perspectivas

Domingo, 11 Novembro 2018

¿Quem te manda a ti, sapateiro, tocar tão mal rabecão?

 

O Carlos Fiolhais escreveu o seguinte (ver ficheiro PDF):

“Já está nas bancas o novo livro de Peter Atkins, químico e escritor de ciência que estará em Lisboa no Auditório do Oceanário na próxima sexta-feira para fazer uma conferência a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O livro, uma edição apoiada por aquela Fundação, intitula-se "Como surgiu o Universo" (colecção "Ciência Aberta" da Gradiva, excelente tradução de Fátima Carmo) e subintitula-se "As origens das leis naturais".

Para Atkins o Universo surgiu espontaneamente, sem necessidade de intervenção de um criador.”


Longe vão os tempos em que Einstein dizia que “Deus não joga aos dados”; hoje, os palhaços que mandam na ciência transformam Einstein num palhaço.

¿Por que razão um químico se aventura na metafísica, em vez de se concentrar nas retortas de alquimista? E ¿por que razão o Carlos Fiolhais escreve sistemicamente asneiras?

O discurso do referido químico é anti-realista (contra o realismo filosófico) quando revela a habitual hostilidade empiricista em relação à matemática, por um lado, e é positivista, por outro lado. Continuamos com a mania da predominância do positivismo na cultura “intelectual” — eu, que pensava que o positivismo tinha sido metido no seu lugar próprio.


atkins

Num outro postal, o Carlos Fiolhais continua com a saga do referido químico (ver ficheiro PDF):

"Gostaria de afirmar que não aconteceu nada de extraordinário na Criação — escreveu o químico. Naturalmente que o Carlos Fiolhais, com o seu cérebro de galináceo, subscreve esta teoria segundo a qual “não aconteceu nada de extraordinário na Criação”; porque, caso contrário, o Carlos Fiolhais teria escrito qualquer coisa em contraditório.

Escreve o químico retardado:

«Não aconteceu nada de extraordinário? Sim, é um grande passo pensar em toda essa hiper-actividade, energia e emergência [do Big Bang] da matéria fundamental em geral como não sendo nada de extraordinário

naturalismo_darwinO químico retardado classifica o início do universo como um “enigma”; ora, um enigma tem resolução. O que ao tem resolução científica, nem terá, é um “mistério”. Podemos inferir a forma do fenómeno do Big Bang, mas nunca saberemos exactamente o seu conteúdo. Por isso trata-se de um mistério, e não de um enigma. Mas falar disto ao Carlos Fiolhais é perder tempo com alguém que utiliza sistematicamente o argumento Ad Verecundiam nos seus textos → não é por que um homem é químico que tem autoridade em metafísica, ou mesmo na física.

O texto do químico é histriónico. A ideia-base do químico é a seguinte: se nós dissermos, por exemplo, que “o sistema imunitário animal é um sistema muito simples e de fácil construção”, então torna-se provável que a ciência consiga explicar a construção do sistema imunitário.

Estamos em presença da invasão da ciência por parte do subjectivismo pós-modernista que caracteriza a politização da ciência pelo marxismo cultural. Ou seja: para o referido químico, as coisas não são o que são: em vez disso, as coisas são aquilo que nós quisermos que sejam. Não tarda nada veremos o químico mudar de sexo.

Mais tarde, no texto, o químico rectificou a teoria e diz que “o universo surgiu do nada” (plagiou a tese do paraplégico Hawking) . Naturalmente que teríamos que definir “nada”. Mas, para estes “cientistas” da treta, as definições contam pouco: o que interessa é a prestidigitação das palavras para enganar os incautos — a “traição dos intelectuais”, de acordo com Julian Benda.

A partir deste livro (o do referido químico e endossado pelo Carlos Fiolhais) ficou demonstrado que “a ciência pode provar que uma coisa não existe” — o que revela um avanço metafísico enorme na ciência marxista cultural.


Repare bem, caro leitor, em um par de pérolas do químico endossado pelo Carlos Fiolhais :

“a eliminação de uma pergunta pode ser uma forma legítima de lhe responder”

“Sem actividade, não é necessário agente.”

Coloco aqui, por exemplo, a pergunta de Leibniz: “¿por que razão existe algo, em vez de nada?”. Segundo o referido químico e o galináceo cerebral Carlos Fiolhais, basta eliminar a pergunta de Leibniz e fica o problema resolvido. “Prontos! Negamos a pregunta e tomaticamente ficou respondida a pregunta!”

A ideia do químico é a de que o estado actual do conhecimento científico é suficiente e bastante (presentismo epistemológico); a dinâmica da epistemologia é negada em função de uma obsessão anti-metafisica (esquecendo-se que a negação da metafísica é sempre uma forma de metafísica) — assim como Galileu errou a sua teoria das marés por ter subestimado a influência da Lua nas marés, devido à sua (dele) obsessão contra a astrologia.


¿Quem te manda a ti, Carlos Fiolhais, tocar tão mal rabecão? Dedica-te à pesca!

Anúncios

Sábado, 27 Outubro 2018

Thomas Nagel e a Teoria do Aspecto Dual

Filed under: filosofia,metafísica — O. Braga @ 7:05 pm

 

A professora Helena Serrão publica aqui uma citação do autor ateu americano Thomas Nagel, na qual este nos dá a ideia de ter uma “terceira via” para a dicotomia (falsa) entre o dualismo metafísico (não confundir com o dualismo ontológico), por um lado, e o chamado “fisicalismo” por outro lado.

A essa terceira via, Nagel chama de “Teoria do Aspecto Dual”. Mas esta teoria não é outra coisa senão uma forma de epifenomenalismo.


Thomas Nagel é um pensador americano que se diz simultaneamente ateu e contra o materialismo. E o problema é que ele não vê nenhuma contradição naquilo que ele diz que é.

