perspectivas

Terça-feira, 27 Setembro 2011

A história do Euro e da dívida dos países do sul da Europa

Este artigo de Roger Scruton revela um surpreendente desconhecimento da realidade política que esteve subjacente à construção e implementação do Euro — ou seja, eu não coloco em causa as conclusões a que ele chegou, mas parece-me que ele ignora ostensivamente os pressupostos reais.

  1. Uma das premissas da instauração do Euro era a eliminação de barreiras comerciais e proteccionistas entre os países aderentes. Esta premissa resultou, muitas vezes, em políticas apoiadas pelo Estado, de dumping na produção por parte dos grandes países da Europa, invadindo os países mais pequenos com os seus produtos. Toda a gente sabe que uma fábrica que tem um potencial para fabricar 1000 unidades por dia, pode, potencialmente e por diversas razões, vender mais barato do que uma outra fábrica concorrente que fabrica apenas 100 unidades por dia.
  2. O Banco Central Europeu (BCE) foi, desde o início do Euro, controlado pela Alemanha e pelo novo regime de Vichy em França. E quem controla (politicamente) o Banco emissor, controla a economia.
  3. A União Europeia, controlada pela Alemanha através do seu controlo do BCE — embora concedendo algumas prerrogativas e benefícios ao novo regime francês de Vichy, nomeadamente na política agrícola comum da União Europeia — , impôs unilateralmente a política aduaneira da União Europeia. Ou seja, foi a Alemanha que passou a decidir, em termos práticos e objectivos, o que poderia ser importado sem taxas aduaneiras e o que deveria estar sujeito a taxação. “Quem parte e reparte, e não fica com a melhor parte, ou é burro, ou não tem arte”.
  4. Em função do ponto anterior, o Tratado Multifibras, por exemplo, assinado pela União Europeia (aka Alemanha) no princípio da década passada (já depois da introdução do Euro) arruinou as industrias têxteis e de confecção de países como a Grécia, Espanha, Portugal e Itália. Adicionalmente, outras importações do exterior da União Europeia, em muitas áreas, foram liberalizadas, para que a Alemanha pudesse, em troca (Quid Pro Quod) exportar a sua maquinaria pesada e automóveis, em troca da livre importação proveniente dos seus clientes de fora da União Europeia. “Uma mão lava a outra”, pensaram os alemães.

  5. Com a sua indústria têxtil arruinada pela acção política da Alemanha, acresce-se uma outra desgraça: os produtos alemães (ou fabricados na China e noutros países do Quarto Mundo, mas controlados pela distribuição alemã), mais baratos porque provenientes de um mercado muito maior (que produzia em grande quantidade), e na medida em que o comércio era livre e isento de taxas, foram substituindo as indústrias nacionais de países como a Grécia, Portugal e Espanha: as falências a Sul começaram a surgir em catadupa, e o desemprego passou a alastrar no sul da Europa enquanto que a Alemanha atinge hoje a sua menor taxa de desemprego em 50 anos.
  6. A forma (errada) que os países do sul encontraram para remediar esta situação de morte lenta das suas economias, foi o endividamento do Estado para assim tentar suprir a falta de dinâmica na economia através do investimento público massivo (Keynes). Entretanto, na área da política, os países do sul “agarraram-se” ao Tratado de Lisboa no sentido de tentar responsabilizar a Alemanha em relação às consequências económicas, para o seus países, que a política alemã impôs ao sul da Europa.
  7. Acresce-se que através do seu controlo do BCE, a Alemanha impôs durante quase uma década, uma prática do BCE de taxas de juro negativas (a taxa de juro que resulta da diferença entre o valor da inflação e a taxa de juro efectiva do BCE). Num mercado aberto, uma taxa de juro negativa incentivou o consumo privado dos países do sul através do crédito bancário (e não havia como impedir este fenómeno!), sendo que muito desse consumo era de produtos alemães ou controlado pela distribuição alemã. Mais uma vez, os alemães saíram a ganhar.
  8. Agora, que a crise económica e financeira estalou, a Alemanha — e os seus países vizinhos (que tiram proveito da economia alemã, por razões culturais e geográficas) — diz aos países do sul da Europa: “Fodei-vos! Vocês foram enrabados porque quiseram ser, ou porque foram otários! Eu quero é o pagamento da dívida!”

