perspectivas

Sábado, 26 Julho 2014

O mito da “revolução coperniana” anti-religiosa e anti-católica

Filed under: filosofia — orlando braga @ 10:32 am
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Escreve-se aqui:

“Kant lamenta que a metafísica, apesar de toda sua antiguidade, não tenha tido o mesmo progresso que a matemática e as ciências da natureza.”

Ou seja, para Kant, a matemática e as ciências da natureza não fazem parte da metafísica — e por aqui se vê a indigência do pensamento de Kant!

Kant não conseguiu ver que os desenvolvimentos da matemática e das ciências da natureza são constitutivos do próprio desenvolvimento da metafísica — porque qualquer negação da metafísica é sempre uma forma de metafísica, por um lado, e por outro lado porque o critério segundo o qual “a significação é a verificação” não é, ela própria, verificável. A metafísica está subjacente à verificação científica!

A “razão” — no sentido de “racionalismo” kantiano, e não de “racionalidade” — não tem razão sobre a experiência; mas a observação ou a experiência também nem sempre têm, mesmo necessariamente, razão sobre a “razão”.

A racionalização (por exemplo, a kantiana) caracteriza-se por um excesso de lógica em relação ao empírico e pela recusa da complexidade do real. Para contornar a complexidade do real, Kant dividiu a realidade entre “fenómeno” e “númeno”, e atirou a metafísica para o campo da religião. A racionalização pretende que o real obedeça às estruturas simplificantes do espírito de cada época.

A ideia kantiana segundo a qual “o entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da natureza, mas impõe-lhe-as” (Crítica da Razão Pura), está na base da racionalização (e não de racionalidade) das actuais ideologias políticas que pretendem impôr ao real a “lógica de uma ideia” e a subjectividade de uma qualquer coerência lógica aparente e unívoca.

“As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecer para sempre conjecturas ou hipóteses”.

— Karl Popper

O conceito de “revolução coperniana”, segundo Kant e entendido no sentido antitético em relação à posição da Igreja Católica do tempo de Copérnico, é um mito.

Se partirmos da perspectiva moderna e actual, e segundo o conceito de paradigma de Thomas Kuhn, verificamos que a reacção do Papa Urbano VIII às teses de Galileu foi absolutamente correcta.

Mais: as teses de Copérnico receberam o imprimatur (foram autorizadas pelo Papa!) porque foram formuladas como hipóteses. Porém, Galileu não quis formular quaisquer hipóteses , mas afirmar verdades absolutas — e isto numa época em que a hipótese de Ptolomeu podia explicar melhor muitos fenómenos celestes.

A Igreja Católica, naquela época, defendeu a concepção científica mais moderna embora se tenha atido a concepções cosmológicas erradas.

O mesmo critério da Igreja Católica do tempo de Urbano VIII é utilizado pela actual ciência, por exemplo, quando defende dogmaticamente o darwinismo. Portanto, verificamos, hoje como no tempo de Copérnico, que sempre existiram e existirão paradigmas que não correspondem à realidade.

Segunda-feira, 21 Julho 2014

O Talmude e os monoteísmos

Filed under: filosofia — orlando braga @ 3:23 pm
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Ao contrário do que está escrito na Wikipédia tupiniquim, o Mishnah judaico não pertence ao Talmude: O Mishnah, o Midrash e o Talmude são escrituras judaicas distintas entre si.

Um dos “problemas” da Cabala (de origem judaica) é o de se ter afastado radicalmente das fontes das escrituras judaicas Mishnah, Midrash — e principalmente do Talmude: seja o segundo Talmude (alterado e acrescentado a partir do primeiro Talmude) que surgiu depois da destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C, seja um Talmude mais antigo que já existia escrito muitos séculos antes do tempo de Jesus Cristo. Vamos chamar a este Talmude mais antigo “primeiro Talmude”.

Na sua educação, e na sua condição de judeu que o era, Jesus Cristo aprendeu desse primeiro Talmude na sua educação enquanto criança.