Em 1974, ele escreveu um ensaio com o título “Como É Ser Um Morcego?”, em que Nagel pretende imaginar como seria ser um morcego, na perspectiva de um ser humano. Sabemos que os morcegos percepcionam o mundo, por exemplo, através de uma espécie de radar, em que os impulsos de ultra-sons são enviados a partir do cérebro do morcego e os respectivos ecos permitem-lhe distinguir os objectos do meio-ambiente.

Thomas Nagel chegou a uma conclusão: podemos imaginar como é a tentativa de ser um morcego, mas mais nada do que isto. Podemos conceber e imaginar a nossa experiência se nos comportássemos como morcegos, mas nunca saberíamos o que é ser de facto um morcego. Ou seja, somos obrigados pela Razão a reconhecer a existência de factos onde nunca poderemos racionalmente penetrar. Há coisas que nos são inacessíveis porque temos que observá-las a partir de fora, do exterior dessas coisas em relação às quais podemos conhecer a verdade relativa, mas não a sua verdade absoluta.

A Razão diz-nos que a própria Razão tem limites. O mesmo critério aplica-se à ciência: a Razão diz-nos que a ciência tem limites.


Voltando à “terceira via” de Thomas Nagel.

Ele pretende fazer a distinção entre um alegado “processo físico” (alegadamente mensurável ou observável pela ciência), por um lado e, por outro lado, a subjectividade da eventual acção do processo físico, a que ele chama de “aspecto mental do processo cerebral”.

Ora esta teoria nada mais é do que uma forma de epifenomenalismo, ou a ideia segundo a qual alguns ou todos os estados mentais são meros epifenómenos (efeitos secundários ou sub-produtos) do estado físico do mundo — o epifenomenalismo nega que a mente tenha qualquer influência no corpo ou em qualquer outra parte do mundo físico: enquanto que os estados mentais são causados por estados físicos, os estados mentais não têm influência nos estados físicos.

Para o epifenomenalismo, as ideias são apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.


Karl Popper demoliu o epifenomenalismo quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir o epifenomenalismo: esta teoria não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária ao epifenomenalismo, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente.

Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.


A física quântica veio alterar este paradigma científico, colocando em causa a concepção do universo como sistema fechado.

A “amplitude de probabilidade de função de onda” (ou "função de onda quântica", ou ainda, na terminologia mais recente, "vector de estado"), por exemplo, de uma partícula atómica, não constitui um campo material (ou não tem massa ou tem uma massa mínima), mas actua sobre a matéria ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares. Estamos a falar de um facto científico baseado na experimentação, e não apenas de uma teoria. Este facto científico abriu as possibilidades de estados finais diferentes resultantes de processos dinâmicos idênticos, e sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais (como, por exemplo, o abastecimento de energia).

Ou seja, segundo a ciência mais recente, o universo como sistema fechado e a primeira lei da termodinâmica estão colocados em causa. A primeira lei da termodinâmica pode ainda ser utilizada em ciência da mesma forma que o conceito de “absoluto” foi utilizado por Newton para elaborar a sua Dinâmica (o conceito de “absoluto”, em Newton, era uma espécie de muleta).

Resulta disto que a alma ou/e espírito não é um produto da evolução (evolução entendida no sentido naturalista e darwinista), e que o dualismo metafísico passa a fazer sentido mesmo à luz da ciência. Hoje já não faz sentido que um cientista seja necessariamente ateu, ou que defenda uma mundividência naturalista do ser humano.

Sábado, 6 Outubro 2018

A física e a metafísica pertencem à mesma realidade

Filed under: Ciência,David Hume,filosofia,Kant,metafísica — O. Braga @ 4:25 pm

Temos aqui um texto da professora de filosofia Helena Serrão: « ¿Será possível o conhecimento "a priori"? »


O referido texto explica o que significa o “a priori”, segundo Kant. Mas a concepção da diferença entre o “a priori” (o conceito de “relação de ideias”, de Hume), por um lado, e o “empírico” (o conceito de “questões de facto”, de Hume), por outro lado, é anterior a Kant e pertence a David Hume (a Helena Serrão não referiu este facto que é muito importante para a epistemologia).

O que é novo em Kant (em relação a David Hume) é o conceito de “interpretação da realidade” por parte do ser humano, conceito que é compatível com a filosofia quântica. Segundo Kant, as impressões dos sentidos (empirismo) fornecem a matéria bruta do conhecimento (empírico), mas o sujeito (humano) é pensante e responsável pela organização estrutural e relacional dessa matéria bruta.

“O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da Natureza, mas impõe-lhe-as” → Kant (Crítica da Razão Pura).

Com esta frase de Kant se resume o conceito de “a priori”, que tem como base o conceito de “interpretação da realidade”. Exactamente por isso é que Karl Popper tem razão quando diz que “a ciência é composta por conjecturas”, porque até as próprias leis da natureza verificadas empiricamente foram verificadas (estatisticamente) no passado, e não há (racionalmente e em bom rigor) uma certeza de elas sejam exactamente as mesmas no futuro.


O que eu não concordo, nem com a Helena Serrão, nem com Kant ou Hume, nem mesmo com Aristóteles, é com a diferenciação entre “física”, por um lado, e “metafísica”, por outro lado (seja o que for que estes dois termos signifiquem). É esta a razão por que escrevo este verbete.

Se existisse uma diferenciação real entre a física e a metafísica, a ciência não teria avançado ou progredido (o único “progresso” que existe de facto é na ciência) — porque muita coisa que pertencia à metafísica, em um determinado momento, passou pertencer a física noutro momento (como podemos constatar actualmente com a física quântica).

Por exemplo, o conceito científico de “não-localidade” ainda há pouco tempo pertencia à metafísica.

Aliás, Kant entra em contradição quando, por um lado, diferencia a física e a metafísica, e por outro lado introduz o “princípio da intencionalidade da Natureza” (Crítica da Razão Pura, 1790).

