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Sexta-feira, 27 Julho 2018

O conceito de “sensibilidade natural” é uma treta ideológica

Filed under: A vida custa,animalismo,ética,Esta gente vota,Moral — O. Braga @ 5:19 pm

 

Publica-se aqui um texto do Marquês de Condorcet acerca da “misericórdia pelos animais” (Condorcet acreditava que o progresso é uma lei da Natureza, e inspirou Augusto Comte):

“Se uma criança está acostumada a ver os animais sofrer com indiferença ou mesmo prazer, o germe da sensibilidade natural, o primeiro princípio activo de toda a moralidade, é destruído e, mesmo no que diz respeito aos homens, é destruída neles toda virtude, sem a qual não são mais do que um cálculo de interesses, uma combinação fria da razão”.

Desde logo, ficamos sem saber o que é “sensibilidade natural”.

Na linha do romantismo de Rousseau, Condorcet acreditava que o bom selvagem ficava em paz com a natureza e com a humanidade, depois de comer um bom jantar. Porém, os descobrimentos do mundo demonstraram, por exemplo, que a “sensibilidade natural”, entre alguns povos arcaicos, se manifestava através de ritos religiosos de canibalismo (Mircea Eliade explica isto muito bem).

Afinal, a “sensibilidade natural” que o Condorcet via nas crianças do seu tempo não era tão “natural” quanto ele pensava — era, em vez disso, uma sensibilidade moral marcada pela cultura cristã. Mas ele acreditava que todas as crianças, do mundo inteiro, tinham uma sensibilidade semelhante (senão mesmo idêntica) à das crianças francesas — porque, alegadamente, essa sensibilidade seria “natural” (inerente à Natureza Humana e independentemente da cultura antropológica).

Portanto, Condorcet estava errado neste ponto. “Sensibilidade natural” não significa nada.

Por outro lado, Condorcet estava errado quando colocou, no mesmo plano de análise, os animais e os seres humanos:

“A misericórdia pelos animais tem o mesmo princípio da piedade dos homens”.

G. K. Chesterton escreveu o seguinte: “Onde houver culto e veneração dos animais, haverá sempre sacrifícios humanos”.

Basta estudar um pouco de História para saber que Chesterton diz a verdade: a relação entre o ser humano e os animais é muito complexa, e Condorcet simplificou o que é complexo em função de uma ideologia (aliás, Condorcet foi um dos “ideólogos” materialistas, que reduziram o ser humano a uma espécie de “matéria animada”).

Esta frase de Chesterton é hoje muito pertinente, quando se defende o aborto de um ser humano como um “direito humano”, ao mesmo tempo que os touros adquirem uma espécie de “direitos humanos”.

corridaDepois, “misericórdia” não é a mesma coisa que “piedade”, embora as duas palavras tenham origem no latim, e os dois conceitos actuais derivam claramente da cultura cristã.

O tal “princípio” ( que se refere Condorcet) seria o “mesmo” em uma sociedade atomizada (como é a actual), onde a coesão social fosse escassa, onde a solidariedade humana fosse parca. Ora, nós verificamos que nas sociedades rurais, onde os seres humanos vivem comunidade e onde a coesão e a solidariedade sociais são maiores, é exactamente onde existe, com maior proeminência, a tradição das touradas e da caça.

Ou seja, a quantidade de “misericórdia pelos animais” não é inversa- ou directamente proporcional ao volume da “piedade dos homens” em circulação na sociedade; não existe sequer um nexo causal evidente entre o grau de “misericórdia pelos animais”, por um lado, e a quantidade de “piedade dos homens” uns pelos outros, por outro lado — e tanto assim é que o revolucionário Condorcet foi vítima mortal dos seus próprios correligionários da Revolução Francesa. Parece que a “piedade dos homens” não se aplicou a ele e a milhares de outros homens: “A revolução francesa matou mais gente em apenas um mês e em nome do ateísmo, do que a Inquisição em nome de Deus durante toda a Idade Média e em toda a Europa” (Pierre Chaunu, historiador francês).

Não há nenhum “princípio” que coloque no mesmo plano as relações entre seres humanos, por um lado, e as relações entre seres humanos e os animais, por outro lado. Só podemos compreender este tipo de analogia se vindo de um romântico inveterado, ou de uma mulher.