¿Qual é a súmula ideológica do primeiro Talmude?

Acima foi referido que a Cabala se afastou radicalmente do primeiro Talmude; e por uma principal razão: a Cabala introduziu uma visão religiosa monista no Judaísmo.

No monismo (e também no henoteísmo), o princípio da Unidade (o Uno), é diametralmente diferente do conceito de Unidade do monoteísmo.

No monismo, as formas concretas do divino são plurais, mas o divino-geral — que lhe está subjacente — é Uno. Porém, este divino-geral monista não existe no monoteísmo (neste caso concreto, no Judaísmo). No monoteísmo só existe o divino concreto.

Ou, por outras palavras: o Javé concreto, a “pessoa única” de Javé, possui uma validade universal. Ou, talvez melhor ainda: os monismos chegam à Unidade através da relativização do particular; e os monoteísmos chegam à Unidade através da absolutização e universalização do particular.

Ora, o primeiro Talmude, que é uma escritura base do Judaísmo de depois do exílio, é o suporte ideológico e teórico do monoteísmo judaico. Por isso, de uma forma directa ou indirecta, tanto o Cristianismo como o Islamismo foram beber alguns dos seus fundamentos ao primeiro Talmude.

Conclusão: 1/ O Talmude é antítese da Cabala. O primeiro é a defesa do monoteísmo, ao passo que a Cabala introduz uma mundividência monista no Judaísmo. 2/ Tanto o Cristianismo como o Islamismo, sendo religiões monoteístas, têm alguma base ou fundamento no primeiro Talmude.

O absurdo da ideia da neurociência da “consciência como epifenómeno do cérebro”

 

Reza a história que num simpósio de investigadores da natureza realizado em Göttingen, Alemanha, em 1854, um fisiólogo presente, de seu nome Jacob Moleschott, declarou que, “tal como a urina é uma secreção dos rins, assim as nossas ideias são apenas secreções do cérebro”. Perante isto, o conhecido filósofo Hermann Lotze levantou-se, e disse que “ao ouvir tais ideias do distinto colega conferencista, quase acreditei que ele tinha razão…”

Hoje vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa uma resposta estúpida a uma pergunta estúpida, porque o pensamento e as crenças não coincidem.

O fluxo de sinais que aflui ao cérebro (cerca de 100 milhões de células sensoriais) não é portador de qualquer indicação de quaisquer propriedades (materiais) para além destas células — a não ser o facto de estas células terem sido estimuladas em determinados pontos da superfície do corpo.

Portanto, ainda é preciso acrescentar “algo” aos dados sensoriais (à sensação) na nossa cabeça para que esses dados possam dar origem a uma “realidade”.

Esse “algo” é o X de Kant ou a “alma” de Platão. Sem a autoconsciência de que a consciência se pensa, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência. O X de Kant e a “alma” de Platão são conceitos, e não são noções.

Não é possível definir o conteúdo do “ser”, porque qualquer conceito que se utilizasse para definir o “ser” seria imediatamente preenchido por algo que “é” — ou seja, o conceito já conteria aquilo que deveria ser ele a definir. Portanto, não pode existir qualquer definição de “ser” semelhante à definição de um objecto no mundo que se distinga de outros objectos.

Mas o facto de não ser possível definir o conteúdo do “ser”, isso não significa que o “ser” não exista. Estamos perante uma evidência — a existência do “ser” — que não necessita de qualquer experiência científica para ser verificada. O ser humano tem certezas sem provas; a ciência tem provas sem certezas. Ora, é esse tipo de evidências (as certezas sem provas) que a “ciência” actual pretende anular.

Se a consciência e a percepção se podem explicar pela constituição do cérebro — o que é defendido pela neurociência através daquilo que se chama “Teoria da Identidade” — então “o Eu não é nada mais senão uma hipótese do cérebro” (Susan Blackmore). O que a neurociência hoje defende é o abandono da ilusão de sermos alguém: “o Eu não é mais do que células nervosas que disparam” (Rudolfo Llinas, Patricia Churchland).

