjectiva e universal) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda, porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; em contraponto, um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

4/ uma coisa semelhante se passa com o escriba do Bloco de Esquerda que escreveu o comentário ao textículo de Steiner: ele só concebe a existência de sinais, que são por natureza imanentes e arbitrários (os sinais podem ser mudados sem que mudem as suas representações; por exemplo, um sinal de trânsito). O escriba pretende substituir a putativa arbitrariedade dos sinais (na opinião dele) da Bíblia pela arbitrariedade dos sinais de uma determinada religião política que é a dele. Para ele, a Bíblia traduz ou interpreta uma religião política equivalente a uma outra qualquer, porque, para ele, a Bíblia não contem senão sinais políticos, arbitrários e convencionados.

Sendo que é considerado que na Bíblia não existem símbolos (que devem ser objecto de uma exegese e de uma hermenêutica) mas apenas sinais, estes assumem apenas e só uma dimensão política. E, se não existem símbolos mas apenas sinais, toda a realidade e vida humanas são reduzidas à política, e a nada mais do que à política — o que é realmente assustador.

“When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa.” — Eric Voegelin

Quarta-feira, 1 Maio 2013

O darwinismo e a memória humana

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:01 am
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Embora invoque uma determinada teoria que pretende ser científica (o darwinismo, ou a síntese darwinista), e que só é teoria científica é porque é absolutamente refutável, este texto é menos científico do que filosófico:

“Quando falamos de cérebro temos de especificar se se trata de todo o cérebro ou apenas do córtex cerebral, pois há toda outra parte do cérebro, a parte mais antiga (sob o ponto de vista de desenvolvimento das espécies) que é a parte mais intimamente ligada com as emoções”.

Hoje, não é possível pretender afirmar uma verdade científica sem mentir.

1/ O texto, que pretende ser filosófico, fala-nos da importância da memória na aprendizagem, mas de uma forma que nos induz a ideia de que não existe epistemologia sobre o assunto em causa, para além dos últimos 50 anos. Porém, Aristóteles já falava na importância do “hábito” na educação dos infantes, e por toda a Idade Média e na Escolástica perpassou a ideia de habitus, desde S. Anselmo a S. Boaventura e a S. Tomás de Aquino (só para falar de alguns). Entre outras coisas, o habitus significava a educação pela repetição e memorização; por exemplo, na Idade Média era normal que os educandos lessem os textos em voz alta, para que assim memorizassem melhor e mais rapidamente.

Porém, com o advento do Positivismo, aconteceu na Europa um corte epistemológico radical, e todas essas práticas e teorias educativas milenares foram progressivamente atiradas para o baú do obscurantismo, porque se partiu do princípio idiota segundo o qual tudo que se relacionasse, directa ou indirectamente, com a metafísica, deveria ser erradicado da memória histórica e epistemológica – e como se o Positivismo não fosse, ele próprio, uma metafísica!. Com o pós-modernismo, tudo o que fosse anti-cultura passou a ser oficialmente adoptado.

2/ O trecho citado acima parte do princípio segundo o qual “a parte mais antiga” do cérebro humano é uma espécie de “precursor físico” que demonstra que o homem é uma espécie de macaco transformado por mutações aleatórias e por pequenos passos evolutivos, através da selecção natural darwinista. Naturalmente que se trata de uma estória, de uma narrativa que não explica como é que o cérebro do homem e do macaco têm um ancestral comum. A ciência é, assim, entregue à imaginação de uma plêiade de iluminados que transforma um simples postulado em um paradigma que molda toda a cultura intelectual e antropológica.

Seria como se alguém perguntasse a quem escreveu aquele texto (*):

“Como se faz uma aparelhagem de som estereofónica?” E a resposta viesse breve e sem hesitação:

“Fácil! Ligamos um conjunto de colunas a um amplificador, acrescentamos um leitor de CD’s, um receptor de rádio e um leitor de cassetes. E pronto!, temos a aparelhagem feita e explicada! Como se vê, só um burro criacionista como você não percebe isto! Veja lá se derrete o alcatrão que tem no cocoruto do seu cérebro, e faça um esforço para aprender alguma coisa!”

