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Segunda-feira, 25 Fevereiro 2019

Devemos e podemos criticar Kant, mas não exageremos

Filed under: ética,Kant — O. Braga @ 10:49 pm

 

Diz a professora Helena Serrão :

“Já indiquei que aceito o primeiro ponto, o de que a ética implica a universalidade. O segundo ponto também é indesmentível. A razão tem de ser universal”.

Ou seja, segundo ela, 1/ a ética implica a universalidade, e 2/ a Razão tem que ser universal. O que ela diz também é que não existe uma relação de nexo causal entre a Razão e a ética.


Antes de mais, temos que saber o que significa “Razão”, por um lado, e “universalidade” (intersubjectividade), por outro lado.

A universalidade (em ética) diz respeito a um valor superior (ou um sistema de valores) ou a uma perspectiva susceptível de orientar a sociedade no seu todo. Neste sentido, a universalidade (valor intersubjectivo) de uma proposição (por exemplo, “Todos os homens são mortais”) deduz-se do raciocínio, por um lado, e da experiência, por outro lado. A universalidade de um determinado valor só pode ser um postulado, mas é requerida pela coerência de uma doutrina filosófica — essa coerência não é sinónimo, em si mesma, de “verdade”: apenas significa a coerência de um determinado discurso.

Kant adoptou a “lei de ouro” (imperativo categórico) : “Age unicamente segundo a máxima que permite que possas querer ao mesmo tempo o que se torne em uma lei universal” (Fundamentação da Metafísica dos Costumes); ou seja, a lei moral implica a sua universalidade.

Ou seja: não é porque um determinado discurso é coerente, ou porque um determinado valor é universal, que o primeiro é necessariamente verdadeiro e que o segundo é positivo. A universalidade de um valor ou de um sistema de valores, só por si, não determinam a racionalidade dos mesmos.

A Razão, neste contexto, é a faculdade de julgar bem — neste sentido, a Razão opõe-se à loucura e à paixão descontrolada, e é simultaneamente a priori, por um lado, e baseada na experiência, por outro lado. A Razão é universal.


Segundo o “imperativo categórico” de Kant, por exemplo, não é permitido mentir porque a mentira, entendida como uma lei geral (universal) significaria o fim de qualquer comunicação válida entre seres humanos — se o meu comportamento se pautasse por uma norma que me permitisse mentir sempre que eu quisesse, então seguir-se-ia que todos os outros seres humanos teriam o mesmo direito de o fazer. Porém, se todos podem mentir, ninguém acreditaria em ninguém, e nenhum mentiroso conseguiria o seu objectivo. Neste aspecto, Kant tem razão: aplicada consequentemente a todos os seres humanos, a máxima da “mentira permitida” anula-se a si mesma.

Contudo, ninguém me obriga a ser consequente com o imperativo categórico,  se eu prefiro que os outros sigam normas que não se apliquem a mim próprio. Se eu minto sempre que me apetece, mas simultaneamente desejo que todos digam sempre a verdade, sou perfeitamente consequente com o meu estatuto de oportunista que aplica o imperativo categórico.

¿Quem (ou o que) me impede de colocar o meu bem pessoal acima do bem comum?

Considerar-me a mim próprio uma excepção à norma ética, é uma aplicação consequente e útil do imperativo categórico de Kant. Aqui, a crítica da professora Helena Serrão ao imperativo categórico  de Kant tem alguma razão de ser:

“Todo o agente racional poderia aceitar que a actividade puramente egoísta de outros agentes racionais é racionalmente justificável. O egoísmo puro podia ser racionalmente adoptado por toda a gente”.

Porém, no seu (dela) raciocínio, a professora Helena Serrão parte do princípio de que é legítimo que alguém considere o seu interesse próprio mais valioso do que o interesse do bem comum:

“Todo o agente racional poderia aceitar que a actividade puramente egoísta de outros agentes racionais é racionalmente justificável. O egoísmo puro podia ser racionalmente adoptado por toda a gente. Vejamos a questão de mais perto.

Temos de conceder que há um sentido em que um agente racional puramente egoísta — chamemos-lhe Jack — não podia aceitar os juízos práticos de outro agente puramente egoísta — chamemos-lhe Jill”.

