perspectivas

Segunda-feira, 12 Junho 2017

¿O que é a “felicidade”?

Filed under: ética,Kant,metafísica,Santo Agostinho — O. Braga @ 8:32 pm

 

“Penso que o ser humano é um eterno insatisfeito. Isto porque é habitual ele ambicionar tudo o que possa dar-lhe algum prazer na vida; só que depois de ter conseguindo adquirir o que no seu querer estava traçado, decorrido algum tempo inventa ou cria uma nova necessidade que o vai levar a um novo objectivo, que no fim também o não irá satisfazer cabalmente; então, prosseguirá nesta condição sedenta até que a senilidade, a loucura ou a morte, lhe batam à porta”.

UMA BOA QUESTÃO…


Se perguntarmos a uma pessoa (qualquer que seja) ¿o que é a felicidade?, ela não saberá dizer o que é. A felicidade não tem uma definição: nem colectiva, nem individual (assim como não podemos definir “realidade”).

O “direito à felicidade”, como justificação para as engenharias sociais (que o papa Chico aprova) que têm a ilusória pretensão de alterar a natureza humana, é uma das maiores fraudes éticas, ideológicas e políticas da modernidade.

Toda a ética que inclui na sua teoria o “direito à felicidade” (seja a felicidade individual, seja colectiva), é uma ética falsa e absurda. E toda lei positiva que preveja o “direito à felicidade” como seu fundamento, é um contra-senso que tem a sua origem em um sistema ético absurdo.

Santo Agostinho observou (e bem!) que todos os homens desejam ser felizes, e a felicidade define-se (no sentido comum) pela obtenção do maior prazer. Porém, a diversidade de objectos que os homens têm em vista no sentido de atingirem a mais elevada satisfação, revela bem que este desejo existe sem que o seu verdadeiro objecto, útil, utilitarista e prático [de felicidade], lhe seja claramente dado: “Todos querem ser felizes, mas nem todos procuram viver do único modo que permite viver feliz” através do amor a Deus: “quem sabe amar-se, ama a Deus”.

Kant pegou nesta ideia de Santo Agostinho e desenvolveu-a com requinte.

1. O desejo humano em relação aos objectos do mundo (o tal “direito à felicidade” que implica uma conduta interessada) não é compatível com a ética e com a moral, a não ser por puro acidente — se for uma motivação sensível (o desejo) a comandar o estabelecimento de uma norma (lei positiva ou regra moral), então qualquer mudança no objecto de desejo e de satisfação implica ipso facto uma reviravolta da conduta.

2. O “direito à felicidade” não se pode traduzir em uma lei prática ou regra moral. A ideia que cada ser humano tem de “felicidade” é uma ideia absoluta — que satisfaz em sumo grau o máximo de inclinações no decurso de uma duração indeterminada.

Porém, o que acontece na realidade concreta, é que a experiência humana da satisfação das inclinações individuais, é fragmentária, contingente e parcial. Logo, existe uma contradição entre a exigência de felicidade, por um lado, e a experiência humana concreta relativamente ao conhecimento dos elementos que a produzem, por outro lado.

Ou seja: para que o homem pudesse ser feliz, teria que ter ao seu dispor exactamente o oposto do conhecimento empírico e contingente dos meios para satisfazer a exigência de felicidade: o ser humano teria, neste caso, que ser Deus — o que é uma impossibilidade objectiva.

Os homens querem ser felizes, mas não sabem exactamente o que querem para ser felizes — Kant corrobora Santo Agostinho —, exigência que apenas a religião, mesmo nos limites da razão, pode satisfazer.

Uma vez que a ética deve ser universal (a ética é para todos), e que o Direito não deve reduzir a norma ao facto, o “direito subjectivo à felicidade” de cada ser humano não pode fundamentar uma regra ética (ou parte dela) nem uma lei positiva.

O “direito subjectivo à felicidade” é um ideal de imaginação (de cada indivíduo), e não um ideal da razão.