E pronto, o cientista darwinista explica assim como se faz uma aparelhagem estereofónica; e baseando-se na sua autoridade, toda a gente politicamente correcta e “inteligente” segue essa estória. Trata-se de uma religião que afirma que os outros – os cépticos do darwinismo – é que são os religiosos.

3/ Outro argumento implícito no texto – porque o darwinismo está sempre implícito em qualquer narrativa “científica” – é o de que a parte mais antiga do cérebro humano desenvolveu-se de outras espécies devido a uma certa constituição comum de ADN entre essas diversas espécies.

Mais uma vez está aqui patente a ideia de “precursor físico”: seria como se alguém dissesse, por analogia, que um computador portátil actual tivesse evoluído de um antepassado comum através de pequenos passos aleatórios e mediante a selecção natural.

Porém, dois manuais de instruções de dois computadores de modelos diferentes (ou, por analogia, a estrutura comum de dois tipos diferentes de ADN), produzidos pela mesma companhia, podem ter muitas palavras iguais, frases, e até parágrafos, sugerindo um antepassado comum – talvez o mesmo autor tenha redigido os dois manuais. Mas comparando as sequências de letras nos manuais de instruções, nunca nos revelará se um computador pode ser gradualmente engendrado a partir de uma máquina de escrever (*).

4/ o que parece ser certo é que um paradigma intrinsecamente falso – a evolução mediante pequenos passos, a partir de um ancestral comum segundo mutações aleatórias, e por selecção natural – se tornou numa verdade absoluta, e a tal ponto que essa mentira está implícita em qualquer afirmação de carácter científico. Hoje, não é possível pretender afirmar uma verdade científica sem mentir.

(*) citações de Michael Behe, “A Caixa Negra de Darwin”.

Sábado, 27 Abril 2013

Maimónidas e a evolução darwinista mediante mutações aleatórias

Filed under: Darwinismo,filosofia — O. Braga @ 11:42 am
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Maimónidas, que nasceu no século XII em Córdova (Espanha) e viveu e morreu no Egipto no início do século XIII, defendeu a ideia segundo a qual é impossível raciocinar sobre as condições em que se encontrava uma determinada coisa quando começava surgir, quando essa coisa está agora acabada.

Ou seja, segundo Maimónidas, não podemos recuar do estado em acto de uma coisa para o seu estado potencial; e por isso, todos os argumentos que se servem desta forma de agir são viciosos e não têm qualquer força demonstrativa (conforme Nicola Abbagnano, História da Filosofia, Volume III, §250, Editorial Presença, Lisboa, edição de 1969, página 234).

A inteligência do Homem moderno caiu tão baixo que até um homem do século XII, utilizando a lógica, o consegue rebater.

Sexta-feira, 26 Abril 2013

O orgulho de ser moderno (2)

“Se a liberdade se cumpre em cada acto concreto, porque é uma possibilidade em cada acto e só nele, solicita uma ideia, decorre de uma inteligência. E isto tem que ser percebido por nós, (re)aprendido e exercitado e equilibrado por nós, para a podermos proporcionar às novas gerações.” — Via Rerum Natura

O ser humano age porque é livre, mas não é livre porque age. A liberdade humana é anterior ao agir. Em contraponto, um animal irracional é livre porque age: por exemplo, um cão é livre — mas não tem livre-arbítrio — na medida em que tem a sua liberdade de acção; mas um cão não pensa propriamente (embora se possa dizer de um cão que tem uma espécie de inteligência), e por isso não age porque é livre.

Só existe totalitarismo ou tirania quando a maioria — o povo — é animalizado (irracionalizado). E está em curso um processo de animalização e de irracionalização dos povos dos países da União Europeia.