Tal como acontece com a “mentira permitida” e generalizada, o egoísmo generalizado anula-se a si próprio: se toda a gente é exclusivamente egoísta, o egoísmo deixa de existir, enquanto tal, em termos práticos, porque o egoísmo só resulta quando alguém “descuidado” não é egoísta.

Ou seja, ao contrário do que diz a professora, o egoísmo puro generalizado (assim como a “mentira permitida”) não pode ser aceite como uma base racional da acção de todos os agentes racionais — exactamente porque o egoísmo puro generalizado anula-se a si próprio.

Desde Sócrates que sabemos que ninguém faz o mal pelo mal: as pessoas querem sempre um qualquer bem, nem que seja o seu bem exclusivo e egoísta “contra tudo e contra todos”, que não deixa de ser um bem mitigado que, muitas vezes, se opõe ao bem comum.

Mas a Razão (a faculdade de julgar bem, baseando-nos na intemporalidade dos valores racionalmente fundamentados e na experiência humana) impede-nos de aceitar o “egoísmo puro generalizado” como base racional de acção ética — quanto mais não seja porque se anula a si próprio.

Não é racional que eu defenda um tipo de ética que se anula a si própria.

O argumento da professora Helena Serrão (ou de Peter Singer, ou de Desidério Murcho) não serve.

A irracionalidade voltou a estar na moda.

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Segunda-feira, 14 Janeiro 2019

As mulheres deveriam circunscrever-se à poesia

Filed under: filosofia,Kant,metafísica — O. Braga @ 10:08 pm

 

A professora Helena Serrão publica um excerto de uma tal Stéphane Ferret que eu não sei quem é nem quero saber. Só sei que — à semelhança do paralamento português – ela descobriu que “a Terra é redonda”.

O problema é que a Terra não é exactamente redonda; é achatada nos pólos. É aqui que a Stéphane Ferret “se ferra”.

“Contrariamente a uma longa tradição filosófica que reserva a intencionalidade para o homem, parece ser um dado adquirido que também os animais (pelo menos alguns) são entidades capazes de acção. Aos olhos da maioria dos homens, parece não restarem dúvidas de que também os símios, os burros ou as girafas são criaturas agentes”.

Ao ler esta passagem do texto, por um segundo quase acreditei que a Stéphane Ferret tinha razão.


É isto o que acontece quando as fêmeas se põem a filosofar: por exemplo, Hannah Arendt sempre afirmou dela própria que não era filósofa — o que revela grande inteligência da sua parte.

¿A Stéphane Ferret age porque é livre? Ou ¿é livre porque age?

Quando ela se compara aos animais, sou induzido a pensar que ela é livre porque age. É este o grande problema da modernidade: as pessoas consideram-se livres porque agem.

Eu prefiro dizer de mim mesmo que ajo porque sou livre — e é na liberdade que reside o busílis da questão: se considerarmos que a burra é livre, então podemos equiparar a sua acção à do vulgar ser humano.

A liberdade na acção pressupõe autoconsciência!.


Immanuel Kant chamou à atenção para o facto de nós termos sempre de acrescentar um suplemento a todos os nossos pensamentos, independentemente daquilo que estamos a pensar: a frase “eu penso”.
Sem a consciência de que “sou eu que penso”, não existe qualquer pensamento que mereça esse nome. Sem a autoconsciência de que a consciência se pensa a si mesma, não é possível qualquer conteúdo dessa consciência.

Um computador pode percorrer o seu programa sem este “eu penso”, mas não pode, por isso, pensar como um ser humano.

No “eu penso” do sujeito humano, todos os conteúdos da consciência estão ligados; o “eu penso” do humano é a condição lógica de qualquer pensamento — constitui o último ponto de referência lógico e o ponto de unidade de todo o conhecimento.

Na linguagem de Kant: o “eu penso” é a condição da possibilidade do pensamento.

Este “eu penso”, segundo Kant, é o “X” da condição humana.

Não é possível reconhecer este “X”, porque qualquer acto de pensamento já o pressupõe: o X é anterior ao próprio pensamento — e por isso é que nenhum computador (ou nenhuma burra!) tem ou alguma vez terá este X. A comparação que os naturalistas fazem entre os símios, os burros ou as girafas, por um lado, e um ser humano, por outro lado (sociobiologia), é uma estupidez de uma grandeza elevada à potência infinita.

