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Quarta-feira, 11 Janeiro 2017

O erro protestante do Anselmo Borges

 

O facto de o Anselmo Borges ser católico é um erro de casting: ele deveria assumir o seu protestantismo, e toda a gente ficaria a ganhar.

Os católicos assumem a figura do purgatório — que os protestantes não assumem. Para o Anselmo Borges e para os protestantes, o purgatório não faz parte das contas: as almas vão directamente ao encontro de Deus, ou vice-versa.

Para o Anselmo Borges, Mário Soares foi uma pessoa muito importante na política esquerdista e na democracia, e por isso foi directamente para o Céu (sem passar pela casa da Partida).

É assim que aquela mente desajeitada vê o destino das almas: se fores de esquerda e democrata, vais para o Céu; e fores como o Padre Pio de Pietrelcina, que de democrata tinha pouco e de esquerda nada, vais para o inferno.

Sábado, 24 Dezembro 2016

O Anselmo Borges é um muito optimista

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:37 am
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politicamente-correcto-grafico-300-webA definição de politicamente correcto: é uma doutrina promovida por uma minoria ilógica e desfasada da realidade (psicótica), e radicalmente propagandeada pelos me®dia sem escrúpulos, que defende o princípio segundo o qual é perfeitamente possível agarrar um cagalhão pela sua parte mais limpa.

Ora, pretender agarrar um cagalhão pela sua parte mais limpa é ser muito optimista.

E o Anselmo Borges, nas suas crónicas no Diário de Notícias, não tem feito outra coisa senão ser muito optimista: tem sido muito optimista em relação à revolução do papa Chiquito, por exemplo; e para poder agarrar o cagalhão pela sua parte asséptica, o Anselmo Borges reinterpreta a realidade de forma heterodoxa: por exemplo, quando diz que Deus quis “ser aquele que está connosco na história da libertação” (¿do capitalismo?!), em vez de ser aquele que disse a Moisés: “Eu sou Aquele que sou” (O “Ser Intemporal”, a “Ordem do Ser que inclui o Não-Ser”).

O Anselmo Borges olha para um pau e vê uma pedra preciosa. É muito optimista. É tudo uma questão de interpretação da realidade; ou “voando sobre um ninho de cucos”. Por exemplo, quando compara Sócrates e S. Paulo:

“(…) de facto, segundo o filósofo grego Sócrates, por exemplo, "ninguém é mau voluntariamente", mas São Paulo queixa-se, porque "faço o mal que não quero e não faço o bem que quero". Portanto, fazer o mal depende só da ignorância ou também, e sobretudo, da vontade má?”

O que Sócrates quis dizer é que ninguém faz o mal pelo prazer de fazer o mal (a não ser que tenha perdido a razão e necessite de ser interditado): mesmo quem faz o mal aos outros, fá-lo para o seu próprio bem — e portanto, há sempre uma faceta positiva no negativo (o não-ser paz parte do Ser: “Eu Sou Aquele Que Sou”).

Assim interpretado correctamente, Sócrates não está em contradição com S. Paulo. Mas o Anselmo Borges, à semelhança do politicamente correcto, especializou-se em encontrar contradições onde elas não existem, para assim convencer toda a gente (através da estimulação contraditória) a pegar na parte mais limpa do cagalhão.

Sábado, 10 Dezembro 2016

O romantismo do catolicismo New Age

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:27 am
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Há muito tempo que não comento os artigos do José Luís Martins Nunes, porque os ditos são elaborados a partir da preponderância da emoção que marca a cultura actual, por um lado, e por outro lado, os textos seguem a linha ideológica do Existencialismo pessimista e paralisante de Kierkegaard, que, juntamente com Karl Marx e com Nietzsche, marcaram o fim da Auctoritas na cultura antropológica da Europa.

Por exemplo: diz o Nunes que “ninguém nasce herói”. Eu penso o contrário: todo o ser humano (desde a concepção) é um herói — incluindo (e sobretudo) aquele que aparentemente nasce inferiorizado em relação ao vulgar dos homens. Somos todos heróis, mas há uns mais heróis que outros. Por exemplo, os seres humanos com síndroma de Down são heróis especiais; e de tal forma que, em França, o poder político proibiu que se falassem neles, porque de heróis passaram já à condição de super-heróis.