Paul Churchland afirma que é possível substituir a frase: “O senhor Pereira pensa que…”, pela frase: “No cérebro do senhor Pereira, disparam no momento T1 os neurónios N1 a N12 do núcleo Y, desta e daquela maneira”. Portanto, segundo a neurociência, o ser humano não pensa realmente de forma autónoma; ou seja, são os processos químicos e físicos dos neurónios que decidem o que eu faço, o que penso e o que sou; e minha vida psíquica e espiritual é secundária.

Karl Popper fez uma crítica demolidora à Teoria da Identidade, chamando à atenção para o facto de esta teoria não poder ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos. Se as minhas ideias são produtos ou efeitos da química que se processa na minha cabeça, então nem sequer é possível discutir a neurociência: a teoria da identidade não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que as provas da neurociência são também química pura: se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química apenas chegou a um resultado diferente. Karl Popper chamou a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.

Hoje vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa uma resposta estúpida a uma pergunta estúpida, porque o pensamento e as crenças não coincidem.

Sexta-feira, 18 Julho 2014

A imbecilidade da sociobiologia

Filed under: filosofia — orlando braga @ 9:16 pm
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“Imbecis com diplomas de neuro-ciências acreditam, seriamente, que podem explicar todas as percepções pela constituição do cérebro. Isso só prova que não sabem o que é uma ‘percepção’.

Se as percepções pudessem ser explicadas pela fisiologia cerebral, não precisaria haver objectos.”

→ Olavo de Carvalho (via FaceBook)



A “percepção” não é “experiência” (no sentido empírico), nem “sensação”.

Quando eu digo: “Percebo um automóvel”, esse “perceber” não é necessária- e exactamente uma “experiência”, ou seja, não me estou a referir necessariamente a este ou aquele automóvel, nem tão pouco me refiro necessariamente a um conjunto de automóveis que passam, em um determinado momento, em uma rua da cidade. Portanto, “perceber” não é um experiência in loco; mas a “percepção” também não é uma “sensação”.

Eu percebo um automóvel de uma forma tal que eu sou capaz de o reconhecer instantaneamente, como um objecto determinado e distinto. Mas, na “percepção”, a sensação é impregnada de sentimento (emoção) que mistura o objectivo e o subjectivo, o fisiológico e o psicológico, o real e a representação do objecto — neste caso, o automóvel.

Ademais, “perceber” é “antecipar” de uma forma racional, e por isso é que só o ser humano “percebe” — porque, como dizia S. Tomás de Aquino, o ser humano é único ser sobre a Terra que consegue conceber um objecto na sua ausência, através da representação desse objecto, e em relação ao qual as sensações corporais apenas lhe dão indícios fragmentários. Perceber é interpretar, e a interpretação é uma qualidade exclusivamente humana.

A “percepção” é uma relação cognitiva (uma relação de conhecimento) do sujeito em relação ao mundo (dos objectos). “Perceber” é fazer prova (em primeiro lugar, subjectiva, e depois intersubjectiva) da exterioridade; se “perceber” não fosse fazer prova (subjectiva e intersubjectiva) da exterioridade, o cérebro funcionaria sem necessidade do mundo dos objectos — o que seria um contra-senso.

O fluxo de sinais que aflui ao cérebro (cerca de 100 milhões de células sensoriais) não é portador de qualquer indicação de quaisquer propriedades para além destas células — a não ser o facto de estas células terem sido estimuladas em determinados pontos da superfície do corpo.

Portanto, ainda é preciso acrescentar “algo” aos dados sensoriais (à sensação) na nossa cabeça para que esses dados possam dar origem a uma “realidade”. Por isso é que os imbecis com diplomas de neuro-ciências que acreditam, seriamente, que podem explicar todas as percepções pela constituição do cérebro, são idiotas.