Sábado, 6 Outubro 2018

A física e a metafísica pertencem à mesma realidade

Filed under: Ciência,David Hume,filosofia,Kant,metafísica — O. Braga @ 4:25 pm

Temos aqui um texto da professora de filosofia Helena Serrão: « ¿Será possível o conhecimento "a priori"? »


O referido texto explica o que significa o “a priori”, segundo Kant. Mas a concepção da diferença entre o “a priori” (o conceito de “relação de ideias”, de Hume), por um lado, e o “empírico” (o conceito de “questões de facto”, de Hume), por outro lado, é anterior a Kant e pertence a David Hume (a Helena Serrão não referiu este facto que é muito importante para a epistemologia).

O que é novo em Kant (em relação a David Hume) é o conceito de “interpretação da realidade” por parte do ser humano, conceito que é compatível com a filosofia quântica. Segundo Kant, as impressões dos sentidos (empirismo) fornecem a matéria bruta do conhecimento (empírico), mas o sujeito (humano) é pensante e responsável pela organização estrutural e relacional dessa matéria bruta.

“O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da Natureza, mas impõe-lhe-as” → Kant (Crítica da Razão Pura).

Com esta frase de Kant se resume o conceito de “a priori”, que tem como base o conceito de “interpretação da realidade”. Exactamente por isso é que Karl Popper tem razão quando diz que “a ciência é composta por conjecturas”, porque até as próprias leis da natureza verificadas empiricamente foram verificadas (estatisticamente) no passado, e não há (racionalmente e em bom rigor) uma certeza de elas sejam exactamente as mesmas no futuro.


O que eu não concordo, nem com a Helena Serrão, nem com Kant ou Hume, nem mesmo com Aristóteles, é com a diferenciação entre “física”, por um lado, e “metafísica”, por outro lado (seja o que for que estes dois termos signifiquem). É esta a razão por que escrevo este verbete.

Se existisse uma diferenciação real entre a física e a metafísica, a ciência não teria avançado ou progredido (o único “progresso” que existe de facto é na ciência) — porque muita coisa que pertencia à metafísica, em um determinado momento, passou pertencer a física noutro momento (como podemos constatar actualmente com a física quântica).

Por exemplo, o conceito científico de “não-localidade” ainda há pouco tempo pertencia à metafísica.

Aliás, Kant entra em contradição quando, por um lado, diferencia a física e a metafísica, e por outro lado introduz o “princípio da intencionalidade da Natureza” (Crítica da Razão Pura, 1790).

Kant insistiu que embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada (de uma determinada forma), devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se fosse organizada intencionalmente — o que é uma forma metafísica de conceber a Natureza.

Sábado, 10 Fevereiro 2018

A mecânica quântica defende a incognoscibilidade da "coisa-em-si-mesma" de Kant

Filed under: Kant,metafísica,Olavo de Carvalho,Quântica — O. Braga @ 7:18 pm

 

1/ Segundo Kant, a "coisa-em-si", — ou seja, “a realidade tal como é”, é incognoscível, por oposição ao “fenómeno” — se não pode ser concebida, pode ser no entanto ser pensada.

Olavo de Carvalho (tal qual Hegel) diz que a "coisa-em-si" (ou o númeno) e o fenómeno não se opõem : “mostrar-se como ‘fenómeno’ é uma característica das coisas em si mesmas” e “não uma limitação do nosso aparato cognitivo, como ele pretendia” (sic).

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2/ convém dizer que o conceito de "coisa-em-si" de Kant pode ter várias interpretações, e ele próprio utiliza o conceito de "coisa-em-si" ou “númeno” em situações diferentes e mesmo aparentemente contraditórias. Os idealistas (Hegel, por aí fora, até Heidegger) negaram o conceito de númeno ("coisa-em-si") pelas mesmas razões invocadas por Olavo de Carvalho: segundo os idealistas, a presença da "coisa-em-si" em um pensamento que não a pode conhecer, é um paradoxo, o que levou a Hegel a negar a especificidade da "coisa-em-si".

3/ temos que saber se o conceito de "coisa-em-si-mesma" tem alguma pertinência segundo os conhecimentos científicos actuais.

O que Kant quis dizer com "coisa-em-si" — ou "coisa-em-si-mesma" — é o seguinte: o ser humano não será nunca capaz de conhecer a verdadeira natureza da matéria.