Portanto, é esta a história que Roger Scruton fez de conta que não sabia. E a razão deste surpreendente “desconhecimento” de Scruton deve-se ao facto de a Inglaterra, não pertencendo ao Euro, depender do Euro como a boca depende do pão. Mas não só a Inglaterra: por exemplo, qualquer brasileiro lúcido que defenda o potencial do seu Real na economia exportadora do Brasil, deveria defender o Euro. E é (não só, mas também) por isso que, desgraçadamente, os países do sul da Europa estão sozinhos contra o mundo.

3 comentários »

  1. Atualmente, nem mesmo os liberais lunáticos do Mises Institute defendem o Euro, defender o Euro(sob a perspectiva do que seria melhor para os países sul da Europa) é coisa de autista:

    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1114

    Gostar

    Comentar por Shamtia Ayomide — Terça-feira, 27 Setembro 2011 @ 5:49 pm | Responder

  2. Atenção : o Euro continua a ser bom para a Alemanha, para os países vizinhos da Alemanha, para o novo regime francês de Vichy, para a Inglaterra e mesmo para o Brasil. A relação da Inglaterra, dos Estados Unidos e das economias emergentes em relação ao Euro é ambivalente: eles precisam do Euro, mas dentro de certas condições.

    Portanto, dizer, por exemplo, que “o Brasil ganha com a quebra do Euro”, é pura idiotice. Uma coisa é a ideologia, outra coisa é a realidade objectiva. Objectivamente, o Brasil só beneficiou com a existência do Euro, e em muitas áreas.

    Gostar

    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 27 Setembro 2011 @ 6:55 pm | Responder

  3. Caro Orlando,

    O tiro vai sair pela culatra. Os chineses souberam usar a fome de mão-de-obra escrava das corporações para impor condições, como a obrigatoriedade de um sócio chinês, a elas, e aprenderam a fazer tudo o que elas fazem. Há uns tempos, penso que uns dois anos, cheguei a ver um lançamento de um sofisticado produto chinês que era exactamente igual a um japonês, mas que só foi para o mercado depois de três meses(!).
    Agora os chineses não só obtiveram tecnologias como a do fabrico e desenho de micro-processadores, como até já estão prestes a lançar aviões comerciais e competir com a Airbus. A Alemanha será um dos países mais prejudicados, mas as coisas não ficam por aí.
    Do ponto de vista energético, a Alemanha está nas mãos da Rússia, e não poderá investir em energia nuclear por razões políticas internas e externas. Assim, bastará haver disposição da parte da Rússia, aliada da China, para que os custos energéticos alemães tornem a actividade industrial em território alemão inviável. Quanto à única energia alternativa que poderia se tornar competitiva, que é a da captação da energia solar através da fotossíntese (biocombustíveis), a Alemanha está excluída por possuir uma exposição solar ridícula. Mesmo no Brasil, onde a cana de açúcar cresce como se fosse uma praga, o álcool da cana só aguenta a competição graças ao facto do mercado do petróleo ser manipulado de maneira a garantir preços abusivos pelo ouro negro.
    Enfim, e militarmente a Alemanha é um zero à esquerda, possuindo um exército menor que o turco, uma força aérea dependente de um avião que se revelou um projecto falhado (eurofighter) diante do desenvolvimento de caças stealth pela Rússia e pela China, e uma marinha que só conta no Báltico e, diante do armamento russo, pouco conta. Poderíamos falar ainda da falta de coesão da sociedade alemã, tanto por acção de antigos agentes da RDA que nunca foram desmobilizados (o Golitsyn fala muito disso), como da ideologia e também do gigantesco influxo de uma população extra-ocidental.
    A mim parece que a Alemanha vai cometer novamente o mesmo erro de sempre: agir inconscientemente em favor dos planos russos, servindo de quebra-gelo. Se há uma qualidade que define o povo alemão, diria que é o facto de ser previsível. Até conseguem enganar uma vez, mas depois que aprendemos qual é a sua arte, até conseguimos usá-la em nosso favor.

    Um grande abraço.

    Gostar

    Comentar por Carlos Velasco — Quarta-feira, 28 Setembro 2011 @ 10:48 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: