perspectivas

Domingo, 29 Abril 2012

A ética e a moral não podem ser definidas ou determinadas pela ciência

A ética e a moral não podem ser definidas ou determinadas pela ciência.

A ideia de “responsabilidade moral” reside na experiência subjectiva, enquanto que a ciência só concebe acções determinadas por leis da natureza, e não concebe autonomia, nem sujeito, nem consciência e nem responsabilidade. A noção de “responsabilidade” é não-científica. A ética e a moral pertencem ao domínio da metafísica que se caracteriza pela falta de “bases objectivas” — aqui entendidas no sentido naturalista [naturalismo cientifismo metodológico].

Para tentar contornar esta realidade objectiva e insofismável que consiste no facto de a ciência não poder determinar a ética, a ciência transformou-se, ela própria, em uma forma de metafísica [evolucionismo, naturalismo e neo-ateísmo], para assim poder obter a legitimidade para opinar sobre a ética e sobre a moral. É assim que surgem as “teorias científicas” não refutáveis na sua essência, como por exemplo, a teoria do Multiverso, ou as teorias evolucionistas em geral [por exemplo, a teoria do epifenomenalismo de Thomas Huxley, que ainda hoje subsiste entre os darwinistas, evolucionistas e naturalistas].

Entrando pela metafísica adentro, a ciência — feita por cientistas que são, eles próprios, sujeitos — pretendeu redefinir a ética e a moral segundo princípios deterministas que “varriam” o sujeito, e estabelecendo apenas determinações, leis e estruturas [estruturalismo]. Neste sentido, a ciência pretende ser uma espécie de nova religião [imanente e política], cuja classe dos novos sacerdotes é composta principalmente pela classe dos cientistas.

É este o fundamento do declínio da civilização ocidental e para o qual a própria comunidade científica contribuiu de forma activa [a "traição dos intelectuais"]:

Este naturalismo errado devassou a cultura intelectual do século XX, mas é no dealbar do século XXI que nos deparamos com o auge da “doença da ciência” na cultura antropológica [a criação massiva de zômbis em circulação na nossa sociedade]. Estamos em presença da “traição dos intelectuais” [segundo o conceito de Julien Benda]. Quando o naturalismo [ou cientifismo metodológico] foi erroneamente aplicado ao sujeito [humano], seja por exemplo por Durkheim ou por Freud, iniciou-se todo um processo de degradação humana através da degradação da ética e da moral na sociedade ocidental.

Na medida em que 1) o cientista deve procurar a objectividade; 2) em que a objectividade requer um despojamento de valores; 3) e em que o cientista é um sujeito [um ser humano] e a comunidade científica é composta por seres humanos [sujeitos] — a ciência [e sobretudo as ciências sociais] só muito raramente consegue libertar-se das valorações [éticas] da sua própria camada social, de modo a poder estabelecer uma independência valorativa e objectiva.

Em consequência, surgiu no século XX um fenómeno massivo de “liquidação do sujeito”, imposto por uma elite cientificista e neognóstica [gnosticismo moderno: ver Eric Voegelin], e que se traduziu na emergência das religiões políticas totalitárias [por exemplo, o eugenismo característico dos “progressistas”, evolucionistas e socialistas; o nazismo e o comunismo]. Este processo neognóstico e cientificista de “liquidação do sujeito” levou a uma dissociação mental extrema entre a comunidade científica, e a uma inversão da moral [ver Olavo de Carvalho].

O marxismo é um exemplo dessa dissociação mental extrema e da inversão da moral: por um lado, o marxista liquida a ética e a moral [e também toda a filosofia], classificando-a de “subjectiva” e idealista, ao mesmo tempo que denuncia os tabus tradicionais e históricos; e por outro lado, entrega-se a um excesso ético [por exemplo, o puritanismo de Francisco Louçã] que denuncia toda a oposição e crítica como um embuste, e estabelecendo simultaneamente novos tabus contrapostos aos tabus tradicionais [por exemplo, a substituição do tabu do aborto pelo novo tabu que proíbe as corridas de touros]. O marxismo — que se diz, dele próprio, científico — faz a crítica da moral tradicional de uma forma extremamente moralizante, mas moralmente invertida e até contra-natura.