Escreve o Nunes:

“Para conhecer alguém devemos observá-lo com paciência durante bastante tempo, a fim de identificar qual a sua trajectória entre erros e acertoso tempo corre sempre a favor da verdade!”

Ora aqui está uma frase complicada!. O que para mim é erro, para outra pessoa pode não ser.

Por exemplo, para mim é erro a comunhão de recasados recasados recasados que se recasaram mais uma vez; para o papa Chico (e para o Nunes), a comunhão eucarística de recasados recasados recasados recasados recasados recasados recasados recasados recasados recasados que se tornaram a recasar, já não é erro.

A ideia segundo a qual “o tempo corre sempre a favor da verdade” induz-nos a noção historicista e errada segundo a qual “estamos do lado certo da História”: hoje, a guerra cultural é a de saber “quem está do lado certo da História”, como se o ser humano conhecesse o futuro.

E, normalmente, do lado certo da História faz parte o apelo à emoção em detrimento da razão — é este novo romantismo coevo que afirma (como faz o Nunes) que “ame e lute pelo amor, em qualquer circunstância… custe o que custar. A felicidade está nessa luta”sem se definir “amor”, generalizando o conceito de “amor” a tudo e mais alguma coisa, como convém aos românticos actuais.

Domingo, 2 Outubro 2016

O Frei Bento Domingues e o Padre Pio de Pietrelcina

 

Quem ler o que o Frei Bento Domingues escreve, e o que escreveu o Padre Pio de Pietrelcina, encontramos muitas discordâncias fundamentais entre os dois, acerca da religião.

“O dia especialmente consagrado a Deus tem de coincidir com o acontecimento da libertação, da alegria, da felicidade do ser humano. Deus não pode ser louvado à custa da humanidade. O Sábado é para o ser humano, não é o ser humano para o sábado. Deus quer misericórdia. Não se alimenta de sacrifícios humanos”.

A verdadeira religião é crítica

Padre-PioA forma como o Frei Bento Domingues apresenta o sacrifício humano perante Deus, é diabólica. O Frei Bento Domingues apresenta o deus comum dos católicos como uma espécie de leviatão bíblico que devora os seres humanos através do sacrifício, e depois diz que esse leviatão não é o Deus de Jesus Cristo.

E o Frei Bento Domingues faz referência ao livro do Anselmo Borges, pessoa que defendeu a legalização do aborto em Portugal (Les bons esprits se rencontrent…) — o aborto, que é o sacrifício supremo e involuntário do ser humano que alimenta o altar luciferino do dinheiro que ambos dizem combater. Como escreveu o poeta brasileiro Mário Quintana: “O aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato. É um roubo… Nem pode haver roubo maior. Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo. O aborto é o roubo infinito”.

Se alguém perguntar ao Frei Bento Domingues ¿o que é “a felicidade do ser humano”? a que ele se refere no seu textículo, ele não terá certamente resposta objectiva — a não ser que se trate de um imbecil. E eu suspeito que o Frei Bento Domingues é um imbecil a quem os me®dia portugueses imbecilizados têm dado uma atenção muito especial.

Os católicos actuais estão em uma encruzilhada: ou seguem os conselhos dos Freis Bentos Domingues e dos Anselmos Borges deste mundo, ou escolhem seguir, por exemplo, os conselhos do Padre Pio de Pietrelcina. O princípio, aqui, é o do terceiro excluído.

Sábado, 2 Julho 2016

O Anselmo Borges e a privatização da religião

 

A privatização da religião — a remessa do culto religioso para os lares privados — é uma característica do protestantismo, em contraponto ao catolicismo tradicional. O catolicismo sempre celebrou a religião em locais públicos e em comunidade alargada.

Os primeiros cristãos celebravam a Eucaristia em casas particulares, com todos à volta da mesma mesa; ali, pela primeira vez na história, escravos e senhores sentaram-se uns ao lado dos outros. De acordo com o Novo Testamento, "nem sequer era o presbítero que presidia à celebração, embora pouco a pouco se tenha imposto que o presidente da Eucaristia fosse aquele que presidia à comunidade, talvez para aprender que devia exercer a autoridade não impositivamente, mas igualitariamente, e procurando o máximo de comunhão possível".