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Sexta-feira, 20 Julho 2018

A verdade de uma proposição moral não é obtida por um processo de deliberação racional

Filed under: ética,Moral,religião — O. Braga @ 7:17 pm

 

O Henrique Raposo escreveu um texto com o título ¿Como criar uma criança decente?, que começa assim:

« É a bondade uma matéria que pode ser ensinada e aprendida? Ou é inata? É uma daquelas coisas que se tem ou não se tem como um talento? Ser bom é tão arbitrário como ter jeito para jogar à bola? Há pessoas naturalmente menos marcadas pelo pecado original? Ou seja, até que ponto a generosidade que as minhas filhas demonstram num determinado momento é fruto do meu esforço e educação? Até que ponto aquele momento terno ou aqueloutro rude são intrínsecos à sua natureza e, portanto, exteriores a qualquer acção formativa da minha parte? Na resposta à questão, o meu orgulho fala bastante alto. Quando uma delas é generosa com a irmã ou com um estranho, sinto a doce picada do ferrão do orgulho, Sou mesmo bom pai! O inverso também acontece. Quando uma é agressiva ou ingrata, sinto de imediato a frustração, Estou a falhar! Faz isto algum sentido?»

Antes de falarmos de “bondade” ou de “maldade”, convém falarmos em “sensibilidade moral”, que é coisa diferente. A “bondade” ou “maldade” são consequências da “sensibilidade moral”.

A sensibilidade moral, sendo inata, também pode ser desenvolvida através da educação. Fazendo uma analogia: um diamante em bruto não deixa de ter um certo valor; mas só depois de lapidado e polido, o diamante atinge o seu máximo valor.


Já me aconteceu ver alguém com um ataque epiléptico, a contorcer-se no passeio da rua, e toda a gente em volta a tentar acudir a pessoa em convulsão; porém, no meio daquela gente toda e da confusão que se gerou, um homem desatou às gargalhadas.

As gargalhadas daquela criatura revelam uma ausência de sensibilidade moral, que é inata. Por vezes, pouco adianta a educação, se essa sensibilidade moral não vem já “marcada” na alma da pessoa.

Não podemos afirmar que aquele homem percebeu a aflição do epiléptico e a urgência de se intervir em seu auxílio; mas também não podemos afirmar peremptoriamente (de forma objectiva) que o homem não queria ajudar o epiléptico: na realidade, ele apenas não viu a aflição e a urgência de auxílio; simplesmente não percebeu a situação como a perceberam todas as outras pessoas dotadas de sensibilidade moral adequada.


Nos casos em que a sensibilidade moral é deficiente ou insuficiente, a educação pode suprir, até certo ponto, essa insuficiência inata.

Este assunto é muitíssimo complexo — porque é impossível provar a um indivíduo qualquer que ele deve ser moral, porque a verdade de um proposição moral não é obtida por um processo de deliberação racional. Só assim se explica, por exemplo, “o orgulho de ser nazi” e “o orgulho nazi do holocausto”, ou a “natureza do mal” segundo Hannah Arendt.

E porque a verdade de um proposição moral não é obtida por um processo de deliberação racional, é que é importante uma cultura religiosa e metafísica.

O processo pelo qual um indivíduo (por exemplo, com uma deficiente sensibilidade moral) adquire a capacidade de perceber o que é virtuoso (o que é o “bem”), parece-se menos com uma transmissão de conhecimento de um guru ao seu discípulo (ensino), e mais com uma aprendizagem de uma “maneira boa de ver”: esta aprendizagem não consiste em “tomar decisões correctas” de uma forma avulsa, mas sim consiste em assumir um estado existencial (o surgimento de uma metanóia no indivíduo) mediante o qual o indivíduo passe a ser capaz de “bem deliberar”. Essa metanóia tem sempre um cariz religioso.