Sexta-feira, 11 Julho 2014

A mediocridade dá lucro

Filed under: educação,filosofia — orlando braga @ 10:35 am
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Em Portugal, basta que alguém tenha uma licenciatura em filosofia, possua um ego do tamanho do universo, e uma vontade cimentada por uma qualquer crença ideológica, para que esteja automaticamente apto a publicar um Manual de Filosofia para o Ensino Secundário que pode ser adoptado de uma forma praticamente acrítica.

Quinta-feira, 10 Julho 2014

A trapalhada argumentativa do Rolando Almeida

 

Vindo de um professor “encartado” de filosofia, este verbete consegue surpreender-me; e quanto mais leio textos de professores “encartados” de filosofia, mais valor dou ao senso-comum.

Quando se diz (no referido verbete), por exemplo, que existiu uma intencionalidade, da minha parte, em ganhar “share no Google” ao escrever este meu verbete, essa opinião é inqualificável senão à luz de um cinismo de um interlocutor que me pergunta:

“¿O que é que tu pretendes ganhar com a tua posição ideológica?”

— como se toda a opinião tivesse uma motivação utilitarista. Como escreveu o poeta Óscar Wilde, ele há gente que conhece o preço de tudo e desconhece o valor do que quer que seja.

Este blogue não precisa do Rolando Almeida para ter tido cerca 2.400.000 visitas em sete anos.


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Quarta-feira, 18 Junho 2014

Dinossauros, Deus e o Evangelho — David Marçal dixit

Filed under: A vida custa,filosofia — orlando braga @ 6:03 pm
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A Bíblia, no Génesis, diz que o universo foi criado em sete dias. O David Marçal critica aqui quem acredita que o mundo foi criado em sete dias (ou coisa do género). Vamos todos fazer um esforço de pedagogia em relação ao David Marçal porque ele andou na universidade e terá, por isso, capacidade para aprender alguma coisa.

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Sábado, 14 Junho 2014

A contradição da política da modernidade

Filed under: filosofia,Política,Portugal — orlando braga @ 7:43 am

 

Platão entendia a política como um saber teórico, através do qual seria possível a construção de uma política ideal; de um Estado conforme um ideal de justiça e de razão 1.

Para Maquiavel, essa noção platónica de política era uma utopia. Para ele, a política era uma arte prática e um conjunto de técnicas ou de manobras para a tomada e preservação do Poder.

Surge, desta diferença ideológica entre Platão e Maquiavel, o problema das relações entre moral e a política — porque, em ambos, o conceito cristão de Deus estava ausente da política.

Para Platão, a política poderia conseguir fins racionais e bons entendidos em si mesmos — justiça social, segurança individual, etc..

Para Maquiavel, pelo contrário, o Poder é arbitrário, a política é uma questão puramente técnica e não convém abordá-la “no que respeita à justiça e à moralidade” 2. A ideia de Maquiavel, segundo a qual a política é arbitrária, significa que a política não pode ser fundada em Direito. Por isso, todos os poderes políticos se fazem valer de uma qualquer legitimidade construída por quem conquista o Poder; e é à análise deste fundamento “legítimo” de quem se alcandorou ao Poder de qualquer forma, que se liga o direito político.

A modernidade, que concebe a autoridade política sem Deus, tem tentado conciliar Platão e Maquiavel de um forma sistemática e trágica — tentando conciliar os opostos sem que admita o Poder moderador da autoridade da transcendência de Deus em relação à sociedade política.

Porém, pelo menos na Europa actual, o problema da contradição política entre Platão e Maquiavel agudizou-se sobremaneira. Como podemos observar, por exemplo em França e em Portugal, a política começa por ser platónica (a construção de ideais e de utopias) para, depois, ter uma aplicação prática maquiavélica. O maquiavelismo político é colocado ao serviço de uma prévia construção platónica e utópica da realidade.

A ausência de Deus na sociedade e na política levou a modernidade ocidental a um beco sem saída.

