perspectivas

Sábado, 27 Outubro 2018

Thomas Nagel e a Teoria do Aspecto Dual

Filed under: filosofia,metafísica — O. Braga @ 7:05 pm

 

A professora Helena Serrão publica aqui uma citação do autor ateu americano Thomas Nagel, na qual este nos dá a ideia de ter uma “terceira via” para a dicotomia (falsa) entre o dualismo metafísico (não confundir com o dualismo ontológico), por um lado, e o chamado “fisicalismo” por outro lado.

A essa terceira via, Nagel chama de “Teoria do Aspecto Dual”. Mas esta teoria não é outra coisa senão uma forma de epifenomenalismo.


Thomas Nagel é um pensador americano que se diz simultaneamente ateu e contra o materialismo. E o problema é que ele não vê nenhuma contradição naquilo que ele diz que é.

Em 1974, ele escreveu um ensaio com o título “Como É Ser Um Morcego?”, em que Nagel pretende imaginar como seria ser um morcego, na perspectiva de um ser humano. Sabemos que os morcegos percepcionam o mundo, por exemplo, através de uma espécie de radar, em que os impulsos de ultra-sons são enviados a partir do cérebro do morcego e os respectivos ecos permitem-lhe distinguir os objectos do meio-ambiente.

Thomas Nagel chegou a uma conclusão: podemos imaginar como é a tentativa de ser um morcego, mas mais nada do que isto. Podemos conceber e imaginar a nossa experiência se nos comportássemos como morcegos, mas nunca saberíamos o que é ser de facto um morcego. Ou seja, somos obrigados pela Razão a reconhecer a existência de factos onde nunca poderemos racionalmente penetrar. Há coisas que nos são inacessíveis porque temos que observá-las a partir de fora, do exterior dessas coisas em relação às quais podemos conhecer a verdade relativa, mas não a sua verdade absoluta.

A Razão diz-nos que a própria Razão tem limites. O mesmo critério aplica-se à ciência: a Razão diz-nos que a ciência tem limites.


Voltando à “terceira via” de Thomas Nagel.

Ele pretende fazer a distinção entre um alegado “processo físico” (alegadamente mensurável ou observável pela ciência), por um lado e, por outro lado, a subjectividade da eventual acção do processo físico, a que ele chama de “aspecto mental do processo cerebral”.

Ora esta teoria nada mais é do que uma forma de epifenomenalismo, ou a ideia segundo a qual alguns ou todos os estados mentais são meros epifenómenos (efeitos secundários ou sub-produtos) do estado físico do mundo — o epifenomenalismo nega que a mente tenha qualquer influência no corpo ou em qualquer outra parte do mundo físico: enquanto que os estados mentais são causados por estados físicos, os estados mentais não têm influência nos estados físicos.

Para o epifenomenalismo, as ideias são apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.


Karl Popper demoliu o epifenomenalismo quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir o epifenomenalismo: esta teoria não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária ao epifenomenalismo, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente.

Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.


A física quântica veio alterar este paradigma científico, colocando em causa a concepção do universo como sistema fechado.

A “amplitude de probabilidade de função de onda” (ou "função de onda quântica", ou ainda, na terminologia mais recente, "vector de estado"), por exemplo, de uma partícula atómica, não constitui um campo material (ou não tem massa ou tem uma massa mínima), mas actua sobre a matéria ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares. Estamos a falar de um facto científico baseado na experimentação, e não apenas de uma teoria. Este facto científico abriu as possibilidades de estados finais diferentes resultantes de processos dinâmicos idênticos, e sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais (como, por exemplo, o abastecimento de energia).

Ou seja, segundo a ciência mais recente, o universo como sistema fechado e a primeira lei da termodinâmica estão colocados em causa. A primeira lei da termodinâmica pode ainda ser utilizada em ciência da mesma forma que o conceito de “absoluto” foi utilizado por Newton para elaborar a sua Dinâmica (o conceito de “absoluto”, em Newton, era uma espécie de muleta).