Kant insistiu que embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada (de uma determinada forma), devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se fosse organizada intencionalmente — o que é uma forma metafísica de conceber a Natureza.

Terça-feira, 3 Julho 2018

No Brasil, o ensino da filosofia é marcado pelo marxismo

Filed under: Brasil,filosofia,metafísica — O. Braga @ 8:42 am

 

“Os que repudiam toda a metafísica albergam em segredo o que há de mais tosco” (Nicolás Gómez Dávila)


Vejo esta pergunta:

Diferença entre a visão metafísica e a dialéctica, alguém me ajuda?

diferenca-metafisica-dialetica-web

 

A resposta veio a seguir:

dialetica-marxista

A ideia segundo a qual o pensamento “metafísico” seria estático e oposto ao pensamento “dialéctico”, é um conceito do marxismo. O ensino da filosofia no Brasil está minado pelo marxismo.

A ideia de que “a metafísica se opõe à dialéctica” é absurda, porque mistura alhos com bugalhos, coloca em oposição conceitos que não são nem oponíveis nem contraditórios; revela o grau zero do pensamento moderno. Seria semelhante se eu dissesse, por exemplo, que “o Aquecimento Global se opõe ao bolo de maçã da minha vizinha”.

A negação dialéctica não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.”
→ Nicolás Gómez Dávila


“Metafísica” vem do grego “tá metaphusiká”, que significa “os livros depois da física”, que foi o título dado por Andronico de Rodes, no século I antes de Cristo, a uma colecção da obra de Aristóteles.

“Metafísica” é sinónimo de “ontologia” ou de “filosofia dos primeiros princípios” — que inclui a cosmologia “racional” e a Teodiceia. É o discurso que se aplica ao “Ser Enquanto Ser” (Aristóteles) que tem como objecto o ser humano, o universo, o pensamento.

A metafísica pós-socrática (Platão, Aristóteles) não se separou da Física (era um monismo): foi a metafísica cristã que, insistindo na relação entre razão e fé, entre a ordem natural e a ordem sobrenatural (dualismo), deu à palavra “metafísica” o seu peso religioso.

Todos os idealistas alemães (principalmente Hegel), por um lado, e por outro lado a chamada “Esquerda hegeliana”, Karl Marx e seus sequazes (Engels, Lenine), foram hostis à palavra “metafísica” — ao contrário dos iluministas, como por exemplo Wolff ou Kant, que consideraram a metafísica como parte integrante e inevitável do modo de ser humano.

Quinta-feira, 5 Abril 2018

Progresso

Filed under: ética,filosofia,metafísica — O. Braga @ 12:30 pm

 

“O optimismo inteligente nunca é fé no progresso, mas esperança num milagre.”Nicolás Gómez Dávila 


“Progresso” pode ser sinónimo de “desenvolvimento”; por exemplo, o desenvolvimento de uma doença: neste caso, “progresso” é sinónimo de “transformação de estados” ou “mudança de estados”.

Porém, a noção comummente aceite de “progresso” é a de um movimento de um estado alegadamente “inferior” para um outro estado entendido como “superior”. Obviamente que a aceitação desta noção é eminentemente cultural, porque basta uma geração de bárbaros para deitar qualquer “progresso” (social ou mesmo científico) pela pia abaixo.

Por exemplo, eu não considero que a legalização e a banalização cultural do aborto ou/e da eutanásia seja um sinal de “progresso”; em vez disso, penso que se trata de mais um contributo para o triunfo da barbárie na nossa sociedade. Uma geração de bárbaros (ou desequilibrados mentais) tomou conta da nossa política.

A única área da actividade humana em que podemos falar — sem quaisquer reservas — de “progresso” objectivo, é na ciência; em todas as outras áreas da actividade humana, o conceito de “progresso” deve ser abordado com muitas reservas. Mas mesmo na ciência, o progresso é estabelecido em função de determinados pontos de referência assinalados epistemologicamente a posteriori.

A ideia romântica e/ou positivista (Hegel, Comte) segundo a qual “o progresso é uma lei da Natureza”, é um completo absurdo, como nos parece evidente.

Há quem defenda a ideia segundo a qual, “atrelados ao progresso da ciência, vieram os progressos sociais”: por exemplo, baixou a mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida, baixou a mortalidade por doenças infecciosas, aumentou a disponibilidade de alimentos, etc.


“A estatística é a ferramenta de quem renuncia a compreender para poder manipular.”Nicolás Gómez Dávila 


Para um inveterado e fanático militante do partido nazi alemão, o Holocausto foi uma manifestação de “progresso”; para um utilitarista exacerbado actual (por exemplo, um militante do Bloco de Esquerda ou o Rui Rio), o aborto em massa e a eutanásia “à la carte” são formas de “progresso”.

Por outro lado, há hoje quem questione se a introdução do Cristianismo na cultura antropológica europeia tenha sido um progresso; muita gente pensa hoje que o Cristianismo foi uma forma de retrocesso civilizacional que deu origem a uma “Idade das Trevas” que, alegadamente, foi a Idade Média.

Portanto, há que ter muito cuidado quando falamos de “progresso” para além da epistemologia.

Por exemplo, há quem diga que o trabalho de operário fabril é menos exigente, do ponto de vista físico, do que o trabalho sol-a-sol do camponês medieval; mas esta avaliação é subjectiva; conheci pessoalmente camponeses que não trocavam a sua vida laboral no campo por um trabalho dentro de uma fábrica.

Porém, ao contrário do que acontecia na famigerada Idade Média, hoje — por exemplo — temos a pornografia infantil que decorre da tolerância elitista em relação à pedofilia, a bestialidade sexual consentida pela cultura das elites, vídeos públicos com decapitações do Estado Islâmico, o aborto em massa e a eutanásia entendidos absurdamente como “actos médicos”: o juramento de Hipócrates tornou-se obsoleto em uma cultura que transformou a “economia de mercado” em uma “sociedade de mercado”. E a longevidade, trazida pela ciência não é, em si mesma, um bem absoluto; de pouco vale um eunuco espiritual com 150 anos de idade.