O “direito à felicidade da sociedade” é uma ficção. Uma regra moral é apenas objectivamente válida na ordem prática, da mesma forma que uma lei positiva é válida na ordem teórica — na medida em que uma regra moral se impõe sem condições contingentes e subjectivas (ou seja, uma regra moral, sendo universal, não pode depender da experiência isolada, das ficções e dos ideias de imaginação dos indivíduos).


O que está a acontecer na sociedade europeia (e não só) é uma tentativa de destruição do Estado de Direito através da pulverização das normas legais, reduzindo-as aos factos. E é sobretudo uma tentativa de destruição da ética através de uma atomização da sociedade, traduzida na recusa da universalidade da ética sob pretexto de que “cada indivíduo tem o direito” de ver o seu “direito à felicidade” traduzido nas regras morais, transformando a ética exactamente no seu contrário. E quem está por detrás desta tentativa da destruição do direito e da ética, são os promotores dos novos totalitarismos que se anunciam.


“No entanto, a insatisfação do ser humano é a força motriz que o impulsiona para os complicados meandros da ciência, com vista a reduzir o seu esforço físico e intelectual e encarrilar pelo itinerário materialista com vista à supremacia; no fundo, a sua verdadeira paixão.

A insatisfação obriga à invenção, seja do que for. Esse descontentamento é, indubitavelmente, a alma da criatividade e do talento que constituem o cadinho de onde é derramado todo o progresso até hoje conhecido.”

ibidem

É um erro pensar que por detrás das descobertas da ciência está “o desejo de felicidade”.

Quem estudou alguma coisa da filosofia da ciência (epistemologia) sabe que o avanço da ciência se deve à imaginação como faculdade do espírito (e que é independente do “desejo de felicidade”) — a imaginação não é simples imitação do real por imagens: consiste em produzir representações e, por isso, pressupõe uma actividade do espírito. Esta actividade não consiste apenas no facto de se representar objectos ou seres ausentes: consiste também na possibilidade de combinar as ideias ou de antecipar acontecimentos, e mesmo na faculdade de nos fazermos representar no que não existe (ou ainda não existe), ou seja, na imaginação criadora.

Podemos dizer, contudo, que a imaginação não cria verdadeiramente, mas antes que ela inventa combinações novas com elementos dados. No entanto, é necessário que as combinações sejam completamente livres. A imaginação criadora manifesta a liberdade do espírito que se confunde com a faculdade humana que “ir para lá” do dado, de pensar o ausente, o passado, o futuro e o possível — independentemente do desejo de felicidade.

O Anselmo Borges tem a mente cristalizada no sistema triclínico-positivista

 

"Pensa-se , de facto, de modo geral, que as religiões caem do céu, havendo até quem julgue que Deus revelou directamente verdades , nas quais é preciso acreditar sem razões…

A fé, no seu nível próprio, tem razões, de tal modo que está sujeita a verificações.

Há Teologia, precisamente porque a fé exige debate público."

Anselmo Borges

( "Francisco – Desafios à Igreja e ao Mundo ")

Não sei se esta citação é do Anselmo Borges ou se é do Chico. Parece ser do Anselmo Borges acerca do Chico. Seja como for, esta citação vem de uma mente relativamente estúpida, na medida em que se pretende “intelectualizada”.


É claro, para mim, que “Deus revelou directamente verdades”, para quem as consegue vislumbrar.

Por exemplo, o teorema de Pitágoras (h^2=a^2 + b^2) é verdadeiro se aplicado a um triângulo recto; podemos dizer que o teorema de Pitágoras é uma “verdade revelada directamente por Deus”. Ou os números primos, por exemplo: quem os descobriu não os inventou, porque os números primos são axiomáticos e são revelados directamente por Deus aos homens com um QI superior ao do Chico.

Ou: “Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.” (Leibniz).