Resulta disto que a alma ou/e espírito não é um produto da evolução (evolução entendida no sentido naturalista e darwinista), e que o dualismo metafísico passa a fazer sentido mesmo à luz da ciência. Hoje já não faz sentido que um cientista seja necessariamente ateu, ou que defenda uma mundividência naturalista do ser humano.

Sábado, 6 Outubro 2018

A física e a metafísica pertencem à mesma realidade

Filed under: Ciência,David Hume,filosofia,Kant,metafísica — O. Braga @ 4:25 pm

Temos aqui um texto da professora de filosofia Helena Serrão: « ¿Será possível o conhecimento "a priori"? »


O referido texto explica o que significa o “a priori”, segundo Kant. Mas a concepção da diferença entre o “a priori” (o conceito de “relação de ideias”, de Hume), por um lado, e o “empírico” (o conceito de “questões de facto”, de Hume), por outro lado, é anterior a Kant e pertence a David Hume (a Helena Serrão não referiu este facto que é muito importante para a epistemologia).

O que é novo em Kant (em relação a David Hume) é o conceito de “interpretação da realidade” por parte do ser humano, conceito que é compatível com a filosofia quântica. Segundo Kant, as impressões dos sentidos (empirismo) fornecem a matéria bruta do conhecimento (empírico), mas o sujeito (humano) é pensante e responsável pela organização estrutural e relacional dessa matéria bruta.

“O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da Natureza, mas impõe-lhe-as” → Kant (Crítica da Razão Pura).

Com esta frase de Kant se resume o conceito de “a priori”, que tem como base o conceito de “interpretação da realidade”. Exactamente por isso é que Karl Popper tem razão quando diz que “a ciência é composta por conjecturas”, porque até as próprias leis da natureza verificadas empiricamente foram verificadas (estatisticamente) no passado, e não há (racionalmente e em bom rigor) uma certeza de elas sejam exactamente as mesmas no futuro.


O que eu não concordo, nem com a Helena Serrão, nem com Kant ou Hume, nem mesmo com Aristóteles, é com a diferenciação entre “física”, por um lado, e “metafísica”, por outro lado (seja o que for que estes dois termos signifiquem). É esta a razão por que escrevo este verbete.

Se existisse uma diferenciação real entre a física e a metafísica, a ciência não teria avançado ou progredido (o único “progresso” que existe de facto é na ciência) — porque muita coisa que pertencia à metafísica, em um determinado momento, passou pertencer a física noutro momento (como podemos constatar actualmente com a física quântica).

Por exemplo, o conceito científico de “não-localidade” ainda há pouco tempo pertencia à metafísica.

Aliás, Kant entra em contradição quando, por um lado, diferencia a física e a metafísica, e por outro lado introduz o “princípio da intencionalidade da Natureza” (Crítica da Razão Pura, 1790).

Kant insistiu que embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada (de uma determinada forma), devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se fosse organizada intencionalmente — o que é uma forma metafísica de conceber a Natureza.

Quinta-feira, 19 Julho 2018

A aversão à Metafísica por parte dos donos da filosofia

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:19 pm

 

Uma professora de filosofia faz uma crítica ao programa nacional para o ensino secundário:

« (…) a Lógica não é o instrumento essencial da Filosofia, a História é, tão fundamental como a Lógica, a Hermenêutica também a Fenomenologia ou a Filologia também. Este programa faz de conta que essas áreas de análise não existem, passa uma esponja e formata, isto é, faz o contrário do que deve ser uma abordagem ao pensamento filosófico. »

Eu penso que uma super-valorização da Lógica tem a ver com uma aversão a quaisquer eventuais “fumos de Metafísica”: a única metafísica permitida pelas elites é a metafísica positivista (a negação da Metafísica é sempre uma forma de metafísica).

Porém, posso discordar da professora dizendo que lógica informal é essencial (e urgente) no ensino da filosofia — mas o que não se deve fazer é reduzir a filosofia à Lógica.