[este verbete é dedicado aos leitores do blogue Rerum Natura]

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8 Comentários »

  1. Meu caro. Excelente texto filosófico. Todavia discordo em parte. Antes de mais diferenciar ética de moral. A primeira define-se por uma componente mais racional e científica enquanto a segunda por uma vertente cultural e subjetiva. Admito, concordando consigo então em parte, que a moral não é definida pela ciência. Denoto todavia ainda no seu texto uma ortodoxia de pensamento, que tange a cegueira, quando critica o evolucionismo. As teorias evolucionistas não têm nada de ético, ou moral, puro determinismo, atestado pela descoberta dos genes e do ADN. Sou Cristão, e encaro os Génesis como uma Matéfora. Se concordei plenamente com o teor do texto, perdeu toda a credibilidade quando criticou as teorias evolucionistas. Concordo ainda que no domínio da psique, das questões fraturantes dos nossos tempos, sim, a ciência tornou-se uma arma de arremesso que balança consoante as ideologias. Saudações e que Deus o abençoe.

    Comentário por João Pimentel Ferreira — Sexta-feira, 1 Novembro 2013 @ 8:36 am | Responder

    • 1/

      Por exemplo, em Espinoza, a “Ética” é simultaneamente a exposição de uma moral e um Tratado de metafísica. Na linguagem comum, e para que toda a gente entenda, eu não faço a distinção entre ética e moral. Recordo que isto é um blogue que é lido por gente dos 7 aos 77 anos (como o Tintin ).

      Para se explicar a diferença entre uma coisa e outra, podemos dizer que “a ética está para a moral como a musicologia (e o musicólogo) está para a música”. Mas em termos de blogue, e para não complicar mais aquilo que por si mesmo já é complicado, não faço essa diferença. Portanto, é propositado, e não um lapso.

      2/


      “Denoto todavia ainda no seu texto uma ortodoxia de pensamento, que tange a cegueira, quando critica o evolucionismo.”

      Criticar o evolucionismo não pode ser considerado, por si só, como “cegueira”, a não ser que a condenação da crítica ao evolucionismo seja, em si mesma, uma cegueira e uma forma de afirmação de um novo e moderno dogma.


      “As teorias evolucionistas não têm nada de ético, ou moral, puro determinismo, atestado pela descoberta dos genes e do ADN.”

      Leia um qualquer livro de Richard Dawkins, e depois venha aqui repetir o que você escreveu. Mas repita com honestidade intelectual!.

      Se entendermos a evolução (no sentido de evolucionismo) como o processo mediante o qual o insondável ou Causa Primeira (Deus) se apresenta na dimensão do espaço e do tempo, então, a afirmação de que o espírito, a alma e a razão são produtos da evolução não representa qualquer problema para um espírito inteligente, e nem para o cristão.

      Porém, se a evolução for entendida simplesmente em termos materialistas, a realidade da autoconsciência e do acesso ao domínio das verdades perenes arrebenta com o quadro evolucionário da ciência. Será que me soube explicar?

      Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 1 Novembro 2013 @ 9:08 am | Responder

      • ok, mea culpa. Pensei que criticava as teorias evolutivas de Darwin e da evoluçâo através dos primatas, pois como sabe há ainda muita gente que acha que o Homem veio de Adão e Eva. Obviamente que existe um causa Primeira, Deus, que sucedeu há 14 mil milhões de anos, e desde então Ele expande a Sua obra através do Cosmos.

        Comentário por João Pimentel Ferreira — Sexta-feira, 1 Novembro 2013 @ 12:07 pm

  2. Você falou em “teorias evolutivas”. Repito: teorias. ¿O que é uma teoria?

    Para quem não sabe o que é uma teoria, por favor consultar o seguinte sítio:

    http://sofos.wikidot.com/teoria

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 1 Novembro 2013 @ 2:47 pm | Responder

    • Ok, foi um termo coloquial, referia-me às provas que atestam que a teoria evolucionista é verdadeira.

      Comentário por João Pimentel Ferreira — Sexta-feira, 1 Novembro 2013 @ 3:22 pm | Responder

      • Também existem provas de que o evolucionismo — no sentido de macro-evolução — é uma impossibilidade objectiva. Por favor ler o livro “A Caixa Negra de Darwin”, do bioquímico americano Michael Behe, que está à venda em qualquer boa livraria.

        Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 1 Novembro 2013 @ 3:30 pm

    • A metafísica não é o transcendente, é o TODO, o vísivel e o invisível. Se for tão puritano assim na aceitação do que é uma prova como consta no artigo, poderá questionar-se até da sua própria existência. Talvez Decartes tenha resposta.

      Comentário por João Pimentel Ferreira — Sexta-feira, 1 Novembro 2013 @ 3:29 pm | Responder

      • Isso é assunto muito complicado para ser abordado num comentário.

        Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 1 Novembro 2013 @ 3:33 pm


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