O resultado do teorema de Pitágoras é um facto provido de uma razão suficiente, razão essa que é axiomática, e que por isso acreditamos nela sem razões que a fundamentem do ponto de vista da causalidade científica. E aquilo que é axiomático não pode ser debatido publicamente: não cabe na cabeça de um qualquer careca (nem na do Anselmo Borges) que se discuta publicamente se o teorema de Pitágoras é verdadeiro ou falso.


Portanto, a ideia do Anselmo Borges — ou do Chico — segundo a qual “Deus não nos revelou directamente verdades”, só pode vir de um mentecapto, de alguém que tem uma mente cristalizada no sistema ortorrômbico, ou no sistema triclínico-positivista.

Nós partimos da fé para a razão (como diz o S. Anselmo de Aosta), e não da razão para a fé (como diz o Anselmo “Bosta” Borges ). O que é fundamentado racionalmente (as tais “verificações” de que fala o Anselmo “Bosta” Borges) são os valores da ética, e não a fé. A fé é confiança em Deus, e esta não depende de qualquer fundamentação racional; e por isso não depende de qualquer debate público.

O Anselmo Borges faz uma confusão diabólica entre “valores da ética”, por um lado, e “fé”, por outro lado.

Por exemplo, o que eu critico no Islamismo é a ética muçulmana (baseada na Sharia) que é demoníaca — e não a fé do muçulmano. Há que distinguir entre a fé do muçulmano e os valores da ética exarados na Sharia.

O que está sujeito a verificação são os valores da ética, e não a fé propriamente dita. E o que exige debate público é a ética subjacente a uma determinada religião, e não propriamente a fé. Vê se aprendes, Anselmo Borges, seu burrinho!.


marcel-lefebre-web

Terça-feira, 6 Junho 2017

¿Por que é que a chama do bário é verde?

 

“O crer é, por assim dizer, uma necessidade não espontânea, porém criada e alimentada pelo ser Humano como forma de aprovar ou reprovar o incrível, – sendo por isso fé, acreditar no incrível – como forma de alívio para as suas dúvidas e incertezas, para os seus temores ou alegrias. É a maneira mais fácil que encontra para justificar tudo o que lhe possa acontecer no seu decurso de vida, mas que humana ou cientificamente, à luz do conhecimento objectivo não seja explicável”.

A Crença


Normalmente dizemos que “a ciência explica as coisas”, mas a verdade é que a ciência não explica nada: a ciência descreve os fenómenos (conta uma história verídica), mas não os explica — porque a ciência parte de leis cósmicas que não são explicáveis, assim como não podemos explicar os axiomas que não são físicos.

Carl Hempel comentou o fenómeno do remo “encurvado” quando dentro de água. O padrão dedutivo da “explicação” desse fenómeno, por exemplo e entre outros, toma a seguinte forma:

Leis gerais + Enunciados de condições antecedentes ∴ Descrição do fenómeno

No caso da observação do remador, as leis gerais são a lei da refracção e a lei de que a água é opticamente mais densa do que o ar. As condições antecedentes são a do remo ser direito e a de que está imerso na água segundo um determinado ângulo.

Outro exemplo:

Todas as chamas afectadas pelo bário são verdes. Esta chama é afectada pelo bário ∴ Esta chama é verde.

A generalização da cor da chama do bário é uma consequência dedutiva dos postulados da teoria atómica. Mas os postulados da teoria atómica baseiam-se em axiomas; o sistema axiomático é, por assim dizer, uma rede suportada por “vigas” ancoradas no nível observacional da  linguagem científica 1.

É neste sentido que a ciência descreve uma determinada realidade, mas não a explica — porque, de contrário, teria que explicar também os axiomas de que parte para a descrição dos fenómenos.


“A fé do cientista é a maior que existe, porque é inconfessável.”

→ Roland Omnès, físico francês, professor de Física Teórica da Faculdade de Ciências de Orsay, Paris


O termo “crença” remete para o grau mais fraco do assentimento ou opinião (por exemplo, “eu creio que amanhã vai chover”) — ou então para o chamado “conhecimento verdadeiro”, de origem externa e transformado em hábito sem qualquer verificação ulterior → ou seja, a “crença” pode referir-se a uma verdade adquirida (dita “científica”, por exemplo). É o caso daquele texto: reflecte a crítica à “crença” mediante verdades adquiridas que são, em si mesmas, formas de crença.