A ideia de História Linear (a linearidade do tempo) surgiu com o Judaísmo da Era após o Êxodo para a Babilónia (com o surgimento dos profetas judeus que alegadamente conheciam o futuro radioso de “uma terra de riquezas e de abundância material, o paraíso na terra de Israel”); e, a partir do Judaísmo, o conceito de História Linear passou ao Cristianismo; e a ideia de “progresso” decorre logicamente do conceito de linearidade do tempo e da História — o que não acontece em muitas outras culturas, onde o tempo é cíclico. Aliás, misticismo cristão (como podemos ver por exemplo em Santo Agostinho) tem uma concepção cíclica do tempo e da História.

Sábado, 17 Março 2018

Os valores [morais] são objectivos e existem independentemente do ser humano

Filed under: ética,filosofia,metafísica — O. Braga @ 1:48 pm

 

O Domingos Faria escreve aqui um texto acerca dos “dilemas morais”, criando uma série de argumentação “lógica” que alegadamente nega a existência de tais dilemas. Porém, ao entrincheirar-se na lógica, o Domingos Faria escamoteou (esqueceu-se de mencionar) a noção de “valor”.

Um dos maiores filósofos do “valor” é Louis Lavelle, mas infelizmente não existem livros dele (traduzidos para o português) actualmente disponíveis nas livrarias. Um dos livros dele (senão o mais conhecido) é o “Traité des Valeurs” (se souberem ler em francês).

Se juntarmos Louis Lavelle ao realista Nicolai Hartmann, temos a resposta para as indagações do Domingos Faria acerca da existência (ou não) dos dilemas morais (ou seja, não necessitamos do formalismo lógico para demonstrações sobre a ética).

(more…)

Sábado, 10 Março 2018

O preconceito do senhor Silva (II)

Filed under: ética,metafísica,politicamente correcto — O. Braga @ 4:46 am

 

“O pensamento que se quer sempre justo, paralisa-se. O pensamento progride quando caminha entre injustiças simétricas, como entre duas filas de enforcados”.Nicolás Gómez Dávila


O senhor Silva “voltou à carga” escrevendo acerca do “preconceito” (ver verbete anterior sobre este assunto).

“Ainda há dias o meu filho me acusou de preconceito, e com razão. Deu a notícia de que 2 enfermeiros e um polícia tinham sido agredidos no H S João por 4 acompanhantes de 1 doente. E saiu-me: são ciganos de certeza. E levei um sermão. A verdade é que veio a saber-se que eram. A minha associação foi por experiência (infelizmente muita) das urgências dos hospitais”.


Aquilo a que o senhor Silva chama de “associação por experiência”, chama-se “indução” e é a base da ciência. E, se seguirmos à risca o fio de raciocínio do senhor Silva, concluímos que a ciência é feita de preconceitos — o que é verdade; mas são preconceitos baseados em factos objectivos.

O senhor Silva não assistiu (pessoalmente) ao referido desacato do hospital de S. João; mas concluiu por inferência baseada na indução.

Chama-se “indução” ao argumento em que, se as premissas forem verdadeiras, isto é, tiverem valor lógico de verdade, a conclusão não é necessariamente verdadeira, mas apenas provavelmente verdadeira — é a inferência conjectural ou não-demonstrativa; é o raciocínio que obtém leis gerais a partir de casos particulares. As conclusões de um raciocínio indutivo não são logicamente necessárias: a indução opõe-se, neste aspecto, à dedução.

Portanto, quando o senhor Silva diz que “o preconceito é um sentimento nocivo”, ele está errado — porque 1/ o preconceito pode não ser um “sentimento”, mas antes o resultado de uma constatação racional de um facto; e 2/ também porque o preconceito pode não ser nocivo se ajudar o ser humano (ou a sociedade) a sobreviver.


Chesterton FELICIDADE web2
Por outro lado, o senhor Silva parece seguir os conselhos do papa Chiquinho que diz que não devemos julgar ninguém (“¿Quem sou eu para julgar?!” — perguntou, certa vez, o Chico).

“É nesta duplicidade que consiste a realidade do preconceito que, por muito que o deseje, jamais o ser Humano se conseguirá libertar, e continuará eternamente, sob sujeição da inconsciência, “o rôto a julgar o esfarrapado”; não porque não lhe assista a razão no instante, mas porque não pausou para olhar o seu interior; quando não, não ajuizaria.”

Mas (por exemplo) quando Jesus Cristo chamou à atenção do óbulo da viúva, criticou os poderosos que não davam aos pobres relativamente tanto quanto ela deu (Marcos 12:41-44); ou seja, Jesus Cristo fez um juízo-de-valor quando comparou a pobre dádiva da viúva com a ganância dos poderosos. Jesus Cristo julgou. E Ele julgou também quando protegeu a adúltera da lapidação: julgou a impiedade dos que se preparavam para a apedrejar.

Há outros exemplos de juízos-de-valor feitos por Jesus Cristo, como o da crítica aos fariseus (Mateus 23:27-32). Portanto, não é verdade que seja correcto abstermo-nos de quaisquer juízos-de-valor; o papa Chico e o senhor Silva estão, por isso, errados.

O que temos que fazer é basear os nossos juízos-de-valor (os nossos preconceitos) em factos objectivos — e não em meros sentimentos, como acontece actualmente: a irracionalidade voltou a estar na moda.

Quarta-feira, 7 Março 2018

O preconceito do senhor Silva

Filed under: igualitarismo,metafísica,politicamente correcto,romantismo — O. Braga @ 7:58 pm

“O tonto chama de ‘preconceitos’ às conclusões que não entende.”Nicolás Gómez Dávila


Eu tenho seguido o blogue do senhor António Figueiredo e Silva, sem grandes discordâncias, e até ao último artigo com o título “O Preconceito”.

chesteron-mente-aberta-png-webEle (o senhor Silva) começa por ter razão quando diz que “Aquele que disser que não tem preconceitos, mente”; mas, a seguir, desanca nos “preconceituosos”.