Domingo, 15 Julho 2018

Continua a Intifada do Anselmo Borges contra o Inferno

Filed under: Anselmo Borges,ética,Igreja Católica,Moral,papa Chico,papa-açorda — O. Braga @ 12:28 pm

 

Escreveu o Anselmo Borges:

« Lídia Jorge foi educada no catolicismo. Mas aos 16 anos afastou-se da Igreja, pois "vivia com revolta com o pensamento dogmático" e por causa da ideia de inferno, "dizia que não era possível que existisse uma instância tão injusta que condene para a eternidade pessoas que apenas vivem 50, 60, 70 anos". Aqui, lembrei-me de Óscar Lopes que também me disse que abandonou a Igreja por causa do inferno. E a argumentação de Lídia Jorge é forte. »


Convém que se diga ao Anselmo Borges o que o Chesterton escreveu: “Em boa verdade, só há dois tipos de pessoas: aquelas que aceitam dogmas e sabem disso, e aquelas que aceitam dogmas mas que não têm consciência disso”.

papa-freak-webMuita gente, como por exemplo, o Anselmo Borges ou a Lídia Jorge, aceitam dogmas e não têm consciência disso; e depois rebelam-se contra os dogmas dos outros. A partir do momento que uma mera verdade evidente passe a ser muito disputada, passa a ser dogma. Tão simples quanto isto.

Para ilustrar a sua aversão ao Inferno, o Anselmo Borges invoca David Hume. Não poderia ter feito pior escolha. David Hume foi alguém que duvidou da sua própria sombra, ou seja, dogmatizou a sua própria dúvida. O Anselmo Borges anda em “boas” companhias.

A Intifada dos Chiquistas (os sequazes do papa Chico) contra o Inferno tem como base um problema ético e moral: ¿como lidar com o problema do Mal?

A estratégia dos chiquistas é o de tentar desvalorizar o negativo tanto quanto possível, esbatendo assim o seu contraste com o positivo. É esta a estratégia chiquista, que consiste em obnubilar os valores da moral cristã, esbatendo a diferença entre o mal e o bem segundo a ortodoxia católica.

Dizem eles que é uma estratégia “inclusiva”: em nome da “inclusividade”, os chiquistas terraplanam a ética, em uma política de terra queimada.

Nesta “inclusividade” ética dos chiquistas, cabe tudo o que seja legal: se um dia, por absurdo (mas já acredito que tudo seja possível!), o assassínio passasse a ser legal, o Anselmo Borges viria a terreiro dizer que não seria “justo que a Igreja Católica condenasse os homicidas à pena do Inferno”. A ética do papa Chico e dos sequazes baseia-se na lei dos homens de cada época. E à medida em que as elites vão legalizando o que de mais hediondo existe, o Inferno do Chico vai-se tornando mais exíguo.

O papa Chico é diabólico. Esta é uma verdade que se pode transformar em dogma. Basta que a disputem.

inclusividade do papa chico web

Quarta-feira, 16 Maio 2018

A lei esquerdista da eutanásia tem pouco a ver com a liberdade individual (que é instrumental)

Filed under: ética,Esquerda,esquerdalho,eutanásia,Moral — O. Braga @ 3:46 pm

 

Para Raymond Aron, a única liberdade fundamental é a “de não ser impedido de” (fazer alguma coisa); trata-se da liberdade negativa.

As outras liberdades são de facto “direitos-capacidades” ou “direitos-crenças” (o direito a um emprego, ou o direito ao ensino oficial do Estado, por exemplo) que podemos ou devemos exigir, mas que devemos esperar que o Estado nos dê (“Ensaio Sobre a Liberdade”).

O facto de alguém não querer ser impedido de exigir que alguém o mate (eutanásia), pode colidir com a vontade de um médico que não quer matar ninguém e que apenas o faria para poder manter o seu meio de subsistência (o seu emprego). Portanto, a liberdade negativa, se apenas entendida em si mesma, não pode justificar todos os desejos, e tão pouco justifica a legalização da eutanásia.

Quando a Esquerda pretende legalizar a eutanásia, não pretende dar mais liberdade ao indivíduo: pelo contrário!, a Esquerda pretende dar mais poder ao Estado — o que significa que a liberdade individual sairá (paradoxalmente) de facto diminuída de todo este processo. Por exemplo, quando os profissionais de saúde são obrigados a matar para cumprir o desejo de uma putativa liberdade negativa de um doente, quem sai vencedor, aqui, é o Estado que obriga (coerção social).

A liberdade negativa do doente que exige a eutanásia é apenas um instrumento de reforço do poder do Estado através da lei.

Para a Esquerda, a liberdade consiste no Poder de legislar, ou seja, no Poder de controlar o Estado.