Não devemos é confundir crença, fé, religião, e ideologia política ou religião política. Segundo Hannah Arendt, todo o pensamento ideológico (as ideologias políticas, ou religiões políticas) contém três elementos de natureza totalitária:

1/ a pretensão de explicar tudo;
2/ dentro desta pretensão, está a capacidade de se afastar de toda a experiência;
3/ a capacidade de construir raciocínios lógicos e coerentes que permitem crer em uma realidade fictícia a partir dos resultados esperados por via desses raciocínios — e não a partir da experiência.

Uma coisa é uma religião ser instrumentalizada pelo Poder político secular, como aconteceu com o Cristianismo sujeito ao Poder político no mundo luterano europeu, por exemplo.

Outra coisa, bem diferente, é uma religião que transporta consigo as normas e leis do Direito inerentes ao Poder político (Islamismo).

  • Uma coisa é uma religião que apenas recomenda normas éticas, deixando à sociedade a liberdade de as seguir ou não (cristianismo e o livre-arbítrio de S. Tomás de Aquino, ou o Budismo);
  • outra coisa é uma religião que impõe coercivamente leis positivas de Direito à sociedade, assumindo-se como Poder político em si mesmo (islamismo e o determinismo fatalista islâmico).

Ora, o que o escriba daquele texto tenta fazer — ou parece que pretende fazer — é “meter tudo no mesmo saco”, o que significa que não consegue fazer a distinção entre fenómenos semelhantes mas não iguais (ver Síndroma Parasítico da Avestruz) 2


Notas
1. A ciência (positivista) afirma o seguinte: “o critério da significação é a verificação”.

Isto significa que, segundo a ciência, tudo aquilo que não é passível de ser verificado empiricamente não tem significado — tudo isso é considerado pela ciência como uma “falsa questão”, uma proposição ou questão sem sentido decorrente de uma “armadilha da linguagem”.

Porém, esta proposição (“o critério da significação é a verificação”) não é, ela própria, verificável. A ciência positivista parte de um axioma (“o critério da significação é a verificação”) que não é verificável.

2.  O Síndroma Parasítico da Avestruz  (segundo o professor canadiano Gad Saad) consiste em não reconhecer quaisquer diferenças entre objectos ou fenómenos inseridos em uma mesma categoria, o que é uma característica do politicamente correcto.

Sábado, 13 Maio 2017

Jordan B. Peterson, Kant, e o Princípio da Intencionalidade da Natureza

Filed under: Jordan B. Peterson,Kant,metafísica — O. Braga @ 11:22 am

 

Jordan B. Peterson é professor de psicologia da universidade de Toronto, Canadá. É um nome a reter na nossa memória, por razões que irei descrevendo aqui. Perante a pergunta: “¿você acredita em Deus?”, Peterson responde:

 

 

De certa forma, Jordan B. Peterson dá uma determinada resposta a este texto do Alberto Gonçalves, por um lado. E por outro lado, Peterson segue o pensamento de Kant que dizia que, em ciência, devemos investigar e basear racionalmente as teorias científicas como se Deus existisse.

Kant chamou-lhe Princípio da Intencionalidade da Natureza, que nos convida a investigar a Natureza como se as leis que nós descobrimos fossem parte de um conjunto de leis organizadas por um “entendimento” diferente de nós próprios — uma inteligência diferente da inteligência humana. Se procedermos desta forma — segundo Kant — somos obrigados a investigar o lugar das leis particulares no conjunto da Natureza como um todo (a procura da explicação teleológica: “¿por que existe esta lei da Natureza?”).