Terça-feira, 3 Julho 2018

No Brasil, o ensino da filosofia é marcado pelo marxismo

Filed under: Brasil,filosofia,metafísica — O. Braga @ 8:42 am

 

“Os que repudiam toda a metafísica albergam em segredo o que há de mais tosco” (Nicolás Gómez Dávila)


Vejo esta pergunta:

Diferença entre a visão metafísica e a dialéctica, alguém me ajuda?

diferenca-metafisica-dialetica-web

 

A resposta veio a seguir:

dialetica-marxista

A ideia segundo a qual o pensamento “metafísico” seria estático e oposto ao pensamento “dialéctico”, é um conceito do marxismo. O ensino da filosofia no Brasil está minado pelo marxismo.

A ideia de que “a metafísica se opõe à dialéctica” é absurda, porque mistura alhos com bugalhos, coloca em oposição conceitos que não são nem oponíveis nem contraditórios; revela o grau zero do pensamento moderno. Seria semelhante se eu dissesse, por exemplo, que “o Aquecimento Global se opõe ao bolo de maçã da minha vizinha”.

A negação dialéctica não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.”
→ Nicolás Gómez Dávila


“Metafísica” vem do grego “tá metaphusiká”, que significa “os livros depois da física”, que foi o título dado por Andronico de Rodes, no século I antes de Cristo, a uma colecção da obra de Aristóteles.

“Metafísica” é sinónimo de “ontologia” ou de “filosofia dos primeiros princípios” — que inclui a cosmologia “racional” e a Teodiceia. É o discurso que se aplica ao “Ser Enquanto Ser” (Aristóteles) que tem como objecto o ser humano, o universo, o pensamento.

A metafísica pós-socrática (Platão, Aristóteles) não se separou da Física (era um monismo): foi a metafísica cristã que, insistindo na relação entre razão e fé, entre a ordem natural e a ordem sobrenatural (dualismo), deu à palavra “metafísica” o seu peso religioso.

Todos os idealistas alemães (principalmente Hegel), por um lado, e por outro lado a chamada “Esquerda hegeliana”, Karl Marx e seus sequazes (Engels, Lenine), foram hostis à palavra “metafísica” — ao contrário dos iluministas, como por exemplo Wolff ou Kant, que consideraram a metafísica como parte integrante e inevitável do modo de ser humano.

Segunda-feira, 7 Maio 2018

O bom-senso da humildade ou a humildade do bom-senso

Filed under: A vida custa,filosofia — O. Braga @ 6:05 pm

 

O Ludwig Krippahl confunde aqui “humildade” e “bom-senso”.

A humildade, entendida como “capacidade de reconhecer os próprios erros, defeitos ou limitações”, é sempre sinal de bom-senso.

A humildade combina a compreensão dos limites da nossa competência com a disposição para restringir o que fazemos ao que cabe nesses limites. O que, geralmente, é uma virtude. Se vir um acidente ligo para o 112 e aguardo que chegue alguém competente para assistir os sinistrados. Não vou inventar tratamentos. Não vou medicar os meus filhos, nem reparar o elevador nem substituir os travões do carro. É óbvia a virtude de reconhecer os limites da minha competência quando passar esses limites possa prejudicar alguém. Mas a humildade nem sempre é virtude”.

O bom-senso não tem qualquer relação com a filosofia, ou com o conhecimento (ou com a ciência), mas antes com a boa atitude revelada pela prudência (phronesis).

O bom-senso, pode ser definido como o juízo prudente e saudável baseado na simples percepção das situações e dos factos – juízo esse que concede à sociedade um nível básico de julgamentos e de conhecimentos que lhe permita viver de uma forma razoável e segura.

“Bom-senso” não é a mesma coisa que “senso-comum”. O senso-comum é um postulado, e não um facto. O único senso-comum necessário à filosofia prática é a razão elementar (ausência de loucura).


O conceito de “humildade” tem várias noções (diferentes significados, ou diferentes definições nominais).

Por exemplo, “humildade” pode ser “demonstração de respeito, de submissão”; mas não é esta a noção de “humildade com” que o Ludwig Krippahl inicia o texto.