A principal diferença entre os dois tipos de liberdade (ou autonomia) é a de que o ser humano é capaz de representar o objecto do seu desejo na ausência desse objecto e, portanto, o arbítrio do ser humano é livre — enquanto que um animal irracional (por exemplo, um cão) não é capaz de o fazer. O ser humano tem livre-arbítrio porque, nele, a vontade é o desejo [ou a paixão] informada pelo intelecto (ou seja, informada pela razão). [S. Tomás de Aquino].

Portanto, concluímos que a liberdade de um cão não é do mesmo tipo do da liberdade do Homem. Mas para o homem contemporâneo, a liberdade no ser humano é semelhante à liberdade de um cão, na medida em que, para ele, o homem é livre porque age. O próprio marxismo (e toda a filosofia de acção) é o corolário desta concepção irracional e contraditória de liberdade que tem origem em Kant: o marxista típico é livre porque age na sociedade (e por isso é que o conceito de liberdade de Sartre, por exemplo e entre outros, é paradoxal e auto-contraditório).

A partir desta primeira conclusão, podemos passar ao problema da liberdade humana propriamente dita (ou da autonomia).

(mais…)

O orgulho de ser moderno

Filed under: cultura,Europa,filosofia — O. Braga @ 9:41 am
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Na Idade Média, nenhuma pessoa vulgar ou das elites sentia orgulho de pertencer à sua época. O passado histórico era então visto como um tempo que passou mas que não era objecto de recriminação, nem o seu tempo de orgulho. Era, naquela época, normal os intelectuais recorrerem às ideias da Antiga Grécia e da Antiguidade Clássica em geral, para sustentarem as suas mundividências e os seus sistemas de ideias. Na Idade Média, o passado não era diabolizado.

sao tomas de aquino 300 web

São Tomás de Aquino

Até ao século XIV, existia na Europa católica uma imensa tolerância ideológica, mesmo dentro da Igreja Católica. Por exemplo, no século XIII surgiu na Europa a Cabala (que significa “tradição”) da filosofia judaica europeia que era lida pelos mais eminentes teólogos católicos. Havia discussão de ideias, refutações e apoios, e condenações doutrinárias por parte da Igreja Católica, mas as condenações apenas tinham efeito dentro da estrutura dos ritos da Igreja Católica, porque, fora dela, as ideias cabalísticas continuavam a circular por entre a elite intelectual (clero).

Até ao século XIV (até ao aparecimento da Inquisição), cátaros ou albigenses, amauricianos, e valdenses eram seitas religiosas que, não sendo aceites pela Igreja Católica, não eram proibidas na Europa por qualquer lei!. O Judaísmo florescia na Europa, incluindo em Portugal até ao século XVI.

Com o Positivismo (que não pode ser separado das revoluções inglesa e francesa), as elites europeias começaram a passar para a cultura antropológica a ideia de “orgulho de viver na modernidade”. O homem moderno tem orgulho do seu tempo e critica o passado, o que contrastava com o homem medieval que encarava cada época da História com os seus defeitos e virtudes. Seria como se eu dissesse que “tenho orgulho de viver no meu tempo”, e que “o tempo do meu pai foi uma desgraça”. Para além de são ser necessariamente verdade, o argumento assenta no sofisma ad Novitatem.

O “orgulho de viver no meu tempo em detrimento do passado” é sinónimo de embrutecimento intelectual. Não é só sinal de barbárie: é brutalidade mesmo, porque se condenam ao limbo da História não só as origens epistemológicas desse “orgulho moderno”, mas também as coisas boas que o passado tem. Podemos, por isso, dizer que o homem moderno – principalmente nas elites políticas – não é um pagão, porque um pagão medieval ou antigo tinha uma cosmovisão; não é um bárbaro, porque os bárbaros que invadiram o império romano tiveram a coragem e a humildade de reconhecer a Razão. O homem moderno da elite política é um bruto que se aproxima da irracionalidade de um animal.

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