Por isso é que a "coisa-em-si-mesma" (ou seja, a verdadeira natureza da matéria) é (segundo Kant) incognoscível, por oposição (segundo Kant) ao “fenómeno” que é aquilo que aparece à nossa percepção proveniente das manifestações “individuais” da matéria.

Este problema da "coisa-em-si-mesma" de Kant (assim como o problema de “mónada”, de Leibniz) é hoje reflectido de forma similar pela física quântica: por exemplo, não se pode atribuir directamente qualquer propriedade (característica) a um vector de estado (estado físico) representado por um feixe de fotões em um Espaço de Hilbert.

Baseando-nos nos conhecimentos da ciência física, Kant tinha razão: a "coisa-em-si-mesma" continua a ser incognoscível (obviamente devido à “limitação do aparato cognitivo” humano); e provavelmente não existe nenhuma substância a que possamos chamar de “espaço-tempo”.

Convém dizer o seguinte: para Kant, a Física (o estudo da matéria) tem que ser puramente fenomenológica (tal como é ainda hoje a Física Clássica).

4/ DxDp≥ћ=h/2π

Esta é a conhecida fórmula de Heisenberg (ou princípio da incerteza de Heisenberg), escrita em 1925, em que Dx é a incerteza da posição de um electrão em determinado momento, e em que Dp é a incerteza do próprio momento. A constante h é a “constante de Max Planck”, e ћ é a “constante reduzida” de Planck. Naturalmente que π=3,141618….

Esta fórmula escandalizou a comunidade científica da altura, porque simplesmente defendia a ideia de que a “causalidade não era possível de uma forma consistente”, isto é, a causalidade rigorosa não existe. Como resultado prático da fórmula de Heisenberg, é teoricamente impossível fazer a observação de um electrão (ou outra partícula elementar) e simultaneamente definir a sua posição; ou se faz a sua observação (tempo), ou se define a sua posição (espaço) ― isto é, numa observação de um electrão, ou se define o tempo, ou o espaço que ele ocupa, e não as duas coisas simultaneamente (princípio da incerteza de Heisenberg).

5/ nós não observamos as trajectórias das partículas elementares (também chamadas de “acontecimentos”); podemos definir a posição de uma partícula no espaço, ou a sua velocidade no tempo, mas não podemos observar / verificar a trajectória dessa partícula (ou das partículas elementares em geral).

Isto significa que nós identificamos os corpos físicos como “aparências” interpretadas pelo “software” do nosso cérebro, e não como um conjunto de vectores de estado de partículas elementares.

O vector de estadoou “amplitude de probabilidade de função de onda”, ou "função de onda quântica" — é a "coisa-em-si-mesma" de Kant.

O nosso conhecimento físico fenomenológico (em relação à matéria) não é objectivo senão no sentido em que é intersubjectivo: é (apenas e só) porque é intersubjectivo, que o nosso conhecimento fenomenológico é objectivo. É no sentido em que o nosso conhecimento subjectivo das aparências é válido do ponto de vista intersubjectivo que podemos afirmar a objectividade desse conhecimento.

Isto não significa que as coisas não existam senão dentro dos parâmetros da nossa interpretação subjectivista. Kant não é idealista nem solipsista.

Dando o exemplo de uma rã. Ela não vê nada senão aquilo que se mexe. O seu olho é constituído de tal modo que tudo o que é imóvel lhe está inacessível. A rã vê a borboleta que voa, mas não vê a flor onde esta pousa. De modo semelhante, os seres humanos reconhecem aquilo que constitui para nós objecto do nosso pensamento ou da nossa percepção — até a nós próprios só nos conhecemos na medida em que nos podemos “objectivar de forma intersubjectiva”.

6/ A velocidade máxima no universo deixou de ser aquela que Einstein especificou na sua teoria. O conceito de “não-localidade” rebentou com a Relatividade de Einstein.

O espaço e o tempo são formas ou produtos da nossa intuição (humana) — ou aquilo a que Kant também chamou de “númeno em sentido positivo”, na medida em que se tratam de “conceitos” de “intuição não-sensível” (intelectual, espiritual) → em contraposição ao “númeno em sentido negativo”, que é algo que não é objecto da nossa “intuição sensível” e que depende da abstracção para a possibilidade de intuição.

Segunda-feira, 12 Junho 2017

¿O que é a “felicidade”?