Quando os cristãos se tornaram multidão, foram necessários locais amplos, o latim deixou de ser entendido pelo povo, os assistentes já não participavam, com o celebrante de costas e à distância e as pessoas a fazerem "outra coisa" (rezar o terço…) enquanto "estão na Missa", atentos ao momento da "consagração" e, depois, alguns vão receber a hóstia. Tudo se centrou no culto da hóstia, "totalmente separado do gesto do partir, partilhar o pão". Da refeição passou-se a um acto de culto, com uma deturpação fundamental da Eucaristia: "Separar completamente a matéria (pão e vinho) do gesto (partilhá-los)", quando "partir o pão significa compartilhar a necessidade humana (da qual o pão é símbolo primário) e passar a taça é comunicar a alegria, da qual o vinho é outro símbolo humano ancestral". O corpo e o sangue são a pessoa e a vida de Jesus vivo.”

Anselmo Borges

1/ Convém dizer o seguinte: os historiadores (Boak, Russell, MacMullen, Wilken) apontam para uma população total de cerca de 60 milhões de pessoas em toda a área do império romano, após a crucificação de Jesus Cristo. O Cristianismo, então nascente, é considerado um fenómeno sociológico, que passou de 1.000 seguidores (no total) no ano 40 d.C., para 7.500 no ano 100 d.C., 218.000 no ano 200 d.C., e seis milhões no ano 300 d.C..

Quando as comunidades cristãs atingiram as muitas centenas de milhares de pessoas, o comunitarismo de que fala o Anselmo Borges deixou de ser possível, em termos práticos, nas diversas comunidades cristãs no império romano.

Ou seja, o comunitarismo cristão do “tudo em comum”, segundo o Anselmo Borges, só foi praticamente possível enquanto a população cristã total, e em todo o império romano, era apenas de alguns milhares — no século I da nossa Era.

Comparar as comunidades dos cristãos do século I, por um lado, com a realidade do século III, por outro lado e por exemplo, ou com a realidade actual — como faz o Anselmo Borges —, é um sofisma; e só se compreende esse sofisma do Anselmo Borges por má fé, porque se trata de um professor universitário. Por um lado, parece que o Anselmo Borges defende a remessa do culto cristão para as casas particulares; e por outro lado, o Anselmo Borges não tem em conta o aspecto místico da Eucaristia e só valoriza o aspecto político da repartição do pão e do vinho: para o Anselmo Borges, a Eucaristia é um rito estritamente político.

2/ O Anselmo Borges critica o “culto da hóstia” — como se pudesse existir religião propriamente dita sem culto. “Culto” vem de “cultura”. Sem cultura não há religião nem civilização. Encarar o “culto da hóstia” como coisa negativa é detractar a religião cristã — para além de retirar da Eucaristia o seu aspecto místico.

3/ Na Idade Média, antes da Reforma e da Contra-Reforma que tornaram o Cristianismo mundano, a comunhão eucarística nas paróquias efectuava-se na Páscoa, no Natal e no Pentecostes — emulando, aliás, Jesus Cristo que celebrou a Eucaristia uma só vez e na Páscoa. Muitas paróquias só comungavam na Páscoa; e a comunhão precisava de ser preparada com antecedência, pelo jejum, pela abstinência, e pela confissão (e a confissão era pública: o confessionário só surgiu no século XVI). E a comunhão eucarística terminava com a festa na paróquia.

A festa que se seguia à Eucaristia comunitária da Páscoa, nas paróquias, era muitas vezes realizada na própria nave da igreja (não existia outro espaço comunitário acolhedor), com um jantar comunitário de cordeiro Pascal ou coisa parecida.

Com o puritanismo protestante, e a imitação da Igreja Católica (da Contra-Reforma) em relação ao protestantismo, levou a que um acto ritual (a Eucaristia colectiva) que se realizava poucas vezes por ano, passou a realizar-se todos os Domingos, retirando-lhe a índole excepcional que tinha nos séculos anteriores.

4/ A ideia do Anselmo Borges segundo a qual a missa medieval só se realizava em latim, é falsa.

No fim da comunhão do sacerdote, a missa medieval continuava com orações em língua indígena — aquilo a que os ingleses chamavam de “bedes” e os franceses de “prone” —, orações ditas na própria língua em intenção da comunidade, familiares, amigos e inimigos, pelos vivos e pelos mortos. Portanto, é falso que a missa medieval fosse toda ela rezada em latim.