A noção de “humildade” com que o Ludwig Krippahl inicia o texto é a de “capacidade de reconhecer as próprias limitações”. Partindo desta noção, o Ludwig Krippahl entrou em um “modo semântico”, e passou depois, logo adiante no mesmo texto, a entender a “humildade” como uma forma de “submissão”.

Ou seja, o Ludwig Krippahl constrói o texto com “sorites” — que é um sofisma que consiste em acumular proposições que podem ser verdadeiras, mas cuja conclusão é ilegítima por falta de ligação entre essas proposições.

Por exemplo: “Sou o homem mais belo do mundo. Com efeito, Paris é a cidade mais bela do mundo, o meu colégio é o mais belo de Paris, o meu quarto é o mais belo do colégio; sou o homem mais belo do meu quarto. Por isso, sou o homem mais belo do mundo” (Cyrano de Bergerac).

Por exemplo, quando o Ludwig Krippahl escreve:

“Num diálogo crítico, a humildade só atrapalha. Se eu encontrar um texto sobre astrologia, ou teologia, ou sobre o paradoxo filosófico da ressurreição, e me parecer que aquilo é treta, é verdade que estarei a formar uma opinião fora dos limites da minha competência. Mas se, por sair desses limites, eu formar uma opinião errada, o silêncio humilde só vai esconder o erro e proteger a minha vaidade. Continuarei com uma opinião errada. Por isso, quem se interessa pela verdade nunca deve limitar a expressão das suas opiniões àquilo em que é competente. Deve mostrar o que pensa sem batom, pinturas ou disfarces. Assim, se errar, pode depois corrigir”.

O que pode “atrapalhar” não é a humildade: é a falta de bom-senso — porque “humildade” não significa necessária- e somente “submissão” (racionalizada ou irracional). “Humildade” pode significar “reconhecimento dos seus próprios limites”, e neste caso a “humildade” é uma manifestação de bom-senso.

Quem se cala perante os erros dos outros ou é egoísta ou é estúpido. Ou então já desistiu de argumentar perante a deficiência cognitiva do interlocutor.

Em geral, essa pessoa não tem bom-senso; e não é humilde. Alguém que — colocado perante o erro objectivo e factual do outro — não se manifesta (de forma polida, como manda o bom-senso) perante o erro porque receia magoar o seu interlocutor, não é humilde (no sentido em que se inicia o texto): em vez disso, é estúpido ou egoísta (não está para se maçar).

Por exemplo: não ir contra a opinião errada do nosso patrão (por motivos egoístas, ou por mera estupidez) pode até fazer parte do senso-comum; mas não faz parte do bom-senso.
O bom-senso aconselha que digamos ao patrão a verdade dos factos, mesmo que estes o incomodem; e mesmo correndo o risco de que o patrão não tenha bom-senso, se sinta incomodado pelos factos e nos despeça (esse patrão não terá provavelmente uma vida empresarial muito longa).


Os gregos chamavam de “doxa” à opinião que não tem em conta a necessidade de explicação causal. Em contraponto, o “episteme” é um saber superior, universal (que se opõe à opinião particular, ou doxa) e teórico (que difere de aptidões práticas).

“Quem se interessa pela verdade”, mesmo que não seja competente na matéria que discute, deve ter o bom-senso de adoptar uma postura epistemológica (episteme) em vez de opinar não tendo em contra a necessidade de explicação causal (doxa). Nas discussões, o que conta verdadeiramente é a atitude de bom-senso (que, por exemplo, a Esquerda geralmente não tem) que parte do princípio de validade do nexo causal (e lógico) dos fenómenos.

Quinta-feira, 5 Abril 2018

Progresso

Filed under: ética,filosofia,metafísica — O. Braga @ 12:30 pm

 

“O optimismo inteligente nunca é fé no progresso, mas esperança num milagre.”Nicolás Gómez Dávila 


“Progresso” pode ser sinónimo de “desenvolvimento”; por exemplo, o desenvolvimento de uma doença: neste caso, “progresso” é sinónimo de “transformação de estados” ou “mudança de estados”.