Filed under: ética,Kant,metafísica,Santo Agostinho — O. Braga @ 8:32 pm

 

“Penso que o ser humano é um eterno insatisfeito. Isto porque é habitual ele ambicionar tudo o que possa dar-lhe algum prazer na vida; só que depois de ter conseguindo adquirir o que no seu querer estava traçado, decorrido algum tempo inventa ou cria uma nova necessidade que o vai levar a um novo objectivo, que no fim também o não irá satisfazer cabalmente; então, prosseguirá nesta condição sedenta até que a senilidade, a loucura ou a morte, lhe batam à porta”.

UMA BOA QUESTÃO…


Se perguntarmos a uma pessoa (qualquer que seja) ¿o que é a felicidade?, ela não saberá dizer o que é. A felicidade não tem uma definição: nem colectiva, nem individual (assim como não podemos definir “realidade”).

O “direito à felicidade”, como justificação para as engenharias sociais (que o papa Chico aprova) que têm a ilusória pretensão de alterar a natureza humana, é uma das maiores fraudes éticas, ideológicas e políticas da modernidade.

Toda a ética que inclui na sua teoria o “direito à felicidade” (seja a felicidade individual, seja colectiva), é uma ética falsa e absurda. E toda lei positiva que preveja o “direito à felicidade” como seu fundamento, é um contra-senso que tem a sua origem em um sistema ético absurdo.

Santo Agostinho observou (e bem!) que todos os homens desejam ser felizes, e a felicidade define-se (no sentido comum) pela obtenção do maior prazer. Porém, a diversidade de objectos que os homens têm em vista no sentido de atingirem a mais elevada satisfação, revela bem que este desejo existe sem que o seu verdadeiro objecto, útil, utilitarista e prático [de felicidade], lhe seja claramente dado: “Todos querem ser felizes, mas nem todos procuram viver do único modo que permite viver feliz” através do amor a Deus: “quem sabe amar-se, ama a Deus”.

Kant pegou nesta ideia de Santo Agostinho e desenvolveu-a com requinte.

1. O desejo humano em relação aos objectos do mundo (o tal “direito à felicidade” que implica uma conduta interessada) não é compatível com a ética e com a moral, a não ser por puro acidente — se for uma motivação sensível (o desejo) a comandar o estabelecimento de uma norma (lei positiva ou regra moral), então qualquer mudança no objecto de desejo e de satisfação implica ipso facto uma reviravolta da conduta.

2. O “direito à felicidade” não se pode traduzir em uma lei prática ou regra moral. A ideia que cada ser humano tem de “felicidade” é uma ideia absoluta — que satisfaz em sumo grau o máximo de inclinações no decurso de uma duração indeterminada.

Porém, o que acontece na realidade concreta, é que a experiência humana da satisfação das inclinações individuais, é fragmentária, contingente e parcial. Logo, existe uma contradição entre a exigência de felicidade, por um lado, e a experiência humana concreta relativamente ao conhecimento dos elementos que a produzem, por outro lado.

Ou seja: para que o homem pudesse ser feliz, teria que ter ao seu dispor exactamente o oposto do conhecimento empírico e contingente dos meios para satisfazer a exigência de felicidade: o ser humano teria, neste caso, que ser Deus — o que é uma impossibilidade objectiva.

Os homens querem ser felizes, mas não sabem exactamente o que querem para ser felizes — Kant corrobora Santo Agostinho —, exigência que apenas a religião, mesmo nos limites da razão, pode satisfazer.

Uma vez que a ética deve ser universal (a ética é para todos), e que o Direito não deve reduzir a norma ao facto, o “direito subjectivo à felicidade” de cada ser humano não pode fundamentar uma regra ética (ou parte dela) nem uma lei positiva.

O “direito subjectivo à felicidade” é um ideal de imaginação (de cada indivíduo), e não um ideal da razão.

O “direito à felicidade da sociedade” é uma ficção. Uma regra moral é apenas objectivamente válida na ordem prática, da mesma forma que uma lei positiva é válida na ordem teórica — na medida em que uma regra moral se impõe sem condições contingentes e subjectivas (ou seja, uma regra moral, sendo universal, não pode depender da experiência isolada, das ficções e dos ideias de imaginação dos indivíduos).


