perspectivas

Segunda-feira, 26 Outubro 2009

Não confundir religião com submissão em relação à política

Estou de acordo com a ideia de que José Saramago tem todo o direito de publicar o que quiser e como quiser; o que se passa realmente é que a autoridade moral está sempre do lado de quem admite “a priori” a liberdade de expressão, e não de quem luta para que a nossa liberdade de expressão colectiva seja coarctada ― Voltaire dizia qualquer coisa deste género ― como é o caso de Saramago, que sendo defensor da ditadura do proletariado, luta activamente e todos os dias para que as opiniões dos cidadãos (que não as dele) sejam censuradas. Portanto, se existe uma autoridade moral quanto ao exercício da liberdade, ela é minha e de outros como eu, e não de Saramago. Desafio a quem quer que seja que coloque em causa, de uma forma racional, este ponto prévio.

Em segundo lugar, devemos definir o que é uma “pessoa religiosa”. Embora a Igreja Católica sempre tenha mostrado muitas reservas em relação ao sistema de pensamento de Immanuel Kant ― a ponto de Eric Voegelin se sentir na necessidade de dizer publicamente que tinha renunciado ao neo-criticismo ―, eu “estou-me nas tintas” para essas reservas porque concordo em muita coisa com o filósofo alemão.

Na sua “Crítica da Razão Prática”, Kant demonstrou racionalmente que ser “religioso” não é a mesma coisa que ser “santo”. E mais demonstrou que o conceito de “santidade” se opõe ao conceito de “moralidade”. Aliás, Kant apenas seguiu, neste particular, as linhas mestras de S. Tomás de Aquino que escreveu, preto no branco, que “não devemos respeitar quem não merece respeito” (sic), exactamente no sentido em que o cristão ― e o religioso em geral ― não tem que bajular e mostrar submissão em relação a quem o persegue.

Quem atacou de forma ignóbil e desonesta ― e toda a sua vida ― o cristianismo, foi José Saramago, ao mesmo tempo que defendia o exclusivismo da sua religião marxista e materialista que resulta na ditadura do proletariado. Se alguém foi ignóbil ao longo de uma vida inteira em relação às religiões dos outros e exclusivista em relação à sua, foi Saramago. Portanto, repudio veementemente o que foi escrito aqui.

Se existe um “paradigma democrático” que permite a Saramago insultar a minha religião, o mesmo “paradigma democrático” deverá servir para que eu insulte a religião de dele. Quid pro quod.

A posição de “beatitude” e de submissão em relação aos que nos perseguem, não é racional. O ser racional finito nunca pode atingir a santidade, que é condição divina. Ao ser humano, como ser racional finito, resta-lhe o dever de seguir a lei moral, tendo em conta que moralidade deve ser universal; e a partir do momento em que o ser humano finito possa ser considerado como sendo “santo”, a moralidade deixa de fazer sentido.

José Saramago tem tirado partido, ao longo de anos, da confusão entre o “dever da lei moral” e o conceito de “santidade” da ICAR que obriga a “dar a outra face”. E por isso é que ele fala alto e grosso sobre a sua (dele) religião, e os cristãos aplaudem quiçá em busca de uma “santidade” impossível à condição humana.


Em relação a este comentário:

  1. Em relação à liberdade de expressão, estamos conversados porque o autor do comentário não colocou em causa a pertinência e a razoabilidade do primeiro ponto deste postal.
  2. Se vamos pelas “limitações legais”, aconselho o autor do comentário ― que é jurista ― a consultar o artigo 251 alínea 1 do Código Penal. Quando Saramago diz na TV (mais ou menos isto, mas posso saber exactamente quais foram as palavras dele) que “o Deus cristão é um bandido e não é de fiar”, está a escarnecer de milhões de pessoas em razão da sua crença (até 1 ano de prisão). Portanto, como estamos num país de brandos costumes e Saramago diz na televisão o que lhe dá na real gana, acho estranho que o comentarista venha agora alegar “limitações legais” em relação a quem denuncia ― nos mesmos termos legais ― a burrice de Saramago. Ele que me processe e verá o resultado.
  3. Em função do ponto anterior, acho estranho que o comentarista ache natural que Saramago insulte milhões de pessoas, mas já não ache natural que alguém insulte Saramago. Eu vou ser comedido na minha análise do comentário, e portanto sobre esta dualidade de critérios não digo mais nada.
  4. É falsa a afirmação:

    “Se J. Saramago é defensor de que se deve coarctar a liberdade de expressão, esta sua visão não define nenhum paradigma de poder dentro da nossa sociedade.”

    Falsa! Parte do princípio de que a História chegou ao fim. Falsa, para não dizer outra coisa.