Porém, a noção comummente aceite de “progresso” é a de um movimento de um estado alegadamente “inferior” para um outro estado entendido como “superior”. Obviamente que a aceitação desta noção é eminentemente cultural, porque basta uma geração de bárbaros para deitar qualquer “progresso” (social ou mesmo científico) pela pia abaixo.

Por exemplo, eu não considero que a legalização e a banalização cultural do aborto ou/e da eutanásia seja um sinal de “progresso”; em vez disso, penso que se trata de mais um contributo para o triunfo da barbárie na nossa sociedade. Uma geração de bárbaros (ou desequilibrados mentais) tomou conta da nossa política.

A única área da actividade humana em que podemos falar — sem quaisquer reservas — de “progresso” objectivo, é na ciência; em todas as outras áreas da actividade humana, o conceito de “progresso” deve ser abordado com muitas reservas. Mas mesmo na ciência, o progresso é estabelecido em função de determinados pontos de referência assinalados epistemologicamente a posteriori.

A ideia romântica e/ou positivista (Hegel, Comte) segundo a qual “o progresso é uma lei da Natureza”, é um completo absurdo, como nos parece evidente.

Há quem defenda a ideia segundo a qual, “atrelados ao progresso da ciência, vieram os progressos sociais”: por exemplo, baixou a mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida, baixou a mortalidade por doenças infecciosas, aumentou a disponibilidade de alimentos, etc.


“A estatística é a ferramenta de quem renuncia a compreender para poder manipular.”Nicolás Gómez Dávila 


Para um inveterado e fanático militante do partido nazi alemão, o Holocausto foi uma manifestação de “progresso”; para um utilitarista exacerbado actual (por exemplo, um militante do Bloco de Esquerda ou o Rui Rio), o aborto em massa e a eutanásia “à la carte” são formas de “progresso”.

Por outro lado, há hoje quem questione se a introdução do Cristianismo na cultura antropológica europeia tenha sido um progresso; muita gente pensa hoje que o Cristianismo foi uma forma de retrocesso civilizacional que deu origem a uma “Idade das Trevas” que, alegadamente, foi a Idade Média.

Portanto, há que ter muito cuidado quando falamos de “progresso” para além da epistemologia.

Por exemplo, há quem diga que o trabalho de operário fabril é menos exigente, do ponto de vista físico, do que o trabalho sol-a-sol do camponês medieval; mas esta avaliação é subjectiva; conheci pessoalmente camponeses que não trocavam a sua vida laboral no campo por um trabalho dentro de uma fábrica.

Porém, ao contrário do que acontecia na famigerada Idade Média, hoje — por exemplo — temos a pornografia infantil que decorre da tolerância elitista em relação à pedofilia, a bestialidade sexual consentida pela cultura das elites, vídeos públicos com decapitações do Estado Islâmico, o aborto em massa e a eutanásia entendidos absurdamente como “actos médicos”: o juramento de Hipócrates tornou-se obsoleto em uma cultura que transformou a “economia de mercado” em uma “sociedade de mercado”. E a longevidade, trazida pela ciência não é, em si mesma, um bem absoluto; de pouco vale um eunuco espiritual com 150 anos de idade.

A ideia de História Linear (a linearidade do tempo) surgiu com o Judaísmo da Era após o Êxodo para a Babilónia (com o surgimento dos profetas judeus que alegadamente conheciam o futuro radioso de “uma terra de riquezas e de abundância material, o paraíso na terra de Israel”); e, a partir do Judaísmo, o conceito de História Linear passou ao Cristianismo; e a ideia de “progresso” decorre logicamente do conceito de linearidade do tempo e da História — o que não acontece em muitas outras culturas, onde o tempo é cíclico. Aliás, misticismo cristão (como podemos ver por exemplo em Santo Agostinho) tem uma concepção cíclica do tempo e da História.

Sábado, 17 Março 2018

Os valores [morais] são objectivos e existem independentemente do ser humano

Filed under: ética,filosofia,metafísica — O. Braga @ 1:48 pm

 

O Domingos Faria escreve aqui um texto acerca dos “dilemas morais”, criando uma série de argumentação “lógica” que alegadamente nega a existência de tais dilemas. Porém, ao entrincheirar-se na lógica, o Domingos Faria escamoteou (esqueceu-se de mencionar) a noção de “valor”.