Esta é a “liberdade” segundo a Esquerda. E este desejo esquerdista de controlo do Estado é mais forte do que todas as liberdades juntas de todos os outros indivíduos que compõem a sociedade. Para a Esquerda, o controlo e reforço do Poder do Estado é uma questão de vida ou de morte: o que está em causa é a própria identidade da Esquerda que apenas se revê no reforço sistemático do Poder do Estado. E o corolário desse processo político de constante reforço do Poder do Estado é a realização do Estado Totalitário.


eutanasia-velhariasO Adolfo Mesquita Nunes escreve aqui um artigo que, de certo modo, corrobora a ideia segundo a qual a legalização da eutanásia em Portugal não tem nada a ver com o libertarismo (ou “liberalismo”), mas antes tem a ver com o reforço — quase discricionário, no futuro que se prevê — do poder do Estado.

Quando se escreve que “mesmo os mais fervorosos adeptos públicos da eutanásia consideram que ela tem de ser limitada”, do que se trata (com essa “fervorosa” Esquerda) é a defesa da reserva do direito progressivo do Estado à definição das condições de vida e/ou de morte.

(Era agora o que faltava que cada um tivesse total liberdade para se suicidar com assistência médica! Se assim acontecesse, o Estado ficaria mais fraco, como é evidente. O político moderno restringe o acesso ao suicídio muito menos por razões morais ou religiosas, como acontecia na Idade Média, e muito mais por “razões de Estado”).

Segundo Durkheim (“Regras do Método Sociológico”), o critério primordial de definição de “facto social” é a coerção que é sinal de uma força transcendente relativamente aos indivíduos, que se lhes impõe e determina as suas maneiras de ser. Quanto mais uma determinada prática se mostra regular, mais razoável será supôr que a coerção social donde procede (essa prática) é forte (a do Estado, neste caso).

“É a constituição moral da sociedade que fixa, em cada momento, o contingente dos mortos voluntários” (Durkheim, “O Suicídio”); ou seja, aquilo que é considerado patológico (o suicídio) do ponto de vista individual, deixa de o ser logo que adopta o ponto de vista de grupo (colectivo).

Os gurus da Esquerda conhecem bem a visão de Durkheim: mas viraram-na de pernas para o ar: por exemplo, sabendo que (segundo Durkheim) a “solidariedade social” é um fenómeno inteiramente moral, que não se presta à observação exacta nem à medição — a Esquerda transforma o Estado no Ente que define a moral que, por sua vez delimita o conceito de “solidariedade social” através das leis que ela própria promulga.

Assim, o conceito de “solidariedade social” (a ser constantemente redefinido pela Esquerda, ao sabor do reforço crescente do poder de coerção social exercida pelo Estado) pode ser algo completamente diferente do que é hoje, e em um futuro muito próximo — uma vez que é o próprio Estado (controlado pelas luminárias da Esquerda) que define a moral (através do Direito Positivo) por que se pauta o conceito de “solidariedade social”. E o actual e radical divórcio entre o Direito Positivo, por um lado, e o Direito Natural, por outro lado, apenas reforça o poder discricionário da elite de gnósticos esquerdistas que controla o Estado.

“Um acto é criminoso quando ofende estados fortes e definidos da consciência colectiva (Durkheim). Ou seja, se o colectivo for anestesiado e deixar de considerar o suicídio como um crime, ou mesmo como um defeito moral — caberá então ao Estado definir os “critérios da liberdade do indivíduo” de se suicidar, e em função de interesses de conjuntura definidos pela elite gnóstica esquerdista.

Segunda-feira, 8 Janeiro 2018

A Rute à procura de Agulhas no palheiro

Filed under: ética,Moral,parafilias,Pedofilia — O. Braga @ 7:15 pm

 

Uma gaja que dá pelo nome de Rute Agulhas escreveu isto (via) — ver ficheiro PDF — acerca da hebefilia. Diz ela que um abusador sexual “pode aprender a mudar” “se for devidamente ajudado”. Mas não diz como se ajuda um abusador sexual a deixar de o ser. Diz ela que “a prisão não resolve. Pune e adia comportamentos, mas não os elimina”.

Há, no texto da gaja, um cheirinho a Foucault. E, portanto, um forte odor a marxismo cultural.

(more…)

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