Na “Crítica do Juízo” (1790), Kant escreveu:

“O juízo reflectivo, que é obrigado a ascender do particular ao universal [indução], exige nesta relação um princípio que não pode extrair da experiência, uma vez que a sua função é estabelecer a unidade de todos os princípios empíricos em princípios mais elevados e, assim, estabelecer a possibilidade da sua subordinação sistemática. De um tal princípio transcendente, o juízo reflectivo poderá apenas fazer-se em forma da lei dele e para ele”.

O princípio regulador que o juízo reflectivo (juízo científico) estabelece para si próprio é a intenção da Natureza. Embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada (ou seja, não podemos provar que o Criador da Natureza existe), devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se fosse organizada por uma entidade exterior ao ser humano — acreditando que a sistematização do conhecimento empírico é apenas possível se agirmos com base no pressuposto de que uma compreensão, para além da nossa, nos forneceu leis empíricas organizadas de modo a que nos seja possível uma experiência unificada.

Domingo, 7 Maio 2017

C’a ganda treta : “Lógica Epistémica”

Filed under: cagando a treta,Domingos Faria,metafísica — O. Braga @ 11:58 am

 

“A lógica epistémica é o ramo da lógica filosófica em que se procura formalizar a lógica do discurso sobre o conhecimento proposicional (“sabe que”) e da crença (“acredita que”). O seu objectivo é articular e clarificar os princípios gerais do raciocínio sobre afirmações e atribuições de conhecimento e de crença, elucidando as suas implicações inferenciais e consequências.”

Domingos Faria

A crença é, por princípio imposto pelo senso-comum (mas não é necessariamente de bom-senso), uma adesão incerta, por oposição ao saber ou à fé.

Mas, em rigor, a crença é adesão a uma ideia, um pensamento, uma afirmação, uma teoria, um dogma… Nesse sentido, a ingenuidade, o preconceito, o erro, a fé, a opinião, assim como o Saber, são diferentes formas de crença.

O “problema” dos professores de filosofia é o de que, na sua imensa maioria, não são filósofos mas reclamam-se como tal.

Domingo, 23 Abril 2017

Olha, que dois…!

Filed under: Anselmo Borges,Daniel Sampaio,imbecil colectivo,metafísica — O. Braga @ 12:38 pm

 

“Na quarta-feira, mais de 400 pessoas reuniram-se na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) para debater com Daniel Sampaio, psiquiatra, e Anselmo Borges, padre e professor de filosofia. O sentido da vida, a felicidade e o suicídio foram alguns dos temas abordados”.

O SENTIDO DA VIDA NUM MUNDO IMPREVISÍVEL


“De volta ao tema fulcral da conferência, o sentido da vida, o psiquiatra [Daniel Sampaio] começa por dizer que a nossa existência precede a nossa essência.”


“A essência não é uma pura construção. Nós já somos, mas ainda não somos completamente”, afirma o representante da religião [ Anselmo Borges].

Contra o behaviourismo  e o positivismo  do cientismo  do imbecil Sampaio, o Padre não entra de chofre: em vez disso, “contemporiza”, tenta não hostilizar o imbecil. É este o tipo de debate que existe em Portugal: o imbecil colectivo, e no fim do debate ganham sempre os mais imbecis.

dupont-dupond-web

Segunda-feira, 17 Abril 2017

A irracionalidade do Anselmo Borges

Filed under: Anselmo Borges,Fátima,filosofia,Igreja Católica,metafísica — O. Braga @ 1:57 pm

 

¿Como é que eu posso afirmar que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”?

“É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objectivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjectivo.”

Anselmo Borges


Quando alguém diz que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”, pretende demolir um dogma católico por intermédio de um pensamento dogmático — porque de facto não é evidente, por exemplo, que não existem extraterrestres. Uma pessoa que diga que “é evidente que não existem extraterrestres”, é estúpida e possui um pensamento dogmático. O mais que eu posso racionalmente dizer é que não é provável que existam extraterrestres; mesmo assim, a minha afirmação é controversa.

Ora, a pior coisa em religião e em teologia é a existência de um pensamento dogmático que critica os dogmas vigentes e ancestrais (novos dogmas que tentam demolir a tradição).