Convém que se diga que o preconceito pode ser negativo ou positivo — é esta diferenciação que fez falta no texto do senhor Silva.

O preconceito positivo é aquele que está aberto à discussão; e o preconceito negativo, é aqueloutro que se fecha em tabu ou em dogma, recusando assim a discussão dos seus preceitos.

Neste sentido, todas as opiniões de todas as pessoas são, a priori, preconceituosas; a diferença é que algumas pessoas estão abertas à discussão (acerca dos seus preconceitos) e outras fecham-se nos seus dogmas (ideológicos).

Ora, eu não tenho a certeza se o preconceito do senhor Silva — exarado no seu (dele) textículo — é negativo ou positivo.

Por exemplo, a discriminação (em relação a um determinado indivíduo e/ou grupo), entendida em si mesma, não é necessária- e negativamente preconceituosa, porque “discriminar” pode ser “escolher racionalmente”. Por outro lado, o relativismo valorativo da “inclusão” a qualquer preço pode ser transformado em dogma e constituir-se em uma forma de preconceito negativo.

Na sequência da moda instituída pelo papa Chicuzinho, hoje ninguém se atreve a fazer juízos-de-valor; e o senhor Silva sublinha esse facto:

“É do juízo pré-concebido (mal procriado) que vêm todas, mas todas as manias separatistas, ou melhor, discriminatórias, que impunemente vagueiam na comunidade global, empeçonhando-a de tudo o que de pior existe. Ele impede que um ser seja julgado em função da sua capacidade intelectiva, porque no pré-julgamento, a firmeza não reside na crítica, uma vez que esta tem que ter por base o conhecimento, mas o errado juízo de valor nada mais faz do que escarafunchar vítimas, ao agigantar-lhes as “incorrecções”, físicas ou morais, as tendências ou pulsões, as crenças, a sua genética etc., castrando-lhes em grande parte a sua ascensão ao universo da igualdade a que as mesmas indubitavelmente deviam e devem ter direito”.

Existe (implicitamente) no trecho supracitado a ideia segundo a qual o juízo de valor (ou melhor: o juízo-de-valor) é uma mera apreciação subjectiva e relativa.

No entanto, a oposição entre juízos-de-facto e juízos-de-valor pode ser mais aparente do que real — sendo que o juízo-de-facto é aquele que descreve a realidade sendo, por isso, considerado objectivo, verificável e susceptível de ser considerado verdadeiro ou falso.

O uso do juízo-de-valor enuncia o que “deve ser”, e o que “não deve ser”. Embora não possa existir uma ciência normativa constituída por juízos-de-valor, mas apenas uma ciência crítica, podemos contudo tomar como base de discussão a afirmação: “Os juízos-de-valor são meros juízos-de-facto que enunciam, embora de forma “sinuosa”, o pensamento (que é efectivamente um facto) ‘valorizador’ daquele que fala.”

Ou seja, o juízo-de-valor pode ser um preconceito positivo, que é aquele que está aberto à discussão; e o igualitarismo do senhor Silva pode transformar-se em dogma, em preconceito negativo que se fecha em si mesmo, inibindo o criticismo que imbui o espírito científico.

A mundividência do senhor Silva é acrítica, ou seja, é romântica.

Eu tenho simultaneamente um preconceito positivo e negativo em relação aos românticos. O senhor Silva nivela por baixo em nome da “vida na paz dos deuses”. É, em súmula, a visão do “bom selvagem” de Rousseau.

Em 1754, Rousseau escreveu um livro com o título “Discurso Sobre a Desigualdade” em que afirmou que “o “homem é naturalmente bom e só as instituições [da sociedade civilizada] o tornam mau”.

Rousseau enviou uma cópia do livro a Voltaire que depois de o ler, escreveu-lhe em 1755 uma carta que dizia o seguinte:

“Recebi o seu novo livro contra a raça humana, e agradeço. Nunca se utilizou tal habilidade no intuito de tornar-nos estúpidos. Lendo este livro, deseja-se andar de gatas; mas eu perdi o hábito há mais de sessenta anos, e sinto-me incapaz de readquiri-lo. Nem posso ir ter com os selvagens do Canadá porque as doenças a que estou condenado tornam-me necessário um médico europeu, e por causa da guerra actual naquelas regiões; e porque o exemplo das nossas acções fez os selvagens tão maus como nós.”

Sábado, 10 Fevereiro 2018

A mecânica quântica defende a incognoscibilidade da "coisa-em-si-mesma" de Kant

Filed under: Kant,metafísica,Olavo de Carvalho,Quântica — O. Braga @ 7:18 pm

 

1/ Segundo Kant, a "coisa-em-si", — ou seja, “a realidade tal como é”, é incognoscível, por oposição ao “fenómeno” — se não pode ser concebida, pode ser no entanto ser pensada.

Olavo de Carvalho (tal qual Hegel) diz que a "coisa-em-si" (ou o númeno) e o fenómeno não se opõem : “mostrar-se como ‘fenómeno’ é uma característica das coisas em si mesmas” e “não uma limitação do nosso aparato cognitivo, como ele pretendia” (sic).

oc-kant2-web

2/ convém dizer que o conceito de "coisa-em-si" de Kant pode ter várias interpretações, e ele próprio utiliza o conceito de "coisa-em-si" ou “númeno” em situações diferentes e mesmo aparentemente contraditórias. Os idealistas (Hegel, por aí fora, até Heidegger) negaram o conceito de númeno ("coisa-em-si") pelas mesmas razões invocadas por Olavo de Carvalho: segundo os idealistas, a presença da "coisa-em-si" em um pensamento que não a pode conhecer, é um paradoxo, o que levou a Hegel a negar a especificidade da "coisa-em-si".