O que está a acontecer na sociedade europeia (e não só) é uma tentativa de destruição do Estado de Direito através da pulverização das normas legais, reduzindo-as aos factos. E é sobretudo uma tentativa de destruição da ética através de uma atomização da sociedade, traduzida na recusa da universalidade da ética sob pretexto de que “cada indivíduo tem o direito” de ver o seu “direito à felicidade” traduzido nas regras morais, transformando a ética exactamente no seu contrário. E quem está por detrás desta tentativa da destruição do direito e da ética, são os promotores dos novos totalitarismos que se anunciam.


“No entanto, a insatisfação do ser humano é a força motriz que o impulsiona para os complicados meandros da ciência, com vista a reduzir o seu esforço físico e intelectual e encarrilar pelo itinerário materialista com vista à supremacia; no fundo, a sua verdadeira paixão.

A insatisfação obriga à invenção, seja do que for. Esse descontentamento é, indubitavelmente, a alma da criatividade e do talento que constituem o cadinho de onde é derramado todo o progresso até hoje conhecido.”

ibidem

É um erro pensar que por detrás das descobertas da ciência está “o desejo de felicidade”.

Quem estudou alguma coisa da filosofia da ciência (epistemologia) sabe que o avanço da ciência se deve à imaginação como faculdade do espírito (e que é independente do “desejo de felicidade”) — a imaginação não é simples imitação do real por imagens: consiste em produzir representações e, por isso, pressupõe uma actividade do espírito. Esta actividade não consiste apenas no facto de se representar objectos ou seres ausentes: consiste também na possibilidade de combinar as ideias ou de antecipar acontecimentos, e mesmo na faculdade de nos fazermos representar no que não existe (ou ainda não existe), ou seja, na imaginação criadora.

Podemos dizer, contudo, que a imaginação não cria verdadeiramente, mas antes que ela inventa combinações novas com elementos dados. No entanto, é necessário que as combinações sejam completamente livres. A imaginação criadora manifesta a liberdade do espírito que se confunde com a faculdade humana que “ir para lá” do dado, de pensar o ausente, o passado, o futuro e o possível — independentemente do desejo de felicidade.

Sábado, 13 Maio 2017

Jordan B. Peterson, Kant, e o Princípio da Intencionalidade da Natureza

Filed under: Jordan B. Peterson,Kant,metafísica — O. Braga @ 11:22 am

 

Jordan B. Peterson é professor de psicologia da universidade de Toronto, Canadá. É um nome a reter na nossa memória, por razões que irei descrevendo aqui. Perante a pergunta: “¿você acredita em Deus?”, Peterson responde:

 

 

De certa forma, Jordan B. Peterson dá uma determinada resposta a este texto do Alberto Gonçalves, por um lado. E por outro lado, Peterson segue o pensamento de Kant que dizia que, em ciência, devemos investigar e basear racionalmente as teorias científicas como se Deus existisse.

Kant chamou-lhe Princípio da Intencionalidade da Natureza, que nos convida a investigar a Natureza como se as leis que nós descobrimos fossem parte de um conjunto de leis organizadas por um “entendimento” diferente de nós próprios — uma inteligência diferente da inteligência humana. Se procedermos desta forma — segundo Kant — somos obrigados a investigar o lugar das leis particulares no conjunto da Natureza como um todo (a procura da explicação teleológica: “¿por que existe esta lei da Natureza?”).

Na “Crítica do Juízo” (1790), Kant escreveu:

“O juízo reflectivo, que é obrigado a ascender do particular ao universal [indução], exige nesta relação um princípio que não pode extrair da experiência, uma vez que a sua função é estabelecer a unidade de todos os princípios empíricos em princípios mais elevados e, assim, estabelecer a possibilidade da sua subordinação sistemática. De um tal princípio transcendente, o juízo reflectivo poderá apenas fazer-se em forma da lei dele e para ele”.

O princípio regulador que o juízo reflectivo (juízo científico) estabelece para si próprio é a intenção da Natureza. Embora não possamos provar que a Natureza está intencionalmente organizada (ou seja, não podemos provar que o Criador da Natureza existe), devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a Natureza como se fosse organizada por uma entidade exterior ao ser humano — acreditando que a sistematização do conhecimento empírico é apenas possível se agirmos com base no pressuposto de que uma compreensão, para além da nossa, nos forneceu leis empíricas organizadas de modo a que nos seja possível uma experiência unificada.

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