Se há coisa evidente nos acontecimentos de Fátima de 1917, é que nada é evidente (ver o que significa “evidência”). Exactamente porque nada é evidente em Fátima de 1917, é que o Anselmo Borges é burrinho; ele pode receber todos os salamaleques do mundo, mas o rei vai nu.

O Anselmo Borges gosta de ser do contra; ser do contra enche-lhe o ego, à laia do reviralho revolucionário. Ora, devemos ser do contra sempre que seja provável que o contra tem razão — e não, como acontece com o Anselmo Borges: ser do contra para ganhar notoriedade académica e pública, e vender livros, e independentemente da razão.


Do ponto de vista da filosofia, o Anselmo Borges está ultrapassado; ele já não tem autoridade de facto para dar aulas de filosofia. Pode ser teólogo, mas hoje qualquer merda é teólogo. Hoje, um professor universitário de filosofia tem que ter bases suficientes (não precisa ser especialista)  em matemática (e não só em lógica) e em Física (incluindo a física quântica).

O Anselmo Borges diz que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”, porque, alegadamente, “uma aparição é algo objectivo”.

¿O que significa “objectivo”?

É sinónimo de “intersubjectivo” (definição nominal). Quando três crianças (e não só uma) vêem a mesma coisa, trata-se de um fenómeno intersubjectivo, ou seja, objectivo. O problema é o de saber se a coisa vista pelas três crianças (e não só por uma) é o que elas julgam que viram — mas seria estúpido e dogmático dizer-se que “é evidente que não foi aquilo ou não foi aqueloutro”.

Em toda a minha vida, eu passei talvez meia-dúzia de vezes pelo santuário de Fátima e nunca lá estive por ocasião do 13 de Maio. Estou à vontade para falar porque não sou, por assim dizer, um “fanático de Fátima”. Mas hei-de lá ir em um 13 de Maio futuro, se Deus quiser.

Seguindo o raciocínio do Anselmo Borges, poderia dizer-se: “é evidente que Jesus Cristo não ressuscitou”, porque “uma aparição de Jesus depois de morto seria algo objectivo, o que não foi o caso”. O chip que regula o software do pensamento do Anselmo Borges é positivista — nem sequer é o mais moderno, em termos científicos: Anselmo Borges vive no século XIX.

Aqui, o problema do Anselmo Borges é o conceito de “objectivo”.

Em ciência (positivista), é objectivo um fenómeno que se mede estatisticamente mediante repetição verificada (verificação) de forma intersubjectiva (objectiva), ou através da indução que, em epistemologia, é uma inferência conjectural e não-demonstrativa que obtém leis gerais por intermédio de casos particulares.

É certo que o Anselmo Borges não compreendeu Karl Popper (o que não é invulgar); e muito menos compreendeu Niels Bohr, Heisenberg, Wolfgang Pauli, David Bohm, John Wheeler, etc.. o Anselmo Borges precisa de se actualizar; mas duvido que burro velho retome andadura.


Não podemos separar a matéria, por um lado, da pessoa, ou do modo como a pessoa observa, por outro lado.

A única realidade que existe são as respostas às nossas perguntas, e a única coisa que conhecemos do mundo são os resultados das nossas experiências. Isto significa que os elementos básicos do mundo têm uma origem imaterial que, aliás, define a “consciência”: a consciência é uma experiência originária — comprovável a nível intersubjectivo — que antecede a experiência objectiva, tanto em termos lógicos como também em termos existenciais.

Uma imagem que vemos (“nós vemos”, intersubjectivamente, ou objectivamente, o que é o mesmo) não é menos o resultado das nossas acções do que, por exemplo, uma imagem que pintamos, ou de uma casa que construímos.