Sem uma autoridade que transcenda e legitime a autoridade das elites, é a própria autoridade das elites que é colocada em causa, e com ela a legitimidade do Poder político. Resta à classe política ocidental utilizar Platão para a construção utópica dos programas políticos, e depois servir-se de Maquiavel para os aplicar de uma forma arbitrária, discricionária, e muitas vezes deitando mão a actos gratuitos.

Notas
1. “República”, de Platão
2. “O Príncipe”, capítulo VIII, de Maquiavel

Quarta-feira, 21 Maio 2014

O problema do livre-arbítrio

Filed under: ética,filosofia,Quântica — orlando braga @ 9:35 am
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A neurociência está equivocada quando pretende abordar sozinha o problema do livre-arbítrio (no ser humano, obviamente). É um absurdo abordar cientificamente o livre-arbítrio sem ter em conta, nomeadamente, a física quântica.

Vamos falar aqui sobre a Teoria da Consciência, do físico Eugene Wigner. Para já, há que observar este vídeo acerca do comportamento das partículas elementares vs. onda quântica: quando “observadas”, a onda quântica transforma-se em partícula.

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Domingo, 11 Maio 2014

Acerca do sincretismo da “Direita dos valores e da Esquerda do trabalho”

 

Os valores têm que ser fundados (e fundamentados) em alguma coisa de essencial (essência), e não apenas em factos históricos. Os factos históricos apenas corroboram simbolicamente a essência que os transcende e que, pelo menos até certo ponto, os condiciona.

Quando nós fundamos os nossos valores apenas em factos históricos, a nossa mundividência é imanente e, por isso, alvo fácil da corrupção por via da sucessão temporal do “espírito tempo” ou da moda: os nossos valores tornam-se facilmente susceptíveis de desqualificação e desvalorização através das mudanças culturais que são normais e naturais.

Se as mudanças culturais são normais e naturais, já os valores axiomáticos são intemporais.

Podem mudar os tempos, e com eles mudam-se vontades (como dizia o poeta), mas não pode mudar a essência dos valores. Os valores devem ser como os axiomas da lógica: não podem ser mudados (senão por gente psicótica: só gente desfasada da realidade “muda” os axiomas da lógica). No entanto, são esses mesmos axiomas da lógica, imutáveis, que estão por exemplo na base do desenvolvimento da matemática que nos permitiu viajar no espaço cósmico. Assim como os axiomas da lógica são os primeiros princípios da matemática e da própria ciência, assim os valores intemporais são os primeiros princípios da ética que necessariamente determina a política e todas as actividades humanas.

A ética e os valores estão a montante da política e da economia (estão “antes” da política e da economia), e não o contrário disto. Os valores da ética não podem ser uma consequência da práxis política nem dos interesses da economia, sob pena de não termos nenhum ponto de referência ontológico que nos permita escorar racionalmente a acção humana.

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Segunda-feira, 5 Maio 2014

Um pouco de pedagogia em torno de Heidegger

Filed under: filosofia — orlando braga @ 10:37 am
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Eu escrevi um verbete com o título “Introdução à Merdafísica de Heidegger”, e um leitor brasileiro fez o seguinte comentário que não publiquei, e explicarei (adiante) por quê. Convém dizer que os comentários dos portugueses são ainda piores, porque não existem: Portugal é hoje caracterizado, em geral, pela ausência de pensamento crítico. Ou melhor: o pensamento português é tão crítico que já ninguém pensa. Pelo menos, os brasileiros ainda pensam alguma coisa…

“Quem é Orlando Braga? Sim, esse é primeiro ponto. Argumento de autoridade. Seria a mesma coisa que um “José da Esquina”, enfim, começasse a desmerecer e a «refutar» um Einstein. Orlando Braga é ninguém. Essas linhas não tocam a superfície da filosofia heideggeriana. É muita falta de seriedade, e só pode vir dos descendentes dos mouros. Se quiser ser levado a sério, vá a todas as obras e pensamentos heideggerianos, começando do 1o volume ao último volume. Só que não precisa muito, duvido que entenda até fragmentos, como demonstrou acima. TODA A COMUNIDADE E TODA A HUMANIDADE COMEMORARIA A SUA SUPERAÇÃO À FILOSOFIA, E A FILOSOFIA HEIDEGGERIANA EM PARTICULAR!!!”