3/ temos que saber se o conceito de "coisa-em-si-mesma" tem alguma pertinência segundo os conhecimentos científicos actuais.

O que Kant quis dizer com "coisa-em-si" — ou "coisa-em-si-mesma" — é o seguinte: o ser humano não será nunca capaz de conhecer a verdadeira natureza da matéria.

Por isso é que a "coisa-em-si-mesma" (ou seja, a verdadeira natureza da matéria) é (segundo Kant) incognoscível, por oposição (segundo Kant) ao “fenómeno” que é aquilo que aparece à nossa percepção proveniente das manifestações “individuais” da matéria.

Este problema da "coisa-em-si-mesma" de Kant (assim como o problema de “mónada”, de Leibniz) é hoje reflectido de forma similar pela física quântica: por exemplo, não se pode atribuir directamente qualquer propriedade (característica) a um vector de estado (estado físico) representado por um feixe de fotões em um Espaço de Hilbert.

Baseando-nos nos conhecimentos da ciência física, Kant tinha razão: a "coisa-em-si-mesma" continua a ser incognoscível (obviamente devido à “limitação do aparato cognitivo” humano); e provavelmente não existe nenhuma substância a que possamos chamar de “espaço-tempo”.

Convém dizer o seguinte: para Kant, a Física (o estudo da matéria) tem que ser puramente fenomenológica (tal como é ainda hoje a Física Clássica).

4/ DxDp≥ћ=h/2π

Esta é a conhecida fórmula de Heisenberg (ou princípio da incerteza de Heisenberg), escrita em 1925, em que Dx é a incerteza da posição de um electrão em determinado momento, e em que Dp é a incerteza do próprio momento. A constante h é a “constante de Max Planck”, e ћ é a “constante reduzida” de Planck. Naturalmente que π=3,141618….

Esta fórmula escandalizou a comunidade científica da altura, porque simplesmente defendia a ideia de que a “causalidade não era possível de uma forma consistente”, isto é, a causalidade rigorosa não existe. Como resultado prático da fórmula de Heisenberg, é teoricamente impossível fazer a observação de um electrão (ou outra partícula elementar) e simultaneamente definir a sua posição; ou se faz a sua observação (tempo), ou se define a sua posição (espaço) ― isto é, numa observação de um electrão, ou se define o tempo, ou o espaço que ele ocupa, e não as duas coisas simultaneamente (princípio da incerteza de Heisenberg).

5/ nós não observamos as trajectórias das partículas elementares (também chamadas de “acontecimentos”); podemos definir a posição de uma partícula no espaço, ou a sua velocidade no tempo, mas não podemos observar / verificar a trajectória dessa partícula (ou das partículas elementares em geral).

Isto significa que nós identificamos os corpos físicos como “aparências” interpretadas pelo “software” do nosso cérebro, e não como um conjunto de vectores de estado de partículas elementares.

O vector de estadoou “amplitude de probabilidade de função de onda”, ou "função de onda quântica" — é a "coisa-em-si-mesma" de Kant.

O nosso conhecimento físico fenomenológico (em relação à matéria) não é objectivo senão no sentido em que é intersubjectivo: é (apenas e só) porque é intersubjectivo, que o nosso conhecimento fenomenológico é objectivo. É no sentido em que o nosso conhecimento subjectivo das aparências é válido do ponto de vista intersubjectivo que podemos afirmar a objectividade desse conhecimento.

Isto não significa que as coisas não existam senão dentro dos parâmetros da nossa interpretação subjectivista. Kant não é idealista nem solipsista.

Dando o exemplo de uma rã. Ela não vê nada senão aquilo que se mexe. O seu olho é constituído de tal modo que tudo o que é imóvel lhe está inacessível. A rã vê a borboleta que voa, mas não vê a flor onde esta pousa. De modo semelhante, os seres humanos reconhecem aquilo que constitui para nós objecto do nosso pensamento ou da nossa percepção — até a nós próprios só nos conhecemos na medida em que nos podemos “objectivar de forma intersubjectiva”.

6/ A velocidade máxima no universo deixou de ser aquela que Einstein especificou na sua teoria. O conceito de “não-localidade” rebentou com a Relatividade de Einstein.

O espaço e o tempo são formas ou produtos da nossa intuição (humana) — ou aquilo a que Kant também chamou de “númeno em sentido positivo”, na medida em que se tratam de “conceitos” de “intuição não-sensível” (intelectual, espiritual) → em contraposição ao “númeno em sentido negativo”, que é algo que não é objecto da nossa “intuição sensível” e que depende da abstracção para a possibilidade de intuição.

Sábado, 4 Novembro 2017

O “Nada” não pode ser eterno

Filed under: Anselmo Borges,filosofia,metafísica — O. Braga @ 12:55 pm

 

O Anselmo Borges escreve:

“A curto, a médio, a longo prazo, todos iremos estando mortos. Com a morte, acaba tudo? É tão próprio do ser humano saber da sua morte como esperar para lá dela. Para a eternidade vamos: a eternidade do nada ou a eternidade da vida plena em Deus”.

Onde estarei, quando deixar de existir?


Como devem reparar, Anselmo Borges vai buscar as bases ideológicas do seu (dele) texto ao Existencialismo — desde o Existencialismo cristão russo do século XIX, passando pelo hegelianismo existencialista de Heidegger e, mais tarde, também o de Habermas. Por aquele texto podemos laborar num arquétipo mental do Anselmo Borges.

Ora, se existe doutrina (ou corrente de pensamento) que eu mais deteste, é o Existencialismo (seja o cristão russo ou o de Kierkegaard, seja o hegeliano, o que vai dar no mesmo) porque é eminentemente imanente — o Existencialismo é uma espécie de monismo. Todo o Existencialismo descamba, mais tarde ou cedo, em panteísmo.