A realidade do nosso mundo é um facto (do latim facere = fazer); portanto, algo feito por nós; algo feito pelo Anselmo Borges, por exemplo, ou feito pelos três pastorinhos e pelas milhares de pessoas que testemunharam a dança do Sol em 1917, em Fátima. Não há razão nenhuma objectiva (ou seja, intersubjectiva) para que possamos supôr que “os factos do Anselmo Borges” tenham uma valia superior à dos “factos de milhares de pessoas” que assistiram (objectivamente, ou seja, intersubjectivamente) aos fenómenos de Fátima em 1917.

O nosso comportamento, perante a realidade, não é passivo: pelo contrário, nós participamos activamente na construção da realidade — sem que, contudo, criemos a “realidade em si mesma”, porque, em regra, não inventamos os dados a partir dos quais o nosso cérebro constrói as coisas; mas somos criadores da “realidade para nós”, o nosso cérebro monta precisamente aquelas coisas que estamos (todos nós, ou todos os milhares de pessoas em Fátima em 1917, de forma intersubjectiva, ou seja, objectiva) a ver a partir dos dados da “realidade em si”. Isto justifica aquilo que se disse em S. Mateus 13,58:

“E Ele não fez ali muitos milagres, por causa da falta de fé daquela gente”. [O Anselmo Borges também estava lá, no meio daquela gente].

Não podemos separar a realidade, por um lado, da pessoa, ou do modo como a pessoa observa, por outro lado. Só podemos limitar-nos a esperar que a “realidade para nós”, por um lado, e a “realidade em si”, por outro lado, sejam tão semelhantes quanto possível — o que levou à definição de “verdade” por parte de S. Tomás de Aquino:

«A verdade é a adequação entre a inteligência que concebe (a “realidade para nós”), e a realidade (“a realidade em si”)».


Não temos qualquer acesso ao mundo independentemente da interpretação — nem no conhecimento, nem na acção, nem em qualquer outro lugar.

Ora, não há nenhuma razão objectiva para supormos que a interpretação do Anselmo Borges é superior ou mais válida do que a interpretação intersubjectiva dos três pastorinhos, ou do que a interpretação objectiva (intersubjectiva) de milhares de testemunhas em Fátima de 1917.

O Anselmo Borges acredita que ele sabe como está estruturada a “realidade em si”, para além da interpretação humana.

Trata-se de um pensamento dogmático do Anselmo Borges — porque o pensamento humano não é capaz, por princípio, de dizer como se estrutura a “realidade em si”. Portanto, o que está por detrás das nossas construções intersubjectivas da realidade é um mistério — e foi o que se passou em Fátima de 1917: um mistério —, mistério esse que nos fornece os dados para a interpretação, mas que permanece eternamente incognoscível.

A única coisa que podemos dizer, com certeza, sobre a "a realidade em si", independente de nós, é como ela não é (conceito negativo), porque quando as nossas construções fracassam (como fracassou o positivismo do Anselmo Borges, ou o romantismo dele), deparamo-nos com a realidade “por detrás” da nossa construção da realidade. Porém, dado que só podemos descrever e explicar sempre o nosso fracasso através dos conceitos que utilizámos para a construção das estruturas falhadas, isso nunca nos pode proporcionar uma imagem do mundo que pudéssemos responsabilizar pelo fracasso.

É o que acontece com o Anselmo Borges: ele explica o fracasso da teologia cristã através de conceitos que ele próprio utiliza para a construção das suas estruturas pessoais falhadas, e por isso, ele nunca terá uma imagem do mundo que possa responsabilizar-se pelo seu próprio fracasso interpretativo.

Eu nunca vi o Anselmo Borges — nem na televisão, nem pessoalmente. Apenas vi fotografias dele nos jornais; mas uma fotografia não tem vida própria.

Contudo, seria estúpido da minha parte se dissesse que “é evidente que o Anselmo Borges não existe”, apenas e só porque nunca o vi pessoalmente. Chegam-me testemunhos de milhares de pessoas que dizem que o Anselmo Borges existe, ou seja, a figura viva do Anselmo Borges é intersubjectiva (ou objectiva). Se nós só acreditarmos naquilo que virmos, seríamos da espécie do “Anselmo Borges”.

Create a free website or blog at WordPress.com.