Um dos maiores filósofos do “valor” é Louis Lavelle, mas infelizmente não existem livros dele (traduzidos para o português) actualmente disponíveis nas livrarias. Um dos livros dele (senão o mais conhecido) é o “Traité des Valeurs” (se souberem ler em francês).

Se juntarmos Louis Lavelle ao realista Nicolai Hartmann, temos a resposta para as indagações do Domingos Faria acerca da existência (ou não) dos dilemas morais (ou seja, não necessitamos do formalismo lógico para demonstrações sobre a ética).

(more…)

Sábado, 4 Novembro 2017

O “Nada” não pode ser eterno

Filed under: Anselmo Borges,filosofia,metafísica — O. Braga @ 12:55 pm

 

O Anselmo Borges escreve:

“A curto, a médio, a longo prazo, todos iremos estando mortos. Com a morte, acaba tudo? É tão próprio do ser humano saber da sua morte como esperar para lá dela. Para a eternidade vamos: a eternidade do nada ou a eternidade da vida plena em Deus”.

Onde estarei, quando deixar de existir?


Como devem reparar, Anselmo Borges vai buscar as bases ideológicas do seu (dele) texto ao Existencialismo — desde o Existencialismo cristão russo do século XIX, passando pelo hegelianismo existencialista de Heidegger e, mais tarde, também o de Habermas. Por aquele texto podemos laborar num arquétipo mental do Anselmo Borges.

Ora, se existe doutrina (ou corrente de pensamento) que eu mais deteste, é o Existencialismo (seja o cristão russo ou o de Kierkegaard, seja o hegeliano, o que vai dar no mesmo) porque é eminentemente imanente — o Existencialismo é uma espécie de monismo. Todo o Existencialismo descamba, mais tarde ou cedo, em panteísmo.

É neste contexto de um hegelianismo existencialista que Anselmo Borges escreve: “a eternidade do nada” — como se o “nada” pudesse ser eterno. Poderíamos eventualmente dizer (sem bases racionais) que “o nada é intemporal”, mas nunca que “o nada é eterno”. Um “nada eterno” é uma contradição em termos, é um absurdo — excepto para Schelling, Hegel, e outros precursores ideológicos de Karl Marx, de Heidegger e de Habermas, e mesmo Sartre.

Toda a dialéctica hegeliana (que influenciou o Anselmo Borges) baseia-se na “existência” do “Nada”. Mas notemos o que o reaccionário Nicolás Gómez Dávila escreveu acerca da dialéctica hegeliana:

“A negação dialéctica (o Nada, ou Não-ser) não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica (hegeliana) é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.”

Sábado, 14 Outubro 2017

O método científico aplicado à acusação de José Sócrates

Filed under: Ciência,filosofia,josé sócrates,lógica — O. Braga @ 12:11 pm

 

Pergunta Sócrates: «Como é que provam que o dinheiro era meu?»

Resposta: Pensando.

Filosofia do crime


A ciência progride mediante a inferência.

A inferência é o acto que consiste em admitir como verdadeira uma proposição que não é directamente conhecida como tal, e por referência a outras proposições verdadeiras com as quais está ligada.

A inferência pode ser “racional” mas não enquanto “juízo lógico”: é “racional” no que diz respeito ao seu “conteúdo” — embora alguns lógicos admitam a existência formal (mediante juízo lógico) de inferências imediatas.

A inferência é dedutiva ou demonstrativa, quando a conclusão é logicamente necessária (como num silogismo, por exemplo). É indutiva ou não demonstrativa (indução) quando a conclusão não é mais que provável ou verosimilhante (por exemplo: “infiro a existência de um cão, se ouço ladrar”).

No caso da acusação de José Sócrates, as inferências são, em alguns casos, indutivas e por referência a outras proposições verdadeiras com as quais estão ligadas. Mas noutros casos são também inferências dedutivas porque as conclusões são logicamente necessárias.