É neste contexto de um hegelianismo existencialista que Anselmo Borges escreve: “a eternidade do nada” — como se o “nada” pudesse ser eterno. Poderíamos eventualmente dizer (sem bases racionais) que “o nada é intemporal”, mas nunca que “o nada é eterno”. Um “nada eterno” é uma contradição em termos, é um absurdo — excepto para Schelling, Hegel, e outros precursores ideológicos de Karl Marx, de Heidegger e de Habermas, e mesmo Sartre.

Toda a dialéctica hegeliana (que influenciou o Anselmo Borges) baseia-se na “existência” do “Nada”. Mas notemos o que o reaccionário Nicolás Gómez Dávila escreveu acerca da dialéctica hegeliana:

“A negação dialéctica (o Nada, ou Não-ser) não existe entre realidades, mas apenas entre definições. A síntese em que a relação se resolve não é um estado real, mas apenas verbal. O propósito do discurso move o processo dialéctico, e a sua arbitrariedade assegura o seu êxito.

Sendo possível, com efeito, definir qualquer coisa como contrária a outra coisa qualquer; sendo também possível abstrair um atributo qualquer de uma coisa para a opôr a outros atributos seus, ou a atributos igualmente abstractos de outra coisa; sendo possível, enfim, contrapôr, no tempo, toda a coisa a si mesma — a dialéctica (hegeliana) é o mais engenhoso instrumento para extrair da realidade o esquema que tínhamos previamente escondido nela.”

Segunda-feira, 26 Junho 2017

A confusão epistemológica pós-moderna

Filed under: cristianismo,Domingos Faria,metafísica — O. Braga @ 12:46 pm

 

“O tonto consegue captar o subtil, mas não vê o óbvio.” — Nicolás Gómez Dávila


Este postal do Domingos Faria
é o exemplo de como as “Humanidades” chegaram a um ponto de tal decadência que podemos dizer que já não existem.

« Um dos paradoxos mais interessantes em lógica epistémica é o paradoxo da cognoscibilidade. Esse paradoxo resulta da prova de Frederic Fitch (1963) de acordo com a qual um princípio aparentemente modesto da cognoscibilidade (PC), de que cada verdade é em princípio conhecível, implica uma alegação absurda de que somos omniscientes (O), de que de facto sabemos todas as verdades. Ou seja, o paradoxo da cognoscibilidade mostra que se segue da afirmação de que “todas as verdades são cognoscíveis”, que todas as verdades são conhecidas”. »

Paradoxo da Cognoscibilidade e a Doutrina da Encarnação

Mais adiante:

“Para escapar a essa conclusão absurda em vez de se negar ¬O pode-se negar PC, defendendo-se que não é o caso que todas as verdades sejam cognoscíveis ou possíveis de conhecer. Um dos problemas é que o Cristão tradicional em princípio não poderá enveredar por essa manobra, tal como defendido por Jonathan Kvanvig (2010), dado que entra em conflito com a doutrina da encarnação.”

ibidem


Em primeiro lugar, devemos saber o que significa “verdade”, neste contexto: “verdade” é a verdade positivista, ou seja, a verdade da ciência clássica segundo a qual as propriedades e o comportamento das partes determinam o comportamento do todo.

Dentro deste conceito de “verdade”, o Princípio da Cognoscibilidade é absurdo:

“As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecerem para sempre conjecturas ou hipóteses.”

→ Karl Popper, em conferência proferida em 8 de Junho de 1979 no Salão Nobre da Universidade de Frankfurt , por ocasião da atribuição do grau de Doctor Honoris Causa.

O absurdo foi inventado de uma vez para sempre; mas as ideias absurdas, como por exemplo o Princípio da Cognoscibilidade, são inventadas a cada época. Karl Popper concluiu que “cada verdade (científica) não é, em princípio, cognoscível”; e só um burro (como o Frederic Fitch) pensaria o contrário disso.


Mas se a “verdade” da ciência clássica implica que as propriedades e o comportamento das partes determinam o comportamento do todo, na “verdade” da física quântica passa-se precisamente o contrário: é a totalidade que determina o comportamento das partes. Portanto, temos aqui dois conceitos diferentes de “verdade”; mas o Domingos Faria misturou tudo no mesmo saco.

O holismo significa a visão da totalidade de um sistema. As partes estão, em certo sentido, em contacto com a totalidade. Se tudo aquilo que, no Big Bang esteve numa acção recíproca, permanece ligado, então todas as partículas elementares em todas as estrelas e em todas as galáxias “sabem” da existência de todas as restantes partículas elementares.

Assim, os componentes da matéria não devem ser vistos como unidades isoladas, mas sim como partes integradas na totalidade do universo. Naturalmente que o Domingos Faria deve pensar que eu sou maluco; por isso vamos ver o que o maluco Niels Bohr, que foi Nobel da Física, escreveu:

“O Universo pode assumir a organização dos seus componentes (…) porque a totalidade, por princípio, é constituída de tal modo que organiza as partes… Tudo está ligado entre si através de conjunções invisíveis”.

O holismo quântico também é uma “teoria humana” que se enquadra na citação supra de Karl Popper; mas pelo menos tem a virtude de conceber a “verdade” de um modo totalmente diferente da “verdade” da ciência clássica — porque não é, por si, evidente que possamos extrair convenientemente objectos da totalidade do mundo (conforme o conceito de “verdade positivista” do burro Fitch): esta extracção implica sempre um erro, visto que, na realidade, tudo está ligado com tudo.


Em 1982, Alain Aspect, da universidade de Paris, preparou uma experiência na qual um fotão (uma partícula elementar de onda luminosa), após a sua saída de uma fonte central, tinha a possibilidade de se afastar desta fonte cerca de seis metros antes de ser conduzido através de uma espécie de eclusa da luz.

Este aparelho, semelhante a um comutador basculante, conduziu o fotão num dos dois sentidos possíveis. O fotão deparou-se, em ambos os percursos, com um filtro de polarização. Aspect utilizou um truque para obrigar os fotões a revelar se se comunicam, de facto, entre si, e em que medida se realizam contactos deste tipo.