Quinta-feira, 23 Junho 2016

O puritanos da Esquerda moderna, e os puritanos do século XVII (parte 1)

 

Os Ranters eram uma seita calvinista inglesa do século XVII. Juntamente com os Seekers e com os Quakers, formavam as principais seitas calvinistas em Inglaterra.

quakerOs Ranters, que interpretavam a sua própria vitória sobre o “corpo” e sobre a “carne” (sobre a “matéria”, em termos gerais) denominando-se a eles próprios como o “corpo de Deus” — defendiam o fim da hierarquia social e o fim da propriedade privada, para além de serem contra o casamento monogâmico e contra a privacidade da família nuclear tradicional, porque diziam eles que a propriedade privada e o casamento monogâmico eram obstáculos à formação de uma verdadeira comunidade (tal como Engels defenderia dois séculos mais tarde).

Mas, ao mesmo tempo que queriam abolir a hierarquia social e a propriedade privada, os Ranters acreditavam na predestinação da “salvação dos eleitos”; e eles consideravam-se a si próprios como os “eleitos”. Ou seja, só os eleitos — eles próprios — seriam salvos, e por isso toda a gente deveria pensar como eles para serem salvos.

Temos aqui a génese do pensamento totalitário da Esquerda moderna.

Os Quakers e os Seekers não diferiam muito dos Ranters. Os Seekers, para além de concordarem com a doutrina dos Ranters, eram uma seita terrorista: para eles, não era suficiente que os “eleitos” se mantivessem fora do mundo (vivendo em uma espécie de apartheid): deviam pegar em armas, destruir todos os governos existentes, e erigir um regime teocrático (totalitário), com uma disciplina divina.

Se retirarmos dessas crenças calvinistas os conceitos de “Cristo” e de “Espírito”, vemos semelhanças com a Esquerda. É neste sentido que Eric Voegelin tem razão quando relaciona espistemologicamente os gnósticos da Antiguidade Tardia, os movimentos puritanos do século XVI, e o movimento revolucionário do século XIX e seguintes.

Segunda-feira, 9 Maio 2016

A Esquerda anticatólica

 

“El presidente de Castilla-La Mancha, el socialista Emiliano García-Page, asistió el pasado jueves a la entrega de los Premios Internacionales de Traducción Rey Abdulá ben Adbelaziz, concedidos por Arabia Saudí, que en la edición de este año se han entregado en la ciudad de Toledo, cuya Escuela de Traductores se ha contado entre los galardonados en esta séptima edición”.

burka-socialista

Sábado, 2 Abril 2016

Anselmo Borges e o radicalismo islâmico

 

Novo texto do Anselmo Borges, desta vez sobre o “radicalismo islâmico” (passo a redundância).

Algumas considerações minhas: desde logo, Michael Walzer não é propriamente de Esquerda (como afirma Anselmo Borges): ele é aquilo a que se chama em filosofia um “comunitarista” — de “comunitarismo” : como, por exemplo, Charles Taylor, Michael Sandel, Alasdair MacIntyre, que são tudo menos de Esquerda —; uma característica genérica da Esquerda é o internacionalismo, e o “comunitarismo” de Michael Walzer impede-o de entrar na categoria da Esquerda.

Depois, o Anselmo Borges defende a ideia de que o Alcorão deve ser treslido, ou seja, sujeito a uma determinada interpretação que obnubile aquilo que lá está realmente escrito.

islam-evolution-webNo seu livro “A Doença do Islão”, Abdelwahab Meddeb escreveu que o Islamismo foi relativamente pacífico enquanto a população islâmica era analfabeta e, por isso, não podia ler o Alcorão — mas estava à mercê dos humores circunstanciais das elites políticas islâmicas (o califa): eram as elites políticas do califado que determinavam as condições da Jihad.
A partir do momento em que a literacia se propagou no mundo islâmico, tornou-se impossível às elites políticas controlar o radicalismo instituído pelo próprio Alcorão. Quem adopta o Alcorão como fonte doutrinária não pode ser outra coisa senão um radical político e religioso — porque o Islamismo não é propriamente uma religião como as outras, mas antes é um princípio de ordem política.