Terça-feira, 25 Julho 2017

O absurdo da teologia do Frei Bento Domingues

 

Não é preciso ser teólogo para verificar o absurdo na “teologia” do Frei Bento Domingues.

“O Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, dirigiu uma Carta aos Bispos diocesanos — ou àqueles que, por direito, lhe são equiparados — para lhes recordar o dever de vigiarem a qualidade do pão e do vinho destinados à Eucaristia e à idoneidade daqueles que os fabricam. Um amigo, pouco versado na linguagem litúrgica, reagiu: querem ver que a ASAE já chegou à Missa!? Acrescentei: ou será que já andam para aí a celebrar com broa de milho?

Esta Carta […] liga a verdade e a eficácia sacramental da Eucaristia à pureza de um cereal — o trigo — e ao produto da videira, o vinho fermentado ou não.

Urge uma alteração de paradigma na teologia dos sacramentos e da liturgia.”

Frei Bento Domingues : ¿Jesus não gostava de broa?


Temos aqui uma descrição hipotética da última ceia de Jesus Cristo.

Sendo hipotética ou não, ou tendo sido de outra forma, existiu — para além do conteúdo — com certeza uma forma que tradicionalmente se opõe à matéria bruta. É o formal, que respeita à forma, por oposição ao material: a distinção lógica entre verdade formal e verdade material permite precisar dois tipos de critérios que devem satisfazer os enunciados ou raciocínios, para serem verdadeiros: conformidade “formal” às regras da lógica, e adequação ao conteúdo — e portanto, adequação do sentido — dos enunciados à realidade a qual se referem.

Ou seja, a crítica do Frei Bento Domingues à preocupação do cardeal Sarah com o formalismo eucarístico é simultaneamente uma crítica a qualquer conteúdo ideológico ou de sentido que a forma requerida implica. Mas os historiadores, ao fazerem a reconstituição do menu da última ceita de Jesus Cristo, revelaram (para além do conteúdo ideológico) o simbolismo da forma que contribuiu também para dar sentido ao acontecimento.

Ou, por outras palavras, o Frei Bento Domingues é estúpido — porque ele parece preocupar-se com o conteúdo [da Eucaristia], sem que demonstre uma equivalente preocupação com a forma. E conteúdo sem forma é o absurdo, não tem sentido nenhum.

Quarta-feira, 5 Julho 2017

O grau zero da ética

Filed under: ética,Desidério Murcho,filosofia,Peter Singer,Rolando Almeida — O. Braga @ 7:00 pm

 

Quando nós temos gente miserável, do ponto de vista ético, a dar aulas de filosofia aos nossos filhos ou netos, deparamo-nos com artigos destes ilustrados com imagens como esta aqui em baixo:

peter-singer-obesidade-custos

O problema ético da obesidade, segundo o Rolando Almeida (que segue o guru Peter Singer), são os “custos extras”.


Bobbi-Jo-Westley-webPodemos inferir do “raciocínio” do Peter Singer (que o Rolando Almeida venera) que “se a obesidade não tivesse custos extras” — por exemplo, se existisse a eutanásia compulsiva para os obesos — “não haveria qualquer problema ético com a obesidade”. E nada vale ao Rolando Almeida meter o Desidério Murcho na “cumbersa” — porque se o Desidério Murcho pensa da mesma maneira que o Rolando Almeida, é tão sabujo quanto ele.

Vemos, por exemplo, aqui ao lado a foto de uma mulher que pesa 250 kg e diz que se sente orgulhosa em ter as ancas mais largas do mundo com 2,41 metros.

Basta olharmos para ela para percebermos intuitivamente que o problema dela não são os “custos extras”; qualquer pessoa mentalmente saudável — que não seja o Rolando Almeida ou o Desidério Murcho — percebe intuitivamente que o problema dela é o da sua própria saúde, e que o valor da saúde dela está antes (vale mais do que) de qualquer custo material que possa existir em relação à sua condição existencial.