Ler o resto aqui, em ficheiro PDF.

Desde logo, no comentário há problemas de língua. Por exemplo, seria correcto escrever “superação da filosofia”, e não “superação à filosofia”. Os portugueses e brasileiros, antes de se arvorarem no direito de fazer críticas, deveriam saber escrever a língua.

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Sexta-feira, 2 Maio 2014

Epistemologia da religião

Filed under: filosofia — orlando braga @ 7:57 pm
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O Desidério Murcho fala aqui da diferença entre “epistemologia da religião”, por um lado, e da “metafísica da religião”, por outro  lado. Desde logo devemos saber o significa “epistemologia”, porque este termo tem hoje dois significados ligeiramente diferentes.
Na Europa continental — sobretudo em França —, “epistemologia” significa a análise do “espírito científico”: estudo dos métodos, das crises, da História das Ciências Modernas, ou o estudo de uma ciência em particular: por exemplo, epistemologia da matemática, epistemologia da História, etc..
No mundo anglo-saxónico, “epistemologia” mantém ainda um significado semelhante ao de “gnoseologia”, isto é, a análise ou estudo dos processos evolutivos gerais do conhecimento. Desidério Murcho escreve o seguinte:

“O tema central da epistemologia da religião é a adequação da crença em divindades.”

Devemos, dentro do possível, simplificar a nossa linguagem, por forma a evitarmos ambiguidades e/ou anfibolias. “Adequação” significa, neste caso, “correspondência racional”.

Desidério Murcho poderia ter escrito o seguinte: “o tema central da epistemologia da religião é a correspondência racional das crenças religiosas em relação às respectivas divindades”, o que significa que, neste sentido, a “epistemologia da religião” aborda, não o processo evolutivo geral das religiões ao longo do tempo (pré-história e história), mas antes dedica-se à análise lógica e racional da relação entre as diversas religiões (independentemente da sua posição no continuum temporal), por um lado, e as respectivas divindades ou divindade, por outro  lado.

Portanto, estamos em presença do conceito de “epistemologia” como estudo de um método segundo o qual a religião faz corresponder logicamente a sua filosofia, por um lado, com as suas divindades, por outro  lado. Ou seja, aplica-se aqui a noção francesa de “epistemologia”.  E por isso é que ele escreve:

“Do simples facto de existir uma divindade não se segue que seja epistemicamente adequado acreditar na sua existência, e do simples facto de ser epistemicamente adequado acreditar na existência de uma divindade não se segue que essa divindade existe.”

Quando o facto de se acreditar na existência (“existência” no sentido de “realidade”, e não necessariamente como “objecto”) de uma divindade depende de uma análise lógica (“epistemicamente adequado”), estamos então perante o conceito científico (francês) de “epistemologia”, por um lado, e por outro  lado, o facto de não ser epistemicamente (no sentido francês) adequado acreditar na existência de uma divindade, isso não significa que essa adequação não possa vir a surgir no futuro (em função de novas diferenciações culturais e mesmo com o contributo de descobertas da ciência), ou seja, que no futuro uma determinada inadequação lógica e racional entre uma determinada crença religiosa e as suas actuais divindades, não se possa transformar em uma adequação, e em função de novas diferenciações culturais, e de novos dados acerca da realidade que podem provir de novos fenómenos metafísicos ou mesmo da evolução da ciência.

Em suma, e em última análise, é a noção anglo-saxónica de “epistemologia” que se aplica ao estudo das religiões (o racionalismo e a lógica aplicáveis ao estudo das religiões estão sempre colocados entre parêntesis).

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