A seguir, Anselmo Borges defende a laicidade do Estado no mundo islâmico. Esta tese é engraçada, porque foram os “progressistas” da estirpe do Anselmo Borges (Obama incluído) que apoiaram a Primavera Árabe que destruiu o Estado laico no Próximo Oriente, nomeadamente na Síria e no Egipto. Ou seja, provocaram o problema da imigração em massa de muçulmanos para a Europa, e agora assobiam para o lado.

Esta proposta de Anselmo Borges é difícil de se realizar senão em um contexto de um sistema político relativamente autoritarista; a democracia, no mundo islâmico, conduz inexoravelmente à teocracia, porque a Sharia (a lei islâmica) é deduzida directamente do Alcorão — ao contrário do que se passa no Direito Canónico católico, onde a lei canónica é uma construção da tradição e da interpretação da teologia católica ao longo do tempo (por isso é que o papa-açorda Francisco se atreve a desdizer todos os papas anteriores, porque o Direito Canónico é um códice que não se escora directamente no Novo Testamento).

Ou seja: tresler o Alcorão ou defender uma laicidade no mundo islâmico é colocar em causa o Alcorão e, por isso, é colocar em causa o Islamismo. Esta é a realidade, pura e dura, sem a utopia do Anselmo Borges.


Depois, Anselmo Borges falta à verdade, quando escreve:

“A Igreja Católica teve muita dificuldade em aplicar estes pressupostos [da laicidade], que aceitou plenamente apenas no Concílio Vaticano II”.

A tradição da Igreja Católica foi marcada, desde o seu início, pela História da Europa ocidental (império romano do ocidente), e divergiu essencialmente da Igreja Ortodoxa Grega marcada pelo império romano oriental. A ocidente, a influência política da Igreja Católica sempre foi condicionada pelo poder feudal e dos reis e imperadores — ao contrário do que se passou a oriente, onde a Igreja Ortodoxa Grega se aproximou de uma teocracia [em contraponto, a Igreja Ortodoxa Grega desenvolveu um método de legislação teológica diferente do da Igreja Católica, em que as decisões teológicas e dos costumes têm uma maior democraticidade e não dependem exclusivamente da hierarquia clerical como acontece na Igreja Católica: o cidadão grego ortodoxo comum participa (mais ou menos) na construção da sua teologia, o que não acontece na Igreja Católica].

Desde a alta Idade Média que existiram, dentro da Igreja Católica, movimentos que defenderam o poder absoluto do papa (principalmente entre os franciscanos menores). Mas, em reacção a esses movimentos, surgiram muito cedo (também na Idade Média) os adeptos da Razão de Estado que se opunham ao poder absoluto do papa. Criou-se assim uma dialéctica de tensão política que condicionou sempre o poder político do Vaticano na Europa ocidental. Basta ver o que se verificou com o Estado Novo de Salazar: a Igreja Católica foi “arrumada” no seu devido lugar pelo ditador.

O Concílio do Vaticano II foi um evento teológico que teve repercussões políticas, é certo; mas foi, em primeiro lugar, uma concessão à Nova Teologia imanente e de cunho protestante (a aliança da religião com o Estado, em que aquela se submetia a este mas “trabalhavam” no mesmo sentido, ao contrário do que se passava anteriormente, em que a Igreja Católica era uma espécie de contra-poder independente do poder político laico).

Finalmente, o Anselmo Borges escreve:

“Durante 250 anos, o cristianismo foi uma religião pacífica e perseguida. Assim, quando os cristãos olham para os horrores cometidos ao longo da História têm de reconhecê-los e pedir perdão, pois atraiçoaram o fundador”.

S. Paulo escreveu:

“Não torneis a ninguém o mal por mal, procurai fazer o bem aos olhos de todos os homens; se é possível, quando de vós depende, tende paz com todos os homens” (Romanos, 12).

Reparem bem: “se é possível, quando de vós depende”. S. Paulo nunca defendeu que o cristão comum se deveria dirigir pacificamente a quem o queria matar para ser um mártir. Mas o Anselmo Borges parece defender esta ideia. E Jesus Cristo disse:

“A Vós [aos discípulos, mas não necessariamente aos apóstolos] foi-vos dado o Mistério do Reino de Deus [iniciação cristã], mas aos de fora [aos que não são discípulos] tudo lhes é dado em parábolas” — S. Marcos, 4, 11.