  5. Dizer que se ele defende que não deve haver liberdade de expressão e de criação para não lhe reconhecer tal direito é o mesmo que dizer que um assassino – que não respeita a vida alheia – deve ser morto. É usar o paradigma do agente para o (in)justiçar.è o “olho por olho, dente por dente” judeu, que não perfilho.

  6. Ninguém disse neste postal que Saramago “não tem direito à liberdade de expressão”. Aconselho o comentarista a ler o postal outra vez ― não tem do direito de colocar na minha boca palavras que eu não proferi.
  7. Uma coisa é o “olho por olho”, e outra coisa é o direito à indignação. De uma coisa o comentarista pode estar certo: ao religioso não é possível a santidade, e o dever de cumprimento da lei moral é universal, isto é, não pode ser só aplicável a uns, e não a outros.
  8. J. Saramago, no seu livro “Caim” criticou o Deus de Caim e Abel e, cá fora, em conferências de imprensa atacou a Bíblia e o seu “deus”.

  9. Falso! Uma coisa é fazer uma crítica ideológica à bíblia ― o que é uma estupidez porque se trata de uma crítica hermenêutica de um texto com 3.000 anos, feita à luz da mentalidade actual (“falácia de Parménides”). Outra coisa é classificar o Deus de uma religião monoteísta em função de um texto qualquer.

    Seria como se eu dissesse que “o Alá islâmico é um cabrão” em função de eventuais contradições do Corão. Se o comentarista não percebeu isso, não sei como explicar melhor.

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3 comentários »

  1. Caro Orlando:

    Da mesma maneira que reconheço a José Saramago o DIREITO à liberdade de expressão e de criação literária, também reconheço tal DIREITO a si.

    O meu amigo pode tecer as críticas que bem entender quanto a Saramago, com as limitações legais, ou seja, parece-me que chamar “burro” àquele e dizer que “não é doutor coisa nenhuma” (o sentido é este), porque não tem um grau académico e,logo, passível de crítica à Vasco Pulido Valente, ultrapassa a mera crítica e o direito à liberdade de expressão para se entrar no campo do insulto pessoal e não na “crítica” ao que ele diz.

    Não sou procurador de Saramago nem pretendo defender o seu “paradigma” (com o qual não concordo, aliás), como o afirmei no “lugar” que o meu amigo “repudia veementemente”.

    Reconheço a J. Saramago o DIREITO à liberdade de expressão e de criação literária dentro do (repito) NOSSO PARADIGMA DEMOCRÁTRICO, porque este é o paradigma do PODER (político) vigente e que nos deve orientar a TODOS (religiosos ou ateus, agnósticos ou o que quer que seja).

    Se J. Saramago é defensor de que se deve coarctar a liberdade de expressão, esta sua visão não define nenhum paradigma de poder dentro da nossa sociedade.

    Dizer que se ele defende que não deve haver liberdade de expressão e de criação para não lhe reconhecer tal direito é o mesmo que dizer que um assassino – que não respeita a vida alheia – deve ser morto. É usar o paradigma do agente para o (in)justiçar.è o “olho por olho, dente por dente” judeu, que não perfilho.

    Ora, o paradigma a usar é o do poder vigente, sob pena de se cair fora da lei.

    J. Saramago, no seu livro “Caim” criticou o Deus de Caim e Abel e, cá fora, em conferências de imprensa atacou a Bíblia e o seu “deus”.

    Toda a gente tem o direito, também, de o atacar e rebater os seus (dele) argumentos.

    Porém, o quadro em que o deve fazer, não é o daquele autor, dentro dos seu (dele) paradigma, mas sim dentro do NOSSO PARADIGMA POLÍTICO, dentro do paradigma de poder que vigora.

    É que J.Saramago tem o DIREITO à liberdade de expressão e de criação literária, mas NÃO TEM PODER POLÍTICO.

    Não passemos a mensagem de que ele o tem e não confundamos esta posição com subserviência às suas ideias.

    Como o meu amigo bem sabe, sou perseguido por instituições do ESTADO e nunca virei a cara a um bom combate (como tenho exposto no meu blogue) porque o meu paradigma religioso assim o impõe.

    Mas sou consciente que esse meu combate se faz dentro do NOSSO PARDIGMA POLÍTICO que referi.

    Cumprimentos.

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    Comentar por Victor Rosa de Freitas — Segunda-feira, 26 Outubro 2009 @ 4:04 pm | Responder

  2. Nota: não são permitidos comentários insultuosos, isto é, “comentários à José Saramago”.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 27 Outubro 2009 @ 7:55 am | Responder

  3. […] Arquivado em: Geral — O. Braga @ 11:38 am Em função de um comentário colocado neste postal pelo Sr. Victor Freitas ― que embora eu tivesse apagado por considerar que continha matéria de […]

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    Pingback por O bom negócio é quando as partes ganham « perspectivas — Terça-feira, 27 Outubro 2009 @ 11:40 am | Responder


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