Por outras palavras: não existe qualquer consenso sobre quanto vale uma vida humana — mas o Peter Singer, o Rolando Almeida e o Desidério Murcho, entre outros, já fizeram as contas e já sabem quais são os “custos extras” de uma qualquer vida humana.

O problema acontece quando nos calha a nós próprios. O Peter Singer andou décadas a dizer que a vida dos doentes de Alzheimer não valia a pena ser vivida, mas quando a mãe dele contraiu a doença de Alzheimer, Peter Singer contratou as melhores enfermeiras para estarem com ela 24 horas por dia. E é este filho-de-puta incoerente que é adorado por “professores de filosofia” que escrevem livros, mas que têm um défice cognitivo evidente.

Reduzir os valores da ética aos “custos”, é de um cinismo inqualificável; ou é próprio de um mentecapto.


O verbete do Rolando Almeida em ficheiro PDF

Sexta-feira, 23 Junho 2017

A lógica é imanente, e Causa Primeira é transcendente

Filed under: Ciência,Domingos Faria,filosofia,lógica,metafísica — O. Braga @ 7:58 pm

 

O Domingos Faria invoca um burro com um alvará de inteligente que escreveu um livro, para citar um argumento que coloca em causa o princípio da razão suficiente de Leibniz (e não de Espinoza, como escreveu o Domingos Faria) que reza assim:

“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”


Há vários erros no raciocínio do burro letrado, mas talvez o principal seja o exarado no ponto 5:

“Se S é necessária, então P é necessária. [de PRS e necessidade da implicação]”

Acontece que se uma Causa Primeira é necessária, não se segue que um determinado efeito (dessa causa) seja necessário— desde logo porque a Causa não se confunde (como seria lógico) com um qualquer seu efeito.

A proposição supra só teria alguma legitimidade “lógica” se a Causa Primeira fosse imanente, ou seja, se ela pertencesse à mesma Realidade dos seus possíveis efeitos (possibilidade ou probabilidade) segundo o princípio da causalidade — mas então teríamos que explicar, por exemplo, por que razão as partículas elementares (que são efeitos de uma Causa, ou seja, existem por uma qualquer razão suficiente) aparecem e desaparecem do universo como que por magia, vindas do Nada e para o Nada.

¿De onde vêm, e para onde vão, essas partículas elementares que aparecem e desaparecem continuamente no universo?

Para qualquer pessoa “inteligente” é difícil aceitar que no centro da Física, que pretende ser a ciência dos fundamentos de todo o universo, as leis da nossa razão deveriam ser anuladas.

E isto porque, ao contrário do que defendeu Einstein, “Deus lança mesmo os dados” — no sentido em que os efeitos enquanto factos têm uma probabilidade objectiva (e não uma probabilidade subjectiva humana, devida à falta de conhecimento científico): a “casualidade” (os acontecimentos “por acaso”) e a “a-causalidade” (aquilo que parece não ter causa) não são expressão dos nossos conhecimentos limitados, mas sim são constitutivas da própria Realidade.

É neste sentido que se fala em probabilidade objectiva, por contraposição a uma probabilidade meramente subjectiva, baseada apenas numa falta de conhecimento das razões causais.

Ou seja, o princípio da causalidade (que é exclusivamente imanente) foi refutado pela própria ciência atómica.

Mas essa refutação não significa que, 1/ não exista uma Causa primeira que determina a existência de uma probabilidade objectiva que pode ser contingente na sua condição de causa segunda, e por isso, 2/ não significa que essa probabilidade objectiva, enquanto efeito, seja necessária. Aqui, David Hume tem razão.

Ademais, o raciocínio do lógico em causa é uma tautologia— a inferência pretende ser sempre verdadeira quaisquer que sejam os valores de verdade atribuídos a priori às proposições.

A lógica não se pode fechar em si mesma e fazer de conta que a ciência não existe. Quando isso acontece, aparecem lógicos burros que escrevem livros. Hoje, vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa estúpida uma resposta estúpida em relação a uma pergunta estúpida — porque o pensamento e as crenças não coincidem.

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