Jesus Cristo sabia perfeitamente distinguir entre os que têm acesso ao Mistério do Reino de Deus [iniciação mística cristã], por um lado, e o povo cristão, por outro lado; mas nem por isso Ele desprezou o povo cristão. É esta distinção que o Anselmo Borges parece não compreender, quando compara o catolicismo com o islamismo.

Quarta-feira, 13 Janeiro 2016

Cátaros, albigenses e valdenses eram seitas gnósticas

 

O problema da narrativa histórica é o de que depende da interpretação dos factos, e não dos factos em si mesmos; ou melhor dizendo, os factos documentados apenas servem para fundamentar uma qualquer interpretação deles. Os historiadores contam uma história que não tem necessariamente uma relação causal e, sobretudo, não vai à essência dos factos.

Temos aqui uma narrativa histórica acerca dos cátaros, albigenses e valdenses; os factos citados (datas, eventos, nomes de pessoas) correspondem, grosso modo, à verdade histórica. Mas o erro da narrativa está na essência: parte-se do princípio (na narrativa) de que as seitas da Antiguidade Tardia que deram origem aos cátaros, albigenses e valdenses, eram cristãs — o que é absolutamente falso.

O problema dos historiadores em geral é o de não terem estudado suficientemente filosofia. Afirmar que as seitas gnósticas da Antiguidade Tardia eram cristãs, é um erro de palmatória.

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Domingo, 20 Dezembro 2015

A religião completa e acabada

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 1:37 pm
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Não existe uma “religião completa”, ou uma “religião total”, porque a capacidade do ser humano de perceber ou compreender a Realidade é incompleta. Por isso, o Cristianismo, ou melhor, o catolicismo não é uma religião completa. Mas existem religiões que integram em si mesmas conceitos mais ricos e mais complexos do que em outras religiões; por isso é falso que se diga que todas as religiões são equivalentes, e muito mais falso é que se diga que são todas semelhantes.

Embora nenhuma religião seja completa ou total, o catolicismo integra em si mesmo a maior complexidade conceptual entre todas as religiões.

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Segunda-feira, 15 Junho 2015

O misticismo no Cristianismo

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 7:15 am
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Analisemos a seguinte proposição:

The Christian of tomorrow will be a mystic, or not a Christian at all.”

(“O cristão do futuro será um místico, ou então não será cristão”)


Antes de mais temos que saber o que significa “místico”, ou misticismo.

mestre-eckhartDepois de definirmos misticismo, constatamos que a proposição supracitada é falsa, porque o misticismo é um fenómeno subjectivo que surge da religião que é, por definição, intersubjectiva. Reduzir a religião à subjectividade é negar o próprio conceito de religião. Dizer que que religião cristã se confinará ao misticismo é afirmar o fim da própria religião cristã.

Seja por exemplo o misticismo budista — aquele que é praticado ou experimentado nos conventos do Tibete. Esse misticismo não sobreviveria sem a religião popular budista (a religião do povo), que tem dogmas, divindades, santos e ritos como outra religião qualquer. Basta o exemplo budista para verificarmos que a asserção em epígrafe é falsa.

Por fim, a história do misticismo na cristandade demonstra uma clara tendência para o panteísmo — ou seja, a preferência pela imanência e pelo monismo, em detrimento da transcendência que caracteriza a doutrina do catolicismo desde a Antiguidade Tardia.

Segunda-feira, 25 Maio 2015

Um erro comum na interpretação da Santíssima Trindade

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 8:02 am
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Em época de Pentecostes, vem a talhe de foice falar de um erro comum na concepção da Santíssima Trindade: “se Jesus Cristo é Deus”, concluem então os “católicos fervorosos” que “Deus é Jesus Cristo” (se A = B → B = A). Confunde-se o Ser Absoluto com a essência individual de Jesus Cristo. O Padre Pio de Pietrelcina sublinha a dimensão individual de Jesus Cristo, quando disse:

“Quando passares diante de uma imagem de Maria Mãe de Jesus, deves dizer: ‘Saúdo-Te Maria!, e saúda Jesus da minha parte’.”

Se Jesus Cristo é Deus, não se segue que Deus seja (o próprio) Jesus Cristo. Significa antes que Jesus Cristo é consubstancial a Deus, ou, em termos simples, que Jesus Cristo é divino [divino = de Deus, ou relativo a Deus] — qualidade que nenhum ser humano jamais teve.

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