As eclusas foram concebidas de moda a mudarem periodicamente de sentido cerca de 100 milhões de vezes por segundo. Deste modo, o percurso definitivo dos fotões foi determinado acidentalmente.

Por conseguinte, um fotão não podia “saber” de antemão em que sentido se iria mover: só podia conhecer o seu percurso definitivo depois da passagem através de um dos filtros. No entanto, naquele momento, já era demasiado tarde para o respectivo fotão informar ainda o parceiro em movimento no sentido oposto sobre aquilo que lhe tinha acontecido — porque Aspect providenciou para que, nesse momento, os fotões estivessem tão afastados entre si que não houvesse tempo para a comunicação com o parceiro, nem sequer para um estabelecimento de contacto à velocidade da luz.

Alain Aspect fez uma descoberta surpreendente. Os fotões eram capazes de comunicar entre si e de informar o outro fotão sobre o filtro por onde tinham acabado de ser conduzidos.

Portanto, parecia que as partículas elementares são, de facto, capazes de comunicar entre si a uma velocidade superior à velocidade da luz — o que destruiu parcialmente a teoria de Einstein. As partículas elementares permanecem partes de um único sistema que reage, na sua totalidade, às acções recíprocas seguintes.

Na prática, tudo aquilo que podemos ver e tocar é constituído pela acumulação de partículas elementares que se encontraram, alguma vez, em uma acção recíproca com outras partículas elementares, até ao Big Bang, com o qual surgiu o universo. Os átomos no meu corpo são constituídos por partículas elementares que já estiveram concentradas no aerólito cósmico, juntamente com outras partículas elementares que são agora componentes de uma estrela afastada ou de um outro corpo humano.


alain-aspect-web

A experiência de Alain Aspect teve o condão de demonstrar como leis que são válidas para aspectos físicos parciais (a “verdade cognoscível” do burro Fitch) foram anuladas num determinado ponto. Porém, o saber como a totalidade organiza estes aspectos parciais escapa ao nosso conhecimento positivista, dado que não podemos forçar a totalidade do universo a entrar dentro de uma experiência de laboratório (do Fitch).

A ideia segundo a qual “todos os seres humanos penetram nas ‘verdades holísticas’ da mesma forma”, é outro absurdo, porque parte do princípio de que o ser humano é uma espécie de autómato fabricado em série. É neste sentido que não existe nenhuma contradição entre Jesus Cristo, por um lado, e o conhecimento da verdade holística, por outro lado — verdade esta que não é a verdade positivista da ciência clássica a que se refere o Fitch.

Sexta-feira, 23 Junho 2017

A lógica é imanente, e Causa Primeira é transcendente

Filed under: Ciência,Domingos Faria,filosofia,lógica,metafísica — O. Braga @ 7:58 pm

 

O Domingos Faria invoca um burro com um alvará de inteligente que escreveu um livro, para citar um argumento que coloca em causa o princípio da razão suficiente de Leibniz (e não de Espinoza, como escreveu o Domingos Faria) que reza assim:

“Nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente.”


Há vários erros no raciocínio do burro letrado, mas talvez o principal seja o exarado no ponto 5:

“Se S é necessária, então P é necessária. [de PRS e necessidade da implicação]”

Acontece que se uma Causa Primeira é necessária, não se segue que um determinado efeito (dessa causa) seja necessário— desde logo porque a Causa não se confunde (como seria lógico) com um qualquer seu efeito.

A proposição supra só teria alguma legitimidade “lógica” se a Causa Primeira fosse imanente, ou seja, se ela pertencesse à mesma Realidade dos seus possíveis efeitos (possibilidade ou probabilidade) segundo o princípio da causalidade — mas então teríamos que explicar, por exemplo, por que razão as partículas elementares (que são efeitos de uma Causa, ou seja, existem por uma qualquer razão suficiente) aparecem e desaparecem do universo como que por magia, vindas do Nada e para o Nada.

¿De onde vêm, e para onde vão, essas partículas elementares que aparecem e desaparecem continuamente no universo?

Para qualquer pessoa “inteligente” é difícil aceitar que no centro da Física, que pretende ser a ciência dos fundamentos de todo o universo, as leis da nossa razão deveriam ser anuladas.

E isto porque, ao contrário do que defendeu Einstein, “Deus lança mesmo os dados” — no sentido em que os efeitos enquanto factos têm uma probabilidade objectiva (e não uma probabilidade subjectiva humana, devida à falta de conhecimento científico): a “casualidade” (os acontecimentos “por acaso”) e a “a-causalidade” (aquilo que parece não ter causa) não são expressão dos nossos conhecimentos limitados, mas sim são constitutivas da própria Realidade.

É neste sentido que se fala em probabilidade objectiva, por contraposição a uma probabilidade meramente subjectiva, baseada apenas numa falta de conhecimento das razões causais.

Ou seja, o princípio da causalidade (que é exclusivamente imanente) foi refutado pela própria ciência atómica.

Mas essa refutação não significa que, 1/ não exista uma Causa primeira que determina a existência de uma probabilidade objectiva que pode ser contingente na sua condição de causa segunda, e por isso, 2/ não significa que essa probabilidade objectiva, enquanto efeito, seja necessária. Aqui, David Hume tem razão.

Ademais, o raciocínio do lógico em causa é uma tautologia— a inferência pretende ser sempre verdadeira quaisquer que sejam os valores de verdade atribuídos a priori às proposições.

A lógica não se pode fechar em si mesma e fazer de conta que a ciência não existe. Quando isso acontece, aparecem lógicos burros que escrevem livros. Hoje, vivemos em um mundo em que é legítimo dar a uma pessoa estúpida uma resposta estúpida em relação a uma pergunta estúpida — porque o pensamento e as crenças não coincidem.

Página seguinte »

Site no WordPress.com.